Definição e conceito
A demência na Síndrome de Ollier refere-se ao desenvolvimento de um Transtorno Neurocognitivo Maior (TNC Maior) em indivíduos portadores da encondromatose múltipla de Ollier. A Síndrome de Ollier é uma doença esquelética rara, não hereditária, caracterizada pela formação de múltiplos encondromas (tumores cartilaginosos benignos) no interior dos ossos, principalmente de mãos, pés e ossos longos. A associação clássica da síndrome, no contexto psiquiátrico e neuropsicológico, é com a presença de Déficit Intelectual (DI), frequentemente de grau leve a moderado. No entanto, a demência representa uma complicação neuropsiquiátrica distinta e superposta, caracterizada por um declínio adquirido e progressivo das funções cognitivas em relação a um nível prévio de funcionamento, que pode ocorrer em uma fase mais tardia da vida.
Na semiologia psiquiátrica, este quadro se enquadra na categoria de Transtornos Neurocognitivos Maiores (Demências) devido a Outra Condição Médica, conforme o DSM-5, especificamente associada a uma doença genética do desenvolvimento (encondromatose). É crucial diferenciar o Déficit Intelectual (um distúrbio do neurodesenvolvimento com início na infância e caracterizado por limitações no funcionamento intelectual e adaptativo) da Demência (um transtorno neurocognitivo adquirido na vida adulta ou no envelhecimento, marcado por um declínio em múltiplos domínios cognitivos). Na Síndrome de Ollier, o DI é uma comorbidade frequente, enquanto a demência é uma evolução possível, embora sua prevalência exata seja desconhecida devido à raridade da síndrome. A terminologia técnica inclui: Encondromatose Múltipla (português) / Multiple Enchondromatosis (inglês); Déficit Intelectual (DI) ou Deficiência Intelectual (português) / Intellectual Disability (ID) (inglês); Transtorno Neurocognitivo Maior (TNC Maior) (português) / Major Neurocognitive Disorder (Major NCD) (inglês).
Dados epidemiológicos robustos sobre a incidência de demência na Síndrome de Ollier são escassos na literatura, refletindo a raridade da condição de base. A prevalência da própria Síndrome de Ollier é estimada em cerca de 1/100.000. A ocorrência de DI é frequentemente relatada, mas a progressão para um quadro demencial claramente definido é menos documentada, sendo muitas vezes descrita em relatos de caso ou séries pequenas. O risco de transformação maligna dos encondromas em condrossarcoma é uma preocupação oncológica bem estabelecida, ocorrendo em até 30-40% dos casos ao longo da vida.
Apresentação clínica
A apresentação clínica da demência na Síndrome de Ollier é complexa, pois se superpõe a um substrato pré-existente de Déficit Intelectual. O clínico deve, portanto, buscar identificar uma mudança em relação à linha de base cognitiva e funcional do indivíduo, o que exige um conhecimento detalhado de seu funcionamento prévio (anamnese dirigida com cuidadores/família) e uma avaliação serial.
Domínio Cognitivo:
- Memória e Aprendizagem: Evidências claras de declínio são o cerne do quadro. O paciente, que já podia ter uma memória de trabalho e de longo prazo limitadas pelo DI, passa a apresentar agravamento significativo. Esquece eventos recentes importantes (ex.: consultas médicas, visitas), repete perguntas e histórias no mesmo dia, perde objetos com mais frequência e tem extrema dificuldade em aprender novas informações ou rotinas, mesmo com treino repetido. A incapacidade de integrar novas informações, descrita no TNC devido à Doença de Alzheimer, é um achado cardinal.
- Funções Executivas: Comprometimento progressivo do julgamento, raciocínio, planejamento e resolução de problemas. Tarefas anteriormente manejáveis, como organizar uma refeição simples ou administrar uma pequena quantia de dinheiro, tornam-se impossíveis. Pode haver aumento da impulsividade e perda da capacidade de abstração.
- Linguagem: Empobrecimento do vocabulário, dificuldade em encontrar palavras (anomia), e, em fases mais avançadas, redução da fluência verbal e da compreensão de frases complexas. A linguagem pode tornar-se vaga, circunstancial ou repetitiva.
- Atenção e Velocidade de Processamento: Lentificação psicomotora evidente, com aumento do tempo de resposta a perguntas e dificuldade em manter o foco em tarefas ou conversas.
- Habilidades Visuoespaciais: Dificuldade em se orientar em ambientes previamente conhecidos, em copiar desenhos simples ou em manusear objetos no espaço.
Domínio Afetivo e Comportamental:
- Apatia e Isolamento Social: Perda progressiva de interesse por atividades que antes traziam prazer, mesmo que adaptadas. Tendência a perder o interesse por outras pessoas, tornando-se socialmente mais isolado. Este é um sintoma comum na demência e pode ser confundido com depressão.
- Alterações de Personalidade: Pode ocorrer uma mudança em relação ao padrão pré-mórbido. Indivíduos anteriormente afáveis podem tornar-se irritáveis, desconfiados ou, inversamente, mais desinibidos e com perda de critérios sociais.
- Sintomas Neuropsiquiátricos: Podem surgir ou se agravar sintomas como irritabilidade, agitação, comportamentos repetitivos ou obstinados, e, em alguns casos, sintomas psicóticos (delírios, geralmente de prejuízo ou roubo, ou alucinações). A automutilação, descrita em algumas síndromes genéticas com DI, pode se exacerbar.
Domínio Somático:
- Manifestações Esqueléticas: Presença dos encondromas, que podem causar deformidades ósseas, assimetrias de membros, dor e aumento do risco de fraturas patológicas.
- Sinais Neurológicos Focais: Dependendo da localização de possíveis lesões intracraniais (extremamente raras na Ollier pura, mas a considerar no diagnóstico diferencial), podem surgir sinais como déficits motores ou sensitivos.
Exemplo Clínico Conciso:
Paciente de 45 anos, sexo masculino, com diagnóstico conhecido de Síndrome de Ollier e Déficit Intelectual Leve (QI estimado ~65). Era capaz de realizar atividades de vida diária com supervisão, ajudava em tarefas domésticas simples e frequentava um centro de convivência. Nos últimos 18 meses, a família relata piora progressiva: esquece onde guarda seus pertences, repete as mesmas perguntas minutos depois de ter a resposta, tornou-se apático, perdendo interesse pelas atividades do centro. Recentemente, teve episódios de irritabilidade e agressividade verbal quando corrigido. Exame físico confirma deformidades ósseas em mãos e perna direita. A avaliação neuropsicológica serial demonstra declínio significativo em memória episódica, fluência verbal e funções executivas em relação à avaliação de dois anos antes.
Neurobiologia e fisiopatologia
Os mecanismos neurobiológicos exatos que levam ao declínio cognitivo e à demência na Síndrome de Ollier não estão completamente elucidados, mas são hipotetizados a partir da natureza da doença e de analogias com outras condições.
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Base Genética e Desregulação do Desenvolvimento: A Síndrome de Ollier está associada a mutações somáticas mosaicas nos genes IDH1 ou IDH2 (Isocitrato Desidrogenase). Estas mutações levam à produção do metabólito oncogênico 2-hidroxiglutarato (2-HG). Durante o desenvolvimento embrionário, a presença dessas mutações nas linhagens condrogênicas resulta na formação dos encondromas. É plausível que mutações mosaicas em precursores de linhagens neurais, ou os efeitos sistêmicos do 2-HG, possam interferir no neurodesenvolvimento, explicando a alta associação com Déficit Intelectual. O 2-HG é conhecido por alterar a metilação do DNA e a expressão gênica, processos críticos para a diferenciação celular e função neuronal.
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Modelo de Doença Neurodegenerativa Superposta: A demência pode representar a superposição de um processo neurodegenerativo "comum" (como a doença de Alzheimer) em um cérebro já vulnerável pelo DI. Os critérios para possível doença de Alzheimer, descritos nas fontes, exigem: (a) declínio claro na memória e aprendizagem e em outro domínio cognitivo; (b) progressão constante e gradual sem platôs prolongados; e (c) ausência de etiologia mista. Em um paciente com Ollier e DI, estabelecer a "ausência de etiologia mista" é um desafio, mas a progressão típica pode sugerir um processo neurodegenerativo primário.
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Comprometimento Vascular ou Outras Etiologias: Deve-se considerar a possibilidade de fatores vasculares (embora não cerebrovasculares típicos) ou outras condições médicas contribuírem. Não há um padrão característico de neuroimagem descrito para a demência na Ollier. Ao contrário da doença de Alzheimer, onde se observa atrofia inicial dos hipocampos e córtices entorrinais, ou da demência frontotemporal, com atrofia desproporcional dos lobos frontal e temporal, na Ollier os achados de ressonância magnética cerebral podem ser inespecíficos ou mostrar atrofia cortical generalizada em estágios avançados. A punção lombar para pesquisa de biomarcadores (proteína tau, beta-amiloide) pode ser útil para identificar uma co-ocorrência de Alzheimer.
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Fatores Sistêmicos: A dor crônica, as limitações físicas, as múltiplas intervenções cirúrgicas e o possível uso crônico de analgésicos podem ser fatores de estresse que impactam a reserva cognitiva e potencializam um declínio.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Pode haver desatenção ao ambiente, pobreza de gestos, e, em alguns casos, agitação ou inquietação.
- Fala: Pode ser lenta, com pobreza de conteúdo, anomia e possíveis perseverações.
- Humor e Afeto: Afeto frequentemente embotado ou lábil. Relato subjetivo de humor pode ser incongruente ou pouco elaborado.
- Pensamento: Empobrecimento ideativo. Pode apresentar delírios simples (ex.: "roubaram minha coisa").
- Cognição:
- Orientação: Frequentemente comprometida para tempo (data, dia da semana) e, em fases mais avançadas, para lugar.
- Atenção: Dificuldade em séries numéricas diretas e inversas.
- Memória: Grave comprometimento da memória de curto prazo (não repete 3 palavras após 5 minutos com pista) e da memória de longo prazo para eventos recentes.
- Linguagem: Dificuldade na nomeação, na compreensão de comandos complexos e na fluência verbal (ex.: poucos animais em 1 minuto).
- Funções Executivas: Dificuldade em testes de abstração (similaridades), sequenciamento (Luria) e planejamento.
- Habilidades Visuoespaciais: Dificuldade na cópia do desenho do relógio ou do cubo.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Para Rastreio: O Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) tem utilidade limitada em indivíduos com DI de base. Escalas adaptadas ou observacionais são preferíveis. A Dementia Questionnaire for Persons with Intellectual Disabilities (DMR) ou sua versão abreviada (DMR-A) são instrumentos validados para detectar declínio em populações com DI.
- Avaliação Neuropsicológica Formal: É a ferramenta mais valiosa. Deve ser realizada por neuropsicólogo experiente em avaliação de dupla diagnose (DI + demência). Testes devem ser aplicados em série (ex.: a cada 12-18 meses) para documentar a progressão. Avalia domínios específicos: memória (lista de palavras, figura complexa), linguagem (Boston Naming Test), funções executivas (Trail Making Test, Stroop), etc.
- Escalas Comportamentais: Neuropsychiatric Inventory (NPI) ou Aberrant Behavior Checklist (ABC) para quantificar e monitorar sintomas neuropsiquiátricos.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Pontos de Diferenciação da Demência na Ollier |
|---|---|
| Estabilização ou Flutuação do Déficit Intelectual de Base | Não há declínio progressivo documentado em avaliações seriadas. O funcionamento permanece estável em seu patamar prévio. |
| Depressão Maior (Pseudodemência) | História de humor deprimido, anedonia, alterações de sono/apetite precedendo os sintomas cognitivos. O déficit cognitivo é mais subjetivo e flutuante, com queixa de memória, mas desempenho melhor em testes quando motivado. Melhora com tratamento antidepressivo. |
| Delirium (Estado Confusional Agudo) | Início agudo (horas/dias), flutuação do nível de consciência, desorientação marcada, atenção gravemente prejudicada. Causado por infecção, desidratação, dor, efeito de medicação. É uma urgência médica. |
| Transtorno Neurocognitivo devido a Doença de Alzheimer | Pode coexistir. Diagnóstico baseado em critérios de declínio progressivo de memória+outro domínio, e suportado por biomarcadores (RM com atrofia hipocampal, PET-Amiloide, liquor com perfil Alzheimer). |
| Transtorno Neurocognitivo Frontotemporal | Apresentação mais comportamental (desinibição, apatia, perda de empatia) ou linguística (afasia progressiva primária) no início, com memória relativamente preservada nos estágios iniciais. |
| Efeitos Adversos de Medicamentos | Uso de anticolinérgicos, benzodiazepínicos, opioides ou outros psicotrópicos pode causar ou exacerbar declínio cognitivo. Melhora com descontinuação. |
| Complicações da Própria Síndrome de Ollier | Dor crônica severa, fadiga, ou (muito raramente) compressão de estruturas nervosas por lesões cranianas. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Atribuir o Declínio ao "Envelhecimento" ou ao DI: O principal erro é não investigar uma mudança em relação à linha de base. Todo declínio em um adulto com DI deve ser considerado patológico até prova em contrário.
- Superdiagnosticar Demência em Presença de Depressão: A apatia e o isolamento social são comuns a ambas. Uma avaliação cuidadosa do humor e uma tentativa de tratamento antidepressivo podem ser esclarecedoras.
- Ignorar Causas Tratáveis (Delirium, Hipotiroidismo, Déficits Vitamínicos): Pacientes com DI têm maior vulnerabilidade a descompensações por doenças clínicas. Uma investigação clínica e laboratorial básica é mandatória.
- Não Considerar a Polifarmácia: A interação de múltiplos medicamentos para dor, comportamento ou comorbidades clínicas é uma causa frequente de declínio cognitivo agudo ou subagudo.
Condições associadas
A demência na Síndrome de Ollier ocorre no contexto de uma condição médica complexa e multissistêmica.
- Déficit Intelectual (DI): A comorbidade mais frequente e relevante. Conforme dados similares aos da Síndrome de Down apresentados, o DI na Ollier tende a ser mais frequentemente de grau leve a moderado. Este é o substrato sobre o qual a demência se instala, tornando o diagnóstico mais desafiador.
- Transtornos do Comportamento: Irritabilidade, impulsividade, comportamentos repetitivos ou obstinados e automutilação podem estar presentes como parte do fenótipo comportamental associado ao DI e podem se exacerbar com o processo demencial.
- Transtornos do Humor e de Ansiedade: Depressão e ansiedade são comuns em pessoas com DI e condições crônicas de saúde. Podem ser reativas às limitações físicas, dor ou perdas funcionais.
- Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e Transtornos do Espectro do Autismo (TEA): Podem ocorrer, como descrito em outras síndromes genéticas com DI (ex.: Síndrome de Down, Síndrome de Angelman).
- Transtornos Psicóticos: O surgimento de sintomas psicóticos (alucinações, delírios) no adulto com DI e demência é uma possibilidade, requerendo manejo cuidadoso.
- Condições Médicas Sistêmicas: A principal é o risco de transformação maligna dos encondromas em condrossarcoma. Dor localizada, aumento rápido de volume ou fratura patológica são sinais de alerta. Outras associações raras incluem a Síndrome de Maffucci (Ollier + hemangiomas).
Correlações com CID-11 e DSM-5-TR:
- CID-11: O código primário seria para a condição de base: LD24.0Y Outras encondromatoses especificadas (Síndrome de Ollier). O Transtorno Neurocognitivo seria codificado como 6D80.0 Transtorno neurocognitivo leve ou 6D80.1 Transtorno neurocognitivo maior, com o especificador 6D8Y Outra doença específica classificada em outra parte (referindo-se ao código LD24.0Y). O Déficit Intelectual é codificado separadamente (6A00 Deficiência intelectual).
- DSM-5-TR: O diagnóstico principal seria Transtorno Neurocognitivo Maior (ou Leve) Devido a Outra Condição Médica, especificando Síndrome de Ollier (Encondromatose Múltipla). O Déficit Intelectual (Transtorno do Desenvolvimento Intelectual) é um diagnóstico separado e pré-existente.
Implicações terapêuticas
O manejo é multiprofissional, sintomático e de suporte, pois não há tratamento modificador da doença para a demência na Ollier.
Abordagens Farmacológicas:
- Inibidores da Colinesterase (Donepezila, Rivastigmina, Galantamina) e Memantina: São a base do tratamento farmacológico sintomático para a demência tipo Alzheimer. Sua eficácia em demência em indivíduos com DI é menos estabelecida, mas podem ser tentados, especialmente se houver suspeita de componente Alzheimer. A monitorização de efeitos colaterais (náuseas, diarreia, tontura) é crucial, começando com doses baixas.
- Manejo dos Sintomas Neuropsiquiátricos (SNP):
- Antipsicóticos Atípicos (Risperidona, Quetiapina, Aripiprazol): Usados em baixas doses e por tempo limitado para agitação, agressividade ou sintomas psicóticos. O risco de efeitos adversos (sedação, ganho de peso, sintomas extrapiramidais, aumento do risco vascular) é elevado nesta população.
- Antidepressivos ISRS (Sertralina, Citalopram): Primeira linha para sintomas depressivos e de ansiedade. Podem também ajudar na apatia e na irritabilidade.
- Estabilizadores de Humor (Valproato, Carbamazepina): Podem ser considerados para impulsividade e labilidade afetiva marcadas.
- Manejo da Dor: Controle adequado da dor óssea com analgésicos apropriados (paracetamol, AINEs com cautela, opioides em casos selecionados) é fundamental, pois a dor não controlada é um grande gerador de delirium e piora comportamental.
Abordagens Psicoterapêuticas e Psicossociais:
- Psicoeducação Familiar: É a intervenção mais importante. Explicar a natureza dupla do problema (DI + demência), o curso esperado, estratégias de comunicação e manejo comportamental.
- Terapia Ocupacional e Adaptação Ambiental: Foco na manutenção da funcionalidade e autonomia pelo maior tempo possível. Adaptação do domicílio para segurança, uso de lembretes visuais, estabelecimento de rotinas estruturadas e previsíveis.
- Estimulação Cognitiva: Atividades adaptadas ao nível de funcionamento, focadas no engajamento e na manutenção de habilidades, mais do que na recuperação.
- Apoio dos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Os CAPS, em especial os CAPS-AD (Álcool e Drogas) ou CAPS III que atendem adultos com transtornos graves, podem ser um recurso valioso no SUS para suporte multiprofissional contínuo, embora o expertise em dupla diagnose (DI + demência) possa ser variável.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O prognóstico é reservado. A demência superposta a um DI tende a levar a uma perda funcional mais rápida e a um maior nível de dependência. A resposta aos medicamentos sintomáticos para demência é geralmente modesta e menos previsível do que na população geral. O manejo dos SNP é frequentemente complexo e requer paciência e ajustes finos. A expectativa de vida pode ser reduzida, não apenas pela demência, mas pelas complicações da síndrome de base (ex.: transformação maligna) e por comorbidades clínicas.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivenciando o Fenômeno:
O paciente com DI pode ter limitada capacidade de insight sobre seu próprio declínio. A experiência é frequentemente de confusão, frustração e medo. Ele pode perceber que "as coisas não funcionam mais como antes" na sua mente, mas não consegue articular isso. A perda de habilidades recentemente adquiridas (após muito esforço) pode ser particularmente angustiante. A apatia e o isolamento podem ser tanto sintomas da doença quanto mecanismos de defesa contra um mundo que se tornou cada vez mais incompreensível e ameaçador.
Comunicação com o Paciente e a Família:
- Com o Paciente: Usar linguagem simples, clara e concreta. Falar devagar, manter contato visual, usar gestos e suportes visuais. Validar seus sentimentos ("Parece que isso está te deixando confuso") sem confrontar delírios diretamente. Focar no conforto e na segurança no momento presente.
- Com a Família/Cuidadores:
- Dar o Diagnóstico: Explicar claramente a diferença entre o DI estável e o novo processo de demência. Usar termos como "perda de memória progressiva" ou "dificuldade de pensar que está piorando". Enfatizar que é uma condição médica, não "preguiça" ou "teimosia".
- Expectativas Realistas: Esclarecer que o tratamento é para controle de sintomas e melhoria da qualidade de vida, não para cura. Discutir o curso provavelmente progressivo.
- Estratégias Práticas: Ensinar a criar rotinas, usar lembretes (fotos, calendários), simplificar tarefas, evitar confrontos, redirecionar a atenção em momentos de agitação.
- Cuidado com o Cuidador: Alertar para o alto risco de sobrecarga e burnout. Incentivar a busca por redes de apoio, grupos de familiares e respiros (serviços de acolhimento temporário).
- Impacto Funcional: A demência afeta drasticamente a já limitada capacidade de trabalho protegido, a autonomia nas atividades de vida diária (higiene, alimentação, vestir-se) e a manutenção de relacionamentos sociais. A qualidade de vida do paciente e da família é profundamente impactada, exigindo ajustes constantes e aumento do nível de suporte e supervisão.
Perguntas frequentes
1. A demência é uma consequência inevitável da Síndrome de Ollier?
Não. O Déficit Intelectual é uma associação frequente, mas a demência (declínio cognitivo progressivo adquirido) é uma complicação possível, mas não obrigatória. Sua prevalência exata é desconhecida devido à raridade da síndrome.
2. Como saber se é piora do déficit intelectual ou início de demência?
A chave é a documentação de uma mudança em relação ao funcionamento habitual de base. O DI é estável ao longo da vida adulta (embora o envelhecimento possa trazer algum declínio mais tardio). A demência se caracteriza por um declínio progressivo e documentável em avaliações seriadas (neuropsicológicas, funcionais) em um período de meses a anos.
3. Existe algum exame de imagem ou laboratorial que confirme a demência na Ollier?
Não há um exame específico. O diagnóstico é clínico, baseado na história e na avaliação neuropsicológica. Exames como Ressonância Magnética de crânio e punção lombar são úteis principalmente para excluir outras causas de declínio (tumores, hidrocefalia, inflamações) ou para identificar uma demência coexistente, como a Doença de Alzheimer.
4. Os remédios para Alzheimer (como donepezila) funcionam nesses casos?
Podem ser tentados, mas a resposta é imprevisível e geralmente mais modesta. A decisão deve ser tomada em conjunto com a família, pesando os benefícios potenciais (melhora discreta da atenção, apatia ou funcionamento) contra os possíveis efeitos colaterais e custos.
5. O que pode piorar o comportamento agitado ou agressivo?
Fatores comuns incluem: dor não controlada, infecções (ex.: urinária), constipação intestinal, efeitos colaterais de medicamentos, ambiente muito estimulante (barulho, aglomeração) ou, ao contrário, subestimulante (tédio), e demandas que superam a capacidade atual do paciente. Investigar e corrigir essas causas é o primeiro passo.
6. Quando considerar a institucionalização em uma residência assistida?
Esta é uma decisão difícil. Sinais de que o cuidado domiciliar pode não ser mais suficiente incluem: risco de segurança grave (wandering, quedas frequentes, esquecer fogão ligado), cuidados de higiene complexos que a família não consegue mais prover, esgotamento severo do cuidador principal, ou comportamentos agressivos que não respondem ao manejo e colocam outros em risco.
7. A síndrome de Ollier é hereditária? Meus filhos terão o mesmo risco?
A Síndrome de Ollier clássica é esporádica, causada por mutações somáticas (não presentes em todas as células do corpo) e não é hereditária. O risco para os filhos é considerado muito baixo, praticamente igual ao da população geral. No entanto, aconselhamento genético com um especialista é recomendado para cada caso.
8. O acompanhamento deve ser feito apenas com psiquiatra?
Não. O manejo ideal é multiprofissional. Inclui: Ortopedista/Oncologista (monitoramento dos encondromas), Clínico Geral/Geriatra (cuidado de saúde geral), Psiquiatra (diagnóstico e manejo farmacológico da demência e sintomas comportamentais), Neuropsicólogo (avaliação serial), Terapeuta Ocupacional e Assistente Social. No SUS, o CAPS pode coordenar parte desse cuidado.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Barlow, D.H.; Durand, V.M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Tradução da 7ª ed. americana. São Paulo: Cengage Learning, 2016.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
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- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
- Strowd, R.E. Dementia in Intellectual Disability. In: Geschwind, D.H.; Paulson, H.L.; Klein, C. (Eds.). Handbook of Clinical Neurology (Vol. 147). Elsevier, 2018.
- British Psychological Society. Dementia and People with Intellectual Disabilities: Guidance on the assessment, diagnosis, interventions and support of people with intellectual disabilities who develop dementia. Leicester: BPS, 2015.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.