Definição e conceito
A demência na Síndrome de Costello refere-se a um transtorno neurocognitivo maior de caráter progressivo que ocorre no contexto dessa síndrome genética rara. Enquadra-se na categoria de Transtornos do Neurodesenvolvimento com manifestação neuropsiquiátrica tardia, representando uma complicação grave do curso evolutivo. O termo "demência", conforme definido pela CID-11 e pelo DSM-5, caracteriza-se por um declínio do funcionamento cognitivo prévio em múltiplos domínios (memória, linguagem, funções executivas, atenção, cognição social, habilidades visuoespaciais), que interfere significativamente na independência do indivíduo. Na Síndrome de Costello, esse declínio sobrepõe-se a um déficit intelectual basal pré-existente, configurando uma deterioração adicional e progressiva das capacidades cognitivas e adaptativas.
A terminologia técnica atual prefere o termo Transtorno Neurocognitivo Maior (Major Neurocognitive Disorder, no DSM-5) para descrever essa síndrome, evitando o estigma associado à palavra "demência" e enfatizando a natureza adquirida do declínio. No contexto específico da Síndrome de Costello, trata-se de um Transtorno Neurocognitivo Maior devido a outra condição médica (a síndrome genética em si). É fundamental diferenciar este quadro de:
- O déficit intelectual estável que é a característica central da síndrome.
- Comportamentos desafiadores ou sintomas psiquiátricos (como irritabilidade, impulsividade, sintomas obsessivo-compulsivos) que não necessariamente implicam em declínio cognitivo global.
- Outras formas de demência de início precoce, como a Doença de Alzheimer familiar ou o Transtorno Neurocognitivo Frontotemporal.
A Síndrome de Costello é causada por mutações de novo no gene HRAS, que codifica uma proteína envolvida na sinalização celular (via RAS/MAPK). Sua prevalência é estimada em menos de 1 em 1.000.000 de nascidos vivos. Não há dados epidemiológicos robustos sobre a incidência exata da demência dentro desta população, mas relatos de caso e séries pequenas sugerem que é uma complicação reconhecida na idade adulta jovem, indicando que o fenótipo neuropsiquiátrico é progressivo ao longo da vida.
Apresentação clínica
A apresentação clínica da demência na Síndrome de Costello é a de um declínio cognitivo progressivo que se instala sobre um funcionamento intelectual já comprometido. A avaliação requer uma linha de base cuidadosa das habilidades prévias do indivíduo, frequentemente obtida através de informantes (familiares, cuidadores). O quadro não é de um simples agravamento do déficit intelectual, mas de uma perda de capacidades anteriormente adquiridas.
Domínio Cognitivo:
- Memória e Aprendizagem: Evidências claras de declínio na memória episódica. O indivíduo pode esquecer eventos recentes, repetir perguntas ou histórias no mesmo dia, perder objetos pessoais com frequência aumentada. A aprendizagem de novas informações torna-se extremamente difícil ou impossível.
- Funções Executivas: Comprometimento substancial no planejamento, organização, sequenciamento, resolução de problemas e flexibilidade mental. Há uma acentuação da impulsividade pré-existente, com julgamento social ainda mais prejudicado. A iniciação de tarefas pode estar reduzida (apatia), ou a persistência em atividades inadequadas pode estar aumentada (perseveração).
- Linguagem: Pode ocorrer um empobrecimento progressivo do vocabulário expressivo, com dificuldade para encontrar palavras (anomia). A compreensão de frases complexas piora. Em alguns casos, observa-se repetição de palavras ou frases (ecolalia ou perseveração verbal). A linguagem, que já é um ponto fraco na síndrome, deteriora-se ainda mais.
- Atenção Complexa: Dificuldade em manter o foco em tarefas, facilidade para distrair-se e lentificação no processamento de informações.
- Cognição Social: Agravamento da capacidade de perceber pistas sociais, interpretar intenções alheias e regular o próprio comportamento em contextos interpessoais.
Domínio Afetivo e Comportamental:
- Apatia: É um sintoma comum e central, muitas vezes confundido com depressão. Manifesta-se como perda de iniciativa, interesse e motivação para atividades que antes eram prazerosas ou rotineiras.
- Irritabilidade e Labilidade Emocional: Oscilações rápidas e imotivadas do humor, com episódios de irritabilidade, agitação ou choro fácil.
- Comportamentos Obstinados e Repetitivos: Podem se intensificar, adquirindo um caráter mais rígido e inflexível. Comportamentos de automutilação (como bater a cabeça, morder as mãos) podem surgir ou piorar.
- Sintomas Psicóticos: Conforme indicado nas fontes, no adulto, pode ocorrer psicose. Isso pode se manifestar com delírios não elaborados (ex.: ideias persecutórias de que alguém quer lhe fazer mal) ou alucinações, geralmente visuais ou táteis.
- Alterações Alimentares: A voracidade intensa por alimentos e ausência de saciedade, já uma característica da síndrome, pode se exacerbar, exigindo supervisão rigorosa para evitar engasgos e complicações da obesidade.
Domínio Somático e Neurológico:
- O fenótipo físico da Síndrome de Costello é marcante: retardo do crescimento pós-natal, macrocefalia relativa, características faciais típicas (fronte alta, narinas antevertidas), papilomas cutâneos (especialmente periorais e perianais), cardiomiopatia hipertrófica e anormalidades musculoesqueléticas.
- Do ponto de vista neurológico, pode haver hipotonia na infância e, posteriormente, sinais de disfunção piramidal ou extrapiramidal. Convulsões podem ocorrer.
Exemplo Clínico Conciso:
Paciente de 28 anos, com diagnóstico confirmado de Síndrome de Costello (mutação em HRAS), histórico de déficit intelectual moderado (QI estimado em torno de 50-55 na adolescência) e comportamento geralmente afável. Nos últimos 3 anos, a família relata piora progressiva: esquece completamente eventos do dia anterior, não consegue mais seguir a sequência para tomar banho sozinho (tarefa que realizava com supervisão), tornou-se apático, perdendo o interesse por ouvir música. Desenvolveu comportamento perseverativo, repetindo a mesma pergunta por horas. Apresentou episódios de agitação noturna e ideação persecutória contra um cuidador. A voracidade alimentar piorou, exigindo vigilância constante.
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia da demência na Síndrome de Costello está intrinsecamente ligada à desregulação da via de sinalização RAS/MAPK, consequência das mutações ativadoras no gene HRAS. Esta via é crucial para processos celulares como proliferação, diferenciação, sobrevivência e plasticidade sináptica. Sua hiperativação constitutiva leva a uma cascata de alterações no desenvolvimento e na homeostase do sistema nervoso central.
Mecanismos Neurobiológicos:
- Anormalidades do Desenvolvimento Cerebral: A sinalização RAS/MAPK desregulada durante a embriogênese e a infância pode levar a alterações na neurogênese, migração neuronal e arborização dendrítica, estabelecendo um cérebro estrutural e funcionalmente vulnerável.
- Neurodegeneração e Acúmulo de Proteínas: Embora não seja uma taupatia ou sinucleinopatia clássica, há evidências de que a via RAS/MAPK está envolvida na regulação do metabolismo de proteínas como a tau e a beta-amiloide. A hiperativação crônica pode predispor a processos neurodegenerativos atípicos ou acelerados.
- Disfunção dos Circuitos Frontosubcorticais: O padrão clínico de apatia, desinibição, impulsividade e déficits executivos sugere um envolvimento predominante dos circuitos fronto-subcorticais. Estes circuitos, que conectam o córtex pré-frontal a núcleos como o estriado e o tálamo, são ricos em sinapses que utilizam neurotransmissores como dopamina, serotonina e acetilcolina, todos modulados pela sinalização RAS.
- Alterações na Plasticidade Sináptica: A sinalização RAS/MAPK é fundamental para a plasticidade sináptica, base celular da aprendizagem e memória. Sua disfunção pode levar a uma incapacidade de formar e manter novas conexões sinápticas, contribuindo para o declínio cognitivo progressivo.
Evidências de Neuroimagem:
As fontes técnicas não fornecem dados específicos de neuroimagem para a Síndrome de Costello. No entanto, baseando-se no padrão clínico e em analogia com outros transtornos neurocognitivos, é plausível hipotetizar, com base no trecho sobre transtorno neurocognitivo frontotemporal, a possibilidade de envolvimento desproporcional do lobo frontal e/ou lobo temporal. Estudos futuros com ressonância magnética estrutural e funcional são necessários para confirmar padrões de atrofia regional, hipometabolismo ou alterações na conectividade funcional. A ressonância magnética também é crucial para excluir outras causas de declínio, como anomalias vasculares ou hidrocefalia.
Modelo Explicativo Integrado:
O modelo atual propõe que a mutação em HRAS estabelece, desde o desenvolvimento, um substrato neural vulnerável (déficit intelectual, alterações comportamentais). Com o avançar da idade, a hiperativação crônica da via RAS/MAPK, combinada com outros fatores como estresse oxidativo e inflamação neurogênica de baixo grau, levaria a um processo de neurodegeneração acelerada ou envelhecimento cerebral prematuro, focalizado em circuitos frontotemporais e frontosubcorticais. Este processo manifesta-se clinicamente como um transtorno neurocognitivo maior progressivo, sobreposto ao déficit intelectual estático.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
A avaliação é complexa e multidisciplinar, exigindo a integração de história clínica detalhada, exame do estado mental, avaliação neuropsicológica adaptada, exames complementares e informações de múltiplos informantes.
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Pode apresentar apatia, inquietação ou comportamentos motores repetitivos. A interação social é pobre, com contato visual variável.
- Fala e Linguagem: Linguagem empobrecida, com possível ecolalia, perseveração ou anomia. A prosódia pode ser monótona.
- Humor e Afeto: Afeto embotado ou lábil. Relato subjetivo de humor é frequentemente não confiável devido às limitações cognitivas.
- Conteúdo do Pensamento: Pode ser vago, pobre em detalhes. Ideias delirantes, se presentes, são simples (roubo, perseguição).
- Funções Cognitivas:
- Orientação: Frequentemente desorientado no tempo e, em fases mais avançadas, no espaço.
- Atenção e Concentação: Facilmente distraído. Dificuldade em tarefas de dígitos ou sequências.
- Memória: Grave comprometimento da memória recente. A memória remota (eventos da infância/juventude) pode estar relativamente preservada.
- Funções Executivas: Dificuldade extrema em testes como cópia de cubos, sequência gráfica, fluência verbal fonêmica e semântica.
- Linguagem: Comprometimento na nomeação, repetição e compreensão de comandos complexos.
- Habilidades Visuoespaciais: Dificuldade na cópia de desenhos simples.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Para Rastreio: O Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) tem utilidade limitada devido ao baixo teto em indivíduos com déficit intelectual prévio. Instrumentos adaptados para deficiência intelectual, como a Escala de Demência para Pessoas com Deficiência Intelectual (DLD) ou a Escala para Detecção de Demência em Pessoas com Síndrome de Down, podem servir como modelos, mas não são validados para Costello. A observação clínica e relatos de cuidadores são primordiais.
- Avaliação Neuropsicológica Adaptada: Deve ser realizada por neuropsicólogo experiente em deficiência intelectual. Envolve a aplicação de testes com normas apropriadas ou a utilização de uma abordagem de linha de base individual, comparando o desempenho atual com avaliações prévias ou com relatos funcionais detalhados.
- Escalas Comportamentais: Úteis para quantificar e monitorar sintomas não-cognitivos. Exemplos: Escala Aberta de Comportamento para Adultos com Deficiência Intelectual (ABC) ou a Escala de Avaliação Psiquiátrica para Adultos com Deficiência do Desenvolvimento (PAS-ADD).
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Pontos de Similaridade | Pontos de Diferenciação |
|---|---|---|
| Agravamento de Comportamento Desafiador (ex.: TOC, irritabilidade) | Mudança de comportamento, agitação, inflexibilidade. | Não há declínio cognitivo global progressivo. As funções de memória, orientação e atividades da vida diária (AVDs) básicas permanecem estáveis. A intervenção comportamental ou psicofarmacológica específica costuma trazer melhora. |
| Depressão Maior (Pseudodemência) | Apatia, retardo psicomotor, diminuição da concentração. | O humor deprimido é proeminente e precede o declínio cognitivo. O déficit cognitivo é mais subjetivo e flutuante, com frequentes respostas do tipo "não sei". Pode haver história prévia de episódios depressivos. A resposta a antidepressivos é um diferencial crucial. |
| Transtorno Neurocognitivo Frontotemporal (TNFT) | Apatia, desinibição, julgamento pobre, perseveração, alterações alimentares (hiperfagia). | Típico de início na meia-idade (50-60 anos), sem história de deficiência intelectual ou síndrome genética prévia. A neuroimagem pode mostrar atrofia frontal e/ou temporal assimétrica. A genética para mutações no gene HRAS é negativa. |
| Doença de Alzheimer de Início Precoce | Declínio progressivo de memória e outras funções cognitivas. | A amnésia é o sintoma inicial e proeminente. A síndrome afásica-apráxica-agnósica evolui de forma mais ordenada. Fenótipo físico da Síndrome de Costello ausente. A genética para HRAS é negativa; pode haver mutações em PSEN1, PSEN2 ou APP. |
| Delirium (Estado Confusional Agudo) | Declínio agudo/subagudo da cognição, desorientação, alteração do nível de consciência. | Curso flutuante, com piora noturna. Frequentemente causado por infecção, desidratação, efeito adverso de medicação ou dor não comunicada. É uma emergência médica. A investigação clínica e laboratorial identifica a causa orgânica subjacente. |
| Transtorno Psicótico | Alucinações/delírios, isolamento social, negligência pessoal. | Os déficits cognitivos são secundários ao embotamento afetivo e ao prejuízo no contato com a realidade, não são progressivos e globais. A memória para eventos não relacionados ao delírio pode estar preservada. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Atribuir todas as mudanças ao "comportamento da síndrome": Negligenciar a investigação de um declínio cognitivo progressivo por considerá-lo parte natural e estática da condição.
- Superinterpretar resultados de testes padronizados: Aplicar testes normativos para a população geral sem considerar a linha de base de déficit intelectual, levando a falsos positivos para demência.
- Não investigar causas tratáveis: Assumir que o declínio é inevitavelmente neurodegenerativo e não investigar ativamente causas reversíveis como hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12, hidrocefalia de pressão normal ou efeitos adversos de medicamentos (ex.: anticolinérgicos).
- Confundir apatia com depressão: Iniciar tratamento antidepressivo sem necessidade, quando a abordagem deve focar em estimulação cognitiva e ambiental.
Condições associadas
A demência na Síndrome de Costello é, por definição, uma condição associada à própria síndrome. No entanto, seu surgimento frequentemente coexiste ou desencadeia outras comorbidades psiquiátricas:
- Transtorno Depressivo: O luto pela perda de capacidades, a apatia neurodegenerativa e fatores biológicos podem precipitar um episódio depressivo maior, que se sobrepõe ao quadro demencial.
- Transtorno Psicótico: Como citado na fonte, a psicose pode ocorrer na idade adulta. Pode ser um sintoma da demência (psicose da demência) ou um transtorno psicótico independente (ex.: Transtorno Psicótico Devido a Outra Condição Médica).
- Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC): Comportamentos repetitivos e ritualísticos podem ser parte do fenótipo comportamental da síndrome, mas podem se exacerbar ou tornar-se mais angustiantes no contexto do declínio cognitivo e da perda de flexibilidade mental.
- Transtornos do Sono-Vigília: Inversão do ciclo sono-vigília, agitação noturna ("sundowning") e fragmentação do sono são comuns e contribuem para a sobrecarga do cuidador e piora da cognição durante o dia.
Correlações com os Manuais Diagnósticos:
- CID-11: O código principal seria LD90.4 Síndrome de Costello. O transtorno neurocognitivo seria codificado como 6D80.0 Transtorno neurocognitivo maior (ou 6D81.0 leve), com o especificador Devido a doença ou distúrbio cerebral (6D8Y). A deficiência intelectual de base seria codificada separadamente (6A00 Deficiência intelectual).
- DSM-5-TR: O diagnóstico principal seria Síndrome de Costello (código V). O transtorno neurocognitivo seria registrado como Transtorno Neurocognitivo Maior Devido a Síndrome de Costello (categoria "Devido a outra condição médica"). Especificar-se-iam os domínios cognitivos afetados e a presença de sintomas comportamentais (ex.: com perturbação comportamental).
Implicações terapêuticas
O manejo é sintomático, multidisciplinar e paliativo, visando retardar a progressão funcional, controlar sintomas comportamentais e psicológicos (SCPD) e manter a qualidade de vida.
Abordagens Farmacológicas:
- Inibidores da Colinesterase (Donepezila, Rivastigmina, Galantamina): Embora sem evidência específica para Síndrome de Costello, são a base do tratamento sintomático da Doença de Alzheimer. Podem ser considerados de forma empírica e cuidadosa, iniciando com doses baixíssimas e titulação lenta, monitorando efeitos colaterais gastrointestinais, bradicardia e possíveis pioras comportamentais. O alvo é a potencial melhora na atenção, cognição e apatia.
- Memantina: Antagonista do receptor NMDA, também usado na demência. Pode ser útil para sintomas comportamentais como agitação e agressividade, além de possivelmente modular a progressão.
- Antipsicóticos Atípicos: Reservados para sintomas psicóticos ou agitação/agressividade severas que não respondem a outras intervenções e que representam risco. Risperidona ou quetiapina em doses mínimas efetivas são opções, sempre considerando o risco aumentado de efeitos adversos (sedação, ganho de peso, sintomas extrapiramidais, síndrome metabólica) e o alerta de caixa preta para aumento da mortalidade em idosos com demência – um risco que pode se estender a adultos jovens com deficiência intelectual.
- Antidepressivos ISRS: Indicados para depressão comórbida clara ou para sintomas de ansiedade e TOC. A sertralina ou o escitalopram são frequentemente escolhidos por seus perfis de efeitos colaterais. Podem ajudar na irritabilidade e labilidade emocional.
- Melatonina: Para regulação do ciclo sono-vigília.
Abordagens Psicoterapêuticas e Não-Farmacológicas:
- Estimulação Cognitiva: Adaptada ao nível de funcionamento residual. Envolve atividades estruturadas que exercitem memória, atenção e funções executivas de forma prazerosa (jogos, música, artes).
- Terapia Ocupacional: Foco na manutenção da autonomia nas AVDs o máximo possível, adaptação do ambiente para reduzir demandas e frustrações, e uso de pistas visuais (quadros de rotina, pictogramas).
- Manejo Ambiental: Estruturação de rotina previsível, ambiente calmo e seguro, redução de estímulos excessivos, supervisão adequada para prevenir acidentes (ex.: devido à hiperfagia).
- Apoio e Psicoeducação Familiar: Fundamental. A família precisa entender a natureza progressiva da condição, aprender técnicas de comunicação (instruções simples, uma de cada vez), manejo de comportamentos desafiadores e planejamento de cuidados de longo prazo, incluindo questões de tutela e suporte social (Benefício de Prestação Continuada – BPC, serviços do CAPS).
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O prognóstico é reservado, com expectativa de progressão contínua do declínio cognitivo e funcional. A resposta aos tratamentos farmacológicos é variável e geralmente modesta. O principal objetivo terapêutico não é a reversão, mas a desaceleração da progressão, o controle de SCPD e a preservação da qualidade de vida. A sobrevida pode ser reduzida não apenas pela demência, mas pelas complicações somáticas da síndrome (cardíacas, risco de tumores).
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
O paciente com Síndrome de Costello e demência em estágio inicial pode vivenciar confusão, frustração e medo diante da perda de habilidades que antes dominava. A dificuldade em compreender o que está acontecendo e em expressar esse desconforto pode se manifestar como agitação, choro ou retraimento. A apatia pode ser uma defesa contra a sobrecarga cognitiva. A perda da capacidade de comunicar necessidades básicas (fome, dor, desconforto) é uma fonte de grande angústia. Em estágios mais avançados, a consciência do declínio pode estar bastante reduzida.
Orientações para Comunicação Clínica e Familiar:
- Comunicação Direta e Simples: Usar frases curtas, vocabulário concreto, um comando de cada vez. Falar de frente, com contato visual, em ambiente silencioso.
- Validação Emocional: Mesmo que o conteúdo verbal não faça sentido, validar a emoção por trás dele ("Vejo que você está chateado", "Isso deve ser assustador").
- Pistas Não-Verbais: Utilizar gestos, expressões faciais, toque gentil e objetos concretos para facilitar a compreensão.
- Evitar Confrontos e Testes: Não corrigir ou argumentar sobre memórias falsas. Redirecionar a conversa para temas neutros ou agradáveis.
- Comunicação com a Família: Oferecer informações claras e realistas sobre o diagnóstico, o caráter progressivo e os objetivos do tratamento. Enfatizar que mudanças de comportamento são sintomas da doença, não "mau comportamento". Orientar sobre a importância do autocuidado do cuidador e a necessidade de buscar redes de apoio (associações de familiares, grupos no CAPS).
Impacto Funcional:
- Trabalho/Atividades Ocupacionais: Indivíduos que conseguiam realizar trabalhos protegidos ou atividades em oficinas terapêuticas perdem progressivamente essa capacidade, tornando-se totalmente dependentes.
- Relacionamentos: A capacidade de manter interações sociais recíprocas diminui. O relacionamento com a família transforma-se, com os pais/cuidadores assumindo um papel cada vez mais assistencial.
- Qualidade de Vida: Dependente diretamente da qualidade dos cuidados, do controle de sintomas angustiantes (dor, agitação) e da manutenção de atividades sensoriais e prazerosas (música, massagem, passeios). O sofrimento da família é um componente crítico.
Perguntas frequentes
1. A demência é inevitável em toda pessoa com Síndrome de Costello?
Não, não é inevitável. É uma complicação reconhecida e provavelmente frequente na idade adulta, mas sua prevalência exata e fatores de risco (como tipo de mutação em HRAS) ainda não estão totalmente estabelecidos. Alguns indivíduos podem apresentar apenas o déficit intelectual estável e os desafios comportamentais, sem um declínio neurodegenerativo progressivo claro.
2. Como diferenciar uma "fase ruim" de comportamento do início de uma demência?
A chave é a progressão e a globalidade. Uma "fase ruim" (ex.: aumento da irritabilidade por dor de dente, mudança de rotina) tende a ser circunscrita a um comportamento, é flutuante e reversível quando a causa é identificada e tratada. A demência envolve um declínio progressivo em múltiplas áreas: perda de memória para eventos recentes, piora na execução de tarefas diárias que antes eram feitas (como vestir-se), desorientação temporal/espacial e mudança na personalidade (ex.: pessoa afável que torna-se apática ou desinibida), que persiste e piora ao longo de meses.
3. Existe algum exame que confirme o diagnóstico de demência na Síndrome de Costello?
Não há um exame único. O diagnóstico é clínico, baseado na história de declínio funcional progressivo obtida com informantes confiáveis. A avaliação neuropsicológica adaptada é a ferramenta mais objetiva para documentar o declínio. Exames de neuroimagem (ressonância magnética) são essenciais para excluir outras causas (tumores, hidrocefalia) e podem mostrar padrões sugestivos (ex.: atrofia frontotemporal). O teste genético confirmando a mutação em HRAS é pré-requisito para o diagnóstico da síndrome de base.
4. Quais medicamentos podem ser usados e eles curam a demência?
Não há cura. Os medicamentos (como inibidores da colinesterase e memantina) visam sintomas e podem, em alguns casos, desacelerar temporariamente a progressão ou melhorar aspectos como apatia, atenção e agitação. O uso de antipsicóticos deve ser muito criterioso, apenas para sintomas psicóticos ou agressividade grave. Nenhum medicamento é especificamente aprovado para esta condição; seu uso é "off-label", baseado em evidências de outras demências.
5. Meu familiar está com demência. O que podemos fazer em casa para ajudá-lo?
Foque em qualidade de vida e funcionalidade: mantenha uma rotina previsível; simplifique o ambiente (evite bagunça); use lembretes visuais (fotos, pictogramas); divida tarefas em passos pequenos; incentive atividades prazerosas e sensoriais (ouvir música, massagem, tocar texturas); assegure uma alimentação segura (cuidado com engasgos); e, acima de tudo, pratique a paciência e a comunicação não-confrontadora. Cuide da sua própria saúde, pois cuidar de alguém com demência é desgastante.
6. A demência na Síndrome de Costello é igual à Doença de Alzheimer?
Não. Embora ambas sejam transtornos neurocognitivos maiores progressivos, têm causas, idades de início e características clínicas diferentes. A demência na Síndrome de Costello ocorre em um cérebro que já se desenvolveu com uma anomalia genética específica (HRAS), sobrepõe-se a um déficit intelectual prévio e frequentemente apresenta sintomas frontais proeminentes (apatia, desinibição, julgamento pobre, hiperfagia) desde o início, enquanto na Doença de Alzheimer típica a perda de memória é o sintoma inicial e mais marcante.
7. O CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) pode atender uma pessoa com Síndrome de Costello e demência?
Sim. O CAPS é a porta de entrada preferencial do SUS para casos complexos de saúde mental, incluindo aqueles com deficiência intelectual e comorbidades psiquiátricas. A equipe multiprofissional do CAPS (psiquiatra, psicólogo, terapeuta ocupacional, enfermeiro) pode auxiliar no diagnóstico diferencial, no manejo farmacológico, na orientação familiar, no suporte psicossocial e no encaminhamento para outros serviços (neurologia, reabilitação). O CAPS AD (para álcool e drogas) ou CAPS i (infantojuvenil) não são os adequados; deve-se buscar o CAPS II ou III (para adultos).
8. Há esperança de novos tratamentos no futuro?
A pesquisa está ativa. O entendimento da via RAS/MAPK em outras condições (como certos cânceres) levou ao desenvolvimento de fármacos inibidores (ex.: trametinibe). Estudos estão avaliando se esses inibidores de MEK (uma proteína na via RAS) podem melhorar aspectos cognitivos e do desenvolvimento em síndromes RASopatias, incluindo a Síndrome de Costello. Embora promissora, essa é uma linha de pesquisa em andamento e ainda não constitui um tratamento padrão para a demência estabelecida.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. revisada. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11). 2022.
- Gripp, K. W., & Lin, A. E. (2012). Costello syndrome: A Ras/mitogen-activated protein kinase pathway syndrome (rasopathy) resulting from HRAS germline mutations. Genetics in Medicine, 14(3), 285–292.
- Axelrad, M. E., et al. (2011). Adaptive skills, cognitive, and behavioral characteristics of Costello syndrome. American Journal of Medical Genetics Part A, 155A(3), 487–500.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.