Demência na Síndrome de CHARGE

Definição e conceito

A síndrome de CHARGE é uma condição genética rara e complexa, classificada entre os transtornos do neurodesenvolvimento, caracterizada por um conjunto específico de malformações congênitas e alterações sensoriais. O acrônimo CHARGE deriva das principais características clínicas: Coloboma ocular, Heart defects (defeitos cardíacos), Atresia das coanas, Retardo do crescimento e desenvolvimento, Genital anomalies (anomalias genitais) e Ear anomalies (anomalias de orelhas) e surdez. A condição é causada, na maioria dos casos (cerca de 65-70%), por mutações heterozigotas no gene CHD7 (cromossomo 8q12.1), que codifica uma proteína reguladora da cromatina essencial para o desenvolvimento embrionário.

O termo "demência" ou, na nomenclatura contemporânea, Transtorno Neurocognitivo Maior (TNC Maior), aplicado ao contexto da síndrome de CHARGE, refere-se a um declínio significativo e progressivo do funcionamento cognitivo prévio, superposto ao atraso global do desenvolvimento que define a condição desde a infância. Este é um fenômeno distinto e de caráter neurodegenerativo, que não se confunde com o déficit intelectual estático ou com as dificuldades de aprendizagem inerentes à síndrome. Na semiologia psiquiátrica, enquadra-se como uma síndrome mental orgânica, onde o declínio cognitivo é o núcleo central, acompanhado frequentemente por alterações comportamentais e psiquiátricas.

A demência na síndrome de CHARGE não é uma característica universal, mas uma complicação grave que pode surgir em uma subpopulação de indivíduos, tipicamente em adolescentes e adultos jovens. A epidemiologia precisa desta associação é pouco conhecida devido à raridade da síndrome e à histórica baixa expectativa de vida, que tem aumentado com os avanços no manejo clínico. Portanto, trata-se de uma área emergente na psicopatologia dos transtornos do neurodesenvolvimento, exigindo que o clínico esteja atento à possibilidade de declínio cognitivo progressivo em pacientes com CHARGE que apresentem estabilização prévia ou leve melhora em seu desenvolvimento.

Apresentação clínica

A apresentação clínica da demência na síndrome de CHARGE é bifásica. A primeira fase é a do atraso global do desenvolvimento, que constitui a base da síndrome. A segunda fase é a do declínio neurocognitivo progressivo, que representa uma mudança de trajetória no curso da vida do indivíduo.

1. Fase do Atraso Global do Desenvolvimento (Base da Síndrome):

  • Cognitivo: Déficit intelectual que varia de leve a profundo. Atrasos marcados na aquisição de marcos motores, de linguagem e sociais. Dificuldades de aprendizagem e necessidade de suporte educacional especializado.
  • Sensorial: Comprometimentos múltiplos são a regra. Deficiência visual (por coloboma de íris, retina e/ou nervo óptico, além de microftalmia). Deficiência auditiva (malformações do ouvido externo, médio e interno, frequentemente com componente misto). A privação sensorial multimodal (visão e audição) agrava significativamente os desafios de desenvolvimento e comunicação.
  • Somático: Além das características do acrônimo, são comuns: hipotonia neonatal, paralisia facial, fenda palatina/lábio leporino, anomalias esqueléticas, disfagia grave com risco de aspiração, e disfunção do sistema nervoso autônomo (ex.: problemas de regulação cardiorrespiratória, termorregulação).

2. Fase do Declínio Neurocognitivo Progressivo (Demência Superposta):
O quadro demencial manifesta-se como um empobrecimento e simplificação progressiva de todos os processos psíquicos, cognitivos e afetivos. Os domínios afetados incluem:

  • Memória: Piora da memória recente e de trabalho. O indivíduo pode esquecer rotinas aprendidas, nomes de cuidadores familiares ou localização de objetos de uso pessoal. A avaliação é complexa devido à linha de base já comprometida.
  • Linguagem: Empobrecimento ainda maior da linguagem expressiva e receptiva. Pode haver perda de palavras no vocabulário funcional, aumento da ecolalia ou do mutismo. A comunicação, já dependente de métodos alternativos (gestos, sinais, objetos de referência), deteriora-se.
  • Funções Executivas: Agravamento da desorganização, da dificuldade de planejamento e da iniciação de tarefas. A flexibilidade mental, já limitada, torna-se quase ausente. Aumento da apatia e da passividade.
  • Atenção e Velocidade de Processamento: Lentificação psicomotora marcante. A capacidade de sustentar a atenção, mesmo em atividades prazerosas, diminui.
  • Comportamento e Afeto: Surgimento ou exacerbação de sintomas neuropsiquiátricos. Apatia é extremamente comum. Podem ocorrer irritabilidade, agitação, comportamentos repetitivos e estereotipados, e sintomas psicóticos (alucinações e delírios). A prevalência de alucinações visuais, conforme dados de outras demências (como a Demência com Corpos de Lewy, onde chega a 13%), pode ser um achado relevante, mas sua avaliação é desafiadora em pacientes com comunicação limitada e deficiência visual.
  • Habilidades Visuoespaciais: Declínio adicional nesta área, crítica para a orientação e mobilidade em indivíduos com deficiência visual. Pode manifestar-se como aumento de tropeços, colisões com objetos e desorientação em ambientes conhecidos.

Exemplo Clínico Conciso:
Paciente de 22 anos com síndrome de CHARGE confirmada geneticamente (mutação em CHD7). Histórico de coloboma bilateral, surdez profunda (usa implante coclear), atresia de coanas corrigida, cardiopatia congênita operada e déficit intelectual moderado. Comunicava-se através de sinais caseiros e alguns gestos de LIBRAS, conseguindo realizar atividades de vida diária básicas com supervisão. Nos últimos 18 meses, a família e a equipe da residência assistida relatam perda progressiva: esquece os sinais para "comida" e "banheiro", tornou-se extremamente apático (passa horas imóvel), apresenta episódios de agitação ao anoitecer, e sua mobilidade piorou, esbarrando frequentemente em portas. Não há evidência de infecção aguda, dor ou alteração medicamentosa que explique a mudança.

Neurobiologia e fisiopatologia

A fisiopatologia da demência na síndrome de CHARGE é um campo em investigação, mas baseia-se na interação entre a neuropatologia de desenvolvimento causada pela mutação no gene CHD7 e possíveis processos neurodegenerativos acelerados ou específicos.

  1. Neurobiologia do Desenvolvimento: O gene CHD7 é um regulador epigenético crucial para a formação adequada de múltiplas estruturas, incluindo o cérebro. Sua disfunção leva a malformações da linha média cerebral, hipoplasia/agenesia do bulbo olfatório (causando anosmia/hiposmia, um critério menor para CHARGE), e possíveis anomalias na estrutura do hipocampo e do córtex entorrinal. Estas são regiões fundamentais para a consolidação da memória. Uma atrofia dos hipocampos e dos córtices entorrinais, semelhante à observada nos estágios iniciais da Doença de Alzheimer (DA), pode estar presente desde o desenvolvimento, criando uma vulnerabilidade anatômica de base.

  2. Mecanismos de Declínio Progressivo: A hipótese principal é que o cérebro com CHARGE, devido a anormalidades estruturais e possivelmente a um ambiente neuroquímico alterado, apresenta uma reserva cognitiva drasticamente reduzida. Qualquer insulto adicional (vascular, inflamatório, metabólico) ou o próprio processo de envelhecimento precoce do sistema nervoso pode desencadear um declínio mais rápido e pronunciado do que na população geral. Não há evidência de que seja uma forma típica de DA, Demência Frontotemporal (DFT) ou Demência com Corpos de Lewy (DCL), mas o padrão clínico pode ter sobreposições.

  3. Sistemas de Neurotransmissão: Embora não especificamente estudado na CHARGE, as manifestações comportamentais (apatia, sintomas psicóticos) sugerem envolvimento dos sistemas dopaminérgico (via mesocortical, relacionada à motivação e funções executivas) e serotoninérgico. A presença de sintomas extrapiramidais leves em alguns pacientes também aponta para possível disfunção dos gânglios da base.

  4. Evidências de Neuroimagem: Não há achados patognomônicos. A ressonância magnética cerebral pode mostrar, além das malformações de desenvolvimento (ex.: hipoplasia do bulbo olfatório, anomalias do septo pelúcido), atrofia cortical progressiva em exames seriados, com possível predomínio temporal mesial ou frontotemporal. O padrão de envolvimento desproporcional do lobo frontal e/ou lobo temporal é um marcador de suspeita para processos degenerativos focais, conforme descrito nos critérios para Transtorno Neurocognitivo Frontotemporal.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

A avaliação é um desafio multidimensional, exigindo uma abordagem longitudinal e multidisciplinar.

Achados ao Exame do Estado Mental (Adaptado):

  • Aparência e Comportamento: Apatia, hipomimia, lentificação psicomotora. Possível agitação ou comportamentos repetitivos.
  • Atenção e Concentração: Muito difíceis de avaliar formalmente. Observar a capacidade de manter o foco em um estímulo tátil, olfativo ou vibratório.
  • Memória: Testar a memória para rotinas (ex.: sequência do banho), localização de objetos pessoais e reconhecimento de cuidadores. A memória remota pode ser acessada através de reações a músicas ou cheiros familiares.
  • Linguagem: Avaliar a deterioração na comunicação estabelecida (sinais, gestos, uso de pranchas). Observar aumento do mutismo ou da ecolalia.
  • Funções Executivas: Observar a capacidade de iniciar uma atividade simples (ex.: levar a colher à boca), de alternar entre duas tarefas (ex.: colocar blocos de cores diferentes) e a presença de comportamentos perseverativos.
  • Percepção: Investigar a possibilidade de alucinações através de mudanças comportamentais (ex.: olhar fixo para o vazio com expressão de medo, "agarrar" o ar). Lembrar que alucinações visuais são proeminentes em outras demências como a DCL.

Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
Não existem instrumentos validados especificamente para demência em CHARGE. A avaliação depende de:

  1. Medidas de Linha de Base: Documentação detalhada do nível máximo de funcionamento alcançado (perfil de comunicação, habilidades de vida diária, preferências).
  2. Escalas Comportamentais: Utilizar escalas para deficiência intelectual e demência, como a Dementia Questionnaire for Persons with Intellectual Disabilities (DMR) ou a Diagnostic Assessment for the Severely Handicapped (DASH-II), aplicadas por informantes que conhecem bem o paciente.
  3. Avaliação Sensorial Formal: Reavaliar audição e visão para excluir piora sensorial como causa de "declínio".
  4. Neuroimagem Serial: Ressonância Magnética de crânio para avaliar progressão de atrofia e excluir outras causas (ex.: hidrocefalia, lesões vasculares).

Diagnóstico Diferencial Estruturado:

Condição Pontos de Sobreposição com CHARGE + Declínio Pontos de Distinção
Piora de Condição Médica Aguda (infecção, dor, constipação) Apatia, irritabilidade, regressão comportamental. Sintomas somáticos (febre, alterações vitais). Resolve com tratamento da causa aguda.
Depressão Maior Apatia, lentificação, perda de interesse. Pode haver história prévia de episódios depressivos, humor deprimido (ainda que de difícil avaliação). Responde a antidepressivos.
Efeito Adverso de Medicamentos Sedação, confusão, piora cognitiva. Correlação temporal com introdução ou aumento de dose de psicotrópicos (ex.: antiepilépticos, neurolépticos).
Epilepsia (Estado Não Convulsivo ou Efeito Icto-interictal) Flutuação do nível de consciência, comportamentos bizarros. EEG mostra atividade epileptiforme. Pode responder a ajuste de antiepilépticos.
Transtorno Neurocognitivo Vascular Declínio gradual ou em degraus. Neuroimagem mostra evidências de doença cerebrovascular (infartos, leucoaraiose). Fatores de risco vascular podem estar presentes.
Demência Frontotemporal (DFT) Apatia proeminente, desinibição, alterações comportamentais. Na DFT típica, a memória é relativamente preservada no início. Neuroimagem pode mostrar atrofia frontotemporal assimétrica.
Doença de Alzheimer (DA) Déficits de memória e linguagem. Rara em adultos jovens. Neuroimagem com atrofia hipocampal simétrica e parietal.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Atribuir o declínio apenas ao "envelhecimento" ou à "deficiência intelectual": A síndrome de CHARGE não é uma condição neurodegenerativa per se. Qualquer declínio funcional significativo deve ser investigado como um novo processo.
  2. Negligenciar a privação sensorial: Uma piora na audição ou visão não diagnosticada pode mimetizar um declínio cognitivo global.
  3. Superdiagnosticar psicose: Comportamentos como olhar fixo, vocalizações ou agitação podem ser interpretados erroneamente como alucinações ou delírios, quando na verdade são expressões de dor, desconforto ou deterioração da função executiva.
  4. Ignorar a linha de base individual: Sem um conhecimento profundo do nível máximo de funcionamento do paciente, é impossível estabelecer que houve um declínio.

Condições associadas

A demência na síndrome de CHARGE é, por definição, uma condição associada à própria síndrome. No entanto, seu estudo se insere no contexto mais amplo dos Transtornos Neurocognitivos Maiores que podem complicar o curso de transtornos do neurodesenvolvimento ao longo da vida.

  • Transtornos do Neurodesenvolvimento com Risco de Declínio: Embora a CHARGE seja um exemplo paradigmático, outras síndromes genéticas também apresentam risco de deterioração neurocognitiva na idade adulta. A Síndrome de Down tem risco elevado para Doença de Alzheimer de início precoce. A Síndrome de Rett (principalmente na forma clássica feminina) tem um período de estabilização seguido de possível declínio motor e cognitivo na adolescência/idade adulta.
  • Transtornos Psiquiátricos Comórbidos: Indivíduos com CHARGE têm alta prevalência de transtornos como Transtorno do Espectro Autista, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtornos de Ansiedade e Transtornos do Humor. O surgimento de uma demência pode exacerbar ou modificar a apresentação dessas condições.
  • Classificações Diagnósticas:
    • CID-11: O quadro seria codificado primariamente sob LD90.4 Síndrome de CHARGE. O declínio cognitivo seria codificado adicionalmente como 6D80.0 Transtorno neurocognitivo maior (ou 6D71.0 Transtorno neurocognitivo leve, se for o caso), especificando a provável etiologia como "Devido a outra doença específica classificada em outra parte (síndrome de CHARGE)".
    • DSM-5-TR: O diagnóstico principal seria Transtorno do Neurodesenvolvimento Associado à Síndrome de CHARGE. O declínio seria diagnosticado como Transtorno Neurocognitivo Maior (ou Leve) Devido a Múltiplas Etiologias ou a outra Condição Médica, especificando a síndrome de CHARGE como a condição etiológica.

Implicações terapêuticas

O manejo é sintomático, de suporte e paliativo, focando na qualidade de vida, no controle de sintomas neuropsiquiátricos e no suporte familiar.

Abordagens Farmacológicas:

  • Sintomas Neuropsiquiátricos (SNP):
    • Apatia: Pode-se tentar estimulantes como o metilfenidato ou agonistas dopaminérgicos (ex.: pramipexol), com extrema cautela devido ao risco de efeitos colaterais cardiovasculares e psicóticos. A donepezila (um inibidor da acetilcolinesterase) pode ser considerada, embora sem evidência específica para CHARGE.
    • Agitação/Agressividade: Risperidona ou aripiprazol são antipsicóticos atípicos de primeira linha, em doses baixas e por tempo limitado. Monitorar rigorosamente efeitos extrapiramidais, sedação e ganho de peso.
    • Sintomas Psicóticos: Os antipsicóticos atípicos são a base. A quetiapina pode ser preferível por seu perfil sedativo e menor risco de efeitos extrapiramidais.
    • Alucinações Visuais: Se presentes e angustiantes, os antipsicóticos atípicos são a opção. A clozapina é geralmente evitada devido ao risco de agranulocitose e necessidade de monitoramento intensivo.
  • Depressão Coexistente: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) como a sertralina ou escitalopram podem ser utilizados, iniciando com doses mínimas.

Abordagens Não Farmacológicas (Fundamentais):

  1. Adaptação Ambiental: Manter rotinas previsíveis, usar pistas sensoriais não ameaçadoras (iluminação adequada, sons calmantes, aromas familiares), simplificar o ambiente para reduzir confusão e risco de quedas.
  2. Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA): Readaptar os sistemas de comunicação à medida que as habilidades regridem. Pode ser necessário retornar a formas mais concretas (ex.: de símbolos para objetos reais).
  3. Estimulação Sensorial Multimodal: Atividades que envolvam toque, vibração, olfato e paladar, sempre respeitando as preferências e aversões do indivíduo.
  4. Suporte e Educação Familiar: Apoio psicológico para a família que vivencia um "segundo luto" diante do declínio de um ente querido com necessidades complexas já estabelecidas.

Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O prognóstico é reservado. A demência superposta geralmente indica um curso progressivo de perda funcional. A resposta aos tratamentos farmacológicos é variável e muitas vezes limitada. O objetivo principal desloca-se da reabilitação para o cuidado paliativo, focando no conforto, no manejo de sintomas angustiantes e na manutenção da dignidade. A presença de múltiplas comorbidades médicas (cardíacas, respiratórias) torna o paciente mais frágil e complica o manejo medicamentoso.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Como o paciente vivencia: Para o indivíduo com CHARGE e demência, a experiência é provavelmente de crescente confusão, fragmentação e incapacidade de compreender o mundo e de se fazer compreendido. A perda das habilidades de comunicação é especialmente aterrorizante. A apatia pode ser uma manifestação de desesperança ou de uma incapacidade cerebral de gerar motivação. A agitação pode ser a expressão de medo, dor ou frustração que não pode ser verbalizada.

Comunicação Clínica com a Família/Cuidadores:

  1. Validação: Reconhecer que o declínio é real e não "apenas parte da síndrome". Validar o sofrimento e a exaustão da família.
  2. Clareza sobre Objetivos: Redefinir os objetivos do cuidado: "Nosso foco agora não é fazer ele recuperar habilidades, mas garantir seu conforto, minimizar seu sofrimento e ajudá-lo a viver com a maior dignidade possível".
  3. Educação sobre Sintomas: Explicar que comportamentos desafiantes são sintomas da doença cerebral, e não "mau comportamento" ou "manipulação". Usar analogias com parcimônia: "Assim como uma pessoa com AVC pode não mover um braço, o cérebro dele perdeu a capacidade de ‘iniciar’ ações ou de filtrar estímulos, daí a apatia ou a agitação".
  4. Planejamento Antecipado de Cuidados: Discutir diretivas antecipadas de vontade (na medida do possível), preferências para situações de crise e planos para cuidados de fim de vida. Envolver a equipe do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou da atenção básica para suporte contínuo.

Impacto Funcional: O impacto é devastador em todas as esferas. A perda progressiva das habilidades de vida diária aumenta a dependência total. A deterioração da comunicação prejudica profundamente os relacionamentos. A qualidade de vida do paciente e da família é severamente afetada. A capacidade de participar de qualquer atividade comunitária ou ocupacional é perdida.

Perguntas frequentes

1. A demência é uma parte inevitável da síndrome de CHARGE?
Não. A demência é uma complicação potencial grave, mas não ocorre em todos os indivíduos com CHARGE. É mais provável que se manifeste em adolescentes e adultos jovens, mas sua prevalência exata ainda não é conhecida.

2. Como distinguir um "bad day" (dia ruim) de um declínio real?
Um declínio real é progressivo e persistente. Envolve a perda de habilidades que antes estavam consolidadas (ex.: esquecer permanentemente um sinal que usava diariamente). "Dias ruins" são flutuações dentro de uma linha de base estável, muitas vezes ligados a fatores como cansaço, dor ou mudança de rotina. A documentação cuidadosa é essencial.

3. Existe algum exame que confirme o diagnóstico de demência na CHARGE?
Não há um exame único. O diagnóstico é clínico, baseado na história detalhada de declínio funcional obtida com múltiplos informantes, no exame neurológico e neuropsiquiátrico adaptado, e na exclusão de outras causas tratáveis (ex.: através de exames de sangue, neuroimagem, EEG). A neuroimagem serial mostrando atrofia cerebral progressiva é um forte indício.

4. Medicamentos para Alzheimer, como donepezila, funcionam nesses casos?
Não há estudos sobre seu uso na CHARGE. Eles podem ser tentados "off-label" para sintomas de apatia ou declínio cognitivo, mas a resposta é imprevisível e os benefícios, se existirem, tendem a ser modestos e temporários. Os riscos de efeitos colaterais (como bradicardia, distúrbios gastrointestinais) devem ser ponderados.

5. O que causa as alucinações? Devemos sempre medicá-las?
As alucinações podem surgir da própria neurodegeneração, de privação sensorial (alucinações por liberação) ou de outras condições (ex.: epilepsia). Nem sempre causam sofrimento. A medicação só é indicada se as alucinações forem aterrorizantes, levando a agitação ou risco. Muitas vezes, adaptar o ambiente (ex.: melhorar a iluminação à noite) é a primeira intervenção.

6. A expectativa de vida é reduzida com o aparecimento da demência?
Sim. O aparecimento de um declínio neurocognitivo maior geralmente indica uma fase mais grave e avançada da vulnerabilidade neurológica. Associada às outras comorbidades médicas da CHARGE, esta complicação está ligada a um aumento da fragilidade, do risco de infecções e de complicações, reduzindo a expectativa de vida.

7. Como posso, como familiar, estimular meu ente querido?
Foque na conexão sensorial e emocional, não no desempenho. Use atividades que tragam prazer e conforto: música favorita, toque suave (massagem), aromas agradáveis, alimentos com texturas saborosas. Mantenha contato visual (se possível) e uma presença calma. A pressão para "aprender" ou "fazer" algo só gera frustração.

8. Onde encontrar suporte no Brasil?
Busque associações de apoio a pessoas com síndromes raras ou deficiências múltiplas. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) podem oferecer suporte à família e auxiliar no manejo de sintomas comportamentais. Hospitais universitários com serviços de genética médica ou neurologia do desenvolvimento podem ser referência para acompanhamento especializado.

Referências

  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11). 2022.
  • Blake, K.D., & Prasad, C. (2006). CHARGE syndrome. Orphanet Journal of Rare Diseases, 1(34).
  • Hartshorne, T.S., Hefner, M.A., & Davenport, S.L.H. (2011). CHARGE Syndrome. San Diego: Plural Publishing.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

marque sua consulta

Cansado de consultas apressadas e respostas vagas?

Para adultos buscando respostas ou pais preocupados com os filhos: avaliação profunda de TDAH e Autismo que transformam vidas.

Médico Psiquiatra com foco em TDAH e Autismo.
Atendimento a adultos, adolescentes e crianças a partir de 6 anos.

CRM/UF · RQE 00000 · Psiquiatria

Atendimento

Credenciais

© 2026 Dr. Luigi Fernando - Psiquiatria. Todos os direitos reservados.

Site desenvolvido por: