Definição e conceito
O declínio da cognição social na Demência Frontotemporal (DFT) refere-se ao prejuízo precoce e progressivo de um conjunto de habilidades cognitivas complexas necessárias para perceber, processar e responder adequadamente a informações sociais e emocionais. Este domínio cognitivo é fundamental para a interação humana e envolve a capacidade de reconhecer estados emocionais alheios, inferir intenções e crenças (teoria da mente), compreender normas sociais implícitas e ajustar o comportamento ao contexto interpessoal.
Na semiologia psiquiátrica, este declínio é classificado como um déficit cognitivo focal, frequentemente dissociado de outros domínios cognitivos nas fases iniciais da doença. Enquanto na Doença de Alzheimer o déficit de memória episódica é proeminente, na DFT, particularmente em sua variante comportamental (bvFTD), o comprometimento da cognição social e das funções executivas frontais surge como um dos primeiros e mais marcantes sinais. A terminologia técnica inclui:
- Cognição Social (Social Cognition): Domínio amplo que engloba a percepção, interpretação e geração de respostas a informações sociais.
- Teoria da Mente (Theory of Mind – ToM): Capacidade de atribuir estados mentais (desejos, intenções, crenças, conhecimentos) a si mesmo e aos outros, e compreender que os outros podem ter perspectivas diferentes das suas.
- Reconhecimento de Emoções (Emotion Recognition): Habilidade de identificar corretamente emoções básicas (e.g., alegria, tristeza, raiva, medo, nojo, surpresa) e complexas a partir de pistas faciais, vocais (prosódia) e gestuais.
- Perda do Tato Social: Incapacidade de interpretar sinais sociais sutis e ajustar o comportamento de acordo com as convenções e o contexto, resultando em atitudes socialmente inadequadas, insensíveis ou desrespeitosas.
Epidemiologicamente, a DFT é a segunda causa mais comum de demência de início precoce (antes dos 65 anos), representando cerca de 5-15% de todos os casos de demência. A prevalência na população geral é estimada entre 15-22 por 100.000. O declínio da cognição social é uma característica nuclear da variante comportamental (bvFTD), presente em mais de 90% dos casos já nas fases iniciais, e também pode ocorrer, em padrões distintos, nas variantes linguísticas (afasia progressiva não-fluente e demência semântica).
Apresentação clínica
A apresentação clínica do declínio da cognição social na DFT é insidiosa e frequentemente precede o diagnóstico formal em anos. As mudanças são inicialmente atribuídas a "problemas de personalidade", "crise da meia-idade" ou "depressão atípica". A avaliação clínica revela prejuízos em múltiplos subdomínios:
Domínio Cognitivo:
- Reconhecimento de Emoções: O paciente apresenta dificuldade crescente em identificar expressões faciais de emoção, especialmente as negativas como raiva, nojo e medo. Pode interpretar erroneamente uma expressão de tristeza como neutralidade ou uma de raiva como uma simples contrariedade. A prosódia emocional (tom de voz que transmite emoção) também é mal interpretada.
- Teoria da Mente: Há um déficit na capacidade de fazer inferências sobre o que outras pessoas pensam, sabem ou acreditam. O paciente não consegue "se colocar no lugar do outro". Tarefas que envolvem entender ironia, sarcasmo, mentiras piedosas ou duplo sentido tornam-se impossíveis. Perguntas do tipo "O que você acha que ela está pensando?" ou "Por que ele agiu assim?" geram respostas concretas, literais ou evasivas.
- Percepção Social: Incapacidade de ler o contexto social e identificar dicas sutis. O paciente não percebe quando está sendo inconveniente, quando o interlocutor está entediado ou constrangido, ou quando o tema da conversa é inadequado para a situação.
- Julgamento e Tomada de Decisão Social: As decisões em contextos interpessoais tornam-se impulsivas, ingênuas ou profundamente inadequadas, pois não são ponderadas com base nas consequências sociais ou emocionais para os outros.
Domínio Afetivo:
- Empatia: Ocorre uma perda da empatia afetiva e cognitiva. O paciente parece frio, indiferente e incapaz de compartilhar ou reconfortar emocionalmente os outros. Relatos de familiares como "ele não se comove mais com o choro dos netos" ou "ficou insensível ao sofrimento alheio" são comuns.
- Apatia/Abaulamento Afetivo: Frequentemente associada à síndrome da convexidade frontal dorsolateral, manifesta-se como diminuição da iniciativa, redução da motivação para interações sociais e empobrecimento da mímica facial (face hipomímica), o que pode ser erroneamente interpretado como depressão.
Domínio Comportamental:
- Perda do Tato Social: Este é um dos sinais mais flagrantes. O paciente faz comentários socialmente inapropriados (sobre aparência, peso, idade), invade o espaço pessoal, interrompe conversas alheias sem cerimônia ou discute assuntos íntimos em público. Comportamentos antes discretos e educados dão lugar a uma rudez e insensibilidade marcantes.
- Comportamentos Perseverativos e Rígidos: A perseveração (repetição inadequada de uma resposta) pode aparecer no plano social, como insistir num mesmo assunto ou fazer a mesma pergunta repetidamente, sem perceber o desinteresse alheio.
- Desinibição: Associada ao comprometimento das regiões orbitofrontais, pode se manifestar como falta de filtro social, piadas de mau gosto, aproximação excessiva com estranhos ou conduta sexualmente inadequada.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Um executivo de 58 anos, antes diplomático, começa a fazer comentários grosseiros em reuniões sobre a incompetência de colegas, sem qualquer constrangimento. Em casa, ignora o choro da esposa ao receber uma notícia triste, continuando a assistir TV como se nada tivesse acontecido.
- Uma professora aposentada de 62 anos, antes atenta e carinhosa, deixa de perceber quando os netos estão bravos ou com medo, tratando todas as expressões faciais deles como se fossem neutras. Passa a contar detalhes íntimos de problemas financeiros da família para caixas de supermercado, estranhos e vizinhos.
- Um marido de 55 anos, ao ser questionado sobre por que sua esposa estava chorando após uma discussão, responde de forma concreta: "Porque as glândulas lacrimais dela foram ativadas". Demonstra total incapacidade de inferir a causa emocional (tristeza, frustração) do choro.
Neurobiologia e fisiopatologia
O declínio da cognição social na DFT é fundamentalmente um fenômeno de desconexão e degeneração de uma rede cerebral distribuída, conhecida como "rede social do cérebro", com núcleo nas regiões frontotemporais.
Circuitos e Estruturas Envolvidas:
- Córtex Pré-Frontal Ventromedial e Orbitofrontal: Essas regiões são cruciais para a integração de informações emocionais (provenientes do sistema límbico) com processos cognitivos de tomada de decisão e controle de impulsos. Sua degeneração está diretamente ligada à perda do tato social, desinibição, mudanças na personalidade e prejuízos na tomada de decisão social e moral. São as áreas classicamente associadas à síndrome orbitofrontal.
- Córtex Pré-Frontal Dorsolateral: Envolvido nas funções executivas mais frias (planejamento, shifting cognitivo, memória de trabalho). Seu comprometimento contribui para a rigidez mental, perseverações e dificuldade em sequenciar ações sociais complexas.
- Ínsula Anterior e Córtex Cingulado Anterior: Estruturas límbicas fundamentais para a consciência interoceptiva (percepção dos próprios estados corporais e emocionais) e para a experiência da empatia. A degeneração da ínsula, em particular, está fortemente correlacionada com a perda da capacidade de reconhecer expressões de nojo (próprio e alheio) e com o embotamento afetivo.
- Amígdala: Centro processador de emoções, especialmente medo e raiva. Sua atrofia na DFT explica parte dos déficits no reconhecimento de emoções negativas em faces.
- Pólos Temporais: Regiões críticas para a memória semântica social (conhecimento sobre pessoas, histórias, conceitos sociais) e para a atribuição de traços mentais. Na variante semântica da DFT, sua degeneração causa profunda perda de conhecimento conceitual, afetando também a cognição social.
- Junção Temporoparietal (TPJ): Envolvida no processo de mudança de perspectiva e em componentes da teoria da mente, como a atribuição de crenças aos outros.
Neurotransmissão e Patologia Molecular:
A DFT é uma taupatia ou uma TDP-43opatia na maioria dos casos, com acúmulo anormal de proteínas tau ou TDP-43 nos neurônios e células gliais das regiões frontotemporais. Do ponto de vista neuroquímico, há uma profunda depleção serotoninérgica e, em menor grau, dopaminérgica no córtex frontal. A disfunção serotoninérgica está intimamente ligada às alterações de personalidade, desinibição e perda do controle de impulsos sociais. A via glutamatérgica também pode estar envolvida, mas seu papel é menos claro.
Evidências de Neuroimagem:
A ressonância magnética estrutural mostra atrofia característica e assimétrica (geralmente iniciando no lobo frontal ou temporal) que segue o padrão das redes descritas. A cintilografia (SPECT) ou a PET (tomografia por emissão de pósitrons) demonstram hipometabolismo ou hipoperfusão nas mesmas regiões, frequentemente antes da atrofia estrutural se tornar evidente. Estudos de ressonância magnética funcional (fMRI) confirmam a hipoativação dessas redes durante tarefas de teoria da mente e reconhecimento de emoções.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Pode variar de apático e hipomímico a desinibido e excessivamente familiar. O contato ocular pode ser pobre ou, inversamente, fixo e intrusivo.
- Fala e Linguagem: Na bvFTD, a produção de fala é mecanicamente preservada, mas o conteúdo pode ser empobrecido, repetitivo ou socialmente inadequado. Nas variantes linguísticas, há alterações primárias da linguagem (agramatismo, anomia severa).
- Humor e Afeto: Afeto embotado, plano ou incongruente com o conteúdo da fala. Relato subjetivo de depressão é incomum, apesar da apatia.
- Processo do Pensamento: Tendência ao pensamento concreto. Dificuldade em interpretar provérbios ou metáforas. Pobreza de conteúdo ideativo.
- Cognição:
- Atenção: Pode estar preservada para estímulos simples.
- Memória: A memória episódica para eventos recentes está relativamente preservada nas fases iniciais, em contraste marcante com a Doença de Alzheimer. A memória semântica (conhecimentos gerais) pode estar comprometida, especialmente na variante temporal.
- Funções Executivas: Déficits em testes como Trail Making B (parte B), fluência verbal (categoria fonética pode estar menos afetada que a semântica), Stroop, e testes de planejamento (Torre de Hanói/Londres). Perseverações são frequentes.
- Cognição Social (Avaliação Direta):
- Solicitar que o paciente nomeie emoções em fotografias de faces (testes como o Ekman 60 Faces).
- Apresentar cenários sociais ("João vê Ana colocar o chocolate na gaveta A e sai. Enquanto ele está fora, Ana muda o chocolate para a gaveta B. Onde João vai procurar o chocolate quando voltar?") para avaliar teoria da mente de 1ª e 2ª ordem.
- Pedir para interpretar ironia ou sarcasmo em histórias curtas.
- Observar a interação durante a entrevista: o paciente percebe dicas sociais do examinador? Mantém distância interpessoal adequada?
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- NEUPSILIN: Bateria neuropsicológica breve que possui um subteste de cognição social.
- Faux Pas Recognition Test: Avalia a capacidade de detectar gafes sociais e inferir estados mentais.
- Reading the Mind in the Eyes Test (RMET): Avalia a capacidade de atribuir estados mentais a partir apenas da região dos olhos.
- Iowa Rating Scales of Personality Change (informante): Escala que quantifica mudanças específicas de personalidade e comportamento, incluindo perda de empatia e desinibição.
- Frontal Assessment Battery (FAB): Avalia funções executivas frontais de forma breve.
- Mini-SEA (Social Cognition and Emotional Assessment): Bateria breve específica para cognição social.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Pontos de Sobreposição | Pontos de Diferenciação Clave |
|---|---|---|
| Doença de Alzheimer (DA) típica | Pode haver irritabilidade, apatia e retraimento social. | Déficit de memória episódica é proeminente e precoce. Cognição social relativamente preservada até fases moderadas. Atrofia hipocampal/media temporal marcante. |
| Transtorno Depressivo Maior | Apatia, retraimento social, pobreza de discurso, lentificação psicomotora. | Humor deprimido e sofrimento subjetivo são centrais. Déficits cognitivos (pseudodemência) são reversíveis com tratamento do humor. Não há perda do tato social ou desinibição. |
| Transtorno de Personalidade (Antissocial, Narcisista) | Comportamento socialmente inadequado, falta de empatia, manipulação. | Padrão de comportamento estável desde a adolescência/idade adulta jovem, sem declínio funcional claro. Não há evidência de neurodegeneração ou déficits objetivos em testes de cognição social padronizados. |
| Esquizofrenia (Fase Residual/Negativa) | Embotamento afetivo, pobreza social, déficits em teoria da mente. | História de sintomas psicóticos positivos (delírios, alucinações) claros. Início mais precoce (adolescência/idade adulta jovem). Déficits sociais são parte de um quadro psicótico estável, não de um declínio progressivo. |
| Transtorno do Espectro Autista (TEA) | Déficits profundos em teoria da mente e reconhecimento de emoções. | Condição do neurodesenvolvimento, presente desde a primeira infância. Não há perda de habilidades previamente adquiridas. Ausência de neurodegeneração. |
| Demência com Corpos de Lewy | Flutuações cognitivas, alucinações visuais, parkinsonismo. | Alucinações visuais bem formadas e recorrentes são proeminentes. Parkinsonismo precoce. Déficits de cognição social não são a característica de apresentação principal. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Atribuir a "Depressão": A apatia e o retraimento social são frequentemente interpretados como depressão, levando a tratamentos antidepressivos prolongados e ineficazes, atrasando o diagnóstico correto.
- Supervalorizar a Memória Preservada: Como o teste de rastreio padrão (Mini-Exame do Estado Mental – MEEM) é fortemente influenciado pela memória e orientação, pacientes com DFT podem obter pontuações normais ou próximas do normal nas fases iniciais, gerando falsa segurança.
- Ignorar o Relato do Informante: A anamnese do paciente é frequentemente pobre e anosognósica (falta de consciência do déficit). O relato detalhado de um familiar próximo sobre a mudança de personalidade é a peça mais importante do quebra-cabeça diagnóstico.
- Confundir com "Crise Existencial" ou "Estresse": Mudanças de carreira, divórcios ou comportamentos excêntricos em meia-idade podem mascarar o início orgânico da doença.
Condições associadas
O declínio da cognição social é um fenômeno transdiagnóstico, mas sua apresentação, evolução e substrato neural variam.
- Demência Frontotemporal (Variante Comportamental – bvFTD): É a condição paradigmática para o declínio precoce e proeminente da cognição social. É um dos critérios diagnósticos centrais (perda de empatia, comportamento socialmente inadequado).
- Esquizofrenia: Déficits na cognição social são um traço central e preditivo de pior funcionamento psicossocial. No entanto, diferem da DFT por estarem frequentemente associados a vieses de atribuição (e.g., tendência a atribuir intenções hostis em situações ambíguas – "salto para conclusões"), distorções perceptivas (interpretar faces neutras como ameaçadoras) e ocorrerem no contexto de um transtorno psicótico.
- Transtornos do Espectro Autista (TEA): Apresentam déficits congênitos e desenvolvimentais na teoria da mente e no processamento de emoções, sem um declínio adquirido.
- Doença de Alzheimer: O comprometimento da cognição social geralmente ocorre tardiamente no curso da doença, secundário ao comprometimento cognitivo global e à degeneração cortical extensa. Não é um sinal precoce ou proeminente.
- Transtornos de Personalidade (especialmente Cluster B): Podem apresentar prejuízos no funcionamento interpessoal e na empatia, mas como um padrão estável de personalidade, não como uma mudança adquirida e progressiva.
Correlações com CID-11 e DSM-5-TR:
- CID-11: O declínio da cognição social é um dos sintomas listados para o diagnóstico de Demência Frontotemporal (código 8A23.0). A CID-11 especifica prejuízo em "tomada de perspectiva, teoria da mente e reconhecimento de emoções".
- DSM-5-TR: No critério A para Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido à Doença de Frontotemporal, um dos domínios cognitivos prejudicados deve ser a "cognição social". O manual descreve: "prejuízo no reconhecimento de emoções e na teoria da mente".
Implicações terapêuticas
O tratamento do declínio da cognição social na DFT é desafiador, pois visa um sintoma nuclear de uma doença neurodegenerativa progressiva. Não há terapias modificadoras da doença aprovadas. A abordagem é multimodal, sintomática e de suporte.
Abordagens Farmacológicas:
A evidência é limitada e baseada em pequenos estudos ou extrapolação de mecanismos neuroquímicos.
- Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS): São a primeira linha para o manejo de sintomas comportamentais como desinibição, comportamentos compulsivos e labilidade emocional. Podem, por extensão, ajudar a modular alguns aspectos da impulsividade social. Exemplos: sertralina, citalopram, escitalopram.
- Antipsicóticos Atípicos: Usados com extrema cautela e em baixas doses para agitação grave, agressividade ou comportamentos sexualmente desinibidos de risco. O risco de efeitos adversos extrapiramidais e piora cognitiva é alto. A risperidona e a quetiapina são as mais utilizadas.
- Estimulantes (Metilfenidato): Podem ser considerados para casos graves de apatia que não respondem a medidas não farmacológicas, mas o risco de exacerbar desinibição ou agitação existe.
Abordagens Psicoterapêuticas e Não-Farmacológicas:
- Psicoeducação Familiar: É a intervenção mais crucial. Explicar que os comportamentos inadequados são sintomas da doença, e não maldade ou falta de caráter, reduz o estresse, a culpa e o conflito familiar.
- Treinamento de Habilidades Sociais (Adaptado): Focado no cuidador, não no paciente. Ensinar estratégias para redirecionar conversas inadequadas, estabelecer rotinas claras, evitar situações socialmente complexas e usar comunicação direta e concreta.
- Terapia Ocupacional: Foco na adaptação ambiental e manutenção de funcionalidade. Pode trabalhar com pistas visuais para sequências de tarefas sociais simples.
- Grupos de Apoio para Cuidadores: Espaço fundamental para compartilhar experiências, estratégias de manejo e obter suporte emocional.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O declínio da cognição social é um forte preditor de sobrecarga do cuidador e de institucionalização precoce. A resposta ao tratamento farmacológico é variável e limitada. Os ISRS podem amenizar alguns componentes comportamentais, mas não revertem o déficit cognitivo central. O prognóstico global da DFT é grave, com um declínio progressivo e expectativa de vida média de 6 a 10 anos após o diagnóstico. A intervenção precoce com suporte familiar e ambiental pode, no entanto, melhorar significativamente a qualidade de vida do paciente e da família.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Como o Paciente Vivencia:
A maioria dos pacientes com bvFTD apresenta anosognósia significativa, ou seja, pouca ou nenhuma consciência de suas mudanças de personalidade e déficits sociais. Eles não se percebem como diferentes e frequentemente atribuem os problemas (conflitos familiares, perda do emprego) à incompreensão ou à má vontade dos outros. A experiência subjetiva pode ser de confusão ("por que estão todos bravos comigo?") ou de completa indiferença. Em fases iniciais, alguns podem ter lampejos de insight, gerando angústia, mas isso tende a desaparecer com a progressão.
Comunicação com o Paciente e Família:
- Com o Paciente: Use linguagem clara, concreta e direta. Evite sarcasmo, ironia ou metáforas. Dê instruções passo-a-passo. Não discuta ou tente convencê-lo de seu déficit; isso gera frustração e agitação. Redirecione suavemente para temas neutros ou atividades.
- Com a Família:
- Validação: Valide a dor e o estresse de ver uma pessoa amada mudar radicalmente. Frases como "deve ser muito difícil ver o(a) sr(a). agindo assim" abrem espaço para o diálogo.
- Explicação Neurobiológica: Use analogias simples: "O lobo frontal é como o maestro da orquestra do cérebro, responsável pelo controle, empatia e julgamento. Na DFT, essa região está doente. Os comportamentos inadequados são como instrumentos desafinados porque o maestro não consegue mais regê-los. Não é uma escolha dele(a)."
- Estratégias Práticas: Oriente a:
- Não levar para o lado pessoal.
- Manter rotinas previsíveis.
- Simplificar o ambiente social (evitar festas barulhentas, reuniões grandes).
- Usar distrações para interromper comportamentos perseverativos.
- Focar na segurança e no bem-estar, não em corrigir cada gafe social.
Impacto Funcional:
- Trabalho: Frequentemente é a primeira área afetada. O paciente perde a capacidade de trabalhar em equipe, tomar decisões judiciosas, lidar com clientes ou subordinados. Comportamentos inadequados levam a demissões ou aposentadorias precoces.
- Relacionamentos: Conjugais e familiares são profundamente abalados. A perda de empatia e o comportamento egocêntrico são interpretados como rejeição ou abandono, levando a conflitos, separações e isolamento social.
- Qualidade de Vida: A perda da conexão social e das atividades de lazer é devastadora. O paciente torna-se um fardo social, e a família, exausta. O risco de problemas financeiros (devido a decisões impulsivas) e legais (comportamento desinibido) é real.
Perguntas frequentes
1. É possível confundir os primeiros sinais da DFT com uma "crise de meia-idade" ou depressão?
Sim, e é muito comum. A apatia, o desinteresse por hobbies e o retraimento social podem mimetizar uma depressão. A diferença crucial está na presença ou ausência de sofrimento subjetivo. Na depressão, a pessoa se sente triste e sofre com sua condição. Na DFT, a apatia é acompanhada de indiferença e, frequentemente, de outros sinais como perda do tato social, desinibição ou mudanças alimentares, que não são típicos da depressão pura.
2. Meu familiar com suspeita de DFT faz o MEEM e dá um resultado quase normal. Isso descarta a doença?
Absolutamente não. O MEEM é um instrumento de rastreio para demências como Alzheimer, que afetam primeiro a memória e a orientação. A DFT poupa essas funções nas fases iniciais. Um resultado normal no MEEM na presença de mudanças marcantes de personalidade e comportamento é, na verdade, um dado que favorece o diagnóstico de DFT em vez de Alzheimer. É necessária uma avaliação neuropsicológica detalhada que inclua funções executivas e cognição social.
3. Existe algum remédio que possa recuperar a empatia e o julgamento social?
Infelizmente, não existe nenhum medicamento aprovado que reverta ou pare a degeneração cerebral na DFT. Alguns remédios, como os antidepressivos ISRS, podem ajudar a controlar sintomas comportamentais associados, como a impulsividade, que indiretamente melhora algumas interações sociais. No entanto, o déficit cognitivo central (a incapacidade de compreender os estados mentais alheios) permanece. O manejo principal é não-farmacológico, através de adaptação ambiental e suporte familiar.
4. A DFT é hereditária?
Em cerca de 30-40% dos casos, há um histórico familiar significativo, e em aproximadamente 10-15%, a doença é causada por uma mutação genética autossômica dominante bem identificada (nos genes C9orf72, MAPT ou GRN). Portanto, a maioria dos casos é esporádica. A avaliação genética é recomendada em casos de início precoce (antes dos 60) e forte história familiar.
5. Como posso explicar para outras pessoas (amigos, netos) o que está acontecendo com o paciente?
Use explicações simples e baseadas na doença: "O vovô está com uma doença no cérebro que faz com que ele perca a noção do que é adequado dizer ou fazer. Ele não está sendo mal-educado de propósito; a doença tira dele o controle. Por isso, às vezes ele fala coisas que machucam, mas não é a intenção dele. Precisamos ter paciência e saber que é a doença falando."
6. O paciente com DFT tem consciência de que está mudado?
Geralmente, não. A falta de consciência (anosognósia) é uma característica neurológica da doença, resultante do comprometimento das regiões frontais responsáveis pelo auto-monitoramento. O paciente genuinamente não percebe a extensão de suas mudanças ou as atribui a fatores externos. Insistir para que ele "reconheça" seu comportamento é inútil e contraproducente.
7. Qual a diferença entre a falta de empatia da DFT e a de uma pessoa egoísta ou narcisista?
A falta de empatia na DFT é uma mudança adquirida. A pessoa era antes empática e socialmente hábil, e perdeu essa capacidade de forma progressiva. No transtorno de personalidade, o padrão é estável ao longo da vida adulta, sem um declínio neurológico. Além disso, na DFT, a falta de empatia vem acompanhada de outros sinais neurológicos (rigidez cognitiva, perseveração, hiperoralidade) e evidência de degeneração cerebral em exames de imagem.
8. Onde buscar ajuda no Brasil (SUS)?
O caminho usual inicia na Atenção Primária (UBS), que pode encaminhar para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS III ou CAPS AD, dependendo da disponibilidade e do perfil do paciente). A avaliação especializada com neurologista ou psiquiatra geriátrico é essencial e pode ser obtida via regulação do SUS. A Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) oferece suporte e informações também para familiares de pacientes com DFT.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Rascovsky, K., et al. "Sensitivity of revised diagnostic criteria for the behavioural variant of frontotemporal dementia." Brain, 134(9), 2011.
- Piguet, O., et al. "Behavioural-variant frontotemporal dementia: diagnosis, clinical staging, and management." The Lancet Neurology, 20(3), 2021.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – Texto Revisado (DSM-5-TR). Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – 11ª edição (CID-11). 2018/2019.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.