Demência, causa desconhecida ou não especificada (CID-11: 6D8Z)

Um guia completo para pacientes, familiares e cuidadores


O que é?

Imagine que o cérebro é como um computador. Com o tempo, alguns programas começam a travar, arquivos se perdem e tarefas que antes eram simples — como abrir um e-mail ou salvar um documento — ficam cada vez mais difíceis. Agora, pense que isso não acontece só por “cansaço” ou “idade avançada”, mas porque algo dentro desse computador está danificado, mesmo que os médicos ainda não saibam exatamente o quê. É mais ou menos isso que acontece na demência de causa desconhecida ou não especificada.

Esse diagnóstico é dado quando uma pessoa apresenta perda progressiva de funções cognitivas — como memória, raciocínio, linguagem e capacidade de tomar decisões — mas, após exames detalhados, os médicos não conseguem identificar uma causa específica (como Alzheimer, derrame, Parkinson ou deficiências nutricionais). É como se o “defeito” no cérebro existisse, mas ainda não pudesse ser nomeado com precisão.

Como isso se diferencia de outras condições?

Muitas pessoas confundem demência com:
Envelhecimento normal: Esquecer onde deixou as chaves é comum. Esquecer como usar as chaves ou para que elas servem não é.
Depressão ou ansiedade: Às vezes, tristeza ou estresse podem deixar a mente “lenta”, mas na demência, os esquecimentos e confusões persistem mesmo quando o humor melhora.
Delirium: Uma confusão mental aguda, geralmente causada por infecção, febre ou efeito colateral de remédios. Na demência, os sintomas são crônicos e pioram com o tempo, não aparecem de repente.
Comprometimento Cognitivo Leve (CCL): Um estágio intermediário entre o envelhecimento normal e a demência. No CCL, a pessoa ainda consegue viver de forma independente, mesmo que precise de mais tempo para realizar tarefas complexas. Na demência, a independência é perdida.

Quem é afetado?

A demência, de forma geral, é mais comum em pessoas acima de 65 anos, mas não é uma consequência natural do envelhecimento. No Brasil, estima-se que 1,2 milhão de pessoas vivam com algum tipo de demência, e cerca de 10 a 15% desses casos podem ser classificados como “causa desconhecida ou não especificada” (6D8Z), especialmente quando os exames não apontam uma causa clara.

Alguns fatores aumentam o risco:
Idade avançada (o risco dobra a cada 5 anos após os 65).
Histórico familiar (ter parentes de primeiro grau com demência aumenta as chances).
Doenças crônicas não controladas, como diabetes, hipertensão e colesterol alto.
Traumas na cabeça (como concussões repetidas).
Baixa escolaridade (estudos sugerem que pessoas com menos anos de estudo têm maior risco, possivelmente porque o cérebro menos “exercitado” é mais vulnerável).

No Brasil, a demência ainda é subdiagnosticada, especialmente em regiões com menos acesso a especialistas. Muitas famílias atribuem os sintomas à “velhice” e só procuram ajuda quando a situação já está avançada.

Um pouco de história

O termo “demência” vem do latim demens (“sem mente”) e, por muito tempo, foi usado de forma pejorativa, associado à loucura. No século XIX, médicos como Alois Alzheimer começaram a estudar casos de pacientes com perda de memória e alterações de comportamento, descrevendo pela primeira vez a doença de Alzheimer (1906). Mas foi só nas últimas décadas que a ciência entendeu que a demência não é uma doença única, mas um conjunto de sintomas causados por diferentes problemas no cérebro.

Hoje, sabemos que:
– Nem toda demência é Alzheimer.
– Nem toda perda de memória é demência.
– E, em alguns casos, não conseguimos descobrir a causa exata — mas isso não significa que não haja tratamento ou cuidados possíveis.


Quais são os sintomas?

Os sintomas da demência de causa desconhecida são progressivos, ou seja, começam leves e vão piorando com o tempo. Eles afetam principalmente quatro áreas da vida:

  1. Memória e aprendizado
  2. Raciocínio e julgamento
  3. Linguagem e comunicação
  4. Comportamento e personalidade

Vamos detalhar cada um deles, com exemplos práticos para você entender como isso aparece no dia a dia.


1. Problemas de memória (especialmente memória recente)

Critério do DSM-5/CID-11 traduzido:
“Evidência de declínio significativo em relação ao desempenho anterior em um ou mais domínios cognitivos, como aprendizagem e memória.”

O que isso significa na prática?
A memória não é como um único arquivo no cérebro. Temos:
Memória de curto prazo (o que aconteceu há poucos minutos ou horas).
Memória de longo prazo (lembranças antigas, como a infância).
Memória procedural (habilidades automáticas, como andar de bicicleta).

Na demência, a memória de curto prazo é a primeira a ser afetada. A pessoa pode:
Esquecer conversas recentes: Você conta que o neto vai visitar no fim de semana, e cinco minutos depois ela pergunta: “Quem vem aqui hoje?”.
Repetir as mesmas perguntas: “Que horas é o almoço?” — mesmo que você já tenha respondido três vezes.
Perder objetos com frequência: Deixar a carteira no freezer, o celular no armário de remédios ou as chaves dentro da geladeira.
Não lembrar de compromissos: Esquecer que marcou uma consulta médica ou que combinou de almoçar com um amigo.

Exemplo concreto:
Dona Maria, de 72 anos, sempre foi organizada. Agora, ela:
– Liga para a filha perguntando: “Você não me disse que ia passar aqui hoje?” — mesmo que a filha tenha avisado ontem.
– Prepara o café da manhã e, meia hora depois, faz tudo de novo porque não lembra que já tomou café.
– Guarda o controle remoto dentro da gaveta de meias e depois acusa alguém de ter “roubado”.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Esquecer onde deixou os óculos (mas lembrar depois de procurar).
Normal: Não lembrar o nome de um ator famoso, mas se lembrar depois.
Sintoma: Esquecer que almoçou e preparar outra refeição logo em seguida.
Sintoma: Não reconhecer um familiar próximo (filho, cônjuge) em situações extremas.


2. Dificuldade de raciocínio e julgamento

Critério do DSM-5/CID-11:
“Déficits em funções executivas (planejamento, organização, tomada de decisões).”

O que isso significa na prática?
As funções executivas são como o “CEO do cérebro”: elas ajudam a planejar, organizar, resolver problemas e tomar decisões. Quando estão prejudicadas, a pessoa:
Tem dificuldade para lidar com dinheiro: Pode esquecer de pagar contas, perder o controle do extrato bancário ou cair em golpes (como acreditar que um desconhecido no telefone é do banco).
Não consegue seguir receitas ou instruções: Começa a fazer um bolo e esquece de colocar açúcar, ou liga o fogão e sai de casa.
Toma decisões impulsivas ou arriscadas: Pode comprar coisas desnecessárias, dar dinheiro para estranhos ou sair de casa sem avisar.
Não consegue resolver problemas simples: Se a lâmpada queima, ela pode ficar paralisada, sem saber o que fazer.

Exemplo concreto:
Seu João, de 78 anos, sempre foi bom com números. Agora:
– Recebe uma conta de luz e não sabe como pagá-la (mesmo que tenha feito isso a vida toda).
– Quando o neto pergunta: “Vô, quanto é 100 menos 25?”, ele demora muito para responder ou erra.
– Sai para comprar pão e volta com um liquidificador que não precisava, porque o vendedor insistiu.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Demorar um pouco mais para fazer contas de cabeça.
Normal: Esquecer de pagar uma conta uma vez ou outra.
Sintoma: Não conseguir mais administrar o próprio dinheiro.
Sintoma: Comprar coisas sem necessidade repetidamente.


3. Problemas de linguagem e comunicação

Critério do DSM-5/CID-11:
“Déficits em linguagem (afasia), como dificuldade para encontrar palavras, seguir conversas ou entender instruções.”

O que isso significa na prática?
A linguagem é uma das funções mais complexas do cérebro. Quando afetada, a pessoa pode:
Ter dificuldade para encontrar palavras: Sabe o que quer dizer, mas não consegue lembrar a palavra. Por exemplo: “Quero aquele negócio… aquele que a gente usa para cortar… a faca!” (e aponta para a faca).
Inventar palavras: Chamar a televisão de “caixa falante” ou o telefone de “aparelho de voz”.
Não entender o que os outros dizem: Mesmo que ouça bem, pode não compreender frases simples, como “Vamos almoçar?”.
Repetir frases ou histórias: Conta a mesma história várias vezes, sem perceber.
Falar de forma confusa: Mistura assuntos, pula de um tema para outro sem conexão.

Exemplo concreto:
Dona Ana, de 80 anos, sempre foi falante. Agora:
– Quando a neta pergunta: “Vó, o que a senhora quer jantar?”, ela responde: “Aquela coisa… com arroz… sabe?”.
– Começa a contar sobre a infância, mas de repente pula para uma viagem que fez há 20 anos, sem perceber que mudou de assunto.
– Às vezes, responde “sim” para tudo, mesmo sem entender a pergunta.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Ter um “branco” e esquecer o nome de alguém momentaneamente.
Normal: Trocar palavras de vez em quando (“Passe o sal” → “Passe o açúcar”).
Sintoma: Não conseguir mais nomear objetos do dia a dia (como garfo, sapato, relógio).
Sintoma: Falar frases sem sentido ou repetir a mesma pergunta várias vezes.


4. Mudanças de comportamento e personalidade

Critério do DSM-5/CID-11:
“Alterações comportamentais, como apatia, desinibição, agitação, agressividade ou sintomas psicóticos (delírios, alucinações).”

O que isso significa na prática?
Essas mudanças são as mais difíceis para os familiares, porque a pessoa “não parece mais ela mesma”. Podem incluir:
Apatia (falta de interesse): Deixa de gostar de coisas que antes amava (hobbies, passeios, visitar amigos).
Irritabilidade ou agressividade: Fica brava por motivos bobos, grita, xinga ou até agride fisicamente.
Desinibição: Faz comentários inadequados (“Que gorda você está!”), tira a roupa em público ou toca em pessoas sem permissão.
Paranoia ou delírios: Acredita que estão roubando suas coisas (mesmo que não seja verdade) ou que o cônjuge está traindo.
Alucinações: Vê ou ouve coisas que não existem (como pessoas falando quando não há ninguém).
Vagar sem rumo: Sai de casa e se perde, mesmo em lugares conhecidos.

Exemplo concreto:
Seu Antônio, de 75 anos, sempre foi calmo e educado. Agora:
– Acusa a esposa de esconder seu dinheiro (mesmo que ela não tenha feito nada).
– Sai de casa de madrugada e é encontrado pela polícia a três quarteirões de distância, sem saber como chegou lá.
– Chora ou ri sem motivo aparente.
– Não quer mais tomar banho e fica agressivo quando alguém insiste.

O que é normal vs. o que é sintoma?
Normal: Ficar irritado de vez em quando.
Normal: Não querer sair de casa em um dia ruim.
Sintoma: Acreditar que familiares estão “contra você” sem motivo.
Sintoma: Tirar a roupa na frente de estranhos ou fazer comentários ofensivos.


Um alerta importante

Ter um ou dois desses sintomas isoladamente não significa demência. Por exemplo:
– Esquecer onde deixou o celular não é demência.
– Ter dificuldade para encontrar uma palavra não é demência.
– Ficar irritado uma vez não é demência.

O que define o diagnóstico é:
A combinação de vários sintomas.
A piora progressiva com o tempo.
O impacto na vida diária (a pessoa não consegue mais viver sozinha, trabalhar ou cuidar de si mesma).

Se você ou alguém que você ama está apresentando esses sinais, o primeiro passo é procurar um médico (neurologista, geriatra ou psiquiatra) para uma avaliação completa.


Como se manifesta no dia a dia?

A demência não afeta só a memória — ela transforma a rotina da pessoa e de quem está ao redor. Vamos ver como isso acontece em diferentes áreas da vida.


No trabalho ou atividades cotidianas

Se a pessoa ainda trabalha ou realiza tarefas complexas (como cuidar da casa, administrar um negócio ou estudar), os sintomas podem aparecer como:
Dificuldade para seguir instruções: Não consegue mais usar um novo sistema no trabalho ou seguir uma receita nova.
Erros frequentes: Conta errada no caixa, esquece de anotar pedidos, perde prazos.
Procrastinação extrema: Deixa tudo para última hora porque não sabe por onde começar.
Dificuldade para lidar com mudanças: Se o chefe muda um procedimento, a pessoa pode ficar perdida e frustrada.

Exemplo:
Dona Clara, de 68 anos, sempre foi costureira. Agora:
– Não consegue mais operar a máquina de costura nova que comprou.
– Mistura os pedidos dos clientes e entrega peças erradas.
– Fica horas olhando para o tecido sem saber como começar a trabalhar.


Nos relacionamentos

A demência muda a forma como a pessoa se relaciona com os outros, o que pode ser doloroso para familiares e amigos. Alguns exemplos:
Isolamento: A pessoa para de atender o telefone, não quer mais visitar amigos ou participar de eventos.
Desconfiança: Acredita que familiares estão “escondendo coisas” ou que amigos estão “contra ela”.
Falta de empatia: Não percebe quando magoa alguém com palavras ou atitudes.
Dependência excessiva: Liga para o filho 20 vezes por dia para perguntar a mesma coisa.
Ciúme infundado: Acusa o cônjuge de traição sem motivo.

Exemplo:
Seu José, de 70 anos, sempre foi carinhoso com a esposa. Agora:
– Esquece o aniversário de casamento e não entende por que ela fica chateada.
– Acha que ela está “trocando ele por outro” porque ela saiu para almoçar com uma amiga.
– Não reconhece mais o neto quando ele o visita.


Na rotina (sono, alimentação, autocuidado)

A demência também afeta hábitos básicos, o que pode levar a problemas de saúde:
Sono: Dorme de dia e fica acordado à noite (inversão do ciclo sono-vigília).
Alimentação: Esquece de comer ou come a mesma coisa todos os dias (mesmo que não goste).
Higiene: Para de tomar banho, escovar os dentes ou trocar de roupa.
Medicação: Esquece de tomar remédios ou toma doses erradas.
Segurança: Deixa o fogão ligado, a porta destrancada ou sai de casa sem avisar.

Exemplo:
Dona Lúcia, de 76 anos, sempre foi vaidosa. Agora:
– Usa a mesma roupa por dias seguidos.
– Não toma banho há uma semana e fica brava quando alguém sugere.
– Esquece de tomar os remédios para pressão e diabetes.


Na saúde física

A demência não afeta só a mente — o corpo também sofre. Alguns problemas comuns:
Quedas frequentes: Por dificuldade de equilíbrio ou desorientação.
Perda de peso: Porque esquece de comer ou não sente fome.
Infecções urinárias: Por não beber água ou segurar a urina por muito tempo.
Desidratação: Porque não lembra de beber água.
Dores crônicas: Porque não consegue comunicar onde está doendo.

Exemplo:
Seu Manuel, de 80 anos, sempre foi forte. Agora:
– Caiu três vezes em um mês porque tropeçou em tapetes.
– Perdeu 5 kg em dois meses porque esquece de almoçar.
– Tem infecções urinárias recorrentes porque não vai ao banheiro com frequência.


O que causa essa condição?

Quando os médicos dizem que a demência é de “causa desconhecida ou não especificada”, isso não significa que não haja uma explicação — significa que, com os exames disponíveis, não foi possível identificar uma causa única. Mas sabemos que vários fatores podem contribuir, mesmo que não saibamos exatamente qual deles “disparou” o problema.

Vamos entender as possíveis causas e fatores de risco.


1. Fatores genéticos: “Será que herdei isso?”

Algumas pessoas têm maior predisposição genética para desenvolver demência. Isso não significa que “está no DNA e não há o que fazer”, mas sim que o cérebro pode ser mais vulnerável a danos.

Como funciona?
Imagine que o cérebro é como uma casa:
– Algumas casas são construídas com materiais mais resistentes (genes que protegem o cérebro).
– Outras têm paredes mais frágeis (genes que aumentam o risco).
– Mesmo assim, o que acontece dentro da casa (estilo de vida, alimentação, estresse) também importa.

Exemplos de fatores genéticos:
Gene APOE-e4: Pessoas com esse gene têm maior risco de Alzheimer, mas nem todas desenvolvem a doença.
Histórico familiar: Se um dos pais teve demência, o risco aumenta em cerca de 30%.
Mutações raras: Em casos muito específicos (como a doença de Alzheimer familiar), a demência aparece antes dos 60 anos e é causada por mutações genéticas específicas.

Mito vs. Verdade:
Mito: “Se meu pai teve demência, eu também vou ter.”
Verdade: Ter histórico familiar aumenta o risco, mas não é uma sentença. Muitas pessoas com predisposição genética nunca desenvolvem demência, enquanto outras sem histórico familiar podem ter a doença.


2. Fatores neurobiológicos: O que acontece no cérebro?

Mesmo quando não sabemos a causa exata, alguns processos no cérebro são comuns em vários tipos de demência. Vamos entender de forma simples:

a) Acúmulo de proteínas tóxicas

O cérebro é feito de neurônios (células que se comunicam) e sinapses (as “estradas” por onde passam as informações). Em algumas demências, proteínas anormais se acumulam e “entopem” essas estradas, como lixo em um rio.

  • Proteína beta-amiloide: Forma “placas” que atrapalham a comunicação entre os neurônios (comum no Alzheimer).
  • Proteína tau: Forma “emaranhados” dentro dos neurônios, como fios elétricos embolados (também comum no Alzheimer).
  • Corpos de Lewy: Acúmulos de outra proteína que causam alucinações e tremores (comum na demência com corpos de Lewy).

Analogia:
Pense no cérebro como uma cidade:
– Os neurônios são as casas.
– As sinapses são as ruas.
– As proteínas tóxicas são como entulho e buracos que impedem o trânsito de informações.

b) Inflamação crônica

O cérebro também pode sofrer com inflamação, como uma ferida que nunca cicatriza. Isso acontece por:
Doenças crônicas (diabetes, hipertensão).
Estresse prolongado.
Infecções antigas (como herpes ou sífilis não tratada).

Exemplo:
Se você machuca o joelho e não cuida, ele fica inchado e dolorido. No cérebro, a inflamação crônica danifica os neurônios aos poucos.

c) Problemas vasculares

O cérebro precisa de oxigênio e nutrientes para funcionar. Se os vasos sanguíneos estão danificados (por hipertensão, diabetes ou colesterol alto), pequenas áreas do cérebro morrem, como uma planta que não recebe água.

Isso pode causar:
Demência vascular: Quando há vários “mini-derrames” que não são percebidos, mas vão matando partes do cérebro.
Demência mista: Uma combinação de Alzheimer + problemas vasculares.

Analogia:
Imagine o cérebro como um jardim:
– Os vasos sanguíneos são as mangueiras de água.
– Se as mangueiras estão furadas ou entupidas, algumas plantas morrem.


3. Fatores ambientais: O que a vida faz com o cérebro?

Algumas experiências aumentam o risco de demência, enquanto outras protegem o cérebro. Vamos ver:

Fatores de risco (aumentam as chances)

  • Traumas na cabeça: Pancadas fortes (como em acidentes ou esportes de contato) podem danificar o cérebro.
  • Poluição do ar: Estudos mostram que viver em cidades muito poluídas aumenta o risco de demência.
  • Isolamento social: Pessoas que vivem sozinhas e não têm contato com outras têm maior risco.
  • Sedentarismo: Quem não se movimenta tem mais inflamação no cérebro.
  • Tabagismo e álcool: Fumar e beber em excesso danificam os vasos sanguíneos do cérebro.

Fatores de proteção (diminuem as chances)

  • Escolaridade: Pessoas com mais anos de estudo têm mais “reserva cognitiva” (o cérebro consegue compensar danos por mais tempo).
  • Atividade física: Caminhar, nadar ou dançar melhora a circulação sanguínea no cérebro.
  • Alimentação saudável: Dieta mediterrânea (rica em peixes, azeite, vegetais) protege os neurônios.
  • Sono de qualidade: Dormir bem ajuda o cérebro a “limpar” proteínas tóxicas.
  • Controle de doenças crônicas: Tratar hipertensão, diabetes e colesterol evita danos nos vasos sanguíneos.

Mito vs. Verdade:
Mito: “Demência é só genética, não adianta prevenir.”
Verdade: Até 40% dos casos de demência podem ser prevenidos com hábitos saudáveis!


4. Fatores da gestação e desenvolvimento

Alguns problemas antes mesmo do nascimento podem aumentar o risco de demência na velhice:
Baixo peso ao nascer.
Exposição a toxinas (como álcool ou drogas durante a gravidez).
Infecções na gestação (como rubéola ou citomegalovírus).

Exemplo:
Estudos mostram que pessoas que nasceram com baixo peso têm maior risco de desenvolver demência aos 70 ou 80 anos.


Modelo biopsicossocial: A demência não tem uma causa única

Na medicina, usamos o modelo biopsicossocial para entender doenças. Isso significa que a demência é resultado de uma combinação de fatores:

Biológicos Psicológicos Sociais
Genes Estresse crônico Isolamento social
Inflamação no cérebro Depressão Baixa escolaridade
Problemas vasculares Ansiedade Falta de acesso a saúde
Acúmulo de proteínas tóxicas Traumas emocionais Poluição ambiental

Analogia:
Pense na demência como um incêndio em uma floresta:
Biológico: A madeira seca (genes, inflamação) facilita o fogo.
Psicológico: O vento forte (estresse, depressão) espalha as chamas.
Social: A falta de bombeiros (isolamento, falta de tratamento) impede que o fogo seja controlado.


Como é feito o diagnóstico?

Receber o diagnóstico de demência não é simples. Não existe um exame único que diga: “Sim, é demência de causa desconhecida”. O processo envolve várias etapas, e o médico precisa descartar outras condições antes de chegar a essa conclusão.

Vamos entender passo a passo como funciona.


1. Quando suspeitar?

O diagnóstico geralmente começa quando a família ou a própria pessoa percebe mudanças que não são normais para a idade. Alguns sinais de alerta:
Esquecimentos frequentes que atrapalham a vida diária.
Dificuldade para realizar tarefas que antes eram fáceis (cozinhar, dirigir, usar o celular).
Mudanças de humor ou personalidade (agressividade, apatia, paranoia).
Perder-se em lugares conhecidos.
Dificuldade para encontrar palavras ou seguir conversas.

Exemplo:
Seu Pedro, de 75 anos, sempre foi independente. De repente:
– Esquece como voltar para casa depois de uma caminhada no parque.
– Não consegue mais usar o controle remoto da TV.
– Fica irritado quando a família tenta ajudar.

A família decide levá-lo ao médico.


2. Primeira consulta: O que esperar?

O primeiro passo é uma consulta com um clínico geral, geriatra, neurologista ou psiquiatra. O médico vai:
1. Fazer perguntas detalhadas sobre os sintomas:
“Quando começou?”
“O que piora ou melhora?”
“Como isso afeta o dia a dia?”
2. Conversar com um familiar ou cuidador (porque a pessoa pode não perceber os próprios sintomas).
3. Avaliar o histórico médico:
– Doenças crônicas (diabetes, hipertensão).
– Remédios em uso (alguns podem causar confusão mental).
– Histórico familiar de demência.
4. Fazer um exame físico e neurológico:
– Verificar pressão arterial, reflexos, equilíbrio.
– Testar memória, linguagem e raciocínio com perguntas simples (“Que dia é hoje?”, “Quem é o presidente?”).

Exemplo de perguntas que o médico pode fazer:
“O senhor/a senhora tem dificuldade para lembrar de coisas recentes?”
“Consegue administrar seu dinheiro sozinho/a?”
“Já se perdeu em lugares conhecidos?”
“Tem notado mudanças de humor ou comportamento?”


3. Exames para descartar outras causas

Antes de dizer que é demência de causa desconhecida, o médico precisa excluir outras condições que podem causar sintomas semelhantes. Alguns exames comuns:

a) Exames de sangue

  • Hemograma completo: Para verificar anemia ou infecções.
  • Vitamina B12 e ácido fólico: A falta dessas vitaminas pode causar esquecimentos.
  • Hormônios da tireoide: O hipotireoidismo pode deixar a mente “lenta”.
  • Glicemia: Diabetes não controlada afeta o cérebro.
  • Sífilis e HIV: Infecções que podem causar demência se não tratadas.

b) Exames de imagem

  • Tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM): Para verificar se há tumores, derrames ou atrofia cerebral (encolhimento do cérebro).
  • PET-CT: Em alguns casos, para verificar acúmulo de proteínas tóxicas (como no Alzheimer).

c) Testes neuropsicológicos

São testes detalhados feitos por um psicólogo ou neuropsicólogo para avaliar:
– Memória.
– Atenção.
– Linguagem.
– Raciocínio.
– Habilidades visuais e espaciais.

Exemplo de teste:
O médico pede para a pessoa:
– Lembrar de três palavras depois de alguns minutos (“casa, bola, gato”).
– Desenhar um relógio com os ponteiros marcando 11h10.
– Nomear objetos mostrados em figuras.

d) Punção lombar (em alguns casos)

Se o médico suspeitar de Alzheimer ou outras doenças neurodegenerativas, pode pedir uma punção lombar para analisar o líquido da medula espinhal e verificar:
– Níveis de beta-amiloide e tau (proteínas relacionadas ao Alzheimer).
– Sinais de infecção ou inflamação.


4. Diagnóstico diferencial: O que pode ser confundido com demência?

Muitas condições imitam os sintomas da demência, mas têm tratamento. O médico precisa descartar:

Condição Como se diferencia da demência?
Depressão Na depressão, a pessoa percebe seus esquecimentos e fica frustrada. Na demência, não percebe.
Delirium É uma confusão aguda (começa de repente, geralmente por infecção, febre ou remédios). Na demência, os sintomas são crônicos.
Deficiência de vitamina B12 Causa esquecimentos, mas melhora com reposição da vitamina.
Hipotireoidismo Deixa a mente “lenta”, mas melhora com hormônios.
Efeitos colaterais de remédios Alguns remédios (como para ansiedade ou insônia) causam confusão. Suspender o remédio resolve.
Tumores cerebrais Podem causar sintomas focais (como perda de força em um lado do corpo), além de esquecimentos.
Hidrocefalia de pressão normal Causa dificuldade para andar, incontinência urinária e demência. Tratável com cirurgia.

Exemplo:
Dona Marta, de 70 anos, começou a esquecer as coisas e ficou apática. A família achou que era Alzheimer. Mas, após exames, descobriram que ela tinha hipotireoidismo grave. Com o tratamento, os sintomas melhoraram.


5. Chegando ao diagnóstico de “causa desconhecida”

Se todos os exames forem normais e não houver uma causa clara, o médico pode dar o diagnóstico de:
Demência, causa desconhecida ou não especificada (CID-11: 6D8Z).

Isso significa que:
✔ Os sintomas são de demência (perda progressiva de memória, raciocínio, linguagem).
Não foi possível identificar uma causa específica (como Alzheimer, derrame ou Parkinson).
O tratamento será focado nos sintomas, não na causa (porque ela é desconhecida).

O que fazer depois do diagnóstico?
1. Não entre em pânico: Mesmo sem causa definida, há tratamentos e cuidados que melhoram a qualidade de vida.
2. Procure um especialista: Neurologista ou geriatra com experiência em demência.
3. Comece o tratamento: Remédios, terapia e mudanças no estilo de vida podem ajudar.
4. Planeje o futuro: Converse com a família sobre cuidados a longo prazo, testamento, procuração.


Tratamento

Receber o diagnóstico de demência de causa desconhecida pode ser assustador, mas há muitas formas de melhorar a qualidade de vida e retardar a progressão dos sintomas. O tratamento envolve:

  1. Medicamentos (para controlar sintomas).
  2. Terapias não medicamentosas (como fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional).
  3. Mudanças no estilo de vida (alimentação, exercício, sono).
  4. Apoio psicológico (para a pessoa e a família).

Vamos detalhar cada uma dessas abordagens.


1. Medicamentos

Não existe um remédio que cure a demência, mas alguns podem:
Melhorar os sintomas (memória, linguagem, comportamento).
Retardar a progressão da doença.
Controlar problemas associados (depressão, ansiedade, agitação).

a) Inibidores da colinesterase

Como funcionam?
O cérebro usa uma substância chamada acetilcolina para se comunicar. Na demência, os níveis dessa substância caem. Os inibidores da colinesterase aumentam a acetilcolina, melhorando a memória e a atenção.

Remédios comuns:
Donepezila (Aricept®).
Rivastigmina (Exelon®).
Galantamina (Reminyl®).

Efeitos colaterais:
– Náusea, vômito, diarreia (geralmente leves e passageiros).
– Perda de apetite.
– Insônia ou sonhos vívidos.

O que esperar?
Melhora leve a moderada em memória e comportamento.
Não funciona para todos (cerca de 50% dos pacientes têm benefício).
O efeito pode diminuir com o tempo (porque a doença progride).

Exemplo:
Seu Antônio começou a tomar donepezila. No primeiro mês, ele:
– Passou a lembrar melhor dos nomes dos netos.
– Ficou menos irritado.
– Ainda esquece algumas coisas, mas com menos frequência.


b) Memantina

Como funciona?
O cérebro também usa glutamato, outra substância importante para a memória. Na demência, o glutamato fica desequilibrado, danificando os neurônios. A memantina regula o glutamato, protegendo o cérebro.

Remédio comum:
Memantina (Ebix®, Namenda®).

Efeitos colaterais:
– Tontura.
– Dor de cabeça.
– Constipação.

Para quem é indicada?
Demência moderada a grave.
– Pode ser usada sozinha ou combinada com inibidores da colinesterase.

Exemplo:
Dona Clara, que já estava em estágio avançado, começou a tomar memantina. Ela:
– Ficou menos agitada.
– Passou a reconhecer melhor os familiares.
– Ainda precisa de ajuda para se vestir, mas está mais calma.


c) Remédios para sintomas comportamentais

A demência pode causar agitação, agressividade, depressão e alucinações. Nesses casos, o médico pode prescrever:

Sintoma Remédio Como ajuda?
Depressão Sertralina, citalopram Melhora o humor e a apatia.
Ansiedade Lorazepam (em doses baixas) Reduz a agitação.
Insônia Trazodona Ajuda a regular o sono.
Agressividade Quetiapina, risperidona Controla explosões de raiva.
Alucinações Risperidona Reduz visões ou vozes inexistentes.

⚠️ Atenção:
– Esses remédios devem ser usados com cuidado, porque podem piorar a confusão em alguns casos.
Nunca dê remédios sem orientação médica (muitos têm efeitos colaterais graves).


2. Terapias não medicamentosas

Os remédios ajudam, mas não são a única solução. Terapias não medicamentosas são tão importantes quanto e podem melhorar muito a qualidade de vida.

a) Fisioterapia

Como ajuda?
Melhora o equilíbrio e previne quedas (comum em pessoas com demência).
Mantém a mobilidade (evita que a pessoa fique acamada).
Reduz a agitação (o exercício libera endorfina, que acalma).

Exemplo de atividades:
– Caminhadas guiadas.
– Exercícios de alongamento.
– Dança (estimula o corpo e a mente).

Exemplo:
Seu José fazia fisioterapia 2x por semana. Depois de 3 meses:
– Parou de tropeçar tanto.
– Ficou mais disposto para sair de casa.
– Dormia melhor à noite.


b) Fonoaudiologia

Como ajuda?
Melhora a comunicação (ajuda a pessoa a encontrar palavras).
Trabalha a deglutição (evita engasgos e pneumonia).
Estimula a memória com exercícios de linguagem.

Exemplo de atividades:
– Nomear objetos em figuras.
– Ler em voz alta.
– Fazer exercícios para fortalecer os músculos da boca.

Exemplo:
Dona Ana fazia fonoaudiologia. Com o tempo:
– Passou a conseguir dizer frases mais completas.
– Parou de engasgar com líquidos.
– Reconhecia melhor os familiares.


c) Terapia ocupacional

Como ajuda?
Ensina estratégias para realizar tarefas do dia a dia (vestir-se, cozinhar, tomar banho).
Adapta a casa para evitar acidentes (barras no banheiro, tapetes antiderrapantes).
Estimula a independência pelo maior tempo possível.

Exemplo de atividades:
– Treinar o uso de talheres adaptados.
– Organizar a rotina com lembretes visuais (quadros, alarmes).
– Fazer atividades manuais (pintura, jardinagem).

Exemplo:
Dona Lúcia, que tinha dificuldade para se vestir, aprendeu com a terapeuta ocupacional a:
– Colocar as roupas em ordem (de baixo para cima).
– Usar roupas com velcro em vez de botões.
– Tomar banho com segurança (cadeira no box, sabonete líquido).


d) Estimulação cognitiva

Como ajuda?
Mantém o cérebro ativo (como um “exercício mental”).
Retarda a perda de memória.
Melhora o humor e a autoestima.

Exemplo de atividades:
– Jogos de memória (cartas, quebra-cabeças).
– Leitura em grupo.
– Música (cantar, tocar instrumentos).
– Terapia com animais (pet terapia).

Exemplo:
Seu Manuel participava de um grupo de estimulação cognitiva. Ele:
– Voltou a reconhecer algumas músicas antigas.
– Ficou mais sociável.
– Melhorou a atenção.


3. Mudanças no estilo de vida

O cérebro é como um músculo: quanto mais você o usa, mais forte ele fica. Mesmo com demência, hábitos saudáveis podem fazer uma grande diferença.

a) Alimentação

Alguns alimentos protegem o cérebro e outros pioram a inflamação. O ideal é uma dieta mediterrânea, rica em:

O que comer:
Peixes (salmão, sardinha — ricos em ômega-3).
Azeite de oliva (anti-inflamatório).
Frutas e vegetais (especialmente folhas verdes, mirtilo, nozes).
Grãos integrais (aveia, quinoa).
Cúrcuma (tem curcumina, que protege os neurônios).

O que evitar:
Açúcar refinado (piora a inflamação).
Gorduras trans (presentes em frituras e industrializados).
Excesso de sal (aumenta a pressão arterial).
Álcool em excesso (danifica os neurônios).

Exemplo de cardápio:
Café da manhã: Aveia com mirtilo e nozes + chá verde.
Almoço: Salmão grelhado com quinoa e brócolis + azeite de oliva.
Jantar: Sopa de lentilha com espinafre + pão integral.
Lanche: Iogurte natural com sementes de chia.


b) Exercício físico

O exercício melhora a circulação sanguínea no cérebro, reduz a inflamação e libera substâncias que protegem os neurônios.

Melhores atividades:
Caminhada (30 minutos por dia).
Natação (baixo impacto, bom para articulações).
Dança (estimula o corpo e a mente).
Tai chi chuan (melhora o equilíbrio).
Musculação leve (fortalece os músculos e previne quedas).

Exemplo:
Dona Clara caminhava 3x por semana. Depois de 6 meses:
– Parou de ter tonturas.
– Dormia melhor.
– Ficou mais disposta.


c) Sono

O sono é essencial para o cérebro “limpar” toxinas. Na demência, o sono costuma ficar desregulado (a pessoa dorme de dia e fica acordada à noite).

Dicas para melhorar o sono:
Horário regular: Deitar e acordar sempre no mesmo horário.
Ambiente escuro e silencioso: Evitar TV ou celular antes de dormir.
Banho morno à noite: Relaxa o corpo.
Evitar cafeína após as 15h.
Exposição à luz solar pela manhã (ajuda a regular o relógio biológico).

Exemplo:
Seu Antônio tinha insônia. Depois de seguir essas dicas:
– Passou a dormir 6 horas seguidas.
– Ficou menos agitado durante o dia.
– Melhorou a memória.


d) Rotina estruturada

Pessoas com demência se sentem mais seguras com uma rotina previsível. Mudanças bruscas podem causar ansiedade e confusão.

Como organizar o dia:
Manhã: Café da manhã + caminhada + atividade cognitiva (leitura, jogo).
Tarde: Almoço + soneca (30 min) + terapia ocupacional.
Noite: Jantar leve + banho + música relaxante.

Exemplo:
Dona Maria seguia uma rotina rígida. Isso fez com que:
– Ela parasse de vagar pela casa à noite.
– Ficasse menos irritada.
– Reconhecesse melhor os horários das refeições.


Convivendo com o diagnóstico

Receber o diagnóstico de demência muda a vida da pessoa e de toda a família. É normal sentir medo, tristeza, raiva ou negação. Mas, com o tempo, é possível encontrar formas de viver bem, mesmo com as limitações.

Vamos ver como lidar com essa nova realidade.


Para a pessoa com o diagnóstico

1. Aceitar os sentimentos

É normal sentir:
Medo (“Vou esquecer minha família?”).
Raiva (“Por que isso está acontecendo comigo?”).
Tristeza (“Não vou mais conseguir fazer o que gosto”).
Vergonha (“As pessoas vão me tratar diferente”).

O que fazer?
Fale sobre o que sente (com familiares, amigos ou um psicólogo).
Não se isole: Mesmo que seja difícil, manter contato social é importante.
Permita-se chorar: Não há problema em ter dias ruins.

Exemplo:
Seu João, após o diagnóstico, ficou muito deprimido. Com terapia, ele aprendeu a:
– Expressar seus medos para a esposa.
– Continuar fazendo pequenas coisas que gostava (como ouvir música).
– Aceitar ajuda sem se sentir “incapaz”.


2. Manter a independência pelo maior tempo possível

Mesmo com demência, é possível fazer muitas coisas sozinho. O segredo é:
Simplificar tarefas (usar roupas com velcro, talheres adaptados).
Usar lembretes (quadros, alarmes, aplicativos).
Pedir ajuda quando necessário (sem vergonha).

Exemplo:
Dona Ana, que tinha dificuldade para cozinhar, passou a:
– Usar receitas com fotos (em vez de texto).
– Cozinhar com a ajuda da filha (uma tarefa de cada vez).
– Usar um timer para não esquecer o fogão ligado.


3. Cuidar da saúde física e mental

  • Faça exercícios (mesmo que seja só uma caminhada).
  • Alimente-se bem (evite açúcar e gorduras ruins).
  • Durma o suficiente (sono ruim piora a memória).
  • Faça atividades prazerosas (música, pintura, jardinagem).

Exemplo:
Seu Pedro, que adorava jardinagem, continuou cuidando das plantas. Isso:
– Mantinha sua mente ativa.
– Dava uma sensação de propósito.
– Melhorava seu humor.


4. Planejar o futuro

É difícil pensar nisso, mas planejar com antecedência evita problemas no futuro. Algumas coisas para conversar com a família:
Quem vai cuidar de você quando não puder mais viver sozinho?
Quem vai administrar seu dinheiro?
Você quer ser reanimado em caso de parada cardíaca?
Prefere ficar em casa ou em uma instituição?

Documentos importantes:
Testamento vital (diretivas antecipadas de vontade).
Procuração (para alguém administrar seus bens).
Plano de cuidados (o que você deseja em termos de tratamento).

Exemplo:
Dona Clara fez um testamento vital dizendo que:
– Não queria ser mantida viva por aparelhos.
– Preferia cuidados paliativos em casa.
– Deixou uma procuração para a filha administrar suas finanças.


Para familiares e amigos

Cuidar de uma pessoa com demência é desafiador, mas também pode ser uma experiência de amor e crescimento. O mais importante é:
Ter paciência (a pessoa não está “fazendo de propósito”).
Cuidar de si mesmo (você não pode ajudar se estiver esgotado).
Buscar apoio (grupos de cuidadores, terapia).


1. Como ajudar de forma efetiva (e o que NÃO fazer)

O que fazer:
Simplifique a comunicação:
– Fale devagar, com frases curtas.
– Use gestos e expressões faciais.
– Faça uma pergunta de cada vez (“Você quer água?” em vez de “O que você quer beber?”).
Mantenha a rotina:
– Horários fixos para refeições, banho e sono.
– Ambiente organizado (menos objetos espalhados = menos confusão).
Use lembretes visuais:
– Calendários, quadros, alarmes.
– Fotos com nomes (para ajudar a reconhecer pessoas).
Estimule a independência:
– Deixe a pessoa fazer o que consegue (mesmo que demore).
– Ofereça ajuda só quando necessário.
Seja paciente com repetições:
– Se ela perguntar a mesma coisa 10 vezes, responda com calma.
– Não diga “Você já me perguntou isso!” (isso a deixa frustrada).

O que NÃO fazer:
Corrigir ou discutir: Se ela disser que é 1990, não insista que é 2024. Entre no mundo dela.
Falar como se ela não estivesse ali: Mesmo que ela não entenda tudo, ela sente o tom de voz.
Mudar a casa de lugar: Pessoas com demência se orientam por objetos familiares. Mudar móveis de lugar pode causar confusão.
Deixar a pessoa sozinha por muito tempo: Ela pode se perder, esquecer o fogão ligado ou se machucar.
Ignorar seus próprios sentimentos: Cuidar de alguém com demência é emocionalmente desgastante. Não se sinta culpado por precisar de ajuda.

Exemplo:
Dona Maria perguntava todo dia: “Quando meu marido volta do trabalho?” (ele já havia falecido há 10 anos). Em vez de dizer “Ele morreu, mãe!”, a filha respondia: “Ele já vem, mãe. Vamos tomar um café enquanto espera?”. Isso evitava sofrimento desnecessário.


2. Como cuidar de si mesmo enquanto cuida do outro

Cuidar de uma pessoa com demência pode levar ao esgotamento (síndrome do cuidador). Sinais de alerta:
Cansaço extremo.
Irritabilidade constante.
Dificuldade para dormir.
Sentimento de culpa.
Isolamento social.

O que fazer?
Peça ajuda: Não tente fazer tudo sozinho. Divida tarefas com outros familiares.
Tire um tempo para si: Mesmo que sejam só 30 minutos por dia para ler, caminhar ou tomar um café.
Participe de grupos de apoio: Conversar com outras pessoas na mesma situação ajuda muito.
Faça terapia: Um psicólogo pode ajudar a lidar com a culpa, a raiva e a tristeza.
Aceite que você não é perfeito: Alguns dias serão melhores que outros.

Exemplo:
Joana cuidava da mãe com demência sozinha. Depois de um tempo, ela:
– Contratou uma cuidadora para ajudar 3x por semana.
– Começou a ir à terapia.
– Passou a sair com amigas uma vez por semana.
Sua mãe não piorou por isso — e Joana conseguiu respirar.


3. Como explicar para outras pessoas

Muitas pessoas não entendem o que é demência e podem fazer comentários inadequados. Algumas dicas para explicar:

Para crianças:
“O vovô está doente, e às vezes ele esquece as coisas. Não é culpa dele.”
“Ele pode ficar bravo sem motivo, mas não é com você.”
“Vamos ajudá-lo a se sentir seguro.”

Para amigos e familiares:
“Demência não é só esquecimento. É uma doença que afeta o cérebro.”
“Ele não está fazendo isso de propósito. É a doença.”
“Precisamos de paciência e compreensão.”

Para desconhecidos (em público):
“Ele tem uma doença que afeta a memória. Desculpe se ele disse algo estranho.”
“Obrigada pela compreensão.”

Exemplo:
Quando seu Antônio começou a tirar a roupa no supermercado, a filha explicou para as pessoas ao redor: “Meu pai tem demência. Às vezes ele não percebe o que está fazendo. Desculpem o constrangimento.”


Quando os sintomas podem piorar?

A demência é progressiva, ou seja, os sintomas vão piorando com o tempo. Mas alguns fatores podem acelerar essa piora:

⚠️ O que piora os sintomas?
Infecções (como infecção urinária ou pneumonia).
Desidratação ou desnutrição.
Mudanças bruscas (mudar de casa, perder um familiar).
Remédios inadequados (alguns pioram a confusão).
Isolamento social (a falta de estímulo acelera a perda cognitiva).
Estresse e ansiedade (pioram a memória).

Exemplo:
Dona Lúcia estava estável até pegar uma pneumonia. Depois da infecção:
– Ficou mais confusa.
– Parou de reconhecer a filha.
– Precisou de mais ajuda para se alimentar.

O que fazer?
Prevenir infecções (vacinas, higiene, hidratação).
Manter uma rotina estável.
Evitar mudanças desnecessárias.
Monitorar a medicação (sempre com orientação médica).


Perguntas frequentes

1. Demência tem cura?

Não, mas tem tratamento.
Não existe cura para a maioria dos tipos de demência, incluindo a de causa desconhecida.
Mas há tratamentos que podem:
– Melhorar os sintomas (memória, linguagem, comportamento).
– Retardar a progressão da doença.
– Melhorar a qualidade de vida.
Pesquisas estão avançando: Novos remédios e terapias estão sendo testados.

Exemplo:
Seu João tomava remédios e fazia terapia ocupacional. Ele não voltou ao normal, mas conseguiu viver bem por mais 5 anos após o diagnóstico.


2. Meu familiar não aceita que está doente. O que fazer?

Isso é comum. Muitas pessoas com demência não percebem seus próprios sintomas (anosognosia). Algumas estratégias:
Não force a aceitação: Dizer “Você está doente!” pode causar raiva ou negação.
Use exemplos concretos: “Mãe, você esqueceu onde guardou as chaves três vezes esta semana. Vamos ao médico para ver se está tudo bem?”
Envolva um profissional: Às vezes, a pessoa aceita melhor ouvir de um médico.
Proteja-a sem infantilizar: Se ela não quer ajuda, encontre formas discretas de cuidar (como deixar lembretes pela casa).

Exemplo:
Dona Ana não acreditava que tinha demência. A filha:
– Não discutia.
– Deixava bilhetes pela casa (“Mãe, hoje é quarta-feira. Seu remédio está aqui.”).
– Levou-a ao médico dizendo: “Vamos fazer um check-up, só para garantir.”


3. Como lidar com a agressividade?

A agressividade é um sintoma comum e não é pessoal. Algumas dicas:
Mantenha a calma: Não revide ou discuta.
Identifique o gatilho: Fome, dor, cansaço ou frustração podem causar explosões.
Distraia a pessoa: Mude de assunto ou ofereça uma atividade (“Vamos tomar um café?”).
Dê espaço: Se ela estiver muito irritada, saia de perto por alguns minutos.
Evite confrontos: Não diga “Você está errado!”. Entre no mundo dela.

Exemplo:
Seu Antônio ficava agressivo na hora do banho. A cuidadora:
– Deixava a água na temperatura certa antes de chamá-lo.
– Colocava música relaxante no banheiro.
– Dizia: “Vamos lavar o cabelo, como você gosta?” (em vez de “Você precisa tomar banho!”).


4. É seguro deixar a pessoa sozinha?

Depende do estágio da doença.
Estágio leve: Pode ficar sozinha por curtos períodos, mas com supervisão à distância (alarmes, câmeras, vizinhos de confiança).
Estágio moderado: Não é seguro ficar sozinha (risco de esquecer o fogão ligado, se perder, cair).
Estágio avançado: Precisa de cuidado 24 horas.

Dicas de segurança:
Instale alarmes (de gás, fumaça, porta).
Tranque medicamentos e produtos de limpeza.
Deixe um telefone com números de emergência em local visível.
Use pulseiras de identificação (com nome e telefone).

Exemplo:
Dona Clara, em estágio moderado, tinha:
– Um alarme na porta que tocava se ela saísse.
– Um fogão com desligamento automático.
– Um vizinho que olhava para ela todos os dias.


5. Como é o fim da vida na demência?

A demência é uma doença terminal, mas o fim da vida pode ser tranquilo com cuidados paliativos. Alguns pontos importantes:
Nos estágios avançados, a pessoa:
– Perde a capacidade de falar e se comunicar.
– Não reconhece mais familiares.
– Tem dificuldade para engolir (risco de pneumonia).
– Fica acamada.
Cuidados paliativos focam em:
Conforto (dor, falta de ar).
Dignidade (higiene, alimentação).
Apoio à família (orientação, suporte emocional).
Não é necessário prolongar o sofrimento: Em alguns casos, não há benefício em alimentação artificial ou reanimação.

Exemplo:
Seu José, em estágio avançado, recebeu cuidados paliativos em casa. A família:
– Garantiu que ele estivesse sempre limpo e confortável.
– Oferecia comida e água em pequenas quantidades (para evitar engasgos).
– Ficava ao lado dele, segurando sua mão e falando coisas carinhosas.


6. Existe prevenção?

Sim! Até 40% dos casos de demência podem ser prevenidos com hábitos saudáveis. Algumas dicas:

O que fazer para reduzir o risco?
Controle doenças crônicas (diabetes, hipertensão, colesterol).
Exercite-se regularmente (pelo menos 150 minutos por semana).
Alimente-se bem (dieta mediterrânea).
Mantenha a mente ativa (leitura, jogos, cursos).
Durma bem (7-9 horas por noite).
Evite álcool e cigarro.
Socialize (converse com amigos, participe de grupos).
Proteja a cabeça (use capacete ao andar de bicicleta, evite quedas).

Exemplo:
Dona Maria, aos 60 anos, decidiu:
– Caminhar 30 minutos por dia.
– Fazer palavras cruzadas.
– Controlar a pressão arterial.
– Sair com amigas uma vez por semana.
Aos 80 anos, ela não desenvolveu demência.


7. Como falar sobre demência sem estigmatizar?

Muitas pessoas têm medo ou preconceito em relação à demência. Algumas dicas para falar sobre o assunto:

O que dizer:
“Demência é uma doença, não uma escolha.”
“A pessoa não está ‘louca’ — o cérebro dela está doente.”
“Ela ainda sente amor, mesmo que não consiga expressar.”
“Precisamos de mais pesquisas e apoio para quem vive com demência.”

O que NÃO dizer:
“É só velhice.”
“Ela está ficando gagá.”
“Não adianta fazer nada, vai piorar mesmo.”
“É melhor internar logo.”

Exemplo:
Quando alguém dizia “Coitada, ela não sabe nem quem é”, a filha de Dona Ana respondia: “Minha mãe sabe quem eu sou no coração. Ela só tem dificuldade para lembrar as palavras.”


Quando procurar ajuda urgente

Alguns sinais indicam que a situação é grave e precisa de atendimento imediato:

🚨 Sinais de alerta vermelho (procure um hospital)

  • Febre alta + confusão (pode ser infecção grave, como pneumonia ou meningite).
  • Queda com batida na cabeça (risco de sangramento no cérebro).
  • Dificuldade para respirar ou dor no peito.
  • Não reconhecer familiares próximos (em casos avançados).
  • Agressividade extrema (risco para si ou para outros).
  • Não conseguir engolir (risco de desidratação ou aspiração).

🟡 Sinais de alerta amarelo (marque consulta com urgência)

  • Piora súbita da memória ou confusão (pode ser efeito de remédio ou infecção).
  • Alucinações ou delírios (ver ou ouvir coisas que não existem).
  • Incontinência urinária ou fecal (pode indicar infecção ou problema neurológico).
  • Perda de força em um lado do corpo (pode ser AVC).
  • Choro ou apatia extrema (pode ser depressão grave).

Onde procurar ajuda?
SUS: UPA (Unidade de Pronto Atendimento), pronto-socorro de hospitais.
Particular: Pronto-socorro de hospitais ou clínicas.
CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue 188 em caso de sofrimento emocional.


Referências

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
  2. American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  3. Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
  4. Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
  5. Alzheimer’s Association. 2023 Alzheimer’s Disease Facts and Figures. 2023.
  6. Petersen, R. C. Mild Cognitive Impairment. New England Journal of Medicine, 2011.
  7. Albert, M. S. et al. The Diagnosis of Mild Cognitive Impairment due to Alzheimer’s Disease. Alzheimer’s & Dementia, 2011.
  8. Clínica Psiquiátrica da USP. Demências: Abordagem Multidisciplinar. 2ª ed. São Paulo: Atheneu, 2018.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.

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