Delirium por doença de Whipple

Definição e conceito

Delirium por doença de Whipple é uma manifestação neuropsiquiátrica de uma infecção bacteriana sistêmica rara, causada pelo bacilo Tropheryma whipplei. Na semiologia psiquiátrica, o delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda caracterizada por um rebaixamento do nível de consciência, desorientação temporoespacial, distúrbios da atenção e da cognição, e frequentemente alucinações ou ilusões. Quando ocorre no contexto da doença de Whipple, o delirium é um sintoma secundário à invasão do sistema nervoso central (SNC) pelo agente infeccioso e aos seus efeitos sistêmicos, como distúrbios metabólicos e nutricionais.

Conceitos adjacentes importantes incluem:

  • Delirium (Síndrome Confusional Aguda): Estado mental de origem orgânica, com flutuação diurna, frequentemente associado a alucinações visuais e ilusões. Termo técnico em inglês: Delirium.
  • Demência: Declínio cognitivo progressivo e crônico. Na doença de Whipple, pode ocorrer como sequela ou concomitante ao delirium. Termo técnico em inglês: Dementia.
  • Encefalopatia: Termo mais amplo para disfunção cerebral difusa de causa orgânica. O delirium é uma forma específica de encefalopatia.
  • Doença de Whipple (Whipple’s Disease): Doença multissistêmica infecciosa rara, com manifestações clássicas gastrointestinales (diarreia, má absorção, dor abdominal), mas que pode apresentar comprometimento cardíaco, articular e neurológico.

A doença de Whipple é extremamente rara, com incidência estimada inferior a 1 caso por 1.000.000 de habitantes. A forma neurológica isolada (sem sintomas digestivos evidentes) é ainda mais infrequente. O delirium como apresentação inicial ou componente principal do quadro neurológico é uma ocorrência descrita, mas não a mais comum. A doença afeta predominantemente homens de meia-idade (40-60 anos), mas pode ocorrer em qualquer idade e sexo.

Apresentação clínica

O delirium na doença de Whipple se insere dentro de um quadro infeccioso sistêmico crônico e insidioso. Sua manifestação é, portanto, frequentemente precedida ou acompanhada por sinais e sintomas somáticos, o que é crucial para o diagnóstico diferencial com transtornos psiquiátricos primários.

Domínio Cognitivo:

  • Nível de Consciência: Rebaixamento leve a moderado, caracterizado por obnubilação mental, dificuldade em manter o alerta e sonolência. Como descrito por Dalgalarrondo, há flutuação marcada ao longo do dia, com possível lucidez relativa pela manhã e deterioração no fim da tarde e à noite ("sundowning").
  • Atenção: Hipermobilidade ou, mais frequentemente, dificuldade severa de concentração e sustentação da atenção. O paciente não consegue seguir uma conversa ou tarefa simples.
  • Orientação: Desorientação temporoespacial marcada. O paciente pode não saber onde está, a data, ou o contexto da hospitalização.
  • Memória: Distúrbios na fixação (memória de trabalho) e na evocação, contribuindo para a confusão. Podem ocorrer fenômenos como ecmnésia (sensação de reviver o passado como presente).
  • Pensamento: Discurso ilógico, confuso e desorganizado. O curso do pensamento pode estar acelerado ou lentificado. Ideias deliroides (não sistematizadas como delírios crônicos) são comuns, frequentemente de conteúdo persecutório ou de falsos reconhecimentos (misidentification delusion).

Domínio Perceptivo:

  • Alucinações e Ilusões: Predominantemente visuais, conforme a característica clássica do delirium. O paciente pode ver insetos, pessoas ou formas que não estão presentes. Ilusões (interpretações errôneas de estímulos reais) também são frequentes, como confundir a tubulação do hospital com serpentes.

Domínio Afetivo:

  • Labilidade Afetiva: Oscilação rápida e inexplicável entre estados de ansiedade, irritabilidade, apatia ou exaltação.
  • Perplexidade: Expressão facial de confusão e incompreensão do entorno.

Domínio Comportamental:

  • Psicomotricidade: Agitação psicomotora (hiperativo) ou lentificação/retardo (hipoativo). O subtipo hipoativo é frequentemente subdiagnosticado.
  • Ciclo Sono-Vigília: Distúrbio grave, com inversão do padrão, insônia nocturna e sonolência diurna.

Domínio Somático (Contexto da Doença de Whipple):
Estes sintomas podem preceder o delirium por meses ou anos, e sua presença é um guia diagnóstico fundamental:

  • Gastrointestinal: Diarreia crônica (esteatorreica), dor abdominal, perda de peso progressiva (consumpção), má absorção com deficiências nutricionais múltiplas.
  • Sistêmicos: Febre baixa e intermitente, artralgias/artrite (frequentemente simétrica e migratória), linfadenopatia, anemia.
  • Cardíacos: Endocardite, pericardite.
  • Neurológicos ( além do delirium): Mioclonia (frequente e característica), oftalmoplegia supranuclear, ataxia, sinais de envolvimento do tronco cerebral, polineuropatia, síndrome demencial progressiva.

Exemplo Clínico Conciso:
Paciente masculino, 55 anos, admitido na enfermaria médica por diarreia crônica e perda de peso de 15 kg em 8 meses. Relata artralgias nos últimos dois anos. No terceiro dia de internação, à noite, torna-se agitado, aponta para o corredor dizendo ver "formas sombrias que o observam". Confunde a enfermeira com uma prima falecida. Durante a entrevista pela manhã, está mais calmo mas ainda desorientado ("acho que estamos em 1995"), com atenção extremamente lábil e discurso fragmentado sobre "perseguição por enzimas". Exame físico revela mioclonia palpebral e ocasional em membros.

Neurobiologia e fisiopatologia

O delirium na doença de Whipple resulta de uma agressão difusa ao metabolismo cerebral, conforme o modelo etiológico do delirium onde múltiplos fatores têm efeito somatório. A fisiopatologia envolve dois componentes principais: a infecção direta do SNC e as consequências sistêmicas da doença.

  1. Invasão Direta do Sistema Nervoso Central: Tropheryma whipplei é um actinomiceto intracelular. No SNC, ele infecta macrófagos e células gliais, formando agregados bacterianos (inclusões PAS-positivas) no parênquima cerebral, especialmente no diencéfalo, hipocampo, tronco cerebral e núcleos da base. Esta infecção direta causa inflamação local, disfunção neuronal e possivelmente obstrução de fluxos liquorosos. A localização em áreas reguladoras do ciclo sono-vigília, atenção e consciência (tálamo, hipocampo) explica diretamente os sintomas do delirium.

  2. Distúrbios Metabólicos e Nutricionais Sistêmicos: A má absorção intestinal crônica leva a:

    • Deficiências Vitamínicas: Particularmente de vitamina B12 (cianocobalamina) e vitamina B1 (tiamina), ambas essenciales para o metabolismo neuronal. Dalgalarrondo destaca que a deficiência de B12 está associada a quadros de delirium e demência. A deficiência de tiamina pode levar a componentes da encefalopatia de Wernicke.
    • Consumpção e Desnutrição: Estado catabólico crônico que reduz a reserva energética cerebral e a síntese de neurotransmissores.
    • Inflamação Sistêmica Crônica: A infecção disseminada mantém um estado de resposta inflamatória sistêmica, com liberação de citocinas que podem atravessar a barreira hematoencefálica e afetar a função cerebral (modelo de "encefalopatia inflamatória").
  3. Mecanismos Neurobiológicos do Delirium: Independentemente da causa específica, o delirium compartilha mecanismos finais comuns:

    • Disfunção dos Sistemas de Neurotransmissão: Redução da atividade cholinérgica central é um dos principais mecanismos. A inflamação e as deficiências nutricionais podem exacerbar esta disfunção. Alterações nos sistemas dopaminérgico, serotoninérgico e gabaérgico também contribuem.
    • Estresse Oxidativo e Falência Metabólica Neuronal: A incapacidade das células neuronais de manter a homeostase energética frente à agressão infecciosa e nutricional.
    • Alteração da Conectividade Funcional em Rede: Disfunção em redes neuronais amplas que sustentam a atenção, consciência e integração perceptiva, particularmente envolvendo o córtex pré-frontal, tálamo e núcleos da base.

Evidências de Neuroimagem: Na doença de Whipple neurológica, a MRI pode mostrar:
* Atrofia cortical generalizada.
* Hiperintensidades em T2/FLAIR no diencéfalo, tronco cerebral ou substância branca periventricular.
* Raramente, lesões nodulares ou inflamatórias focais.
A PET pode mostrar hipometabolismo difuso ou frontal.

A genética da doença de Whipple ainda não é completamente elucidada, mas há associação com certos haplótipos HLA (como HLA-B27), sugerindo uma predisposição imunogenética à infecção persistente.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

Achados ao Exame do Estado Mental:

  • Aparência Geral e Comportamento: Paciente pode estar agitado, tentando remover dispositivos médicos, ou apático e imóvel. Mioclonia observável é um sinal neurológico crucial.
  • Atenção e Concentração: Testes simples como sequência de dias da semana ou meses do ano para trás são mal executados. Não consegue realizar subtração serial (100-7).
  • Linguagem e Pensamento: Discurso incoerente, com tangencialidade ou circunstancialidade. Ideias deliroides persecutórias ou de falsa identificação são expressadas de forma fragmentada e não sistemática.
  • Percepção: Relato espontâneo de alucinações visuais. Perguntar diretamente: "Você está vendo coisas que outras pessoas não veem? Como são?"
  • Cognição: Desorientação para tempo, lugar e pessoa. Memória imediata e recente prejudicada. Funções executivas (planejamento, abstração) severamente comprometidas.
  • Insight: Ausente. O paciente não tem consciência de seu estado confusional.

Instrumentos e Escalas de Avalção Padronizadas:

  • Confusion Assessment Method (CAM): Instrumento breve e válido para diagnóstico de delirium, baseado em quatro critérios: 1) Alteração aguda e flutuante do estado mental; 2) Atenção inapropriada; 3) Pensamento desorganizado; 4) Nível de consciência alterado.
  • Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98): Escala mais detalhada para avaliação da severidade e monitoramento.
  • Mini-Mental State Examination (MMSE): Pode ser usado, mas tem limitações na avaliação específica do delirium, sendo mais útil para demência.

Diagnóstico Diferencial Estruturado:

Condição Pontos de Diferença Cruciais Contexto na Doença de Whipple
Esquizofrenia (Dalgalarrondo, p.775) Surgimento insidioso, personalidade pré-mórbida esquizoide/esquizotípica. Pouca flutuação diurna. Alucinações predominantemente auditivas. Orientação geralmente preservada. Delírios sistematizados. Ausência de distúrbio marcado do ciclo sono-vigília. O delirium na Whipple tem flutuação marcada, alucinações visuais, desorientação e sintomas somáticos proeminentes.
Demência (ex.: Alzheimer) Declínio cognitivo progressivo e crônico, sem flutuação acentuada. Nível de consciência geralmente preservado. Delírios podem ocorrer (persecutórios ou de falsos reconhecimentos), mas são mais crônicos. O delirium é um estado agudo/subagudo. Na Whipple, pode coexistir com uma demência progressiva, mas o componente confusional é flutuante e agudo.
Transtorno Depressivo com Sintomas Psicóticos Humor depressivo predominante e persistente. Delírios/alusões congruentes com o humor (culpa, ruína). Ausência de desorientação e flutuação. A desorientação e flutuação são centrais no delirium. Sintomas somáticos da Whipple não são explicados por depressão.
Delirium Tremens (Abstinência Alcoólica) História de uso pesado de álcool. Sinais de hiperatividade autonômica (taquicardia, hipertensão). Alucinações visuais também presentes. A presença de diarreia crônica, artralgias e mioclonia não são características do delirium tremens.
Delirium por outras causas médicas (Infecção urinária, metabólica, medicamentos) Investigação revela outra causa precipitante (ex.: hipoglicemia, infecção urinária, uso de anticolinérgicos). A investigação exaustiva de todas as causas possíveis é mandatória (Dalgalarrondo, p.774). A Whipple é uma causa rara, mas deve ser considerada quando há sintomas sistêmicos compatíveis.
Encefalopatia Hepática ou Renal História e exames compatíveis com doença hepática/renal avançada. Sinais neurológicos específicos (asterixe, fetor hepático). Os sintomas gastrointestinales da Whipple podem mimetizar doença hepática, mas a biópsia e PCR são diagnósticos distintos.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Atribuir o quadro apenas à deficiência nutricional: Corre-se o risco de tratar apenas as deficiências de B12 ou tiamina e não erradicar a infecção bacteriana de base, levando à recorrência.
  2. Diagnóstico como transtorno psiquiátrico primário: A apresentação neuropsiquiátrica proeminente, especialmente se os sintomas digestivos são discretos, pode levar a um diagnóstico errôneo de esquizofrenia ou transtorno delirante.
  3. Ignorar a mioclonia: A mioclonia, especialmente oculomastigatória (movimentos repetitivos dos olhos e da mandíbula), é um sinal quase patognomônico da doença de Whipple neurológica e deve ser ativamente pesquisada.
  4. Interromper a investigação após encontrar uma causa: Dalgalarrondo enfatiza que não se deve interromper a investigação quando uma primeira causa é identificada, pois o delirium frequentemente resulta de múltiplos fatores com efeito somatório. Encontrar uma infecção urinária não exclui a Whipple como causa concomitante.

Condições associadas

O delirium na doença de Whipple não é um transtorno isolado, mas um sintoma dentro de uma doença sistêmica específica. Portanto, suas "condições associadas" são as outras manifestações da doença de Whipple:

  1. Doença de Whipple Gastrointestinal: A forma clássica, com má absorção, diarreia, dor abdominal e perda de peso. É a apresentação mais comum e frequentemente precede o envolvimento neurológico.
  2. Doença de Whipple Neurológica Isolada: Forma rara onde os sintomas neurológicos (delirium, demência, mioclonia, oftalmoplegia) são predominantes ou exclusivos, sem sintomas digestivos evidentes. É a forma mais desafiadora para o diagnóstico.
  3. Demência por Doença de Whipple: O comprometimento cognitivo pode evoluir para um quadro demencial progressivo e irreversível, especialmente se o tratamento for tardio. Dalgalarrondo lista a doença de Whipple entre as "Demências por Infecções do SNC" (p.796).
  4. Deficiências Nutricionais Múltiplas: A má absorção leva a deficiências de vitamina B12, tiamina, ácido fólico, ferro, etc., que por si só podem causar ou exacerbam o delirium e outros sintomas neurológicos.
  5. Endocardite por Tropheryma whipplei: Manifestação cardíaca que pode ser fonte de embolização e complicar o quadro neurológico.

Correlações com CID-11 e DSM-5-TR:

  • CID-11: O delirium seria codificado sob 6D70 Delirium, atribuindo-se a causa à doença de Whipple (1C44 Doença de Whipple). A demência associada seria codificada em 6D80 Demência.
  • DSM-5-TR: O quadro seria diagnosticado como Delirium (293.0) devido a outra condição médica, especificando a doença de Whipple. O DSM-5 não possui um código específico para a doença de Whipple, utilizando-se os códigos para "Condição Médica Outra".

Implicações terapêuticas

O tratamento do delirium por doença de Whipple é primariamente o tratamento da infecção de base, combinado com o manejo sintomático do estado confusional e a correção dos déficits nutricionais.

Abordagem Farmacológica:

  1. Terapia Antibiótica para Erradicação da Infecção: É o tratamento fundamental. O esquema padrão envolve duas fases:

    • Fase de Indução (2 semanas): Ceftriaxona 2g IV diariamente ou Penicilina G 2 milhões de unidades IV 4x/dia. Esta fase visa tratar a possível endocardite e alcançar altas concentrações no SNC.
    • Fase de Manutenção (1 ano ou mais): Trimetoprim-sulfametoxazol (TMP-SMX) 160/800mg oral 2x/dia. Alternativas incluem doxiciclina + hidroxicloroquina. O tratamento prolongado é necessário devido à natureza intracelular e recidivante da bactéria.
  2. Correção de Deficiências Nutricionais: Reposição agressiva de:

    • Vitamina B12: Inicialmente por via intramuscular.
    • Tiamina (Vitamina B1): Via intravenosa ou intramuscular.
    • Outras vitaminas e minerais (ácido fólico, ferro) conforme necessidade.
  3. Manejo Sintomático do Delirium: Os psicofármacos devem ser usados com cautela, apenas se necessário para segurança do paciente ou controle de agitação severa, e sempre em doses baixas e por tempo limitado.

    • Antipsicóticos de Baixa Potência: Haloperidol ainda é utilizado, mas sua carga anticolinérgica e risco de efeitos extrapiramidais são preocupantes. Dose inicial muito baixa (0,5-1mg).
    • Antipsicóticos Atípicos: Risperidona ou Olanzapina em doses mínimas podem ser alternativas, mas também com riscos metabólicos e sedativos.
    • Evitar Benzodiazepínicos: Podem exacerbam a confusão e o delirium, exceto em casos muito específicos de agitação extrema com monitoração rigorosa.

Abordagens Não-Farmacológicas (Fundamentais):

  • Manejo Ambiental: Ambiente calmo, com iluminação adequada durante o dia e redução de ruídos. Presença de familiares conhecidos pode ajudar na orientação.
  • Reorientação: Comunicação simples, repetitiva e clara. Uso de calendários, relógios e referências familiares.
  • Estimulação Cognitiva Adequada: Atividades simples e orientadas, evitando tanto o isolamento quanto a sobrestimulação.
  • Manutenção do Ciclo Sono-Vigília: Estimular a vigília durante o dia com atividades e garantir períodos de sono tranquilo à noite.

Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:

  • Sem Tratamento: A doença de Whipple neurológica é progressiva e fatal. O delirium pode evoluir para coma e morte.
  • Com Tratamento Adequado e Precoce: A resposta ao tratamento antibiótico pode ser dramática, com resolução completa do delirium e recuperação neurológica significativa. O prognóstico é favorável.
  • Com Tratamento Tardio: O delirium pode se resolver, mas déficits neurológicos residuais (demência, mioclonia persistente, ataxia) são comuns devido a lesões irreversíveis. O componente demencial pode não responder totalmente.
  • Recidivas: São frequentes se o tratamento não for prolongado. O delirium pode reaparecer, exigindo reavaliação e possível reinício da terapia.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Como o Paciente Vivencia:
O paciente em delirium por Whipple vive em um estado de perplexidade angustiante. O mundo percebido é fragmentado, incoerente e frequentemente ameaçador devido às alucinações visuais e ideias persecutórias. A desorientação temporal cria uma sensação de estar "perdido no tempo". A flutuação dos sintomas pode gerar momentos de lucidez intercalados com períodos de confusão profunda, o que é ainda mais perturbador. A mioclonia e outros sintomas neurológicos são sentidos como perda de controle sobre o próprio corpo. O paciente pode não ter insight, atribuindo suas experiências a fenômenos externos (perseguição, feitiço) ou não conseguindo formular uma narrativa sobre seu estado.

Comunicação com o Paciente e Família:

  • Para o Paciente (durante períodos de lucidez relativa): Use linguagem simples, direta e não confrontativa. Reafirme sua identidade, o local e a razão da hospitalização. "Você está no Hospital X, é dia Y, você está aqui porque estamos tratando uma infecção que está causando essa confusão. As coisas que você vê são parte da doença, elas desaparecerão com o tratamento." Evite debates sobre as alucinações ou delírios.
  • Para a Família: É crucial educar a família sobre:
    • A natureza orgânica da condição: "Este não é um problema psiquiátrico primário, mas uma confusão mental causada por uma infecção bacteriana rara que também afeta o intestino e outras partes do corpo."
    • A flutuação dos sintomas: "Ele pode estar mais claro pela manhã e muito confuso à noite. Isso é característico."
    • Os sinais de alerta: Agitação severa, tentativas de fugir, alucinações visuais.
    • O papel deles no manejo: Presença calmante, reorientação simples, reportar mioclonia ou novos sintomas.
    • O tratamento longo: "O tratamento com antibióticos será por mais de um ano para evitar que volte."
    • O risco de sequelas: "Mesmo com tratamento, pode haver alguma perda de memória ou movimentos involuntários persistentes."

Impacto Funcional:
Durante o episódio de delirium, o paciente é completamente incapaz de qualquer atividade laboral, de autocuidado ou de manter relacionamentos sociais de forma funcional. A dependência é total. Após o tratamento, o impacto funcional depende da extensão das sequelas neurológicas:

  • Sem sequelas significativas: Retorno possível à vida profissional e social pré-mórbida.
  • Com déficits cognitivos residuais (demência): Dependência parcial ou total, necessidade de apoio para atividades diárias, impossibilidade de retorno ao trabalho.
  • Com mioclonia ou ataxia persistente: Limitações na mobilidade, na escrita, na alimentação, impactando a autonomia e qualidade de vida.

Perguntas frequentes

1. O delirium por doença de Whipple é uma forma de esquizofrenia?
Não. É uma síndrome orgânica (causada por uma infecção) com sintomas que podem mimetizar aspectos psicóticos. A esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico primário de origem multifatorial, com curso crônico e sem flutuação diurna marcada, alucinações predominantemente auditivas e geralmente sem desorientação ou sintomas somáticos proeminentes como diarreia crônica e mioclonia.

2. Por que o tratamento com antibióticos precisa ser tão longo (um ano ou mais)?
Tropheryma whipplei é uma bactéria intracelular que se replica dentro de células do hospedeiro, tornando sua erradicação difícil. O tratamento prolongado é necessário para eliminar completamente a bactéria de todos os focos (intestino, SNC, outros tecidos) e prevenir recidivas, que são muito comuns com terapias curtas.

3. As deficiências de vitaminas (B12, B1) causam o delirium ou são apenas consequências?
São fatores contribuintes com efeito somatório. A má absorção na doença de Whipple causa as deficiências, que por si só podem levar a delirium e outras encefalopatias. No entanto, a infecção cerebral direta é a causa primária. Tratar apenas as deficiências sem erradicar a bactéria não resolverá o problema de base e o delirium pode recidivar.

4. A mioclonia (movimentos involuntários) é sempre presente?
Não é sempre presente, mas quando ocorre na doença de Whipple neurológica, é um sinal muito característico e fortemente sugestivo. A mioclonia oculomastigatória (movimentos repetitivos dos olhos e da mandíbula) é considerada quase patognomônica. Sua ausência não exclui o diagnóstico, mas sua presença deve direcionar fortemente a investigação para Whipple.

5. Como se confirma o diagnóstico?
O diagnóstico definitivo requer biópsia de um tecido afectado (geralmente intestino delgado via endoscopia digestiva alta) com demonstração histológica de inclusões PAS-positivas (macrófagos carregados de bactérias) e/ou PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) para Tropheryma whipplei no tecido ou, em casos neurológicos isolados, no líquido cefalorraquidiano (LCR).

6. O paciente pode consentir para procedimentos ou pesquisa durante o delirium?
Conforme destacado nos dados técnicos (p.596), uma pessoa em delirium não está em condições mentais perfeitas para assinar um termo de consentimento informado. A decisão deve ser tomada por um representante legal ou familiar, seguindo os princípios éticos de beneficência e não-maleficência. A capacidade de consentimento deve ser reavaliada após a resolução do delirium.

7. O delirium por Whipple é comum em idosos?
A doença de Whipple é mais comum em homens de meia-idade (40-60 anos). Embora idosos tenham maior risco geral para delirium devido a fatores predisponentes (como demência prévia), o delirium especificamente por Whipple não tem uma associação especial com a idade avançada. O fator predisponente mais relevante aqui é a presença da infecção sistêmica por T. whipplei.

8. Quais são as maiores armadilhas para o psiquiatra ou clínico ao avaliar esse caso?
a) Negligenciar a história somática: Focar apenas nos sintomas psiquiátricos e não investigar a diarreia, perda de peso ou artralgias.
b) Não pesquisar a mioclonia: Durante o exame, não observar ativamente ou perguntar sobre movimentos involuntários.
c) Diagnosticar como transtorno primário após encontrar uma causa "comum": Por exemplo, atribuir o delirium apenas a uma infecção urinária encontrada e suspender a investigação, deixando a Whipple não diagnosticada.
d) Prescrever psicofármacos de forma prolongada: Usar antipsicóticos como tratamento principal, sem abordar a causa infecciosa, levando à cronificação dos sintomas e à exposição a efeitos adversos.

Referências

  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • World Health Organization. International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11). 2022.
  • Fleming, M., et al. "Whipple’s Disease: A Rare Cause of Dementia and Delirium." Journal of Neuropsychiatry and Clinical Neurosciences, vol. 25, no. 3, 2013, pp. E1-E3.
  • Marth, T., et al. "Whipple’s Disease." Lancet Infectious Diseases, vol. 4, no. 3, 2004, pp. 179-187.
  • Panegyres, P.K. "The Neuropsychiatry of Whipple’s Disease." Acta Neuropsychiatrica, vol. 18, no. 1, 2006, pp. 25-29.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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