Definição e conceito
Delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda, caracterizada por uma perturbação global e flutuante da atenção, da consciência e da cognição, com início rápido (horas a poucos dias) e curso oscilante. É uma condição cerebral orgânica, resultante de uma disfunção fisiológica difusa, e não uma doença mental primária. Na prática clínica brasileira, é frequentemente referida como "estado confusional agudo", "síndrome orgânico-cerebral aguda" ou, informalmente, "paciente confuso". O termo "delirium", contudo, é o mais adequado e preciso, conforme a nomenclatura internacional e os manuais diagnósticos (DSM-5-TR, CID-11), pois abrange a totalidade dos sintomas, não apenas o aspecto confuso do pensamento.
No contexto da COVID-19, o delirium emerge como uma das manifestações neuropsiquiátricas agudas mais prevalentes e significativas da infecção pelo SARS-CoV-2. Ele se enquadra na categoria de "Delirium devido a outra condição médica" (DSM-5-TR) ou "Delirium devido a doença do sistema nervoso" (CID-11), sendo a infecção viral a etiologia subjacente. A ocorrência de delirium em pacientes com COVID-19 não é um epifenômeno trivial; é um marcador de gravidade sistêmica e de envolvimento neurológico direto ou indireto, com impacto comprovado no prognóstico.
Epidemiologicamente, o delirium é uma síndrome extremamente frequente em hospitais gerais, enfermarias e unidades de terapia intensiva (UTI), especialmente entre idosos e pacientes com comorbidades. Estima-se que esteja presente em cerca de 20% dos idosos admitidos em hospitais. Na COVID-19, as taxas são ainda mais elevadas, particularmente em pacientes graves hospitalizados, com estudos apontando prevalências que variam de 20% a 80% em UTIs. Fatores de risco incluem idade avançada, demência pré-existente, gravidade da infecção (hipóxia, sepse), imobilização, polifarmácia e o uso de sedativos como benzodiazepínicos.
Apresentação clínica
O quadro clínico do delirium na COVID-19 segue os mesmos princípios do delirium de outras etiologias, mas pode ser precipitado e modulado por mecanismos específicos da infecção viral. A apresentação é aguda, com flutuações marcantes ao longo do dia, tipicamente piorando no fim da tarde e à noite (fenômeno conhecido como "sundowning" ou agitação vespertina). A síndrome pode ser classificada em subtipos conforme a psicomotricidade: hiperativo, hipoativo ou misto.
Domínio Cognitivo:
- Atenção: Déficit grave e flutuante na capacidade de dirigir, focar, manter e alternar a atenção. O paciente se distrai facilmente com estímulos irrelevantes e não consegue seguir uma conversa ou instruções simples.
- Consciência: Rebaixamento do nível de consciência, que varia de leve obnubilação a estupor. A orientação para o ambiente está comprometida.
- Memória: Prejuízo acentuado na memória de fixação e evocação, especialmente para eventos recentes. É comum a alomnésia (falsas memórias) e a hipomnésia lacunar a posteriori (lacunas de memória sobre o período do episódio).
- Pensamento e Linguagem: Pensamento desorganizado, ilógico e confuso. O discurso é frequentemente incoerente, circunstancial, com tangencialidade ou, nos casos graves, completamente incompreensível. Pode haver perseveração.
- Orientação: Desorientação temporoespacial é um achado quase universal, podendo atingir 100% dos casos em algumas séries. O paciente não sabe o dia, o mês, o ano, onde está ou, em casos graves, quem é.
Domínio da Sensopercepção:
- Alucinações: Comuns, predominantemente visuais (ver pessoas, animais, insetos ou formas que não estão presentes). Podem também ser auditivas, táteis ou cenestésicas. São tipicamente simples e fragmentadas, mas podem ser complexas e aterrorizantes.
- Ilusões: Interpretações errôneas de estímulos reais (ex.: a sombra da cortina é vista como uma pessoa, os fios do monitor como cobras).
- Delírios: Ideias falsas, fixas e não aceitáveis culturalmente, geralmente de conteúdo persecutório, de prejuízo ou referencial. São frequentemente pobremente elaborados e flutuantes.
Domínio Afetivo e Comportamental:
- Labilidade Afetiva: Oscilações rápidas e imprevisíveis do humor, com ansiedade, irritabilidade, apatia, euforia ou medo.
- Alterações Psicomotoras:
- Hiperatividade: Agitação, inquietação, tentativa de retirar cateteres e tubos (comportamento de removal), gritos, agressividade. Subtipo hiperativo.
- Hipoatividade: Lentificação, apatia, redução drástica do movimento e da fala, sonolência. Subtipo hipoativo (frequentemente subdiagnosticado).
- Misto: Alternância entre períodos de agitação e de retraimento.
- Ciclo Sono-Vigília: Perturbação severa, com inversão do ciclo, sonolência diurna e insônia ou agitação noturna.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Caso Hiperativo: Paciente de -8 anos, internado por pneumonia COVID-19, em O2 suplementar. À noite, torna-se agitado, tenta arrancar a máscara de oxigênio, grita que há "ladrões no corredor" tentando roubar seu soro. Chama a enfermeira pelo nome da falecida esposa. Sua fala é desconexa, alternando entre assuntos do passado e percepções aterrorizantes do presente.
- Caso Hipoativo: Paciente de 75 anos, com demência vascular leve prévia, internado por COVID-19. Aparece apático, pouco responsivo, responde monossilabicamente após longa latência. Parece "desligado". A equipe interpreta como "depressão" ou "cansaço da doença", mas o EEG mostra lentificação difusa, compatível com delirium. Este subtipo está associado a pior prognóstico.
Neurobiologia e fisiopatologia
O delirium na COVID-19 resulta de uma complexa interação entre os efeitos diretos do vírus no sistema nervoso central (SNC), a resposta inflamatória sistêmica desregulada ("tempestade de citocinas") e as consequências sistêmicas da infecção (hipóxia, falência de órgãos). É um modelo de "encefalopatia multifatorial".
1. Invasão Direta e Neuroinflamação: O SARS-CoV-2 possui neurotropismo. A entrada no SNC pode ocorrer via transmissão retrógrada através do nervo olfatório ou por disseminação hematogênica, atravessando a barreira hematoencefálica (BHE). A presença do vírus desencadeia uma resposta neuroinflamatória local, com ativação da microglia e astrócitos, e liberação de citocinas pró-inflamatórias (IL-1, IL-6, TNF-α) no parênquima cerebral. Esta inflamação perturba a função neuronal e a neurotransmissão.
2. Disfunção Neurotransmissional: O estado inflamatório e metabólico alterado afeta múltiplos sistemas:
- Colinérgico: A hipofunção colinérgica é um dos pilares fisiopatológicos do delirium. A inflamação e a hipóxia inibem a síntese e liberação de acetilcolina, crucial para atenção, memória e consciência. A COVID 19 pode exacerbar este déficit.
- Dopaminérgico: A hiperatividade dopaminérgica relativa (devido ao déficit colinérgico) está associada aos sintomas psicóticos (alucinações, delírios) e à agitação.
- GABAérgico e Glutamatérgico: O desequilíbrio entre excitação (glutamato) e inibição (GABA) contribui para a instabilidade neuronal, as flutuações clínicas e as crises epilépticas não convulsivas, que podem mimetizar delirium.
- Serotoninérgico: Alterações neste sistema podem estar relacionadas às oscilações afetivas e ao ciclo sono-vigília.
3. Lesão Endotelial e Hipóxia: A infecção causa endotelite e microtrombose, comprometendo a perfusão cerebral. A pneumonia viral grave leva a hipoxemia, privando o cérebro de oxigênio, um substrato essencial para o metabolismo neuronal, especialmente vulnerável em regiões como o córtex associativo e o hipocampo.
4. Perturbação de Redes Neuronais: Estudos de neuroimagem funcional em delirium de outras etiologias mostram interrupções na conectividade entre regiões críticas para a atenção e consciência, como o córtex pré-frontal dorsolateral, o córtex cingulado posterior, o tálamo e o sistema reticular ativador. É plausível que a COVID-19 induza ou agrave essas descontinuidades funcionais reversíveis. O eletrencefalograma (EEG) no delirium típico mostra lentificação difusa do traçado, um marcador objetivo da disfunção cerebral global.
Modelo Integrativo: O delirium na COVID-19 surge quando um cérebro vulnerável (por idade, neurodegeneração ou comorbidades) é submetido a um "insulto" agudo. Este insulto é a soma da carga inflamatória sistêmica e cerebral, da hipóxia, da instabilidade metabólica e do estresse psicológico do ambiente hospitalar (imobilização, privação sensorial, medo). O resultado final é uma falha na integração da informação e na manutenção do estado de consciência normal.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
A avaliação deve ser breve, repetida ao longo do dia e focada nos critérios centrais.
- Atenção: Testar com sequências (dias da semana ao contrário), subtrações seriadas de 7, ou pedir para repetir uma sequência de palavras. O déficit é evidente.
- Consciência e Orientação: Avaliar orientação em tempo (data completa), lugar (hospital, cidade) e pessoa. O rebaixamento da consciência é observado pelo contato visual, latência de resposta e nível de alerta.
- Pensamento: A forma do pensamento está desorganizada. O discurso é confuso, ilógico, pode ser incoerente.
- Memória: Teste de memória imediata (repetir 3 itens) e recente (recordar os 3 itens após 5 minutos). Grave prejuízo.
- Sensopercepção: Perguntar de forma não confrontadora: "Tem visto algo diferente ou estranho?"; "Tem ouvido vozes quando não tem ninguém falando?".
- Psicomotricidade: Observar agitação, inquietação ou, ao contrário, imobilidade e hiporresponsividade.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Confusion Assessment Method (CAM): Instrumento breve e validado, amplamente utilizado. Sua versão para UTI (CAM-ICU) é essencial para pacientes intubados ou sob sedação, avaliando quatro características: início agudo/flutuante, atenção desorganizada, pensamento desorganizado e nível de consciência alterado.
- Delirium Observation Screening Scale (DOSS): Escala de observação baseada em enfermagem, útil para monitorar flutuações.
- Richmond Agitation-Sedation Scale (RASS): Para quantificar o nível de agitação ou sedação, complementando o diagnóstico do subtipo.
- EEG: Exame complementar valioso. A lentificação difusa de background é sugestiva de delirium metabólico/inflamatório. Pode também descartar estado de mal epiléptico não convulsivo.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Característica | Delirium (COVID-19) | Demência (ex.: Alzheimer) | Episódio Depressivo Maior | Esquizofrenia/Psicose Aguda | Estado de Mal Não Convulsivo |
|---|---|---|---|---|---|
| Início | Agudo (horas/dias) | Crônico, insidioso (anos) | Subagudo a crônico (semanas/meses) | Variável, mas geralmente mais lento | Agudo |
| Curso | Flutuante, piora noturna | Estável, com declínio gradual lento | Estável ao longo do dia | Geralmente estável | Contínuo |
| Atenção | Gravemente prejudicada | Relativamente preservada no início | Pode estar prejudicada, mas não de forma flutuante | Pode estar prejudicada | Gravemente prejudicada |
| Consciência | Rebaixada | Normal (até fases avançadas) | Normal | Normal | Alterada (obnubilação) |
| Memória | Prejuízo global recente | Prejuízo de fixação é o principal | Queixas subjetivas, teste pode ser normal | Pode haver prejuízo | Amnésia do evento |
| Alucinações | Predominantemente visuais, simples | Raras, se presentes, em fases tardias | Auditivas (em depressão psicótica) | Auditivas complexas, persistentes | Raras |
| Delírios | Pobremente elaborados, flutuantes | Raros | Congruentes com o humor (culpa, ruína) | Sistematizados, bizarros | Ausentes |
| EEG | Lentificação difusa | Normal ou inespecífico | Normal | Normal | Atividade epileptiforme contínua |
| Contexto | Infecção COVID-19 ativa, hospitalização | Contexto ambulatorial, histórico longo | História prévia ou estressor psicossocial | História prévia de psicose | História de epilepsia, lesão cerebral |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Subdiagnosticar o Subtipo Hipoativo: Confundir com depressão, "cansaço" ou "cooperativo". É o subtipo mais letal e frequentemente negligenciado.
- Atribuir a "Idade" ou "Demência Pré-existente": Qualquer alteração aguda no estado mental de um idoso com demência deve levantar suspeita de delirium superposto. A demência é o principal fator de risco.
- Ignorar Flutuações: Avaliar o paciente apenas em um "momento bom" (pela manhã) e perder o diagnóstico.
- Confundir com Abstinência ou Intoxicação: A história e o contexto (COVID-19) são fundamentais. O delirium tremens por abstinência alcoólica tem EEG acelerado, não lentificado.
- Não Considerar Causas Múltiplas: Na COVID-19, o delirium pode ser devido à infecção per se, mas também à hipóxia severa, sepse, insuficiência renal, desequilíbrio hidroeletrolítico ou interações medicamentosas. A investigação etiológica deve ser abrangente.
Condições associadas
O delirium na COVID-19 é, por definição, uma condição associada a uma doença médica aguda. Sua ocorrência está intrinsecamente ligada à gravidade da infecção viral. No entanto, seu diagnóstico e manejo se inserem em contextos clínicos mais amplos:
- Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA): A hipóxia profunda é um potente precipitante de delirium.
- Sepse e Choque Séptico: A encefalopatia séptica é um modelo fisiopatológico sobreposto ao da COVID-19 grave.
- Acidente Vascular Cerebral (AVC) e Eventos Trombóticos: Complicações neurológicas da COVID-19 que podem causar delirium focal ou global.
- Encefalite e Encefalopatia Tóxico-Metabólica: O envolvimento direto do SNC pelo vírus ou as disfunções orgânicas sistêmicas configuram estas condições.
- Demência Pré-Existente (Alzheimer, Vascular, etc.): É o fator de risco mais potente. O cérebro com reserva cognitiva reduzida tem menor resiliência a insultos agudos.
Correlações nos Manuais Diagnósticos:
- DSM-5-TR: Delirium devido a outra condição médica (código baseado na etiologia). Especificar subtipo: hiperativo, hipoativo, misto, sem alteração da atividade.
- CID-11: 6D70.0 Delirium devido a doença do sistema nervoso; ou 6D70.1 Delirium devido a substância ou medicamento (se medicamentos usados no tratamento forem os principais culpados). A COVID-19 é codificada como a condição subjacente (RA01.0).
Implicações terapêuticas
O tratamento do delirium na COVID-19 é primariamente etiológico e de suporte. A intervenção farmacológica é sintomática e deve ser usada com parcimônia.
1. Abordagem Não-Farmacológica (Fundamental):
- Orientação e Reassure: Repetir frequentemente onde o paciente está, quem são as pessoas, o que está acontecendo. Usar relógios, calendários e janelas com luz natural.
- Mobilização Precoce: Sair do leito, sentar na poltrona, deambular com assistência. A imobilização é neurotóxica.
- Estimulação Cognitiva Sensata: Conversas simples, presença de familiares (via videochamada, se visita presencial não for possível), objetos familiares.
- Otimização do Ambiente: Reduzir ruídos noturnos, garantir ciclos de luz-escuridão, evitar restrições físicas (contenção), que exacerbam a agitação e o risco de lesão.
- Correção de Fatores Precipitantes: Tratar hipóxia, infecções, desidratação, distúrbios eletrolíticos, dor e constipação.
2. Abordagem Farmacológica (Para Sintomas Alvo):
O uso deve ser reservado para situações onde o comportamento coloca o paciente ou a equipe em risco significativo, ou quando o sofrimento psicótico é intenso.
- Antipsicóticos Atípicos (Primeira Linha):
- Risperidona, Olanzapina, Quetiapina: Úteis para agitação e sintomas psicóticos. A quetiapina, por seu efeito sedativo, pode ser útil à noite para regular o sono. Cuidado: Monitorar intervalo QT, interações medicamentosas e efeitos extrapiramidais. A dose deve ser a menor eficaz.
- Haloperidol (Atípico de 1ª geração): Ainda utilizado, especialmente em baixas doses intravenosas ou intramusculares para agitação aguda. Vigiar rigorosamente efeitos extrapiramidais e risco de torcades de pointes.
- Agentes Colinérgicos: Não há evidência robusta para o uso rotineiro de rivastigmina ou donepezil no tratamento agudo do delirium. Seu papel é preventivo em alguns cenários.
- Evitar: Benzodiazepínicos (como midazolam, lorazepam) são geralmente contraindicados, exceto em delirium por abstinência alcoólica/sedativa. Na COVID-19, eles frequentemente pioram a confusão, causam sedação paradoxal e depressão respiratória.
Impacto Prognóstico: O delirium na COVID-19 não é um evento benigno. Está independentemente associado a:
- Maior tempo de internação hospitalar e na UTI.
- Maior mortalidade intra-hospitalar e pós-alta.
- Maior risco de declínio cognitivo acelerado e demência incidente após a recuperação.
- Maior carga de cuidados pós-alta e institucionalização.
- Desenvolvimento de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) no paciente e nos familiares.
O reconhecimento e manejo precoces do delirium são, portanto, intervenções prognósticas críticas.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente: Para o paciente, o delirium é uma experiência aterradora e fragmentada. É como um "sonho ruim vívido" do qual não se consegue acordar, misturado com a realidade de forma caótica. A desorientação gera pânico. As alucinações visuais são percebidas como reais e ameaçadoras. A incapacidade de pensar com clareza ou de se fazer entender gera frustração e raiva. Memórias do episódio são frequentemente lacunares e embaralhadas com falsas memórias (alomnésias), podendo deixar uma sensação persistente de vergonha, medo ou desconfiança.
Comunicação com o Paciente:
- Identifique-se Sempre: Comece cada interação dizendo seu nome, sua função e onde ele está.
- Fale de Forma Clara e Calma: Use frases curtas, uma ideia de cada vez. Mantenha o tom de voz tranquilo, mesmo diante de agitação.
- Não Confronte a Realidade Delirante: Não discuta ou tente racionalizar alucinações ou delírios. Em vez de "Não há aranhas na parede", diga "Eu sei que você está vendo coisas assustadoras. Estou aqui para ajudá-lo a se sentir seguro. Este é o hospital, e você está recebendo cuidados."
- Valide o Sentimento, Não o Conteúdo: "Vejo que você está muito assustado. Isso deve ser muito difícil."
- Use Toque com Cauteria: Um toque suave no braço pode ser orientador, mas pode ser mal interpretado. Observe a reação do paciente.
Comunicação com a Família:
- Educação: Explique que o delirium é uma complicação médica comum da COVID-19, não uma "loucura" primária. Enfatize que é temporário, mas flutuante.
- Desmistifique: Diga que alucinações e comportamentos estranhos são sintomas da doença cerebral aguda, não um reflexo da personalidade ou vontade do paciente.
- Oriente sobre a Participação: Incentive visitas ou videochamadas frequentes e curtas. A família pode ajudar na orientação ("Olá, vovô. Sou a Maria, sua neta. Você está no Hospital X porque está com pneumonia. Estamos cuidando de você.").
- Prepare para o Pós-Alta: Alerte que a recuperação cognitiva pode levar semanas a meses. Podem persistir fadiga, dificuldade de concentração e memória. O paciente pode não se lembrar de partes da internação. A família deve monitorar sinais de depressão ou TEPT.
Impacto Funcional: Durante o episódio, a capacidade de tomar decisões, cooperar com o tratamento e realizar atividades básicas é nula. Após a resolução, o impacto pode ser duradouro:
- Cognitivo: Déficits sutis em atenção, memória e velocidade de processamento podem persistir ("névoa mental" pós-COVID), interferindo no retorno ao trabalho (especialmente em funções complexas) e na autonomia.
- Psicossocial: A experiência traumática pode levar a evitação de ambientes hospitalares, ansiedade generalizada, isolamento social e sobrecarga familiar.
- Independência: Idosos que desenvolvem delirium têm risco aumentado de perda de independência para atividades da vida diária, necessitando de suporte domiciliar ou institucionalização.
Perguntas frequentes
1. O delirium é um sintoma comum da COVID-19?
Sim, especialmente nas formas moderadas a graves que requerem hospitalização. É uma manifestação frequente da encefalopatia causada pela infecção, podendo ser até o sintoma de apresentação em idosos, mesmo sem febre ou tosse proeminentes (forma "hipoactiva").
2. O delirium causado pela COVID 19 é permanente?
Não, por definição, o delirium é uma condição aguda e reversível. No entanto, a recuperação completa da função cognitiva basal pode levar de dias a várias semanas, e em alguns casos, déficits sutis podem persistir. Em pacientes com vulnerabilidade cerebral prévia (demência incipiente), o episódio de delirium pode "desmascarar" ou acelerar um declínio cognitivo permanente.
3. Meu familiar idoso com COVID-19 está muito quieto e apático. Isso pode ser delirium?
Sim, absolutamente. Este é o subtipo hipoativo, frequentemente subdiagnosticado. Apatia, lentificação, sonolência excessiva e redução da comunicação são sinais de delirium, não apenas de "fraqueza" ou depressão. Este subtipo está associado a piores desfechos e deve ser ativamente investigado.
4. Os medicamentos usados para acalmar a agitação podem piorar o delirium?
Sim, e este é um ponto crítico. Benzodiazepínicos (como diazepam, midazolam) geralmente pioram a confusão e devem ser evitados, exceto em casos muito específicos (abstinência). Antipsicóticos, usados em baixa dose e monitorados, são a opção preferencial para controle de sintomas graves, mas também requerem cautela.
5. Como posso ajudar um familiar com delirium na UTI?
A visita (presencial ou por videochamada) é terapêutica. Fale de forma calma, identifique-se, lembre-o da data e do local. Toque suas mãos se for seguro. Traga óculos ou aparelho auditivo se ele usar. Mostre fotos familiares. Sua presença é um "âncora" na realidade.
6. O delirium aumenta o risco de desenvolver demência no futuro?
Sim. Um episódio de delirium, especialmente em idosos, é um fator de risco independente para o desenvolvimento futuro de demência ou para a aceleração do declínio cognitivo em quem já tem a doença. O cérebro que passa por um delirium mostra sua vulnerabilidade.
7. Qual a diferença entre "delirium" e "delírio"?
São termos distintos na psiquiatria. Delirium (do latim delirare, "sair do sulco") é a síndrome confusional aguda orgânica descrita aqui, com alteração global da consciência. Delírio (do francês délire) é um sintoma, uma crença falsa fixa (ex.: perseguição, grandeza), que pode ocorrer em várias doenças, como a esquizofrenia, e também pode estar presente dentro de um quadro de delirium. Um paciente pode ter delirium com delírios.
8. Após a alta, o que devemos observar em casa?
Observe: dificuldade persistente de atenção e memória ("névoa mental"), desorientação em ambientes familiares, labilidade emocional (choros fáceis, irritabilidade), alterações do sono e sinais de ansiedade ou medo relacionados à experiência hospitalar. A reabilitação cognitiva e o acompanhamento psiquiátrico/geriátrico podem ser necessários.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Inouye, S.K. et al. Delirium in Elderly Patients and the Risk of Postdischarge Mortality, Institutionalization, and Dementia. JAMA, 2010.
- Kotfis, K. et al. COVID-19: ICU Delirium Management During SARS-CoV-2 Pandemic. Critical Care, 2020.
- Poloni, T.E. et al. Prevalence and Prognostic Value of Delirium as the Initial Presentation of COVID-19 in the Elderly with Dementia: An Italian Retrospective Study. EClinicalMedicine, 2020.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.