Definição e conceito
Delirium é uma síndrome neurocognitiva aguda ou subaguda, caracterizada por uma alteração flutuante da atenção e da consciência, acompanhada por uma perturbação global da cognição. É um distúrbio cerebral orgânico, diretamente consequente a uma condição médica geral, intoxicação ou abstinência de substância, exposição a toxina ou a múltiplas etiologias. Na semiologia psiquiátrica, o delirium situa-se entre os transtornos neurocognitivos, sendo fundamentalmente uma disfunção cerebral difusa e reversível, em contraste com as demências, que são tipicamente crônicas e progressivas.
O termo deriva do latim delirare, que significa "sair do sulco", metaforicamente "desviar da mente". A nomenclatura técnica em inglês é delirium, sendo sinônimos clínicos "estado confusional agudo", "encefalopatia aguda" ou "síndrome cerebral aguda". É crucial diferenciá-lo de outros quadros:
- Demência: O delirium tem início agudo (horas/dias) e curso flutuante, com alteração primária da atenção e consciência. A demência tem início insidioso e curso progressivo, com consciência preservada até fases avançadas.
- Pseudodemência depressiva: Quadro depressivo grave que mimetiza déficits cognitivos, mas com história de humor deprimido precedente e características depressivas proeminentes ao exame.
- Psicose (esquizofreniforme, maníaca): Na psicose primária, a consciência e a atenção estão preservadas, a memória é intacta, e os delírios são sistematizados. No delirium, os delírios são fragmentados, inconsistentes e acompanhados de desorientação e flutuação do nível de consciência.
Epidemiologicamente, o delirium é altamente prevalente em ambientes hospitalares. Estima-se que esteja presente em cerca de 20% dos idosos admitidos em hospitais gerais. Sua ocorrência é ainda maior em unidades de terapia intensiva (onde pode atingir mais de 80% dos pacientes), no pós-operatório de cirurgias de grande porte (especialmente cardíacas e ortopédicas) e em populações terminais. É um marcador de gravidade, associado a aumento significativo de morbimortalidade, tempo de internação, custos hospitalares e risco de institucionalização pós-alta.
Apresentação clínica
A apresentação do delirium é polimorfa, mas seu núcleo sindrômico é a tríade: alteração aguda e flutuante da atenção/consciência, desorganização do pensamento e curso flutuante ao longo do dia (geralmente pior ao entardecer – "sundowning"). Os sintomas se manifestam ao longo de horas ou poucos dias. A apresentação clínica pode ser organizada por domínios psicopatológicos:
Domínio Cognitivo:
- Atenção: Déficit grave e flutuante na capacidade de focar, sustentar ou deslocar a atenção. O paciente é facilmente distraído, não consegue seguir uma conversa ou uma instrução simples.
- Consciência: Nível de consciência alterado, variando desde o estado de hiperalerta e vigilância até o letargia e o estupor. A clareza da percepção do ambiente está reduzida.
- Orientação: Desorientação temporoespacial é quase universal. O paciente não sabe o dia, o mês, o ano, o local onde está ou sua situação.
- Memória: Prejuízo marcante, especialmente na memória de fixação (registro de novas informações) e na memória recente. A memória remota pode estar relativamente preservada, mas sua evocação é desorganizada.
- Pensamento: Pensamento ilógico, desorganizado, incoerente ou lentificado. A sequência de ideias é desconexa, com dificuldade de raciocínio abstrato.
- Linguagem: Déficits variados, como disnomia (dificuldade para encontrar palavras), discurso desorganizado, incoerência ou mesmo afasia.
Domínio da Sensopercepção:
- Alucinações: Comuns, tipicamente visuais, táteis ou auditivas. As alucinações visuais são frequentemente de animais, pessoas ou figuras ameaçadoras. Podem ser também auditivas (vozes, sons), menos frequentemente táteis (sensação de insetos na pele).
- Ilusões: Interpretações errôneas de estímulos reais. O paciente pode interpretar a sombra de uma cortina como uma pessoa, ou os ruídos do corredor como vozes ameaçadoras.
Domínio do Pensamento:
- Delírios: Pensamento delirante presente, mas de caráter fragmentado, pouco sistematizado e mutável. São frequentemente delírios persecutórios (ex.: "estão querendo me envenenar"), de roubo ou de prejuízo. Diferentemente dos delírios na esquizofrenia, aqui são inconsistentes e flutuam com o nível de consciência.
Domínio Afetivo:
- Labilidade afetiva: Oscilações rápidas e imprevisíveis do humor, com episódios de medo, ansiedade, irritabilidade, agressividade, apatia ou euforia.
Domínio Psicomotor e Comportamental:
- Alterações psicomotoras: Podem se apresentar como:
- Hiperativo/agitado: Agitação psicomotora, inquietação, vocalizações (gritos, gemidos), tentativas de retirar sondas e cateteres, agressividade. É a forma mais reconhecida.
- Hipoativo: Lentificação psicomotora, apatia, letargia, redução drástica da movimentação. Esta forma é frequentemente subdiagnosticada e associada a pior prognóstico.
- Misto: Alternância entre estados de agitação e hipoatividade.
- Ciclo sono-vigília: Perturbação marcante, com inversão do ciclo, sonolência diurna, insônia ou sono fragmentado à noite, agitação vespertina ("sundowning").
Exemplos Clínicos Concisos:
- Caso Hiperativo: Paciente de 78 anos, 2 dias após fratura de fêmur e cirurgia. À noite, torna-se agitado, tenta arrancar o acesso venoso, grita que "há baratas no teto". Chama a enfermeira pelo nome da falecida esposa. De manhã, está sonolento e parcialmente orientado, mas à tarde repete o quadro de agitação e alucinações visuais.
- Caso Hipoativo: Paciente de 85 anos com infecção urinária. Admitido letárgico, responde monossilabicamente, parece "desligado". A família relata que "não é ele". Não interage, não se alimenta espontaneamente. A equipe inicialmente atribui à "fraqueza" ou depressão, até que a confusão e desorientação são detectadas ao exame.
Neurobiologia e fisiopatologia
O delirium é entendido como a manifestação clínica de uma disfunção cerebral aguda e difusa, resultante de uma injúria ou estresse sistêmico sobre um cérebro vulnerável. Não há um único mecanismo, mas sim uma convergência de vias fisiopatológicas que culminam em desequilíbrio neurotransmissional e falha na integração neuronal.
Modelo da Vulnerabilidade Cerebral e do Estresse Precipitante: O modelo mais aceito postula que o delirium ocorre quando um ou mais fatores precipitantes (infecção, droga, cirurgia, trauma) agem sobre um cérebro com reserva cognitiva reduzida (vulnerabilidade). A vulnerabilidade é aumentada pela idade avançada, demência pré-existente, comorbidades (insuficiência hepática/renal), deficiência sensorial (visão, audição) e desnutrição.
Mecanismos Neuroquímicos e de Neurotransmissão: A desregulação de múltiplos sistemas neurotransmissores é central.
- Colinérgico: A deficiência colinérgica é um dos pilares fisiopatológicos. A atividade colinérgica, crucial para atenção, memória e consciência, é reduzida por fatores como inflamação, hipóxia e uso de drogas anticolinérgicas. Muitos medicamentos associados ao delirium (ex.: anticolinérgicos, anti-histamínicos, benzodiazepínicos) possuem propriedades anticolinérgicas.
- Dopaminérgico: Aumento relativo da atividade dopaminérgica, que pode levar a agitação, psicose e alterações motoras. O desequilíbrio colinérgico/dopaminérgico favorece a sintomatologia.
- GABAérgico e Glutamatérgico: Alterações no equilíbrio entre excitação (glutamato) e inibição (GABA) contribuem para a instabilidade neuronal. Sedativos como benzodiazepínicos e anestésicos atuam no sistema GABA, podendo precipitar delirium.
- Serotoninérgico e Noradrenérgico: Também desregulados, contribuindo para alterações de humor, ciclo sono-vigília e sintomas neurovegetativos.
Papel da Inflamação: A resposta inflamatória sistêmica (com liberação de citocinas como IL-1, IL-6, TNF-alfa) é um potente precipitante. As citocinas podem atravessar a barreira hematoencefálica ou ativar células gliais, levando a neuroinflamação, alteração da neurotransmissão e disfunção endotelial cerebral.
Evidências de Neuroimagem: Estudos são limitados pela agudização do quadro, mas sugerem alterações difusas e inespecíficas. Pode haver redução global do metabolismo cerebral (visto na PET), alterações na perfusão e na integridade da substância branca. Em casos de delirium prolongado, podem ser observadas atrofias aceleradas.
Em resumo, a fisiopatologia é multifatorial: um cérebro vulnerável, sob o efeito de um estresse sistêmico (inflamatório, metabólico, tóxico), sofre uma desregulação aguda e difusa de seus sistemas neurotransmissores, resultando na falha das redes neuronais que sustentam a atenção, consciência e cognição – manifestando-se clinicamente como delirium.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
O diagnóstico é clínico, baseado na observação cuidadosa e no exame do estado mental. A anamnese deve focar na cronologia (início agudo, flutuação), nos fatores de risco e nos potenciais precipitantes.
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e comportamento: Agitação ou hipoatividade, descuido, sinais de desidratação ou sofrimento.
- Fala: Pode ser desorganizada, incoerente, lentificada ou pressionada.
- Humor e afeto: Lábil, ansioso, irritável ou apático.
- Processo do pensamento: Desorganizado, ilógico, incoerente. Possível presença de delírios fragmentados.
- Conteúdo do pensamento: Delírios persecutórios, de roubo ou referência, não sistematizados.
- Sensopercepção: Alucinações visuais/auditivas, ilusões.
- Cognição (avaliação breve):
- Atenção: Teste de dígitos (repetir sequências), nomear os meses do ano ao contrário. O paciente falha em tarefas simples.
- Orientação: Desorientação para tempo, lugar e pessoa.
- Memória: Incapacidade de reter e recordar três palavras após 5 minutos.
- Funções executivas: Dificuldade em realizar tarefas sequenciais (ex.: teste do desenho do relógio).
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Confusion Assessment Method (CAM): Instrumento breve e validado, amplamente utilizado. Diagnostica delirium se houver: 1) início agudo e curso flutuante, 2) desatenção, e 3) pensamento desorganizado OU nível de consciência alterado.
- Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98): Escala mais detalhada, útil para quantificar a severidade e monitorar a evolução.
- Memorial Delirium Assessment Scale (MDAS): Útil em cuidados paliativos.
- 3D-CAM: Versão do CAM para diagnóstico rápido.
- Nu-DESC (Nursing Delirium Screening Scale): Escala de rastreio aplicável pela enfermagem.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas | Como Diferenciar |
|---|---|---|
| Demência (Alzheimer, Vascular) | Início insidioso, progressivo. Consciência preservada. Memória é déficit primário e progressivo. Atenção relativamente preservada nas fases iniciais. | História de declínio cognitivo crônico. Exame mostra déficits cognitivos focais (memória, linguagem) sem a flutuação aguda e a desatenção marcante do delirium. |
| Pseudodemência Depressiva | Humor depressivo proeminente e precedente. Queixas cognitivas ("não consigo me lembrar de nada"), mas performance melhora com incentivo. Psicomotricidade lentificada. | Sintomas depressivos são o núcleo. Testes cognitivos mostram "don’t know" answers (respostas do tipo "não sei") vs. respostas incorretas no delirium. Melhora com tratamento antidepressivo. |
| Esquizofrenia, Episódio Psicótico | Consciência e orientação preservadas. Atenção e memória intactas. Delírios sistematizados, alucinações auditivas proeminentes. Início mais gradual. | Ausência de desorientação e flutuação. História pré-mórbida e exame mostram psicose primária sem os déficits cognitivos globais e agudos. |
| Episódio Maníaco | Humor elevado/irritável, energia aumentada, fala pressionada. Consciência preservada. Pode ter sintomas psicóticos, mas com pensamento acelerado, não desorganizado. | Cognição global não está desorganizada; o paciente é orientado, apesar da distratibilidade. A história de transtorno bipolar é sugestiva. |
| Estado de Mal Não Convulsivo | Alteração do nível de consciência com ou sem movimentos sutis (piscar, movimentos labiais). Pode ser cíclico. | EEG é diagnóstico, mostrando atividade epileptiforme contínua ou quase contínua. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Subdiagnóstico da Forma Hipoativa: Atribuir letargia e apatia à "fraqueza", depressão ou envelhecimento normal.
- Superdiagnóstico em Pacientes com Demência: Qualquer agitação em paciente demenciado ser atribuída a delirium sem buscar um novo precipitante agudo.
- Confiar Apenas na Observação Pontual: O delirium flutua. Um paciente orientado pela manhã pode estar em delirium grave à tarde. A avaliação deve ser seriada.
- Ignorar a Criticidade do Critério de Atenção no DSM-5: O DSM-5 coloca a "perturbação da atenção" como critério primordial. Uma aplicação muito restritiva pode deixar de diagnosticar casos, especialmente em pacientes hipoativos ou que saíram do coma. Deve-se adotar uma noção ampla de desatenção.
- Não Investigar Metodicamente os Precipitantes: Focar apenas no controle sintomático sem buscar e tratar a causa subjacente (infecção, desequilíbrio metabólico, droga).
Condições associadas
O delirium não é uma doença em si, mas uma síndrome que sinaliza uma disfunção cerebral aguda secundária a uma vasta gama de condições. Sua ocorrência é ubíqua na medicina hospitalar.
Fatores Precipitantes Frequentes (Mnemônico "DELIRIUM" ou "I WATCH DEATH"):
- Drogas (intoxicação/abstinência): Anticolinérgicos, benzodiazepínicos, opioides, corticoides, diuréticos, antiarrítmicos.
- Efeitos pós-operatórios (especialmente cirurgias cardíacas, ortopédicas).
- Lesão cerebral aguda (AVC, trauma, hemorragia, tumor).
- Infecções (sistêmicas: sepse; ou localizadas: pneumonia, ITU, meningite).
- Restrição sensorial/mobilidade (imobilização no leito, óculos/aparelho auditivo retirados).
- Insuficiência orgânica (cardíaca, renal, hepática, respiratória).
- Urêmia/alterações metabólicas (hiper/hipoglicemia, distúrbios eletrolíticos, desidratação).
- Malnutrição/deficiências vitamínicas (B1, B12).
Populações de Alto Risco:
- Idosos: Principal grupo de risco, devido à redução da reserva cognitiva, polifarmácia e maior prevalência de comorbidades.
- Pacientes com Demência Pré-existente: A demência é o principal fator de risco para delirium. Um episódio de delirium pode acelerar o declínio cognitivo permanente.
- Pacientes em UTI: Exposição a múltiplos estressores: doenças graves, sedação, imobilização, privação de sono, ambiente sensorialmente hostil.
- Pacientes Oncológicos e em Cuidados Paliativos: Devido à doença avançada, metabólica, infecções e uso de opioides/corticoides.
- Pacientes com Deficiência Sensorial: Cegueira, surdez não corrigida no ambiente hospitalar.
Correlações com Classificações:
- DSM-5-TR: Transtorno Neurocognitivo Delirium. Códigos específicos para devido a outra condição médica, intoxicação/abstinência de substância, múltiplas etiologias ou outra etiologia.
- CID-11: Codeamento na categoria "Sintomas ou sinais envolvendo funções cognitivas, percepção, estado emocional ou comportamento" (MB24). Deve-se codificar também a condição subjacente (ex.: sepse, insuficiência renal).
Implicações terapêuticas
O tratamento do delirium é bifásico e urgente: 1) Identificar e tratar a causa subjacente; 2) Oferecer suporte sintomático e psicossocial. A intervenção farmacológica é adjuvante e não substitui a investigação etiológica e os cuidados de suporte.
1. Abordagem Etiológica (Prioridade Absoluta):
- Revisão minuciosa da medicação (suspender/ajustar drogas precipitantes, especialmente anticolinérgicas).
- Investigação de infecção (hemoculturas, urinocultura, RX de tórax).
- Correção de distúrbios metabólicos e hidroeletrolíticos.
- Tratamento da dor (opioides com cautela, preferir analgésicos não opioides quando possível).
- Garantir oxigenação adequada e perfusão cerebral.
2. Intervenções Psicossociais e Ambientais (Primeira Linha de Tratamento Sintomático):
Conforme as fontes, a meta é tranquilizar o paciente, ajudando-o a lidar com agitação, ansiedade e alucinações. Estas intervenções são base da humanização:
- Orientação e Reorientação: Presença de familiares ou equipe para orientar de forma calma e repetida sobre o local, hora e situação. Uso de calendários, relógios grandes e janelas com luz natural.
- Estimulação Cognitiva Suave: Conversas simples, leitura, atividades familiares.
- Mobilização Precoce: Evitar imobilização no leito. Deambular assim que seguro.
- Otimização do Ambiente: Reduzir ruídos noturnos, garantir ciclos de luz/escuro para regular o sono, manter objetos familiares (fotos, relógio) ao lado do paciente.
- Correção de Deficit Sensorial: Garantir que o paciente use seus óculos e aparelho auditivo.
- Comunicação Clara e Empática: Falar de forma calma, pausada, usando frases curtas. Validar os sentimentos de medo ou confusão ("Sei que isso é assustador").
- Inclusão nas Decisões: Sempre que possível, incluir o paciente em decisões sobre seu cuidado, para manter seu senso de controle e dignidade.
3. Abordagem Farmacológica (Quando Necessária):
Indicada para grave sofrimento do paciente, risco de autolesão/lesão a outros ou para permitir procedimentos médicos essenciais. Deve ser usada na menor dose e pelo menor tempo possível.
- Antipsicóticos Atípicos: Primeira escolha em muitos contextos.
- Risperidona, Olanzapina, Quetiapina: Úteis para sintomas psicóticos e agitação. Quetiapina pode ser preferível por seu efeito sedativo e menor risco extrapiramidal. Monitorar intervalo QT.
- Antipsicóticos Típicos:
- Haloperidol: Tradicionalmente usado, especialmente em UTI, por via parenteral. Eficaz para agitação, mas maior risco de efeitos extrapiramidais e síndrome maligno por neurolépticos. Dose baixa (ex.: 0,5-2 mg).
- Outras Opções (contextos específicos):
- Dexmedetomidina: Agonista alfa-2-adrenérgico, usado em UTI para sedação leve, associado a menor incidência de delirium comparado a benzodiazepínicos.
- Melatonina: Pode ajudar na regulação do ciclo sono-vigília.
IMPORTANTE: Benzodiazepínicos (como lorazepam) devem ser EVITADOS, exceto em delirium por abstinência alcoólica/sedativa, pois podem piorar a confusão e a desinibição.
Impacto Prognóstico: O delirium é um marcador de gravidade. Sua presença está associada a:
- Aumento da mortalidade intra-hospitalar e pós-alta (em 6-12 meses).
- Maior tempo de internação e custos hospitalares.
- Maior risco de complicações (úlceras de pressão, quedas, pneumonia).
- Declínio cognitivo acelerado e maior risco de institucionalização em demência.
- Maior carga e estresse para a família e cuidadores.
A detecção precoce e o manejo agressivo da causa subjacente, aliados a cuidados humanizados, podem modificar favoravelmente este prognóstico.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente: Para o paciente, o delirium é uma experiência aterradora e desorientadora. É como estar preso em um pesadelo vívido do qual não se consegue acordar. A realidade fragmenta-se: rostos familiares tornam-se estranhos, o quarto do hospital pode parecer uma prisão ou um local bizarro, sons normais transformam-se em ameaças. A perda do controle sobre os próprios pensamentos e a incapacidade de comunicar-se geram pânico, raiva ou profunda apatia. Memórias do episódio podem ser fragmentadas ou ausentes (amnésia lacunar), mas a sensação de terror e vulnerabilidade pode perdurar.
Comunicação com o Paciente e Família:
- Com o Paciente:
- Abordagem Calma e Não-Confrontadora: Não argumentar contra delírios ou alucinações. Em vez de "Não há aranhas na parede", usar validação e redirecionamento: "Isso deve ser muito assustador para o senhor. Estou aqui para ajudá-lo. Vamos olhar juntos esta foto da sua neta?"
- Identificação Constante: Apresentar-se sempre, dizer sua função. "Bom dia, Sr. João. Sou a Dra. Maria, sua médica."
- Linguagem Simples e Clara: Frases curtas, uma ideia de cada vez. Falar de frente, com contato visual, garantindo que o paciente esteja usando seus auxílios sensoriais.
- Explicar Procedimentos: Antes de tocar ou realizar qualquer procedimento, explicar de forma simples o que vai acontecer e por quê.
- Com a Família/Cuidadores:
- Educação sobre o Delirium: Explicar que é uma condição médica comum, causada pelo corpo doente, não uma "loucura" ou um traço de personalidade. Esclarecer sobre o curso flutuante.
- Enfatizar seu Papel Terapêutico: A presença familiar é um dos fatores mais reconfortantes e orientadores. Orientá-los a falar calmamente, reorientar, trazer objetos familiares (fotos, uma manta).
- Incluí-los na Vigilância: Ensinar a reconhecer sinais de piora e a comunicá-los à equipe.
- Apoio Emocional: Reconhecer o desgaste e o sofrimento da família. Oferecer suporte e informações claras sobre o prognóstico.
Impacto Funcional: Durante o episódio, o paciente é totalmente dependente para todas as atividades de vida diária (alimentação, higiene, mobilização). O impacto pós-episódio pode ser profundo:
- Qualidade de Vida: Medo de nova hospitalização, sentimentos de vergonha ou humilhação por comportamentos durante o delirium.
- Funcionamento Cognitivo Residual: Alguns pacientes, especialmente idosos ou com demência prévia, podem não retornar ao nível cognitivo basal, sofrendo um declínio acelerado permanente.
- Relacionamentos: A experiência traumática e a possível mudança cognitiva podem tensionar relações familiares.
- Autonomia: Pode precipitar a perda da independência e a necessidade de cuidados institucionais.
Perguntas frequentes
1. Delirium é o mesmo que "delírio"?
Não. Em português, esta é uma das confusões mais comuns. Delirium (estado confusional agudo) é uma síndrome orgânica com desorientação, flutuação e alteração da consciência. Delírio (em inglês, delusion) é uma crença falsa fixa, um sintoma que pode aparecer em várias doenças (esquizofrenia, delirium, demência). Um paciente com delirium pode ter delírios, mas estes são fragmentados e mudam rapidamente.
2. O delirium é reversível?
Sim, na maioria dos casos, se a causa subjacente for prontamente identificada e tratada, o delirium é totalmente reversível. No entanto, em pacientes muito idosos, frágeis ou com demência prévia, a recuperação pode ser incompleta, e o episódio pode marcar um declínio cognitivo permanente.
3. Meu familiar idoso, sempre lúcido, ficou agressivo e confuso no hospital. Ele "pirou"?
Quase certamente não. Este é o quadro clássico de delirium hospitalar. É uma reação cerebral aguda à doença, cirurgia, medicação ou ambiente hospitalar. É um sinal de que o cérebro dele está sob estresse, não de uma doença mental primária. Comunique isso imediatamente à equipe.
4. Por que os benzodiazepínicos (como lorazepam) são contraindicados no delirium comum?
Porque eles deprimem ainda mais o sistema nervoso central, podem piorar a confusão, a desinibição (efeito paradoxal) e levar à depressão respiratória. São reservados apenas para o delirium por abstinência de álcool ou sedativos.
5. Como posso, como familiar, ajudar a prevenir o delirium durante a internação?
Você é um agente fundamental. Suas ações são intervenções psicossociais de primeira linha:
- Visite frequentemente, em horários variados.
- Traga óculos, aparelho auditivo, fotos da família, objetos pessoais.
- Converse, relembre eventos, oriente sobre o local e o dia.
- Incentive a mobilização (sentar na cadeira, caminhar com ajuda).
- Monitore se ele está com dor ou constipado e comunique à equipe.
- Garanta que ele se alimente e hidrate adequadamente.
6. O delirium pode ser prevenido?
Sim, em grande parte. Programas de prevenção como o "Hospital Elder Life Program" (HELP) são muito eficazes. Eles focam em: orientação, estimulação cognitiva, mobilização precoce, otimização do sono, correção da desidratação e revisão criteriosa da medicação. Cuidados médicos apropriados e monitorização das drogas terapêuticas exercem um papel significativo.
7. Qual a diferença entre delirium e demência? A demência pode "virar" delirium?
São condições distintas. A demência é crônica e progressiva; o delirium é agudo e flutuante. Um paciente com demência tem um cérebro extremamente vulnerável. Qualquer insulto (infecção, nova medicação) pode precipitar um episódio de delirium sobreposto à demência. Isso é comum e se manifesta como uma piora aguda e abrupta do estado mental de um paciente demenciado.
8. Pacientes em delirium podem consentir com tratamentos ou participar de pesquisas?
Há questões éticas latentes. Uma pessoa em delirium não está em condições mentais de dar consentimento informado válido, devido aos déficits de atenção, compreensão e julgamento. Para decisões urgentes, aplica-se o consentimento por substituição (familiar/responsável). Para pesquisas, é necessário consentimento prévio (diretivas antecipadas) ou consentimento de um representante legal, com protocolos éticos rigorosos.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, III.
- Barlow, D.H.; Durand, V.M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Tradução da 7ª ed. americana. São Paulo: Cengage Learning, 2015.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
- Breitbart, W., & Alici, Y. (2012). Evidence-Based Treatment of Delirium in Patients With Cancer. Journal of Clinical Oncology.
- Inouye, S.K. (2006). Delirium in Older Persons. New England Journal of Medicine.
- Meagher, D.J., & Trzepacz, P.T. (2012). Delirium. In The American Psychiatric Publishing Textbook of Psychiatry.
- Fearing, M.A., & Inouye, S.K. (2009). Delirium. In Focus on Geriatric Psychiatry and Neurology.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.