Definição e conceito
Delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda e flutuante, caracterizada por uma perturbação primária da atenção e da consciência, acompanhada de alterações cognitivas globais. É um distúrbio da função cerebral global, resultante de uma condição médica geral subjacente, intoxicação ou abstinência de substâncias, exposição a toxinas ou múltiplas etiologias combinadas. Na semiologia psiquiátrica, o delirium é classificado como um transtorno neurocognitivo, situando-se na interface entre a neurologia e a psiquiatria, com um curso temporal agudo ou subagudo, que se desenvolve em horas ou poucos dias.
A terminologia técnica inclui os termos delirium (inglês) e estado confusional agudo. É crucial diferenciá-lo de outras condições. A demência é um processo crônico e progressivo de declínio cognitivo, sem alteração primária do nível de consciência. O delirium, por sua vez, tem início agudo e flutuação diurna. A depressão pode cursar com lentificação psicomotora e déficits cognitivos pseudodemenciais, mas não apresenta a desorientação e a flutuação características do delirium. A esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos primários apresentam psicose com preservação da consciência e da orientação, ao contrário do delirium, onde os sintomas psicóticos (alucinações, delírios) são secundários à perturbação da consciência.
Epidemiologicamente, o delirium é um problema de saúde pública significativo, especialmente em populações vulneráveis. Estima-se que esteja presente em cerca de 20% dos idosos admitidos em hospitais gerais. Em unidades de terapia intensiva (UTI), essa prevalência pode superar 80%. É um forte preditor de mortalidade hospitalar, aumento do tempo de internação, declínio funcional acelerado e maior risco de institucionalização pós-alta.
Apresentação clínica
A apresentação clínica do delirium é heterogênea, mas seus sintomas nucleares giram em torno da perturbação aguda da atenção e da consciência. A flutuação dos sintomas ao longo do dia, com períodos de piora (tipicamente ao entardecer e à noite – "sundowning") e de relativa lucidez, é uma característica cardinal.
Domínio Cognitivo:
- Atenção: É o domínio mais comprometido e central para o diagnóstico. O paciente apresenta hipotenacidade – incapacidade de focar, sustentar ou deslocar a atenção. Tarefas simples como seguir uma conversa ou uma sequência de comandos tornam-se impossíveis. A desatenção é difusa e flutuante.
- Consciência: O nível de consciência está alterado, variando desde um estado de hipervigilância e alerta até o letargia e o estupor. A clareza da percepção do ambiente está reduzida.
- Orientação: Há desorientação alopsíquica, principalmente temporal (não sabe o dia, mês, ano), seguida pela espacial (não reconhece onde está). A orientação pessoal pode estar preservada inicialmente, mas pode se perder em quadros graves.
- Memória: Ocorre hipomnésia de fixação – prejuízo grave na capacidade de reter novas informações. A memória de evocação para eventos recentes também está comprometida. Frequentemente, há amnésia lacunar a posteriori para o período do episódio delirante.
- Pensamento e Linguagem: O pensamento torna-se desorganizado, ilógico, incoerente e empobrecido. A linguagem pode ser desviante do tópico, vaga, com circunlóquios, ou apresentar afasia nominal. O discurso pode ser lento e hesitante ou, em formas hiperativas, pressionado e fragmentado.
Domínio da Sensopercepção:
- Alucinações: Comuns, tipicamente visuais (ver insetos, pessoas, animais) ou táteis (sensação de formigamento, de algo rastejando sobre a pele). Podem ser aterradoras e contribuir para a agitação. Alucinações auditivas também ocorrem, mas são menos frequentes que nas psicoses primárias.
- Ilusões: Interpretações errôneas de estímulos reais (por exemplo, acreditar que a sombra da cortina é uma pessoa).
Domínio do Pensamento:
- Delírios: São tipicamente de conteúdo persecutório, não sistematizados e flutuantes. O paciente pode acreditar que está sendo envenenado, que os profissionais querem machucá-lo ou que está em perigo iminente. Diferentemente dos delírios na esquizofrenia, são pobremente elaborados e mutáveis.
Domínio Afetivo:
- Labilidade Emocional: Oscilações rápidas e imprevisíveis do humor são frequentes. O paciente pode passar rapidamente do choro à irritabilidade, do medo à apatia.
- Ansiedade e Medo: São reações comuns à experiência confusa e ameaçadora que o paciente vivencia.
Domínio Psicomotor e Comportamental:
Com base na psicomotricidade, o delirium é classicamente subdividido em subtipos:
- Hiperativo: Caracterizado por agitação psicomotora, inquietação, hipervigilância, discurso pressionado e, por vezes, agressividade. É o mais facilmente reconhecido.
- Hipoativo: Caracterizado por lentificação psicomotora, apatia, letargia e retraimento. É o subtipo mais comum em idosos e frequentemente subdiagnosticado, sendo confundido com depressão ou demência.
- Misto: Alternância entre períodos de hiperatividade e hipoatividade.
Exemplo Clínico Conciso:
- Hiperativo: Sr. J., 78 anos, 48h pós-cirurgia de fratura de fêmur. À noite, torna-se agitado, tenta arrancar o acesso venoso, grita que há "aranhas no teto". Chama a enfermeira pelo nome da falecida esposa. Está sudorético, taquicárdico. De manhã, está mais calmo, mas desorientado no tempo, sem lembrar dos eventos da noite.
- Hipoativo: Dona M., 82 anos, com infecção urinária. Na enfermaria, permanece imóvel na cama, com o olhar fixo no vazio. Responde monossilabicamente e com grande latência. Recusa alimentação. A família relata que "está diferente, muito quieta".
Neurobiologia e fisiopatologia
O delirium é entendido como a manifestação clínica de uma disfunção cerebral aguda e difusa. Não há uma lesão estrutural única, mas sim uma perturbação nos sistemas de neurotransmissão e na comunicação neuronal, frequentemente desencadeada por um estresse fisiológico (infecção, desequilíbrio metabólico, cirurgia).
O modelo fisiopatológico mais aceito é o da "Vulnerabilidade Cerebral + Insulto Agudo". Um cérebro com reserva cognitiva reduzida (idosos, demência pré-existente, lesão cerebral) é mais vulnerável. Um insulto agudo (como os listados abaixo) age como gatilho, desequilibrando sistemas neurotransmissores críticos:
-
Desequilíbrio de Neurotransmissores: É o mecanismo central.
- Deficiência Colinérgica: A hipofunção do sistema colinérgico é uma das hipóteses mais robustas. A acetilcolina é crucial para atenção, memória e consciência. Condições como hipóxia, hipoglicemia e o uso de drogas anticolinérgicas (ex.: anti-histamínicos, alguns antidepressivos tricíclicos) reduzem a atividade colinérgica, precipitando o delirium.
- Excesso Dopaminérgico: O aumento da atividade dopaminérgica está associado a sintomas psicóticos e agitação. Estresse, dor e certas medicações (ex.: dopamina, levodopa) podem elevar os níveis de dopamina.
- Desregulação de Outros Sistemas: Alterações nos sistemas GABAérgico (envolvido na inibição cortical), serotoninérgico (humor, ciclo sono-vigília) e glutamatérgico (excitotoxicidade) também contribuem para o quadro.
-
Resposta Inflamatória Sistêmica: Insultos como infecções, cirurgias ou traumas liberam citocinas pró-inflamatórias (IL-1, IL-6, TNF-alfa). Essas citocinas podem atravessar a barreira hematoencefálica ou ativá-la indiretamente, desencadeando uma neuroinflamação que interfere na neurotransmissão e na função neuronal.
-
Estresse Oxidativo e Comprometimento Metabólico: Condições como hipóxia, hipoglicemia ou disfunção mitocondrial levam à produção excessiva de radicais livres, causando dano neuronal e agravando a disfunção cerebral.
-
Interrupção do Ciclo Sono-Vigília: A desregulação do ritmo circadiano, comum em hospitais e em estados de doença aguda, contribui para a confusão e a piora noturna dos sintomas.
A hipoglicemia merece destaque especial, como apontado por Dalgalarrondo. É um fator etiológico crítico porque pode causar lesão neuronal irreversível no sistema nervoso central em um curto espaço de tempo, mesmo na ausência de história prévia de diabetes.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
O diagnóstico do delirium é essencialmente clínico, baseado na observação cuidadosa e no exame do estado mental.
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Agitação ou lentificação anormal, descompasso com o ambiente.
- Fala e Linguagem: Desorganizada, incoerente, perseverante, ou muito lenta e escassa.
- Humor e Afeto: Lábil, ansioso, irritável ou apático.
- Processo do Pensamento: Desorganizado, ilógico, com possíveis delírios não sistematizados.
- Conteúdo do Pensamento: Pode revelar ideias persecutórias ou de prejuízo relacionadas ao ambiente hospitalar.
- Sensopercepção: Relato ou comportamento sugestivo de alucinações (especialmente visuais) ou ilusões.
- Cognição (Avaliação Breve):
- Atenção: Teste de dígitos (repetir sequências), nomear os meses do ano ao contrário, teste de apertar a mão do examinador ao ouvir uma letra específica.
- Orientação: Tempo (data completa), lugar, pessoa.
- Memória: Fornecer 3 palavras para lembrar (ex.: maçã, mesa, caneta) e pedir a evocação após 3-5 minutos.
- Pensamento Abstrato: Interpretação de provérbios (pode estar concretizada).
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Confusion Assessment Method (CAM): Instrumento breve e validado, amplamente utilizado para rastreio. Avalia: 1) Início agudo e curso flutuante; 2) Desatenção; 3) Pensamento desorganizado; 4) Nível de consciência alterado. O diagnóstico requer a presença dos itens 1 e 2, mais o 3 ou o 4.
- Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98): Escala mais detalhada, útil para quantificar a gravidade e monitorar a resposta ao tratamento.
- 3-Minute Diagnostic Interview for CAM (3D-CAM): Versão ultra-rápida do CAM para uso em ambientes de alta rotatividade.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas | Diferenciação Chave |
|---|---|---|
| Demência (ex.: Doença de Alzheimer) | Início insidioso, curso progressivo e crônico. Memória é o domínio mais afetado inicialmente. Consciência preservada. | Curso: Crônico vs. Agudo. Consciência: Preservada vs. Alterada. Atenção: Relativamente preservada vs. Gravemente comprometida. |
| Depressão com Sintomas Cognitivos (Pseudodemência) | Humor deprimido, anedonia, ideação de culpa/desvalia. Queixas cognitivas proeminentes ("não consigo me concentrar"). | Início: Relacionado a evento psicossocial. Testes Cognitivos: Esforço variável, respostas do tipo "não sei". Atenção pode ser comprometida, mas a desorientação é rara. |
| Transtorno Psicótico Primário (ex.: Esquizofrenia) | Psicose organizada (delírios sistematizados, alucinações auditivas), afeto embotado. Consciência e orientação preservadas. | Consciência/Orientação: Preservadas. Curso: Crônico, com história prévia. Tipo de Psicose: Sistematizada vs. Fragmentada e flutuante. |
| Estado de Mal Epiléptico Não-Convulsivo | Alteração comportamental ou cognitiva súbita, com ou sem movimentos automáticos sutis. Pode haver flutuação. | EEG é diagnóstico, mostrando atividade epileptiforme contínua. Resposta rápida a benzodiazepínicos. |
| Síndrome de Wernicke-Korsakoff | Confusão aguda (Wernicke), oftalmoplegia, ataxia, seguida por amnésia anterógrada grave e confabulação (Korsakoff). | Tríade clássica (confusão, oftalmoplegia, ataxia). História de uso crônico de álcool e desnutrição. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Subdiagnóstico do Subtipo Hipoativo: Atribuir letargia e retraimento à "idade", depressão ou cansaço.
- Atribuir Sintomas à "Demência de Base": Considerar a agitação ou confusão como uma simples exacerbação da demência pré-existente, sem investigar causas reversíveis.
- Interromper a Investigação Após uma Primeira Causa: Como destacado por Dalgalarrondo, o delirium é frequentemente multifatorial. Encontrar uma infecção urinária não exclui a coexistência de desidratação, dor não controlada ou efeito adverso medicamentoso.
- Confundir com Agitação por Dor ou Outro Desconforto: Não avaliar e tratar adequadamente a dor, que é um potente fator de risco para delirium.
Condições associadas
O delirium nunca é um diagnóstico primário; é sempre secundário a uma ou mais condições subjacentes. Sua ocorrência é ubíqua na medicina, mas é mais frequente e grave em certos contextos:
- Idade Avançada: O principal fator de risco, devido à redução da reserva cognitiva e da homeostase fisiológica.
- Demência Pré-Existente: Pacientes com Doença de Alzheimer, Demência Vascular, entre outras, têm risco extremamente elevado.
- Hospitalização, Especialmente em UTI: O ambiente desconhecido, imobilidade, dor, polifarmácia, infecções e distúrbios do sono são fatores precipitantes potentes.
- Pós-Operatório (Especialmente Cirurgias Cardíacas e Ortopédicas em Idosos): Associado ao estresse cirúrgico, anestésicos, analgesia inadequada e complicações.
- Infecções Sistêmicas: Sepse, pneumonia, infecções do trato urinário.
- Distúrbios Metabólicos: Desidratação, distúrbios eletrolíticos (hipo/hipernatremia, distúrbios do cálcio), insuficiência renal ou hepática, hipoglicemia.
- Doenças Cerebrovasculares: Acidente vascular cerebral (AVC), especialmente hemorrágico ou em território de artérias cerebrais posteriores.
- Intoxicação ou Abstinência de Substâncias: Álcool (delirium tremens), benzodiazepínicos, opioides, anticolinérgicos, corticoides.
- Dor Não Controlada.
Nas classificações diagnósticas:
- DSM-5-TR: Transtorno Neurocognitivo Delirante. Requer critérios de A) Perturbação da atenção e consciência; B) Desenvolvimento agudo com flutuação diurna; C) Déficit cognitivo adicional; D) Os distúrbios não ocorrem em contexto de coma; E) Evidência de causa orgânica.
- CID-11: 6D70 Delirium. Especifica se devido a substância/medicamento, a condição médica, a múltiplas etiologias ou a outra etiologia específica.
Implicações terapêuticas
O tratamento do delirium é biopsicossocial e em duas frentes: 1) Identificação e tratamento da(s) causa(s) subjacente(s); 2) Manejo dos sintomas comportamentais e de suporte.
1. Tratamento da Causa Subjacente (Etiológico):
É a intervenção mais eficaz. Deve ser agressiva e abrangente, lembrando da natureza multifatorial.
- Correção de Distúrbios Metabólicos/Hidroeletrolíticos: Reposição volêmica para desidratação, correção de hipoglicemia, distúrbios iônicos.
- Tratamento de Infecções: Antibioticoterapia adequada.
- Otimização da Oxigenação: Tratar causas de hipóxia.
- Revisão Medicamentosa ("Desprescrição"): Suspender ou reduzir drogas não essenciais, especialmente as com alto potencial anticolinérgico (ex.: difenidramina, oxibutinina, amitriptilina), benzodiazepínicos e opioides em excesso.
- Controle da Dor: Usar esquemas analgésicos adequados (preferir opioides não-morfinomiméticos ou em baixa dose, associados a adjuvantes).
2. Intervenções Psicossociais e Ambientais (Primeira Linha):
Conforme os dados fornecidos, esta é a primeira linha de tratamento recomendada. O objetivo é reorientar, tranquilizar e reduzir o estresse.
- Reorientação: Equipe e familiares devem se identificar, explicar procedimentos, usar calendários e relógios visíveis.
- Estimulação Cognitiva Suave: Conversar, envolver em atividades simples.
- Otimização do Ambiente: Garantir iluminação adequada durante o dia e penumbra à noite para regular o ciclo sono-vigília. Reduzir ruídos desnecessários. Facilitar o sono noturno.
- Mobilização Precoce: Evitar imobilização. Levantar da cama, sentar na poltrona, caminhar com assistência.
- Presença Familiar: Como citado, a presença de familiares e objetos familiares (fotos) pode ser profundamente reconfortante e reduzir a sensação de ameaça.
- Inclusão nas Decisões: Sempre que possível, envolver o paciente em escolhas simples, preservando seu senso de controle e autonomia.
3. Intervenções Farmacológicas (Sintomáticas):
Reservadas para casos em que os sintomas (agitação, psicose, insônia) representam risco para o paciente ou para a equipe, ou impedem a execução de cuidados médicos essenciais.
- Antipsicóticos: São a classe de escolha para sintomas psicóticos e agitação.
- Haloperidol: Clássico, via oral, intramuscular ou endovenosa (com monitoração cardíaca devido ao risco de QT longo). Dose baixa (ex.: 0,5 – 2 mg).
- Antipsicóticos Atípicos: Risperidona, olanzapina, quetiapina. Podem ter perfil de efeitos colaterais mais favorável em alguns pacientes. A quetiapina, por sua sedação, é útil para agitação noturna.
- Agentes GABAérgicos (Uso Cauteloso): Benzodiazepínicos (ex.: lorazepam) são geralmente evitados, pois podem piorar a confusão e a desinibição. Sua indicação principal é o delirium por abstinência de álcool ou benzodiazepínicos.
- Melatonina ou Agonistas da Melatonina (Ramelteona): Podem ser utilizados para regular o ciclo sono-vigília.
Monitoramento de Hidratação como Estratégia Terapêutica e Preventiva Central:
A desidratação é um dos fatores precipitantes e perpetuantes mais comuns e modificáveis do delirium. O monitoramento e a garantia de um balanço hídrico adequado são pilares do manejo.
- Avaliação: Observar sinais de desidratação (mucosas secas, diminuição do turgor da pele, taquicardia, hipotensão ortostática). Monitorar diurese, densidade urinária e eletrólitos séricos (especialmente sódio e ureia).
- Intervenção: Estimular a ingestão oral de líquidos. Se insuficiente, instituir hidratação venosa com solução fisiológica ou solução glicosada, conforme a necessidade. Em idosos, a reposição deve ser cuidadosa para evitar sobrecarga volêmica.
- Prevenção de Recidivas: Após a resolução do episódio agudo, é imperativo estabelecer um plano para manter a hidratação adequada, especialmente para pacientes idosos, com disfagia ou com comprometimento cognitivo de base. Educar familiares e cuidadores sobre a importância da oferta regular de líquidos, mesmo sem sede manifesta.
O impacto prognóstico é significativo. O delirium está associado a maior mortalidade, declínio funcional acelerado, maior risco de institucionalização em asilos e piora da cognição de base. Sua prevenção e manejo ágil melhoram diretamente os desfechos clínicos e a qualidade de vida.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Para o paciente, o delirium é uma experiência profundamente aterrorizante e desorientadora. É como acordar em um pesadelo vívido do qual não se consegue escapar. A realidade se fragmenta: rostos familiares podem parecer ameaçadores, sombras se transformam em monstros, e a passagem do tempo perde o sentido. A memória do evento costuma ser fragmentada ou ausente, mas a sensação de medo e impotência pode persistir.
Como o Paciente Descreve: "Foi um terror, via coisas que não existiam", "Não sabia onde estava nem quem eram as pessoas", "Parecia que estava sonhando acordado, mas era um pesadelo", "Sumiu um pedaço da minha vida, só lembro de flashes assustadores".
Comunicação com o Paciente (Durante o Episódio):
- Abordagem Calma e Segura: Fale pausadamente, em tom baixo e tranquilo.
- Identificação Constante: Apresente-se sempre, diga sua função ("Sou o Dr. Luigi, seu psiquiatra").
- Reorientação Suave: Diga onde ele está, o dia e a hora, de forma simples. Evite confrontos.
- Validação da Experiência: Não discuta a realidade das alucinações. Valide o sentimento ("Isso deve ter sido muito assustador para o senhor").
- Instruções Simples e Concretas: Use frases curtas e diretas. Dê um comando de cada vez.
- Presença Reconfortante: Às vezes, a simples presença silenciosa de uma pessoa calma é mais eficaz do que muitas palavras.
Comunicação com a Família/Cuidadores:
- Educação: Explicar que o delirium é uma complicação médica comum, um "sinal de alerta" do cérebro, e não uma loucura ou um agravamento da demência.
- Esclarecer o Papel: Enfatizar que eles são parte crucial do tratamento. Sua presença familiar, a conversa calma e a ajuda na reorientação são terapêuticas.
- Orientar sobre Comportamento: Instruí-los a adotar a mesma postura calma e reorientadora. Evitar corrigir o paciente de forma brusca ou discutir suas crenças delirantes.
- Apoio Emocional: Reconhecer que testemunhar um ente querido em delirium é angustiante. Oferecer suporte e canais de dúvidas.
- Plano de Alta: Discutir estratégias para prevenir recidivas em casa: monitorar hidratação, adesão medicamentosa, identificar sinais precoces de infecção, garantir um ambiente seguro e previsível.
Impacto Funcional: Além do risco médico imediato, o delirium pode levar a uma perda abrupta de independência. O paciente pode sair do hospital com medo de ficar sozinho, com dificuldades de memória e planejamento aumentadas, necessitando de maior suporte para atividades da vida diária. Isso impacta diretamente a qualidade de vida do paciente e sobrecarrega a rede de cuidados.
Perguntas frequentes
1. O delirium é a mesma coisa que "delírio" ou loucura?
Não. Na psiquiatria, "delírio" refere-se a uma crença falsa e fixa (como na esquizofrenia). Delirium é o nome de uma síndrome médica aguda que pode incluir delírios entre seus sintomas, mas cuja característica principal é a confusão mental e a alteração da atenção e consciência. É um problema de saúde física que afeta o cérebro.
2. Meu familiar idoso ficou confuso no hospital. Isso é normal para a idade?
Não, nunca é "normal". A confusão mental aguda em um idoso hospitalizado é, até prova em contrário, um quadro de delirium. É um sinal de alerta importante de que algo não está bem com a saúde física dele (ex.: infecção, desidratação, efeito de medicação) e deve ser investigado e tratado com urgência.
3. O delirium tem cura?
Sim, na grande maioria dos casos, o delirium é reversível uma vez que a(s) causa(s) subjacente(s) seja(m) identificada(s) e tratada(s). O tempo para a resolução completa pode variar de horas a semanas, dependendo da gravidade do insulto e da vulnerabilidade do paciente. Em uma minoria de casos, especialmente em cérebros muito vulneráveis, alguns déficits cognitivos podem persistir.
4. Por que a hidratação é tão importante para prevenir o delirium?
O cérebro é extremamente sensível a pequenas alterações no equilíbrio de fluidos e eletrólitos. A desidratação reduz o volume sanguíneo, podendo comprometer a oxigenação cerebral, e altera a concentração de sódio no sangue, o que interfere diretamente na função das células nervosas. Um cérebro já vulnerável (de um idoso, por exemplo) tem menos capacidade de se adaptar a essas mudanças, precipitando a disfunção global que vemos no delirium.
5. Medicamentos antipsicóticos usados no delirium vão "dopar" ou causar efeitos colaterais permanentes no meu familiar?
O uso de antipsicóticos no delirium é sintomático, em baixa dose e por curto prazo, justamente para minimizar riscos. O objetivo é controlar agitação ou psicose que oferecem perigo. Efeitos colaterais como sedação ou rigidez muscular podem ocorrer, mas são monitorados e as medicações são descontinuadas tão logo o delirium comece a resolver. O risco de efeitos permanentes como discinesia tardia com esse uso breve é muito baixo, especialmente quando pesado contra o risco imediato da agitação não tratada.
6. O delirium pode deixar sequelas?
Infelizmente, sim. Mesmo após a resolução do episódio agudo, o delirium está associado a um declínio cognitivo acelerado a longo prazo. Pacientes que desenvolvem delirium durante uma hospitalização têm maior risco de evoluir para demência ou de piorar significativamente uma demência pré-existente. Isso reforça a importância crítica da prevenção.
7. Como posso ajudar a prevenir o delirium no meu familiar idoso que vai ser hospitalizado?
Você é um agente fundamental na prevenção. Leve para o hospital seus óculos, aparelho auditivo, objetos familiares. Fique ao lado dele para reorientá-lo e acalmá-lo. Estimule-o a se movimentar (sentar, levantar) conforme autorizado. Monitore e incentive a ingestão de líquidos. Informe a equipe sobre qualquer mudança súbita no comportamento ou no nível de alerta. Participe das discussões sobre os medicamentos que ele está recebendo.
8. O diagnóstico de delirium pelo DSM-5 é diferente? Isso pode fazer com que casos sejam perdidos?
Sim, conforme apontado nos dados técnicos, o DSM-5 deu ênfase primária à "perturbação da atenção", colocando a "consciência" em segundo plano. Alguns estudos sugerem que isso pode tornar os critérios menos sensíveis, deixando de diagnosticar alguns casos. Por isso, na prática clínica, é recomendado utilizar uma noção ampla de desatenção e não negligenciar a avaliação do nível de consciência, para não subdiagnosticar a síndrome, especialmente em seus subtipos hipoativos.
Referências
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Breitbart, W., & Alici, Y. Evidence-Based Treatment of Delirium in Patients With Cancer. Journal of Clinical Oncology, 30(11), 1206–1214. 2012.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Fearing, M. A., & Inouye, S. K. Delirium. In The American Psychiatric Publishing Textbook of Geriatric Psychiatry. 2009.
- Inouye, S. K., et al. The Confusion Assessment Method (CAM): A reliable tool for detection of delirium. Annals of Internal Medicine, 113(12), 941-948. 1990.
- Meagher, D., & Trzepacz, P. The Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98). The Journal of Neuropsychiatry and Clinical Neurosciences, 12(2), 233-239. 2000.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- World Health Organization. International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11). 2019/2021.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.