Delirium e terapia ocupacional

Definição e conceito

Delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda ou subaguda, caracterizada por uma perturbação flutuante da atenção, consciência e cognição, com desenvolvimento rápido (horas a dias) e representando uma mudança em relação ao funcionamento cognitivo basal do indivíduo. Na semiologia psiquiátrica, o delirium é classificado como um transtorno neurocognitivo, sendo fundamentalmente um marcador de disfunção cerebral aguda, frequentemente de etiologia multifatorial (por exemplo, infecção, desequilíbrio metabólico, efeito adverso medicamentoso). O termo "estado confusional agudo" é frequentemente utilizado como sinônimo na prática clínica.

A orientação alopsíquica – capacidade de situar-se em relação ao tempo, espaço e situação – é um dos domínios cognitivos mais precoce e severamente afetados no delirium. Conforme descrito por Cheniaux, no delirium ocorre uma desorientação confusional ou falsas orientações confuso-oniroides, com prejuízo da orientação alopsíquica e preservação relativa da autopsíquica (reconhecimento de si mesmo). Dalgalarrondo destaca que a desorientação temporal é a primeira a ocorrer, seguida pela espacial, podendo evoluir para fenômenos como falsos reconhecimentos (confundir um enfermeiro com um familiar) ou confusão do ambiente hospitalar com o domiciliar.

A Terapia Ocupacional (TO) no contexto do delirium refere-se à aplicação de atividades e intervenções estruturadas, com propósito terapêutico, voltadas para a manutenção e o restabelecimento da orientação, da atenção e de funções cognitivas superiores, bem como para a promoção de um senso de controle e identidade no paciente. Esta abordagem insere-se no âmbito mais amplo das intervenções psicossociais e da reabilitação cognitiva para transtornos neurocognitivos, atuando tanto na fase aguda do delirium quanto na prevenção em populações de risco.

Epidemiologicamente, o delirium é altamente prevalente em cenários de alta complexidade. Atinge entre 15% a 50% dos idosos hospitalizados, com picos de até 80% em unidades de terapia intensiva e em pacientes no final da vida. É um forte preditor de desfechos negativos, incluindo aumento da mortalidade, declínio funcional acelerado, maior tempo de internação e risco elevado para institucionalização. A população idosa, pessoas com comprometimento cognitivo pré-existente, pacientes com AIDS e indivíduos polimedicados constituem grupos de maior vulnerabilidade.

Apresentação clínica

A apresentação clínica do delirium é marcada por início agudo e curso flutuante, com frequente piora vespertina e noturna (fenômeno conhecido como sundowning). A avaliação deve ser organizada por domínios, reconhecendo que a expressão sintomatológica pode variar entre os subtipos hiperativo, hipoativo e misto.

Domínio Cognitivo:

  • Atenção: Déficit cardinal. O paciente apresenta extrema dificuldade para focalizar, direcionar, manter e alternar a atenção. Distrai-se facilmente com estímulos irrelevantes e não consegue seguir uma linha de raciocínio ou conversação.
  • Orientação: Comprometimento precoce e grave. A orientação temporal é a mais afetada inicialmente (não sabe o dia, mês, ano, hora). Progride para desorientação espacial (não sabe onde está, confunde partes do hospital) e, em casos graves, para desorientação situacional. A orientação autopsíquica (nome, identidade) geralmente se mantém preservada.
  • Memória: Prejuízo mnêmico, principalmente na memória de fixação e recente, secundário ao déficit atencional. O paciente não retém novas informações.
  • Pensamento e Linguagem: Pensamento desorganizado, ilógico e incoerente. O discurso pode ser desorganizado, tangencial, perseverativo ou notavelmente lentificado. A capacidade de abstração está comprometida.

Domínio da Consciência e Percepção:

  • Nível de Consciência: Alterado, variando desde o estado de alerta com hipervigilância (subtipo hiperativo) até o letargia e o estupor (subtipo hipoativo). A flutuação é característica.
  • Sensopercepção: Podem ocorrer alucinações, tipicamente visuais (ver insetos, pessoas, figuras ameaçadoras) ou táteis. Ilusões também são comuns (interpretar erroneamente sombras ou objetos).

Domínio Afetivo e Comportamental:

  • Labilidade Afetiva: Mudanças rápidas e imprevisíveis no humor, como agitação, ansiedade, irritabilidade, apatia ou embotamento afetivo.
  • Comportamento Psicomotor: Pode manifestar-se como agitação psicomotora (inquietação, tentativas de retirar cateteres, agressividade) ou retardo psicomotor (lentidão extrema, imobilidade). O subtipo hipoativo é frequentemente subdiagnosticado.
  • Ciclo Sono-Vigília: Perturbação marcante, com insônia noturna, sonolência diurna ou inversão total do ciclo.

Exemplos Clínicos Concisos:

  1. Paciente hiperativo: Idoso 78 anos, 2 dias pós-operatório de fratura de fêmur. À noite, torna-se agitado, tenta sair do leito gritando que precisa "buscar as crianças na escola". Chama a enfermeira de "mãe" (falso reconhecimento). Está sudorético, taquicárdico e não consegue responder qual o dia da semana.
  2. Paciente hipoativo: Senhora 82 anos, com infecção urinária. Familiares referem que está "mais quieta". Na avaliação, está sonolenta, com resposta lentificada às perguntas. Quando estimulada, abre os olhos mas parece perplexa. Sabe seu nome, mas diz estar "em casa da filha" e que o ano é 1995. Não interage com o ambiente.

Neurobiologia e fisiopatologia

O delirium é compreendido como a manifestação clínica final comum de uma disfunção cerebral aguda e difusa, resultante de uma interação complexa entre vulnerabilidade do paciente (fatores predisponentes) e insultos agudos (fatores precipitantes).

Mecanismos Neuroquímicos e de Neurotransmissão:
O modelo fisiopatológico central envolve um desequilíbrio na neurotransmissão colinérgica e dopaminérgica. A deficiência colinérgica é um achado consistente, tornando o cérebro mais suscetível a insultos. Muitos fármacos anticolinérgicos são potentes precipitantes de delirium. Paralelamente, há frequentemente um aumento relativo na atividade dopaminérgica, que pode estar associado a sintomas psicóticos como alucinações e agitação. Outros sistemas neurotransmissores também estão implicados, incluindo o glutamatérgico (excitotoxicidade), o gabaérgico (especialmente na sedação excessiva) e o serotoninérgico.

Resposta Inflamatória Sistêmica:
Doenças agudas (infecções, cirurgias, trauma) desencadeiam uma liberação sistêmica de citocinas pró-inflamatórias (ex.: IL-1, IL-6, TNF-alfa). Essas citocinas podem atravessar a barreira hematoencefálica ou ativá-la indiretamente, desencadeando uma neuroinflamação. Esta resposta inflamatória cerebral contribui para a disfunção neuronal, alteração na neurotransmissão e, potencialmente, para dano neuronal agudo.

Estresse Oxidativo e Comprometimento Metabólico:
Condições como hipóxia, hipoglicemia ou insuficiência de órgãos levam a uma falha na entrega de energia e substratos metabólicos ao cérebro. Neurônios, especialmente em regiões vulneráveis como o córtex associativo e o hipocampo, sofrem com o estresse oxidativo e a falência mitocondrial, resultando em disfunção aguda.

Integração Neural e Consciência:
As alterações na atenção e consciência sugerem disfunção em redes neuronais amplamente distribuídas. Especificamente, são implicadas:

  • Sistema de Ativação Reticular Ascendente (SARA) e Tálamo: Cruciais para a vigília e o direcionamento da atenção.
  • Córtex Pré-Frontal Dorsolateral: Essencial para atenção sustentada, memória de trabalho e funções executivas.
  • Córtex Parietal Posterior e Cíngulo Posterior: Envolvidos na orientação espacial e na integração de informações sensoriais.
  • Córtex Occipital Temporal: Disfunções nesta região podem estar na base das alucinações visuais complexas.

A desorientação específica observada no delirium reflete a desconexão e a desorganização dessas redes que normalmente integram informações temporais, espaciais e contextuais para criar uma percepção coerente e orientada da realidade. O estado confusional é, portanto, uma expressão de falha na síntese cortical superior.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

O diagnóstico do delirium é clínico, baseado na observação cuidadosa e na aplicação de critérios padronizados (DSM-5-TR ou CID-11). A anamnese de um informante confiável sobre a mudança aguda no estado mental é fundamental.

Achados ao Exame do Estado Mental:

  • Atenção: Testada por sequências de dias da semana ou meses do ano ao contrário, ou pelo teste de subtrações seriadas (ex.: subtrair 7 de 100). O paciente com delirium falha precocemente, perde o fio da meada ou se distrai.
  • Orientação: Avaliação direta: "Pode me dizer a data completa de hoje (dia, mês, ano)?"; "Onde estamos agora?"; "Qual a situação?".
  • Pensamento: Observar a coerência, lógica e organização do discurso espontâneo e nas respostas.
  • Percepção: Investigar ativamente a presença de alucinações ou ilusões: "Tem visto coisas diferentes ou ouvido vozes que os outros não percebem?".
  • Consciência: Avaliar o nível de alerta (hiperalerta, letárgico, estuporoso).

Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:

  • Confusion Assessment Method (CAM): Ferramenta de rastreio amplamente validada, que opera com quatro critérios cardinais: 1) Início agudo e curso flutuante; 2) Desatenção; 3) Pensamento desorganizado; 4) Nível de consciência alterado. A presença de 1+2 e (3 ou 4) sugere diagnóstico de delirium. Existe versão para UTI (CAM-ICU) e para profissionais não especialistas.
  • Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98): Escala mais detalhada, útil para quantificar a severidade e monitorar a resposta ao tratamento.
  • Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) ou Montreal Cognitive Assessment (MoCA): Úteis para estabelecer uma linha de base cognitiva, mas não são diagnósticos para delirium. Podem ser aplicados seriamente para documentar flutuações.

Diagnóstico Diferencial Estruturado:

Condição Características Distintivas Diferenciação Chave
Demência Início insidioso, curso progressivo e estável (sem flutuações agudas). Memória é o déficit proeminente inicial. Atenção e consciência normais até fases avançadas. Curso temporal. Na demência, a desorientação é crônica e progressiva; no delirium, é aguda e flutuante. Paciente com demência geralmente está alerta.
Transtorno Amnéstico Déficit de memória isolado e proeminente (amnésia), sem comprometimento significativo da atenção ou consciência. Domínio cognitivo afetado. No transtorno amnéstico, a desorientação é do tipo amnésica (não se lembra), enquanto no delirium é confusional (não integra/sintetiza a informação).
Depressão com Sintomas Psicóticos Humor deprimido persistente, psicose congruente com o humor (ex.: delírios de culpa). Déficits cognitivos são secundários à falta de motivação/retardo psicomotor (pseudodemência). Consciência e Atenção. O paciente deprimido está consciente e, se estimulado, pode focar a atenção. A psicose é temática e persistente, não flutuante.
Epilepsia (Estado Crepuscular) Episódios paroxísticos de alteração da consciência com automatismos, podendo incluir desorientação e comportamento desorganizado. Curso e Eletroencefalograma (EEG). O estado crepuscular é episódico, com início e fim abruptos. O EEG durante o episódio é quase sempre anormal (descargas epileptiformes), enquanto no delirium pode mostrar apenas lentificação difusa inespecífica.
Esquizofrenia Psicose crônica (delírios, alucinações) com curso contínuo ou episódico, mas com preservação da consciência e da orientação entre os episódios agudos. Pensamento desorganizado é característico, mas não flutua rapidamente. Consciência e Início. Na esquizofrenia, não há turvação da consciência. O início é geralmente na adolescência/adultez jovem, não agudo em um idoso hospitalizado.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Subdiagnóstico do Subtipo Hipoativo: Confundido com depressão, fadiga ou cooperatividade. A letargia e o pouco engajamento são erroneamente atribuídos à idade ou à doença de base.
  2. Atribuição à "Demência" ou "Senilidade": Qualquer alteração cognitiva no idoso é rotulada como demência, ignorando a natureza aguda e potencialmente reversível do delirium.
  3. Foco Exclusivo nos Sintomas Comportamentais: Tratar apenas a agitação com medicação, sem investigar a causa médica subjacente do delirium.
  4. Desconsiderar o Delirium em Pacientes Jovens: Apesar de menos comum, pode ocorrer em UTI, pós-cirurgia cardíaca, em pacientes com AIDS ou em uso de drogas ilícitas.

Condições associadas

O delirium raramente é uma entidade primária; é quase sempre secundário a uma condição médica geral, intoxicação ou abstinência de substâncias. Sua ocorrência é um sinal de alerta para a descompensação de uma ou mais condições subjacentes.

Condições Frequentes e Clinicamente Relevantes:

  • Infecções: Qualquer infecção sistêmica (pneumonia, infecção urinária, sepse) ou do SNC (meningite, encefalite).
  • Desequilíbrios Metabólicos: Distúrbios hidroeletrolíticos (hipo/hipernatremia, desidratação), acidose/alcalose, insuficiência renal ou hepática, distúrbios da glicemia.
  • Privação Sensorial/Ambiental: Hospitalização em UTI (luz constante, barulho, falta de janelas), uso de restrições físicas, óculos ou aparelho auditivo não disponíveis.
  • Fármacos: Efeito anticolinérgico (antidepressivos tricíclicos, anti-histamínicos, anticolinérgicos urinários), benzodiazepínicos, opioides, corticoides, polifarmácia.
  • Condições Neurológicas Agudas: Acidente vascular cerebral (AVC), hemorragia intracraniana, convulsões, traumatismo craniano.
  • Dor Aguda ou Não Tratada.
  • Retirada de Substâncias: Álcool (delirium tremens), benzodiazepínicos, barbitúricos.
  • Condições Cardiorrespiratórias: Hipóxia, insuficiência cardíaca, arritmias, infarto do miocárdio.

Correlação com Sistemas de Classificação:

  • DSM-5-TR: Classificado sob "Transtornos Neurocognitivos". O diagnóstico principal é Delirium. A especificação da etiologia é obrigatória: devido a outra condição médica, por intoxicação por substância, por abstinência de substância, devido a múltiplas etiologias, ou sem outra especificação.
  • CID-11: Código 6D70 – Delirium. Também requer a especificação da causa subjacente (ex.: 6D70.0 Delirium devido a doença, lesão ou disfunção cerebral; 6D70.1 Delirium devido a substância ou medicamento).

A identificação e o tratamento da condição associada são o pilar do manejo do delirium. A terapia ocupacional e outras intervenções não-farmacológicas atuam como coadjuvantes essenciais neste processo.

Implicações terapêuticas

O manejo do delirium é multimodal e urgente, com foco na identificação e tratamento da causa subjacente (etiológico) e no controle dos sintomas (sintomático e de suporte). A Terapia Ocupacional é um componente central do manejo não-farmacológico.

Abordagens Não-Farmacológicas (Com Evidência):

  1. Intervenções Multidisciplinares de Prevenção (Modelo Hospital Elder Life Program – HELP): Protocolos estruturados que reduzem a incidência de delirium em até 40%. A TO é protagonista nestes protocolos, que incluem:
    • Orientação e Reorientação: Uso de calendários grandes, relógios visíveis, quadros com informações do dia. Terapeutas ocupacionais e equipe de enfermagem realizam reorientação verbal frequente e não confrontadora.
    • Estimulação Cognitiva Estruturada: Atividades de Terapia Ocupacional como jogos de memória simples, leitura de jornal, conversas temáticas, artesanato adaptado. O objetivo é engajar a atenção, a memória e as funções executivas de forma gradativa e não estressante.
    • Mobilização Precoce: Incentivo à deambulação e exercícios no leito, prevenindo imobilidade e suas complicações.
    • Adaptação do Ambiente: Garantir ciclos claro-escuro (luz natural durante o dia, penumbra à noite), reduzir ruídos noturnos, disponibilizar óculos e aparelhos auditivos.
    • Promoção do Sono: Estratégias para higiene do sono, evitando intervenções desnecessárias durante a noite.
  2. Terapia de Reorientação Realidade (TRR): Técnica onde o terapeuta fornece continuamente informações sobre tempo, lugar e pessoa, utilizando pistas do ambiente. A versão mais moderna e eficaz é a Terapia de Orientação para a Realidade de 24 Horas, que integra toda a equipe e o ambiente no processo.
  3. Estimulação Sensorial Controlada: Para pacientes muito agitados ou retraídos, a TO pode utilizar caixas ou almofadas de estimulação sensorial (com texturas, objetos familiares) para promover um foco atencional calmante e uma conexão com a realidade.
  4. Inclusão em Decisões e Presença de Objetos Pessoais: Como destacado nas fontes, incluir o paciente, dentro de sua capacidade, em decisões sobre seu cuidado (ex.: "Prefere tomar o banho agora ou depois do almoço?") e permitir que tenha fotos da família, objetos pessoais ou um cobertor favorito promovem senso de controle e identidade, fatores protetores contra o delirium.

Abordagens Farmacológicas:
A farmacoterapia é secundária e reservada para situações em que os sintomas (geralmente agitação psicomotora, angústia extrema ou risco de autoagressão) impeçam a realização de exames ou tratamentos médicos necessários, ou causem sofrimento intenso.

  • Antipsicóticos Atípicos: Haloperidol em baixas doses (0,25-1 mg) é historicamente usado, mas os atípicos como risperidona ou olanzapina podem ter perfil de efeitos colaterais mais favorável, especialmente em idosos. O objetivo é a sedação leve e o controle da agitação, não a "resolução" do delirium.
  • Evitar Fármacos que Pioram o Delirium: Benzodiazepínicos (exceto em delirium por abstinência alcoólica) devem ser evitados, pois podem piorar a confusão e a desorientação.

Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
A implementação precoce e vigorosa de intervenções não-farmacológicas, com destaque para as atividades estruturadas de TO, está associada a:

  • Menor duração dos episódios de delirium.
  • Redução na necessidade e nas doses de medicação psicotrópica.
  • Melhor preservação da funcionalidade física (AVDs – Atividades de Vida Diária) após a crise.
  • Menor risco de complicações hospitalares (úlceras de pressão, tromboembolismo, pneumonia).
  • Potencial impacto na redução da mortalidade e do declínio cognitivo de longo prazo.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivência do Paciente:
O delirium é uma experiência profundamente angustiante e aterrorizante. O paciente não é meramente "confuso"; ele está imerso em uma realidade distorcida e incontrolável. A desorientação não é um simples esquecimento, mas uma perda da estrutura básica da experiência: o tempo desfaz-se, lugares familiares tornam-se estranhos e ameaçadores, rostos conhecidos podem ser vistos como impostores. As alucinações visuais são vividas como reais. A flutuação dos sintomas pode levar a momentos de lucidez intercalados com períodos de confusão profunda, aumentando a sensação de descontrole e perplexidade. O paciente pode relatar posteriormente sensações de "pesadelo acordado" ou "estar perdido dentro da própria mente".

Comunicação Clínica com o Paciente:

  1. Identificar-se Sempre: Ao se aproximar, diga seu nome e sua função. "Bom dia, Sr. João. Eu sou a Dra. Maria, sua médica."
  2. Reorientar com Calma e Simplicidade: Use frases curtas e afirmativas. "São 10 horas da manhã de terça-feira. O senhor está no Hospital São Lucas, no quarto 204. Está aqui porque teve uma pneumonia, que estamos tratando."
  3. Validar o Sofrimento, Não o Conteúdo Delirante: Evite confrontar ou argumentar. Em vez de "Isso não existe", diga: "Sei que o senhor está vendo aranhas na parede e que isso é muito assustador. Estou aqui para ajudar. Vamos verificar juntos?".
  4. Usar Pistas do Ambiente: Aponte para o relógio, o calendário, a janela. "Veja, o relógio marca 10h. A luz do sol entra pela janela, então é de manhã."
  5. Falar Devagar, com Contato Visual: Dê tempo para o processamento da informação. Mantenha um tom de voz calmo e tranquilo.

Comunicação e Suporte à Família/Cuidador:

  1. Educação: Explicar que o delirium é uma complicação médica comum e frequentemente reversível, não um sinal de "loucura" ou de demência avançada.
  2. Envolvimento Ativo: Incentivar a família a trazer objetos familiares (fotos, travesseiro, rádio), a participar de sessões de reorientação e a relatar ao time clínico qualquer mudança no comportamento.
  3. Instruções Práticas: Ensinar técnicas de comunicação (como as descritas acima). Orientar que evitem corrigir o paciente de forma brusca ou mostrar frustração.
  4. Apoio Emocional: Reconhecer que ver um ente querido em delirium é estressante. Oferecer suporte e garantir que a família também cuide de si.
  5. Informar sobre o Curso Flutuante: Alertar que o paciente pode ter momentos de lucidez seguidos de piora, especialmente à noite, e que isso faz parte do quadro.

Impacto Funcional:
Durante o episódio, há prejuízo total para a realização de Atividades de Vida Diária (AVDs) como alimentar-se, vestir-se e higiene pessoal, requerendo supervisão total. O risco de quedas é altíssimo. Após a resolução, muitos pacientes apresentam declínio funcional residual, necessitando de reabilitação (fisioterapia e TO) para retomar sua independência prévia. O delirium é um marcador de fragilidade e está associado a maior risco de institucionalização em asilos ou casas de repouso. A qualidade de vida do paciente e da família é significativamente impactada durante e após o episódio.

Perguntas frequentes

1. Delirium é a mesma coisa que demência?
Não. São condições distintas, embora possam coexistir. A demência é um declínio lento e progressivo da memória e outras funções cognitivas, com o paciente geralmente consciente e alerta. O delirium tem início agudo (horas/dias), curso flutuante, e apresenta alteração primária da atenção e do nível de consciência. Um paciente com demência tem alto risco de desenvolver delirium diante de qualquer insulto (ex.: uma infecção urinária).

2. O delirium tem cura?
O delirium em si é um sintoma de uma condição subjacente. Quando a causa é identificada e tratada com sucesso (ex.: corrigir uma infecção ou desequilíbrio eletrolítico), o delirium pode ser completamente reversível. No entanto, em idosos frágeis ou com doença cerebral pré-existente, a recuperação total pode levar semanas ou meses, e alguns podem não retornar ao seu nível cognitivo basal anterior.

3. A Terapia Ocupacional realmente ajuda em um quadro agudo como o delirium?
Sim, de forma significativa. Enquanto a equipe médica trata a causa clínica, o terapeuta ocupacional atua no manejo dos sintomas e na prevenção de complicações. Atividades estruturadas de reorientação, estimulação cognitiva suave e adaptação do ambiente reduzem a confusão, a agitação e a sensação de medo, facilitando o tratamento global e promovendo uma recuperação mais rápida e com menos sequelas funcionais.

4. Medicamentos antipsicóticos são sempre necessários para tratar o delirium?
Não. Eles são considerados uma terapia de segunda linha. A primeira abordagem deve ser sempre não-farmacológica (reorientação, TO, adaptação ambiental) e o tratamento da causa subjacente. Os antipsicóticos são reservados para situações específicas onde a agitação ou os sintomas psicóticos representam um risco iminente para o paciente ou para a equipe, ou causam sofrimento extremo.

5. Meu familiar idoso ficou muito agitado no hospital. A equipe disse que é "delirium". Isso significa que ele está ficando senil?
Absolutamente não. A agitação em um idoso hospitalizado é, na grande maioria das vezes, um sinal de delirium, que por sua vez é um sinal de que algo está errado com a saúde física dele (ex.: dor, infecção, efeito colateral de remédio). É um marcador de doença aguda, não de "senilidade" ou demência progressiva. Requer investigação médica urgente.

6. Como posso, como familiar, ajudar a prevenir o delirium durante uma internação?
Você é um aliado fundamental. Pode: 1) Trazer óculos, aparelho auditivo, objetos pessoais e fotos; 2) Colaborar com a reorientação, conversando sobre o dia, a data, o local; 3) Estimular atividades simples como ler um jornal ou fazer palavras cruzadas; 4) Ajudar na mobilização, se autorizado; 5) Garantir que o paciente tenha ciclos de luz/escuro (abrir cortinas de dia); 6) Informar a equipe sobre qualquer mudança súbita no comportamento.

7. O delirium deixa sequelas?
Pode deixar. Estudos mostram que um episódio de delirium está associado a um acelerado declínio cognitivo de longo prazo, maior risco de desenvolver demência no futuro, maior dependência funcional e aumento do risco de institucionalização e mortalidade. Por isso, a prevenção é considerada a estratégia mais importante.

8. Existem protocolos no SUS para o manejo do delirium?
Embora não exista um protocolo nacional único, as diretrizes de boas práticas para cuidado ao idoso hospitalizado e as recomendações de sociedades como a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) enfatizam a prevenção e o manejo não-farmacológico do delirium. Em hospitais universitários e de ensino, programas baseados no modelo HELP vêm sendo implementados. Nos CAPS AD e CAPS III, o manejo do delirium por abstinência de álcool e outras substâncias segue protocolos específicos.

Referências

  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
  • Barlow, D.H.; Durand, V.M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Tradução da 7ª ed. americana. São Paulo: Cengage Learning, 2015.
  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • Inouye, S.K. Delirium in Older Persons. New England Journal of Medicine. 2006;354:1157-1165.
  • Fearing, M.A., & Inouye, S.K. Delirium. In: The American Psychiatric Publishing Textbook of Geriatric Psychiatry. 4th ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2009.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o Tratamento da Doença de Alzheimer e outras Demências. 2022 (com seções sobre manejo de delirium).
  • Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Projeto Diretrizes: Delirium em Idosos Hospitalizados.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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