Delirium e exercício de mobilização precoce

Definição e conceito

Delirium é um transtorno neurocognitivo agudo e flutuante, caracterizado por uma perturbação primária da atenção e da consciência, acompanhada por alterações na cognição (como memória, orientação, linguagem ou percepção) que não são melhor explicadas por um transtorno neurocognitivo estabelecido ou em evolução. O quadro se desenvolve em um curto período de tempo (geralmente horas a dias) e é uma consequência direta de outra condição médica, intoxicação ou abstinência de substância, exposição a uma toxina, ou múltiplas etiologias (American Psychiatric Association, 2014). Na semiologia psiquiátrica, o delirium é classificado como uma síndrome cerebral orgânica aguda, distinguindo-se dos transtornos psicóticos primários e dos transtornos do humor por sua base etiológica orgânica identificável e seu curso flutuante.

O termo "delirium" é utilizado tanto em português quanto em inglês. Sinônimos menos precisos incluem "estado confusional agudo", "encefalopatia aguda" ou, na linguagem leiga, "surto" ou "confusão mental". É crucial diferenciar o delirium da demência, apesar da possível sobreposição (delirium superposto à demência). Enquanto o delirium tem início agudo, curso flutuante, prejuízo primário da atenção e é potencialmente reversível, a demência tem início insidioso, curso progressivo e estável ao longo do dia, prejuízo primário da memória e é geralmente irreversível. Outro conceito adjacente é o Transtorno Neurocognitivo Leve (TNCL), introduzido pelo DSM-5, que categoriza declínios cognitivos mensuráveis, mas que não interferem significativamente na independência funcional. O delirium pode preceder, coexistir ou acelerar a progressão para um TNCL ou demência.

Epidemiologicamente, o delirium é altamente prevalente em cenários de alta complexidade. Afeta 15-50% dos idosos hospitalizados em enfermarias clínicas, 50-80% dos pacientes em unidades de terapia intensiva (UTI) e até 85% dos pacientes no fim da vida. É um marcador de gravidade, associado a aumento significativo da mortalidade hospitalar e em um ano, maior tempo de internação, maior risco de institucionalização pós-alta e declínio funcional e cognitivo de longo prazo.

O exercício de mobilização precoce (EMP) é definido como a aplicação sistemática e supervisionada de atividade física, com intensidade e duração individualizadas, iniciada o mais cedo possível durante uma internação hospitalar, particularmente em pacientes de alto risco. No contexto do delirium, o EMP é uma estratégia não-farmacológica de prevenção e manejo, que atua como um fator protetor ao combater diretamente vários dos mecanismos fisiopatológicos e fatores de risco precipitantes da síndrome.

Apresentação clínica

A apresentação clínica do delirium é heterogênea, mas organiza-se em torno de um núcleo de características centrais que se manifestam em diversos domínios. Sua flutuação ao longo das 24 horas é uma das marcas mais típicas, com períodos de lucidez intercalados com episódios de intensa desorganização.

Domínio Cognitivo:

  • Atenção: O déficit de atenção é o sintoma nuclear e obrigatório. Manifesta-se como dificuldade em focar, sustentar ou deslocar a atenção. O paciente parece facilmente distraído por estímulos irrelevantes, incapaz de seguir uma conversa ou uma sequência de comandos simples. Em casos graves, a atenção pode estar tão prejudicada que o paciente parece "desligado" ou em estado de torpor.
  • Consciência: O nível de consciência encontra-se alterado, variando desde um estado de hipervigilância e alerta exagerado (mais comum na forma hiperativa) até a letargia e o obnubilamento (mais comum na forma hipoativa). A consciência do ambiente e de si mesmo está embotada.
  • Orientação: A desorientação é quase universal, especialmente para o tempo (data, dia da semana, período do dia) e, em graus variáveis, para o lugar e a situação. A orientação pessoal (identidade) é geralmente preservada até fases muito avançadas.
  • Memória: Há um prejuízo agudo da memória de fixação e, consequentemente, da recente. O paciente é incapaz de reter novas informações, repetindo as mesmas perguntas. A memória remota pode parecer intacta, mas sua evocação é frequentemente desorganizada.
  • Pensamento: O pensamento torna-se ilógico, desorganizado, incoerente e marcadamente lento ou acelerado. O discurso pode ser tangencial, circunstancial ou totalmente desconexo (incoerência). Pode haver a presença de ideias delirantes, geralmente de conteúdo persecutório, não-sistematizadas e flutuantes (ex.: acreditar que os profissionais querem lhe fazer mal, que está sendo roubado).

Domínio da Sensopercepção:

  • Alucinações e Ilusões: São frequentes, especialmente as alucinações visuais (ver insetos, pessoas, animais inexistentes) e táteis. Ilusões (interpretações errôneas de estímulos reais, como confundir a mangueira do soro com uma cobra) também são comuns. Alucinações auditivas ocorrem, mas são menos prevalentes que nas psicoses primárias.

Domínio Afetivo e Comportamental (Psicomotricidade):

  • Labilidade Afetiva: O humor é instável, com flutuações rápidas e imprevisíveis entre medo, ansiedade, irritabilidade, apatia, euforia ou depressão.
  • Alterações Psicomotoras: Permitem a subclassificação em subtipos, que têm implicações prognósticas e de manejo:
    • Hiperativo: Agitação psicomotora, inquietação, vocalizações (gritos, gemidos), comportamento agressivo ou de fuga. É o mais facilmente reconhecido.
    • Hipoativo: Lentificação ou redução marcante da movimentação, apatia, hipersonolência, fala escassa. É o subtipo mais comum e frequentemente subdiagnosticado, confundido com depressão ou demência.
    • Misto: Alternância entre estados de hiper e hipoatividade.

Domínio do Ritmo Sono-Vigília:

  • A perturbação do ciclo é quase universal. Caracteriza-se por sonolência diurna, insônia noturna, inversão do ciclo ou sono fragmentado e não reparador. A "sundowning" (agravamento dos sintomas ao entardecer/noite) é um fenômeno típico.

Exemplos Clínicos Concisos:

  1. Hiperativo: Paciente de 78 anos, 2 dias após cirurgia de fratura de fêmur, acorda à noite agitado, tenta arrancar o acesso venoso, grita que há ladrões no quarto e aponta para "formigas" subindo na parede. Durante a manhã seguinte, está sonolento, mas conversa de forma minimamente coerente.
  2. Hipoativo: Paciente de 82 anos com pneumonia, em antibioticoterapia. A equipe relata que está "mais quieto". Na avaliação, está sonolento, responde monossilabicamente, parece não compreender perguntas simples e não se lembra do nome do médico que o atendeu horas antes. A família acha que "piorou da demência".
  3. Misto: Paciente de 65 anos em UTI por sepse. Durante a visita da família à tarde, está agitado e tentando sair da cama. Após a administração de um sedativo (não ideal), passa a noite profundamente sedado. No dia seguinte, pela manhã, está acordado, porém apático e desatento, sem lembrar do episódio de agitação.

Neurobiologia e fisiopatologia

A fisiopatologia do delirium é complexa e multifatorial, resultando de uma vulnerabilidade cerebral pré-existente (reserva cognitiva reduzida, como em idosos ou portadores de demência) somada a um ou mais fatores precipitantes agudos (infecção, cirurgia, drogas). O modelo fisiopatológico atual integra várias vias que convergem para uma disfunção cerebral global e potencialmente reversível.

  1. Desequilíbrio de Neurotransmissores: É o modelo central. Ocorre uma deficiência no sistema colinérgico de neurotransmissão, com hipoatividade das vias colinérgicas (da acetilcolina) e hiperatividade das vias dopaminérgicas (Dalgalarrondo, 2018). A acetilcolina é crucial para a atenção, consciência e memória. Sua depleção (por hipóxia, inflamação, anticolinérgicos) é um fator-chave. A hiperdopaminergia contribui para os sintomas psicóticos (alucinações, delírios) e agitação. Outros sistemas (GABA, serotonina, glutamato) também estão desregulados.

  2. Resposta Inflamatória Sistêmica e Cerebral: Doenças agudas (sepse, cirurgia, trauma) desencadeiam a liberação de citocinas pró-inflamatórias periféricas (IL-1, IL-6, TNF-alfa). Essas citocinas podem atravessar a barreira hematoencefálica ou ativá-la indiretamente, desencadeando uma neuroinflamação. Os astrócitos e a micróglia ativados liberam mais citocinas e espécies reativas de oxigênio, prejudicando a neurotransmissão e a função neuronal.

  3. Resposta Aberrante ao Estresse: Parece ocorrer no delirium uma resposta aberrante ao estresse, inclusive hiperatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (Cerejeira et al., 2012, citado por Dalgalarrondo, 2018). O excesso de glicocorticoides pode ter efeitos neurotóxicos, particularmente em regiões ricas em receptores como o hipocampo, afetando a cognição.

  4. Disfunção Metabólica e de Rede Neuronal: Há uma falha na integração das redes neuronais que sustentam a atenção e a consciência (como o sistema de ativação reticular ascendente e as redes frontoparietais). A disfunção mitocondrial e o estresse oxidativo agravam o dano neuronal. A disfunção do tecido cerebral é potencialmente reversível se a causa for tratada com sucesso ou remitir espontaneamente (Dalgalarrondo, 2018). No entanto, episódios de delirium, especialmente prolongados ou graves, podem causar dano neuronal estrutural, levando a sequelas cognitivas mais ou menos notáveis (Inouye et al., 2016, citado por Dalgalarrondo, 2018).

O Papel do Exercício de Mobilização Precoce: O EMP atua como um modulador positivo em vários desses eixos fisiopatológicos:

  • Neurotransmissores: A atividade física regular aumenta a liberação de acetilcolina e modula os sistemas dopaminérgico, serotoninérgico e noradrenérgico, promovendo equilíbrio.
  • Neuroinflamação: O exercício moderado tem efeito anti-inflamatório sistêmico e cerebral, reduzindo a produção de citocinas pró-inflamatórias.
  • Estresse: Atua como um modulador do eixo HPA, reduzindo os níveis basais de cortisol.
  • Fatores de Crescimento: Estimula a produção de fatores neurotróficos, como o BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que promove a neuroplasticidade, a sobrevivência neuronal e a saúde sináptica.
  • Fatores de Risco Modificáveis: Combate diretamente a imobilidade (que causa atrofia muscular, fraqueza, complicações cardiopulmonares), melhora o ciclo sono-vigília, reduz a constipação e o risco de infecções, e promove orientação sensorial.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

O diagnóstico do delirium é clínico, baseado na observação cuidadosa e no exame do estado mental. A alta suspeição clínica em pacientes de risco é fundamental.

Achados ao Exame do Estado Mental:

  • Atenção: Testar com sequências (dias da semana ao contrário), subtrações seriadas (ex.: 100-7) ou pedir para soletrar uma palavra de trás para frente. Pacientes com delirium falham ou desistem precocemente.
  • Consciência e Vigilância: Observar o nível de alerta (sonolento, alerta, hiperalerta).
  • Orientação: Perguntar data completa, local (hospital, cidade), situação.
  • Memória: Testar memória imediata (repetir 3 palavras) e de curto prazo (recordar as mesmas palavras após 5 minutos de distração).
  • Pensamento e Linguagem: Avaliar a coerência do discurso, a presença de tangencialidade, incoerência ou conteúdo delirante.
  • Percepção: Investigar ativamente a presença de alucinações ou ilusões ("Já viu coisas diferentes aqui no quarto?", "As sombras na parede já lhe assustaram?").

Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:

  • Confusion Assessment Method (CAM): A ferramenta mais utilizada mundialmente para rastreio. Diagnostica delirium se houver: 1) Início agudo e curso flutuante, 2) Desatenção, e 3) Pensamento desorganizado OU 4) Nível de consciência alterado.
  • CAM-ICU: Versão adaptada para pacientes intubados ou não verbais em UTI.
  • Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98): Escala mais detalhada para avaliação da severidade e acompanhamento.
  • 4AT (4 A’s Test): Rápido (menos de 2 minutos), avalia alerta, cognição (teste de memória abreviado), atenção (subtrações ou dias da semana ao contrário) e início agudo.
  • Nu-DESC (Nursing Delirium Screening Scale): Escala de 5 itens aplicável pela equipe de enfermagem durante os turnos.

Diagnóstico Diferencial Estruturado:

Característica Delirium Demência (ex.: Doença de Alzheimer) Depressão com Sintomas Psicóticos Esquizofrenia
Início Agudo (horas/dias) Lento, insidioso (anos) Variável (semanas/meses) Insidioso (meses/anos)
Curso Flutuante (lucidez interm.) Estável ao longo do dia Estável, mas pode variar Crônico, com exacerbações
Atenção Gravemente prejudicada Normal nas fases iniciais Pode estar prejudicada Pode estar prejudicada
Memória Prejuízo agudo (fixação) Prejuízo progressivo (recente) Queixas subjetivas Geralmente preservada
Consciência Alterada (obnubilada/hiper) Normal até fases tardias Normal Normal
Alucinações Visuais/táteis, transitórias Raras até fases tardias Auditivas (congruentes) Auditivas, crônicas
Delírios Pobremente sistematizados Ausentes ou simples Congruentes ao humor Sistematizados, bizarros
Psicomotricidade Hiper, hipo ou mista Normal ou apática Retardo ou agitação Pode ter catatonia

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Subdiagnóstico do Subtipo Hipoativo: Confundido com "bons pacientes", depressão ou "piora da demência".
  2. Superdiagnóstico em Demência: Atribuir toda alteração aguda em um demente à progressão da doença, sem investigar causas reversíveis (delirium superposto).
  3. Atribuição a "Idade" ou "Hospitalização": Aceitar a confusão como algo "normal" para idosos ou para o ambiente hospitalar.
  4. Foco Exclusivo nos Sintomas Comportamentais: Tratar a agitação com medicação sem investigar e tratar a causa subjacente do delirium.
  5. Uso Rígido do DSM-5: Os critérios do DSM-5, ao enfatizarem a "perturbação da atenção" em primeiro plano, podem ser menos inclusivos e deixar de diagnosticar entre 11 e 70% dos casos (Meagher et al., 2014, citado por Dalgalarrondo, 2018). Recomenda-se uma noção mais ampla de desatenção para não deixar de diagnosticar a síndrome clássica.

Condições associadas

O delirium não é um diagnóstico primário, mas uma síndrome que ocorre devido a uma condição médica subjacente. Sua ocorrência é frequente e de grande importância clínica nas seguintes situações:

  • Pós-Operatório (especialmente cirurgias cardíacas, ortopédicas e de grande porte): Fatores como anestesia, analgesia opioide, dor, hipotensão, embolia gordurosa.
  • Infecções Sistêmicas: Sepse, pneumonia, infecção do trato urinário.
  • Doenças Metabólicas: Desidratação, distúrbios hidroeletrolíticos (hipo/hipernatremia), hipoglicemia, insuficiência renal ou hepática.
  • Doenças Neurológicas Agudas: Acidente vascular cerebral (AVC), hemorragia intracraniana, meningite, encefalite, crises epilépticas.
  • Intoxicação ou Abstinência de Substâncias: Intoxicação por álcool, benzodiazepínicos, opioides, anticolinérgicos, corticoides. Abstinência de álcool ou benzodiazepínicos.
  • Ambiente de Terapia Intensiva (UTI): Polimedicação, imobilização, dor, privação de sono, estímulos sensoriais anormais (monitores, alarmes).
  • Traumatismo Cranioencefálico (TCE).
  • Insuficiência Cardiorrespiratória: Hipóxia, hipercapnia, insuficiência cardíaca descompensada.
  • Idade Avançada e Demência Pré-Existente: São os principais fatores de vulnerabilidade. Um paciente com demência tem risco 2 a 5 vezes maior de desenvolver delirium.

Correlações nos Manuais Diagnósticos:

  • CID-11: Código 6D70 – Delirium. Deve-se codificar também a condição causal subjacente.
  • DSM-5-TR: Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido a… [Condição Médica/Substância/Toxina/Múltiplas Etiologias], Com Delirium. A especificação "com delirium" é usada quando o delirium ocorre no curso de um transtorno neurocognitivo estabelecido (ex.: Doença de Alzheimer).

Implicações terapêuticas

O tratamento do delirium é primeiramente etiológico: identificar e tratar agressivamente a causa médica subjacente (infecção, desequilíbrio metabólico, retirada de droga anticolinérgica). Paralelamente, implementam-se medidas não-farmacológicas e, quando estritamente necessário, farmacológicas.

Abordagens Não-Farmacológicas (Primeira Linha):
São a base da prevenção e do manejo. O exercício de mobilização precoce (EMP) é um pilar central dentro de pacotes multicomponentes, como o Hospital Elder Life Program (HELP):

  1. EMP e Reorientação: Mobilização ativa (sentar na beira do leito, levantar, caminhar com auxílio) ou passiva (exercícios de amplitude de movimento) pelo menos duas vezes ao dia. Promove força, equilíbrio, orientação e melhora do ciclo sono-vigília.
  2. Estimulação Cognitiva: Conversas orientadas, leitura de jornal, jogos simples, presença de objetos familiares (fotos).
  3. Otimização do Ambiente: Calendários e relógios visíveis, iluminação natural durante o dia, redução de ruídos noturnos, garantia de óculos e aparelhos auditivos.
  4. Promoção do Sono: Ritual noturno, redução de interrupções, evitar sedativos hipnóticos.
  5. Prevenção de Complicações: Hidratação oral adequada, estímulo à alimentação, cuidados com a pele, prevenção de constipação.
  6. Envolvimento da Família: A presença de um familiar conhecido é reconfortante. Um paciente incluído em todas as decisões de tratamento mantém o senso de controle (Katz, 1993, citado em Psicopatologia – Uma abordagem integrada). A família pode auxiliar na reorientação e nas atividades.

Abordagens Farmacológicas:
São coadjuvantes e reservadas para situações específicas, principalmente quando os sintomas comportamentais colocam o paciente ou outros em risco iminente, ou impedem procedimentos médicos essenciais.

  • Antipsicóticos Atípicos: São os mais estudados. Haloperidol em baixas doses (0.25-1 mg VO/IM/EV) ainda é utilizado, especialmente em cenários de agitação aguda, mas com cautela devido aos efeitos extrapiramidais e cardíacos (QT longo). Risperidona, Olanzapina e Quetiapina são alternativas, com perfis de efeitos colaterais distintos. A quetiapina, por seu efeito sedativo, pode ser útil no subtipo hiperativo à noite.
  • Melatonina e Agonistas (Ramelteona): Podem ser úteis para regular o ciclo sono-vigília, mas as evidências são limitadas.
  • Evitar: Benzodiazepínicos (exceto em abstinência de álcool/benzodiazepínicos), pois podem piorar a confusão e causar paradoxal agitação. Anticolinérgicos são absolutamente contraindicados.

Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O delirium é um marcador de gravidade independente. Sua presença está associada a:

  • Aumento da mortalidade hospitalar e em 1 ano.
  • Internações mais longas e custos hospitalares elevados.
  • Maior risco de institucionalização em asilos após a alta.
  • Declínio cognitivo acelerado e maior risco de desenvolver demência.
  • Maior risco de complicações (queda, úlcera por pressão, infecções).
    A prevenção é a melhor assistência dada a pessoas propensas ao delirium (Breitbart & Alici, 2012, citado em Psicopatologia – Uma abordagem integrada). A implementação rigorosa de protocolos não-farmacológicos, com o EMP como elemento central, reduz a incidência de delirium em até 40%. Pacientes que desenvolvem delirium, mas são manejados precoce e adequadamente (com correção da causa e medidas de suporte), têm menor duração do episódio, menor severidade dos sintomas e melhor recuperação funcional e cognitiva a longo prazo.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivência do Paciente:
Para o paciente, o delirium é uma experiência aterradora e angustiante. É uma ruptura abrupta com a realidade, marcada por:

  • Medo e Insegurança: A desorientação e as percepções alteradas geram um profundo sentimento de perigo e ameaça. O ambiente hospitalar, já estranho, torna-se hostil e persecutório.
  • Frustração e Vergonha: A incapacidade de pensar com clareza, de se comunicar ou de realizar tarefas simples gera frustração. Após a resolução, muitos pacientes têm memórias fragmentadas e embaraçosas do episódio, sentindo vergonha de seu comportamento.
  • Isolamento: A dificuldade de comunicação e o comportamento alterado podem afastar visitas e dificultar a interação com a equipe, levando a um isolamento ainda maior.
  • "Pesadelo Acordado": É uma descrição comum. As alucinações vívidas e os delírios são experimentados como reais, não havendo insight durante o episódio.

Comunicação com o Paciente e Família:

  • Com o Paciente (durante o episódio):
    • Identificar-se: Apresentar-se sempre, de forma calma e clara, em cada interação.
    • Reorientar Suavemente: Usar frases simples e afirmativas. "Você está no hospital X. Meu nome é Y, sou seu médico. Hoje é terça-feira, dia Z."
    • Validar o Sentimento, Não o Conteúdo: "Vejo que você está muito assustado. Estou aqui para ajudá-lo." Evitar confrontar diretamente as alucinações/delírios ("Não há aranhas na parede").
    • Linguagem Não-Verbal: Tom de voz baixo e calmo, contato visual (se não for ameaçador), postura aberta e não confrontadora.
    • Explicar Procedimentos: Antes de tocar ou realizar qualquer procedimento, explicar passo a passo o que será feito.
  • Com a Família/Cuidador:
    • Educação: Explicar que o delirium é uma complicação médica comum, não um "surto psiquiátrico" ou loucura. Enfatizar que é potencialmente reversível.
    • Esclarecer o Papel: Encorajar a presença para reorientar, trazer objetos familiares (fotos), auxiliar em atividades simples. Um paciente hospitalizado pode se sentir mais reconfortado se estiver com alguns pertences da família (Fearing & Inouye, 2009, citado em Psicopatologia – Uma abordagem integrada).
    • Avisar sobre a Flutuação: Explicar que o paciente pode estar lúcido em um momento e confuso em outro, e que isso é típico.
    • Apoio Pós-Episode: Após a resolução, conversar com o paciente e a família sobre o ocorrido, normalizando a experiência e fornecendo informações sobre o risco de declínio cognitivo futuro, incentivando acompanhamento.

Impacto Funcional:
O impacto vai muito além da internação:

  • Independência: Pode levar à perda definitiva da capacidade de viver sozinho, necessitando de institucionalização ou de um cuidador em tempo integral.
  • Cognição: Acelera o declínio cognitivo, podendo precipitar a transição de um estado de cognição normal ou Transtorno Neurocognitivo Leve para uma demência franca.
  • Qualidade de Vida: A experiência traumática e o declínio funcional resultante prejudicam severamente a qualidade de vida do paciente e sobrecarregam os familiares.
  • Saúde Física: Aumenta a fragilidade, o risco de quedas e de novas hospitalizações.

Perguntas frequentes

1. O delirium é o mesmo que "delírio" ou "loucura"?
Não. Na psiquiatria, "delírio" refere-se a uma crença falsa fixa (como na esquizofrenia). "Delirium" é uma síndrome orgânica aguda com confusão mental, alteração da atenção e flutuação. "Loucura" é um termo leigo e estigmatizante, sem valor clínico.

2. Meu pai idoso ficou confuso após a cirurgia. Isso é normal? Vai passar?
Não é "normal", mas é uma complicação frequente. Chama-se delirium pós-operatório. A reversibilidade depende da rapidez em identificar e tratar a causa (ex.: infecção, dor, efeito de medicação). Com manejo adequado, a maioria dos casos se resolve em dias a semanas, mas alguns sintomas podem persistir.

3. Por que colocar um paciente confuso para se exercitar? Não é perigoso?
Pelo contrário. A imobilização é um dos principais fatores de risco para piora do delirium, atrofia muscular, trombose e pneumonia. O exercício de mobilização precoce é supervisionado por fisioterapeuta ou equipe treinada, é individualizado (pode ser apenas sentar na cadeira ou movimentos passivos) e é uma das intervenções mais eficazes para prevenir e tratar o delirium, melhorando a circulação, a oxigenação e a orientação.

4. O delirium pode deixar sequelas?
Sim. Estudos mostram que um episódio de delirium, especialmente se prolongado ou grave, está associado a um declínio cognitivo acelerado e maior risco de demência a longo prazo. O cérebro fica mais vulnerável. Por isso a prevenção é tão crucial.

5. Existe remédio específico para curar o delirium?
Não existe um medicamento que "cure" o delirium. Os antipsicóticos são usados apenas para controlar sintomas comportamentais graves (agitação, psicose) que oferecem risco. A cura vem do tratamento da causa de base (ex.: tratar a infecção, corrigir o sódio) associado às medidas de suporte não-farmacológicas.

6. O diagnóstico de delirium pelo DSM-5 é confiável?
Os critérios do DSM-5, ao focarem muito na "atenção", podem ser menos sensíveis que os anteriores, deixando de diagnosticar alguns casos, principalmente os subtipos hipoativos. O clínico experiente deve usar os critérios como guia, mas priorizar a avaliação clínica ampla da síndrome.

7. Como a família pode ajudar a prevenir o delirium na internação?
Sendo um agente ativo: trazendo óculos, aparelho auditivo, fotos familiares; conversando e reorientando o paciente; auxiliando na alimentação e hidratação; participando das sessões de mobilização (caminhadas); informando a equipe sobre qualquer mudança abrupta no comportamento ou cognição.

8. Pacientes em UTI, sedados e entubados, podem ter delirium?
Sim, e é extremamente comum (delirium na UTI). A avaliação é feita com escalas específicas (como a CAM-ICU) que observam sinais comportamentais em resposta a comandos. A sedação excessiva e a imobilização são grandes fatores de risco, e protocolos de "sedação leve" e mobilização precoce mesmo em pacientes entubados são cada vez mais implementados para prevenir essa complicação.

Referências

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  • Breitbart, W., & Alici, Y. (2012). Evidence-based treatment of delirium in patients with cancer. Journal of Clinical Oncology, 30(11), 1206-1214. (Citado em Psicopatologia – Uma abordagem integrada).
  • Cerejeira, J.; Nogueira, V.; Luís, P.; Vaz-Serra, A.; Mukaetova-Ladinska, E. B. (2012). The cholinergic system and inflammation: common pathways in delirium pathophysiology. Journal of the American Geriatrics Society, 60(4), 669-675. (Citado por Dalgalarrondo, 2018).
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  • Fearing, M. A., & Inouye, S. K. (2009). Delirium. In Geriatric Psychiatry (pp. 229-241). American Psychiatric Publishing. (Citado em Psicopatologia – Uma abordagem integrada).
  • Inouye, S. K., et al. (2016). The short-term and long-term relationship between delirium and cognitive trajectory in older surgical patients. Alzheimer’s & Dementia, 12(7), 766-775. (Citado por Dalgalarrondo, 2018).
  • Katz, I. R. (1993). Delirium in the elderly. Hospital and Community Psychiatry, 44, 123-133. (Citado em Psicopatologia – Uma abordagem integrada).
  • Meagher, D. J., et al. (2014). Features of subsyndromal and persistent delirium. The British Journal of Psychiatry, 204(1), 36-41. (Citado por Dalgalarrondo, 2018).
  • Rahkonen, T., et al. (2001). Delirium in the non-demented oldest old in the general population: risk factors and prognosis. International Journal of Geriatric Psychiatry, 16(4), 415-421. (Citado em Psicopatologia – Uma abordagem integrada).
  • Siddiqui, N., et al. (2014). The DSM-5 criteria, level of arousal and delirium diagnosis: inclusiveness is safer. BMC Medicine, 12, 141. (Citado por Dalgalarrondo, 2018).
  • Trzepacz, P. T.; Meagher, D. J.; Wise, M. G. (2006). Neuropsychiatric aspects of delirium. In The American Psychiatric Publishing Textbook of Neuropsychiatry and Behavioral Neurosciences (5th ed.). American Psychiatric Publishing. (Citado por Dalgalarrondo, 2018).
  • U.S. General Accounting Office. (1995). Prescription drugs and the elderly: Many still receive potentially harmful drugs despite recent improvements. (Citado em Psicopatologia – Uma abordagem integrada).

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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