Definição e conceito
Delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda ou subaguda, caracterizada por uma perturbação flutuante da atenção, da consciência e da cognição, com desenvolvimento em curto espaço de tempo (horas a dias) e causada por uma condição médica geral, intoxicação ou abstinência de substâncias, ou múltiplas etiologias. Representa uma disfunção cerebral global, frequentemente reversível, e constitui uma emergência médica, pois sinaliza uma descompensação aguda do organismo.
Na semiologia psiquiátrica, o delirium é classificado como um transtorno neurocognitivo, situando-se na interface entre a neurologia e a psiquiatria. Distingue-se de outras psicopatologias por seu caráter orgânico direto, curso flutuante e presença obrigatória de um fator etiológico identificável (ou fortemente suspeito). O termo "estado confusional agudo" é frequentemente utilizado como sinônimo na prática clínica, embora tecnicamente o delirium possua critérios diagnósticos mais específicos.
A terminologia técnica inclui:
- Delirium (EN) / Delirium (PT): Termo consagrado internacionalmente.
- Síndrome Confusional Aguda: Termo mais descritivo e comum na prática hospitalar.
- Atenção: Capacidade de focalizar, sustentar e deslocar o foco de maneira seletiva. Sua perturbação é o sintoma nuclear do delirium.
- Consciência: Nível de alerta e responsividade ao ambiente. No delirium, pode variar desde o estado hiperalerta até a letargia e o estupor.
- Flutuação: Variação dos sintomas ao longo do dia, tipicamente com piora no período noturno (fenômeno do "pôr do sol" ou sundowning).
Dados epidemiológicos robustos apontam o delirium como uma condição extremamente prevalente em cenários hospitalares, especialmente em idosos, pacientes em unidades de terapia intensiva (UTI) e no pós-operatório de cirurgias de grande porte. Sua ocorrência está associada a desfechos clínicos significativamente piores, incluindo maior mortalidade, tempo prolongado de internação, declínio cognitivo acelerado e aumento do risco de institucionalização.
Apresentação clínica
A apresentação clínica do delirium é heterogênea, mas organiza-se em torno de déficits centrais nos domínios da atenção, consciência e cognição, com flutuação característica. A síndrome pode ser subdividida em subtipos psicomotores (hiperativo, hipoativo e misto), que possuem implicações prognósticas e terapêuticas.
Domínio Cognitivo:
- Atenção: É o domínio mais comprometido e o mais sensível para o diagnóstico. O paciente apresenta dificuldade marcada para focalizar, manter ou deslocar a atenção. Distrai-se facilmente com estímulos irrelevantes, não consegue seguir uma conversa ou uma sequência de comandos simples. Nos critérios do DSM-5, a ênfase na perturbação da atenção em primeiro lugar visa aumentar a sensibilidade diagnóstica, mas requer uma avaliação ampla para não excluir casos atípicos, como pacientes que saíram do coma e são de difícil avaliação.
- Consciência: O nível de alerta encontra-se alterado, podendo variar desde a hipervigilância e agitação (subtipo hiperativo) até a sonolência, letargia e redução da responsividade ambiental (subtipo hipoativo). O subtipo hipoativo é frequentemente subdiagnosticado.
- Cognição Global: Há um prejuízo cognitivo difuso e agudo. A memória, especialmente a de trabalho e a recente, é gravemente afetada. A desorientação temporoespacial é quase universal, podendo atingir também a orientação pessoal em casos graves. O pensamento torna-se desorganizado, ilógico, incoerente e com fluência reduzida. A linguagem pode apresentar disnomia, perseveração, discurso desorganizado ou, no extremo, um mutismo completo.
Domínio da Sensopercepção:
- Alucinações: Ocorrem com frequência, sendo mais comuns as visuais (ver insetos, pessoas estranhas, animais) e táteis (sensação de insetos rastejando sob a pele). Alucinações auditivas também podem ocorrer. São tipicamente vívidas e contribuem para o medo e a agitação.
- Ilusões: São frequentes. O paciente interpreta erroneamente estímulos ambientais reais (por exemplo, acredita que a mangueira de soro é uma cobra, que as sombras na parede são pessoas).
Domínio do Pensamento:
- Delírios: São tipicamente de conteúdo persecutório, não sistematizados e flutuantes. O paciente pode acreditar que está sendo roubado, envenenado ou que a equipe médica quer lhe causar mal. Diferentemente dos delírios em transtornos psicóticos primários, aqui eles são instáveis e frequentemente relacionados à interpretação errônea do ambiente hospitalar.
Domínio Afetivo:
- Labilidade Afetiva: É um achado comum. O paciente pode alternar rapidamente entre medo, irritabilidade, apatia, euforia ou choro sem motivo aparente. A ansiedade e o medo são predominantes, especialmente nos subtipos hiperativos.
Domínio Comportamental e Psicomotor:
- Alterações Psicomotoras: Podem ser de agitação e hiperatividade (inquietação, tentativas de retirar cateteres, agressividade) ou de retardo e hipoatividade (lentidão extrema, imobilidade). O subtipo misto alterna entre esses dois polos.
- Ciclo Sono-Vigília: Gravemente perturbado, com inversão do padrão, sonolência diurna, insônia noturna e agitação crepuscular (sundowning).
Exemplo Clínico Conciso:
Um paciente de 78 anos, 3 dias após cirurgia de fratura de fêmur, torna-se repentinamente agitado no final da tarde. Na enfermaria, tenta arrancar o acesso venoso, grita que há "formigas no teto" e chama a enfermeira pelo nome de sua falecida esposa. Está desorientado no tempo (acha que é 1970) e no local (acredita estar em casa). Sua atenção é tão comprometida que não consegue repetir três palavras simples. Às 6h da manhã seguinte, está sonolento e pouco responsivo, mas à tarde o quadro de agitação retorna. Este caso ilustra o início agudo, a flutuação diurna, as alucinações visuais, os delírios, a desorientação e a grave perturbação da atenção.
Neurobiologia e fisiopatologia
O delirium é compreendido como a manifestação clínica final comum de uma disfunção cerebral aguda e difusa. Não há uma lesão estrutural única, mas sim uma pane nos sistemas de neurotransmissão e uma falha na integração das redes neuronais que sustentam a atenção, a consciência e a cognição.
Modelos Fisiopatológicos Integrados:
- Hipótese do Estresse Oxidativo e Inflamação: A doença aguda (infecção, cirurgia, trauma) desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica. Citocinas pró-inflamatórias (como IL-1, IL-6, TNF-alfa) cruzam a barreira hematoencefálica ou são produzidas localmente por células da glia, levando a neuroinflamação. Esta, por sua vez, causa disfunção mitocondrial, aumento do estresse oxidativo e dano neuronal, particularmente em regiões vulneráveis como o córtex pré-frontal e o hipocampo.
- Desequilíbrio dos Sistemas de Neurotransmissores: É o modelo mais consolidado. O delirium resulta de uma combinação de:
- Deficiência Colinérgica: A acetilcolina é crucial para a atenção, memória e ciclo sono-vigília. Qualquer insulto que reduza a síntese ou liberação de acetilcolina (isquemia, inflamação, anticolinérgicos) predispõe ao delirium.
- Excesso Dopaminérgico: O aumento da atividade dopaminérgica, seja por liberação excessiva (estresse, dor) ou por administração de agonistas dopaminérgicos, está associado a sintomas psicóticos e agitação.
- Desregulação de outros Sistemas: Alterações nos sistemas GABAérgico (associado a sedação e letargia), serotoninérgico (humor, percepção) e noradrenérgico (estresse, alerta) também contribuem para a complexa apresentação clínica.
- Falha na Conectividade Neural: Evidências de neuroimagem funcional sugerem uma desconexão entre redes neuronais críticas, em especial a Rede de Modo Padrão (associada à consciência e autorreflexão) e as Redes de Atenção Saliente e Executiva. Esta falha na integração explica a desorganização do pensamento e a flutuação do nível de consciência.
Fatores de Vulnerabilidade e Precipitantes: A fisiopatologia explica por que nem todos os pacientes desenvolvem delirium frente a um mesmo insulto. A "Reserva Cognitiva" do indivíduo (educação, atividade intelectual prévia) e a integridade cerebral basal (presença de demência pré-existente é o maior fator de risco) determinam a vulnerabilidade. O insulto agudo (infecção, drogas, desequilíbrio metabólico) atua como precipitante sobre este terreno vulnerável, desencadeando a cascata fisiopatológica descrita.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
O diagnóstico de delirium é clínico, baseado na observação cuidadosa e no exame do estado mental. A anamnese de um informante confiável sobre a mudança aguda no estado cognitivo é fundamental.
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Atenção: Testar com dígitos (repetir sequências para frente e para trás), nomear os meses do ano em ordem inversa, ou o teste de "aperte minha mão quando eu disser a letra A" em uma lista de letras. O desempenho é invariavelmente pobre e inconsistente.
- Consciência: Observar o nível de alerta (hiperalerta, alerta normal, sonolento, estuporoso).
- Orientação: Avaliar para pessoa, lugar, tempo e situação. A desorientação, especialmente temporal, é um achado precoce e sensível.
- Memória: Testar memória imediata (repetir 3 palavras) e recente (recordar as 3 palavras após 5 minutos com distração). Grave comprometimento.
- Pensamento e Linguagem: Observar a fluência, coerência e lógica do discurso. Buscar por tangencialidade, incoerência, perseveração ou discurso vago.
- Sensopercepção: Investigar ativamente a presença de alucinações e ilusões. Perguntas úteis incluem: "Tem visto ou ouvido coisas que os outros não veem ou ouvem?", "As sombras ou objetos no quarto já pareceram com outra coisa, como um animal ou pessoa?". A avaliação pode ser auxiliada por escalas como a Psychotic Symptom Rating Scales (PSYRATS).
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Confusion Assessment Method (CAM): É o instrumento mais utilizado no mundo para rastreamento de delirium. Avalia 4 características: 1) Início agudo e curso flutuante; 2) Desatenção; 3) Pensamento desorganizado; 4) Nível de consciência alterado. O diagnóstico requer a presença de 1, 2 e 3 ou 4.
- Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98): Escala mais detalhada, útil para quantificar a gravidade e monitorar a evolução.
- 3-Minute Diagnostic Interview for CAM (3D-CAM): Versão ultra-rápida e validada para uso em ambientes hospitalares movimentados.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas | Como Diferenciar |
|---|---|---|
| Demência | Início insidioso, curso progressivo e estável, sem flutuação aguda. Atenção e nível de consciência preservados até fases tardias. | História de declínio crônico. O paciente com demência está "constantemente perdido"; o com delirium está "agudamente perdido e flutuante". A coexistência é comum (delirium on demência). |
| Transtornos Psicóticos Primários (ex: Esquizofrenia) | Início mais gradual em adultos jovens, sem flutuação diurna. Sintomas psicóticos são sistematizados e duradouros. Atenção e orientação geralmente preservadas. | Ausência de fator orgânico agudo. Presença de sintomas negativos e curso crônico. O prejuízo cognitivo é mais específico (ex: funções executivas) e não global/agudo. |
| Depressão com Sintomas Psicóticos | Humor deprimido persistente, psicose congruente com o humor (ex: delírios de culpa), retardo psicomotor constante. | A tríade cognitiva do delirium (atenção, consciência, cognição) não está primariamente afetada. O início é mais relacionado a eventos psicossociais. |
| Estado de Mal Epiléptico Não-Convulsivo | Alteração comportamental ou cognitiva contínua, sem flutuação típica. Pode ter pequenos movimentos automáticos. | O EEG é diagnóstico, mostrando atividade epileptiforme contínua. Resposta rápida a benzodiazepínicos. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Subdiagnóstico do Subtipo Hipoativo: A sonolência e apatia são erroneamente atribuídas à depressão, cansaço ou envelhecimento, atrasando a investigação da causa orgânica.
- Superdiagnóstico em Pacientes com Demência: Qualquer agudização em um paciente demenciado deve levantar suspeita de delirium sobreposto. A mudança aguda no padrão basal é a chave.
- Confiar Exclusivamente em Critérios Estritos: Os critérios do DSM-5, ao enfatizarem a "perturbação da atenção", podem ser menos inclusivos. O clínico deve valorizar a noção clássica da síndrome, especialmente em casos limítrofes ou de difícil avaliação (ex: pacientes graves na UTI).
- Ignorar a Flutuação: Avaliar o paciente apenas em um momento do dia, especialmente durante a manhã quando os sintomas podem estar atenuados.
Condições associadas
O delirium não é um diagnóstico primário, mas sim uma síndrome secundária a uma vasta gama de condições. Sua ocorrência é um marcador de gravidade da doença de base.
Contextos de Alta Frequência e Importância Clínica:
- Hospitalar / Pós-Operatório: Principalmente após cirurgias cardíacas, ortopédicas (como fratura de fêmur) e em pacientes idosos. Fatores contribuintes incluem anestesia, analgesia opioide, dor, infecção, desequilíbrios hidroeletrolíticos e privação sensorial.
- Unidade de Terapia Intensiva (UTI): "Delirium na UTI" é extremamente comum, associado à gravidade da doença, uso de sedativos e ventilação mecânica. É um preditor independente de maior mortalidade e déficit cognitivo pós-alta.
- Idosos com Comorbidades: Pacientes com demência pré-existente (especialmente Doença de Alzheimer), doença de Parkinson, acidente vascular cerebral prévio ou múltiplas comorbidades clínicas (insuficiência cardíaca, renal, hepática) têm risco elevadíssimo.
- Intoxicação ou Abstinência de Substâncias: Abstinência alcoólica (delirium tremens), intoxicação por anticolinérgicos, benzodiazepínicos, opioides, corticoides e uma infinidade de outras drogas.
- Condições Médicas Agudas: Infecções sistêmicas (sepse, pneumonia), descompensação metabólica (hipo/hiperglicemia, distúrbios hidroeletrolíticos), insuficiência de órgãos, trauma craniano, acidente vascular cerebral agudo.
Correlações nos Sistemas de Classificação:
- CID-11: Classificado em "Transtornos neurocognitivos" (BlockL1-6D7). Códigos específicos: 6D70.0 Delirium devido a doença, lesão ou disfunção cerebral; 6D71.0 Delirium induzido por substância ou medicamento; 6D72 Delirium de etiologia mista ou múltipla.
- DSM-5-TR: Incluído no capítulo "Transtornos Neurocognitivos". Requer: A) Perturbação da atenção e consciência; B) Desenvolvimento agudo, com flutuação diurna; C) Prejuízo cognitivo adicional (memória, orientação, linguagem, percepção); D) As perturbações A e C não são melhor explicadas por outro transtorno neurocognitivo pré-existente e não ocorrem no contexto de um nível de excitação gravemente reduzido (ex: coma); E) Evidência de que a perturbação é consequência fisiológica direta de uma condição médica, intoxicação/abstinência ou múltiplas etiologias.
Implicações terapêuticas
O tratamento do delirium é biopsicossocial e multifocal, com a intervenção psicossocial não-farmacológica como primeira linha e pedra angular da abordagem. O tratamento farmacológico é sintomático e coadjuvante, reservado para situações específicas.
Abordagens Psicossociais e Não-Farmacológicas (Intervenções Multissensoriais):
A meta é criar um ambiente terapêutico que maximize a orientação, minimize o estresse e forneça suporte sensorial adequado. Estas intervenções são coletivamente referidas como "Intervenções Multissensoriais" ou "Abordagens de Cuidados Integrados Sensoriais".
- Orientação e Reassurança:
- Reorientação Contínua: Apresentar-se, explicar o local, a data e a situação de forma calma e repetida. Uso de calendários, relógios grandes e janelas com luz natural.
- Presença Familiar: Encorajar a presença de familiares, que são figuras reconfortantes e orientadoras. A família pode auxiliar na reorientação e prover estímulos significativos.
- Objetos Pessoais: Fotos da família, objetos pessoais e roupas conhecidas ajudam a manter a conexão com a identidade e o ambiente habitual, proporcionando conforto e reduzindo a sensação de estranheza.
- Estimulação Sensorial Modulada e Integrada:
- Audição: Reduzir ruídos ambientais caóticos (alarmes, conversas altas). Oferecer música calma e familiar preferida pelo paciente. Usar tom de voz baixo e tranquilo.
- Visão: Garantir iluminação adequada durante o dia (para manter o ciclo circadiano) e reduzida à noite. Evitar sombras assustadoras. Uso de óculos e aparelhos auditivos, se o paciente os utiliza.
- Tato: Toque terapêutico e calmante (se bem aceito), massagens suaves. Oferecer objetos para manipular (uma fralda, um cobertor macio). Manter a pele hidratada e integra.
- Olfato: Evitar odores hospitalares fortes (antissépticos). Aromas suaves e familiares (lavanda, em alguns protocolos) podem ter efeito calmante, mas com cautela devido à sensibilidade individual.
- Propriocepção: Mobilização precoce e segura, mesmo que seja apenas sentar na beira do leito. A fisioterapia é crucial.
- Otimização do Ambiente:
- Ciclo Sono-Vigília: Agrupar procedimentos para permitir períodos de sono ininterruptos. Reduzir luz e ruído à noite. Evitar restrições físicas.
- Estimulação Cognitiva Adequada: Atividades simples e gradativas, como conversar sobre temas familiares, olhar álbuns de fotos. Evitar sobrecarga de estímulos complexos (TV com noticiários caóticos).
- Controle da Dor: Avaliar e tratar a dor de forma adequada, pois a dor não controlada é um potente fator de delirium.
Abordagem Farmacológica:
A farmacoterapia não trata o delirium, mas maneja sintomas comportamentais que representam risco para o paciente ou para a equipe (agitação grave, psicose angustiante) ou que impedem a realização de cuidados médicos essenciais.
- Antipsicóticos: São os fármacos de primeira linha para sintomas psicóticos e agitação.
- Haloperidol: Antipsicótico típico, frequentemente usado em baixas doses (ex: 0,5-2 mg VO/IM/EV) devido ao seu perfil de menor sedação e efeitos anticolinérgicos. Monitorar rigidamente por efeitos extrapiramidais e alongamento do intervalo QT.
- Olanzapina/Risperidona: Antipsicóticos atípicos também prescritos, com perfil diferente de efeitos colaterais. A olanzapina tem maior risco metabólico e sedação.
- Nota: A prescrição deve ser feita na menor dose eficaz, por tempo limitado, e sempre em conjunto com as medidas não-farmacológicas.
- Tratamento da Causa de Base: Esta é a intervenção fundamental. Identificar e tratar a infecção, corrigir distúrbios metabólicos, ajustar medicamentos ofensores (especialmente os com propriedades anticolinérgicas), otimizar a oxigenação e a perfusão cerebral.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
A implementação precoce e vigorosa das intervenções multissensoriais e o tratamento agressivo da causa de base estão associados a:
- Redução da duração e gravidade do episódio de delirium.
- Menor necessidade de medicação antipsicótica e suas complicações.
- Redução de complicações hospitalares (úlceras por pressão, pneumonias, tromboses).
- Melhor recuperação funcional e cognitiva pós-alta.
- Redução do risco de institucionalização e mortalidade.
A prevenção, através da identificação de pacientes de alto risco e aplicação proativa de protocolos não-farmacológicos, é a estratégia de maior custo-efetividade.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente: Para o paciente, o delirium é uma experiência profundamente aterrorizante e desrealizante. É como estar preso em um pesadelo vívido do qual não se consegue acordar. A desorientação gera um medo primordial. As alucinações e os delírios são percebidos como reais, levando a reações de defesa, fuga ou agressão que são, em sua perspectiva, perfeitamente justificadas. A incapacidade de pensar com clareza ou de se fazer entender gera frustração e angústia intensas. A memória do episódio pode ser fragmentada ou ausente ("amnésia lacunar"), mas a sensação de terror e vulnerabilidade frequentemente persiste.
Comunicação Clínica e com a Família:
- Com o Paciente:
- Tom e Postura: Use tom de voz calmo, baixo e compassivo. Fale devagar, usando frases curtas e simples. Posicione-se ao nível dos olhos do paciente.
- Reorientação Gentil: Identifique-se a cada interação. "Bom dia, Sr. João. Eu sou a Dra. Maria, sua médica. Estamos no hospital São Paulo, é manhã de terça-feira." Evite confrontar delírios diretamente ("Isso não é real"), pois isso aumenta a angústia. Valide a emoção e redirecione: "Vejo que isso está te assustando muito. Eu estou aqui para te ajudar e garantir que você está seguro."
- Instruções Claras: Dê um comando de cada vez. "Por favor, sente-se na cadeira." Espere que ele execute antes de dar o próximo.
- Com a Família/Cuidadores:
- Educação: Explique que o delirium é uma complicação médica comum, temporária e tratável, não um sinal de "loucura" ou de demência avançada irreversível.
- Envolvimento: Encoraje sua presença como "co-terapeutas". Oriente-os a usar as mesmas técnicas de comunicação calma e reorientação. Peça que tragam fotos, objetos familiares e uma lista de músicas preferidas.
- Suporte: Reconheça que testemunhar um ente querido em delirium é estressante. Ofereça suporte emocional e informações claras sobre o plano de cuidado.
- Impacto Funcional: Mesmo após a resolução, o delirium pode deixar sequelas. Pacientes e famílias relatam um declínio na capacidade funcional para atividades instrumentais da vida diária (gerenciar finanças, medicações). Há um aumento do risco de dependência para cuidados, institucionalização em casas de repouso e uma piora significativa na qualidade de vida do paciente e da família, que muitas vezes precisa se reorganizar para prover suporte aumentado.
Perguntas frequentes
1. Delirium é a mesma coisa que demência?
Não. São condições distintas, embora relacionadas. A demência é um declínio cognitivo crônico e progressivo, onde a memória é o domínio mais afetado inicialmente. O delirium é uma alteração aguda e flutuante da atenção e consciência. Um paciente com demência tem um risco muito maior de desenvolver delirium, e quando isso acontece, os sintomas são muito mais graves (delirium superposto à demência).
2. Meu familiar idoso ficou confuso após a cirurgia. Isso é normal?
É comum, mas não normal. A confusão mental aguda pós-operatória é, na grande maioria das vezes, um quadro de delirium. Deve ser sempre comunicada à equipe médica, pois é um sinal de alerta de que algo não está bem (ex: infecção, dor, efeito de medicamentos) e requer investigação e tratamento imediatos.
3. O delirium tem cura?
Sim, na maioria dos casos o delirium é potencialmente reversível uma vez que a causa de base seja identificada e tratada com sucesso. A recuperação completa pode levar dias a semanas, e em alguns casos, principalmente em idosos muito frágeis ou com demência prévia, pode haver uma recuperação incompleta, com algum grau de declínio cognitivo residual.
4. Por que os médicos dão antipsicóticos para alguém que não é psicótico?
No delirium, os antipsicóticos (como haloperidol) não são usados para tratar uma "psicose primária", mas como medicação sintomática. Eles ajudam a controlar a agitação extrema, as alucinações aterrorizantes e o comportamento disruptivo que colocam o paciente em risco (ex: arrancar sondas, cair do leito) ou que impedem a realização de tratamentos essenciais. São sempre usados na menor dose possível e pelo menor tempo necessário.
5. Como a família pode ajudar um paciente com delirium no hospital?
A família é uma peça fundamental. Pode ajudar: 1) Estar presente para oferecer um rosto familiar e calmante; 2) Trazer objetos de conforto como fotos, um cobertor ou pijama de casa; 3) Ajudar na reorientação, falando calmamente sobre o dia, a data e o local; 4) Estimular os sentidos de forma suave, como colocar uma música que ele goste; 5) Ajudar na alimentação e mobilização, conforme orientação da equipe.
6. O delirium pode deixar sequelas permanentes?
Cada episódio de delirium está associado a um maior risco de declínio cognitivo acelerado a longo prazo, maior dependência funcional e maior risco de desenvolver demência no futuro. Por isso, a prevenção e o tratamento rápido e adequado são tão importantes, pois visam não apenas resolver o episódio agudo, mas também proteger a saúde cerebral a longo prazo.
7. Existe um teste rápido para diagnosticar delirium?
Sim. O Confusion Assessment Method (CAM) é um instrumento validado e rápido, que pode ser aplicado em poucos minutos por profissionais de saúde treinados. Ele avalia a presença de início agudo, flutuação, desatenção e pensamento desorganizado.
8. O que são intervenções multissensoriais?
São um conjunto de práticas não-farmacológicas que visam criar um ambiente terapêutico, seguro e orientador para o paciente com delirium. Elas atuam de forma integrada nos cinco sentidos (visão, audição, tato, olfato) e na propriocepção, buscando reduzir a confusão, a ansiedade e os sintomas psicóticos, ao mesmo tempo que promovem a orientação e o conforto. Incluem controle de luz e ruído, reorientação, presença familiar, mobilização e uso de objetos pessoais.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Barlow, D.H.; Durand, V.M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Tradução da edição norte-americana. São Paulo: Cengage Learning, (data da edição utilizada nos trechos).
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Inouye, S.K. Delirium in Older Persons. New England Journal of Medicine. 2006;354(11):1157-65.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. revisada. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
- Fearing, M.A., & Inouye, S.K. Delirium. In: The American Psychiatric Publishing Textbook of Geriatric Psychiatry. 4th ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2009.
- Meagher, D.J., & Trzepacz, P.T. Delirium. In: The American Psychiatric Publishing Textbook of Psychosomatic Medicine: Psychiatric Care of the Medically Ill. 2nd ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2011.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.