Definição e conceito
Delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica de emergência médica, caracterizada por uma perturbação global, rápida e flutuante das funções mentais. É um estado de confusão mental aguda, resultante de uma disfunção cerebral difusa. Na semiologia psiquiátrica, o delirium é classificado como um transtorno neurocognitivo, situando-se na interface entre a neurologia, a medicina interna e a psiquiatria. O núcleo da síndrome é uma alteração da atenção (dificuldade em focar, manter ou desviar a atenção) e da consciência (redução da clareza ambiental), acompanhada por outras disfunções cognitivas que se desenvolvem em um curto período de tempo (geralmente horas a dias) e tendem a flutuar durante o dia.
A terminologia técnica inclui:
- Delirium (termo oficial em português e inglês). Historicamente também conhecido como "estado confusional agudo" ou "encefalopatia metabólica".
- Atenção: Capacidade de selecionar, focalizar e manter recursos cognitivos em informações específicas. No delirium, há uma desatenção difusa e flutuante.
- Consciência: Nível de vigília e clareza da percepção do ambiente. No delirium, há uma redução da clareza da consciência ambiental.
- Flutuação: Característica essencial, com períodos de lucidez intercalados com períodos de confusão intensa, frequentemente mais pronunciada à noite ("sundowning").
Conceitos adjacentes que devem ser distinguidos:
- Demência: Declínio cognitivo progressivo e crônico, sem alteração primária da atenção ou consciência. O delirium pode sobrepor-se à demência ("delirium superposto").
- Transtorno Neurocognitivo Leve (TNCL): Declínio cognitivo objetivado, mas que não interfere significativamente na independência funcional. É uma categoria distinta proposta pelo DSM-5 para capturar estados pré-demência.
- Estado Psicótico Agudo (como na esquizofrenia): Presença de delírios e alucinações organizados, geralmente sem a flutuação, a desatenção marcada e a desorientação típicas do delirium. A consciência do self e do ambiente geralmente está preservada.
Epidemiologia: O delirium é altamente prevalente em cenários hospitalares, especialmente em populações vulneráveis. Sua incidência é maior entre idosos (devido à maior vulnerabilidade cerebral e polifarmácia), pacientes com AIDS (por infecções oportunistas e efeitos diretos do HIV) e pacientes sob medicação intensiva (como em unidades de terapia intensiva). A prevalência de sintomas específicos varia amplamente, conforme dados compilados por Dalgalarrondo: desorientação (43-100%), nível de consciência alterado (58-100%), déficit de atenção (17-100%), perturbação do ciclo sono-vigília (25-96%). Os critérios do DSM-5, que colocam a "perturbação da atenção" em primeiro plano, podem ser menos inclusivos que os anteriores (DSM-IV), deixando de diagnosticar entre 11% e 70% dos casos que seriam captados pelas definições mais amplas. Isso exige que o clínico utilize uma noção ampla de desatenção para não perder o diagnóstico em pacientes difíceis de avaliar (e.g., aqueles que saíram do coma).
Apresentação clínica
A apresentação do delirium é heterogênea, mas segue um padrão de disfunção global e rápida. A avaliação clínica deve ser organizada por domínios psicopatológicos:
1. Domínio Cognitivo (Núcleo da Síndrome):
- Atenção e Consciência: Desatenção severa e flutuante. O paciente parece distraído, não consegue seguir uma conversa ou uma tarefa simples. A consciência ambiental está "embaçada", como se o paciente estivesse em um estado de semi-vigília.
- Orientação: Desorientação temporoespacial é quase universal. O paciente não sabe o dia, o horário, onde está, ou identifica incorretamente pessoas.
- Memória: Prejuízo da memória de fixação e evocação, especialmente para eventos recentes. A memória remota pode estar relativamente preservada.
- Linguagem e Pensamento: Pensamento ilógico, confuso e desorganizado. A linguagem pode apresentar incoerência, perseverações ou ser pobre. Não há um sistema delirante organizado.
- Funções Executivas: Capacidade de planejar, sequenciar e executar tarefas está profundamente comprometida.
2. Domínio da Sensopercepção:
- Alucinações: Comuns, especialmente visuais (25-79% dos casos). O paciente vê insetos, pessoas ou formas não presentes. Podem também ser auditivas ou táteis.
- Ilusões: Interpretações errôneas de estímulos reales. Um padrão na parede pode ser visto como um animal.
- Delírios: Presentes em 18-68% dos casos, mas são tipicamente fragmentados, não sistemáticos e flutuantes. São frequentemente delírios persecutórios ou de conteúdo misto.
3. Domínio Afetivo:
- Labilidade Afetiva: Oscilações rápidas e inexplicáveis do humor (43-86% dos casos). O paciente pode passar da euforia à irritabilidade e ao medo em minutos.
- Ansiedade e Medo: Frequentemente presentes, especialmente nas fases prodrômicas e durante períodos de maior confusão.
4. Domínio Comportamental e Psicomotor:
- Alterações Psicomotoras (38-90%): Podem se manifestar como:
- Forma Hiperativa: Agitação, inquietação, tentativas de sair do bed, vocalização excessiva.
- Forma Hipoativa: Lentificação, apatia, reduzida responsividade, sonolência. Esta forma é frequentemente subdiagnosticada.
- Forma Mista: Alternância entre estados hiper e hipoativos.
- Perturbação do Ciclo Sono-Vigília: Inversão do padrão, sonolência diurna e agitação/confusão nocturna ("sundowning").
Exemplos Clínicos Concisos:
- Paciente Hipoativo: Um homem de 78 anos, internado por pneumonia, parece "calmo" durante o dia. À noite, fica imóvel no bed, respondendo monossilabicamente após longos intervalos. A família relata que "ele não está aqui". Avaliação revela desorientação total e incapacidade de repetir três palavras.
- Paciente Hiperativo: Uma mulher de 65 anos, após cirurgia de fratura de quadril, tenta repetidamente remover os cateteres, grita que "há pessoas roubando no quarto" e não reconhece a equipe. Sua conversa é incoerente e ela não fixa a atenção em qualquer instrução.
- Delirium Superposto à Demência: Paciente com Alzheimer conhecido, torna-se abruptamente mais confuso, agitado e apresenta alucinações visuais após início de novo antibiótico para infecção urinária. A flutuação dos sintomas (momentos de lucidez relativa) diferencia o episódio agudo do baseline demencial.
Neurobiologia e fisiopatologia
O delirium resulta de uma disfunção cerebral global e difusa, não de uma lesão focal. É um estado de "desorganização" da atividade neuronal em larga escala. Os mecanismos são multifatoriais, mas convergem para um desequilíbrio nos sistemas de neurotransmissão e uma falha na integração das redes neuronais.
1. Sistemas de Neurotransmissão:
- Acetilcolina: A hipofunção do sistema colinérgico é um dos pilares fisiopatológicos. A acetilcolina é crucial para atenção, memória e consciência. Condições que reduzem sua síntese (deficiência nutricional, hipóxia) ou aumentam seu antagonismo (medicamentos anticolinérgicos) são potentes precipitantes de delirium.
- Dopamina: O excesso de atividade dopaminérgica (ou relativo, em relação à acetilcolina) está associado à forma hiperativa, agitação e sintomas psicóticos (alucinações/delírios).
- Serotonina, GABA e Glutamato: Alterações nestes sistemas contribuem para distúrbios do humor, ansiedade, perturbação do ciclo sono-vigília e excitotoxicidade neuronal. A resposta inflamatória sistêmica (via citocinas) pode alterar a função destes neurotransmissores.
- Modelo de Balanço: Um modelo útil concebe o delirium como um estado de desbalanço neuroquímico, onde há uma diminuição relativa de neurotransmissores "organizadores" (como acetilcolina) e um aumento relativo de neurotransmissores "desorganizadores" ou excitatórios (como dopamina e glutamato).
2. Mecanismos Integrativos e Circuitos:
- O delirium implica uma falha na integração de informações entre múltiplas redes corticais e subcorticais. Há uma dissociação entre áreas frontais (executivas, atenção), parietais (orientação, integração sensorial) e temporais (memória, linguagem).
- O tálamo, como estação de retransmissão e filtro sensorial, e o córtex pré-frontal, como regulador da atenção e comportamento, são particularmente vulneráveis.
- Evidências de neuroimagem (embora menos específicas para delirium) sugerem padrões de desorganização da conectividade funcional e alterações metabólicas difusas.
3. Fatores Precipitantes (Etiologias Multifatoriais):
O DSM-5 categoriza o delirium como devido a: outra condição médica, intoxicação ou abstinência de substância, exposição a toxina, ou múltiplas etiologias. Na prática, é quase sempre multifatorial:
- Infecções: Sepse, infecções urinárias, pneumonias.
- Metabólicas: Desequilíbrios hidroelectrolíticos, hipóxia, hiper/hiperglicemia, insuficiência orgânica.
- Neurológicas: AVC, hematomas, convulsões.
- Farmacológicas: Efeitos anticolinérgicos (antidepressivos tricíclicos, anti-histamínicos), benzodiazepínicos, opioides, corticosteroides.
- Ambientais/Hospitalares: Privação de sono, imobilização, dor, mudança de ambiente.
A fisiopatologia é, portanto, um modelo de vulnerabilidade cerebral (e.g., idade avançada, demência pré-existente) + insulto agudo (e.g., infecção, medicação) que desequilibra a homeostasia neuroquímica e a integração neuronal.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
A avaliação deve ser breve, repetida (para capturar flutuação) e focada nos domínios nucleares.
- Atenção: Testes simples como repetição de sequências de números (forward/backward), pedir que o paciente nomee meses do ano em ordem inversa, ou observar a capacidade de manter o olhar e a conversa.
- Consciência/Orientação: Perguntas diretas sobre data, local, situação. Observar a clareza da resposta e a consciência do que está ocorrendo.
- Memória: Pedir a fixação de três palavras e evocação após 1 e 5 minutos.
- Pensamento/Linguagem: Avaliar a coerência da narrativa espontânea. Presença de incoerência, perseveração, ou pensamento fragmentado.
- Sensopercepção: Perguntar diretamente sobre "ver coisas ou pessoas que outros não vêem" ou "ouvir vozes". Observar comportamentos de resposta a estímulos não presentes.
- Aspecto Global: Observar labilidade afetiva, alterações psicomotoras e nível de vigilância.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Confusion Assessment Method (CAM): Instrumento breve e validado, amplamente utilizado para screening. Avalia: 1) Alteração aguda e flutuante do estado mental; 2) Desatenção; 3) Pensamento desorganizado; 4) Alteração do nível de consciência.
- Delirium Rating Scale (DRS) ou Delirium Observation Screening Scale (DOS): Escalas mais detalhadas para quantificação da severidade.
- Mini-Exame do Estado Mental (MEEM): Útil, mas não específico para delirium. Pode ajudar na avaliação cognitiva global, especialmente para identificar delirium superposto à demência.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas | Pontos de Diferença com Delirium |
|---|---|---|
| Demência | Declínio cognitivo progressivo e crônico. Atenção e consciência geralmente preservadas no início. Sem flutuação diurna marcada. | Evolução temporal (crônica vs. aguda). Núcleo psicopatológico (memória/executivas vs. atenção/consciência). Flutuação (ausente vs. presente). |
| Transtorno Neurocognitivo Leve (TNCL) | Declínio cognitivo objetivado em testes, mas funcionalidade independente preservada. Não há alteração da atenção/consciência. | Severidade do déficit (leve vs. grave). Presença de alteração da atenção/consciência (ausente vs. presente). Impacto funcional (minimo vs. severo). |
| Estado Psicótico Agudo (Esquizofrenia, Transtorno Psicótico Breve) | Delírios e alucinações organizados e sistemáticos. Consciência do self e ambiente preservada. Atenção pode estar focada no conteúdo psicótico, mas não está difusamente comprometida. | Organização do pensamento (sistemático vs. fragmentado). Consciência ambiental (preservada vs. reduzida). Desorientação (geralmente ausente vs. presente). |
| Depressão com Pseudo-demência | Déficits cognitivos secundários à inibição psicomotora e falta de iniciativa. Atenção pode estar prejudicada pela ruminação, mas não há desorientação ou flutuação. Afeto depressivo predominante. | Sintomas afetivos nucleares (depressão vs. labilidade). Flutuação (ausente vs. presente). Resposta ao tratamento (melhora cognitiva com tratamento da depressão). |
| Estado de Mal Epiléptico Não-Convulsivo | Estado de alteração comportamental/cognitiva devido a atividade epileptica contínua. Flutuação pode ocorrer. | EEG é diagnóstico (mostra atividade epileptica contínua). Resposta a benzodiazepínicos pode ser dramática. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Subdiagnóstico da Forma Hipoativa: O paciente "calmo" e sonolento é frequentemente ignorado. A desatenção e a desorientação devem ser ativamente testadas.
- Atribuição à "Demência" ou "Idade": Em idosos, qualquer alteração cognitiva aguda deve primeiro ser considerada como possível delirium até que causas agudas sejam excluídas.
- Ignorar a Flutuação: Avaliar o paciente apenas em um momento de lucidez relativa pode levar ao erro. A informação de familiares ou da equipe sobre variações é crucial.
- Focar apenas nos Sintomas Psicóticos: Tratar alucinações ou delírios como um "transtorno psicótico primário" sem investigar a causa médica aguda.
- Dependência Excessiva de Critérios Restritivos: Usar critérios muito estreitos (como do DSM-5) sem aplicar uma avaliação clínica ampla da atenção e consciência pode deixar casos verdadeiros sem diagnóstico.
Condições associadas
O delirium não é um diagnóstico primário, mas uma síndrome secundária a uma vasta gama de condições. Sua ocorrência é um marcador de gravidade e vulnerabilidade.
Condições Médicas Frequentemente Associadas:
- Infecções Sistêmicas: Sepse, pneumonia, infecções urinárias (especialmente em idosos).
- Distúrbios Metabólicos e Hidroelectrolíticos: Hipóxia, hiper/hiperglicemia, desequilíbrios de sódio/potássio, insuficiência renal ou hepática.
- Doenças Neurológicas: Acidente vascular cerebral (especialmente não-focal), hematoma intracraniano, meningoencefalite, crises epilépticas.
- Trauma e Cirurgias: especialmente cirurgias cardíacas, ortopédicas grandes e pacientes politraumatizados.
- Cardiopatias: Insuficiência cardíaca, arritmias com baixo fluxo.
- Deficiências Nutricionais e Vitamínicas: Deficiência de tiamina (Wernicke), deficiência de B12.
Populações de Alto Risco (Vulnerabilidade Cerebral):
- Idosos: A reserva cognitiva reduzida e a polifarmácia aumentam drasticamente o risco.
- Pacientes com Demência Pré-existente: Qualquer insulto agudo pode precipitar delirium superposto.
- Pacientes com AIDS: Devido a infecções oportunistas, efeitos diretos do HIV no cérebro e medicações.
- Pacientes em Unidades de Terapia Intensiva (UTI): "Delirium na UTI" é uma entidade comum, devido ao ambiente (sedação, imobilização, dor, privação de sono) e às condições médicas graves.
- Pacientes com Histórico de Abuso de Substâncias: Intoxicação ou abstinência (especialmente de álcool, benzodiazepínicos) podem causar delirium.
Correlações nos Sistemas Diagnósticos:
- DSM-5-TR: Delirium é categorizado dentro dos Transtornos Neurocognitivos. Os critérios enfatizam: A) Perturbação da atenção e consciência; B) Desenvolvimento em curto período, com flutuação; C) Outra perturbação cognitiva; D) Evidência de causa médica/substância/toxina. Há especificadores para hiperativo, hipoativo ou misto.
- CID-11: Codificado sob Disorders due to substance use or addictive behaviours ou Neurocognitive disorders, dependendo da causa primária. A descrição também enfatiza a alteração da consciência, atenção e cognição global de curso flutuante.
A identificação do delirium deve sempre levar à busca agressiva de sua etiologia médica subjacente.
Implicações terapêuticas
O tratamento do delirium é multidimensional e urgente, focando na causa, no ambiente e no controle de sintomas. A abordagem é primariamente não-farmacológica, com farmacoterapia reservada para situações específicas.
1. Abordagem Não-Farmacológica (Núcleo do Tratamento):
- Identificação e Tratamento da Causa Primária: Investigação médica completa (história, exames físicos, laboratoriais, imagem) para identificar e tratar a condição precipitante (infecção, desequilíbrio metabólico, etc.).
- Intervenções Ambientais e de Suporte ("Cuidados Gerais"):
- Reasseguramento e Orientação: Comunicação calma, clara e repetida. Reorientar o paciente sobre quem são as pessoas, onde ele está, o que está ocorrendo.
- Presença de Objetos Pessoais e Familiares: Facilitar a orientação e reduzir a ansiedade.
- Normalização do Ciclo Sono-Vigília: Maximizar luz natural durante o dia, reduzir ruídos e intervenções nocturnas, criar ambiente calmo à noite.
- Estimulação Cognitiva Adequada: Atividades simples e orientadas durante os períodos de maior lucidez. Evitar sobrestimulação ou isolamento total.
- Mobilização e Reabilitação: Evitar imobilização prolongada.
- Correção de Déficits Sensoriais: Garantir que o paciente tenha seus óculos e aparelho auditivo.
2. Abordagem Farmacológica:
A medicação é coadjuvante e visa controlar sintomas que colocam o paciente ou outros em risco, ou que impedem o tratamento médico.
- Antipsicóticos (de Segunda Geração):
- Indicação: Agitação severa, comportamento perigoso, delírios/alucinações angustiantes que impedem cuidados.
- Exemplos: Risperidona, Olanzapina, Quetiapina em doses baixas. A Haloperidol (primeira geração) ainda pode ser usada em contextos específicos, mas com cautela devido aos efeitos extrapiramidais.
- Princípio: Usar a menor dose eficaz, por o menor tempo possível. Monitorar efeitos adversos, especialmente em idosos.
- Agentes Sedativos (com Cautela Extrema):
- Benzodiazepínicos (e.g., lorazepam) devem ser evitados como primeira linha, pois podem paradoxalmente aumentar a confusão e desorganização. São reservados para delirium devido à abstinência de álcool/sedativos ou quando antipsicóticos são contraindicados.
- Precauções: A farmacoterapia não "cura" o delirium; trata sintomas. O foco deve permanecer na causa médica e no ambiente.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
- O delirium é um marcador de morbidade e mortalidade aumentadas. Pacientes que desenvolvem delirium têm maior risco de complicações hospitalares, declínio funcional permanente, institucionalização e morte.
- A resolução completa é possível com identificação e tratamento rápido da causa. Em pacientes vulneráveis (idosos com demência), o episódio pode deixar um déficit cognitivo residual.
- A prevenção é crucial. Monitorização de medicação (especialmente em idosos), cuidados apropriados para doenças crônicas, e ambientes hospitalares adaptados podem reduzir significativamente a incidência.
- A abordagem multiprofissional é determinante para o prognóstico. A detecção precoce pela equipe de enfermagem, a investigação médica, a intervenção ambiental e a reabilitação coordenada melhoram os resultados.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Como o Paciente Vivencia o Delirium:
A experiência é tipicamente de terror, confusão e fragmentação. O paciente não consegue integrar informações, o ambiente parece distorcido e ameaçador. Alucinações visuais podem ser vividas como realidades intrusivas. A flutuação pode criar momentos de lucidez seguidos por retornos à confusão, aumentando a angústia. Pacientes com forma hipoativa podem parecer apáticos, mas internamente podem estar assustados e desorientados. A memória do episódio após a resolução pode ser fragmentada ou ausente, mas a experiência durante o evento é frequentemente traumática.
Orientações para Comunicação com Paciente e Família:
- Com o Paciente (durante o episódio):
- Tom Calmo e Reassegurador: Use voz baixa, ritmo lento. Não discuta ou confronto as falsas percepções.
- Reorientação Simples e Repetida: "Você está no hospital São Paulo. Eu sou Dr. Luigi, seu médico. Você está aqui porque teve uma infecção. Estamos cuidando de você."
- Validação da Emoção, Não do Conteúdo: "Eu vejo que você está muito assustado. Estamos aqui para ajudar você." Evite "Não há nenhum inseto na parede".
- Instruções Claras e Concretas: "Vamos ajudar você a se sentar agora." Use gestos simples.
- Presença Constante: A presença de um familiar conhecido ou de um membro da equipe pode reduzir a agitação.
- Com a Família/Cuidadores:
- Educação sobre a Síndrome: Explique que o delirium é uma condição médica aguda, não um "surto psiquiátrico" ou "demência avançada". Enfatize a flutuação e a possibilidade de recuperação.
- Papel da Família no Cuidado: Incentive a presença com objetos pessoais, a reorientação calma, a comunicação de mudanças no estado ao profissional.
- Prevenção de Futuros Episódios: Discuta a importância da monitorização de medicações, do manejo de condições médicas e da identificação rápida de sinais de confusão.
- Suporte Emocional: A família pode ficar exausta e angustiada. Validar seus sentimentos e incluir-os no plano de cuidado.
Impacto Funcional (Trabalho, Relacionamentos, Qualidade de Vida):
- Durante o Episódio: A funcionalidade é completamente comprometida. O paciente não pode realizar qualquer atividade independente, tomar decisões ou participar de seu cuidado.
- Após a Resolução: Em pacientes sem vulnerabilidade cerebral pré-existente, a recuperação funcional pode ser completa. Em idosos ou pacientes com demência, pode haver um declínio funcional permanente, com necessidade de aumento de apoio para atividades da vida diária.
- Impacto Psicológico: O episódio pode deixar um trauma ou uma ansiedade residual sobre a saúde mental. A família pode desenvolver ansiedade sobre futuras hospitalizações.
- Considerações Éticas: O paciente em delirium não está em condições de consentir para procedimentos ou pesquisa. O consentimento deve ser obtido de um representante legal. A equipe deve proteger a autonomia residual e a dignidade do paciente durante o episódio.
Perguntas frequentes
1. Delirium é uma forma de demência?
Não. Delirium é um estado agudo e flutuante de confusão mental causado por uma doença médica, substância ou toxina. A demência é um declínio crônico e progressivo das funções cognitivas. O delirium pode ocorrer em pessoas com demência (delirium superposto), mas é uma síndrome distinta e reversível se a causa for tratada.
2. Por que meu parente idoso ficou confuso após uma simples infecção urinária?
O cérebro do idoso tem menor "reserva cognitiva" e é mais vulnerável a qualquer insulto (infecção, medicação, desequilíbrio). Uma infecção, mesmo leve, pode desequilibrar sistemas neuroquímicos e precipitar delirium. Isso é um sinal de que o corpo está reagindo a uma doença, e não apenas de "idade".
3. O delirium pode ser prevenido?
Sim, em muitos casos. A prevenção envolve: 1) Monitorização cuidadosa de medicações em idosos (evitar polifarmácia, especialmente drogas anticolinérgicas); 2) Manejo adequado de doenças crônicas; 3) Ambiente hospitalar adaptado (presença familiar, orientação, normalização do ciclo sono-vigília); 4) Detecção precoce de sinais de confusão pela equipe e familiares.
4. É necessário usar medicação para controlar o delirium?
A medicação (tipicamente antipsicóticos em doses baixas) é usada apenas para controlar sintomas específicos e perigosos, como agitação severa que impede o tratamento ou coloca o paciente em risco. O tratamento principal é identificar e tratar a causa médica e modificar o ambiente. Os medicamentos não curam o delirium.
5. O delirium tem cura?
O estado confusional agudo pode ser completamente reversível se a causa subjacente (e.g., infecção, desequilíbrio metabólico) for identificada e tratada rapidamente. Em pacientes muito vulneráveis (idosos com demência avançada), pode haver algum déficit cognitivo residual após o episódio. A "cura" depende da resolução do problema médico que causou o delirium.
6. Como a equipe multiprofissional ajuda no tratamento?
Cada profissional tem um papel:
- Enfermagem: Detecção precoce (usando escalas como CAM), monitorização contínua, implementação de cuidados ambientais (reorientação, normalização do sono), administração segura de medicações.
- Médico (Clínico/Psiquiatra): Investigação diagnóstica da causa médica, prescrição de tratamento para a causa e (se necessário) para sintomas comportamentais.
- Fisioterapia/Ocupacional: Mobilização, prevenção de imobilização, atividades de estimulação adequada.
- Nutrição: Correção de déficits nutricionais que podem contribuir.
- Psicologia: Suporte emocional ao paciente (nos momentos de lucidez) e à família, estratégias de comunicação.
- Farmacêutico: Revisão da farmácia para identificar drogas precipitantes.
7. O delirium é sempre hiperativo (agitado)?
Não. Existem três formas: hiperativa (agitada), hipoativa (sonolenta, apática) e mista. A forma hipoativa é mais comum e frequentemente subdiagnosticada, porque o paciente parece "calmo". A avaliação ativa da atenção e orientação é crucial para identificar esses casos.
8. O que fazer se meu familiar com delirium tem alucinações e está muito assustado?
- Não conteste a realidade da alucinação. Não diga "isso não existe".
- Reassegure e valide a emoção. "Eu vejo que você está muito assustado. Estou aqui com você."
- Distraia e redirecione a atenção. "Vamos olhar para esta foto aqui" ou "Vamos tomar um pouco de água."
- Garanta segurança. Remova objetos potencialmente perigosos, mantenha o ambiente calmo.
- Comunique à equipe de saúde para que avaliem a necessidade de intervenções ambientais ou, se absolutamente necessário, medicação para reduzir o sofrimento.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Barlow, D.H.; Durand, V.M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Tradução brasileira. São Paulo: Editora Manole, (data baseada nas páginas fornecias).
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH), Conselho Federal de Medicina (CFM), Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes brasileiras e protocolos para manejo de delirium em contextos hospitalares e de longa permanência.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.