Definição e conceito
Delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda e flutuante, caracterizada por um distúrbio primário da atenção e da consciência, secundário a uma disfunção cerebral difusa de origem orgânica. É um estado de confusão mental aguda, com desorientação e prejuízos evidentes na memória e na linguagem, cujos sintomas se manifestam ao longo de horas ou poucos dias e variam ao longo do curso de um dia. O termo "delirium" é preferível a sinônimos como "estado confusional agudo" ou "síndrome cerebral aguda", por sua precisão nos manuais diagnósticos internacionais (DSM-5 e CID-11).
No contexto específico dos distúrbios do metabolismo do cobre, o delirium surge como uma manifestação neuropsiquiátrica de uma encefalopatia metabólica tratável. A principal e mais emblemática condição nesta categoria é a Doença de Wilson (DW), uma doença autossômica recessiva causada por mutações no gene ATP7B, localizado no cromossomo 13. Esta mutação leva a um defeito na excreção biliar do cobre, resultando em seu acúmulo tóxico no fígado, cérebro, córnea e outros tecidos. O acúmulo de cobre no parênquima cerebral, particularmente nos gânglios da base, tálamo e córtex, desencadeia uma perturbação difusa no metabolismo cerebral que se manifesta clinicamente como delirium, entre outros sintomas neurológicos e psiquiátricos.
A DW é um exemplo paradigmático de uma "causa tratável" de sintomas psiquiátricos e delirium. Ela se enquadra na categoria de "Outra condição médica" ou "Múltiplas etiologias" na especificação etiológica do delirium e dos transtornos neurocognitivos. Epidemiologicamente, a DW é rara, com prevalência estimada em 1 a 30.000 a 50.000 nascidos vivos, sem predileção por gênero. A apresentação neuropsiquiátrica, que pode incluir o delirium, ocorre em cerca de 40-50% dos pacientes, sendo por vezes a manifestação inicial, precedendo sinais hepáticos óbvios. O reconhecimento precoce é crucial, pois a instituição de terapia quelante do cobre (ex.: D-penicilamina, trientina) ou com zinco pode estabilizar ou reverter completamente o quadro, prevenindo lesões cerebrais irreversíveis.
Apresentação clínica
O delirium na Doença de Wilson é um exemplo de delirium secundário a uma encefalopatia metabólica. Sua apresentação incorpora os sintomas cardinais do delirium, mas frequentemente em um contexto de outros sinais neurológicos e sistêmicos da doença de base.
Domínio Cognitivo e da Consciência:
- Atenção: Déficit grave e flutuante na capacidade de focar, sustentar ou deslocar a atenção. O paciente parece facilmente distraído, incapaz de seguir uma conversa ou uma sequência simples de comandos.
- Consciência: Nível de consciência rebaixado, com obnubilação (torpor) ou, menos comumente, agitação psicomotora. A flutuação é uma marca registrada, com piora noturna (fenômeno do "pôr-do-sol").
- Orientação: Desorientação temporoespacial, podendo chegar à desorientação pessoal em casos graves.
- Memória: Prejuízo na memória de curto prazo (dificuldade de reter novas informações) e, por vezes, na memória de longo prazo. O paciente pode não se lembrar de fatos básicos ou de eventos recentes.
- Linguagem: A linguagem pode estar desorganizada, incoerente, com dificuldade para nomear objetos (anomia) ou para compreender ordens complexas. Pode haver discurso tangencial ou circunstancial.
Domínio da Percepção:
- Alucinações e Ilusões: Predomínio de alterações visuais. O paciente pode ter ilusões (interpretações errôneas de estímulos reais, como confundir a sombra de uma cortina com uma pessoa) ou alucinações visuais genuínas (ver animais, pessoas ou formas que não estão presentes). Alucinações auditivas também podem ocorrer, mas são menos proeminentes do que na esquizofrenia.
Domínio Comportamental e Psicomotor:
- Agitação ou Retardo: O paciente pode apresentar agitação psicomotora, inquietação, tentativas de sair do leito ou retirar acessórios (como cateteres ou sondas). Alternativamente, pode apresentar um subtipo hipoativo, com lentidão, apatia e redução marcante dos movimentos.
- Ciclo Sono-Vigília: Inversão total do ciclo, com sonolência diurna e agitação/confusão à noite.
Domínio Somático e Neurológico (Específico da Doença de Wilson):
Aqui reside a pista crucial para o diagnóstico etiológico. O delirium raramente ocorre isoladamente na DW. É fundamental buscar:
- Sinais Neurológicos: Tremor (que pode ser do tipo "asa de bater", irregular e amplo), distonia (contrações musculares sustentadas), rigidez, disartria (fala pastosa, difícil de entender), disfagia, instabilidade postural e marcha atáxica.
- Sinais Hepáticos: Pode haver história de hepatite aguda ou crônica, icterícia, ascite ou sinais de insuficiência hepática.
- Sinal Patognomônico: Anel de Kayser-Fleischer: Depósito de cobre na membrana de Descemet da córnea, visível ao exame com lâmpada de fenda. Está presente em quase 100% dos pacientes com manifestação neurológica.
Exemplo Clínico Conciso:
Paciente J.S.M., 19 anos, universitário, trazido pela família ao PS por "mudança de comportamento há uma semana". Relatam que ele está "confuso, não sabe que dia é, fala coisas sem sentido à noite e vê bichos no quarto". Durante a entrevista, o paciente está sonolento, com dificuldade em manter o foco. Quando estimulado, fala de forma arrastada e incompreensível. A família menciona que, nos últimos meses, ele vinha tendo dificuldade para escrever e sua letra piorou, além de um tremor fino nas mãos. Ao exame físico, nota-se discretos sinais de icterícia na esclera e, ao exame neurológico, um tremor grosseiro nas mãos e leve rigidez em roda dentada. A hipótese de encefalopatia metabólica é levantada, com suspeita específica de Doença de Wilson.
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia do delirium na Doença de Wilson é um modelo de como uma perturbação metabólica sistêmica leva a uma disfunção cerebral difusa e potencialmente reversível.
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Disfunção Metabólica Central: O acúmulo excessivo de cobre livre no cérebro exerce um efeito tóxico direto. O cobre gera radicais livres, promovendo estresse oxidativo que danifica lipídios de membrana, proteínas e DNA neuronal. Além disso, interfere com a função de enzimas mitocondriais, comprometendo a produção de energia (ATP) e levando a uma falência metabólica neuronal difusa.
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Desequilíbrio de Neurotransmissores: A perturbação metabólica global afeta os sistemas de neurotransmissão. Baseado no modelo geral do delirium, ocorre:
- Deficiência Colinérgica: Hipofunção das vias colinérgicas corticais e subcorticais, que são cruciais para a atenção, vigília e memória. A toxicidade do cobre pode prejudicar diretamente a síntese ou liberação de acetilcolina.
- Hiperatividade Dopaminérgica: Hiperfunção relativa das vias dopaminérgicas, particularmente no mesocórtex e no corpo estriado. Este desequilíbrio colinérgico-dopaminérgico está na base dos sintomas cognitivos, da agitação e possivelmente das alucinações.
- Resposta Aberrante ao Estresse: Como descrito por Cerejeira e cols. (2012), há evidências de hiperatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) no delirium, com liberação excessiva de cortisol, o que pode exacerbar a disfunção neuronal e a vulnerabilidade ao estresse.
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Localização da Lesão: Na DW, o acúmulo de cobre é mais proeminente nos gânglios da base (especialmente putâmen e globo pálido) e no tálamo. Estas estruturas são componentes críticos dos circuitos cortico-subcorticais que regulam a atenção, a consciência, o movimento e a função executiva. A disfunção destes circuitos explica a combinação de sintomas motores (tremor, distonia) e neuropsiquiátricos (delirium, alterações de personalidade, sintomas psicóticos).
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Potencial de Reversibilidade: A disfunção cerebral no delirium é potencialmente reversível se a causa for tratada com sucesso. Na DW, a terapia de quelação remove o cobre em excesso e o zinco bloqueia sua absorção intestinal. Com o tempo, isso pode permitir a recuperação da função neuronal, desde que não tenha ocorrido morte celular extensa e gliosis (fibrose cerebral). No entanto, quadros prolongados ou graves de delirium, mesmo de origem tratável como a DW, podem cursar com sequelas cognitivas residuais, destacando a urgência do diagnóstico e intervenção.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Descuido pessoal, agitação ou retardo psicomotor, inversão do ciclo sono-vigília.
- Fala: Pode ser desorganizada, incoerente, com perseverações, ou lenta e pastosa (disartria).
- Humor e Afeto: Labilidade afetiva, irritabilidade, apatia ou medo.
- Conteúdo do Pensamento: Desorganizado, com possíveis ideias delirantes não sistematizadas, frequentemente de conteúdo persecutório ou referente às alucinações.
- Percepção: Ilusões e alucinações visuais são comuns.
- Cognição:
- Atenção: Teste de dígitos (incapacidade de repetir 5 dígitos para frente), teste de subtrair 7 a partir de 100 (seriação de 7).
- Orientação: Falha em data, local, situação.
- Memória: Incapacidade de reter três palavras após 5 minutos.
- Linguagem: Dificuldade na nomeação, compreensão e repetição.
- Funções Executivas: Incapacidade de realizar testes de abstração ou sequências.
Instrumentos e Escalas:
- Confusion Assessment Method (CAM): Padrão-ouro para triagem rápida, avaliando início agudo, curso flutuante, desatenção e pensamento desorganizado ou nível de consciência alterado.
- Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98): Mais detalhada, útil para monitorar a gravidade ao longo do tempo.
- Exame Físico e Neurológico Completo: Fundamental. Buscar ativamente: Anel de Kayser-Fleischer (lâmpada de fenda obrigatória), tremor, rigidez, distonia, disartria, sinais de doença hepática crônica.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Pontos de Diferenciação do Delirium na DW |
|---|---|
| Esquizofrenia | Início insidioso, personalidade pré-mórbida esquizoide, consciência preservada, orientação preservada, alucinações predominantemente auditivas, delírios sistematizados, ausência de flutuação e de sinais neurológicos focais. |
| Transtorno Depressivo Maior com Sintomas Psicóticos | Humor depressivo predominante e persistente, psicose congruente com o humor, ausência de flutuação e de desorientação marcante. Nível de consciência normal. |
| Demência (ex.: Alzheimer) | Início gradual e progressivo, sem flutuação aguda, nível de consciência claro até fases muito avançadas. A memória é o domínio mais afetado inicialmente. Pode coexistir com delirium ("delirium superimposed on dementia"). |
| Transtorno Neurocognitivo Leve (TCL) | Déficits cognitivos objetivos mas sem prejuízo significativo nas atividades instrumentais da vida diária. Não há desorientação ou confusão como no delirium. |
| Delirium por Outras Causas | Hipoglicemia, infecção, intoxicação/abstinência de substâncias, distúrbios hidroeletrolíticos. A investigação laboratorial exaustiva e a ausência dos sinais específicos da DW (anel K-F, sinais neurológicos peculiares) direcionam o diagnóstico. |
| Transtorno Bipolar com Episódio Maníaco | Humor eufórico ou irritável expansivo, aumento de energia, grandiosidade. A desatenção pode estar presente, mas não há o rebaixamento do nível de consciência ou a desorientação típicas do delirium. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Atribuir Sintomas Psiquiátricos a um Transtorno Primário: O paciente jovem com alterações de comportamento, alucinações e delírios pode ser erroneamente diagnosticado com um primeiro episódio psicótico (esquizofrenia), atrasando por anos a investigação da DW.
- Interromper a Investigação Após uma Primeira Causa: Identificar, por exemplo, uma infecção do trato urinário em um idoso e atribuir todo o delirium a ela, sem investigar outras causas concomitantes (como deficiência de B12 ou, em casos raros, distúrbios metabólicos como a DW).
- Ignorar o Exame Neurológico e a Lâmpada de Fenda: Em qualquer paciente com delirium, especialmente jovens sem comorbidades óbvias, o exame neurológico detalhado e a busca pelo anel de Kayser-Fleischer são mandatórios.
- Subestimar o Subtipo Hipoativo: O paciente apático, sonolento e retraído pode ser erroneamente visto como deprimido, enquanto na verdade está em um delirium hipoativo, que tem pior prognóstico por ser menos identificado.
Condições associadas
O delirium por distúrbio do metabolismo do cobre está intrinsecamente associado à Doença de Wilson. No entanto, é crucial entender como essa condição se relaciona com os sistemas de classificação diagnóstica e com outras síndromes.
-
Doença de Wilson (E83.0 na CID-11; 275.1 no DSM-5 sob "Outra Condição Médica"): É a única condição primária associada. A DW pode se manifestar com uma variedade de transtornos psiquiátricos para além do delirium, incluindo:
- Alterações de Personalidade: Irritabilidade, impulsividade, labilidade emocional.
- Transtornos do Humor: Episódios depressivos maiores, menos frequentemente mania.
- Sintomas Psicóticos: Alucinações e delírios, que podem mimetizar esquizofrenia.
- Comprometimento Cognitivo: Que pode evoluir para um transtorno neurocognitivo (demência) se não tratada.
-
Delirium (6D70 na CID-11; 293.0 no DSM-5): O quadro agudo é codificado como Delirium. A especificação etiológica é fundamental: "Delirium devido a Doença de Wilson" ou "Delirium devido a múltiplas etiologias" (se houver outros fatores contribuintes, como infecção).
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Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve (6D8Y ou 6D71 na CID-11; 294.1x no DSM-5): Em fases avançadas ou não tratadas da DW, os déficits cognitivos podem se tornar persistentes e progressivos, configurando uma demência. O delirium pode ser um episódio agudo superimposto a esse declínio cognitivo de base.
A investigação das causas do delirium deve ser exaustiva. A DW é uma dessas causas, particularmente importante por ser tratável e poder causar lesão cerebral irreversível se negligenciada, assim como a hipoglicemia e a deficiência de vitamina B12.
Implicações terapêuticas
O manejo do delirium na Doença de Wilson é bi-focal: 1) Tratamento do episódio agudo de delirium (sintomático e de suporte) e 2) Tratamento específico e definitivo da doença de base.
1. Tratamento Específico da Doença de Wilson (Etiológico):
- Quelantes de Cobre:
- D-penicilamina: Agente de primeira linha tradicional. Efeitos colaterais são frequentes (febre, rash, proteinúria, neutropenia, piora paradoxal inicial dos sintomas neurológicos).
- Trientina (dicloridrato de trietilenotetramina): Alternativa eficaz, com perfil de efeitos colaterais possivelmente mais favorável, especialmente na apresentação neurológica.
- Zinco (acetato ou sulfato): Induz a síntese de metalotioneína intestinal, que liga o cobre da dieta e impede sua absorção, promovendo sua eliminação fecal. Muito usado como terapia de manutenção ou em pacientes pré-sintomáticos.
- Dieta: Restrição de alimentos ricos em cobre (fígado, mariscos, castanhas, cogumelos, chocolate amargo).
2. Manejo do Delirium Agudo (Sintomático e de Suporte):
- Medidas Ambientais e de Suporte (NÃO-FARMACOLÓGICAS): São a base do tratamento. Incluem: orientação frequente (relógio, calendário, identificação da equipe), presença de familiar, normalização do ciclo sono-vigília (luz diurna, redução de ruídos à noite), mobilização precoce, correção de deficiências sensoriais (óculos, aparelho auditivo), hidratação e nutrição adequadas.
- Tratamento Farmacológico do Delirium: Deve ser reservado para sintomas que causem sofrimento intenso ao paciente ou risco de dano (agitação grave, psicose aterrorizante).
- Antipsicóticos Atípicos em Baixa Dose: Haloperidol (clássico) ou, preferencialmente, risperidona ou quetiapina (com perfis colinérgicos mais favoráveis) podem ser usados com cautela para controlar agitação e sintomas psicóticos. A dose deve ser a mínima eficaz e revisada diariamente.
- Evitar Agentes Anticolinérgicos: Benzodiazepínicos (como lorazepam) devem ser evitados, exceto em delirium por abstinência de álcool/sedativos. Eles podem piorar a confusão e a desinibição.
Impacto Prognóstico:
O prognóstico do delirium na DW é diretamente ligado ao diagnóstico e tratamento precoces da doença de base. Com a instituição adequada da terapia de quelação/depleção de cobre:
- Reversibilidade: Os sintomas do delirium podem regredir completamente em dias a semanas.
- Melhora Neurológica: Tremor, distonia e disartria podem melhorar significativamente, embora algumas sequelas possam permanecer.
- Prevenção de Dano Irreversível: O tratamento impede a progressão para lesão neuronal permanente, demência e falência hepática.
- Sequela Cognitiva Pós-Delirium: Mesmo em causas tratáveis, episódios prolongados ou graves de delirium podem deixar déficits cognitivos residuais, enfatizando a necessidade de intervenção urgente.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
O paciente em delirium vive uma experiência fragmentada, aterrorizante e desorientadora. Ele não consegue "dar sentido" ao mundo ao seu redor. Sons e imagens se misturam, as pessoas podem parecer ameaçadoras (ilusões), e figuras estranhas podem surgir do nada (alucinações). A memória falha, então cada momento parece desconectado do anterior. A sensação é de estar preso em um pesadelo do qual não consegue acordar. A flutuação dos sintomas pode gerar "momentos de lucidez" que confundem ainda mais o paciente e a família. Sintomas motores da DW, como o tremor e a dificuldade para falar, aumentam a frustração e o medo.
Comunicação com o Paciente e a Família:
-
Para o Paciente (durante o episódio):
- Identificar-se: Fale seu nome e sua função a cada contato. "Bom dia, Sr. João. Eu sou a Dra. Maria, sua médica."
- Clareza e Simplicidade: Use frases curtas, uma ideia de cada vez. Faça perguntas de "sim" ou "não".
- Orientar Constantemente: "Agora é dia. Você está no hospital. Esta é sua filha, Ana."
- Validar o Medo, Corrigir a Realidade: "Sei que você está assustado com o que está vendo. Eu não vejo ninguém no canto, mas entendo que para você é real. Você está seguro aqui."
- Evitar Confronto: Não discuta a veracidade das alucinações ou delírios. Redirecione a atenção para o ambiente real.
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Para a Família/Cuidadores:
- Educação sobre o Delirium: Explicar que é uma condição médica aguda, como uma "pneumonia do cérebro", e não uma loucura. Enfatizar a flutuação e a potencial reversibilidade.
- Enfatizar a Causa Tratável: No caso da DW, explicar de forma clara a natureza genética da doença, o acúmulo de cobre e, crucialmente, que existe um tratamento específico e eficaz.
- Papel do Cuidador: Encorajar sua presença para oferecer orientação e segurança. Instruí-los a usar as mesmas técnicas de comunicação clara e orientação.
- Prognóstico Realista: Explicar que o tratamento do delirium é urgente e que o tratamento da DW é para a vida toda, mas que pode controlar a doença e permitir uma vida produtiva.
Impacto Funcional:
Durante o episódio de delirium, o paciente é totalmente dependente para todas as atividades da vida diária (AVDs). Após a resolução, se houver sequelas cognitivas ou neurológicas da DW, pode haver impacto:
- Trabalho/Estudo: Dificuldades de concentração, memória ou habilidades motoras finas podem exigir adaptações ou mudança de função.
- Relacionamentos: A labilidade emocional e as alterações de personalidade prévias ao diagnóstico podem ter tensionado relações familiares. O diagnóstico e tratamento trazem alívio, mas também exigem adaptação.
- Qualidade de Vida: O manejo da doença crônica (medicação diária, exames de controle) e possíveis sequelas físicas (tremor, disartria) impõem desafios. O apoio psicológico e de grupos de pacientes (como a Associação Brasileira de Doença de Wilson) é fundamental.
Perguntas frequentes
1. O delirium da Doença de Wilson é igual a uma "loucura" ou esquizofrenia?
Não. Embora os sintomas (alucinações, delírios) possam ser semelhantes, a base é completamente diferente. A esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico primário com funcionamento cerebral complexo alterado. O delirium na DW é um sintoma de uma intoxicação cerebral por cobre, uma condição médica tratável. A consciência está turva no delirium, o que não ocorre na esquizofrenia.
2. Meu familiar idoso está confuso no hospital. Por que investigar algo raro como Doença de Wilson?
A DW é rara, mas seu diagnóstico é transformador. Em qualquer paciente com delirium, especialmente se houver sinais neurológicos associados (tremor, dificuldade para falar) ou se for um adulto jovem, a investigação deve incluí-la. O princípio é: "causas tratáveis devem ser sempre lembradas e afastadas". O exame com lâmpada de fenda (para o anel de Kayser-Fleischer) é simples e não invasivo.
3. O tratamento com quelantes cura a Doença de Wilson?
Não há cura no sentido de corrigir o defeito genético. No entanto, o tratamento é altamente eficaz no controle da doença. Ele remove o excesso de cobre e impede seu novo acúmulo. Se iniciado precocemente e seguido rigorosamente, permite que o paciente tenha uma vida normal, com expectativa de vida similar à população geral. A medicação é vitalícia.
4. O delirium vai passar? Meu familiar voltará a ser como era antes?
O episódio agudo de delirium tem grande chance de reverter com o tratamento adequado da causa (nesse caso, a terapia para DW). A velocidade e a completude da recuperação dependem da gravidade e duração do delirium, da idade do paciente e da existência de lesões cerebrais prévias. Pode haver uma recuperação completa, mas também é possível que permaneçam algumas dificuldades de memória ou atenção.
5. Por que o paciente piora à noite (fenômeno do "pôr-do-sol")?
A fisiopatologia não é totalmente compreendida, mas fatores contribuintes incluem: redução de estímulos sensoriais orientadores (luz, ruídos familiares), fadiga ao final do dia, maior incidência de interrupções do sono no ambiente hospitalar e possíveis flutuações circadianas na neurotransmissão colinérgica.
6. Posso dar um calmante/ansiolítico para o paciente agitado e confuso em casa?
Absolutamente não. A automedicação, especialmente com benzodiazepínicos (diazepam, lorazepam, clonazepam), pode piorar drasticamente o quadro de delirium, aprofundando a confusão e a desorientação. O paciente com suspeita de delirium deve ser avaliado imediatamente por um médico para identificar e tratar a causa de base.
7. A Doença de Wilson é hereditária? Meus filhos terão?
Sim, é uma doença autossômica recessiva. Para ter a doença, a criança precisa herdar uma cópia do gene ATP7B defeituoso do pai e outra da mãe (que são portadores assintomáticos). O risco para cada filho de um casal de portadores é de 25% de ter a doença, 50% de ser portador e 25% de não herdar o gene. O aconselhamento genético é recomendado.
8. Além do psiquiatra, quais outros profissionais devem acompanhar o paciente com DW?
O manejo é multidisciplinar:
- Hepatologista/Gastroenterologista: Para acompanhamento da doença hepática.
- Neurologista: Para manejo dos sintomas motores e distúrbios do movimento.
- Nutricionista: Para orientar dieta com restrição de cobre.
- Psicólogo/Neuropsicólogo: Para apoio emocional e reabilitação cognitiva, se necessário.
- Fonoaudiólogo: Para reabilitação da disartria e disfagia.
- Terapeuta Ocupacional/Fisioterapeuta: Para reabilitação motora e funcional.
Referências
- American Psychiatric Association. (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5). (5ª ed.). Porto Alegre: Artmed.
- Cerejeira, J.; Nogueira, V.; Luís, P.; Vaz-Serra, A.; Mukaetova-Ladinska, E. B. (2012). The stress response to surgery and postoperative delirium: Evidence of hypothalamic-pituitary-adrenal axis hyperresponsiveness and decreased suppression of the GH/IGF-1 Axis. Journal of Geriatric Psychiatry and Neurology.
- Cheniaux, E. (2021). Manual de Psicopatologia (6ª ed.). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.
- Dalgalarrondo, P. (2018). Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais (3ª ed.). Porto Alegre: Artmed.
- Inouye, S. K., et al. (2016). The short-term and long-term relationship between delirium and cognitive trajectory in older surgical patients. Alzheimer’s & Dementia.
- Meagher, D. J., & Trzepacz, P. T. (2012). Phenomenology of delirium. In The American Psychiatric Publishing Textbook of Neuropsychiatry and Behavioral Neurosciences.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). (2022). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – 11ª Edição (CID-11).
- Sadock, B. J.; Sadock, V. A.; Ruiz, P. (2017). Compêndio de Psiquiatria (11ª ed.). Porto Alegre: Artmed.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.