Definição e conceito
Confabulações de embaraço constituem uma alteração qualitativa específica da memória, caracterizada pela produção involuntária de relatos falsos, porém plausíveis, quando o indivíduo é pressionado a recordar eventos inexistentes ou sobre os quais não possui memória. O fenômeno é classificado dentro do espectro das paramnésias, mais especificamente como um subtipo de fabulação (ou confabulação). A produção narrativa falsa não é intencional ou motivada por desejo de enganar, mas sim uma resposta automática a uma demanda social ou situacional percebida, geralmente para evitar o constrangimento de admitir uma falha mnêmica.
A terminologia técnica é variável. O termo confabulação (do latim confabulari, "conversar") é sinônimo de fabulação na literatura psicopatológica clássica e contemporânea. Em inglês, utiliza-se confabulation. A expressão "confabulações de embaraço" especifica o contexto precipitante: a pressão da entrevista clínica ou de uma situação social. É crucial diferenciá-la de outros conceitos:
- Paramnésia/Alucinação de Memória: Termo mais genérico para falsas lembranças. Para alguns autores, a fabulação é um tipo de paramnésia que ocorre em contextos amnésicos orgânicos. Outros usam paramnésia como sinônimo de alucinação de memória, um fenômeno mais associado a psicoses, onde a lembrança falsa é dotada de uma vivência sensorial vívida.
- Pseudologia Fantástica (Mentira Patológica): Construções narrativas fantasiosas e extensas, geralmente com um componente intencional inicial que pode evoluir para uma crença na própria narrativa pelo sujeito. Está mais ligada a transtornos da personalidade (ex.: borderline, histriônica) do que a um déficit mnêmico primário.
- Falsas Memórias: Fenômeno mais amplo que pode ocorrer em indivíduos sem patologia declarada, envolvendo a recordação vívida e detalhada de eventos que não aconteceram, frequentemente induzidos por sugestão externa. Crianças são particularmente suscetíveis.
Epidemiologicamente, as confabulações de embaraço não são um diagnóstico, mas um sintoma. Sua prevalência é intrínseca à dos transtornos nos quais ocorre. É um sinal clássico e proeminente da Síndrome de Wernicke-Korsakoff (secundária ao alcoolismo crônico com deficiência de tiamina – B1), mas também pode ser observada em outras condições que cursam com amnésia grave, como demências (especialmente nas fases moderadas a avançadas da Doença de Alzheimer), estados confusionais agudos (delirium), transtornos amnésicos por trauma cranioencefálico, tumores ou infecções do sistema nervoso central.
Apresentação clínica
A manifestação clínica das confabulações de embaraço é característica e segue um padrão observável na entrevista psiquiátrica ou neuropsicológica.
Domínio Cognitivo:
- Resposta a Estímulo Pressão: O fenômeno é desencadeado por perguntas diretas sobre eventos passados, especialmente aquelas que assumem a ocorrência de um fato (ex.: "O que o senhor fez no domingo passado?"; "Lembra daquela festa no seu bairro há dois anos?"). A pergunta cria uma demanda social à qual o paciente sente-se obrigado a responder.
- Produção de Narrativas Plausíveis: A resposta não é um "não sei" ou um absurdo. O paciente constrói uma narrativa coerente, detalhada e verossímil com o contexto de sua vida. Pode relatar ter ido ao mercado, visitado um parente, realizado uma tarefa doméstica ou participado de um evento social comum.
- Inconsciência da Falsidade: O paciente não tem insight sobre o fato de estar relatando um evento que não ocorreu. Para ele, trata-se de uma lembrança genuína. Não há sinal de embaraço ou hesitação que sugira mentira consciente durante o relato.
- Base em Elementos Mnêmicos Reais: Frequentemente, a confabulação é construída a partir de fragmentos de memórias verdadeiras, mas deslocadas no tempo ou recombinadas de forma errônea. O paciente pode descrever uma atividade que costumava realizar regularmente no passado, apresentando-a como um evento recente e específico.
- Amnésia Anterógrada e Retrógrada Subjacente: A confabulação ocorre sobre um pano de fundo de déficit de memória, particularmente da memória episódica (memória de eventos autobiográficos específicos). Há uma falha na fixação de novas memórias (amnésia anterógrada) e/ou na recuperação de memórias consolidadas (amnésia retrógrada).
Domínio Afetivo e Comportamental:
- Afeto Congruente: O paciente relata o evento falso com um afeto apropriado ao conteúdo da narrativa (ex.: satisfação por ter realizado uma tarefa, neutralidade ao descrever um passeio comum).
- Ausência de Intenção de Enganar: O comportamento não é calculado para obter vantagem, manipular ou impressionar. A motivação primária, conforme proposto por Cheniaux, é evitar a situação embaraçosa de não conseguir responder a uma pergunta aparentemente simples.
- Sugestionabilidade: O paciente pode ser altamente influenciável pela formulação da pergunta ou por sugestões implícitas do entrevistador, moldando sua confabulação a partir do "enunciado" apresentado.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Paciente com Síndrome de Korsakoff, internado há 3 meses: Ao ser perguntado "O que o senhor almoçou hoje?", responde prontamente: "Feijoada completa, como todo sábado. Minha esposa fez, com couve e laranja. Estava ótima." Na realidade, o paciente almoçou a refeição do hospital e sua esposa não o visitou naquela semana.
- Paciente com Demência Moderada em avaliação: Questionado "O que você fez pela manhã?", relata: "Fui à feira, comprei frutas, encontrei a Dona Maria e depois parei no banco." O paciente, na verdade, permaneceu em casa sob supervisão, e a descrição corresponde a uma rotua de anos atrás.
- Paciente em recuperação de TCE grave: Perguntado sobre uma suposta reunião com o médico na semana anterior (que não ocorreu), descreve detalhes do consultório, a roupa do médico e um conselho sobre medicação que, na verdade, foi dado por um fisioterapeuta em outro contexto.
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia das confabulações é complexa e envolve uma desconexão entre sistemas de memória, monitoração da realidade e funções executivas. Os modelos teóricos evoluíram da ideia simples de "preenchimento de lacunas" para modelos multifatoriais.
Mecanismos Neuroanatômicos:
As lesões clássicas associadas às confabulações, especialmente na Síndrome de Korsakoff, localizam-se no circuito de Papez e em áreas frontais interconectadas:
- Corpos Mamilares: Estruturas do hipotálamo com forte conexão com o hipocampo via fórnix. Sua lesão é um marcador neuropatológico da encefalopatia de Wernicke-Korsakoff e está ligada ao grave déficit de memória anterógrada.
- Núcleo Dorsomedial do Tálamo: Estação de relay crucial que conecta estruturas límbicas (como a amígdala) ao córtex pré-frontal. Sua lesão prejudica a contextualização temporal e a atribuição de significado emocional às memórias.
- Córtex Orbitofrontal e Pré-frontal Ventromedial: Essas regiões são fundamentais para a monitoração da fonte (source monitoring) – a capacidade de discernir a origem de uma informação (se foi imaginada, sonhada, ouvida ou vivida) – e para o controle inibitório. Uma disfunção aqui levaria à incapacidade de verificar a veracidade e a temporalidade de um traço mnêmico recuperado, permitindo que imaginações ou memórias antigas sejam aceitas como memórias recentes e verdadeiras.
Dalgalarrondo (2018) ressalta que mais de 20 áreas cerebrais já foram associadas ao fenômeno, indicando que não há um "centro da confabulação", mas sim uma rede neural vulnerável. Lesões no giro do cíngulo anterior, na ínsula e em regiões temporais mesiais também podem estar envolvidas.
Modelos Explicativos Atuais:
- Modelo do Déficit de Monitoração da Fonte (Source Monitoring): Propõe que o cerne do problema não é a criação da memória falsa, mas a falha no processo de verificação que normalmente nos permite identificar uma lembrança como real e localizá-la corretamente no tempo e no espaço. O paciente recupera um fragmento de memória real (ex.: "fui à feira") mas, devido a lesões frontais, falha em inibir sua associação a um contexto temporal incorreto ("isso aconteceu hoje").
- Modelo do Deslocamento Temporal (Temporal Contextualization Deficit): Enfatiza que as confabulações frequentemente são memórias verdadeiras, mas atribuídas a um período de tempo errado. O evento relatado realmente aconteceu na vida do paciente, porém em um passado remoto. O sistema de "datagem" das memórias está comprometido.
- Modelo da Busca Estratégica e Controle Executivo: Sugere que, diante de uma pergunta, o paciente inicia uma busca estratégica na memória. Com os sistemas de memória episódica danificados, essa busca é ineficaz. As áreas frontais danificadas, incapazes de supervisionar o processo e reconhecer a falha na recuperação, liberam como resposta qualquer conteúdo mental relacionado (uma memória genérica, um hábito, uma imaginação) que seja semanticamente plausível para a pergunta.
Sistemas de Neurotransmissão:
O déficit colinérgico, central nas síndromes demenciais, contribui para o prejuízo da memória e da atenção, criando o substrato para as confabulações. Na Síndrome de Korsakoff, a deficiência de tiamina (B1) leva a uma crise energética neuronal, afetando múltiplos sistemas, incluindo o glutamatérgico e o GABAérgico, com consequente excitotoxicidade e morte celular nas regiões vulneráveis mencionadas.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Pode ser normal. Nenhuma atitude evasiva ou de culpa típica da mentira consciente.
- Fala e Pensamento: O discurso é fluente, coerente e com conteúdo apropriado até que se explore a memória episódica recente. O curso do pensamento é preservado.
- Humor e Afeto: Geralmente eutímico e reativo, podendo haver labilidade ou apatia de acordo com a condição de base (ex.: demência).
- Conteúdo do Pensamento: Ausência de delírios primários. As confabulações não são ideias delirantes; são incorretas, mas não bizarras ou implausíveis, e não estão inseridas em um sistema ideativo complexo.
- Funções Cognitivas:
- Memória: Grave prejuízo na memória episódica recente (anterógrada). O prejuízo retrógrado é frequentemente temporalmente gradado (memórias mais antigas preservadas). A memória semântica (conhecimentos gerais) e a memória de trabalho podem estar relativamente preservadas.
- Orientação: Desorientação temporo-espacial, especialmente para data e local atuais.
- Funções Executivas: Podem estar comprometidas (flexibilidade mental, planejamento, inibição), contribuindo para a falta de verificação da memória.
- Insight: Gravemente prejudicado para os déficits de memória. O paciente não tem consciência de que está confabulando.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) e MoCA: Úteis para rastrear déficit cognitivo global, mas não são específicos para confabulações.
- Entrevista Clínica Estruturada: A avaliação de ouro é a anamnese e o exame do estado mental focados na memória. Perguntas abertas e depois específicas sobre eventos recentes (ex.: "Conte-me sobre seu dia desde que acordou"; "O que você comeu no café da manhã?"; "Quem você viu hoje?").
- Testes Neuropsicológicos Formais:
- Teste de Aprendizagem Auditivo-Verbal de Rey (RAVLT): Avalia memória verbal e susceptibilidade a interferência.
- Teste de Memória de Histórias (Wechsler): Avalia memória episódica narrativa.
- Teste de Figura Complexa de Rey: Avalia memória visual.
- Testes de Função Executiva: Como o Trail Making Test (parte B) e o Teste de Stroop, para avaliar componentes de controle inibitório e flexibilidade.
- Escalas Específicas para Confabulação: Existem protocolos de entrevista que provocam sistematicamente confabulações (ex.: perguntar sobre eventos fictícios) para quantificar e qualificar o fenômeno em contextos de pesquisa.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Fenômeno | Intencionalidade | Consciência da Falsidade | Base Principal | Contextos Clínicos Típicos | Plausibilidade |
|---|---|---|---|---|---|
| Confabulação de Embaraço | Involuntária | Ausente | Déficit de memória + pressão social | Síndrome de Korsakoff, Demência, Delirium, TCE | Alta (relatos comuns) |
| Pseudologia Fantástica | Voluntária (inicial) | Variável (pode passar a acreditar) | Necessidade psicológica (autoestima, fuga) | Transtornos da Personalidade (Borderline, Histriônica) | Variável (pode ser fantasiosa) |
| Alucinação de Memória (Paramnésia) | Involuntária | Ausente | Atividade psicótica | Esquizofrenia, Transtorno Delirante | Baixa (bizarra, improvável) |
| Memória Delirante | Involuntária | Ausente | Sistema delirante | Esquizofrenia, Transtorno Delirante | Baixa (interpretação delirante de evento real) |
| Falsa Memória (em não pacientes) | Involuntária | Ausente | Sugestão externa + mecanismos normais | Indivíduos normais, especialmente crianças | Alta |
| Simulação | Voluntária | Presente | Ganho secundário consciente | Contexto forense, compensatório | Variável (pode ser mal elaborada) |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Interpretar como "Mentira" ou "Simulação": O erro mais grave. Atribuir intencionalidade ao paciente leva a uma ruptura da aliança terapêutica e a uma conduta inadequada. A atitude do clínico deve ser de compreensão do sintoma, não de confronto.
- Confundir com Delírio: Embora ambos envolvam crenças falsas, o delírio é tipicamente implausível, bizarrro, resistente a evidências contrárias e integrado a um sistema de pensamento. A confabulação é pontual, plausível e restrita a perguntas sobre memória.
- Não Investigar a Causa Orgânica Subjacente: Tratar a confabulação como um fenômeno isolado, sem buscar ativamente a síndrome amnésica de base (ex.: não dosar tiamina, não investigar causas de demência).
- Superestimar a Capacidade Cognitiva: O relato fluente e detalhado pode enganar o profissional menos experiente, fazendo-o acreditar que a memória do paciente está melhor do que realmente está.
Condições associadas
As confabulações de embaraço são um sintoma de condições que afetam gravemente a memória episódica e as funções frontais de monitoração. Sua presença é um marcador de gravidade do comprometimento mnêmico.
1. Transtornos Neurocognitivos (Demências):
- Doença de Alzheimer: Confabulações podem surgir nas fases moderadas, quando os déficits de memória episódica e as disfunções executivas se tornam pronunciados.
- Demência Frontotemporal (Variante Comportamental): A desinibição e o grave comprometimento do julgamento e do controle executivo podem se associar a confabulações.
- Demência Vascular: Dependendo da localização das lesões (especialmente talâmicas ou frontais), o fenômeno pode estar presente.
- Demência por Corpos de Lewy: As flutuações cognitivas e os prejuízos atencionais e executivos podem criar cenários para confabulações.
2. Transtornos Amnésicos:
- Síndrome de Wernicke-Korsakoff: O paradigma clássico. A confabulação é um dos sinais cardinais, junto com amnésia anterógrada grave e retrógrada, apatia e relativa preservação de outras funções cognitivas.
- Transtorno Amnésico devido a Traumatismo Cranioencefálico: Lesões em lobos temporais mesiais, diencéfalo ou regiões frontobasais podem produzir o quadro.
- Transtorno Amnésico devido a outra Condição Médica: Tumores (ex.: do assoalho do III ventrículo), infecções (encefalites límbicas), isquemia/anóxia cerebral, e estados pós-cirurgia (ex.: de aneurisma da artéria comunicante anterior).
3. Estados Confusionais Agudos:
- Delirium (Estado Confusional Agudo): A desatenção grave, a desorganização do pensamento e a flutuação dos sintomas podem levar a relatos confabulatórios, especialmente durante a recuperação ou em momentos de aparente lucidez.
4. Outras Condições (menos frequente):
- Esquizofrenia: Alguns autores, como Cheniaux, mencionam a ocorrência de fabulação (paramnésia) na esquizofrenia, mas geralmente no contexto de atividade delirante, configurando mais uma alucinação de memória (ex.: paciente acredita ter realizado feitos heroicos no dia anterior). A qualidade psicótica e a implausibilidade geralmente diferenciam.
- Transtornos Dissociativos: Em casos extremos de amnésia dissociativa, pressões para lembrar podem gerar relatos confusos, mas o contexto traumático/estressante e a ausência de lesão neurológica são diferenciadores.
Correlações nos Manuais Diagnósticos:
- CID-11: O sintoma está subjacente a categorias como 6D85.0 Síndrome amnésica devida ao uso de álcool (Síndrome de Korsakoff), 6D80-6D8Z Transtornos neurocognitivos, e 6D70 Delirium. Não é um código por si só.
- DSM-5-TR: Associado aos diagnósticos de Transtorno Neurocognitivo Maior (devido a Doença de Alzheimer, Vascular, etc.), Transtorno Amnésico Persistente induzido por Álcool (Korsakoff), Transtorno Amnésico devido a outra Condição Médica, e Delirium.
Implicações terapêuticas
Não existe um tratamento específico para as confabulações de embaraço. A abordagem terapêutica é direcionada à condição etiológica subjacente e ao manejo sintomático e psicossocial.
Abordagem Farmacológica:
- Tratamento da Causa de Base:
- Síndrome de Wernicke-Korsakoff: Suplementação urgente e em altas doses de Tiamina (Vitamina B1) parenteral, seguida de reposição oral crônica. Pode impedir a progressão e, em alguns casos, levar a melhora parcial, mas as confabulações e a amnésia frequentemente persistem como sequelas.
- Doença de Alzheimer e outras Demências: Uso de inibidores da acetilcolinesterase (donepezila, rivastigmina, galantamina) e/ou memantina (antagonista de NMDA). Estes medicamentos podem melhorar globalmente a cognição, o comportamento e a funcionalidade, mas têm efeito limitado e variável sobre as confabulações específicas.
- Delirium: Identificação e tratamento da causa clínica (infecção, desidratação, drogas). O manejo ambiental e, se necessário, o uso criterioso de antipsicóticos atípicos em baixa dose (ex.: risperidona, quetiapina) para agitação, podem reduzir a desorganização que favorece as confabulações.
- Sintomas Comportamentais e Psicológicos: Se as confabulações estiverem associadas a agitação, desinibição ou ansiedade, pode-se considerar o uso de antipsicóticos atípicos ou ISRSs, sempre pesando riscos e benefícios, especialmente em idosos (risco de AVC, efeitos extrapiramidais).
Abordagem Psicoterapêutica e Psicossocial:
- Terapia de Reabilitação Cognitiva: Foca em estratégias compensatórias para a memória. Ensinar o uso de agendas, calendários, diários, lembretes no celular e listas pode reduzir a necessidade de o paciente "buscar" uma memória que não existe, diminuindo a ocasião para confabulações.
- Psicoeducação Familiar: É fundamental. A família deve entender que as confabulações não são mentiras, mas um sintoma da doença cerebral. Orientar a:
- Não confrontar ou corrigir o paciente de forma brusca ("Isso não aconteceu!"), pois gera frustração, agitação e sofrimento.
- Utilizar técnicas de redirecionamento e validação emocional: Em vez de discutir o fato, validar o sentimento por trás dele (ex.: Se o paciente diz que foi à feira, responder: "O senhor gosta muito de ir à feira, não é? Lembra das frutas que costumávamos comprar?").
- Fazer perguntas de forma não ameaçadora: Evitar perguntas diretas que testem a memória. Preferir afirmações ou oferecer escolhas (ex.: Em vez de "O que você almoçou?", dizer "O almoço hoje estava gostoso" ou "Você prefere suco ou água?").
- Terapia Ocupacional e Ambiental: Estruturar a rotina, manter o ambiente seguro, previsível e com pistas visuais claras (fotos, relógios grandes, placas) reduz a ansiedade e a confusão, minimizando fatores que exacerbam o sintoma.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O prognóstico das confabulações está diretamente atrelado ao da doença de base. Em condições estáticas ou degenerativas lentas (ex.: Korsakoff estabelecido, demências), as confabulações tendem a ser um sintoma crônico. Em condições tratáveis (ex.: delirium, deficiência de B1 em fase inicial), podem regredir parcial ou totalmente. A presença de confabulações graves geralmente indica um pior prognóstico funcional global, pois reflete um comprometimento cognitivo significativo. A resposta ao tratamento da condição de base nem sempre se correlaciona com a melhora das confabulações, que podem persistir mesmo com alguma estabilização clínica.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
Para o paciente, as confabulações são lembranças genuínas. Ele não experiencia um processo de "invenção". Quando relata ter ido ao banco, ele pode, de fato, ter uma imagem mental ou uma sensação de familiaridade associada a essa atividade. A vivência é de normalidade; ele está simplesmente respondendo a uma pergunta sobre seu dia. A angústia e o embaraço que o fenômeno busca evitar originalmente só surgem se o ambiente (familiares, profissionais) reage com incredulidade, irritação ou correção agressiva. O paciente pode então ficar confuso, agitado ou retraído, sem compreender por que os outros não acreditam em sua experiência subjetiva verdadeira.
Orientação para Comunicação Clínica e Familiar:
- Estabelecer Rapport com Validação: Inicie a entrevista por temas neutros ou sobre o passado remoto (se preservado). Ao abordar a memória recente, faça-o com naturalidade, sem tom de "teste".
- Evitar o Confronto Direto: Nunca diga "Isso é mentira" ou "Isso não aconteceu". Isso é clinicamente inútil e eticamente questionável, pois confronta o paciente com um déficit do qual ele não tem consciência.
- Utilizar a Técnica da "Resposta Focada no Sentimento": Concentre-se na emoção ou necessidade subjacente ao relato. Ex.: Paciente confabula que os filhos o visitaram. Em vez de corrigir, dizer: "É bom receber visitas, não é? O senhor sente falta deles." Isso acalma e conecta.
- Oferecer Escolhas e Estrutura: Para questões práticas, ofereça opções limitadas. Ex.: "Vamos almoçar agora. O senhor prefere frango ou peixe?"
- Educar a Família Continuamente: A família é a principal cuidadora. Repita a psicoeducação: explique a natureza do sintoma, treine as técnicas de comunicação e ofereça suporte emocional, pois lidar com confabulações é desgastante e contra intuitivo.
- Documentar com Precisão: No prontuário, descreva o fenômeno objetivamente: "Paciente, quando questionado sobre atividades da manhã, relatou espontaneamente e com riqueza de detalhes que foi ao supermercado e encontrou um antigo vizinho, fato que não condiz com a realidade observada (permaneceu na enfermaria). Não demonstrou hesitação ou sinal de embaraço durante o relato."
Impacto Funcional:
- Relacionamentos: Pode causar desgaste familiar e social. Os familiares podem se sentir enganados, frustrados ou magoados até compreenderem a natureza do sintoma. Amigos podem se afastar por não entenderem o comportamento.
- Segurança e Autonomia: Confabulações sobre ter comido, tomado medicação ou realizado tarefas perigosas (ex.: cozinhar) podem levar a situações de risco real (desnutrição, intoxicação, incêndio). A supervisão torna-se essencial.
- Qualidade de Vida: A perda da confiabilidade da própria memória (embora não percebida) e as reações negativas do ambiente podem contribuir para isolamento, depressão e perda da autoestima.
- Contexto Forense: Relatos confabulatórios podem ser extremamente problemáticos em depoimentos policiais ou judiciais. É crucial que profissionais do direito sejam alertados sobre essa possibilidade em pacientes com condições neurológicas conhecidas.
Perguntas frequentes
1. Para Profissionais: Como diferenciar confabulação de mentira consciente em um paciente com histórico de etilismo?
A diferença central está na intencionalidade e no contexto cognitivo. Na mentira, há um ganho secundário claro (evitar consequências, obter vantagem) e o paciente pode mudar sua história sob pressão ou quando confrontado com evidências. Na confabulação, não há ganho, o relato é espontâneo em resposta a perguntas sobre memória, e o paciente mantém a narrativa com convicção, mesmo diante de provas contrárias, pois não tem insight. A presença de um déficit amnésico grave (testado formalmente) e de outros sinais neurológicos ou de síndrome de Korsakoff apoia o diagnóstico de confabulação.
2. Para Profissionais: As confabulações podem ocorrer em pessoas sem demência ou alcoolismo?
Sim, embora sejam menos frequentes. Podem ocorrer em qualquer condição que lesione os circuitos cerebrais mencionados: após traumatismo cranioencefálico grave, em tumores cerebrais (especialmente diencefálicos ou frontobasais), como sequela de encefalites ou isquemias/anóxia cerebral, e durante episódios de delirium de qualquer causa (infecção urinária em idoso, pós-operatório).
3. Para Familiares: Por que meu familiar inventa essas histórias? Ele está me enganando?
Não, ele não está enganando você. Seu familiar não está "inventando" de propósito. O cérebro dele, devido à doença, tem uma grande dificuldade em formar novas memórias. Quando você faz uma pergunta sobre algo recente, ele sente a pressão para responder (como qualquer um de nós) e, na tentativa de preencher esse vazio, seu cérebro recupera automaticamente uma memória antiga ou uma ideia plausível e a apresenta como se fosse do presente. Ele acredita genuinamente no que está dizendo. Confrontá-lo só causa sofrimento.
4. Para Familiares: Como devo responder quando ele conta algo que sei que não é verdade?
Não discuta os fatos. Tente captar o sentimento ou a necessidade por trás do relato. Se ele diz que foi ao clube, ele pode estar expressando saudade de socializar. Você pode responder: "O clube é um lugar agradável, não é? O senhor gostava de jogar cartas com os amigos." Ou então, redirecione suavemente para uma atividade no presente: "Que bom. Agora que tal tomarmos um café juntos?" A correção é inútil e dolorosa.
5. Para Pacientes (se houver algum insight): Por que as pessoas dizem que minhas lembranças estão erradas?
Às vezes, após uma doença que afeta o cérebro, a memória para coisas recentes pode ficar com algumas falhas, como um rádio com o sinal fraco. Você pode se lembrar de coisas do passado antigo muito bem, mas confundir quando coisas mais recentes aconteceram. Quando alguém pergunta sobre o seu dia, seu cérebro pode trazer uma lembrança de outro momento como se fosse de hoje. Por isso, às vezes, seus relatos podem não bater com o que realmente aconteceu agora. Não é sua culpa. Podemos usar uma agenda para anotar as coisas do dia a dia e ajudar nessa confusão.
6. Para Profissionais: Existe alguma escala ou exame de imagem para confirmar confabulações?
Não há um exame de imagem ou escala única que "confirme" confabulações. O diagnóstico é clínico, baseado na observação do fenômeno durante a entrevista. A ressonância magnética ou tomografia pode mostrar lesões sugestivas nas áreas associadas (corpos mamilares, tálamo, lobos frontais), corroborando a suspeita. Testes neuropsicológicos quantificam o déficit de memória e das funções executivas que formam o substrato para as confabulações. Protocolos de entrevista semiestruturada que incluem perguntas sobre eventos fictícios são usados em pesquisa para eliciar e classificar o fenômeno.
7. As confabulações têm cura?
A "cura" das confabulações depende da possibilidade de tratar ou reverter a causa neurológica subjacente. Em um delirium tratável, elas podem desaparecer completamente. Na deficiência de tiamina tratada precocemente, pode haver melhora. Em doenças degenerativas como o Alzheimer, não há cura, e as confabulações tendem a persistir ou evoluir junto com a doença. O foco, nesses casos, é no manejo, na adaptação do ambiente e no suporte para melhorar a qualidade de vida, não na eliminação do sintoma.
8. Confabulação é o mesmo que ter "flashbacks" ou memórias traumáticas falsas?
Não. Flashbacks são revivescências intrusivas e vívidas de memórias traumáticas reais, com forte componente sensorial e emocional, típicos do Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Memórias traumáticas falsas são um fenômeno complexo onde uma pessoa passa a acreditar, de forma convincente, ter vivenciado um trauma que não ocorreu, frequentemente induzido por sugestão terapêutica inadequada. As confabulações de embaraço são não traumáticas, plausíveis, cotidianas e surgem espontaneamente no contexto de um déficit orgânico de memória, sem necessidade de sugestão externa elaborada.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
- Dalla Barba, G.; La Corte, E. The Neuropsychological Approach to Confabulation. In: Binder, M.D.; Hirokawa, N.; Windhorst, U. (Eds.). Encyclopedia of Neuroscience. Berlin: Springer, 2015.
- Kopelman, M.D. Disorders of Memory. Brain. 2002;125(Pt 10):2152-2190.
- Attix, D.K.; Welsh-Bohmer, K.A. Geriatric Neuropsychology: Assessment and Intervention. New York: The Guilford Press, 2006.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.