Cognição Social na Esquizofrenia

Definição e conceito

Cognição social refere-se ao conjunto de habilidades neurocognitivas que constituem a base para a interação social eficaz e adaptativa. É o processamento de informações emocionais e, sobretudo, socioemocionais, essencial para a vida em sociedade. Envolve a capacidade de perceber, interpretar e responder adequadamente a sinais sociais, estados mentais e intenções de outras pessoas. Na esquizofrenia, os prejuízos na cognição social são considerados um déficit cognitivo central, frequentemente persistente e com impacto profundo no funcionamento global do indivíduo.

Conceitualmente, a cognição social distingue-se de outros domínios cognitivos (como memória de trabalho ou velocidade de processamento) por seu foco específico no processamento de estímulos e contextos sociais. É um construto multidimensional que engloba:

  1. Teoria da Mente (ToM) ou Mentalização: Sistema de inferências que permite compreender estados mentais alheios (crenças, desejos, intenções, conhecimentos) e diferenciá-los dos próprios. É a capacidade de atribuir um estado mental autônomo aos outros.
  2. Percepção e Processamento de Emoções: Habilidade de identificar, reconhecer e discriminar emoções a partir de pistas faciais, tom de voz (prosódia), gestos e postura corporal.
  3. Percepção Social: Capacidade de decodificar e interpretar adequadamente elementos e dicas do contexto social, incluindo a compreensão de regras sociais implícitas e explícitas, normas culturais e os objetivos de uma interação.
  4. Estilo ou Viés de Atribuição: Modo característico como o indivíduo infere as causas dos acontecimentos, atribuindo-os a si mesmo, a outras pessoas ou a fatores ambientais. Na esquizofrenia, é comum um viés de atribuição hostil ou personalizante.

Na semiologia psiquiátrica, as alterações da cognição social são classificadas entre os déficits cognitivos da esquizofrenia. Elas não são consideradas sintomas nucleares da psicose (como delírios ou alucinações), mas sim uma dimensão fundamental do transtorno, com forte correlação com o prejuízo funcional. O DSM-5 e a CID-11 reconhecem os déficits cognitivos (incluindo os sociais) como um dos critérios para avaliar a gravidade da esquizofrenia.

Epidemiologicamente, os déficits em cognição social são extremamente frequentes na esquizofrenia, acometendo a maioria dos indivíduos. Estudos indicam que tais alterações são, muitas vezes, traços presentes mesmo antes do primeiro episódio psicótico (período prodrômico) e tendem a persistir ao longo do curso da doença, mesmo durante fases de remissão dos sintomas positivos. Sua presença é um forte preditor de pior evolução funcional, com impacto direto na capacidade de manter relacionamentos, emprego e vida independente.

Apresentação clínica

A apresentação clínica dos déficits de cognição social na esquizofrenia é heterogênea, mas segue padrões reconhecíveis que permeiam as interações diárias do paciente. A avaliação clínica deve observar esses prejuízos nos domínios cognitivo, afetivo e comportamental.

Domínio Cognitivo

  • Teoria da Mente Prejudicada: O paciente apresenta dificuldade em compreender que os outros possuem pensamentos, crenças e intenções diferentes das suas. Pode não conseguir inferir estados mentais complexos, como sarcasmo, ironia, mentira piedosa ou dupla intenção. Frequentemente, interpreta declarações literais de forma literal, perdendo nuances sociais.

    • Exemplo clínico: Um paciente não compreende por que um colega de trabalho diz "estou cheio hoje" para recusar um convite para o almoço, interpretando a frase apenas no sentido físico ("ele comeu demais") e não como uma expressão social de falta de disponibilidade. Em situações mais graves, pode não perceber que uma pessoa está mentindo para protegê-lo de uma notícia ruim.
  • Viés de Atribuição Hostil ("Salto para Conclusões" – Jump to Conclusions): Tendência a fazer inferências rápidas e negativas sobre as intenções dos outros com base em poucas evidências, frequentemente atribuindo causas hostis a eventos ambíguos ou neutros. Este viés está fortemente associado à formação e manutenção de sintomas paranoides.

    • Exemplo clínico: Ao ver dois colegas conversando e rirem em sua direção, o paciente conclui imediatamente e com certeza que estão rindo dele e conspirando contra ele, sem considerar outras explicações plausíveis (como uma piada sem relação com ele).
  • Déficit na Percepção Social: Dificuldade em "ler" o contexto social. O paciente pode não identificar adequadamente a natureza de uma relação (formal/informal), o nível de intimidade permitido, ou as regras não escritas de uma situação.

    • Exemplo clínico: Em uma consulta médica, o paciente começa a fazer perguntas extremamente pessoais ao médico ou conta detalhes íntimos de sua vida sem perceber a inadequação do conteúdo para aquele contexto profissional.

Domínio Afetivo

  • Reconhecimento de Emoções Comprometido: Especificamente, há maior dificuldade em identificar emoções negativas, como raiva, medo e nojo, e também emoções positivas. O reconhecimento de expressões faciais neutras é frequentemente enviesado, sendo interpretadas como hostis ou ameaçadoras.

    • Exemplo clínico: O paciente não percebe que seu familiar está com expressão facial de tristeza ou preocupação, ou interpreta uma expressão neutra do terapeuta como sendo de desaprovação ou desdém.
  • Processamento de Emoções e Empatia: Há prejuízo tanto na empatia cognitiva (compreender o que o outro sente) quanto, em alguns casos, na empatia afetiva (sentir o que o outro sente). A resposta emocional pode ser inadequada ou aparentemente fria.

    • Exemplo clínico: Ao receber uma notícia triste de um amigo, o paciente pode responder com um comentário factual e desconexo ("ah, é mesmo"), sem demonstrar calor emocional ou tentativa de conforto, dando a impressão de indiferença.

Domínio Comportamental

  • Falta de "Tato" Social: O paciente perde a habilidade de navegar em situações sociais minimamente complexas. Suas respostas podem ser socialmente desajustadas, muito literais, ou desproporcionais ao contexto.

    • Exemplo clínico: Em uma discussão de grupo, o paciente interrompe repetidamente os outros para fazer comentários irrelevantes ao tópico, demonstrando incapacidade de seguir o fluxo da conversa e as regras de turno de fala.
  • Isolamento Social: Frequentemente, os déficits em cognição social levam a experiências sociais frustrantes, mal-entendidos e rejeição. Como consequência, o paciente pode desenvolver uma preferência por isolamento, evitando interações que se tornam fonte de ansiedade e confusão.

  • Comportamento Socialmente Inábil: Dificuldade em iniciar ou manter conversas, em perceber quando é hora de terminar uma interação, ou em se comportar de acordo com normas sociais básicas (ex.: manter distância pessoal adequada).

Neurobiologia e fisiopatologia

Os déficits em cognição social na esquizofrenia estão associados a disfunções em uma rede cerebral específica, frequentemente denominada "cérebro social". Esta rede envolve regiões corticais e subcorticais que processam informações sociais e emocionais.

  • Circuitos Envolvidos: As estruturas centrais incluem:

    • Córtex Pré-Frontal Medial (CPFm) e Cíngulo Anterior: Cruciais para a teoria da mente, a autorreflexão e o processamento de informações auto-referentes.
    • Junção Têmporo-Parietal (JTP): Desempenha papel fundamental na tomada de perspectiva e na distinção entre o self e o outro.
    • Amygdala: Nucleus central para o processamento rápido de estímulos emocionais, especialmente ameaçadores. Sua disfunção está ligada ao viés de interpretação de faces neutras como hostis.
    • Córtex Temporal Superior (CTS): Envolvido na percepção de pistas sociais complexas, como direção do olhar, expressões faciais e movimentos biológicos.
    • Ínsula: Relacionada à consciência interoceptiva e ao processamento de emoções como nojo e empatia.
      Estudos de neuroimagem funcional (fMRI) frequentemente mostram hipoativação ou padrões ativacionais atípicos nessas regiões durante tarefas de cognição social em pacientes com esquizofrenia.
  • Neurotransmissores: Embora o modelo dopaminérgico seja central para os sintomas positivos da esquizofrenia, outros sistemas estão implicados nos déficits cognitivos e sociais:

    • Glutamato: Disfunções no sistema glutamatérgico (especialmente via receptores NMDA) são fortemente associadas a déficits cognitivos, incluindo os sociais. A hipofunção glutamatérgica pode prejudicar o processamento integrado de informações necessárias para a cognição social.
    • Acetilcolina e Serotonina: Também modulam redes corticais envolvidas na atenção social, no processamento emocional e no controle executivo, e suas alterações podem contribuir para o quadro.
  • Modelos Explicativos: Um modelo integrativo propõe que os déficits em cognição social resultam de uma desconexão ou falta de integração entre as regiões do "cérebro social". A informação social é captada (ex.: pela amígdala e CTS), mas seu processamento integrado e sua interpretação contextual (pelas regiões frontais e JTP) são deficientes. Isso leva a interpretações enviesadas, fragmentadas ou literais dos sinais sociais. O "salto para conclusões" pode ser entendido como uma falha nos mecanismos frontais de verificação de hipóteses e integração de evidências, levando a inferências precipitadas e rígidas.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

Achados ao Exame do Estado Mental

A avaliação dos déficits de cognição social deve ser parte integrante do exame do estado mental, principalmente na avaliação das funções cognitivas e do juízo/insight.

  • Aparência e Comportamento: Pode-se observar falta de contato visual, postura fechada, expressão facial pouco reativa ou inadequada ao contexto.
  • Pensamento: Avaliar a presença de vieses de atribuição. Perguntas como "Por que você acha que aquela pessoa agiu daquela forma?" podem revelar inferências hostis ou personalizantes. A avaliação do discurso pode mostrar dificuldade em seguir o tema social da conversa.
  • Humor e Afeto: Afeto embotado ou incongruente. Testar o reconhecimento de emoções pode ser feito informalmente perguntando sobre emoções em fotografias ou descrevendo situações sociais hipotéticas ("Como você acha que a pessoa se sentiria se…?").
  • Cognição: Avaliar especificamente a teoria da mente através de histórias sociais ou testes de reconhecimento de ironia/sarcasmo. Testar a percepção social com cenários que envolvam regras sociais implícitas.

Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas

Embora a avaliação de ouro padrão seja neuropsicológica, alguns instrumentos podem ser úteis na prática clínica:

  • MSCEIT (Mayer-Salovey-Caruso Emotional Intelligence Test): Avalia habilidades de percepção, facilitação, compreensão e regulação emocional.
  • TASIT (The Awareness of Social Inference Test): Avalia a capacidade de compreender intenções, crenças e emoções em interações sociais vídeo-gravadas, incluindo ironia e sarcasmo.
  • Hinting Task: Mede a capacidade de inferir intenções reais por trás de indiretas.
  • Facial Emotion Recognition Tests: Testes computadorizados ou com cartões que avaliam a acurácia e velocidade no reconhecimento de expressões faciais básicas.
  • Avaliação Neuropsicológica Abrangente: Fundamental para contextualizar os déficits sociais dentro de um perfil cognitivo mais amplo (memória, atenção, funções executivas).

Diagnóstico Diferencial Estruturado

Os déficits em cognição social não são patognomônicos da esquizofrenia. É crucial diferenciá-los de outras condições:

Condição Características da Cognição Social Diferenciação Chave
Transtorno do Espectro Autista (TEA) Déficits profundos e precoces em ToM e percepção social, com padrões restritos/repetitivos. Dificuldade com comunicação não-verbal. No TEA, os déficits estão presentes desde a primeira infância e não ocorrem em meio a um declínio funcional após um período de desenvolvimento normal. Ausência de sintomas psicóticos típicos (delírios, alucinações organizadas).
Transtornos de Personalidade (ex.: Esquizotípico, Paranóide) Padrões duradouros de desconfiança, interpretação hostil de ações alheias e comportamento socialmente excêntrico. Cognição social pode estar prejudicada, mas geralmente de forma mais sutil e egossintônica. Ausência de episódios psicóticos francos e persistentes. Os traços são pervasivos e estáveis ao longo do tempo, não ocorrendo em fases agudas com marcada desorganização.
Transtorno Neurocognitivo Maior (Demências) Déficits em cognição social podem ocorrer, especialmente na demência frontotemporal e em fases avançadas da doença de Alzheimer. Presença de declínio cognitivo global progressivo, com déficits marcantes em memória, linguagem ou funções executivas que precedem ou são desproporcionais aos déficits sociais. História de início na meia-idade ou velhice.
Depressão Maior com Sintomas Psicóticos Pode haver retraimento social e interpretação negativa de estímulos sociais, mas geralmente secundários ao humor depressivo e à anedonia. O prejuízo social é mais ligado à falta de energia e interesse (anedonia) do que a uma falha primária na decodificação de sinais sociais. Os sintomas psicóticos são congruentes com o humor (ex.: delírios de culpa).
Sequela de Lesão Cerebral Traumática Déficits sociais podem surgir após lesões frontotemporais, manifestando-se como desinibição, falta de tato e empatia. História clara de trauma cranioencefálico precedendo o início dos sintomas. O perfil neuropsicológico é compatível com a localização da lesão.

Armadilhas Diagnósticas Comuns

  1. Atribuir o Isolamento Social Apenas à Anedonia ou à Paranóia: É fundamental investigar se o isolamento é por falta de desejo (anedonia), por medo (paranóia) ou por dificuldade e frustração decorrentes de uma incapacidade de processar interações sociais (déficit primário em cognição social). A intervenção será diferente em cada caso.
  2. Confundir Embotamento Afetivo com Déficit em Reconhecimento de Emoções: Um paciente pode ter uma expressão afetiva embotada (sinal negativo) mas preservar a capacidade de reconhecer emoções nos outros. Outro pode ter expressão preservada mas ser incapaz de decodificar as emoções alheias. São domínios distintos.
  3. Negligenciar a Avaliação da Cognição Social em Fases de Remissão Sintomática: Os déficits sociais frequentemente persistem quando os sintomas positivos estão controlados, sendo uma das principais barreiras à reabilitação psicossocial. Sua avaliação é crucial para o planejamento terapêutico a longo prazo.
  4. Interpretar Déficits Sociais como "Falta de Vontade" ou "Má Educação": Profissionais e familiares podem atribuir erroneamente os comportamentos socialmente desajustados a traços de personalidade ou má vontade do paciente, não reconhecendo-os como parte da neurobiologia da doença.

Condições associadas

Os déficits em cognição social são uma característica central da esquizofrenia, mas também são observados, com perfis distintos, em outros transtornos:

  • Transtorno Esquizotípico da Personalidade (DSM-5-TR / CID-11): Compartilha com a esquizofrenia uma base de vulnerabilidade, manifestando-se por déficits sociais mais sutis, como desconforto em relações próximas, comportamento ou pensamento excêntrico, e crenças incomuns. A cognição social pode estar levemente prejudicada, contribuindo para o isolamento social.
  • Transtorno Esquizoafetivo (DSM-5-TR / CID-11): Como o transtorno compartilha características psicóticas com a esquizofrenia, os déficits em cognição social também estão frequentemente presentes, podendo ser tão graves quanto. O curso e o prognóstico são influenciados por esses déficits.
  • Transtorno Delirante Persistente (DSM-5-TR / CID-11): Em subtipos como o persecutório, podem estar presentes vieses de atribuição hostil semelhantes aos observados na esquizofrenia paranoide. No entanto, os déficits em outros domínios da cognição social (ToM, reconhecimento de emoções) podem ser menos proeminentes fora do tema delirante.
  • Outros Transtornos Psicóticos Breves ou Induzidos por Substâncias: Durante a fase ativa, déficits transitórios em cognição social podem ocorrer, mas tendem a remitir com a resolução do episódio psicótico.
  • Transtornos do Neurodesenvolvimento: Como mencionado, o Transtorno do Espectro Autista é a condição paradigmática de déficit primário em cognição social, mas seu início precoce e a ausência de psicose o diferenciam.

Implicações terapêuticas

Os déficits em cognição social são um alvo terapêutico desafiador, pois respondem de forma limitada aos tratamentos convencionais para a esquizofrenia. Sua abordagem requer estratégias integradas e específicas.

Abordagens Farmacológicas

A resposta farmacológica é modesta. Antipsicóticos de segunda geração (atípicos) podem ter algum efeito positivo marginal sobre alguns aspectos da cognição (incluindo a social) em comparação com os típicos, mas o benefício clínico direto é pequeno. Nenhum fármaco é aprovado especificamente para o tratamento dos déficits de cognição social na esquizofrenia. Pesquisas investigam o potencial de agentes pró-cognitivos que atuam em sistemas glutamatérgicos, colinérgicos ou nicotínicos, mas sem resultados clinicamente robustos estabelecidos até o momento.

Abordagens Psicoterapêuticas e de Reabilitação

São a base do manejo desses déficits, com foco no treinamento de habilidades e compensação das dificuldades:

  • Treinamento de Habilidades Sociais (THS): Intervenção estruturada e baseada em evidências. Envolve modelagem, role-playing, feedback e prática de componentes específicos de interações sociais (ex.: iniciar conversas, fazer pedidos, expressar sentimentos positivos/negativos). Foca no comportamento social observável.
  • Treinamento Cognitivo para Cognição Social (TCS): Utiliza exercícios computadorizados ou estruturados para melhorar diretamente os componentes neurocognitivos da cognição social. Exemplos incluem programas para treinar o reconhecimento de emoções faciais e vocais, ou para praticar a inferência de estados mentais em histórias ou vídeos.
  • Terapia Cognitivo-Comportamental para Psicose (TCC-p): Pode abordar os vieses de atribuição, como o "salto para conclusões". A TCC-p ajuda o paciente a identificar pensamentos automáticos distorcidos sobre as intenções alheias, testar evidências alternativas e desenvolver interpretações mais realistas e menos hostis.
  • Intervenções de Integração Social e Reabilitação Psicossocial: No contexto dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e serviços de saúde mental do SUS, grupos terapêuticos, oficinas de convivência e treinamento de habilidades para a vida diária são fundamentais. Esses espaços oferecem um ambiente protegido para praticar interações sociais com o suporte de uma equipe multiprofissional.

Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento

Os déficits em cognição social são fortes preditores de pior evolução funcional. Pacientes com prejuízos significativos nesta área têm:

  • Maior dificuldade em aderir ao tratamento (dificuldade em estabelecer aliança terapêutica, em compreender a necessidade de medicação).
  • Maior isolamento social e suporte social precário.
  • Maior dificuldade em obter e manter emprego competitivo.
  • Pior qualidade de vida global.
    O controle dos sintomas positivos com antipsicóticos, embora necessário, é insuficiente para melhorar o funcionamento social se os déficits cognitivos e sociais não forem abordados diretamente. O prognóstico funcional está intimamente ligado à implementação precoce e consistente de estratégias de reabilitação psicossocial focadas nessas áreas.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivenciando os Déficits

Do ponto de vista do paciente, os déficits em cognição social são frequentemente vivenciados como uma fonte de confusão, frustração e mal-entendidos crônicos. Eles podem não ter consciência (insight) plena de suas dificuldades, atribuindo os problemas sociais à hostilidade dos outros ou ao "mundo ser complicado". Alguns relatos comuns são:

  • "Eu nunca sei se a pessoa está brincando ou falando sério."
  • "As pessoas ficam bravas comigo e eu não entendo o porquê."
  • "Prefiro ficar sozinho porque me sinto perdido em grupo, não sei o que falar nem como agir."
  • "Todo mundo parece estar contra mim, me olhando de forma estranha." (refletindo o viés de atribuição hostil).
    A experiência é de uma desconexão persistente com o tecido social, uma sensação de estar "fora de sintonia" com os outros.

Comunicação Clínica com Paciente e Família

  • Para o Paciente: A abordagem deve ser psicoeducacional, não acusatória. Em vez de apontar "falhas", o clínico pode normalizar as dificuldades: "Muitas pessoas com essa condição percebem que é um desafio entender as intenções das outras pessoas ou captar as emoções no rosto delas. Isso é devido à forma como o cérebro processa essas informações sociais. Podemos trabalhar juntos em estratégias para facilitar isso." Oferecer exemplos concretos e focar em soluções práticas.
  • Para a Família: A psicoeducação é crucial. Explicar que a "frieza", a "desconfiança" ou a "inadequação social" não são escolhas ou traços de personalidade, mas sim sintomas da doença, tão reais quanto as alucinações. Isso reduz a culpa e a frustração familiar. Orientar os familiares a:
    • Serem diretos e claros na comunicação, evitando ironias, sarcasmos ou indiretas.
    • Explicitar suas próprias emoções: "Estou com uma expressão séria porque estou preocupado, não bravo com você."
    • Oferecer feedback construtivo e específico em situações sociais, sem julgamentos morais.
    • Estimular a participação em grupos de THS ou oficinas no CAPS.

Impacto Funcional

O impacto na vida prática é devastador:

  • Relacionamentos: Dificuldade em formar e manter amizades e relacionamentos amorosos. Conflitos familiares frequentes por mal-entendidos.
  • Trabalho/Estudo: Dificuldade em trabalhar em equipe, seguir instruções sociais implícitas, lidar com feedback, compreender hierarquias e normas do ambiente laboral. Altos índices de desemprego.
  • Qualidade de Vida: Sentimentos crônicos de solidão, inutilidade e baixa autoestima. Dependência de suporte familiar ou institucional para atividades sociais básicas. O isolamento resultante é um fator de risco importante para depressão e piora do quadro global.

Perguntas frequentes

1. Os déficits em cognição social são "curaveis" com a medicação antipsicótica?
Não de forma significativa. Os antipsicóticos são eficazes principalmente para os sintomas positivos (delírios, alucinações) e, em menor grau, para alguns sintomas negativos. Os déficits em cognição social, como parte da dimensão cognitiva da esquizofrenia, respondem muito pouco aos medicamentos disponíveis atualmente. O tratamento de escolha são intervenções psicossociais específicas, como o Treinamento de Habilidades Sociais.

2. Essas dificuldades sociais significam que a pessoa com esquizofrenia não tem sentimentos ou é egoísta?
Absolutamente não. A pessoa com esquizofrenia experimenta emoções de forma intensa. O déficit está na capacidade de processar e interpretar os sinais sociais e emocionais dos outros, e muitas vezes em expressar suas próprias emoções de forma reconhecível. É um problema de "tradução" e "decodificação", não de ausência de conteúdo emocional.

3. O Treinamento de Habilidades Sociais pode fazer a pessoa parecer "mecânica" ou "robótica"?
Inicialmente, a aprendizagem de habilidades sociais pode parecer um pouco artificial, pois o paciente está aprendendo passos explícitos para comportamentos que, para a maioria, são automáticos. No entanto, com a prática e a generalização para diferentes contextos, as habilidades se tornam mais naturais e integradas. O objetivo final é aumentar o repertório comportamental e a confiança para interagir, não criar uma fachada.

4. Como diferenciar a desconfiança da esquizofrenia (paranóia) da dificuldade em cognição social?
Ambas podem coexistir e se alimentar mutuamente. A desconfiança paranoide é um conteúdo de pensamento ("eles querem me prejudicar"). O déficit em cognição social é um processo deficitário que pode facilitar a paranoia: se a pessoa interpreta uma expressão neutra como hostil (déficit de reconhecimento) e salta para a conclusão de que isso é pessoal (viés de atribuição), ela constrói uma crença delirante. A avaliação cuidadosa pode separar a interpretação errônea inicial (déficit) da crença fixa e elaborada (delírio).

5. Esses déficits estão presentes desde o início da doença?
Frequentemente sim. Muitas vezes, alterações sutis na cognição social fazem parte da fase prodrômica, precedendo o primeiro surto psicótico. Podem manifestar-se como aumento do isolamento, perda de amigos, dificuldades escolares ou laborais por problemas de interação. Sua identificação precoce pode ser um sinal de alerta importante.

6. Pacientes com esquizofrenia podem aprender a reconhecer ironia ou sarcasmo?
Pode ser muito difícil, mas não impossível. O treinamento específico pode ajudar. Ele envolve ensinar o paciente a procurar pistas contextuais (ex.: a pessoa está sorrindo? O contexto é de brincadeira?), tom de voz exagerado, e a questionar interpretações literais. No entanto, para muitos, o processamento rápido e intuitivo necessário para captar ironia em tempo real permanece comprometido.

7. O que a família pode fazer para ajudar?
A principal atitude é substituir a crítica pelo entendimento. Comunique-se de forma clara, literal e previsível. Dê feedbacks específicos e não-ameaçadores ("Quando você interrompeu, o João ficou chateado") em vez de julgamentos ("Você é mal-educado"). Ajude o paciente a praticar habilidades sociais em situações de baixa pressão. E, acima de tudo, incentive e facilite a participação dele em terapias de reabilitação psicossocial, como as oferecidas nos CAPS.

8. Existe relação entre os déficits em cognição social e a violência na esquizofrenia?
A esmagadora maioria das pessoas com esquizofrenia não é violenta. No entanto, quando a violência ocorre, muitas vezes está associada a interpretações delirantes e vieses de atribuição hostil. O déficit em cognição social (especialmente a tendência a interpretar erroneamente intenções como ameaçadoras) pode ser um fator de risco quando combinado com outros fatores, como abuso de substâncias, histórico de violência e ausência de tratamento. O tratamento adequado, que inclui o manejo desses déficits, é a melhor forma de reduzir qualquer risco.

Referências

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  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
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  • Barch, D. M., & Ceaser, A. E. (2012). Cognition in schizophrenia: core psychological and neural mechanisms. Trends in Cognitive Sciences, 16(1), 27–34.
  • Green, M. F., Horan, W. P., & Lee, J. (2015). Social cognition in schizophrenia. Nature Reviews Neuroscience, 16(10), 620–631.
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  • Kantrowitz, J. T., & Javitt, D. C. (2010). N-methyl-d-aspartate (NMDA) receptor dysfunction or dysregulation: The final common pathway on the road to schizophrenia? Brain Research Bulletin, 83(3-4), 108–121.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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