O que é e para que serve?
A clorpromazina é um antipsicótico — um remédio que ajuda o cérebro a funcionar de forma mais equilibrada quando ele está produzindo pensamentos, percepções ou comportamentos muito fora do comum. Ela pertence a uma família de medicamentos chamada de antipsicóticos de primeira geração (ou “típicos”), que foram os primeiros desse tipo a existir, criados ainda na década de 1950. No Brasil, é encontrada principalmente com o nome comercial Amplictil®, além de versões genéricas com o próprio nome clorpromazina.
O uso mais comum é no tratamento da esquizofrenia e de outros transtornos psicóticos — situações em que a pessoa pode ouvir vozes, ter crenças muito distorcidas da realidade (delírios) ou comportamentos muito agitados. Mas a clorpromazina também é usada em outras situações: para controlar náuseas e vômitos intensos, para acalmar uma pessoa muito agitada antes de uma cirurgia, para tratar episódios de mania (aquela fase de euforia extrema do transtorno bipolar), e até para casos raros como soluço incontrolável que não passa com nada.
É um medicamento com décadas de uso, bem estudado, e que faz parte da lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde — o que significa que é considerado fundamental para a saúde pública global.
Como ele age no seu cérebro?
Pense no seu cérebro como uma cidade enorme, onde os neurônios são os moradores que se comunicam o tempo todo mandando mensagens uns para os outros. Essas mensagens são carregadas por substâncias químicas chamadas neurotransmissores — e um dos principais é a dopamina.
Em algumas condições, como na esquizofrenia, é como se a cidade estivesse com o sistema de mensagens em overdrive: dopamina demais chegando nos lugares errados, na hora errada, causando um “barulho” enorme no cérebro — e é esse barulho que pode gerar alucinações, delírios e agitação intensa.
A clorpromazina age como um porteiro nas “portinhas” (receptores) que recebem a dopamina. Ela se encaixa nessas portinhas e impede que a dopamina entre em excesso. Com menos dopamina passando por essas portas, o barulho diminui, e o cérebro consegue funcionar de forma mais organizada.
Só que o remédio não age apenas na dopamina — ele também mexe com outros sistemas, como a histamina (o que causa sonolência), a acetilcolina (o que pode causar boca seca e constipação) e a adrenalina (o que pode baixar a pressão). Esses efeitos em outros sistemas são justamente a origem de boa parte dos efeitos colaterais que vamos explicar mais adiante.
Quando começa a fazer efeito?
Depende muito do que está sendo tratado. Para agitação intensa, o efeito calmante pode aparecer em horas — especialmente quando o remédio é dado por injeção. Para náuseas, também costuma agir rápido.
Já para os sintomas psicóticos mais complexos — como delírios e alucinações — é como plantar uma árvore: você não vê ela crescer de um dia para o outro, mas o processo está acontecando. A melhora costuma aparecer de forma gradual, ao longo de dias a semanas. Nas primeiras semanas, o que muitas pessoas notam primeiro é uma redução da agitação e da ansiedade — uma sensação de que o “volume interno” foi baixado. Os pensamentos e percepções distorcidas levam um pouco mais de tempo para melhorar.
Não desanime se nos primeiros dias você sentir mais sono do que melhora dos sintomas principais. Isso é esperado e faz parte do processo de adaptação do organismo.
Como tomar corretamente
A dose é sempre definida pelo seu médico e varia bastante de pessoa para pessoa — pode ir de doses menores (como 25 mg por dia) até doses maiores (800 mg por dia ou mais), dependendo da situação. Não ajuste a dose por conta própria.
Algumas orientações práticas:
- Com ou sem comida? Pode ser tomado com ou sem alimentos, mas tomar com comida pode ajudar a reduzir a chance de enjoo.
- Horário: Como causa bastante sonolência, muitos médicos preferem concentrar a dose maior à noite, para que você durma bem e acorde menos grogue. Siga a orientação do seu médico sobre isso.
- Esqueceu uma dose? Se lembrar logo, tome assim que puder. Se já estiver perto da hora da próxima dose, pule a que esqueceu e continue normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.
- Não pare de tomar de repente. Isso é muito importante. Parar abruptamente pode fazer os sintomas voltarem com força (o que chamamos de “psicose de rebote”) e pode causar outros desconfortos. Se quiser parar ou mudar o remédio, converse com seu médico — a redução precisa ser feita aos poucos, geralmente ao longo de semanas.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Sonolência e cansaço: A clorpromazina bloqueia receptores de histamina no cérebro — os mesmos que os antialérgicos bloqueiam para te dar sono. Por isso, a sonolência é um dos efeitos mais frequentes, especialmente no início. Tende a melhorar com o tempo. Dar a dose maior à noite ajuda bastante.
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Boca seca: O remédio interfere com o sistema que controla a produção de saliva. Beba água com frequência, mastigue chicletes sem açúcar e cuide bem da higiene bucal — boca seca por tempo prolongado pode favorecer cáries.
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Constipação (intestino preso): Pelo mesmo motivo da boca seca — o sistema que controla os movimentos do intestino fica um pouco “freado”. Capriche na água, nas frutas e nas fibras.
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Tontura ao levantar rápido: A clorpromazina pode baixar a pressão arterial, especialmente quando você muda de posição de repente (deitado para em pé, por exemplo). Isso se chama hipotensão postural. Levante devagar, segure em algo se precisar. Costuma melhorar com o tempo.
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Visão um pouco embaçada: Também relacionado ao efeito no sistema que controla a musculatura dos olhos. Geralmente leve e passageiro.
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Ganho de peso: Pode acontecer com o uso prolongado. Manter uma alimentação equilibrada e praticar atividade física ajuda a controlar.
Menos comuns
- Efeitos motores (extrapiramidais): Esse é um grupo de efeitos que acontece porque o remédio bloqueia a dopamina em uma região do cérebro que controla os movimentos. Podem aparecer como:
- Rigidez muscular ou tremores (parecidos com os do Parkinson)
- Movimentos involuntários ou espasmos musculares (distonia) — como o pescoço virando involuntariamente ou os olhos “rolando” para cima
- Inquietação intensa, incapacidade de ficar parado (acatisia) — uma sensação muito desconfortável de precisar ficar se mexendo
Se isso acontecer, avise seu médico imediatamente — existem remédios que ajudam a controlar esses efeitos, e a dose pode ser ajustada.
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Aumento da prolactina: A prolactina é um hormônio. Quando a dopamina é bloqueada na hipófise (uma glândula no cérebro), a prolactina sobe. Isso pode causar, em mulheres, alterações no ciclo menstrual ou saída de leite pelo seio sem estar grávida; em homens, pode causar diminuição do desejo sexual ou disfunção erétil. Converse com seu médico se isso acontecer.
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Sensibilidade ao sol: A clorpromazina pode deixar a pele mais sensível à luz solar, aumentando o risco de queimaduras. Use protetor solar e evite exposição prolongada ao sol sem proteção.
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Alterações no fígado (icterícia): Em alguns casos, especialmente nas primeiras semanas, pode ocorrer uma reação no fígado que causa amarelamento da pele e dos olhos. É incomum, mas se acontecer, procure atendimento médico imediatamente.
Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)
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Discinesia tardia: Com o uso prolongado, em alguns casos pode surgir movimentos involuntários repetitivos — especialmente na boca, língua e rosto (como mastigar no ar, fazer caretas). Esse efeito pode ser irreversível se não for identificado cedo. Avise seu médico se notar qualquer movimento estranho que você não consegue controlar.
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Síndrome maligna dos neurolépticos: Rara, mas grave. Sinais de alerta: febre alta, rigidez muscular intensa, confusão mental e suor excessivo ao mesmo tempo. Vá a uma emergência imediatamente se isso acontecer — é uma urgência médica.
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Queda nas células de defesa (agranulocitose): Muito raro, mas o remédio pode, em alguns casos, reduzir as células de defesa do sangue. Sinal de alerta: febre súbita com dor de garganta intensa, sem causa aparente. Avise seu médico.
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Alterações no ritmo cardíaco: A clorpromazina pode afetar a condução elétrica do coração. Se sentir palpitações, coração acelerado ou desmaio, procure atendimento.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
Primeiro: não entre em pânico e não pare o remédio por conta própria. Muitos efeitos colaterais são passageiros e melhoram nas primeiras semanas. Outros podem ser manejados com ajustes de dose ou remédios complementares.
Ligue para seu médico se:
– Os efeitos colaterais estiverem atrapalhando muito sua rotina (sono excessivo, tontura frequente, movimentos estranhos)
– Você notar qualquer alteração nos movimentos do corpo que não consegue controlar
– Aparecer amarelamento na pele ou nos olhos
– Sentir febre com dor de garganta sem causa aparente
Vá a uma UPA ou emergência se:
– Tiver febre alta com rigidez muscular e confusão mental (ao mesmo tempo)
– Sentir dificuldade para respirar, desmaio ou batimento cardíaco muito irregular
– Tiver espasmos musculares intensos e involuntários (pescoço torcendo, olhos virando)
O que NÃO fazer: Não pare o remédio abruptamente porque sentiu um efeito colateral chato. Converse primeiro com seu médico — na maioria das vezes, há uma solução que não envolve abandonar o tratamento de vez.
Cuidados importantes
Álcool: Evite. A clorpromazina já causa sonolência e baixa a pressão — o álcool potencializa esses dois efeitos, podendo causar tontura intensa, queda e até depressão respiratória. Não é uma boa combinação.
Outros remédios: Avise sempre seu médico e farmacêutico sobre tudo que você toma, incluindo remédios sem receita e fitoterápicos. Alguns remédios importantes para ficar atento:
– Antidepressivos como fluoxetina, paroxetina e fluvoxamina podem aumentar o nível de clorpromazina no sangue, potencializando efeitos e colaterais
– Anticonvulsivantes como carbamazepina e fenitoína podem reduzir o efeito da clorpromazina
– Remédios para pressão alta: a clorpromazina pode potencializar o efeito deles, baixando demais a pressão
– Levodopa (usada no Parkinson): a clorpromazina pode reduzir o efeito dela
Calor excessivo: Tome cuidado em dias muito quentes ou ao fazer exercício intenso. A clorpromazina pode prejudicar a capacidade do corpo de regular a temperatura, aumentando o risco de superaquecimento.
Gravidez: A clorpromazina geralmente é evitada, especialmente no primeiro trimestre. Se você está grávida ou planeja engravidar, converse com seu médico — existem alternativas mais seguras. Abandonar o tratamento sem orientação também não é seguro, então a conversa com o médico é essencial.
Amamentação: O remédio passa para o leite materno e pode afetar o bebê. Converse com seu médico antes de amamentar.
Idosos: Pessoas mais velhas são mais sensíveis aos efeitos da clorpromazina — especialmente à sonolência e à queda de pressão, o que aumenta o risco de quedas. As doses costumam ser menores e o acompanhamento mais frequente.
Direção e máquinas: Até você saber como o remédio te afeta, evite dirigir ou operar máquinas pesadas. A sonolência pode ser significativa no início.
Perguntas frequentes
Vou ficar dependente da clorpromazina?
Não. A clorpromazina não causa dependência química — você não vai sentir fissura ou precisar de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito. O que pode acontecer se você parar de repente é os sintomas da doença voltarem, o que é diferente de dependência. A retirada deve ser feita com orientação médica e de forma gradual.
Posso beber álcool enquanto tomo esse remédio?
Não é recomendado. O álcool potencializa a sonolência e a queda de pressão causadas pela clorpromazina, o que pode ser perigoso. Se for a uma ocasião especial, converse antes com seu médico.
Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Essa é uma das perguntas mais importantes — e a resposta é: não pare sem falar com seu médico. Sentir-se bem muitas vezes é sinal de que o remédio está funcionando, não de que você não precisa mais dele. Parar de repente pode fazer os sintomas voltarem com força. A decisão de reduzir ou parar o tratamento precisa ser tomada junto com quem te acompanha.
Esse remédio vai me deixar como um “zumbi”, sem sentir nada?
Essa é uma preocupação muito comum e válida. A sonolência e a sensação de “embotamento” podem acontecer, especialmente no início ou em doses altas. Se você sentir que está muito apagado ou sem emoção, converse com seu médico — a dose pode ser ajustada. O objetivo do tratamento é melhorar sua qualidade de vida, não te deixar sem vida.
Quanto tempo vou precisar tomar esse remédio?
Depende muito da condição que está sendo tratada. Para alguns casos, o uso é por tempo limitado. Para outros, como a esquizofrenia, o tratamento costuma ser de longo prazo. Seu médico vai te orientar sobre isso com base na sua situação específica.
Referências
- Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª ed. Artmed, 2010.
- Elkis, H.; Gattaz, W.F. (orgs.). Clínica Psiquiátrica, vol. 3. Manole / USP, 2ª ed.
- Bula do Amplictil® (clorpromazina) — aprovada pela ANVISA. Disponível em: bulario.anvisa.gov.br
- PubChem. Chlorpromazine — Compound Summary. National Library of Medicine. Disponível em: pubchem.ncbi.nlm.nih.gov
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.