Clomipramina

O que é e para que serve?

A clomipramina é um antidepressivo de uma família chamada “tricíclicos” — um grupo de remédios que existe desde os anos 1960 e que, apesar de ser mais antigo, continua sendo muito eficaz para condições específicas. No Brasil, ela é vendida principalmente com o nome Anafranil®, e também está disponível em versão genérica.

O uso mais importante da clomipramina hoje é no tratamento do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) — aquela condição em que pensamentos intrusivos e repetitivos (obsessões) geram uma angústia enorme, e a pessoa sente que precisa realizar rituais ou comportamentos (compulsões) para aliviar esse desconforto. Para o TOC, a clomipramina é considerada um dos remédios mais potentes que existem, e em alguns estudos ela se mostrou até mais eficaz do que os antidepressivos mais modernos para esse fim específico.

Além do TOC, ela também pode ser usada para depressão (especialmente casos mais graves ou que não responderam a outros tratamentos), ansiedade, dor crônica ou neuropática (aquela dor que vem de nervos danificados, como na diabetes) e cataplexia (uma condição ligada à narcolepsia, em que a pessoa perde o tônus muscular de repente). Às vezes o médico prescreve para outras situações não listadas aqui — isso é normal e seguro quando feito com orientação profissional.


Como ele age no seu cérebro?

Pense nos seus neurônios como vizinhos que se comunicam jogando bilhetinhos pela janela. Esses bilhetinhos são substâncias chamadas neurotransmissores — principalmente a serotonina e a noradrenalina. Depois que um bilhetinho é lançado e lido pelo vizinho do lado, ele normalmente é recolhido de volta por quem o mandou, para ser reutilizado depois.

O problema em condições como o TOC e a depressão é que esses bilhetinhos são recolhidos rápido demais — antes de fazerem efeito direito. A clomipramina age bloqueando esse recolhimento, especialmente da serotonina. É como colocar uma trava na janela: o bilhetinho fica circulando por mais tempo entre os vizinhos, e a comunicação melhora.

A clomipramina é especialmente boa em manter a serotonina circulando — mais até do que muitos antidepressivos modernos. Seu metabólito ativo (ou seja, a substância em que ela se transforma dentro do seu corpo depois de ser processada) também ajuda a manter a noradrenalina circulando. Esse duplo efeito é parte do motivo pelo qual ela é tão eficaz no TOC. Mas essa mesma ação em vários sistemas do cérebro é também o que explica os efeitos colaterais — o remédio não age só onde a gente quer.


Quando começa a fazer efeito?

Aqui vai uma verdade importante: a clomipramina não age do dia para a noite. Pense em plantar uma semente — você rega, cuida, e a planta vai crescendo aos poucos, mesmo que você não veja nada nos primeiros dias.

O efeito completo costuma aparecer entre 4 e 8 semanas de uso regular. Nas primeiras semanas, é comum sentir os efeitos colaterais antes de sentir a melhora — o que pode ser frustrante. Isso acontece porque o corpo se adapta ao remédio mais rápido do que o cérebro reorganiza seus circuitos.

Nas primeiras 1 a 2 semanas, você pode notar sonolência, boca seca ou um leve enjoo — mas ainda sem melhora clara dos sintomas principais. Entre a 2ª e a 4ª semana, algumas pessoas começam a notar uma leve redução na intensidade das obsessões ou uma melhora no humor. A melhora mais significativa costuma aparecer mesmo só após 6 a 8 semanas. Se você chegou nesse prazo sem sentir nada, converse com seu médico — pode ser necessário ajustar a dose.


Como tomar corretamente

A dose inicial costuma ser baixa — geralmente 25 mg por dia — e vai sendo aumentada gradualmente ao longo de 2 semanas até chegar a uma dose terapêutica, que fica em torno de 100 a 200 mg por dia para a maioria das pessoas. Em alguns casos, o médico pode chegar até 250 mg. Esse aumento gradual existe justamente para o seu corpo se adaptar e os efeitos colaterais serem mais toleráveis.

Horário: Como a clomipramina causa bastante sonolência, o ideal é tomar a dose principal (ou a dose única, se for assim prescrita) à noite, antes de dormir. Assim, você aproveita a sonolência para dormir melhor e acorda com ela já reduzida.

Com ou sem comida: Pode tomar com ou sem alimento — a comida não interfere na absorção do remédio. Se sentir enjoo no começo, tomar junto com uma refeição leve pode ajudar.

Esqueceu uma dose? Se lembrar no mesmo dia, tome assim que possível. Se já for quase hora da próxima dose, pule a esquecida e siga normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.

Não pare por conta própria. Esse é um ponto muito importante. Interromper a clomipramina de repente pode causar sintomas desagradáveis de descontinuação — tontura, irritabilidade, sensação de choque elétrico no corpo, náusea. Quando chegar a hora de parar, o médico vai orientar uma redução gradual.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Boca seca: A clomipramina bloqueia receptores chamados muscarínicos, que controlam a produção de saliva. Com menos saliva, a boca fica seca. Beber água com frequência, chupar balas sem açúcar ou usar spray bucal hidratante ajuda bastante. Esse efeito tende a melhorar com o tempo.

  • Sonolência e cansaço: O remédio age em receptores de histamina no cérebro (os mesmos que os antialérgicos bloqueiam), causando sono. Por isso, tomar à noite é a melhor estratégia. Com o uso prolongado, o corpo costuma desenvolver tolerância a esse efeito.

  • Constipação (intestino preso): Pelo mesmo mecanismo da boca seca (bloqueio muscarínico), o intestino fica mais lento. Aumentar a ingestão de água, fibras e fazer caminhadas leves ajuda. Se ficar muito incômodo, converse com seu médico.

  • Ganho de peso: Acontece por uma combinação de fatores — o remédio aumenta o apetite (especialmente por carboidratos) e pode deixar o metabolismo um pouco mais lento. Manter uma alimentação equilibrada desde o início do tratamento faz diferença.

  • Tremores nas mãos: Um efeito relativamente comum, especialmente em doses mais altas. Geralmente é leve e não impede atividades do dia a dia. Se atrapalhar muito, o médico pode ajustar a dose.

  • Suor excessivo: Especialmente à noite. Acontece por efeitos no sistema nervoso autônomo (a parte do sistema nervoso que controla funções automáticas do corpo). Roupas leves e ambiente fresco ajudam.

  • Enjoo e desconforto no estômago: Mais comum no início do tratamento. Tomar com alimento leve costuma resolver.

  • Dificuldade sexual: Pode incluir diminuição do desejo, dificuldade de ejaculação nos homens ou dificuldade de atingir o orgasmo. Acontece porque a serotonina em excesso pode inibir a resposta sexual. É um efeito que incomoda bastante algumas pessoas — se for o caso, converse abertamente com seu médico, pois há estratégias para lidar com isso.


Menos comuns

  • Tontura ao levantar rápido: A clomipramina pode baixar levemente a pressão arterial quando você muda de posição (isso se chama hipotensão ortostática). Levantar devagar da cama ou da cadeira resolve na maioria dos casos.

  • Visão embaçada: Também pelo bloqueio muscarínico, que afeta o músculo que controla o foco dos olhos. Costuma ser passageiro.

  • Dificuldade para urinar: Pelo mesmo mecanismo, a bexiga pode ficar um pouco mais “preguiçosa”. Se sentir dificuldade real para urinar, avise o médico.

  • Alterações no ECG (eletrocardiograma): A clomipramina pode afetar a condução elétrica do coração. Por isso, em alguns pacientes — especialmente crianças, idosos ou quem já tem problema cardíaco — o médico pode pedir um ECG antes ou durante o tratamento. Não é motivo de alarme, é só precaução.


Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Convulsões: A clomipramina, em doses altas, pode baixar o limiar convulsivo (ou seja, deixar o cérebro um pouco mais “suscetível” a convulsões). O risco é baixo nas doses habituais, mas se você tiver uma convulsão, vá imediatamente a uma emergência.

  • Batimentos cardíacos irregulares (arritmia): Se sentir o coração batendo de forma estranha, muito acelerado ou com pausas, procure atendimento médico. Esse risco é maior em doses muito altas ou em pessoas com problemas cardíacos preexistentes.

  • Pensamentos de se machucar ou suicídio: Antidepressivos, especialmente nas primeiras semanas de uso, podem aumentar a agitação e, em alguns casos, pensamentos de automutilação — principalmente em crianças, adolescentes e adultos jovens até 24 anos. Se isso acontecer, procure seu médico ou vá a uma emergência imediatamente. Isso não significa que o remédio é ruim — significa que ele precisa ser reavaliado.

  • Síndrome serotoninérgica: Rara, mas grave. Acontece quando há serotonina demais no cérebro, geralmente quando a clomipramina é combinada com outros remédios que também aumentam serotonina. Os sinais são: agitação intensa, confusão mental, tremores, músculos rígidos, febre e coração acelerado. Se isso acontecer, é emergência — vá a uma UPA ou pronto-socorro.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

A maioria dos efeitos colaterais da clomipramina aparece no começo do tratamento e vai diminuindo conforme o corpo se adapta. A regra geral é: espere um pouco, mas não sofra em silêncio.

Ligue para o seu médico se:
– Os efeitos colaterais estiverem atrapalhando muito sua rotina (sono, trabalho, relacionamentos)
– Você estiver pensando em parar o remédio por causa dos efeitos
– Aparecerem sintomas novos que te preocupam

Vá a uma UPA ou emergência se:
– Tiver convulsão
– Sentir o coração batendo de forma muito irregular
– Tiver febre alta com agitação e confusão mental
– Tiver pensamentos de se machucar

O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de repente sem falar com o médico — isso pode causar sintomas de abstinência desagradáveis e piorar sua condição
– Não aumente a dose por conta própria achando que vai melhorar mais rápido — doses altas aumentam o risco de efeitos sérios
– Não tome junto com outros remédios sem avisar o médico, especialmente antidepressivos de outras classes


Cuidados importantes

Álcool: Evite. O álcool potencializa a sonolência da clomipramina e pode aumentar o risco de efeitos no coração. Além disso, o álcool piora depressão e ansiedade — o oposto do que você quer.

IMAO (inibidores da monoamina oxidase): Remédios como a tranilcipromina (Parnate®) são absolutamente incompatíveis com a clomipramina. A combinação pode causar a síndrome serotoninérgica, que é grave. É preciso esperar pelo menos 14 dias entre um e outro.

Outros antidepressivos e remédios psiquiátricos: Alguns remédios aumentam a concentração da clomipramina no sangue — como a fluoxetina, a fluvoxamina e o haloperidol. Isso pode elevar o risco de efeitos colaterais. Sempre informe ao médico todos os remédios que você toma, incluindo os de venda livre.

Metilfenidato (Ritalina®): Pode aumentar os níveis de clomipramina no sangue. Se você toma os dois, o médico precisa saber.

Problemas cardíacos: Se você já teve infarto, tem arritmia ou insuficiência cardíaca, avise o médico antes de começar. A clomipramina pode não ser a melhor opção nesses casos.

Gravidez: O uso durante a gravidez deve ser avaliado com muito cuidado pelo médico — existe risco de sintomas de adaptação no bebê após o nascimento. Mas interromper um tratamento psiquiátrico na gravidez também tem riscos. Essa decisão precisa ser tomada junto com seu médico, pesando os dois lados.

Amamentação: A clomipramina passa para o leite materno em pequenas quantidades. Estudos de acompanhamento de bebês amamentados por mães que usavam o remédio não mostraram problemas no desenvolvimento, mas a decisão deve ser feita com o médico, caso a caso.

Idosos: São mais sensíveis aos efeitos anticolinérgicos (boca seca, constipação, confusão mental) e à queda de pressão ao levantar. Doses menores e aumento mais gradual são geralmente necessários.

Crianças: Pode ser usada a partir dos 10 anos para TOC, mas requer monitoramento mais cuidadoso, incluindo ECG e, às vezes, dosagem do nível do remédio no sangue.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente da clomipramina?
Não no sentido de vício — a clomipramina não causa euforia nem fissura. Mas o corpo se adapta ao remédio, então parar de repente pode causar sintomas desconfortáveis (tontura, irritabilidade, sensações estranhas no corpo). Por isso, quando chegar a hora de parar, o médico vai orientar uma redução gradual e segura.

Posso beber álcool enquanto tomo?
O ideal é evitar. O álcool aumenta a sonolência do remédio, pode afetar o coração e, no fundo, trabalha contra o tratamento — ele piora depressão e ansiedade. Uma taça ocasional provavelmente não vai causar um desastre, mas o hábito regular é um problema.

Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Não por conta própria. Sentir-se bem é sinal de que o remédio está funcionando — não de que você não precisa mais dele. Parar cedo demais aumenta muito o risco de recaída. A duração do tratamento é definida pelo médico com base na sua situação específica.

Por que meu médico pediu um eletrocardiograma?
Porque a clomipramina pode afetar levemente a condução elétrica do coração. O ECG é uma precaução para garantir que não há nenhuma alteração cardíaca prévia que possa ser um problema. É um exame simples e indolor — não é motivo de preocupação, é só cuidado.

Esse remédio vai mudar minha personalidade?
Não. A clomipramina não muda quem você é — ela ajuda a reduzir sintomas que estão atrapalhando sua vida, como obsessões, compulsões, depressão ou ansiedade. Muitas pessoas relatam que, com o tratamento, se sentem mais parecidas com elas mesmas, não menos.


Referências

  • Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia de Stahl, 3ª ed. Artmed, 2014.
  • Elkis, H.; Zuardi, A.W. (orgs.). Clínica Psiquiátrica USP, 2ª ed., Volume 3. Manole, 2020.
  • Bula do Anafranil® (clomipramina) — aprovada pela ANVISA. Disponível em: bulario.anvisa.gov.br

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

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