Clobazam

O que é e para que serve?

O clobazam é um medicamento da família dos benzodiazepínicos — a mesma família do diazepam (Valium) e do clonazepam (Rivotril). Dentro dessa família, ele tem uma estrutura química um pouco diferente dos outros, o que lhe dá algumas vantagens, especialmente no controle de convulsões. Pense nele como um “parente próximo, mas com personalidade própria”.

No Brasil, ele é usado principalmente como anticonvulsivante — ou seja, para ajudar a controlar crises epilépticas, especialmente em pessoas com uma forma grave de epilepsia chamada Síndrome de Lennox-Gastaut. Ele quase sempre é usado junto com outros medicamentos para epilepsia, funcionando como um reforço no tratamento. Além disso, em alguns casos, médicos também o prescrevem para ansiedade, embora esse uso seja mais restrito e de curto prazo.

No Brasil, o clobazam é encontrado principalmente com o nome comercial Frisium®. Também existem versões genéricas vendidas simplesmente como “clobazam”. É um medicamento controlado (tarja preta), então você vai precisar de receita especial para comprá-lo na farmácia.


Como ele age no seu cérebro?

Imagine que o seu cérebro é uma cidade barulhenta, com milhares de carros buzinando ao mesmo tempo — esses “carros” são os neurônios disparando sinais elétricos. Em algumas condições, como na epilepsia ou na ansiedade intensa, essa cidade fica caótica demais: os neurônios disparam rápido demais, sem parar, e isso causa as crises.

O clobazam age como um guarda de trânsito muito eficiente. Ele se encaixa em uma estrutura específica dos neurônios chamada receptor GABA-A (pense nele como uma fechadura). Quando o clobazam se encaixa nessa fechadura, ele potencializa o efeito de uma substância natural do seu próprio cérebro chamada GABA — que é basicamente o “sinal de pare” do sistema nervoso. Com mais GABA funcionando, os neurônios ficam mais difíceis de disparar, o trânsito se organiza, e as crises diminuem.

Em termos práticos: o clobazam não cria nada novo no seu cérebro — ele amplifica um freio que você já tem, mas que estava fraco demais para dar conta do recado sozinho.


Quando começa a fazer efeito?

O clobazam age relativamente rápido para um anticonvulsivante. Depois de tomar, ele começa a ser absorvido em 30 minutos a 4 horas, e você já pode sentir algum efeito (como sonolência) logo nas primeiras doses.

Para o controle das crises epilépticas, o efeito completo leva alguns dias a semanas para se estabilizar — porque o médico geralmente aumenta a dose aos poucos, e o corpo precisa de tempo para se ajustar. É como afinar um instrumento musical: não dá para chegar na nota certa de uma vez, é um processo gradual.

Uma coisa importante: o clobazam tem uma meia-vida longa — isso significa que ele fica bastante tempo no seu organismo (entre 36 e 42 horas para o medicamento principal, e ainda mais para o seu produto de transformação no fígado). Isso é bom porque garante um nível estável no sangue ao longo do dia, sem grandes altos e baixos.


Como tomar corretamente

  • Com ou sem comida: Pode tomar das duas formas — a comida não atrapalha a absorção. Se sentir enjoo, tomar com um lanchinho leve pode ajudar.
  • Horário: Geralmente é tomado uma ou duas vezes ao dia, dependendo da dose prescrita. Se for uma vez ao dia, muitos médicos preferem que seja à noite, para aproveitar o efeito de sonolência enquanto você dorme.
  • Dose: A dose varia muito de pessoa para pessoa e depende do motivo do uso, do peso (especialmente em crianças) e de como você responde ao tratamento. Siga exatamente o que o seu médico prescreveu — não aumente nem diminua por conta própria.
  • Esqueceu uma dose? Se lembrar logo depois, tome. Se já estiver próximo do horário da próxima dose, pule a que esqueceu e continue normalmente. Nunca tome dose dupla para compensar.
  • Não pare de tomar de repente. Esse é um ponto muito importante. O clobazam precisa ser reduzido aos poucos, sempre com orientação médica. Parar abruptamente pode causar sintomas sérios de abstinência, incluindo o retorno das crises com mais força.

Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Sonolência e sedação: É o efeito colateral mais frequente. Acontece porque o clobazam “freia” o sistema nervoso central como um todo — não só nas regiões que causam as crises, mas em outras também. Geralmente é mais intenso no início do tratamento e tende a diminuir com o tempo, conforme o corpo se adapta. Evite dirigir ou operar máquinas até saber como o remédio te afeta.

  • Cansaço e letargia: Pela mesma razão da sonolência — o freio geral no sistema nervoso pode deixar você se sentindo “pesado” ou sem energia, especialmente nas primeiras semanas.

  • Babação (sialorréia): Mais comum em crianças. O mecanismo exato não é totalmente claro, mas está relacionado ao efeito do medicamento sobre o controle muscular da boca e da garganta.

  • Constipação (prisão de ventre): O sistema nervoso também controla o movimento do intestino. Ao “frear” o sistema nervoso, o clobazam pode deixar o intestino mais lento. Beber bastante água e comer fibras ajuda.

  • Febre: Reportada em estudos clínicos, especialmente em crianças. Fique atento e comunique ao médico se aparecer.

Menos comuns

  • Irritabilidade e mudanças de humor: Alguns pacientes, especialmente crianças, podem ficar mais agitados ou irritáveis. Parece contraditório para um remédio “calmante”, mas pode acontecer — é chamado de reação paradoxal.

  • Problemas de memória e concentração: O GABA em excesso pode deixar o raciocínio um pouco mais lento. Geralmente é leve e melhora com o tempo ou com ajuste de dose.

  • Tontura e falta de equilíbrio: O cerebelo (parte do cérebro que controla o equilíbrio) também tem receptores GABA. Quando o clobazam age neles, pode causar uma sensação de instabilidade. Cuidado ao se levantar rápido ou subir escadas.

  • Boca seca: Menos comum que em outros benzodiazepínicos, mas pode ocorrer. Beber água com frequência e usar balas sem açúcar ajuda.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Reações graves na pele (Stevens-Johnson / Necrólise Epidérmica Tóxica): São reações alérgicas raras, mas muito sérias. Aparecem como manchas vermelhas que se transformam em bolhas, começando geralmente na boca, olhos ou genitais. Se aparecer qualquer erupção na pele, especialmente nas primeiras 8 semanas de tratamento, procure atendimento médico imediatamente e não tome mais o remédio sem orientação.

  • DRESS (reação alérgica com comprometimento de múltiplos órgãos): Febre alta, gânglios inchados e erupção cutânea que aparecem juntos podem indicar essa reação grave. Emergência.

  • Pensamentos de se machucar: Como todos os anticonvulsivantes, o clobazam tem um alerta sobre risco aumentado de pensamentos suicidas em alguns pacientes. Se você ou alguém próximo notar mudanças de humor, pensamentos sombrios ou falar em se machucar, ligue para o médico ou vá a uma emergência imediatamente.

  • Depressão respiratória: Dificuldade para respirar, especialmente se combinado com álcool ou outros remédios que causam sonolência. Emergência.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

Sonolência, tontura e cansaço nas primeiras semanas: Fique tranquilo — são os efeitos mais esperados e costumam melhorar. Evite dirigir, evite álcool, e dê tempo ao seu corpo para se adaptar. Comente com seu médico na próxima consulta.

Qualquer erupção na pele: Não espere. Ligue para o médico no mesmo dia. Se for à noite ou fim de semana e a reação parecer grave (bolhas, mucosas afetadas), vá a uma UPA ou pronto-socorro.

Sintomas de abstinência (tremores, ansiedade intensa, convulsões após parar o remédio): Isso é uma emergência. Vá ao pronto-socorro.

O que NÃO fazer:
– Não pare o clobazam de repente por conta própria, mesmo que esteja se sentindo mal com os efeitos colaterais. Converse com o médico antes — ele pode ajustar a dose ou trocar o remédio de forma segura.
– Não aumente a dose por conta própria achando que vai funcionar melhor.
– Não tome com álcool.


Cuidados importantes

Álcool: Evite completamente. O álcool também é um depressor do sistema nervoso central, e quando combinado com o clobazam, os efeitos se somam de forma perigosa — sonolência extrema, falta de coordenação e, em casos graves, dificuldade para respirar. Além disso, o álcool aumenta a concentração do clobazam no sangue em cerca de 50%.

Outros remédios que causam sonolência: Analgésicos opioides (como codeína, tramadol, morfina), outros benzodiazepínicos, anti-histamínicos (remédios para alergia que dão sono) e alguns antidepressivos podem potencializar o efeito sedativo. Sempre informe ao médico e ao farmacêutico todos os remédios que você toma.

Anticoncepcional hormonal: O clobazam pode reduzir a eficácia de anticoncepcionais hormonais (pílula, adesivo, anel). Se você usa esse tipo de contracepção, converse com seu médico sobre usar um método adicional, como camisinha.

Gravidez: O clobazam passa pela placenta e pode afetar o bebê. Recém-nascidos de mães que usaram benzodiazepínicos podem nascer com sonolência excessiva ou sintomas de abstinência. Isso não significa que você deve parar o remédio por conta própria — crises epilépticas durante a gravidez também são perigosas. Converse com seu médico para avaliar o melhor caminho.

Amamentação: O clobazam passa para o leite materno. Se você está amamentando ou planeja amamentar, informe ao médico para que ele avalie os riscos e benefícios.

Idosos: O organismo de pessoas mais velhas processa o remédio mais devagar, então os efeitos podem ser mais intensos e durar mais. O risco de quedas por tontura e falta de equilíbrio é maior. Geralmente se usa doses menores.

Crianças: O clobazam é aprovado para crianças a partir de 2 anos para a Síndrome de Lennox-Gastaut. A dose é calculada pelo peso.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente do clobazam?
Essa é uma preocupação legítima. O clobazam, como todos os benzodiazepínicos, pode causar dependência física — isso significa que o corpo se acostuma com ele e pode reagir mal se ele for retirado de repente. Isso não é a mesma coisa que vício. Quando o tratamento precisa ser encerrado, o médico faz isso de forma gradual, reduzindo a dose aos poucos para que o corpo se adapte sem sofrimento. Siga o plano do seu médico e você vai conseguir fazer essa transição com segurança.

Posso beber álcool socialmente enquanto tomo clobazam?
Não. Mesmo uma quantidade pequena de álcool pode intensificar muito a sonolência e o risco de acidentes. O álcool também aumenta a concentração do remédio no sangue. Durante o tratamento, o ideal é evitar completamente.

Posso parar de tomar quando as crises sumirem e eu me sentir bem?
Não por conta própria. A ausência de crises muitas vezes é resultado do remédio funcionando — não significa que você não precisa mais dele. Parar abruptamente pode fazer as crises voltarem com força, às vezes mais intensas do que antes. Qualquer decisão de reduzir ou parar o clobazam precisa ser tomada junto com o médico.

O clobazam vai me deixar “zumbi” ou mudar minha personalidade?
A sonolência é comum no início, mas a maioria das pessoas se adapta em algumas semanas. O objetivo do tratamento é justamente melhorar sua qualidade de vida — controlar as crises para que você possa viver com mais liberdade e segurança. Se você sentir que os efeitos colaterais estão atrapalhando demais o seu dia a dia, converse com o médico. Ajustes de dose ou de horário podem fazer uma grande diferença.

Posso dirigir tomando clobazam?
Nas primeiras semanas, ou sempre que a dose for ajustada, evite dirigir até saber como o remédio te afeta. Além disso, pessoas com epilepsia têm restrições legais para dirigir que variam por estado — independentemente do remédio. Converse com seu médico sobre isso.


Referências

  • Bula do Frisium® (clobazam) — ANVISA. Disponível em: bulario.anvisa.gov.br
  • FDA Drug Label — Clobazam Oral Suspension (Onfi®). U.S. Food and Drug Administration, 2021.
  • Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª ed. Artmed, 2010.

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

marque sua consulta

Cansado de consultas apressadas e respostas vagas?

Para adultos buscando respostas ou pais preocupados com os filhos: avaliação profunda de TDAH e Autismo que transformam vidas.

Médico Psiquiatra com foco em TDAH e Autismo.
Atendimento a adultos, adolescentes e crianças a partir de 6 anos.

CRM/UF · RQE 00000 · Psiquiatria

Atendimento

Credenciais

© 2026 Dr. Luigi Fernando - Psiquiatria. Todos os direitos reservados.

Site desenvolvido por: