O que é?
Imagine que, de repente, seu corpo e sua mente parecem ter sido tomados por um “curto-circuito”. Você não consegue se mover direito, mesmo querendo. Às vezes, fica parado como uma estátua por horas, sem reagir ao que acontece ao redor. Em outros momentos, repete os mesmos gestos sem motivo, como se estivesse preso em um loop. Ou então, seu corpo fica rígido, como se alguém tivesse apertado um botão de “pausa” no seu sistema nervoso. Essas são algumas das formas como a catatonia induzida por substâncias ou medicamentos pode se manifestar.
A catatonia não é uma doença em si, mas sim uma síndrome — um conjunto de sinais e sintomas que aparecem juntos e indicam que algo não está funcionando bem no cérebro. Quando ela é causada por drogas, álcool ou remédios, chamamos de catatonia induzida por substâncias. Isso significa que alguma substância química (seja um medicamento prescrito, uma droga ilícita ou até mesmo álcool) bagunçou temporariamente os circuitos cerebrais responsáveis pelo movimento, pela fala e pela interação com o mundo.
Como é diferente de outras experiências?
Todo mundo já passou por momentos de lentidão, como quando está muito cansado ou estressado. Mas na catatonia, essa lentidão (ou, em alguns casos, agitação extrema) é intensa, persistente e fora do controle da pessoa. Não é algo que passa com uma boa noite de sono ou um café forte. É como se o cérebro tivesse um “freio de mão puxado” que não solta, mesmo quando a pessoa tenta com todas as forças.
Outra diferença importante: na catatonia, os sintomas não são proporcionais à situação. Por exemplo, uma pessoa pode ficar completamente imóvel e muda durante uma festa animada, ou repetir palavras sem sentido em um momento de calma. Não há uma lógica emocional por trás — é como se o corpo e a mente estivessem desconectados.
Quem é afetado?
A catatonia induzida por substâncias é rara, mas pode acontecer com qualquer pessoa que use (ou abuse de) certas drogas ou medicamentos. Alguns grupos têm mais risco:
– Pessoas que usam antipsicóticos (remédios para esquizofrenia ou transtorno bipolar), especialmente em doses altas ou combinadas com outras substâncias.
– Usuários de drogas ilícitas, como cocaína, anfetaminas, LSD ou ecstasy, que podem desencadear episódios catatônicos.
– Pessoas que misturam álcool com medicamentos, como benzodiazepínicos (remédios para ansiedade) ou antidepressivos.
– Pacientes com histórico de transtornos mentais, como esquizofrenia ou depressão grave, que podem ser mais sensíveis aos efeitos das substâncias.
Não há uma idade específica para a catatonia, mas ela costuma aparecer entre os 20 e 40 anos, que é quando muitas pessoas começam a usar medicamentos psiquiátricos ou experimentam drogas. Também não há diferença clara entre homens e mulheres na frequência, mas alguns estudos sugerem que mulheres podem ter mais risco de desenvolver catatonia por medicamentos, enquanto homens podem ter mais episódios relacionados ao uso de drogas.
Reconhecimento oficial
A catatonia induzida por substâncias é reconhecida tanto pela Organização Mundial da Saúde (OMS), na CID-11 (código 6A41), quanto pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), no DSM-5. Isso significa que não é algo “inventado” ou subjetivo — é uma condição real, com critérios claros e tratamentos comprovados.
Como se manifesta? (Sinais e sintomas)
A catatonia é como um quebra-cabeça de sintomas motores e comportamentais. Nem todas as pessoas terão todos os sinais, mas geralmente aparecem pelo menos três dos sintomas abaixo. Eles podem variar de leves (como uma lentidão estranha) a graves (como ficar dias sem se mover ou falar).
Vamos dividir os sintomas em categorias para entender melhor:
1. Sintomas de “paralisia” ou lentidão extrema
Esses sintomas fazem a pessoa parecer “congelada” ou muito lenta, como se estivesse em câmera lenta.
Estupor
- O que é? A pessoa fica completamente imóvel e sem reação, como se estivesse em um transe. Não responde a perguntas, não pisca, não engole saliva e pode até ficar com os olhos abertos sem piscar.
- Exemplo no dia a dia: Imagine que você está conversando com alguém e, de repente, a pessoa para de falar, fica olhando para o nada e não reage quando você toca no ombro dela ou chama pelo nome. Pode durar minutos ou horas.
- Como os outros percebem: “Parece que ela está em outro planeta”, “Não adianta chamar, ela não responde”, “Fiquei com medo de ela estar em coma”.
Catalepsia
- O que é? A pessoa mantém posições estranhas e desconfortáveis por muito tempo, como se fosse uma estátua de cera. Se você mover o braço dela, por exemplo, ela pode ficar com o braço levantado no ar por horas.
- Exemplo no dia a dia: Você chega em casa e encontra seu familiar com o braço levantado, como se estivesse segurando um copo invisível. Quando você tenta abaixar o braço, ele volta para a mesma posição.
- Como os outros percebem: “Parece que ela está brincando de estátua”, “Não importa o que eu faça, ela não muda de posição”.
Flexibilidade cérea
- O que é? É como a catalepsia, mas com uma diferença: quando você move o braço ou a perna da pessoa, ela resiste levemente, como se estivesse moldando argila. Depois, mantém a nova posição.
- Exemplo no dia a dia: Você tenta abaixar o braço da pessoa, e ela oferece uma resistência suave, como se estivesse “ajustando” a posição. Depois, fica com o braço na nova posição por muito tempo.
- Como os outros percebem: “É como se ela fosse feita de cera mole”, “Quando eu movo o braço dela, parece que estou empurrando uma massa de modelar”.
Mutismo
- O que é? A pessoa para de falar completamente, mesmo que antes falasse normalmente. Não é por teimosia ou vergonha — ela simplesmente não consegue emitir sons.
- Exemplo no dia a dia: Seu familiar sempre foi falante, mas de repente fica dias sem dizer uma palavra, mesmo quando você pergunta algo diretamente.
- Como os outros percebem: “Ela não responde, mas parece entender o que eu falo”, “Fico preocupado porque ela não pede nem água”.
2. Sintomas de resistência ou negativismo
Aqui, a pessoa parece estar lutando contra o mundo, mesmo sem motivo aparente.
Negativismo
- O que é? A pessoa faz o oposto do que é pedido ou resiste ativamente a qualquer movimento. Se você pede para ela sentar, ela fica em pé. Se você oferece comida, ela vira o rosto.
- Exemplo no dia a dia: Você diz “Vamos para a cama?”, e ela imediatamente vai para a sala. Ou então, quando você tenta ajudá-la a se levantar, ela empurra sua mão.
- Como os outros percebem: “É como se ela estivesse me desafiando”, “Não importa o que eu faça, ela faz o contrário”.
Postura (manutenção ativa de posições)
- O que é? A pessoa fica em posições estranhas e desconfortáveis por muito tempo, como se estivesse desafiando a gravidade. Por exemplo, pode ficar com a cabeça levantada da cama por horas, sem travesseiro.
- Exemplo no dia a dia: Você encontra seu familiar sentado na cama com as pernas cruzadas no ar, como se estivesse meditando, mas sem nenhum motivo aparente.
- Como os outros percebem: “Parece que ela está fazendo ioga, mas não está”, “Não sei como ela aguenta ficar assim por tanto tempo”.
3. Sintomas de agitação ou movimentos repetitivos
Nesses casos, a pessoa não para de se mexer, mas de um jeito estranho e sem propósito.
Agitação psicomotora
- O que é? A pessoa fica inquieta, andando de um lado para o outro, mexendo as mãos ou balançando o corpo sem motivo. Não é uma agitação normal, como quando estamos ansiosos — é mais intensa e sem controle.
- Exemplo no dia a dia: Seu familiar fica horas andando em círculos pela sala, sem conseguir parar. Ou então, fica esfregando as mãos sem parar, como se estivesse lavando algo invisível.
- Como os outros percebem: “Ela não consegue ficar parada nem por um segundo”, “Parece que está possuída”.
Estereotipias
- O que é? A pessoa repete os mesmos movimentos ou sons sem parar, como um disco arranhado. Pode ser balançar o corpo, bater os dedos, estalar a língua ou repetir palavras.
- Exemplo no dia a dia: Você percebe que seu familiar fica horas balançando a perna ou repetindo a mesma frase (“Eu quero ir embora, eu quero ir embora…”) sem contexto.
- Como os outros percebem: “É como se ela estivesse presa em um loop”, “Não adianta pedir para parar, ela continua”.
Maneirismos
- O que é? A pessoa faz gestos exagerados ou teatrais sem motivo, como se estivesse atuando. Por exemplo, pode andar na ponta dos pés, fazer caretas ou falar com uma voz afetada.
- Exemplo no dia a dia: Seu familiar começa a andar como um robô ou a falar como se estivesse em uma peça de teatro, mesmo em situações normais.
- Como os outros percebem: “Parece que ela está fingindo”, “Não é o jeito normal dela de agir”.
Ecolalia e ecopraxia
- Ecolalia: A pessoa repete as últimas palavras que ouviu, como um papagaio. Se você diz “Vamos jantar?”, ela responde “Jantar? Jantar?”.
- Ecopraxia: A pessoa imita os gestos dos outros sem perceber. Se você coça a cabeça, ela coça a cabeça também.
- Exemplo no dia a dia: Você pergunta “Tudo bem?”, e ela responde “Bem? Bem?”. Ou então, você boceja, e ela boceja logo em seguida, mesmo sem sono.
- Como os outros percebem: “Parece que ela está zombando de mim”, “É como se ela não conseguisse evitar repetir”.
4. Sintomas “escondidos” (que muita gente não associa à catatonia)
Além dos sintomas mais óbvios, a catatonia pode causar outros sinais que passam despercebidos ou são confundidos com outras coisas:
- Dificuldade para engolir: A pessoa pode babar ou engasgar com facilidade porque os músculos da garganta não funcionam direito.
- Olhar fixo: Os olhos ficam parados, sem piscar, como se estivessem vidrados em algo que só ela vê.
- Respiração estranha: Pode ficar muito lenta ou muito rápida, sem motivo aparente.
- Incontinência: Em casos graves, a pessoa pode perder o controle da bexiga ou do intestino.
- Febre ou alterações na pressão: Em casos extremos, a catatonia pode causar complicações físicas, como febre alta ou pressão baixa.
Os critérios diagnósticos — em linguagem simples
Para que um médico diagnostique catatonia induzida por substâncias ou medicamentos, ele segue critérios específicos do DSM-5 e da CID-11. Vamos traduzir cada um deles para o dia a dia:
Critério A: Presença de pelo menos 3 sintomas catatônicos
Versão técnica:
“O quadro clínico é dominado por três (ou mais) dos seguintes sintomas:
1. Estupor
2. Catalepsia
3. Flexibilidade cérea
4. Mutismo
5. Negativismo
6. Postura (manutenção ativa de uma postura contrária à gravidade)
7. Maneirismos
8. Estereotipias
9. Agitação, não influenciada por estímulos externos
10. Caretas
11. Ecolalia
12. Ecopraxia”
Na prática:
O médico vai observar se a pessoa tem pelo menos três dos sintomas que descrevemos acima. Por exemplo:
– Estupor + mutismo + catalepsia: A pessoa fica imóvel, não fala e mantém posições estranhas.
– Agitação + estereotipias + ecolalia: A pessoa não para de se mexer, repete movimentos e palavras.
– Negativismo + postura + flexibilidade cérea: A pessoa faz o contrário do que é pedido, fica em posições desconfortáveis e resiste levemente quando você tenta movê-la.
Não precisa ter todos os sintomas — três já são suficientes para o diagnóstico.
Critério B: Evidência de que a catatonia foi causada por uma substância
Versão técnica:
“Há evidências, pela história, exame físico ou achados laboratoriais, de que os sintomas do Critério A são consequência fisiológica direta de uma substância (droga de abuso, medicamento ou exposição a toxina).”
Na prática:
O médico precisa ter certeza de que a catatonia apareceu por causa de uma substância. Para isso, ele vai:
1. Perguntar sobre o uso de remédios ou drogas:
– “Você começou a tomar algum remédio novo recentemente?”
– “Você usou alguma droga nos últimos dias?”
– “Você bebeu álcool ou misturou com remédios?”
2. Fazer exames:
– Exame de sangue ou urina para detectar drogas ou medicamentos.
– Exames neurológicos para descartar outras causas (como um AVC ou tumor).
3. Observar o tempo:
– A catatonia costuma aparecer logo depois que a pessoa usou a substância (horas ou dias).
– Se a pessoa parar de usar a substância, os sintomas devem melhorar (mas nem sempre imediatamente).
Exemplo concreto:
– Uma pessoa começa a tomar um antipsicótico para esquizofrenia e, dois dias depois, fica imóvel e muda. O médico faz um exame de sangue e confirma que o remédio está no organismo. Isso sugere que a catatonia foi induzida pelo medicamento.
– Um usuário de cocaína tem um episódio de agitação extrema, estereotipias e ecolalia poucas horas depois de usar a droga. O exame toxicológico confirma a presença de cocaína. Isso indica catatonia induzida pela droga.
Critério C: A catatonia não é melhor explicada por outro transtorno mental
Versão técnica:
“A perturbação não é mais bem explicada por outro transtorno mental (p. ex., episódio maníaco, transtorno psicótico, transtorno depressivo maior).”
Na prática:
O médico precisa descartar que a catatonia seja causada por outra condição psiquiátrica, como:
– Esquizofrenia: Às vezes, a catatonia aparece junto com delírios ou alucinações, mas se a pessoa só teve catatonia depois de usar uma substância, o diagnóstico é de catatonia induzida.
– Transtorno bipolar (episódio maníaco): Em uma crise de mania, a pessoa pode ficar agitada e repetitiva, mas se não há histórico de bipolaridade e a catatonia apareceu após o uso de uma droga, o diagnóstico muda.
– Depressão grave: A depressão pode causar lentidão extrema, mas se a pessoa nunca teve depressão antes e os sintomas começaram depois de tomar um remédio, é mais provável que seja catatonia induzida.
Exemplo concreto:
– Uma pessoa com esquizofrenia tem um episódio de catatonia sem ter mudado a medicação. Nesse caso, a catatonia pode ser parte da esquizofrenia, e não induzida por substância.
– Uma pessoa sem histórico de transtornos mentais começa a tomar um antidepressivo e, três dias depois, desenvolve catatonia. Nesse caso, é provável que seja induzida pelo medicamento.
Critério D: A catatonia não ocorre apenas durante um delirium
Versão técnica:
“Os sintomas não ocorrem exclusivamente durante o curso de um delirium.”
Na prática:
O delirium é um estado de confusão aguda, em que a pessoa fica desorientada, agitada ou sonolenta. Às vezes, o delirium pode causar sintomas parecidos com a catatonia (como imobilidade ou agitação). Mas no delirium, a pessoa não sabe onde está, que dia é ou quem são as pessoas ao redor.
Se a catatonia acontece apenas durante um delirium, o diagnóstico é de delirium, e não de catatonia induzida. Mas se a catatonia persiste mesmo depois que o delirium passa, aí sim pode ser catatonia induzida.
Exemplo concreto:
– Uma pessoa idosa toma um remédio para dormir e, no dia seguinte, fica confusa, não reconhece os familiares e fica imóvel. Isso é delirium, não catatonia.
– Uma pessoa jovem usa cocaína e, após o efeito passar, continua com estupor e mutismo por dias, mesmo sem confusão. Isso pode ser catatonia induzida pela droga.
Critério E: A catatonia causa sofrimento ou prejuízo significativo
Versão técnica (implícito no DSM-5):
“A perturbação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.”
Na prática:
Os sintomas da catatonia precisam atrapalhar a vida da pessoa de alguma forma. Por exemplo:
– No trabalho: A pessoa não consegue se concentrar, fica imóvel por horas ou repete movimentos, sendo demitida.
– Em casa: Não consegue se alimentar, tomar banho ou interagir com a família.
– Na saúde: Pode desenvolver complicações físicas, como desidratação, trombose (por ficar muito tempo parada) ou pneumonia (por engasgar com a saliva).
Se a catatonia for leve e passageira (por exemplo, a pessoa teve um episódio de estupor por algumas horas e depois voltou ao normal), pode não ser diagnosticada. Mas se causar sofrimento ou risco, o diagnóstico é necessário.
O que pode causar isso?
A catatonia induzida por substâncias não acontece do nada. Ela é desencadeada por algo que bagunça os circuitos cerebrais responsáveis pelo movimento e pela interação com o mundo. Vamos entender as principais causas:
1. Medicamentos que podem causar catatonia
Alguns remédios, especialmente os que agem no cérebro, podem desencadear catatonia em pessoas sensíveis. Os principais são:
Antipsicóticos (neurolépticos)
- O que são? Remédios usados para tratar esquizofrenia, transtorno bipolar e outras psicoses.
- Exemplos: Haloperidol, clorpromazina, risperidona, olanzapina, quetiapina.
- Por que causam catatonia?
Os antipsicóticos bloqueiam a dopamina, um neurotransmissor importante para o movimento. Em algumas pessoas, esse bloqueio é tão forte que o cérebro “trava”, causando catatonia. - Fatores de risco:
- Dose alta do remédio.
- Uso de mais de um antipsicótico ao mesmo tempo.
- Início rápido do medicamento (aumentar a dose muito rápido).
- Histórico de catatonia ou sensibilidade a antipsicóticos.
Exemplo real:
Uma pessoa com esquizofrenia começa a tomar haloperidol e, dois dias depois, fica imóvel e muda. O médico reduz a dose ou troca o remédio, e os sintomas melhoram.
Benzodiazepínicos (remédios para ansiedade e insônia)
- O que são? Remédios que acalmam o cérebro, como diazepam (Valium), clonazepam (Rivotril) e lorazepam.
- Por que causam catatonia?
Em doses muito altas ou quando misturados com álcool ou outras drogas, os benzodiazepínicos podem deprimir tanto o sistema nervoso que a pessoa fica em estupor (como se estivesse em coma leve). - Fatores de risco:
- Overdose acidental ou intencional.
- Uso crônico (por meses ou anos) seguido de suspensão abrupta (a catatonia pode aparecer na abstinência).
- Mistura com álcool ou opioides.
Exemplo real:
Uma pessoa toma vários comprimidos de clonazepam para dormir e, no dia seguinte, fica imóvel e não responde aos chamados. Os sintomas melhoram após a desintoxicação.
Antidepressivos
- O que são? Remédios para depressão e ansiedade, como fluoxetina (Prozac), sertralina (Zoloft) e amitriptilina.
- Por que causam catatonia?
Alguns antidepressivos (especialmente os tricíclicos, como a amitriptilina) podem causar síndrome serotoninérgica (excesso de serotonina no cérebro), que, em casos raros, leva à catatonia. - Fatores de risco:
- Dose alta.
- Uso de mais de um antidepressivo ao mesmo tempo.
- Mistura com outras substâncias que aumentam a serotonina (como ecstasy ou LSD).
Exemplo real:
Uma pessoa deprimida começa a tomar amitriptilina e, uma semana depois, desenvolve agitação, estereotipias e mutismo. O médico suspende o remédio, e os sintomas melhoram.
Outros medicamentos
- Anticonvulsivantes (como carbamazepina ou ácido valproico): usados para epilepsia e transtorno bipolar.
- Corticoides (como prednisona): usados para inflamações e doenças autoimunes.
- Lítio: usado para transtorno bipolar.
- Antieméticos (como metoclopramida): usados para náusea e vômito.
2. Drogas ilícitas que podem causar catatonia
Algumas drogas alteram tanto os neurotransmissores que podem desencadear catatonia, especialmente em pessoas predispostas.
Cocaína e anfetaminas (drogas estimulantes)
- Por que causam catatonia?
Essas drogas aumentam muito a dopamina no cérebro. Em algumas pessoas, esse excesso causa uma sobrecarga no sistema motor, levando a estereotipias, agitação ou, em casos extremos, estupor. - Sintomas comuns:
- Agitação psicomotora.
- Estereotipias (repetir movimentos ou palavras).
- Ecolalia e ecopraxia.
- Em casos graves: estupor (a pessoa “desliga” após o pico da droga).
Exemplo real:
Um usuário de cocaína fica horas andando em círculos e repetindo a mesma frase. Quando o efeito passa, ele volta ao normal.
LSD, ecstasy (MDMA) e outros alucinógenos
- Por que causam catatonia?
Essas drogas alteram a percepção da realidade e podem causar despersonalização (a pessoa se sente desconectada do próprio corpo). Em alguns casos, isso leva a catatonia, especialmente se a pessoa já tem predisposição. - Sintomas comuns:
- Maneirismos (gestos teatrais).
- Posturas estranhas.
- Mutismo (a pessoa “perde” a capacidade de falar).
- Ecolalia (repetir palavras).
Exemplo real:
Uma pessoa usa LSD e, durante a “viagem”, fica imóvel em uma posição estranha por horas, sem responder aos outros.
Álcool
- Por que causa catatonia?
O álcool deprime o sistema nervoso. Em casos de abstinência (quando a pessoa para de beber de repente), o cérebro pode entrar em um estado de hiperexcitabilidade, levando a agitação, tremores e, em casos raros, catatonia. - Sintomas comuns:
- Agitação psicomotora.
- Estereotipias.
- Mutismo.
- Em casos graves: delirium tremens (confusão + alucinações + agitação), que pode incluir sintomas catatônicos.
Exemplo real:
Um alcoólatra para de beber de repente e, dois dias depois, fica agitado, repete movimentos e não fala. Isso pode ser síndrome de abstinência com catatonia.
3. Fatores de risco: quem tem mais chance de desenvolver catatonia?
Nem todo mundo que usa um medicamento ou droga vai desenvolver catatonia. Alguns fatores aumentam o risco:
Genética
- Histórico familiar de catatonia ou esquizofrenia: Se alguém na família já teve catatonia (por qualquer causa), o risco é maior.
- Predisposição a transtornos mentais: Pessoas com esquizofrenia, transtorno bipolar ou depressão grave têm mais chance de desenvolver catatonia quando expostas a substâncias.
Analogia:
Imagine que o cérebro é como um computador. Algumas pessoas nascem com um sistema operacional mais sensível — se você instalar um programa pesado (como um antipsicótico ou uma droga), o computador pode travar (catatonia). Outras pessoas têm um sistema mais resistente e não travam.
Neurobiologia: o que acontece no cérebro?
A catatonia está ligada a desequilíbrios em neurotransmissores, especialmente:
– Dopamina: Muito baixa (por antipsicóticos) ou muito alta (por cocaína) pode causar catatonia.
– GABA: O principal neurotransmissor “calmante” do cérebro. Quando está desregulado (por benzodiazepínicos ou abstinência de álcool), pode levar a catatonia.
– Glutamato: O principal neurotransmissor “excitante”. Em excesso, pode causar agitação e estereotipias.
Analogia:
Pense nos neurotransmissores como mensageiros do cérebro. Se você tem poucos mensageiros (dopamina baixa), as ordens para se mover não chegam aos músculos (estupor). Se você tem mensageiros demais (dopamina alta), as ordens ficam confusas (agitação, estereotipias).
Fatores psicológicos e ambientais
- Estresse extremo: Situações de trauma, luto ou pressão psicológica podem tornar o cérebro mais vulnerável.
- Isolamento social: Pessoas sem rede de apoio têm mais dificuldade para lidar com os efeitos das substâncias.
- Histórico de abuso de substâncias: Quem já teve problemas com drogas ou álcool tem mais risco.
Mitos comuns sobre a catatonia
Vamos desmistificar algumas ideias erradas:
❌ “Catatonia é coisa de louco.”
✅ Não! A catatonia é uma reação do cérebro a uma substância ou condição médica. Não tem nada a ver com “loucura” ou fraqueza de caráter. É como ter uma convulsão — não é culpa da pessoa.
❌ “Só quem usa drogas pesadas tem catatonia.”
✅ Falso! Muitos casos de catatonia são causados por medicamentos prescritos, como antipsicóticos ou antidepressivos. Até remédios para enjoo (como a metoclopramida) podem causar, em casos raros.
❌ “Catatonia é sempre grave e permanente.”
✅ Não necessariamente. Muitos casos são reversíveis quando a substância é retirada ou o tratamento é ajustado. Em alguns casos, a catatonia dura horas ou dias e depois some.
❌ “Se a pessoa está em estupor, é porque não quer falar comigo.”
✅ Errado! Na catatonia, a pessoa não tem controle sobre o que está acontecendo. Não é birra, preguiça ou manipulação — é uma dificuldade neurológica.
❌ “Catatonia é a mesma coisa que depressão ou esquizofrenia.”
✅ Não! A catatonia é uma síndrome que pode aparecer em várias condições, mas não é um transtorno mental por si só. Uma pessoa pode ter catatonia sem ter depressão ou esquizofrenia (por exemplo, por causa de um remédio).
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de catatonia pode ser assustador, mas entender o processo ajuda a se sentir mais seguro. Vamos explicar passo a passo como os médicos chegam a essa conclusão.
1. Não existe um “exame de catatonia”
Infelizmente, não há um exame de sangue ou de imagem que diga “sim, é catatonia”. O diagnóstico é feito com base em:
– Observação dos sintomas (o médico vai avaliar se a pessoa tem pelo menos 3 dos sintomas do Critério A).
– Histórico médico (o que a pessoa estava tomando ou usando antes dos sintomas aparecerem).
– Exames para descartar outras causas (como tumores, AVCs ou infecções).
2. Passo a passo da avaliação
Primeira etapa: Entrevista clínica
O médico (geralmente um psiquiatra ou neurologista) vai fazer perguntas detalhadas, como:
– “Quando os sintomas começaram?” (Para ver se coincidem com o uso de uma substância.)
– “Você começou a tomar algum remédio novo recentemente?” (Antipsicóticos, antidepressivos, etc.)
– “Você usou alguma droga ou bebeu álcool nos últimos dias?” (Cocaína, LSD, álcool, etc.)
– “Você já teve algo parecido antes?” (Para ver se há histórico de catatonia ou transtornos mentais.)
– “Você tem histórico de doenças neurológicas?” (Epilepsia, Parkinson, AVC, etc.)
Dica: Se possível, leve um familiar ou amigo para ajudar a responder as perguntas, pois a pessoa com catatonia pode não conseguir se comunicar.
Segunda etapa: Exame físico e neurológico
O médico vai avaliar:
– Sinais vitais: Pressão, frequência cardíaca, temperatura (para descartar infecções ou síndrome neuroléptica maligna, uma complicação grave).
– Movimentos: Se a pessoa tem rigidez, flexibilidade cérea, estereotipias, etc.
– Reflexos: Para ver se há danos neurológicos.
– Nível de consciência: Se a pessoa está confusa (delirium) ou apenas “desligada” (estupor).
Terceira etapa: Exames complementares
Para descartar outras causas, o médico pode pedir:
– Exames de sangue:
– Hemograma (para infecções).
– Eletrólitos (sódio, potássio, cálcio — desequilíbrios podem causar sintomas parecidos).
– Função hepática e renal (alguns remédios são tóxicos para o fígado ou rins).
– Glicemia (diabetes descompensada pode causar confusão).
– Dosagem de medicamentos (para ver se há excesso de antipsicóticos, lítio, etc.).
– CPK (creatinofosfoquinase): Se estiver muito alta, pode indicar síndrome neuroléptica maligna, uma emergência médica.
– Exame de urina:
– Toxicológico (para detectar drogas como cocaína, maconha, anfetaminas).
– Exames de imagem:
– Tomografia ou ressonância magnética do cérebro (para descartar tumores, AVCs ou outras lesões).
– Eletroencefalograma (EEG):
– Para descartar epilepsia ou outras alterações elétricas no cérebro.
– Punção lombar (líquor):
– Se houver suspeita de encefalite (inflamação no cérebro) ou meningite.
Quarta etapa: Escalas de avaliação
Alguns médicos usam escalas padronizadas para avaliar a gravidade da catatonia, como:
– Escala de Bush-Francis (BFCRS): Avalia 23 sintomas catatônicos e dá uma pontuação.
– Escala de Catatonia de Northoff: Foca em sintomas motores e comportamentais.
Essas escalas ajudam a monitorar a evolução da catatonia e a resposta ao tratamento.
Quanto tempo leva o diagnóstico?
Depende da complexidade do caso:
– Casos simples: Se a pessoa estava tomando um antipsicótico e desenvolveu catatonia, o diagnóstico pode ser feito em 1-2 consultas.
– Casos complexos: Se há dúvida entre catatonia, delirium ou outra condição, podem ser necessários dias ou semanas de investigação.
Quem pode diagnosticar?
- Psiquiatra: O profissional mais indicado, pois entende tanto de transtornos mentais quanto de efeitos de medicamentos.
- Neurologista: Especialmente se houver suspeita de causas neurológicas (AVC, tumor, epilepsia).
- Clínico geral ou médico de emergência: Em casos de urgência, eles podem fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um especialista.
Psicólogos não podem diagnosticar catatonia, pois não são médicos e não podem prescrever exames ou medicamentos. Mas podem ajudar no acompanhamento psicológico após o diagnóstico.
Como buscar diagnóstico no Brasil?
Pelo SUS (Sistema Único de Saúde)
- UBS (Unidade Básica de Saúde):
- O primeiro passo é agendar uma consulta com um clínico geral na UBS mais próxima.
- Leve todos os remédios que a pessoa está tomando (ou uma lista com nomes e doses).
- Se possível, leve um familiar para ajudar a descrever os sintomas.
- Encaminhamento para especialista:
- O clínico geral pode encaminhar para um psiquiatra ou neurologista no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou em um ambulatório especializado.
- Em casos graves, pode ser necessário internação em um hospital psiquiátrico (como o Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP, em São Paulo, ou o Hospital Psiquiátrico São Pedro, no Rio Grande do Sul).
- CAPS (Centro de Atenção Psicossocial):
- Existem CAPS para adultos (CAPS II e III), CAPS para crianças (CAPSi) e CAPS para álcool e drogas (CAPS AD).
- O CAPS oferece atendimento multidisciplinar (psiquiatra, psicólogo, assistente social, enfermeiro).
- Em alguns casos, o CAPS pode fazer internação breve (até 14 dias) para estabilização.
Dica: Se a UBS demorar muito para encaminhar, vá até o CAPS mais próximo e peça uma avaliação. Os CAPS são porta aberta, ou seja, não é necessário encaminhamento para ser atendido.
Particular (convênio ou particular)
- Psiquiatra ou neurologista: Procure um profissional com experiência em psicofarmacologia (estudo dos efeitos dos medicamentos no cérebro).
- Clínicas especializadas: Algumas clínicas oferecem avaliação psiquiátrica completa em um dia, com exames e escalas.
- Hospitais universitários: Alguns hospitais, como o HC-FMUSP (São Paulo), Hospital das Clínicas da UFMG (Belo Horizonte) e Hospital de Clínicas de Porto Alegre, têm serviços de psiquiatria com preços acessíveis ou gratuitos.
Dica: Se você não tem convênio, algumas universidades oferecem atendimento gratuito ou de baixo custo em suas clínicas-escola.
Condições parecidas (diagnóstico diferencial)
A catatonia pode ser confundida com várias outras condições. Vamos entender as diferenças:
1. Síndrome Neuroléptica Maligna (SNM)
- Por que é confundida?
A SNM é uma reação grave a antipsicóticos que causa febre, rigidez muscular, confusão e, em alguns casos, sintomas catatônicos (como estupor ou mutismo). - Diferença-chave:
- Na SNM, sempre há febre alta e alterações laboratoriais (CPK elevado, leucocitose).
- Na catatonia induzida por substância, pode não haver febre ou alterações no sangue.
- Podem coexistir?
Sim! Às vezes, a catatonia é um sintoma da SNM. Por isso, é importante fazer exames de sangue.
2. Delirium
- Por que é confundido?
O delirium é um estado de confusão aguda, em que a pessoa fica desorientada, agitada ou sonolenta. Em alguns casos, pode causar imobilidade (delirium hipoativo), que parece estupor. - Diferença-chave:
- No delirium, a pessoa não sabe onde está, que dia é ou quem são as pessoas ao redor.
- Na catatonia, a pessoa pode estar consciente, mas não consegue se mover ou falar.
- Podem coexistir?
Sim. Por exemplo, uma pessoa com delirium por abstinência de álcool pode desenvolver catatonia como parte do quadro.
3. Depressão grave com sintomas psicomotores
- Por que é confundida?
A depressão grave pode causar lentidão psicomotora, em que a pessoa fala devagar, se move devagar e parece “desligada”. - Diferença-chave:
- Na depressão, a lentidão é proporcional ao humor (a pessoa está triste e por isso se move devagar).
- Na catatonia, a imobilidade não tem relação com o humor (a pessoa pode estar feliz antes de “travar”).
- Podem coexistir?
Sim. Uma pessoa com depressão pode desenvolver catatonia por causa de um antidepressivo ou por outros motivos.
4. Esquizofrenia com sintomas catatônicos
- Por que é confundida?
A esquizofrenia pode incluir sintomas catatônicos, como estupor, estereotipias ou negativismo. - Diferença-chave:
- Na esquizofrenia, a catatonia aparece junto com delírios ou alucinações e não está ligada ao uso de substâncias.
- Na catatonia induzida por substância, os sintomas aparecem após o uso de um medicamento ou droga e melhoram quando a substância é retirada.
- Podem coexistir?
Sim. Uma pessoa com esquizofrenia pode ter um episódio catatônico por causa de um antipsicótico.
5. Doenças neurológicas (Parkinson, AVC, tumores cerebrais)
- Por que são confundidas?
Algumas doenças neurológicas causam rigidez muscular, lentidão ou movimentos repetitivos, que podem parecer catatonia. - Diferença-chave:
- Na catatonia, os sintomas aparecem de repente e melhoram com tratamento (como benzodiazepínicos).
- Em doenças neurológicas, os sintomas são progressivos e não respondem aos mesmos tratamentos.
- Podem coexistir?
Sim. Por exemplo, uma pessoa com Parkinson pode desenvolver catatonia por causa de um medicamento.
6. Transtorno do Espectro Autista (TEA) com estereotipias
- Por que é confundido?
Pessoas com autismo podem ter movimentos repetitivos (estereotipias), como balançar o corpo ou bater as mãos. - Diferença-chave:
- No autismo, as estereotipias fazem parte do desenvolvimento e não aparecem de repente.
- Na catatonia, os sintomas surgem após o uso de uma substância e não estavam presentes antes.
- Podem coexistir?
Sim. Pessoas com autismo podem desenvolver catatonia por causa de medicamentos.
Tratamento
A catatonia induzida por substâncias tem tratamento e, na maioria dos casos, é reversível. O objetivo é:
1. Remover ou ajustar a substância que causou o problema.
2. Aliviar os sintomas com medicamentos.
3. Prevenir complicações (como desidratação, trombose ou pneumonia).
4. Acompanhar a longo prazo para evitar recaídas.
Vamos entender cada parte do tratamento:
1. Medicamentos
Benzodiazepínicos (lorazepam, diazepam, clonazepam)
- Como funcionam?
Os benzodiazepínicos aumentam o GABA, um neurotransmissor que “acalma” o cérebro. Na catatonia, eles ajudam a destravar o sistema motor. - Exemplos:
- Lorazepam (Lorax): O mais usado para catatonia. Pode ser dado via oral, intramuscular ou intravenosa.
- Diazepam (Valium): Usado em casos leves a moderados.
- Clonazepam (Rivotril): Menos comum, mas pode ser usado se o lorazepam não estiver disponível.
- Quanto tempo leva para fazer efeito?
- Via intravenosa: 5 a 30 minutos.
- Via oral ou intramuscular: 30 minutos a 2 horas.
- Efeitos colaterais:
- Sonolência.
- Tontura.
- Fraqueza muscular.
- Em doses altas: depressão respiratória (risco de parar de respirar — por isso, o uso intravenoso deve ser feito em hospital).
- Duração do tratamento:
- A maioria das pessoas melhora em 1 a 3 dias com benzodiazepínicos.
- Em casos graves, pode ser necessário manter o remédio por algumas semanas e depois reduzir gradualmente.
⚠️ Aviso importante:
– Nunca pare de tomar benzodiazepínicos de repente! A suspensão abrupta pode causar abstinência grave, incluindo convulsões.
– Não misture com álcool ou outras drogas depressoras (como opioides), pois aumenta o risco de depressão respiratória.
Antipsicóticos (em casos específicos)
- Quando são usados?
- Se a catatonia foi causada por abstinência de antipsicóticos (por exemplo, a pessoa parou de tomar o remédio de repente).
- Se a catatonia não melhorar com benzodiazepínicos (o que é raro).
- Exemplos:
- Clozapina: O único antipsicótico que não piora a catatonia e pode até ajudar em alguns casos.
- Olanzapina ou quetiapina: Podem ser usadas com cuidado, mas não são a primeira escolha.
- Risco:
- A maioria dos antipsicóticos piora a catatonia e pode causar síndrome neuroléptica maligna. Por isso, só devem ser usados sob supervisão médica rigorosa.
Outros medicamentos (em casos específicos)
- Amantadina: Um remédio usado para Parkinson que pode ajudar em casos resistentes.
- Zolpidem: Um indutor do sono que, em doses baixas, pode melhorar a catatonia (mas é usado com cautela).
- Eletroconvulsoterapia (ECT): Em casos muito graves e resistentes, a ECT pode ser uma opção. Falaremos mais sobre isso adiante.
2. Psicoterapia
A psicoterapia não trata a catatonia diretamente, mas pode ajudar:
– Durante a recuperação: Para lidar com o trauma de ter passado por um episódio catatônico.
– Para prevenir recaídas: Se a catatonia foi causada por abuso de substâncias, a terapia pode ajudar a evitar novos episódios.
– Para familiares: A terapia familiar pode ajudar a entender a condição e aprender a lidar com possíveis recaídas.
Abordagens mais indicadas:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC):
- Ajuda a identificar pensamentos e comportamentos que podem levar ao uso de substâncias.
- Ensina estratégias de enfrentamento para situações de estresse.
- Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT):
- Ajuda a lidar com o medo de recaída e a aceitar as limitações sem se culpar.
- Terapia Familiar:
- Ensina a família a reconhecer sinais de alerta e a oferecer apoio sem pressionar.
3. Mudanças no dia a dia
Hidratação e alimentação
- Risco: Pessoas em estupor podem não sentir sede ou fome, levando à desidratação ou desnutrição.
- O que fazer:
- Oferecer água e alimentos leves (como sopas ou sucos) em pequenas quantidades.
- Se a pessoa não conseguir engolir, pode ser necessário soro na veia (hidratação intravenosa).
- Em casos graves, sonda nasogástrica (um tubo pelo nariz até o estômago) para alimentação.
Prevenção de trombose
- Risco: Ficar muito tempo imóvel aumenta o risco de trombose (coágulos nas pernas que podem ir para o pulmão).
- O que fazer:
- Movimentar as pernas da pessoa a cada 2 horas (mesmo que ela não consiga se mover sozinha).
- Meias de compressão (ajudam a circulação).
- Heparina (um anticoagulante) em casos graves (prescrito pelo médico).
Prevenção de pneumonia
- Risco: A imobilidade pode causar acúmulo de saliva nos pulmões, levando a pneumonia.
- O que fazer:
- Mudar a posição da pessoa a cada 2 horas (de lado, de barriga para cima, etc.).
- Fisioterapia respiratória (exercícios para ajudar a tossir e eliminar secreções).
- Antibióticos se houver sinais de infecção (febre, tosse com catarro).
Sono
- Risco: A catatonia pode bagunçar o sono, deixando a pessoa acordada à noite e sonolenta de dia.
- O que fazer:
- Rotina de sono: Tentar manter horários regulares para dormir e acordar.
- Ambiente escuro e silencioso à noite.
- Evitar telas (celular, TV) antes de dormir.
- Benzodiazepínicos (como lorazepam) podem ajudar a regular o sono, mas só devem ser usados com prescrição médica.
Exercício físico
- Benefícios:
- Ajuda a prevenir trombose e melhorar o humor.
- Estimula a circulação sanguínea e a recuperação motora.
- O que fazer:
- Caminhadas leves (mesmo que seja só pela casa).
- Alongamentos (ajudam a soltar os músculos rígidos).
- Fisioterapia (em casos graves, para recuperar os movimentos).
Rede de apoio
- Por que é importante?
A catatonia pode ser assustadora para a pessoa e para a família. Ter uma rede de apoio ajuda a: - Lidar com o estresse do episódio.
- Reconhecer sinais de recaída.
- Buscar ajuda rapidamente se os sintomas voltarem.
- Como construir:
- Falar com amigos e familiares sobre o que está acontecendo.
- Participar de grupos de apoio (como o CVV ou grupos para familiares de pessoas com transtornos mentais).
- Procurar um psicólogo para a família, se necessário.
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de catatonia pode ser um choque, tanto para a pessoa quanto para a família. Mas com o tratamento certo e algumas adaptações, é possível viver bem e prevenir novos episódios.
Para a pessoa com o diagnóstico
Nos primeiros dias após o episódio
- Não se culpe. A catatonia não é culpa sua — é uma reação do cérebro a uma substância.
- Siga o tratamento à risca. Tome os remédios nos horários certos e não pare por conta própria.
- Descanse. Seu corpo e sua mente passaram por um grande estresse. Dê tempo para se recuperar.
- Converse com seu médico. Se tiver dúvidas ou efeitos colaterais dos remédios, fale abertamente.
Como lidar com o medo de recaída
- Reconheça os sinais de alerta:
- Lentidão estranha.
- Dificuldade para falar ou se mover.
- Movimentos repetitivos sem motivo.
- Resistência a fazer o que é pedido.
- Tenha um plano de emergência:
- Anote o telefone do seu médico e de um hospital de referência.
- Avise pelo menos duas pessoas de confiança sobre os sinais de alerta.
- Se perceber que os sintomas estão voltando, procure ajuda imediatamente.
Autocuidado e autocompaixão
- Seja gentil consigo mesmo. Você está passando por um momento difícil — não exija perfeição.
- Faça coisas que te dão prazer. Mesmo que seja só assistir a um filme ou tomar um banho relaxante.
- Mantenha uma rotina. Isso ajuda a estabilizar o humor e a prevenir recaídas.
- Pratique exercícios leves. Caminhadas, ioga ou alongamentos podem ajudar a reduzir o estresse.
- Durma bem. O sono é essencial para a recuperação do cérebro.
Busque grupos de apoio
- CVV (Centro de Valorização da Vida): Oferece apoio emocional gratuito pelo telefone (188) ou chat online.
- Grupos de familiares de pessoas com transtornos mentais: Muitas cidades têm grupos presenciais ou online.
- Associações de saúde mental: Como a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) ou o Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP.
Para familiares e amigos
Como ajudar de forma efetiva
- Seja paciente. A pessoa pode não conseguir falar ou se mover — não é por teimosia.
- Não force a pessoa a fazer algo. Se ela estiver em negativismo, não insista — isso pode piorar a resistência.
- Ajude com as necessidades básicas. Ofereça água, comida e ajude a se movimentar para evitar trombose.
- Mantenha um ambiente calmo. Evite barulhos altos ou discussões.
- Anote os sintomas. Isso ajuda o médico a avaliar a evolução.
O que NÃO fazer
- ❌ Não diga “isso é frescura” ou “se esforça mais”. A pessoa não tem controle sobre o que está acontecendo.
- ❌ Não dê remédios por conta própria. Alguns medicamentos podem piorar a catatonia.
- ❌ Não deixe a pessoa sozinha por muito tempo. Ela pode precisar de ajuda para se alimentar ou se movimentar.
- ❌ Não ignore sinais de piora. Se a pessoa ficar mais rígida, parar de falar ou tiver febre, procure ajuda médica imediatamente.
Como cuidar de si mesmo
- Não se culpe. Você não causou a catatonia e não pode “consertar” sozinho.
- Peça ajuda. Converse com outros familiares, amigos ou um psicólogo.
- Tire um tempo para você. Cuidar de alguém com catatonia pode ser exaustivo — reserve um momento do dia para relaxar.
- Participe de grupos de apoio. Conversar com outras pessoas que passam pela mesma situação ajuda a reduzir o isolamento.
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações podem desencadear ou piorar a catatonia:
Gatilhos comuns
- Mudança na medicação: Aumentar ou diminuir a dose de um remédio sem orientação médica.
- Uso de drogas ou álcool: Mesmo em pequenas quantidades, podem desencadear um novo episódio.
- Estresse extremo: Situações de luto, perda de emprego ou conflitos familiares.
- Privação de sono: Dormir pouco pode aumentar a vulnerabilidade do cérebro.
- Doenças físicas: Infecções, febre ou desidratação podem piorar os sintomas.
Sinais de recaída
Fique atento a:
– Lentidão ou rigidez que não existia antes.
– Dificuldade para falar ou responder a perguntas.
– Movimentos repetitivos (como balançar o corpo ou bater os dedos).
– Resistência a fazer o que é pedido (negativismo).
– Olhar fixo ou falta de reação a estímulos.
Se perceber dois ou mais desses sinais, procure ajuda médica imediatamente.
Sinais de que precisa voltar ao médico
Alguns sinais indicam que algo não está certo e que é preciso ajustar o tratamento:
⚠️ Procure o médico se:
– Os sintomas não melhorarem em 3 dias com o tratamento.
– A pessoa parar de comer ou beber por mais de 24 horas.
– Aparecer febre, confusão ou rigidez extrema (pode ser síndrome neuroléptica maligna).
– A pessoa tiver alucinações ou delírios junto com a catatonia.
– Os efeitos colaterais dos remédios estiverem insuportáveis (como sonolência excessiva).
❗ Procure ajuda URGENTE (SAMU 192 ou UPA) se:
– A pessoa parar de respirar ou ficar muito sonolenta (sinal de overdose de benzodiazepínicos).
– Aparecer febre alta + rigidez muscular (sinal de síndrome neuroléptica maligna).
– A pessoa tiver convulsões.
– Houver sinais de trombose (dor e inchaço nas pernas, falta de ar).
Perguntas frequentes
1. “Tem cura?”
A catatonia induzida por substâncias tem tratamento e, na maioria dos casos, é reversível. Quando a substância que causou o problema é retirada ou ajustada, os sintomas costumam melhorar em dias ou semanas.
No entanto, algumas pessoas podem ter episódios recorrentes se:
– Continuarem usando a substância que causou o problema.
– Tiverem predisposição genética para catatonia.
– Não seguirem o tratamento corretamente.
Não é uma “cura definitiva”, mas com acompanhamento médico, é possível viver sem novos episódios.
2. “É para sempre?”
Não! A catatonia induzida por substâncias não é uma condição permanente. Ela é uma reação aguda a uma substância, e desaparece quando a causa é tratada.
No entanto, se a pessoa continuar usando a substância (por exemplo, continuar tomando um antipsicótico que causou a catatonia), os sintomas podem voltar.
3. “Posso trabalhar/estudar normalmente?”
Depende da gravidade do episódio e da recuperação:
– Se a catatonia foi leve e tratada rapidamente, a pessoa pode voltar às atividades normais em alguns dias.
– Se a catatonia foi grave ou durou semanas, pode ser necessário um período de afastamento para recuperação.
– Se a catatonia foi causada por um medicamento necessário (como um antipsicótico para esquizofrenia), o médico pode ajustar a dose ou trocar o remédio para permitir o retorno às atividades.
Dica: Converse com seu médico sobre adaptações no trabalho ou na escola, como:
– Horário flexível.
– Pausas para descanso.
– Redução da carga de estresse.
4. “Meus filhos podem ter também?”
A catatonia não é uma doença genética direta, mas algumas pessoas têm predisposição genética para desenvolvê-la quando expostas a certas substâncias.
Se você teve catatonia induzida por substâncias, seus filhos não necessariamente terão, mas podem ter:
– Maior sensibilidade a medicamentos psiquiátricos.
– Maior risco de desenvolver transtornos mentais (como esquizofrenia ou transtorno bipolar), que aumentam o risco de catatonia.
O que fazer?
– Informe o médico da família sobre seu histórico.
– Monitore o uso de medicamentos em seus filhos (especialmente antipsicóticos e antidepressivos).
– Ensine seus filhos sobre os riscos do uso de drogas.
5. “Como explicar para as outras pessoas?”
Muitas pessoas não conhecem a catatonia e podem fazer perguntas invasivas ou julgamentos. Aqui estão algumas formas de explicar:
Para amigos e familiares próximos:
“Eu tive uma reação a um remédio que afetou meu cérebro temporariamente. Foi como se meu corpo e minha mente tivessem travado, mas já estou melhorando. Não é contagioso e não é culpa minha — é uma condição médica como qualquer outra.”
Para colegas de trabalho ou escola:
“Passei por um problema de saúde que me deixou um pouco lento por alguns dias, mas já estou voltando ao normal. Se eu parecer distraído ou demorar para responder, não é por falta de educação — é parte da recuperação.”
Para crianças:
“Às vezes, o cérebro da gente fica cansado e precisa de um tempo para descansar. Foi isso que aconteceu comigo. Agora estou tomando remédios para ajudar meu cérebro a voltar ao normal.”
Dica: Se você não se sentir à vontade para explicar, não precisa dar detalhes. Você pode simplesmente dizer:
“Estou passando por um tratamento médico e preciso de um tempo para me recuperar.”
6. “Onde encontrar ajuda no Brasil?”
Serviços públicos (SUS):
- UBS (Unidade Básica de Saúde): Primeiro passo para encaminhamento.
- CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Atendimento especializado em saúde mental.
- CAPS II e III: Para adultos.
- CAPSi: Para crianças e adolescentes.
- CAPS AD: Para álcool e drogas.
- Hospitais psiquiátricos: Para casos graves que precisam de internação.
- Exemplo: Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP (São Paulo), Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre).
- SAMU 192: Para emergências.
- CVV 188: Apoio emocional gratuito.
Serviços particulares:
- Psiquiatras e neurologistas: Procure profissionais com experiência em psicofarmacologia.
- Clínicas de saúde mental: Algumas oferecem avaliação completa em um dia.
- Hospitais universitários: Muitos têm serviços de psiquiatria com preços acessíveis.
- Exemplo: HC-FMUSP (São Paulo), Hospital das Clínicas da UFMG (Belo Horizonte).
Grupos de apoio:
- CVV (Centro de Valorização da Vida): 188 (telefone) ou www.cvv.org.br (chat online).
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP): www.abp.org.br.
- Rede de Apoio em Saúde Mental: Grupos presenciais e online para familiares.
7. “Quanto custa o tratamento?”
O custo varia muito, mas aqui estão algumas estimativas:
Pelo SUS:
- Gratuito, incluindo consultas, exames e medicamentos.
Particular (convênio ou particular):
- Consulta com psiquiatra: R$ 200 a R$ 600 (dependendo da cidade e do profissional).
- Exames:
- Hemograma: R$ 50 a R$ 150.
- Ressonância magnética: R$ 500 a R$ 1.500.
- Eletroencefalograma: R$ 200 a R$ 500.
- Medicamentos:
- Lorazepam (genérico): R$ 10 a R$ 30 (caixa com 30 comprimidos).
- Diazepam (genérico): R$ 5 a R$ 20 (caixa com 20 comprimidos).
- Antipsicóticos (como clozapina): R$ 50 a R$ 200 (caixa com 30 comprimidos).
Dica: Alguns medicamentos são distribuídos gratuitamente pelo SUS, como:
– Lorazepam.
– Haloperidol.
– Clozapina.
8. “E se os remédios não funcionarem?”
Se a catatonia não melhorar com benzodiazepínicos, o médico pode tentar:
1. Aumentar a dose do benzodiazepínico (com cuidado para não causar depressão respiratória).
2. Trocar o benzodiazepínico (por exemplo, de lorazepam para diazepam).
3. Usar amantadina (um remédio para Parkinson que pode ajudar em casos resistentes).
4. Eletroconvulsoterapia (ECT):
– O que é? Um tratamento em que pequenas correntes elétricas são aplicadas no cérebro para “resetar” os circuitos.
– Quando é usada? Em casos muito graves e resistentes a medicamentos.
– É segura? Sim, quando feita por profissionais experientes. É um tratamento comprovado e eficaz para catatonia.
– Efeitos colaterais: Dor de cabeça, confusão temporária e perda de memória recente (que costuma melhorar em semanas).
Dica: A ECT não é como nos filmes. É feita sob anestesia geral, e a pessoa não sente dor.
Quando procurar ajuda urgente
A catatonia pode ser grave e até fatal se não for tratada. Fique atento aos sinais de alerta:
❗ Procure ajuda IMEDIATA (SAMU 192, UPA ou hospital) se:
- A pessoa parar de respirar ou ficar muito sonolenta (sinal de overdose de benzodiazepínicos).
- Aparecer febre alta + rigidez muscular (sinal de síndrome neuroléptica maligna).
- A pessoa tiver convulsões.
- Houver sinais de trombose (dor e inchaço nas pernas, falta de ar).
- A pessoa não conseguir engolir e estiver babando muito (risco de pneumonia).
- A pessoa não comer nem beber por mais de 24 horas.
⚠️ Agende uma consulta em breve se:
- Os sintomas não melhorarem em 3 dias com o tratamento.
- A pessoa parar de falar ou se mover por mais de 12 horas.
- Aparecerem novos sintomas, como alucinações ou delírios.
- Os efeitos colaterais dos remédios estiverem insuportáveis.
📞 CVV (Centro de Valorização da Vida)
Se você ou um familiar estiverem em sofrimento emocional, ligue para o CVV 188 ou acesse www.cvv.org.br. O atendimento é gratuito, sigiloso e 24 horas.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022. Disponível em: https://icd.who.int/.
- American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- Fink, M.; Taylor, M. A. Catatonia: A Clinician’s Guide to Diagnosis and Treatment. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
- Walther, S.; Stegmayer, K. Structure and Neural Mechanisms of Catatonia. The Lancet Psychiatry, 2019.
- Lee, J. W.; Schwartz, D. L.; Hallmayer, J. Catatonia in a Psychiatric Intensive Care Facility: Incidence and Response to Benzodiazepines. Annals of Clinical Psychiatry, 2000.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.