Definição e conceito
A automutilação como ato impulsivo é um comportamento de autolesão voluntária, não planejada, desencadeado por uma desregulação emocional aguda. Na semiologia psiquiátrica, enquadra-se no domínio dos impulsos e compulsões patológicas, especificamente na categoria dos impulsos agressivos autodestrutivos. O ato é caracterizado por sua natureza impulsiva, ou seja, uma ação súbita, não premeditada, realizada em resposta a um estado emocional avassalador, com baixa consideração das consequências. O comportamento visa, primariamente, a regulação de um estado psíquico insuportável e não, necessariamente, a morte (intenção suicida), embora possa coexistir com ideação suicida e representar um fator de risco significativo para ela.
A terminologia é crucial para o diagnóstico diferencial:
- Automutilação não suicida (ANS) / Non-suicidal self-injury (NSSI): Conceito do DSM-5 que designa o dano corporal autoinfligido repetido, de forma deliberada, mas sem intenção letal. O ato impulsivo é uma das formas de apresentação da ANS.
- Comportamento suicida: Inclui ideação, planejamento, gestos e tentativas de suicídio, onde há intenção consciente de morrer. A automutilação impulsiva pode evoluir para um ato suicida, mas são fenômenos distintos na motivação inicial.
- Síndrome de automutilação estereotipada: Comum em quadros de deficiência intelectual e transtornos do neurodesenvolvimento (como o Transtorno do Espectro Autista), caracteriza-se por comportamentos repetitivos e ritualizados (bater a cabeça, morder-se), muitas vezes sem a mesma carga de desregulação emocional aguda observada no ato impulsivo.
- Automutilação grave psicótica: Atos extremos como autoenucleação (extração do próprio olho) ou autoamputação, associados a estados psicóticos (esquizofrenia em estado alucinatório-delirante, psicoses tóxicas). Embora possam ter um componente impulsivo, o contexto psicopatológico é radicalmente diferente.
Epidemiologicamente, a automutilação não suicida, incluindo a forma impulsiva, é mais prevalente em adolescentes e adultos jovens, com taxas em populações comunitárias que podem variar de 6% a 17%. É um comportamento marcadamente associado ao Transtorno da Personalidade Borderline (TPB), onde sua prevalência pode ultrapassar 70%. Também é observada com frequência em transtornos depressivos, de ansiedade, de estresse pós-traumático, transtornos alimentares e no Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).
Apresentação clínica
A apresentação clínica é centrada na rápida sucessão entre um estímulo desregulador, um estado afetivo intolerável e o ato comportamental impulsivo de autolesão.
Domínio Afetivo:
- Instabilidade emocional intensa: Reatividade acentuada do humor a estímulos interpessoais ou ambientais, com crises de irritabilidade, ansiedade intensa ou disforia (sentimento de mal-estar, inquietação, infelicidade). Estas oscilações são de cura duração (horas, raramente dias).
- Sentimentos crônicos de vazio: Um pano de fundo afetivo comum, descrito como um vazio interno, uma anestesia emocional ou um tédio profundo, do qual o ato de automutilação pode servir para "escapar" ou "sentir algo".
- Raiva intensa e inapropriada: Dificuldade extrema em controlar a raiva, que pode ser dirigida para si mesmo na forma do ato impulsivo. O paciente pode relatar uma explosão interna de sentimentos que demanda uma ação física imediata para ser contida.
Domínio Cognitivo:
- Pensamentos dicotômicos e catastróficos: Em momentos de crise, o pensamento se polariza ("tudo ou nada", "bom ou mau"). A percepção da situação é de impossibilidade de resolução ou escape, gerando um estado de desespero cognitivo.
- Dissociação transitória: Muitos pacientes descrevem um estado de "anestesia", "estar fora do corpo" ou "não sentir nada" imediatamente antes do ato. A automutilação surge então como uma tentativa de interromper esta dissociação e reconectar-se com a realidade física.
- Foco na ação: Há uma constrição da capacidade de pensar em alternativas. A mente fica fixada na ideia do ato autolesivo como única solução possível para aliviar o sofrimento psíquico. Não há um planejamento elaborado.
Domínio Comportamental:
- Ato impulsivo de autolesão: O comportamento em si é tipicamente realizado de forma rápida, utilizando objetos disponíveis (lâminas, estiletes, pontas de cigarro, unhas). As formas mais comuns incluem cortes superficiais na pele dos antebraços, coxas ou abdômen, queimaduras, bater-se, ou escoriações profundas. O ato é frequentemente descrito como uma "liberação", um "alívio" da tensão insuportável.
- Padrão repetitivo: O comportamento tende a se repetir, pois o alívio obtido é reforçador (negativo, por remover o estado emocional aversivo). Pode tornar-se um padrão automatizado de resposta ao estresse.
- Comportamentos impulsivos em outras áreas: Frequentemente, o paciente apresenta histórico de impulsividade em outras esferas (gastos financeiros, sexo de risco, uso de substâncias, compulsão alimentar), conforme critérios diagnósticos do TPB.
Domínio Somático:
- Lesões corporais: Presença de cicatrizes lineares, paralelas, de diferentes idades, em áreas acessíveis e frequentemente ocultáveis. Lesões mais recentes podem apresentar-se como cortes, queimaduras ou equimoses. A gravidade das lesões é geralmente leve a moderada no contexto do ato impulsivo não psicótico.
- Baixa percepção da dor: Muitos pacientes relatam uma analgesia relativa durante o ato, o que facilita sua execução. Após o ato, a sensação de dor física pode ser paradoxalmente reconfortante, por confirmar a existência corporal e substituir a dor psíquica.
Exemplo Clínico Conciso:
Paciente J., 19 anos, relata que após uma discussão por mensagem com o namorado, sentiu-se "invisível" e "transbordando de raiva". Descreve que começou a tremer, seus pensamentos aceleraram e ela teve a certeza de que "aquilo nunca iria acabar". Sem planejar, pegou um estilete da mesa de estudos e realizou três cortes superficiais no antebraço. Relata que, imediatamente após ver o sangue, sentiu "um alívio físico", como se "a pressão tivesse saído", e conseguiu se acalmar. Expressa vergonha do ato e medo de que se repita.
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia da automutilação impulsiva é entendida através da interação entre sistemas neurobiológicos de regulação emocional, dor e controle inibitório.
Disfunção nos Sistemas de Neurotransmissão:
- Sistema Serotoninérgico: A hipofunção serotoninérgica está fortemente associada à impulsividade e à desregulação afetiva. A serotonina modula a agressividade, o impulso e a estabilidade do humor. Sua redução pode diminuir o limiar para comportamentos impulsivos e autodestrutivos.
- Sistema Opioide Endógeno: Este sistema está envolvido na modulação da dor e do estresse. Um modelo propõe que indivíduos que se automutilam podem ter um tonus opioide endógeno basal mais baixo ou uma regulação disfuncional, levando a estados de anedonia ou vazio. O ato autolesivo, ao causar dano tecidual, liberaria opioides endógenos, produzindo um efeito analgésico e eufórico momentâneo que reforça o comportamento.
- Sistema Dopaminérgico: Envolvido na motivação e na busca por recompensa. A desregulação neste circuito pode estar associada à busca do alívio imediato proporcionado pelo ato, em detrimento das consequências negativas de longo prazo.
Circuitos Neurais e Neuroimagem:
- Circuito Pré-frontal – Amígdala: Evidências apontam para uma hipoatividade de regiões pré-frontais (especialmente o córtex pré-frontal ventromedial e orbitofrontal), responsáveis pelo controle inibitório, tomada de decisão racional e regulação emocional "de cima para baixo". Em contrapartida, há uma hiperatividade da amígdala, estrutura ligada ao processamento de ameaças e reações emocionais imediatas ("de baixo para cima"). Este desequilíbrio favorece a dominância da resposta emocional bruta sobre a modulação cognitiva.
- Estriado e Nucleus Accumbens: Como citado nas fontes, hiperatividade no estriado e anormalidades no nucleus accumbens (parte do sistema de recompensa) estão ligadas à emergência de atos impulsivos e compulsivos. A estimulação cerebral profunda nestas áreas pode, dependendo do parâmetro, reduzir a compulsividade ou deflagrar a impulsividade, ilustrando a fina linha e a interconexão entre estes fenômenos no mesmo circuito.
- Processamento da Dor: Estudos mostuem alterações na rede de processamento da dor, com ativação atenuada em áreas como a ínsula e o córtex cingulado anterior durante a experiência de dor em indivíduos que se automutilam, o que poderia sustentar a relativa analgesia durante o ato.
Modelo Integrado:
Um modelo atual integra esses fatores: frente a um estímulo estressor, um indivíduo com vulnerabilidade biológica (disfunção serotoninérgica/opioide) e um circuito pré-frontal-amígdala desregulado experimenta uma onda de excitação emocional avassaladora e disfórica. A capacidade de pensar em estratégias adaptativas de regulação (como pedir ajuda, sair da situação) está comprometida pela hipofunção pré-frontal. O comportamento de automutilação emerge como uma estratégia mal-adaptativa, porém eficaz no curto prazo, para reduzir esta excitação através da liberação de opioides endógenos e do foco em uma sensação física concreta, restaurando momentaneamente um senso de controle.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência: Pode haver evidências de lesões recentes (curativos, cortes superficiais) ou cicatrizes antigas. O paciente pode usar roupas de manga comprida mesmo em clima quente.
- Humor e Afeto: Humor frequentemente disfórico, irritável ou ansioso. Afeto lábil, com reatividade intensa durante a narrativa de eventos estressantes. Pode haver menção a sentimentos de vazio.
- Pensamento: O conteúdo pode revelar autodesvalia, desesperança e, crucialmente, ideação suicida ativa ou passiva. É imperativo diferenciar o pensamento automutilatório ("preciso me cortar para aliviar esta angústia") do pensamento suicida ("preciso me matar para acabar com este sofrimento"). O curso do pensamento pode ser acelerado durante crises.
- Percepção: Geralmente intacta. Em casos de automutilação grave psicótica, podem estar presentes alucinações (ex.: vozes ordenando a automutilação) ou delírios (ex.: de culpa ou necessidade de autopunição).
- Impulsividade: Julgamento e insight podem estar prejudicados no que tange ao comportamento autolesivo, com o paciente reconhecendo o problema mas sentindo-se impotente para controlá-lo.
Instrumentos e Escalas:
- Entrevista Clínica Estruturada: A avaliação da intenção (suicida vs. não suicida), frequência, métodos, gravidade das lesões, gatilhos e funções do comportamento é fundamental.
- Escala de Comportamentos Autolesivos (Deliberate Self-Harm Inventory – DSHI): Avalia métodos, frequência e severidade.
- Inventário de Funções da Automutilação (Functional Assessment of Self-Mutilation – FASM): Foca em entender as razões para o comportamento (regulação afetiva, auto-punição, influência social, etc.).
- Escala de Impulsividade de Barratt (BIS-11): Avalia traços de impulsividade.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas | Contexto da Automutilação |
|---|---|---|
| Transtorno da Personalidade Borderline | Instabilidade afetiva, relações intensas, medo de abandono, sentimento de vazio, raiva intensa. | Ato impulsivo para regular emoção avassaladora (raiva, ansiedade, dissociação) ou aliviar sentimento de vazio. Critério diagnóstico. |
| Episódio Depressivo Maior | Humor deprimido, anedonia, alterações de peso/sono, fadiga, culpa. | Pode ocorrer como expressão de autodesvalia extrema, culpa delirante ou como tentativa de "sentir algo" diante da anedonia. Risco suicida elevado. |
| Esquizofrenia (Automutilação Grave) | Psicose crônica, delírios, alucinações, embotamento afetivo. | Atos graves (autoenucleação, amputação) em resposta a alucinações imperativas ou delírios (ex.: purificação, sacrifício). Não é primariamente para regulação emocional. |
| Transtorno Obsessivo-Compulsivo | Presença de obsessões e compulsões reconhecidas como excessivas. | A automutilação pode surgir como uma compulsão em resposta a uma obsessão (ex.: pensamento de contaminação levando a esfregar/lesar a pele até "limpar"). |
| Deficiência Intelectual / TEA | Prejuízo cognitivo e adaptativo. No TEA, dificuldades de comunicação e interação social. | Comportamento estereotipado (bater a cabeça), muitas vezes para comunicação de desconforto, dor, frustração ou para autoestimulação, sem a mesma carga de desregulação emocional complexa. |
| Psicose Tóxica (por alucinógenos) | Estado psicótico agudo induzido por substância. | Automutilação grave e impulsiva durante o estado alterado de consciência, por confusão, terror ou em resposta a alucinações. |
| Transtorno de Estresse Pós-Traumático | Revivência, evitação, hipervigilância, alterações de humor e cognição. | Pode ocorrer como estratégia de regulação emocional frente a flashbacks ou dissociação, ou como forma de auto-punição relacionada a culpa do sobrevivente. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Subestimar o Risco Suicida: Assumir que por ser "apenas" automutilação não há perigo de morte. A impulsividade e o acesso a métodos são fatores de risco. A automutilação é um preditor forte para tentativas de suicídio futuras.
- Confundir com Manipulação: Rotular o comportamento como "meramente manipulador" é um erro grave. Mesmo que tenha consequências interpessoais, sua função primária é intrapsíquica (regulação emocional). Ignorar isso inviabiliza o tratamento.
- Não Investigar a Função: Tratar todos os casos da mesma forma sem entender se a função é anti-dissociativa, de alívio da raiva, auto-punição ou outra. O plano terapêutico deve ser direcionado à função específica.
- Negligenciar Comorbidades: Focar apenas no comportamento autolesivo e não diagnosticar e tratar condições subjacentes como TPB, depressão ou TEPT.
Condições associadas
A automutilação impulsiva raramente é um diagnóstico isolado. Ela é um sintoma transversal a vários transtornos, adquirindo significados e nuances diferentes em cada um.
- Transtorno da Personalidade Borderline (TPB): É a condição paradigmática associada. A automutilação é um dos critérios diagnósticos (DSM-5-TR Critério 5) e funciona como principal mecanismo de regulação emocional. Está intimamente ligada à instabilidade afetiva, à raiva e aos sentimentos de vazio.
- Transtornos Depressivos: No contexto da depressão, a automutilação pode expressar uma autodesvalia profunda, um desejo de autopunição por culpa (que pode ser delirante) ou uma tentativa de romper com um estado de embotamento e anedonia.
- Transtornos de Ansiedade e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): A automutilação surge como uma estratégia desesperada para reduzir estados de hiperativação ansiosa, pânico ou para interromper flashbacks e episódios dissociativos.
- Transtornos Alimentares: Comorbidade frequente com o TPB. A automutilação e os comportamentos purgativos podem compartilhar funções semelhantes de controle, punição corporal e regulação de afetos negativos.
- Transtornos por Uso de Substâncias: A impulsividade é um fator comum. A automutilação pode ocorrer em estados de intoxicação (perda de inibição) ou durante a abstinência, como forma de lidar com o craving ou a disforia.
- Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC): Como citado, a automutilação pode assumir um caráter compulsivo, executada para neutralizar uma obsessão ou para reduzir a ansiedade de forma ritualizada.
- Esquizofrenia e Outras Psicoses: Associada a formas graves de automutilação (auto-mutilação), ocorrendo no contexto de sintomas psicóticos ativos, especialmente alucinações imperativas ou delírios de conteúdo somático, religioso ou de culpa.
Correlação com Manuais Diagnósticos:
- DSM-5-TR: A automutilação não suicida (ANS) é listada como uma condição que requer atenção clínica (na seção "Outras Condições que Podem Ser Foco de Atenção Clínica"), com critérios próprios. É também um critério diagnóstico para o Transtorno da Personalidade Borderline.
- CID-11: Inclui a categoria "Comportamento autolesivo não suicida" (código MB26.B) como um diagnóstico distintivo. Também é um sintoma associado a vários transtornos, como o Transtorno de Personalidade Borderline (6D10.5).
Implicações terapêuticas
O tratamento da automutilação impulsiva é sempre o tratamento do transtorno de base, com intervenções específicas para modular a impulsividade e oferecer estratégias alternativas de regulação emocional.
Abordagens Psicoterapêuticas (com maior evidência):
- Terapia Comportamental Dialética (DBT): Desenvolvida especificamente para o TPB, é o tratamento de primeira linha. Foca em desenvolver habilidades de: 1) Regulação emocional (identificar, nomear e modular emoções); 2) Tolerância ao mal-estar (suportar crises sem agir impulsivamente); 3) Efetividade interpessoal (comunicação assertiva); 4) Mindfulness (observar pensamentos e emoções sem julgamento). A DBT reduz significativamente a frequência e a gravidade dos atos autolesivos.
- Terapia Focada em Esquemas: Útil para TPB e transtornos de personalidade. Trabalha os esquemas disfuncionais iniciais (ex.: abandono, desconfiança) que geram os desencadeantes emocionais, promovendo modos de enfrentamento mais saudáveis.
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para ANS: Versões adaptadas da TCC focam em identificar a cadeia de pensamentos, emoções e gatilhos que levam ao ato, desenvolvendo planos de resposta alternativa e reestruturando crenças disfuncionais sobre o self.
- Terapia Baseada em Mentalização (MBT): Ajuda o paciente a entender os estados mentais próprios e dos outros, melhorando a regulação afetiva e reduzindo atos impulsivos motivados por interpretações distorcidas.
Abordagens Farmacológicas (adjuvantes):
A medicação não trata a automutilação diretamente, mas modula sintomas-alvo que a precipitam ou a mantêm.
- Antidepressivos ISRS: Fluoxetina, sertralina, escitalopram. Podem ajudar na instabilidade afetiva, impulsividade e sintomas depressivos/ansiosos subjacentes. O efeito é modesto e lento.
- Antipsicóticos Atípicos de Segunda Geração: Aripiprazol e Olanzapina têm evidência para redução da impulsividade, agressividade e instabilidade afetiva no TPB. Baixas doses são frequentemente utilizadas.
- Estabilizadores de Humor: Lamotrigina (com cautela devido ao risco de SJS) e Topiramato podem auxiliar na modulação da labilidade afetiva e no controle de impulsos.
- Naltrexona: Um antagonista opioide. A teoria é que bloqueando a liberação/recepção de opioides endógenos durante a automutilação, reduziria o efeito reforçador do ato. As evidências são mistas, mas pode ser uma opção em casos refratários.
Impacto Prognóstico e na Resposta:
A presença de automutilação impulsiva é um marcador de maior gravidade clínica, maior risco de suicídio e pior prognóstico funcional. Ela complica o manejo terapêutico e exige uma aliança terapêutica sólida e validante. A resposta ao tratamento é medida primariamente pela redução da frequência e da letalidade dos atos, e pelo desenvolvimento de estratégias adaptativas de coping. A remissão completa do comportamento é possível, especialmente com terapias especializadas como a DBT, mas recaídas podem ocorrer em períodos de alto estresse.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
Pacientes descrevem a automutilação como um "mecanismo de sobrevivência". A experiência é frequentemente de um sofrimento emocional tão intenso e indiferenciado que se torna físico ("parece que vou explodir", "é uma dor por dentro que não consigo localizar"). O ato de se cortar ou queimar é sentido como uma forma de "liberar" essa pressão, de "trazer a dor para fora", onde ela se torna visível, localizável e, portanto, mais manejável. O alívio subsequente é real, mas seguido de sentimentos de vergonha, culpa e medo, criando um ciclo vicioso. Muitos relatam um estado de dissociação ("não estava no meu corpo") antes ou durante o ato.
Orientações para Comunicação Clínica:
- Abordagem Não-Julgadora e Validante: Iniciar com validação do sofrimento ("Isso deve ser muito difícil para você") em vez de críticas ou choque. Evitar frases como "Por que você faz isso consigo mesmo?".
- Investigar a Função, Não Apenas o Ato: Perguntar: "O que acontece dentro de você antes de se machucar?"; "O que o ato faz por você naquele momento?"; "Como você se sente depois?". Isso demonstra interesse na experiência, não apenas no comportamento.
- Diferenciar Suicídio de Automutilação: Perguntar diretamente: "Na hora em que você se machucou, você queria morrer ou estava buscando alívio de um sentimento ruim?". Esclarecer essa distinção é fundamental para o manejo do risco.
- Envolver a Família com Psicoeducação: Explicar que a automutilação não é "chamar atenção" no sentido pejorativo, mas um sinal de sofrimento extremo e uma tentativa desadaptativa de lidar com ele. Orientar a família a não punir, mas a oferecer suporte e ajudar a conectar o paciente com estratégias de coping combinadas previamente (ex.: usar técnicas de grounding, buscar contato com o terapeuta).
- Elaborar um Plano de Segurança Colaborativo: Criar, em conjunto com o paciente, uma lista hierárquica de ações a tomar quando o impulso surgir (ex.: 1. Usar técnica de gelo no pulso; 2. Ligar para um amigo; 3. Escrever em um diário; 4. Ligar para o CAPS/plantão). Incluir contatos de emergência.
Impacto Funcional:
O impacto é significativo. No trabalho ou estudos, a desregulação emocional e os episódios de automutilação podem levar a faltas, queda de produtividade e dificuldade de concentração. Nos relacionamentos, gera medo, desgaste e conflitos, pois parceiros e familiares muitas vezes se sentem assustados e impotentes. A qualidade de vida é comprometida pelo sofrimento constante, pela vergonha das cicatrizes (que pode levar ao isolamento social) e pelos gastos com atendimentos de urgência. O medo constante do próximo impulso cria um estado de hipervigilância e exaustão.
Perguntas frequentes
1. Para profissionais: Como diferenciar um corte acidental de um ato de automutilação?
Observe o padrão. Acidentes são únicos, em áreas expostas e de risco (mãos durante tarefas). Automutilação tende a ser repetitiva, com múltiplas lesões lineares e paralelas, em áreas acessíveis mas frequentemente ocultas (parte interna dos braços, coxas, abdômen). A história do paciente e a presença de cicatrizes antigas de padrão similar são os melhores indicadores.
2. Para profissionais: O paciente diz que não sente dor quando se corta. Isso é possível?
Sim, é um relato comum. Pode estar relacionado a estados dissociativos durante o ato, à liberação de opioides endógenos que produzem analgesia, ou a uma dessensibilização ao longo do tempo. A "dor" que eles buscam aliviar é psíquica, não física.
3. Para pacientes/famílias: Se a pessoa se machuca sem querer morrer, por que ainda é considerado um comportamento de risco?
Porque a impulsividade e o acesso a métodos perigosos são fatores de risco por si só. Em um momento de desespero ainda maior, o mesmo método pode ser usado com maior letalidade. Estudos mostram que pessoas com histórico de automutilação têm um risco de suicídio dezenas de vezes maior que a população geral. É um sinal de alerta máximo.
4. Para pacientes/famílias: Como reagir quando descobrimos que um familiar se automutilou?
Evite reações de pânico, raiva ou acusações. Ofereça suporte emocional primeiro: "Estou aqui com você. Você está passando por muita dor, não é?". Incentive a procurar ajuda profissional. Posteriormente, em um momento calmo, converse sobre a criação de um plano de segurança em conjunto.
5. Para todos: Automutilação é "moda" ou "chamar atenção"?
Não. É um comportamento patológico associado a um sofrimento mental genuíno e intenso. Embora a divulgação na mídia possa influenciar a forma como alguns adolescentes experimentam o comportamento, sua raiz é sempre a dificuldade extrema de regular emoções avassaladoras. Desconsiderá-lo como "manipulação" é um erro clínico grave que impede o acesso ao tratamento adequado.
6. Para pacientes: Existe tratamento eficaz? Vou fazer isso para sempre?
Sim, existem tratamentos eficazes, especialmente terapias como a Terapia Comportamental Dialética (DBT), desenvolvidas para isso. O objetivo não é apenas parar de se machucar, mas aprender a tolerar e regular as emoções de forma saudável. Muitas pessoas conseguem superar esse comportamento e viver sem ele. Não é uma sentença vitalícia.
7. Para profissionais: Como manejar a automutilação em serviços públicos como o CAPS?
É fundamental que as equipes dos CAPS estejam treinadas em abordagens não-julgadoras e em técnicas básicas de validação e contenção. A criação de grupos de habilidades baseados na DBT é uma estratégia viável e eficaz no SUS. O plano terapêutico singular (PTS) deve incluir o manejo da automutilação, com envolvimento da família e um plano de crise claro, incluindo os fluxos para atendimento de urgência.
8. Para famílias: Devemos esconder todos os objetos cortantes de casa?
Isso pode ser necessário em momentos de crise aguda e alto risco. No entanto, a estratégia de longo prazo não é criar um ambiente "à prova de automutilação", mas sim ajudar a pessoa a desenvolver autocontrole interno. Esconder objetos pode ser parte de um plano de segurança temporário, mas deve ser combinado com o tratamento para desenvolver habilidades de regulação emocional.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11). 2019/2021.
- Linehan, M. M. Treinamento de Habilidades para o Transtorno da Personalidade Borderline. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Hawton, K., Saunders, K. E. A., & O’Connor, R. C. (2012). Self-harm and suicide in adolescents. The Lancet, 379(9834), 2373–2382.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.