Definição e conceito
Amnésia retrógrada é um distúrbio mnêmico caracterizado pela impossibilidade ou dificuldade de recordar eventos, informações e experiências que ocorreram antes da ação do agente causal, neste caso, um traumatismo craniano (TCE). É também denominada amnésia de evocação, pois refere-se especificamente à falha no processo de recuperação (evocação) de memórias que foram adequadamente fixadas e armazenadas no longo prazo. Distingue-se da amnésia anterógrada (ou de fixação), que é a incapacidade de formar novas memórias após o evento causal.
Na psicopatologia, a amnésia retrógrada é classificada como uma amnésia orgânica, resultante de uma lesão física ou disfunção cerebral estrutural. No contexto do TCE, ela frequentemente não ocorre isoladamente, mas forma um padrão retroanterógrado (ou mista), combinando dificuldade de evocação do passado (retrógrada) com dificuldade de fixação do presente (anterógrada). Este padrão é comum após traumatismos craniencefálicos.
A amnésia retrógrada segue, em geral, a lei de Ribot (ou lei da regressão mnêmica), que postula que as memórias mais recentes são mais vulneráveis à destruição, enquanto as mais antigas e consolidadas são mais resistentes. Assim, após um TCE, o paciente pode perder a memória de eventos que ocorreram dias, semanas ou meses antes do trauma, preservando relativamente memórias remotas (da infância, por exemplo). A extensão do período amnésico retrógrado pode variar de minutos a anos, sendo um importante indicador da gravidade da lesão.
Terminologia técnica: Amnésia Retrógrada (Retrograde Amnesia); Hipomnésia Retrógrada (dificuldade, não completa impossibilidade); Amnésia de Evocação; Amnésia Retroanterógrada (mixed anterograde-retrograde amnesia).
Apresentação clínica
A apresentação clínica da amnésia retrógrada em TCE é dominada por déficits na memória declarativa (explícita), particularmente na memória episódica – a recordação de eventos pessoais específicos com seu contexto temporal e espacial.
Domínio Cognitivo:
- Evocação de Memórias Pré-Trauma: O paciente demonstra uma lacuna ou gradiente de dificuldade para recordar eventos que antecedem o trauma. Perguntas como "O que você fez no dia anterior ao acidente?" ou "Qual foi a última conversa que teve com sua família antes do trauma?" podem não ser respondidas. A memória para eventos públicos (semântica) do mesmo período também pode estar comprometida.
- Preservação Relativa de Memórias Remotas: O paciente pode recordar detalhes de sua infância, escola, antigos empregos ou eventos históricos públicos de longa data com maior facilidade. Esta preservação é, porém, relativa; em TCEs graves ou com evolução para quadros demenciais, memórias remotas também podem ser gradualmente perdidas.
- Gradiente Temporal: A amnésia não é uniforme. Há um gradiente onde memórias mais próximas ao trauma são mais afetadas. O limite do período amnésico pode ser preciso ("não lembro nada das 24 horas antes do acidente") ou difuso ("os últimos meses estão muito confusos").
- Consciência do Déficit: Depende da extensão do dano cognitivo global. Em alguns casos, o paciente expressa frustração e preocupação pela perda de memória. Em outros, especialmente se associada à anosognosia (como em algumas demências), pode não perceber ou minimizar o problema.
Domínio Comportamental e Funcional:
- Desorientação Autobiográfica: O paciente pode ter dificuldade em contar sua história recente, gerando incongruências em entrevistas ou avaliações.
- Impacto na Continuidade Identitária: A perda de memórias pessoais recentes pode afetar a percepção de continuidade da própria vida e identidade, especialmente se eventos significativos (como mudanças de trabalho, relações) estão no período amnésico.
- Dependência para Reconstrução: Frequentemente, o paciente depende de familiares, amigos ou registros (como fotos, diários) para reconstruir o período perdido. Esta reconstrução pode ser aceita sem crítica ou, em casos de confabulação, misturar-se com falsas memórias.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Paciente A: Homem de 35 anos, TCE moderado em acidente de moto. Na avaliação 3 meses depois, apresenta amnésia retrógrada lacunar de aproximadamente 48 horas pré-trauma. Não recorda a festa de aniversário que participou dois dias antes, nem a discussão com seu chefe no dia do acidente. Recorda claramente detalhes do seu trabalho e projetos de seis meses anteriores.
- Paciente B: Mulher de 60 anos, TCE grave após queda. Evolui com quadro demencial. Apresenta amnésia retrógrada extensa, perdendo progressivamente memórias dos últimos 5 anos (não recorda a mudança para sua atual casa), enquanto ainda evoca, com emoção, memórias de sua juventude e do nascimento dos filhos.
Neurobiologia e fisiopatologia
A amnésia retrógrada decorrente de TCE está ligada à disfunção ou lesão de estruturas cerebrais críticas para a consolidação, armazenamento e recuperação da memória.
Estruturas e Circuitos Envolvidos:
- Região Temporal Medial / Sistema Límbico: Esta é a região mais crucial. Lesões ou concussões dos hipocampi (bilaterais ou unilateral significativa) comprometem diretamente a evocação de memórias episódicas. O hipocampo é essencial para a formação de novas memórias e também para a recuperação de memórias recentes ainda dependentes de sua integração.
- Córtex Pré-Frontal: Lesões frontais, comuns em TCEs, podem contribuir para a amnésia retrógrada através de dois mecanismos: (1) comprometimento da memória de origem (source memory) e do contexto temporal, dificultando a organização e recuperação ordenada das memórias; (2) déficits na memória de trabalho e funções executivas, necessárias para a busca e reconstrução eficiente das memórias armazenadas.
- Córtex Parietal e Temporal Lateral: Áreas envolvidas na integração de informações semânticas e espaciais, que fornecem o contexto para as memórias episódicas. Lesões podem causar uma desorganização do "arquivo" mnêmico.
- Circuitos de Conexão: A interrupção de conexões entre o hipocampo, o córtex pré-frontal e as áreas de associação cortical (via fascículo uncinado, por exemplo) pelo trauma, edema ou lesão axonal difusa, é um mecanismo importante, especialmente na amnésia retroanterógrada.
Mecanismos Fisiopatológicos no TCE:
- Lesão Axonal Difusa: O mecanismo de aceleração-desaceleração no TCE causa estiramento e ruptura de axônios, disruptando redes de comunicação neural essenciais para a memória.
- Edema e Isquemia: O edema cerebral post-trauma e alterações na microcirculação podem causar hipófunção secundária em áreas críticas, mesmo sem lesão estrutural macroscópica inicial.
- Processos de Consolidação Interrompidos: Memórias recentes (pré-trauma) estão em um estado de consolidação dependente do hipocampo. O trauma interrompe este processo de transferência para o córtex neocortical para armazenamento permanente, tornando essas memórias mais vulneráveis à perda. Memórias remotas já estão consolidadas independentemente do hipocampo (armazenadas no neocortex), sendo mais resistentes.
- Alterações Neurotransmissoras: O trauma pode desregular sistemas de neurotransmissão envolvidos na memória, como o glutamatérgico (excitotoxicidade), o GABAérgico, e sistemas moduladores como a acetilcolina (base do córtex anterior e septo) e a noradrenalina. A disfunção do sistema acetilcolínico, por exemplo, é conhecida por prejudicar a atenção e a evocação.
Evidências de Neuroimagem: Estudos com RM (ressonância magnética) e RM funcional (fMRI) em pacientes com TCE frequentemente mostram:
- Redução de Volume Hipocampal: Correlacionada com a extensão dos déficits de memória episódica, tanto anterógrada quanto retrógrada.
- Alterações na Conectividade Funcional: Diminuição da conectividade entre o hipocampo e o córtex pré-frontal medial, áreas envolvidas na recuperação autobiográfica.
- Lesões Focais: Identificação de contusões ou hematomas nas regiões temporal medial, frontal basal ou diencefálica (tálamo), que são associadas a síndromes amnésicas mais graves e persistentes.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Avaliação da Memória: Teste específico para memória retrógrada. Não se limitar a perguntas sobre o trauma. Incluir:
- Eventos Autobiográficos Recentes: "Qual foi seu último aniversário? Como foi celebrado?" "Descreva o que você fez na semana anterior ao acidente."
- Eventos Autobiográficos Remotos: "Descreva seu primeiro dia na escola atual/faculdade." "Conte sobre um evento importante da sua adolescência."
- Eventos Semânticos/ Públicos: "Quem ganhou a última Copa do Mundo?" "Qual foi a última grande eleição nacional?"
- Testes Padronizados: Instrumentos como o Teste de Memória Autobiográfica (parte de baterias mais amplas) podem ser usados.
- Atenção e Funções Executivas: Avaliar, pois déficits nessas áreas podem prejudicar o desempenho em testes de evocação, simulando ou exacerbando uma amnésia retrógrada.
- Presença de Confabulação: O paciente pode, involuntariamente, produzir falsas memórias para "preencher" lacunas. É comum em síndromes amnésicas orgânicas (e.g., Síndrome de Korsakoff) e pode ocorrer no TCE.
- Consciência do Déficit (Anosognosia): Avaliar se o paciente percebe suas lacunas de memória.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Baterias Neuropsicológicas: A Bateria de Avaliação Neuropsicológica Luria-Nebraska ou a Bateria Neuropsicológica de Memória podem incluir subtestes para memória retrógrada.
- Escalas de Memória Autobiográfica: Instrumentos específicos, muitas vezes em formato de entrevista, que pontuam a precisão e riqueza de detalhes de memórias pessoais de diferentes períodos da vida.
- Testes de Memória Semântica: Para diferenciar déficit episódico versus semântico.
- Escalas de Funcionalidade: Como a Escala de Atividades Instrumentais da Vida Diária (Lawton & Brody) para avaliar impacto prático.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição/Diagnóstico | Características Distintivas | Como Diferenciar da Amnésia Retrógrada por TCE |
|---|---|---|
| Amnésia Dissociativa (Psicogênica) | Amnésia seletiva para eventos traumáticos ou de alto significado emocional. Ocorre sem lesão cerebral. A memória para eventos neutros do mesmo período é preservada. Frequentemente retrógrada pura. | Contexto: TCE é um evento físico. A amnésia orgânica é menos seletiva ao conteúdo emocional. Avaliação neurológica e neuroimagem são fundamentais. |
| Demências (e.g., Alzheimer) | Amnésia retroanterógrada progressiva. Segue a Lei de Ribot: perda de memórias recentes primeiro, depois remotas. Déficit de fixação (anterógrado) é dominante inicialmente. | História: TCE é um evento pontual antecedendo o início. A demência tem curso progressivo. A amnésia retrógrada no TCE pode ser mais lacunar (período específico). |
| Transtorno Amnésico (e.g., Síndrome de Korsakoff) | Amnésia retroanterógrada grave, com confabulação marcante e anosognosia. Déficit de fixação é profundo. Causa tóxica-metabólica (alcoolismo crônico). | Causa: TCE vs. causa tóxica-metabólica. A confabulação pode ocorrer em ambos, mas é prototípica em Korsakoff. |
| Delirium | Perturbação global da atenção e consciência. Alterações de memória são fluctuantes e relacionadas ao estado de confusão. Amnésia pode ser retroanterógrada para o período do delirium. | Estado de Consciência: Delirium apresenta confusão aguda, alucinações possíveis. A amnésia no TCE (sem delirium) ocorre em estado de consciência claro. |
| Amnésia Global Transitória | Episódio súbito de amnésia anterógrada profunda com perplexidade. Amnésia retrógrada leve e de curta extensão pode ocorrer. Resolve em horas (<24h). | Duração: A amnésia no TCE é persistente. A AGT é um episódio transitório isolado, muitas vezes de causa isquêmica vertebrobasilar. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Atribuir Amnésia Lacunar Exclusivamente ao Trauma: Parte da amnésia para eventos imediatamente pré-trauma pode ser devido à perda de consciência ou estado confusional inicial, não a uma lesão mnêmica permanente. A avaliação deve ser repetida após a fase aguda.
- Confundir com Negação ou Evitação Psicológica: Pacientes podem evitar falar de eventos pré-trauma devido ao estresse emocional, não por incapacidade de evocação. A entrevista deve ser conduzida com suporte e observação de consistência.
- Superestimar Déficit Baseado apenas em Auto-Relato: O auto-relato de amnésia pode ser influenciado por depressão, ansiedade ou falta de insight. A avaliação objetiva com testes é crucial.
- Ignorar Déficit Anterógrado Concomitante: A amnésia retrógrada após TCE quase sempre coexiste com algum grau de déficit de fixação (anterógrado). Avaliar a memória anterógrada é essencial para o manejo e prognóstico.
Condições associadas
A amnésia retrógrada no contexto de traumatismo craniano não é um diagnóstico isolado, mas um sintoma ou síndrome que ocorre dentro de condições neuropsiquiátricas mais amplas.
Condições Primariamente Associadas:
- Síndrome Pós-Traumática Cognitiva: Conjunto de déficits cognitivos (memória, atenção, velocidade de processamento, funções executivas) que persistem após um TCE, mesmo moderado. A amnésia retrógrada é um componente possível, frequentemente associada a déficits anterógrados.
- Demência Pós-Traumática: Em TCEs graves ou repetidos (e.g., em atletas), pode haver evolução para um quadro demencial progressivo. A amnésia retrógrada se torna então parte do declínio mnêmico global, seguindo a Lei de Ribot.
- Transtorno Neurocognitivo devido a Traumatismo Craniano (DSM-5-TR): Esta categoria diagnóstica engloba os déficits cognitivos clinicamente significativos atribuíveis ao TCE. A amnésia (retrógrada e anterógrada) é um dos domínios cognitivos avaliados.
- Transtornos Mentais Comórbidos: Pacientes com TCE têm maior risco de desenvolver depressão, ansiedade e irritabilidade. Esses transtornos podem exacerbar os sintomas de amnésia (por comprometer a atenção e motivação para a evocação) ou levar a uma superestimação subjetiva dos déficits.
Correlações nos Sistemas de Classificação:
- CID-11: O código para Transtornos Neurocognitivos Secundários a Traumatismo Craniano (6D85.1) é o principal. A amnésia é um sintoma dentro deste transtorno. Para amnésias isoladas de causa orgânica, pode-se considerar Transtorno Amnésico (6D72), mas este é mais usado para condições como Korsakoff.
- DSM-5-TR: Transtorno Neurocognitivo devido a Traumatismo Craniano (Major or Mild) é a categoria relevante. O manual especifica que déficits de memória (incluindo aprendizado novo e recordação) são comuns.
Importância Clínica: A presença e extensão da amnésia retrógrada são indicadores prognósticos. Uma amnésia retrógrada extensa (>24 horas) geralmente correlaciona-se com TCE mais grave e com maior probabilidade de sequelas cognitivas persistentes. Sua avaliação ajuda na planejamento de reabilitação, pois identifica lacunas na história pessoal que podem precisar ser abordadas psicoterapicamente.
Implicações terapêuticas
O tratamento da amnésia retrógrada por TCE é parte integrante da reabilitação neuropsicológica e do manejo global do paciente. Não existe um fármaco específico para "recuperar" memórias perdidas, mas abordagens podem ajudar na compensação, na potencial recuperação parcial e no ajustamento psicológico.
Abordagens Farmacológicas:
- Tratamento de Condições Comórbidas: Medicamentos para depressão (SSRIs) ou ansiedade podem melhorar o estado mental geral, a atenção e a motivação, indiretamente beneficiando a performance mnêmica.
- Estimulantes Cognitivos: Em alguns casos, medicamentos como metilfenidato ou modafinila são usados para tratar fadiga e déficits de atenção após TCE, o que pode facilitar processos de evocação.
- Agentes Pro-Cognitivos: Fármacos como piracetam ou donepezil (um inhibidor da acetilcolinesterase) são algumas vezes utilizados, mas suas evidências para recuperação específica de memória retrógrada são limitadas. Sua ação é mais sobre atenção e processamento global.
- Princípio Cautelar: Não há medicação aprovação específica para amnésia retrógrada. O uso de qualquer fármaco deve ser baseado em uma avaliação neuropsiquiátrica completa e considerar risco-benefício.
Abordagens Psicoterapêuticas e de Reabilitação:
- Reabilitação Neuropsicológica Individualizada: Foco em:
- Compensação: Ensino de uso de auxiliares externos de memória: agendas detalhadas, calendários, aplicativos de notas, fotos e vídeos. Reconstruir a história recente com ajuda de familiares e registros.
- Restauração: Exercícios de recuperação mnêmica com apoio contextual. Usar fotos, música, objetos do período amnésico como "âncoras" para tentar eliciar memórias. A eficácia varia.
- Treino de Funções Executivas: Melhorar organização e planejamento pode ajudar o paciente a estruturar a busca e recuperação de informações autobiográficas.
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Adaptada para:
- Aceitação e Adaptação: Lidar com a frustração, a perda identitária e a ansiedade gerada pela amnésia.
- Prevenção de Confabulação: Treino para reconhecer lacunas e evitar "inventar" histórias que causem problemas sociais.
- Reestruturação da Identidade: Ajudar o paciente a construir uma narrativa de vida que integre o período conhecido (pré-amnésico remoto) com o presente, aceitando a lacuna.
- Terapia de Suporte e Familiar: Educação da família sobre o fenômeno. A família deve aprender a:
- Não pressionar o paciente para lembrar.
- Fornecer informações de forma calma e factual quando solicitado.
- Evitar corrigir agressivamente confabulações, redirecionando com gentileza.
- Manter um ambiente estruturado e previsível, que reduz a demanda sobre a memória.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
- Prognóstico da Amnésia: A extensão da recuperação da memória retrógrada é variável. Lacunas de curta duração (<24h) podem se recuperar parcialmente. Lacunas extensas (> semanas) têm menor probabilidade de recuperação completa. A memória remota preservada é um ponto de apoio psicológico importante.
- Resposta às Intervenções: A resposta à reabilitação é melhor em pacientes com motivação preservada, baixa comorbidade psiquiátrica e ambiente familiar de apoio. A presença de anosognosia ou confabulação marcante dificulta a intervenção.
- Integração com Tratamento Global: O manejo da amnésia retrógrada deve ser integrado ao tratamento de outros déficits cognitivos (atenção, funções executivas), sintomas emocionais e reabilitação física.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Como o Paciente Tipicamente Vivencia:
- Sentimento de "Vazio" ou "Lacuna": A experiência subjetiva é de uma lacuna na sua história pessoal. O paciente pode dizer "sinto que há um buraco na minha vida", "não consigo me conectar com o que aconteceu antes".
- Descontinuidade Identitária: "Não me sinto a mesma pessoa. Minha história parou." Isso pode levar a crises de identidade e desmoralização.
- Dependência e Vergonha: Necessidade constante de perguntar a outros sobre seu próprio passado pode gerar sentimentos de infantilização, dependência e vergonha.
- Frustração com Testes: Durante avaliações, a frustração é comum: "Por que você está perguntando coisas que eu deveria saber, mas não lembro?"
- Confabulação como Mecanismo de Enfrentamento: Alguns pacientes, sem perceber, começam a inventar histórias para "preencher" a lacuna e parecer normais em conversas sociais.
Orientações para Comunicação Clínica:
- Validação e Normalização: "É comum após um trauma na cabeça ter dificuldade para lembrar o período antes do acidente. Isso reflete como o cérebro foi afetado."
- Foco na Preservação: "Você ainda lembra muito bem de sua infância, sua formação, seus talentos. Essas memórias sólidas são um bom ponto de partida."
- Abordagem Não-Pressiva: Não insistir repetidamente "Tente lembrar!". Isso aumenta a ansiedade e não melhora a evocação. Diga: "Se não vem agora, podemos voltar a isso depois. Não se force."
- Usar Âncoras Concretas: "Vamos olhar algumas fotos do ano passado. Isso pode ajudar a trazer algumas sensações ou detalhes."
- Educar sobre Confabulação: Se presente, explique gentilmente: "Às vezes, nosso cérebro, para lidar com a lacuna, pode criar uma memória que não é real. É importante para nós diferenciar o que é fato e o que pode ser uma reconstrução."
Impacto Funcional:
- Trabalho: Dependendo da extensão da amnésia, o paciente pode não lembrar de projetos recentes, treinamentos, ou mudanças no trabalho. Isso pode exigir reorientação profissional, readaptação de funções ou suporte de colegas para recapitação.
- Relacionamentos: Lacunas sobre eventos recentes com parceiros, filhos ou amigos podem criar tensões ("Você não lembra da nossa conversa importante?"). A terapia de casal/familiar pode ser necessária para reconstruir a comunicação.
- Qualidade de Vida: O sentimento de perda de continuidade pessoal pode afetar o senso de propósito e felicidade. Apoio psicológico é crucial para reconstruir uma narrativa de vida coesa e focar no presente e futuro.
Perguntas frequentes
1. A amnésia retrógrada após um TCE é permanente?
Não necessariamente permanente, mas a recuperação é variável. Lacunas de memória para eventos muito próximos ao trauma (minutos, horas) podem se recuperar parcialmente com a resolução do edema cerebral e processos de recuperação neural. Lacunas mais extensas (dias, semanas) têm menor chance de recuperação completa. A reabilitação pode ajudar na compensação e na potencial evocação de alguns fragmentos, mas a memória completa do período pode não retornar.
2. É possível "treinar" ou usar algum método para recuperar essas memórias perdidas?
Não existe um método garantido para recuperar memórias perdidas devido a lesão cerebral. A reabilitação neuropsicológica foca em: (a) compensação (uso de auxílios externos para reconstruir a história), (b) restauração parcial (uso de âncoras como fotos, música, lugares para tentar eliciar fragmentos), e (c) estimulação cognitiva geral (melhorar atenção e funções executivas, que auxiliam processos de busca na memória). A eficácia da restauração é limitada e individual.
3. A amnésia retrógrada significa que o paciente não lembra quem é ou de sua vida inteira?
Não. Na maioria dos casos de TCE, a amnésia retrógrada é lacunar ou segue um gradiente temporal, afetando principalmente um período específico antes do trauma (horas, dias, semanas). Memórias remotas (infância, adolescência) e a identidade básica (nome, família, habilidades) geralmente estão preservadas. Em TCEs extremamente graves ou em evolução demencial, a amnésia pode progredir para períodos mais longos.
4. Como diferenciar uma amnésia "orgânica" do TCE de uma amnésia "psicológica" ou dissociativa?
A amnésia orgânica (TCE) é menos seletiva ao conteúdo emocional. O paciente tem dificuldade para recordar tanto eventos emocionais quanto neutros do período. A avaliação neurológica e neuroimagem mostra sinais de lesão. A amnésia dissociativa é tipicamente seletiva para eventos traumáticos ou de alto significado emocional, preservando memórias neutras do mesmo período. Não há sinais de lesão cerebral, e o contexto é de um trauma psicológico.
5. A amnésia retrógrada afeta a capacidade de aprender coisas novas (memória anterógrada)?
Frequentemente, sim. O padrão comum após TCE é a amnésia retroanterógrada (mista). O paciente tem dificuldade para recordar o passado (retrógrada) e para fixar novas informações (anterógrada). A avaliação deve sempre incluir testes de memória anterógrada (como aprender uma lista de palavras ou uma história nova).
6. O paciente pode inventar memórias falsas (confabular) para essa lacuna?
Sim, a confabulação é um fenômeno comum em síndromes amnésicas orgânicas, incluindo as sequelas de TCE. É uma produção involuntária de falsas memórias para "preencher" lacunas. Não é um mentira deliberada. O paciente pode contar detalhes plausíveis, mas incorretos, sobre o período amnésico. Isso pode causar problemas sociais e diagnósticos.
7. Como a família deve lidar com um paciente com amnésia retrógrada?
A família deve: (1) Educar-se sobre o fenômeno; (2) Ser uma fonte calma de informações quando o paciente perguntar sobre o passado; (3) Não pressionar ou testar a memória do paciente; (4) Ajudar na reconstrução usando fotos, vídeos, documentos; (5) Redirecionar com gentileza se o paciente confabular, sem confrontar agressivamente; (6) Focar no presente e futuro na comunicação diária, reduzindo a demanda sobre a memória perdida.
8. A presença de amnésia retrógrada indica um TCE mais grave?
A extensão do período de amnésia retrógrada é um indicador prognóstico importante. Amnésias retrógradas de curta duração (<1 hora) são comuns em TCEs leves. Amnésias retrógradas mais longas (>24 horas) geralmente estão associadas a TCEs moderados ou graves e correlacionam-se com maior probabilidade de outras sequelas cognitivas persistentes e necessidade de reabilitação extensa.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Lezak, M.D.; Howieson, D.B.; Bigler, E.D.; Tranel, D. Neuropsychological Assessment. 5ª ed. New York: Oxford University Press, 2012.
- Brazilian Consensus on the Management of Traumatic Brain Injury (Diretrizes Brasileiras para o Manejo do Traumatismo Cranioencefálico). Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação, 2020.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.