Amnésia Lacunar Pós-Eletroconvulsoterapia

Definição e conceito

A amnésia lacunar pós-eletroconvulsoterapia (ECT) é um distúrbio mnêmico específico, classificado entre as amnésias induzidas, caracterizado pela perda seletiva de memórias referentes a um período de tempo delimitado, durante o qual houve um prejuízo transitório na capacidade de fixação de novas informações. Tecnicamente, é uma hipomnésia lacunar (ou localizada) de natureza anterógrada e, em menor grau, retrógrada, diretamente associada ao período de alteração aguda da consciência induzido pela própria crise convulsiva terapêutica e pelo estado pós-ictal imediato.

Na semiologia psiquiátrica, este fenômeno se enquadra nas alterações quantitativas da memória (hipomnésias), mais especificamente no subtipo lacunar. A falha mnêmica abrange um intervalo de tempo com limites relativamente precisos: tipicamente, os minutos que antecedem a aplicação do estímulo elétrico (período pré-ictal de lucidez), o período da crise tônico-clônica (que cursa com coma induzido) e o estado pós-ictal de confusão mental. Todos os eventos anteriores e posteriores a essa "lacuna" ou "janela" temporal são normalmente fixados e evocados. Este padrão é fisiopatologicamente semelhante ao observado em outras condições de acometimento cerebral súbito e generalizado, como na epilepsia do tipo grande mal e em traumatismos cranioencefálicos.

A terminologia técnica relevante inclui:

  • Hipomnésia: Diminuição da capacidade de memória.
  • Amnésia Lacunar/Localizada: Perda de memória para um período específico.
  • Amnésia Anterógrada (de fixação): Dificuldade ou impossibilidade de formar novas memórias a partir de um evento.
  • Amnésia Retrógrada: Dificuldade ou impossibilidade de recordar eventos que ocorreram antes do evento causal.
  • Estado Pós-Ictal: Período de confusão e desorientação que segue imediatamente uma crise convulsiva.
  • ECT (Electroconvulsive Therapy): Eletroconvulsoterapia.

Dados epidemiológicos precisos sobre a incidência e extensão da amnésia lacunar pós-ECT são variáveis, pois dependem de múltiplos fatores técnicos (posicionamento dos eletrodos – unilateral vs. bilateral, dose de energia, frequência das sessões), fatores do paciente (idade, diagnóstico de base, estado cognitivo prévio) e da metodologia de avaliação. No entanto, é consenso que algum grau de amnésia lacunar para os eventos imediatamente ao redor de cada sessão é um efeito colateral quase universal da técnica, especialmente nas primeiras aplicações. A amnésia mais extensa e persistente é menos comum e está mais associada a protocolos com ECT bilateral e séries de tratamentos mais longas.

Apresentação clínica

A apresentação clínica é centrada no domínio cognitivo, com impacto secundário no estado afetivo e na funcionalidade do paciente.

Domínio Cognitivo:

  • Queixa Mnêmica Específica: O paciente relata uma "lacuna" ou "buraco" em sua memória para o dia ou horas específicas em que ocorreu a sessão de ECT. É comum a descrição: "Lembro de entrar na sala de tratamento e depois acordar na recuperação, sem lembrar de nada no meio".
  • Período Envolvido: A lacuna tipicamente abrange:
    1. Período Pré-Ictal (minutos anteriores): Apesar de estar lúcido, o processo cerebral desencadeado pela estimulação interfere na consolidação das memórias recentemente adquiridas. O paciente pode não se lembrar da conversa com a equipe momentos antes, da aplicação do monitoramento ou da ansiedade pré-procedimento.
    2. Período Ictal (crise): Amnésia completa para o evento convulsivo em si, devido ao coma induzido.
    3. Período Pós-Ictal Imediato (minutos a horas): Amnésia para o período de confusão, desorientação e sonolência na sala de recuperação. O paciente pode ter interagido, feito perguntas repetitivas ou recebido instruções que não consegue recordar.
  • Memória Preservada: A memória para eventos anteriores (ex.: noite anterior, preparação para a internação) e posteriores (ex.: tarde após a recuperação completa da consciência) ao episódio permanece intacta. A capacidade de fixar novas memórias após a completa resolução do estado confusional também se normaliza.
  • Desorientação Transitória: Durante o estado pós-ictal, o paciente apresenta desorientação temporoespacial, que é um componente intrínseco do quadro e contribui para a falha de fixação.

Domínio Afetivo:

  • Perplexidade e Apreensão: A experiência de "perder tempo" ou ter um intervalo de inconsciência pode gerar perplexidade, medo ou apreensão, especialmente após as primeiras sessões.
  • Frustração: Pacientes podem ficar frustrados por não se lembrarem de instruções dadas pela equipe ou conversas com familiares durante a fase de recuperação.
  • Ansiedade Antecipatória: A expectativa da amnésia pode contribuir para a ansiedade pré-ECT em sessões subsequentes.

Domínio Comportamental e Somático:

  • Comportamento de Confirmação: O paciente pode fazer perguntas repetitivas para reconstruir os eventos do período lacunar ("O que eu disse?", "Quem veio me visitar?").
  • Sintomas Pós-Ictais: Sonolência, cefaleia, náusea e mialgia, típicos do período pós-ECT, podem estar presentes, mas o paciente pode não ter uma memória vívida da intensidade desses sintomas.

Exemplo Clínico Conciso:
Um paciente de 45 anos com depressão maior resistente inicia ECT bilateral. Após a primeira sessão, já completamente orientado e em seu quarto à tarde, relata ao psiquiatra: "Doutor, é muito estranho. Eu lembro perfeitamente de você explicando o procedimento de manhã e de eu estar nervoso na maca. A próxima coisa que lembro é de estar sentado numa poltrona diferente, tomando suco, com uma enfermeira me perguntando como eu estava. Parece que alguém apagou uma fita de vídeo de uma hora. Minha esposa disse que conversei com ela na recuperação, mas eu não tenho a menor lembrança."

Neurobiologia e fisiopatologia

A fisiopatologia da amnésia lacunar pós-ECT é entendida a partir da interferência em processos neurobiológicos críticos para a formação e consolidação da memória, em especial a memória explícita (declarativa), que depende de estruturas do lobo temporal medial, como o hipocampo.

  1. Abolição/Estreitamento Agudo da Consciência: O estímulo elétrico generalizado desencadeia uma crise convulsiva sincronizada (tônico-clônica), que representa um estado de coma breve. A consciência é abolidas. Durante a crise e no estado pós-ictal confusional, há uma grave perturbação da apercepção (a apreensão ativa e integrada da realidade) e da atenção, que são pré-requisitos fundamentais para a fixação de novas informações. Sem a correta apreensão do estímulo, não há conteúdo a ser consolidado.

  2. Interferência na Consolidação Hipocampal: A memória de curto prazo (ou de trabalho) é transferida para a memória de longo prazo através de um processo ativo de consolidação, que depende da integridade do circuito hipocampal. A atividade convulsiva generalizada e a cascata neuroquímica que se segue (liberação maciça de neurotransmissores, alterações na plasticidade sináptica) interrompem este processo de consolidação. Conforme citado nas fontes, referindo-se à epilepsia grande mal – mecanismo análogo ao da crise induzida pela ECT –, "vai haver amnésia referente a esse período pré-ictal porque o processo cerebral da crise epiléptica vai de alguma forma interferir na consolidação das memórias adquiridas recentemente. Em outras palavras, não terá havido tempo suficiente para uma eficiente consolidação". As memórias do período pré-ictal, ainda em estado frágil de consolidação, são, portanto, apagadas.

  3. Alterações Neurotransmissoras: A ECT provoca uma liberação aguda e significativa de monoaminas (serotonina, noradrenalina, dopamina), GABA e glutamato. Enquanto o aumento monoaminérgico está por trás de seu efeito terapêutico antidepressivo, a tempestade glutamatérgica e as alterações no equilíbrio excitatório/inibitório podem contribuir para a disfunção cognitiva transitória e a dificuldade de fixação. O uso de anestésicos (como propofol ou etomidato) e relaxantes musculares, embora necessários, também modula a atividade cerebral e pode influenciar o perfil cognitivo pós-procedimento.

  4. Modelo Explicativo Integrado: A amnésia lacunar pós-ECT é, portanto, melhor explicada por um modelo de dupla interferência:

    • Interferência Anterógrada: A crise e o estado pós-ictal impedem a fixação de novos eventos que ocorrem durante esse período (amnésia anterógrada).
    • Interferência Retrógrada ("Backward Amnesia"): A atividade convulsiva interfere de forma retrógrada na consolidação das memórias recentes que haviam sido adquiridas (período pré-ictal), mas ainda não estavam totalmente estabilizadas. Isso explica a lacuna que se estende para os minutos de lucidez que antecedem a crise.

Evidências de neuroimagem mostram que a ECT está associada a aumentos transitórios na permeabilidade da barreira hematoencefálica, no fluxo sanguíneo cerebral e no metabolismo da glicose, seguidos por uma fase de redução. Mudanças na conectividade funcional de redes envolvidas na memória (rede de modo padrão) também são observadas. No entanto, a correlação direta entre esses achados de imagem e a amnésia lacunar específica ainda é alvo de investigação.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

Achados ao Exame do Estado Mental:

  • Aparência e Comportamento: No período pós-ictal, o paciente apresenta-se sonolento, confuso, com fala pouco produtiva ou repetitiva.
  • Fala: Normal após a recuperação completa.
  • Humor e Afeto: Pode haver labilidade ou aplanamento afetivo no pós-ictal; após a recuperação, o humor pode refletir a doença de base ou a preocupação com a amnésia.
  • Conteúdo do Pensamento: Preocupações com a perda de memória podem estar presentes.
  • Processo do Pensamento: Pode estar desorganizado ou lentificado no pós-ictal.
  • Sensopercepção: Normal após a recuperação.
  • Cognição:
    • Nível de Consciência: Rebaixado (obnubilação/confusão) no pós-ictal; normal após.
    • Orientação: Desorientado temporoespacialmente no pós-ictal; totalmente orientado após.
    • Atenção e Concentração: Gravemente prejudicadas no pós-ictal; normais após.
    • Memória:
      • Imediata (dígitos): Pode estar prejudicada no pós-ictal.
      • Recentíssima (fixação anterógrada): Prejuízo flagrante. O paciente não consegue reter e recordar após 5 minutos informações novas dadas durante o estado confusional (ex.: nome de um objeto, uma instrução simples).
      • Recente (evocação de longo prazo): Amnésia lacunar característica. Incapacidade de recordar eventos do período pré-ictal, ictal e pós-ictal imediato, com preservação da memória para eventos anteriores e posteriores.
      • Remota: Preservada.
    • Funções Executivas/Abstração: Prejudicadas no pós-ictal; normais após.

Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
A avaliação é majoritariamente clínica e anamnésica. Escalas podem ser usadas para quantificar o prejuízo cognitivo global pós-ECT, mas não são específicas para a lacuna.

  • Mini-Exame do Estado Mental (MEEM): Pode mostrar pontuação reduzida no pós-ictal, principalmente nos itens de orientação, atenção e memória de fixação. Após a recuperação, a pontuação retorna ao basal.
  • Teste de Memória de Figuras Complexas de Rey-Osterrieth: Avalia memória visual e de construção. Pode detectar prejuízos na evocação após a ECT.
  • Escala de Memória Autobiográfica (AMT): Pode ser usada em contextos de pesquisa para detectar alterações mais sutis na memória autobiográfica retro e anterógrada após séries de ECT.

Diagnóstico Diferencial Estruturado:
É crucial diferenciar a amnésia lacunar esperada de outros quadros amnésicos.

Condição Mecanismo Características da Amnésia Contexto Clínico
Amnésia Lacunar Pós-ECT Induzida por crise convulsiva terapêutica. Lacunar. Perda específica para período peri-ictal. Anterógrada e retrógrada limitada. Reversível (após cada sessão). Durante e após sessão de ECT.
Delirium Pós-ECT Prolongado Toxicidade/efeito colateral de medicação anestésica, hipóxia, fatores predisponentes. Principalmente anterógrada (dificuldade de fixação), mas com desorientação flutuante e prejuízo cognitivo global. Pode durar horas a dias. Estado confusional que persiste além do período pós-ictal esperado (30-60 min).
Transtorno Amnésico Induzido por ECT Possível dano cumulativo a estruturas de memória (raro com técnicas modernas). Hipomnésia de fixação persistente e predominante, com desorientação e possível fabulação. Prejuízo mnêmico é o principal déficit. Após série completa de ECT, déficit persiste por semanas/meses.
Demência (ex.: Doença de Alzheimer) Neurodegeneração. Hipomnésia de fixação progressiva e irreversível, seguindo a lei de Ribot. Prejuízo cognitivo global (afasia, apraxia, agnosia, funções executivas). História de declínio cognitivo crônico e progressivo.
Amnésia Psicogênica/Dissociativa Mecanismo psicológico de defesa. Pode ser seletiva (conteúdo afetivo), lacunar ou generalizada. Reversível com técnicas terapêuticas. Frequentemente retrógrada. Após evento estressor psicológico. Presença de la belle indifférence ou sofrimento.
Amnésia Pós-Traumática (TCE) Lesão estrutural cerebral. Lacunar para o momento do trauma e período imediatamente anterior/posterior. Pode evoluir para transtorno amnésico. História de traumatismo cranioencefálico.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Atribuir toda queixa de memória à ECT: Pacientes com depressão maior não tratada frequentemente apresentam queixas cognitivas ("pseudodemência depressiva"), principalmente de concentração e memória. É essencial comparar o estado cognitivo pós-ECT com o estado pré-tratamento.
  2. Confundir com delirium: Um estado confusional prolongado não é parte normal da ECT e deve ser investigado como delirium (causas metabólicas, infecciosas, medicamentosas).
  3. Negligenciar a ansiedade do paciente: A preocupação excessiva com a memória pode piorar o desempenho em testes e a percepção subjetiva do déficit.
  4. Não orientar sobre a natureza esperada do sintoma: Se o paciente não for informado de que uma lacuna de memória peri-procedimento é esperada, pode interpretá-la como um sinal de dano cerebral grave, aumentando a angústia e a não adesão.

Condições associadas

A amnésia lacunar pós-ECT é, por definição, associada à aplicação da Eletroconvulsoterapia. No entanto, o fenômeno psicopatológico idêntico – a amnésia lacunar – ocorre em outras condições neurológicas e psiquiátricas, conforme descrito nas fontes:

  1. Epilepsia: Especialmente nas crises generalizadas tônico-clônicas ("grande mal") e nas crises parciais complexas (com estreitamento da consciência). O mecanismo é análogo ao da ECT.
  2. Traumatismo Cranioencefálico (TCE): O acometimento cerebral súbito e difuso leva a uma lacuna mnêmica para o momento do impacto e períodos adjacentes.
  3. Estados de Alteração Aguda da Consciência:
    • Delirium: A flutuação do nível de consciência e o prejuízo da atenção levam a falhas de fixação, que podem se manifestar como lacunas na memória para períodos do episódio.
    • Estados Crepusculares (epilépticos ou histéricos).
    • Coma de qualquer etiologia.
  4. Transtornos Dissociativos: Na histeria dissociativa (amnésia psicogênica), a amnésia pode se apresentar como lacunar, embora o mecanismo seja psicogênico e o conteúdo geralmente tenha significado afetivo.
  5. Intoxicações ou Efeitos de Substâncias: Overdose ou uso agudo de substâncias (ex.: benzodiazepínicos em alta dose, como citado) que causem obnubilação da consciência.

Na CID-11, a amnésia lacunar pós-ECT não tem um código específico. Ela seria registrada como um efeito adverso do procedimento terapêutico. O procedimento em si está classificado em KB90.0 Eletroconvulsoterapia. O fenômeno amnésico pode ser anotado como um sintoma relacionado. No DSM-5-TR, a situação é similar. A amnésia é um efeito colateral conhecido da ECT, e transtornos neurocognitivos induzidos por ela são descritos na seção "Outras Condições que Podem Ser Foco de Atenção Clínica".

Implicações terapêuticas

O manejo da amnésia lacunar pós-ECT é predominantemente preventivo e de suporte, uma vez que se trata de um efeito colateral intrínseco ao mecanismo de ação do tratamento.

Abordagens Preventivas e Técnicas:

  • Otimização dos Parâmetros da ECT: A escolha da técnica é o fator mais impactante.
    • Posicionamento dos Eletrodos: A ECT unilateral (especialmente na posição d’Elia, hemisfério não-dominante) está associada a incidência e gravidade significativamente menores de efeitos cognitivos, incluindo a amnésia lacunar, comparada à ECT bilateral. É a técnica de primeira escolha quando a prioridade é minimizar impactos cognitivos.
    • Dose de Estímulo: Utilizar a dose limiar mínima eficaz para induzir uma crise adequada reduz os efeitos colaterais cognitivos. Técnicas de titulação de limiar são padrão.
    • Frequência das Sessões: Protocolos com intervalos maiores entre sessões (ex.: 2x/semana vs. 3x/semana) podem permitir uma melhor recuperação cognitiva entre aplicações.
    • Forma de Onda: O uso de ondas ultracurtas (pulso breve) está associado a menor carga elétrica total e menor prejuízo cognitivo do que as ondas senoidais antigas.
  • Manejo Anestésico: A escolha do agente anestésico pode modular os efeitos cognitivos. O etomidato pode prolongar a duração da crise, enquanto o propofol a encurta e tem propriedades amnésicas próprias. A cetamina, por seu mecanismo glutamatérgico, é objeto de estudo por seu potencial de proteger a cognição, mas seu uso ainda não é rotina. A decisão é multidisciplinar (psiquiatra e anestesista).

Abordagens de Suporte e Psicoeducação:

  • Psicoeducação Pré-ECT: É fundamental explicar ao paciente e à família, antes do início do tratamento, que uma amnésia lacunar para o período ao redor de cada sessão é um efeito esperado, comum e transitório. Deve-se normalizar a experiência ("é como se o cérebro estivesse tão focado no processo terapêutico que não grava os detalhes do momento") para reduzir a angústia.
  • Orientação Pós-ECT Imediata: Sabendo que o paciente não fixará informações durante o estado pós-ictal, instruções críticas (sobre dieta, medicação, alta) devem ser repetidas após a completa recuperação da orientação, e preferencialmente por escrito para o paciente e um acompanhante.
  • Monitoramento Cognitivo Serial: Avaliações cognitivas breves (como o MEEM) antes do tratamento e após a recuperação de sessões-chave ajudam a monitorar efeitos cumulativos e a tranquilizar o paciente sobre a recuperação de sua linha de base.
  • Suporte Familiar: Orientar a família a não testar a memória do paciente no pós-ictal ("você lembra do que eu falei?"), mas sim a oferecer suporte reorientador e tranquilo.

Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
A presença da amnésia lacunar peri-sessão não está correlacionada com a eficácia antidepressiva ou antimaníaca da ECT. Um paciente pode apresentar a lacuna e ter uma excelente resposta terapêutica. No entanto, a experiência subjetiva negativa com os efeitos cognitivos pode levar a ansiedade antecipatória, pior adesão ao tratamento e, em casos raros, à descontinuação precoce. Portanto, seu manejo adequado é crucial para a conclusão bem-sucedida do curso terapêutico. A amnésia lacunar em si é totalmente reversível após cada sessão, sem deixar sequelas. A preocupação maior recai sobre possíveis déficits de memória mais persistentes (retrógrada para eventos autobiográficos), que são menos comuns com técnicas modernas.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivência do Paciente:
A experiência é frequentemente descrita como desconcertante e um tanto assustadora. A sensação de "perder um pedaço de tempo" ou de ter um "apagão" desafia a continuidade da consciência e pode gerar uma sensação de vulnerabilidade e falta de controle. Alguns pacientes relatam uma sensação de "estar anestesiado no tempo". A perplexidade inicial pode dar lugar a uma aceitação rotineira após algumas sessões, especialmente se bem orientados. O impacto é maior na primeira sessão, quando o fenômeno é inesperado.

Orientações para Comunicação Clínica:

  1. Antecipação e Normalização: Na entrevista pré-ECT, introduza o tema de forma direta e técnica, mas calmamente: "Um dos efeitos mais comuns da ECT é que, devido à própria crise terapêutica no cérebro, é muito provável que você não se lembre do momento da aplicação e de um tempo pouco antes e depois. É como se sua memória tivesse uma pequena lacuna só para aquele período. Isso é esperado, mostra que o tratamento está atuando, e sua memória para o resto do dia e da sua vida continua normal. É importante que você saiba disso para não se assustar."
  2. Linguagem Clara e Concreta: Evite eufemismos como "pode ficar um pouco confuso". Seja específico: "Você pode não se lembrar da conversa que temos aqui na sala antes de aplicar, nem de acordar na sala de recuperação. Mas vai se lembrar de ter vindo para o hospital e, depois de totalmente acordado, vai lembrar do resto do dia."
  3. Envolvimento da Família: Inclua um familiar ou cuidador nesta conversa. Diga a eles: "Enquanto ele/ela estiver se recuperando, ainda confuso, pode fazer as mesmas perguntas várias vezes. Isso é normal. Ajudem reorientando com calma, mas saibam que ele/ela provavelmente não vai guardar lembrança dessa conversa confusa. As informações importantes nós repetiremos depois, quando ele/ela estiver 100% orientado(a)."
  4. Checagem Pós-Recuperação: Após o paciente estar totalmente orientado, pergunte: "Como foi sua experiência com a memória dessa vez? Você identifica aquele ‘espaço’ no tempo de que falamos?" Isso valida a experiência do paciente, abre espaço para dúvidas e reforça a normalidade do processo.

Impacto Funcional:
Para a grande maioria dos pacientes, o impacto funcional da amnésia lacunar é limitado e circunscrito ao período de tratamento.

  • Trabalho: Pacientes em tratamento com ECT geralmente estão de licença médica. A amnésia lacunar em si não impede atividades laborais nos dias de tratamento, mas a fadiga pós-ECT pode.
  • Relacionamentos: Pode causar estranhamento momentâneo ("você me contou isso e eu esqueci?"), mas com a devida psicoeducação, os familiares entendem o fenômeno. O maior impacto relacional vem da própria doença grave que motivou a ECT.
  • Qualidade de Vida: A curto prazo, pode gerar ansiedade. A médio e longo prazo, ao permitir a efetiva remissão de um transtorno depressivo ou maníaco grave, a ECT – e a aceitação de seus efeitos colaterais transitórios como a amnésia lacunar – costuma levar a uma melhora dramática na qualidade de vida global.

Perguntas frequentes

1. Esse "apagão" de memória significa que a ECT está me causando um dano cerebral permanente?
Não. A amnésia lacunar para o período ao redor da sessão é um efeito colateral transitório e esperado, resultante da interferência temporária que a crise terapêutica causa no processo de consolidação da memória. É um sinal de que o tratamento está atuando no cérebro, não de lesão permanente. Sua memória para todos os outros períodos permanece intacta.

2. A lacuna de memória vai ficando maior a cada sessão?
Não necessariamente. A extensão da lacuna (geralmente de minutos a poucas horas ao redor de cada sessão) tende a ser estável ao longo do tratamento. O que pode acontecer, principalmente com protocolos bilaterais mais intensivos, é um acúmulo de dificuldade para recordar eventos das semanas do tratamento (amnésia retrógrada para eventos recentes). Esta é uma das razões pelas quais se prefere a ECT unilateral quando possível.

3. Posso fazer algo para evitar ou minimizar essa perda de memória?
A principal medida é técnica: a escolha da ECT unilateral, associada a menor impacto cognitivo. Como paciente, manter uma boa saúde cerebral geral (sono regular, alimentação adequada, controle de clínico) é sempre benéfico. O mais importante é a psicoeducação: saber que o fenômeno é esperado reduz muito a ansiedade associada a ele.

4. E se eu não me lembrar apenas de coisas ruins ou traumáticas? Isso ainda é normal?
A amnésia lacunar pós-ECT é sistematizada no tempo, não no conteúdo. Ela apaga todas as memórias do período, sejam neutras, positivas ou negativas. Se a perda de memória é seletiva para um conteúdo emocional específico (ex.: só não lembra de uma discussão), isso levanta a possibilidade de um mecanismo dissociativo (amnésia psicogênica), que deve ser discutido com a equipe.

5. Como posso saber se é a amnésia normal da ECT ou se é algo mais grave, como um início de demência?
A amnésia da ECT é aguda, circunscrita e reversível (após cada sessão). A demência causa um declínio progressivo, irreversível e global da cognição, não apenas da memória, mas também da linguagem, capacidade de planejamento, reconhecimento de objetos, etc. Além disso, na ECT, sua memória para eventos antigos está preservada, enquanto na demência as memórias mais remotas também se perdem com a progressão. A equipe monitora sua cognição ao longo do tratamento para afastar qualquer complicação.

6. Depois que terminar a série de ECT, essas lacunas vão se preencher? Vou me lembrar do que aconteceu durante as sessões?
As lacunas não se preenchem. A informação do período não foi consolidada no cérebro, portanto não há uma memória a ser recuperada. Você continuará sem lembrança direta dos momentos das sessões. No entanto, isso não é funcionalmente prejudicial, pois são momentos médicos específicos. Sua capacidade de formar novas memórias após o término da ECT retorna completamente ao normal.

7. Esse efeito é pior em idosos?
Pacientes idosos são geralmente mais vulneráveis a efeitos colaterais cognitivos de qualquer natureza, incluindo os da ECT. Eles podem ter uma recuperação um pouco mais lenta do estado confusional pós-ictal e podem estar mais propensos a queixas subjetivas de memória. Por isso, nos idosos, a otimização dos parâmetros (dose, unilateralidade) e o monitoramento são ainda mais rigorosos.

8. Devo anotar coisas importantes no dia da sessão?
É uma excelente estratégia. Ter um caderno ou usar o celular para anotar compromissos, instruções médicas recebidas após a recuperação completa, ou insights que tenha durante o dia, pode contornar qualquer preocupação com esquecimentos. Isso dá autonomia e segurança ao paciente.

Referências

  • Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • American Psychiatric Association. The Practice of Electroconvulsive Therapy: Recommendations for Treatment, Training, and Privileging. 3rd ed. Washington, DC: APA, 2022.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento da depressão resistente. 2023.
  • Conselho Federal de Medicina (CFM). Resolução CFM nº 2.057/2013 – Dispõe sobre a utilização da eletroconvulsoterapia e dá outras providências.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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