Definição e conceito
As alucinações auditivas musicais (AAM) são um fenômeno psicopatológico pertencente à categoria dos distúrbios perceptivos, especificamente das alucinações auditivas complexas. Consistem na percepção vívida e involuntária de sons musicais — como melodias, ritmos, harmonias, canções com ou sem letra — na ausência de um estímulo acústico externo correspondente. O paciente tem a experiência de "ouvir música" que não está sendo tocada no ambiente. Na nomenclatura técnica, são também conhecidas como musical hallucinations (inglês) e, conforme Dalgalarrondo (2018), são classificadas como alucinações por deaferentação, ou seja, resultam frequentemente de uma privação sensorial, em especial a auditiva.
Diferencia-se de outros fenômenos auditivos:
- Alucinações auditivas simples (Acoasmas): Percepção de ruídos primários (zumbidos, estalidos, sinos).
- Tinnitus (Zumbido): Sensação subjetiva de ruído, geralmente um zumbido contínuo, frequentemente associado a patologias do sistema auditivo periférico ou central. Embora o tinnitus possa ser considerado uma forma de alucinação auditiva simples, as AAM são qualitativamente distintas por sua complexidade e organização musical.
- Alucinações auditivo-verbais (Fonemas): Percepção de vozes, palavras ou frases, sendo o tipo mais comum de alucinação complexa em psicopatologia, especialmente na esquizofrenia.
- Imaginação Musical ou "Earworm": Experiência comum, não patológica, de uma música "grudar" na mente. A diferença crucial reside no insight e na involuntariedade. Na AAM, o paciente inicialmente pode acreditar que a música é real, vinda de fora, e a experiência é intrusiva e incontrolável, enquanto um earworm é reconhecido como um pensamento interno e geralmente pode ser interrompido com distração.
Um aspecto semiológico fundamental das AAM é que, em sua forma típica (idiopática ou por deaferentação), elas frequentemente ocorrem com consciência clara e crítica (insight preservado). O paciente sabe que a percepção é falsa, o que gera angústia e perplexidade, mas não delírio. Este é um diferencial crucial em relação às alucinações da esquizofrenia, onde a convicção na realidade das vozes é comum.
Dados Epidemiológicos: A prevalência é considerada baixa na população geral, mas significativa em subgrupos específicos. Em pacientes com suspeita de déficit auditivo que buscaram serviços para teste audiométrico, Dalgalarrondo (2018) cita uma estimativa de prevalência de 3,6%. O fenômeno é marcadamente mais comum em mulheres idosas com perda auditiva progressiva (hipoacusia), especialmente de origem otológica.
Apresentação clínica
A apresentação clínica das AAM é variável, mas segue alguns padrões reconhecíveis que devem ser explorados na anamnese e no exame do estado mental.
Domínio Perceptivo-Cognitivo:
- Conteúdo: As músicas ouvidas são, em geral, familiares ao paciente. Podem ser hinos religiosos, canções populares antigas, trechos clássicos ou melodias instrumentais que fizeram parte de sua história de vida. Raramente são músicas novas ou desconhecidas.
- Características Sensoriais: A experiência pode ser descrita como nítida, com reconhecimento claro de instrumentos, letra (se houver) e melodia. A localização é variável: pode ser percebida como vindo de dentro da cabeça, de um ouvido específico (geralmente o com maior déficit) ou do ambiente externo.
- Temporalidade: Podem ser contínuas ou intermitentes. Em alguns casos, a música toca incessantemente, causando exaustão; em outros, surge em episódios que duram minutos ou horas. Fatores como silêncio ambiental, fadiga ou estresse podem desencadear ou exacerbar os episódios.
- Controle e Crítica: O paciente tipicamente não tem controle sobre o início, término ou volume da "transmissão". Como mencionado, o insight é frequentemente preservado: "Doutor, sei que não é real, mas ouço perfeitamente um coral cantando hinos no meu ouvido esquerdo".
Domínio Afetivo:
- A reação emocional é um componente central. Para a maioria, a experiência é muito desconfortável, gerando:
- Ansiedade: Medo de estar "ficando louco" ou de que seja o início de uma demência.
- Irritabilidade e Agitação: A intrusão constante interfere na concentração e no repouso.
- Depressão: O sofrimento persistente e o impacto na qualidade de vida podem precipitar ou agravar um episódio depressivo, especialmente em idosos.
- Em uma minoria, a experiência pode ser neutra ou até prazerosa, mas esta não é a regra.
Domínio Comportamental:
- O paciente pode adotar comportamentos de verificação (procurar a fonte do som no rádio, na casa do vizinho).
- Pode evitar ambientes silenciosos, mantendo ruído de fundo (TV, rádio) para "mascarar" a alucinação.
- Pode haver retraimento social devido ao constrangimento ou à dificuldade de comunicação em ambientes ruidosos (já que muitos têm perda auditiva concomitante).
- Em casos graves, pode ocorrer prejuízo significativo no sono e nas atividades de vida diária.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Caso 1 (Idiopático/Deaferentação): Mulher, 78 anos, com presbiacusia progressiva há 10 anos. Há 6 meses, começou a ouvir, principalmente à noite no silêncio do quarto, o hino de sua formatura tocado por uma banda. Reconhece que é uma alucinação, mas a persistência a deixa ansiosa e com medo de ter Alzheimer. O uso de um aparelho auditivo melhorou parcialmente o sintoma.
- Caso 2 (Sintomático/Psiquiátrico): Homem, 45 anos, com diagnóstico de esquizofrenia paranóide. Além das vozes comentadoras e persecutórias, relata episódios em que ouve uma música militar marcial de forma ameaçadora, que ele interpreta como um "sinal" para um ataque iminente. Não há crítica sobre a realidade do fenômeno.
- Caso 3 (Sintomático/Neurológico): Mulher, 65 anos, com diagnóstico de epilepsia do lobo temporal. Relata auras compostas pela audição nítida de um trecho específico de uma valsa, que precede crises convulsivas mais complexas.
Neurobiologia e fisiopatologia
O modelo fisiopatológico predominante para as AAM, especialmente as associadas à perda auditiva, é o modelo de deaferentação ou privação sensorial. Segundo esta teoria, uma redução crônica do input auditivo (p.ex., pela hipoacusia) leva a uma desinibição e hiperexcitabilidade das regiões corticais auditivas. O cérebro, em um mecanismo homeostático mal-adaptativo, "preenche" o vazio sensorial com atividade neural espontânea que é interpretada como música.
Dalgalarrondo (2018) cita o trabalho de Kumar e colaboradores (2014), que propuseram um circuito neural específico envolvido nas AAM:
- Giro Temporal Superior Esquerdo: Parte do córtex auditivo primário e associativo, crucial para o processamento de padrões sonoros complexos, como a música.
- Córtex Posteromedial: Incluindo o precuneus e o córtex cingulado posterior, regiões associadas à memória episódica, auto-referência e imaginação. Sua ativação pode estar ligada à recuperação de memórias musicais.
- Córtex Motor e Pré-Motor: Sugere uma ligação entre a percepção musical e os sistemas de representação motora (como cantar ou tocar um instrumento), possivelmente explicando a sensação de "participação" na música.
Este circuito indica que as AAM não são um fenômeno de um "centro" isolado, mas sim uma síndrome de conectividade anormal em uma rede que integra percepção auditiva, memória e processamento auto-referencial.
Em condições sintomáticas, outros mecanismos entram em jogo:
- Epilepsia do Lobo Temporal: Descargas epileptogênicas focais no giro temporal superior ou em estruturas límbicas adjacentes podem ativar diretamente representações mnésicas musicais, resultando em alucinações ictais ou interictais.
- Lesões Estruturais: Tumores, AVCs ou traumatismos no lobo temporal (especialmente à direita, mais envolvido no processamento melódico) podem irritar o córtex auditivo.
- Psicoses (Esquizofrenia, Depressão Psicótica): Aqui, as AAM estão inseridas em um contexto mais amplo de desorganização neurocognitiva, possivelmente envolvendo desregulação dopaminérgica no mesocórtex e alterações na filtragem sensorial (função do tálamo e córtex sensorial).
- Fármacos e Intoxicações: Certos antidepressivos (especialmente em idosos), antiparkinsonianos, anestésicos e substâncias psicoativas podem induzir AAM como efeito colateral, provavelmente por modulação de sistemas colinérgicos, serotoninérgicos ou glutamatérgicos.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Pode mostrar-se ansiosa, fatigada, com dificuldade de concentração durante a entrevista.
- Humor e Afeto: Ansioso, deprimido ou irritável. O afeto é geralmente congruente com o sofrimento relatado.
- Conteúdo do Pensamento: Preocupações centradas no medo de demência ou doença mental. Em casos com insight preservado, não há delírio formativo. Em casos psicóticos, o conteúdo pode ser delirante (p.ex., acreditar que a música é um sinal ou mensagem).
- Percepção: O núcleo do exame. Descreverá as AAM espontaneamente ou após questionamento direto sobre "ouvir coisas que os outros não ouvem". É crucial caracterizar: conteúdo, duração, frequência, localização, fatores desencadeantes/atenuantes, grau de convicção (insight) e reação emocional.
- Cognição: A avaliação cognitiva é mandatória, especialmente em idosos, para rastrear demências (a Doença de Alzheimer e a Demência por Corpos de Lewy podem apresentar AAM). O teste Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) e a avaliação de memória e funções executivas são essenciais.
Instrumentos e Escalas: Não há escalas validadas especificamente para AAM. A avaliação é clínica. Escalas genéricas de sintomas psicóticos (como a PANSS – Positive and Negative Syndrome Scale) possuem itens para alucinações, mas não discriminam o tipo. A anamnese detalhada é a ferramenta principal.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas das Alucinações | Insight | Contexto Clínico |
|---|---|---|---|
| AAM Idiopática (Deaferentação) | Músicas familiares, contínuas/intermitentes, exacerbadas pelo silêncio. | Preservado (Crítico) | Idosa, perda auditiva progressiva, sem outros sintomas psiquiátricos/neurológicos. |
| Esquizofrenia/Psicoses | Podem ser músicas, mas mais comumente vozes (auditivo-verbais). Conteúdo persecutório, comentador. | Ausente ou pobre (convicto da realidade). | Sintomas de 1º ordem (eco/roubo do pensamento), delírios, embotamento afetivo, prejuízo funcional. |
| Episódio Depressivo com Sintomas Psicóticos | Músicas com conteúdo depressivo (p.ex., marchas fúnebres) ou vozes de conteúdo autodepreciativo. | Pode variar, mas frequentemente com menor convicção que na esquizofrenia. | Humor depressivo proeminente, anedonia, alterações neurovegetativas. |
| Epilepsia do Lobo Temporal | Alucinações musicais estereotipadas, breves, podendo ser a aura da crise. | Preservado (reconhece como fenômeno anormal). | História de crises epilépticas (focais ou generalizadas). EEG pode mostrar descargas no lobo temporal. |
| Demências (Alzheimer, Corpos de Lewy) | AAM podem ocorrer, especialmente na Demência por Corpos de Lewy. Podem coexistir com alucinações visuais complexas. | Inicialmente pode haver crítica, que se perde com a progressão. | Déficit cognitivo progressivo e global. Na DCL, flutuações cognitivas e parkinsonismo. |
| Efeito Adverso de Fármacos | Início temporalmente relacionado à introdução ou aumento da dose de um medicamento. | Geralmente preservado. | Uso de antidepressivos (p.ex., ISRS), antiparkinsonianos, benzodiazepínicos, etc. |
| Tinnitus (Zumbido) | Ruídos simples (zumbido, apito, chiado), não organizados musicalmente. | Preservado. | Frequentemente associado a perda auditiva, trauma acústico, doença de Ménière. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Atribuir precipitadamente à Psicose: O relato de "ouvir músicas" por uma pessoa idosa pode levar o clínico menos experiente a suspeitar de psicose orgânica ou esquizofrenia de início tardio, negligenciando a investigação da audição.
- Subestimar o Sofrimento: Considerar que, por ser "apenas música" e não vozes ameaçadoras, o fenômeno é benigno. O impacto na qualidade de vida pode ser devastador.
- Não Investigar a Audição: Omitir a anamnese otológica e/ou não solicitar uma avaliação audiológica (audiometria) é um erro grave no manejo de AAM.
- Ignorar a Depressão Comórbida: Focar apenas no sintoma perceptivo e não tratar um episódio depressivo subjacente, que pode ser tanto causa quanto consequência das AAM.
Condições associadas
As AAM são um sintoma transdiagnóstico. Sua ocorrência sinaliza a necessidade de investigar as seguintes condições, classificadas conforme Dalgalarrondo (2018):
1. Condições Não-Psiquiátricas (Frequentemente com Insight Preservado):
- Déficit Auditivo (Hipoacusia): A associação mais clássica e frequente. Perdas condutivas ou sensorioneurais progressivas, especialmente em idosos (presbiacusia). É o principal fator para as AAM Idiopáticas.
- Doenças Neurológicas Focais:
- Epilepsia do Lobo Temporal: Alucinações musicais são uma aura clássica.
- Lesões Estruturais: Tumores (especialmente meningiomas, gliomas), acidentes vasculares cerebrais (AVC), abscessos ou traumatismos cranioencefálicos envolvendo o lobo temporal (giro temporal superior) ou regiões límbicas.
- Encefalites (p.ex., por Herpes simplex).
- Doenças Neurodegenerativas:
- Demência por Corpos de Lewy: Alucinações visuais são a marca, mas AAM também são relatadas.
- Doença de Alzheimer: Em fases moderadas a avançadas.
- Doença de Parkinson: Pode ocorrer, muitas vezes relacionada a medicamentos dopaminérgicos ou à própria neurodegeneração.
- Intoxicações/Abstinência: Por álcool, cocaína, anfetaminas, alucinógenos, e durante a abstinência de benzodiazepínicos.
2. Transtornos Psiquiátricos (Frequentemente com Insight Comprometido):
- Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos: Berrios (1991) e Dalgalarrondo citam que pessoas com esquizofrenia podem apresentar AAM, embora sejam menos comuns que as auditivo-verbais.
- Transtornos do Humor:
- Episódio Depressivo Maior com Sintomas Psicóticos: As AAM podem ter conteúdo congruente com o humor (músicas tristes, fúnebres).
- Episódio Maníaco com Sintomas Psicóticos: Músicas podem ser percebidas como grandiosas, eufóricas.
- Transtorno Obsessivo-Compulsivo Grave: Ruminações musicais intrusivas podem, em raros casos, adquirir qualidade perceptiva.
Correlações nos Manuais Diagnósticos:
- CID-11: As AAM são um sintoma codificado dentro dos transtornos específicos. Por exemplo, podem ser registradas como um sintoma psicótico no contexto de um Transtorno Esquizofrênico (6A20), Transtorno Depressivo (6A7-) com sintomas psicóticos, ou como um fenômeno associado a Transtornos do Neurodesenvolvimento (6A00-6A0Z) ou Doenças do Sistema Nervoso (8A00-8E7Z). A perda auditiva seria codificada em capítulo separado (AB50-AB9Z).
- DSM-5-TR: Situação similar. As AAM são consideradas alucinações auditivas, um sintoma que contribui para o diagnóstico de Esquizofrenia, Transtorno Esquizoafetivo, Transtorno Depressivo Maior/Bipolar com Características Psicóticas. Quando devidas a uma condição médica (p.ex., perda auditiva, tumor cerebral), o diagnóstico seria Transtorno Psicótico Devido a Outra Condição Médica.
Implicações terapêuticas
O tratamento das AAM é direcionado à causa subjacente e ao alívio do sofrimento. Não há um protocolo farmacológico padronizado universalmente eficaz.
1. Abordagem Etiológica (a mais importante):
- Correção do Déficit Auditivo: A adaptação de um aparelho auditivo é a intervenção de primeira linha e muitas vezes a mais eficaz para AAM por deaferentação. Ao restaurar o input sensorial, reduz-se a hiperexcitabilidade cortical. A estimulação auditiva ambiental (ruído branco, rádio em volume baixo) também pode ajudar.
- Manejo de Condições Neurológicas: Tratamento antiepiléptico adequado para epilepsia; avaliação neurocirúrgica para lesões expansivas; tratamento específico para demências.
- Revisão de Medicamentos: Suspeitar de fármacos como desencadeantes. A redução da dose ou a troca do agente (p.ex., trocar um ISRS por outro) pode resolver as AAM.
2. Abordagem Farmacológica Sintomática:
A evidência é baseada em relatos de caso e séries pequenas. A escolha depende do contexto diagnóstico.
- Antipsicóticos Atípicos (de Segunda Geração): São os mais estudados. Atuam modulando a transmissão dopaminérgica e serotoninérgica. Quetiapina (em baixas doses, 25-100 mg/dia) e Olanzapina (2,5-10 mg/dia) têm mostrado benefício em alguns casos, especialmente quando há comorbidade ansiosa ou depressiva. Em pacientes com psicose primária, o tratamento segue os protocolos padrão para esquizofrenia.
- Anticonvulsivantes: Levetiracetam e Lamotrigina têm sido utilizados, fundamentados na teoria da hiperexcitabilidade cortical, com resultados variáveis.
- Antidepressivos: Se houver um episódio depressivo claro, seu tratamento adequado pode melhorar as AAM. Deve-se monitorar, pois alguns antidepressivos (especialmente em idosos) podem piorar ou desencadear o sintoma.
- Benzodiazepínicos: Uso limitado e cauteloso, apenas para crises de ansiedade aguda, devido ao risco de dependência e tolerância, especialmente em idosos.
3. Abordagens Psicoterapêuticas e Não-Farmacológicas:
- Psicoeducação: É fundamental. Explicar ao paciente e à família a natureza do fenômeno (modelo da deaferentação), desmistificando a ideia de "loucura" ou demência inevitável. Isso reduz a ansiedade secundária.
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Adaptações das técnicas usadas para alucinações auditivo-verbais podem ser úteis. Foca na modificação das crenças catastróficas sobre o sintoma, no desenvolvimento de estratégias de distração e no manejo do estresse.
- Terapia de Retreinamento do Tinnitus (TRT): Princípios similares aos usados para tinnitus podem ser aplicados, combinando aconselhamento (psicoeducação) e terapia sonora (uso de geradores de som ou aparelhos auditivos para enriquecer o ambiente acústico).
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O prognóstico está intimamente ligado à causa tratável. Em casos de AAM por perda auditiva corrigível, o prognóstico é bom. Em condições neurodegenerativas progressivas ou esquizofrenia refratária, as AAM podem ser persistentes. A presença de insight preservado é um fator prognóstico positivo, pois indica maior adesão ao tratamento e menor risco de comportamentos perigosos. O impacto na qualidade de vida é significativo, mas intervenções multimodais (aparelho auditivo + psicoeducação + manejo farmacológico se necessário) podem trazer alívio substancial.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
O início é frequentemente insidioso. Um paciente idoso com perda auditiva pode, em um ambiente silencioso, começar a "escutar" um rádio distante. A verificação inicial (desligar aparelhos, perguntar a familiares) confirma a ausência de fonte externa. Surge então o medo: "Isso é loucura? Estou com Alzheimer?". A experiência é descrita com um misto de perplexidade ("Como meu cérebro pode criar algo tão nítido?") e angústia ("Não consigo fazer parar, atrapalha meu sono, minha concentração"). A vergonha pode levar ao isolamento. Em contraste, pacientes psicóticos podem integrar a música a seus delírios, atribuindo-lhe significado pessoal e ameaçador.
Orientações para Comunicação Clínica:
- Validação e Normalização: Inicie validando o sofrimento: "Isso deve ser muito angustiante para a senhora". Em seguida, normalize o fenômeno dentro de um modelo médico: "O que a senhora descreve é algo que conhecemos, chamado alucinação musical. É muito comum em pessoas com dificuldade de audição. Não é loucura, nem sinal de Alzheimer. É como se o cérebro, sentindo falta dos sons, começasse a ‘preencher’ o silêncio com memórias musicais".
- Linguagem Clara e Direta: Evite termos como "psicose" inicialmente, a menos que o contexto exija. Use "percepção musical sem fonte externa" ou "músicas geradas pelo próprio cérebro".
- Envolvimento da Família: Eduque os familiares sobre a condição. Explique que não é "frescura" ou demência. Oriente-os a não desmentir bruscamente o paciente ("Não tem música nenhuma!"), mas a oferecer uma explicação calmante ("Lembra que o médico explicou que seu ouvido faz isso às vezes?").
- Enfatize a Tratabilidade: Transmita esperança. "A primeira coisa que vamos fazer é uma avaliação detalhada da sua audição. Muitas vezes, o uso de um aparelho auditivo ajuda muito a diminuir ou até acabar com essas músicas".
Impacto Funcional:
- Sono: A intrusão no silêncio noturno é um dos maiores problemas, levando à insônia e fadiga diurna.
- Concentração: Dificulta leitura, trabalho, acompanhamento de conversas.
- Vida Social: O paciente pode evitar encontros sociais por dificuldade de ouvir em ambientes ruidosos (devido à perda auditiva) e pelo constrangimento com a experiência interna.
- Saúde Mental: O estresse crônico pode precipitar transtornos de ansiedade generalizada e depressão.
Perguntas frequentes
1. Ouvir músicas que não estão tocando é sinal de esquizofrenia?
Não necessariamente. Enquanto a esquizofrenia frequentemente envolve alucinações (principalmente vozes), as alucinações musicais isoladas, especialmente em idosos com perda auditiva, são mais comumente um fenômeno à parte, chamado de alucinação por deaferentação. A avaliação psiquiátrica e neurológica é que determinará o diagnóstico.
2. Minha mãe idosa ouve hinos e tem medo de ter Alzheimer. Isso é comum?
Sim, é uma preocupação muito frequente. As alucinações musicais por perda auditiva não são um sintoma típico ou inicial da Doença de Alzheimer. É importante investigar a audição dela. O medo em si, porém, merece acolhimento e uma explicação médica clara para tranquilizá-la.
3. Existe remédio para isso?
O tratamento é direcionado à causa. Se for por perda auditiva, o aparelho auditivo é o "remédio" principal. Medicamentos como alguns antipsicóticos ou anticonvulsivantes podem ser tentados em casos refratários e com muito sofrimento, mas sempre sob rigorosa supervisão médica, especialmente em idosos devido aos efeitos colaterais.
4. O fenômeno vai piorar com o tempo?
Depende da causa subjacente. Se a perda auditiva for progressiva e não corrigida, as alucinações podem se tornar mais frequentes ou intrusivas. Se a causa for tratada (p.ex., adaptando um aparelho, tratando uma depressão), elas podem melhorar ou desaparecer.
5. Devo procurar um psiquiatra ou um neurologista?
O ideal é iniciar com um clínico geral ou geriatra para uma avaliação inicial. Eles podem solicitar uma avaliação audiológica (com fonoaudiólogo) e, a depender dos outros sintomas, encaminhar para psiquiatra (se houver suspeita de depressão, ansiedade ou psicose) ou neurologista (se houver suspeita de epilepsia, AVC ou outras doenças neurológicas). Muitas vezes, o manejo é multidisciplinar.
6. Barulho ambiente ajuda ou atrapalha?
Para a maioria, ajuda. Manter um ruído de fundo suave (como um rádio em volume baixo, um ventilador, um gerador de som com ruído branco) pode "ocupar" o sistema auditivo e reduzir a tendência do cérebro a preencher o silêncio com alucinações. O silêncio absoluto tende a piorar o sintoma.
7. Isso tem cura?
Em muitos casos associados a condições tratáveis (como perda auditiva corrigível ou efeito de medicamento), sim, pode haver remissão completa. Em condições crônicas (algumas formas de epilepsia, esquizofrenia), o objetivo é o controle do sintoma e a redução do sofrimento, melhorando a qualidade de vida.
8. É hereditário?
Não há evidências de que as alucinações musicais por deaferentação sejam hereditárias. A predisposição à perda auditiva na velhice pode ter componentes genéticos, mas o fenômeno alucinatório em si não é diretamente herdado.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Berrios, G.E. Musical hallucinations. A historical and clinical study. British Journal of Psychiatry. 1991; 158: 188-194.
- Kumar, S., et al. The brain basis for misophonia. Current Biology. 2014; 24(13): R1-R2. (Citado por Dalgalarrondo no contexto dos circuitos neurais).
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. revisada. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.