Definição e conceito
A alogia (do grego a-, "sem", e logos, "palavra") é um sintoma psicopatológico caracterizado pelo empobrecimento patológico do fluxo e conteúdo da fala. É um fenômeno de linguagem que reflete, em última análise, um empobrecimento do pensamento, sendo considerado um sintoma negativo clássico na psiquiatria. A alogia se manifesta clinicamente por uma redução quantitativa na produção verbal (diminuição da fluência) e uma redução qualitativa no conteúdo informativo do discurso (pobreza de conteúdo).
Na semiologia psiquiátrica, a alogia é frequentemente categorizada como uma alteração formal do pensamento e da linguagem. Distingue-se de outros sintomas negativos, como a abulia (perda da vontade) e o embotamento afetivo, embora frequentemente coexistam. O termo "discurso lacônico" (laconic speech) é usado como sinônimo, descrevendo respostas curtas, pouco elaboradas e que fornecem informação mínima, mesmo quando o paciente é capaz de falar.
É crucial diferenciar a alogia de outros construtos:
- Bradifasia/Bradilalia: Refere-se especificamente ao ritmo lento da fala. Um paciente com bradifasia pode, em tese, produzir um discurso com conteúdo rico, ainda que de forma extremamente vagarosa. Na alogia, o déficit é na quantidade e na substância da fala, que pode ou não ser acompanhada de lentidão.
- Mutismo: É a ausência completa de resposta verbal oral, apesar do paciente estar acordado e sem comprometimento motor da fala. A alogia representa um espectro de empobrecimento, enquanto o mutismo é seu extremo.
- Oligolalia: Termo frequentemente usado como sinônimo de alogia, mas que pode enfatizar mais a redução quantitativa (poucas palavras) do que a qualitativa.
- Afasia: É um distúrbio da linguagem decorrente de lesão cerebral (ex.: AVC, tumor), que compromete a capacidade de compreender ou produzir palavras, dentro dos módulos linguísticos (ex.: afasia de Broca, de Wernicke). A alogia, em sua apresentação primária, não é um déficit linguístico per se, mas sim um déficit na produtividade do pensamento e da fala. Pacientes com afasia demonstram esforço e frustração; aqueles com alogia primária podem mostrar indiferença.
- Pobreza de conteúdo do pensamento: Este é o correlato cognitivo da alogia. Enquanto a alogia é o sinal observável (a fala empobrecida), a pobreza de conteúdo do pensamento é o sintoma subjetivo/experiencial ou a inferência clínica sobre o processo de pensamento que subjaz à fala.
Dados epidemiológicos específicos para a alogia são escassos, pois ela é geralmente estudada como parte do conjunto de sintomas negativos. Estima-se que sintomas negativos (incluindo alogia, abulia, embotamento afetivo e anedonia) afetem entre 40% a 50% dos pacientes com esquizofrenia, sendo preditores significativos de pior funcionamento psicossocial.
Apresentação clínica
A alogia se manifesta na entrevista clínica como uma barreira à comunicação fluida. O profissional precisa "puxar" a informação do paciente, fazendo perguntas diretas e frequentemente obtendo respostas insuficientes. A avaliação deve considerar dois domínios inter-relacionados: o fluxo (aspecto quantitativo) e o conteúdo (aspecto qualitativo).
Domínio Cognitivo/Linguístico:
- Diminuição da Fluência Verbal: O paciente produz menos palavras por minuto do que o esperado para seu contexto sociocultural e educacional. As pausas entre as palavras e frases são prolongadas, e a latência de resposta (tempo entre a pergunta e o início da resposta) está aumentada.
- Respostas Lacônicas: As respostas são curtas, frequentemente monossilábicas ("sim", "não", "talvez") ou compostas por frases muito curtas. O paciente não elabora espontaneamente.
- Pobreza de Conteúdo: Mesmo quando o paciente fala por frases mais longas, a informação transmitida é vaga, repetitiva ou pouco substantiva. O discurso pode soar vazio, circular ou concreto, sem a elaboração de ideias abstratas. Exemplo: À pergunta "Como você se sente vivendo com sua família?", o paciente responde: "É uma casa. Tem quartos. A gente mora lá." A forma gramatical pode estar preservada, mas a informação semântica é pobre.
- Falta de Espontaneidade: O paciente raramente inicia conversas ou traz novos tópicos. A fala é quase exclusivamente reativa ao interlocutor.
Domínio Afetivo e Comportamental:
- Hipoprosódia ou Aprosódia: A fala pode perder sua musicalidade, entonação e inflexões emocionais. O discurso torna-se monocórdico, plano, sem a variação de tom que transmite significado afetivo.
- Comportamento Não-Verbal Correspondente: A alogia frequentemente coexiste com embotamento afetivo (expressão facial imóvel, pobre contato visual) e redução dos gestos comunicativos. A postura pode ser fechada.
- Ausência de Esforço Compensatório: Diferente de um paciente deprimido que pode dizer "é difícil pensar" ou um afásico que demonstra frustração, o paciente com alogia primária (e.g., na esquizofrenia deficitária) pode parecer indiferente à sua própria falta de comunicação.
Exemplos Clínicos Concisos:
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Entrevista para avaliação de humor:
- Psiquiatra: "O senhor poderia me descrever como tem sido seu humor nas últimas semanas?"
- Paciente: (Pausa de 15 segundos) "Baixo."
- Psiquiatra: "O que quer dizer com ‘baixo’? Tem se sentido triste, sem esperança?"
- Paciente: (Pausa) "É. Triste."
- Psiquiatra: "Essa tristeza vem acompanhada de algum pensamento específico?"
- Paciente: "Não."
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Avaliação de atividades:
- Psiquiatra: "Me conte como é um dia comum para a senhora, desde que acorda."
- Paciente: "Levanto. Como algo. Fico em casa. Durmo."
- Psiquiatra: "O que a senhora faz enquanto fica em casa? Assist TV, lê, cuida da casa?"
- Paciente: "Às vezes TV."
- Psiquiatra: "O que costuma assistir?"
- Paciente: "Novela."
Neurobiologia e fisiopatologia
A alogia, como sintoma negativo, está associada a disfunções em circuitos corticais e subcorticais que sustentam a motivação, a recompensa, a iniciativa e a fluência do pensamento e da linguagem. Os modelos atuais apontam para uma hipofunção dopaminérgica mesocortical, em contraste com a hiperfunção dopaminérgica mesolímbica associada aos sintomas positivos.
Circuitos Envolvidos:
- Córtex Pré-Frontal Dorsolateral (DLPFC): Esta área é fundamental para as funções executivas, incluindo o planejamento, a geração de ideias, a fluência verbal (categoria e fonêmica) e a organização do pensamento. A hipoatividade do DLPFC está fortemente correlacionada com a pobreza de fala e de conteúdo do pensamento. Neuroimagens funcionais (fMRI, PET) frequentemente mostram redução do metabolismo e do fluxo sanguíneo nesta região em pacientes com esquizofrenia e sintomas negativos proeminentes.
- Córtex Pré-Frontal Ventromedial e Circuito de Recompensa: Estas estruturas, incluindo o núcleo accumbens e a via mesolímbica, estão envolvidas na motivação e na antecipação do prazer (anedonia). A disfunção neste circuito pode levar à abulia e à apatia, que são motores centrais da alogia: se não há motivação interna para comunicar-se, a produção de fala diminui.
- Áreas de Linguagem (Broca, Wernicke) e seu Conectividade: Embora as áreas primárias da linguagem possam estar estruturalmente intactas, a conectividade funcional entre o DLPFC (que gera e organiza o pensamento) e a área de Broca (que o transforma em fala motora) pode estar comprometida. Estudos de neuroimagem de conectividade mostram alterações na substância branca que liga essas regiões.
Neurotransmissores:
- Dopamina: A teoria da hipofunção dopaminérgica mesocortical é central. Os neurônios dopaminérgicos que projetam do tronco cerebral para o córtex pré-frontal são menos ativos, levando a déficits cognitivos e na motivação.
- Glutamato: Modelos glutamatérgicos, focados na hipofunção dos receptores NMDA, sugerem que a disfunção neste sistema pode levar a uma desconexão entre redes neuronais, prejudicando a integração de informações necessária para um pensamento fluente e elaborado.
- Serotonina e Acetilcolina: Também modulam circuitos pré-frontais e de recompensa, e seu desequilíbrio pode contribuir para o espectro de sintomas negativos.
Em resumo, a alogia não é um déficit em um módulo linguístico específico, mas sim a expressão comportamental de uma síndrome de desconexão e hipofrontalidade, onde os sistemas cerebrais responsáveis por iniciar, sequenciar e dar propósito ao pensamento e à comunicação estão funcionando abaixo do nível ótimo.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
A avaliação da alogia é feita principalmente pela observação da fala espontânea e pela análise das respostas durante a entrevista. O examinador deve notar:
- Quantidade: Número de palavras produzidas, frequência de iniciação de conversa.
- Fluência e Ritmo: Presença de pausas longas, latência aumentada para responder.
- Conteúdo: Nível de elaboração, uso de detalhes, capacidade de abstrair e generalizar. Perguntas abertas ("Conte-me sobre sua família") são mais reveladoras do que perguntas fechadas.
- Prosódia: Tom de voz monótono, falta de variação emocional.
- Comportamento Não-Verbal: Expressão facial, gestos, contato ocular.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
A alogia é frequentemente avaliada como parte de escalas mais amplas de sintomas negativos ou psicopatologia geral.
- Escala de Avaliação de Sintomas Negativos (SANS – Scale for the Assessment of Negative Symptoms): Possui um item específico para "Pobreza de Fala (Alogia)" e outro para "Pobreza de Conteúdo da Fala".
- Escala de Sintomas Positivos e Negativos (PANSS – Positive and Negative Syndrome Scale): O item N6 ("Falta de Espontaneidade e Fluência da Conversação") avalia diretamente a alogia.
- Entrevista Clínica Estruturada para Sintomas Negativos (CAINS – Clinical Assessment Interview for Negative Symptoms): Instrumento mais moderno que avalia domínios como "Expressão Facial/Vocal" e "Experiência Subjetiva", capturando aspectos da comunicação não-verbal e da motivação interna para o engajamento social.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
A alogia é um sinal inespecífico. Sua correta interpretação depende do contexto sindrômico.
| Condição | Mecanismo/Contexto da Alogia | Características Diferenciais |
|---|---|---|
| Esquizofrenia (Subtipo Deficitário/Sintomas Negativos) | Primária/Idiopática. Disfunção nos circuitos pré-frontais e de motivação. | Sintomas negativos proeminentes e persistentes (embotamento, abulia, anedonia). Pouca angústia subjetiva com o sintoma. História de declínio funcional gradual. |
| Transtorno Depressivo Maior (Grave ou Melancólico) | Secundária ao humor. Retardo psicomotor e inibição do pensamento. | Humor deprimido, anedonia, sentimentos de culpa/desvalia. A fala é lenta (bradifasia) e pobre, mas o paciente relata sofrimento ("minha cabeça não funciona"). Pode haver agitação psicomotora. |
| Demências (ex.: Alzheimer, Frontotemporal) | Secundária ao déficit cognitivo. Afasia, apraxia verbal, déficit executivo. | Comprometimento mnésico proeminente (Alzheimer) ou mudanças comportamentais/desinibção (FTD). Podem ocorrer parafasias, dificuldade para encontrar palavras (word-finding difficulties), ecolalia, perseveração. A avaliação neuropsicológica é crucial. |
| Efeito de Medicamentos | Secundária iatrogênica. Bloqueio dopaminérgico excessivo. | Uso de antipsicóticos típicos em altas doses ou em indivíduos sensíveis. Associado a outros sinais parkinsonianos (bradicinesia, rigidez). Pode melhorar com redução da dose ou uso de agonistas dopaminérgicos/antícolinérgicos. |
| Retardo Mental/Deficiência Intelectual | Secundária ao déficit cognitivo global. | História de início precoce (infância), déficits adaptativos em múltiplos domínios. A linguagem é globalmente limitada, mas não necessariamente mostra um declínio agudo. |
| Mutismo Seletivo / Catatonia | Secundária a ansiedade extrema ou inibição psicomotora. | No mutismo seletivo, a fala é preservada em contextos específicos. Na catatonia, a alogia/mutismo ocorre no contexto de estupor, negativismo, posturas e outros sinais catatônicos. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Confundir Timidez ou Traço de Personalidade Introvertida com Alogia Patológica: A alogia é um declínio ou uma alteração marcante em relação ao funcionamento pré-mórbido. A história colateral é fundamental.
- Atribuir a Alogia a um Quadro Depressivo sem Avaliar a Presença de Sintomas Negativos Primários da Esquizofrenia: A persistência da alogia após a remissão de um episódio depressivo ou sua existência na ausência de humor deprimido sugere um processo esquizofrênico.
- Não Investigar Causas Orgânicas: Demências de início precoce, tumores frontais, hidrocefalia de pressão normal podem se apresentar inicialmente com apatia e empobrecimento da fala.
- Superestimar o Efeito de Antipsicóticos: Embora possam causar alogia iatrogênica, sintomas negativos primários frequentemente precedem o tratamento farmacológico. É necessário diferenciar a causa da piora.
Condições associadas
A alogia é um sintoma transdiagnóstico, mas sua importância e significado variam conforme o transtorno.
- Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos: É um dos cinco sintomas negativos centrais (juntamente com embotamento afetivo, abulia, anedonia e associalidade). É particularmente proeminente no tipo deficitário ou na apresentação com predomínio de sintomas negativos. Segundo o DSM-5-TR e a CID-11, os sintomas negativos são um dos domínios para a especificação da gravidade da esquizofrenia. Também pode ocorrer no transtorno esquizofreniforme e no transtorno esquizoafetivo.
- Transtorno Depressivo Maior: Na depressão grave com características melancólicas ou psicóticas, a inibição psicomotora pode se manifestar como bradifasia e alogia. A fala é escassa, monótona e de baixa energia. Na CID-11, pode ser um especificador de depressão com sintomas psicóticos.
- Transtornos Neurocognitivos (Demências):
- Demência de Alzheimer: Nas fases iniciais, podem ocorrer dificuldades para encontrar palavras (word-finding difficulties) e um discurso progressivamente mais vago e circunstanciado, que pode mimetizar a alogia. Em fases mais avançadas, afasias (com parafasias) e ecolalia são mais comuns.
- Demência Frontotemporal (Variante Comportamental): Apatia e empobrecimento da fala são sintomas centrais. Na variante semântica, há uma perda progressiva do significado das palavras, levando a um discurso vazio.
- Efeitos de Substâncias/Medicamentos: O uso crônico de antipsicóticos de primeira geração (típicos) em altas doses pode induzir um estado parkinsoniano que inclui bradifasia e redução da espontaneidade da fala, configurando uma alogia iatrogênica. Sedativos e depressores do SNC também podem causar esse efeito.
- Transtornos do Neurodesenvolvimento: No Retardo Mental/Deficiência Intelectual grave, a capacidade de linguagem é globalmente limitada. No Transtorno do Espectro Autista, pode haver mutismo seletivo ou um padrão de fala peculiar, mas a alogia como definida aqui não é um sintoma central.
Implicações terapêuticas
O tratamento da alogia é desafiador e foca no manejo do transtorno de base e na reabilitação psicossocial. Não existe um "medicamento para alogia", mas intervenções que modulam os circuitos subjacentes aos sintomas negativos.
Abordagens Farmacológicas:
- Antipsicóticos Atípicos (de Segunda Geração): São a primeira linha para a esquizofrenia. Alguns, como a cariprazina e a lurasidona, têm demonstrado em estudos um perfil mais favorável para a melhora de sintomas negativos, possivelmente por seu agonismo parcial em receptores dopaminérgicos D2/D3 e serotoninérgicos 5-HT1A, que pode modular a atividade mesocortical. A clozapina também pode beneficiar alguns sintomas negativos, mas seu uso é reservado para casos resistentes.
- Antidepressivos: Em pacientes com esquizofrenia e sintomas negativos proeminentes, a adição de um antidepressivo (ex.: ISRS como a fluoxetina ou antidepressivos noradrenérgicos como a reboxetina) pode ser tentada, visando melhorar a motivação e a energia. No contexto da depressão maior, o tratamento eficaz do episódio depressivo geralmente reverte a alogia secundária.
- Agentes Aditivos/Moduladores: O uso de modafinila (um agente promotor de vigília) ou agonistas dopaminérgicos (como a pramipexol) tem sido estudado para sintomas negativos, com resultados mistos. O ácido valproico como adjuvante pode ajudar na estabilização do humor em transtornos esquizoafetivos.
- Cautela com Antipsicóticos Típicos: Doses altas podem piorar a alogia. A otimização da dose ou a troca para um atípico é frequentemente necessária.
Abordagens Psicossociais e de Reabilitação:
Estas são fundamentais no manejo da alogia, especialmente na esquizofrenia.
- Terapia Cognitivo-Comportamental para Psicose (TCCp): Pode ajudar o paciente a identificar e desafiar crenças que inibem o engajamento social (ex.: "não tenho nada interessante a dizer"), além de treinar habilidades de comunicação de forma gradual e estruturada.
- Treinamento de Habilidades Sociais (THS): Foca diretamente nos déficits comportamentais. Pacientes são treinados em componentes específicos da conversação (iniciar, manter e encerrar um diálogo, fazer contato visual, usar uma entonação adequada) através de modelagem, role-playing e prática.
- Reabilitação Neurocognitiva (RN): Programas de RN visam melhorar funções executivas, atenção e memória de trabalho. A melhora nesses domínios pode ter efeitos positivos indiretos na capacidade de gerar e organizar pensamentos, refletindo-se na fluência verbal.
- Musicoterapia e Terapia Ocupacional: Atividades em grupo que usam meios não-verbais ou semi-verbais de expressão podem ser um primeiro passo para reduzir o isolamento e, gradualmente, facilitar a comunicação verbal.
Impacto Prognóstico e na Resposta:
A presença de alogia e outros sintomas negativos primários está associada a um pior prognóstico global. Estes pacientes tendem a ter menor resposta aos antipsicóticos tradicionais (que são mais eficazes para sintomas positivos), maior déficit funcional (dificuldade para trabalhar, estudar, manter relacionamentos), e maior dependência de serviços de apoio. A intervenção precoce e intensiva com estratégias psicossociais é crucial para mitigar este impacto.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
A experiência subjetiva da alogia varia. Em alguns casos, principalmente na esquizofrenia deficitária, há uma diminuição da pressão do pensamento ou uma sensação de vazio mental. O paciente pode relatar: "Minha cabeça fica em branco", "Não me vem nada para dizer", "Para que falar?". A falta de motivação intrínseca para comunicar-se é central. Em outros contextos, como na depressão grave, a experiência é de inibição e lentidão: "As palavras não saem", "Pensar cansa", "É um esforço enorme formar uma frase". A frustração pode ou não estar presente.
Comunicação Clínica com o Paciente:
- Paciência e Tempo: Não apressar o paciente. Permitir pausas longas sem interromper. Usar expressões como "Pode levar o tempo que precisar".
- Perguntas Estruturadas e Concretas: Evitar perguntas abertas e abstratas inicialmente. Começar com perguntas fechadas ("Você dormiu bem hoje?") e gradualmente passar para perguntas que requerem descrições curtas ("Descreva o que comeu no almoço").
- Validação e Normalização: Evitar confrontos do tipo "Por que você fala tão pouco?". Em vez disso, usar frases como "Percebo que às vezes pode ser difícil encontrar as palavras" ou "Entendo que conversar pode demandar muita energia".
- Oferecer Opções de Resposta: "Isso te deixa triste, irritado ou indiferente?" pode facilitar uma resposta quando a geração espontânea de um adjetivo está comprometida.
- Observar a Comunicação Não-Verbal: Dar importância aos acenos de cabeça, mudanças sutis na expressão facial ou gestos, validando-os como formas de comunicação.
Orientação para Familiares:
- Educação sobre o Sintoma: Explicar que a alogia não é preguiça, teimosia ou falta de afeto, mas um sintoma da doença, como uma febre é sintoma de uma infecção.
- Reduzir a Pressão: Orientar a não bombardear o paciente com perguntas ou exigir conversas longas. A pressão pode aumentar a ansiedade e piorar o isolamento.
- Valorizar a Presença: Encorajar atividades compartilhadas que não exijam conversação (assistir um filme, fazer uma caminhada, cozinhar juntos). A companhia silenciosa pode ser reconfortante.
- Comunicação Clara e Direta: Falar de forma calma, com frases simples. Evitar sarcasmo, ironia ou linguagem indireta, que podem ser mal interpretadas ou não processadas.
Impacto Funcional:
A alogia compromete profundamente a qualidade de vida e o funcionamento psicossocial:
- Trabalho/Estudo: Dificulta a participação em reuniões, a apresentação de ideias, o trabalho em equipe e a realização de entrevistas.
- Relacionamentos: Leva ao isolamento social. Amigos e familiares podem se afastar por interpretarem a falta de comunicação como desinteresse. A manutenção de relacionamentos íntimos torna-se extremamente difícil.
- Acesso a Cuidados: Pode impedir que o paciente relate adequadamente seus sintomas, efeitos colaterais de medicamentos ou necessidades ao profissional de saúde, prejudicando a adesão e a eficácia do tratamento.
Perguntas frequentes
1. Alogia é o mesmo que timidez?
Não. A timidez é um traço de personalidade onde há inibição social, mas a capacidade de pensar e falar fluentemente está preservada em contextos seguros. A alogia é um sintoma patológico, geralmente representando um declínio em relação ao funcionamento anterior, e está ligada a uma redução objetiva da produtividade do pensamento e da fala, independentemente do contexto.
2. Meu familiar com esquizofrenia fala muito pouco e parece indiferente. Isso tem tratamento?
Sim, embora seja um dos desafios terapêuticos. O manejo envolve uma combinação: 1) Ajuste da medicação, possivelmente para antipsicóticos com melhor perfil para sintomas negativos; 2) Envolvimento constante em programas de reabilitação psicossocial, como treinamento de habilidades sociais e terapia ocupacional; 3) Apoio familiar para criar um ambiente de baixa pressão e alta estrutura. A melhora pode ser lenta e parcial, mas intervenções podem prevenir a piora e promover ganhos funcionais.
3. Na depressão, a pessoa também fala pouco. Como diferenciar da alogia da esquizofrenia?
O contexto e a experiência subjetiva são diferentes. Na depressão, a fala é lenta (bradifasia) e pobre, mas geralmente acompanhada de um humor claramente deprimido, sentimentos de culpa, desesperança e, frequentemente, queixa subjetiva de dificuldade para pensar ("inibição do pensamento"). Na alogia primária da esquizofrenia, pode não haver humor deprimido proeminente, e o paciente pode mostrar indiferença (embotamento afetivo) em relação ao seu próprio silêncio. A história pregressa de sintomas psicóticos positivos também auxilia.
4. A alogia pode ser um efeito colateral da medicação?
Sim. Antipsicóticos, especialmente os mais antigos (típicos), em doses altas, podem causar um estado similar ao parkinsonismo, com lentidão motora e mental, incluindo redução da fluência da fala (alogia iatrogênica). Se isso ocorrer, deve ser relatado ao psiquiatra, que pode ajustar a dose, trocar o medicamento ou adicionar um agente para controlar os efeitos extrapiramidais.
5. Existem exercícios ou atividades que podem ajudar uma pessoa com alogia?
Sim, sempre como parte de um plano terapêutico orientado. Atividades em grupo com baixa demanda verbal (artesanato, jardinagem) podem reduzir a ansiedade social. Gradualmente, pode-se introduzir atividades como:
- Leitura em voz alta de textos curtos.
- Jogos de palavras simples (dizer nomes de animais, cores).
- Treino de conversação em terapia, com tópicos pré-definidos e de curta duração.
O objetivo é a prática sem pressão, focando no processo e não no desempenho.
6. A alogia significa que a pessoa não está entendendo o que é dito?
Não necessariamente. A alogia é primariamente um distúrbio da expressão, não da compreensão. A capacidade de entender a linguagem (área de Wernicke) pode estar intacta. No entanto, em condições como demências, déficits de compreensão (afasias) podem coexistir e precisam ser avaliados separadamente.
7. O que devo fazer se suspeitar que a falta de fala de um idoso é alogia por demência, e não apenas "velhice"?
Procurar avaliação médica geriátrica ou neurológica/psiquiátrica. É fundamental não normalizar mudanças cognitivas e comportamentais no idoso. O médico investigará, através de história, exame do estado mental e possivelmente testes neuropsicológicos, se há um declínio significativo em relação ao nível prévio, caracterizando um Transtorno Neurocognitivo (demência).
8. A alogia tem cura?
Depende da causa. Na depressão, a alogia geralmente remite com o tratamento eficaz do episódio depressivo. Na esquizofrenia, a alogia primária é considerada um sintoma mais persistente e deficitário, que pode melhorar com tratamentos específicos, mas raramente desaparece completamente. O foco, nesse caso, está na reabilitação e no manejo para minimizar seu impacto na vida do paciente.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. revisada. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
- Kaplan & Sadock’s. Comprehensive Textbook of Psychiatry. 10th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2017.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.