Definição e conceito
A afasia na Doença de Pelizaeus-Merzbacher (DPM) refere-se a um conjunto de distúrbios de linguagem adquiridos, resultantes da desmielinização e hipomielinização progressiva do sistema nervoso central, que caracterizam esta leucodistrofia ligada ao cromossomo X. Na semiologia psiquiátrica e neuropsicológica, a afasia é classificada como um transtorno da linguagem de origem orgânica, distinto de déficits primários de inteligência, transtornos psiquiátricos funcionais ou problemas motores puros da fala (disartria).
Na DPM, a afasia não é um fenômeno isolado, mas sim um componente de um declínio neurocognitivo global, frequentemente inserido em um quadro demencial progressivo de início precoce. A apresentação linguística é tipicamente mista, combinando elementos de afasias não fluentes e fluentes, com características que evoluem conforme a progressão da doença. A terminologia técnica inclui:
- Afasia não fluente: Caracterizada por fala lenta, esforçada, com agramatismo (perda da estrutura gramatical) e redução na produção de palavras.
- Afasia fluente: Produção de fala com ritmo e quantidade normais ou aumentados, mas com conteúdo vazio, parafasias (substituições de palavras ou sons) e comprometimento severo da compreensão.
- Parafasia: Erro na produção da palavra, podendo ser literal/fonêmica (substituição de fonemas, ex.: "cachorro" por "pachorro") ou semântica (substituição por palavra de significado relacionado, ex.: "cachorro" por "gato").
- Agrafia: Perda da capacidade de escrever, por lesão cerebral orgânica, sem déficit motor ou cognitivo global que a justifique.
- Perseveração verbal: Repetição automática, estereotipada e sem sentido de palavras ou trechos de frases, indicativa de lesão neuronal, particularmente nas áreas pré-frontais.
Em inglês, os termos correspondentes são: aphasia, non-fluent aphasia, fluent aphasia, paraphasia, agraphia, verbal perseveration.
Epidemiologicamente, a DPM é uma doença rara, com incidência estimada entre 1:200.000 a 1:500.000 nascimentos do sexo masculino. A afasia é uma manifestação quase universal nas formas clássicas e congênitas da doença, embora seu padrão e gravidade variem conforme a idade de início e a progressão da hipomielinização. Não há dados epidemiológicos específicos sobre a prevalência de subtipos de afasia na DPM, dada a raridade da condição.
Apresentação clínica
A apresentação clínica da afasia na DPM é dinâmica e reflete a natureza progressiva da desmielinização cerebral. O quadro inicial pode ser sutil, sobrepondo-se a atrasos globais do desenvolvimento, e evolui para comprometimentos mais graves e multifacetados.
Domínio Cognitivo/Linguístico:
- Fala Espontânea: A fala espontânea é tipicamente não fluente ou hipofuncional. O paciente apresenta oligolalia (redução significativa na quantidade de fala), bradilalia (fala lentificada) e hipofonia (baixo volume vocal). As frases são curtas, telegráficas, com agramatismo (ausência de artigos, preposições, conjugações verbais complexas). Conforme a doença avança, pode haver uma transição para o mutismo.
- Compreensão: A compreensão da linguagem oral está frequentemente comprometida, mas pode ser relativamente mais preservada do que a expressão em fases iniciais, assemelhando-se a um padrão de afasia motora (de Broca). Com a progressão da doença e envolvimento de áreas mais posteriores (região temporal superior), a compreensão deteriora-se significativamente.
- Repetição: A capacidade de repetir palavras e frases pode estar alterada, dependendo do padrão lesional. Em alguns casos, pode haver uma relativa preservação da repetição, sugerindo um componente transcortical.
- Nomeação: A dificuldade na nomeação (anomia) é um achado proeminente e precoce. O paciente demonstra incapacidade de evocar palavras específicas, utilizando circunlóquios ("a coisa para sentar" em vez de "cadeira") ou parafasias.
- Leitura e Escrita: A alexia (perda da capacidade de leitura) e a agrafia são comuns. A agrafia na DPM frequentemente se apresenta como agrafia associada à afasia, onde os erros na escrita espelham os erros da fala (parafasias escritas, agramatismo na escrita).
- Alterações Qualitativas: São frequentes a perseveração verbal, a palilalia (repetição automática da última palavra pronunciada pelo próprio paciente) e a ecolalia (repetição automática da última palavra ou frase dita pelo interlocutor). Podem ocorrer também neologismos (criação de palavras novas e sem significado) e jargonofasia ("salada de palavras"), especialmente em fases mais avançadas com envolvimento extenso do córtex de associação.
Domínio Afetivo e Comportamental:
- Ansiedade e Frustração: A ansiedade é um componente significativo, particularmente em momentos de demanda comunicativa. O paciente, consciente de suas dificuldades, pode apresentar reações de frustração, irritabilidade ou retraimento social.
- Aprosódia: Há frequentemente uma perda da prosódia (aprosódia ou hipoprosódia), ou seja, a fala perde sua melodia, entonação e ênfase emocional, soando monótona e mecânica. Isto prejudica a comunicação não-verbal e a expressão emocional.
- Comportamento: A limitação comunicativa pode levar a comportamentos de oposição, apatia ou, em contraste, a uma disposição excessivamente alegre e eufórica em alguns casos, dissociada do contexto.
Domínio Somático/Neurológico:
A afasia nunca ocorre isoladamente. Está invariavelmente associada a:
- Disartria: Dificuldade motora na articulação das palavras, devido ao comprometimento dos tratos motores.
- Ataxia e Tremor: Que afetam a coordenação motora fina e grossa.
- Espasticidade: Principalmente em membros inferiores.
- Nistagmo e Distúrbios Oculomotores: Um dos sinais precoces clássicos.
- Déficits Cognitivos Globais: Em memória, funções executivas e velocidade de processamento.
Exemplo Clínico Conciso:
Paciente do sexo masculino, 12 anos, com diagnóstico de DPM forma clássica. Na entrevista, estabelece contato visual, mas responde apenas após longa latência. Sua fala é lenta, com frases de 2-3 palavras ("Quero… água… copo"). Apresenta dificuldade em nomear uma caneta ("coisa… escrever"). Ao tentar repetir "paraquedas", diz "paraparedes". Quando perguntado sobre seu dia, persevera: "Bom… bom… bom…". A compreensão de comandos simples parece intacta, mas falha em comandos complexos. A escrita é ilegível, com letras mal formadas e palavras truncadas.
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia da afasia na DPM é diretamente consequente à patologia central da doença: uma mutação no gene PLP1 (Proteína Proteolipídica 1), localizado no cromossomo Xq22. Esta mutação leva a uma produção anormal da proteína PLP e da sua isoforma DM20, componentes majoritários da mielina no sistema nervoso central. O resultado é uma hipomielinização congênita e/ou uma desmielinização progressiva instável.
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Substrato Anatômico: A mielina é essencial para a transmissão saltatória rápida e eficiente dos potenciais de ação ao longo dos axônios. A hipomielinização na DPM afeta de forma difusa, mas não uniforme, a substância branca cerebral. Circuitos de linguagem que dependem de longas conexões de substância branca são particularmente vulneráveis:
- Circuito Perisilviano Esquerdo (Clássico): Envolvendo as áreas de Broca (giro frontal inferior) e de Wernicke (giro temporal superior), conectadas pelo fascículo arqueado. Lesões extensas nesta região podem levar a uma afasia global, muito grave e não fluente. A progressão da doença pode inicialmente afetar mais a região anterior (levando a uma afasia não fluente) e depois se estender para regiões posteriores.
- Circuitos Extrassilvianos e de Associação: Conforme descrito por Dalgalarrondo, a neuroanatomia das afasias envolve outras regiões que interagem dinamicamente. A DPM, por ser uma doença difusa da substância branca, compromete conexões fronto-temporais, fronto-parietais e inter-hemisféricas (como o corpo caloso), levando a padrões complexos de afasia. Isto pode explicar a ocorrência de características de afasia transcortical (preservação relativa da repetição) ou de afasia progressiva primária, onde há um lento e progressivo declínio da linguagem.
- Córtex Pré-Frontal: O comprometimento da substância branca frontal subjacente ao córtex pré-frontal está diretamente relacionado a sintomas como perseveração verbal, ecolalia e palilalia. A perda do controle inibitório exercido por estas áreas leva à liberação de respostas verbais automáticas e repetitivas.
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Modelos Explicativos: O modelo atual para as afasias na DPM integra:
- Desconexão Subcortical: A falha na mielinização impede a comunicação eficiente entre os núcleos cinzentos de linguagem. Um paciente pode ter áreas corticais relativamente preservadas, mas a informação não trafega entre elas.
- Processamento Lentificado: A condução nervosa desmielinizada é mais lenta e consome mais energia. Isto se manifesta clinicamente como bradilalia, aumento da latência de resposta e fadiga cognitiva durante tarefas de linguagem.
- Progressão Anterógrada-Retrógrada: A doença pode progredir de forma a simular síndromes focais em um contexto difuso. A apresentação pode mimetizar uma afasia progressiva primária não fluente, com perda progressiva da produção de linguagem, erros gramaticais e fonêmicos.
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Evidências de Neuroimagem: A Ressonância Magnética (RM) é diagnóstica. O padrão clássico é de hipersinal difuso e simétrico na substância branca em sequências T2 e FLAIR, com sinal reduzido em T1, refletindo a falta de mielina. A substância branma aparece "congelada" no estágio de mielinização infantil. Estudos com tensor de difusão (DTI) mostram anormalidades marcantes na anisotropia fracionada, confirmando a desorganização microestrutural dos tratos de substância branca, incluindo aqueles envolvidos na linguagem.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental (com foco na linguagem):
A avaliação deve seguir uma semiotécnica sistemática, como sugerido por Dalgalarrondo:
- Fala Espontânea: Observar se é possível estabelecer contato verbal. Avaliar se a fala é fluente ou reduzida (não fluente). Notar riqueza ou empobrecimento do vocabulário e correção gramatical.
- Compreensão: Testar com comandos simples ("feche os olhos") e complexos ("pegue o papel com a mão esquerda, dobre-o ao meio e coloque-o sobre a mesa").
- Repetição: Solicitar a repetição de palavras e frases de complexidade crescente (ex.: "casa", "paraquedas", "O rato roeu a roupa do rei de Roma").
- Nomeação: Apresentar objetos comuns (relógio, caneta, abotoadura) e partes do corpo, solicitando que os nomeie.
- Leitura e Escrita: Solicitar que leia uma frase em voz alta e compreenda seu significado. Pedir que escreva uma frase espontaneamente e copie uma frase.
- Pesquisa de Sinais Específicos: Procurar ativamente por perseveração, ecolalia, palilalia, neologismos e parafasias.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Teste de Boston para o Diagnóstico das Afasias (BDAE) ou versões adaptadas: Padrão-ouro para classificação e quantificação das afasias.
- Teste de Denominación de Boston (BNT): Para avaliação específica da anomia.
- Exame de Linguagem do CERAD: Útil no contexto de avaliação de demências.
- Escalas de Desenvolvimento e Inteligência: Como a Escala de Wechsler (WISC-V ou WAIS-III, conforme a idade), para contextualizar o déficit de linguagem dentro do perfil cognitivo global. É comum encontrar um QI na faixa normal inferior até deficiência intelectual moderada.
- Escalas Funcionais de Comunicação: Como a Functional Communication Scale (FCS), para avaliar o impacto na vida diária.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
A afasia na DPM deve ser diferenciada de outras condições que cursam com distúrbios de linguagem na infância e adolescência.
| Condição | Mecanismo Fisiopatológico | Características da Linguagem | Achados Diferenciais Clínicos/ de Exame |
|---|---|---|---|
| Doença de Pelizaeus-Merzbacher | Hipomielinização congênita progressiva (mutação PLP1). | Afasia mista (não fluente > fluente), anomia, perseveração, ecolalia, palilalia, agrafia. Evolução progressiva. | Nistagmo congênito, espasticidade, ataxia, RM com hipersinal difuso em T2 na substância branca. |
| Afasia Progressiva Primária (variante não fluente) | Degeneração focal cortical esquerda (fronto-insular). | Afasia não fluente progressiva isolada, agramatismo, erros fonêmicos. | Início na idade adulta, linguagem é o domínio inicial e predominante por anos. RM/ PET com atrofia/hipometabolismo focal. |
| Doença de Alzheimer de Início Precoce | Degeneração cortical (placas amiloides, emaranhados neurofibrilares). | Afasia predominantemente não fluente ou anômica no início, dificuldades progressivas de nomeação. | Comprometimento precoce da memória episódica, desorientação, apraxia. RM com atrofia hipocampal. |
| Transtorno do Espectro Autista (TEA) | Neurodesenvolvimento atípico da conectividade cerebral. | Atraso na aquisição, ecolalia, linguagem estereotipada. Pode haver mutismo seletivo. | Compreensão preservada na ausência de comorbidade. Déficits na interação social recíproca, comportamentos restritos e repetitivos. |
| Esquizofrenia de Início na Infância | Desconhecido (provável neurodesenvolvimento). | Mussitação, solilóquio, neologismos, jargonofasia. Linguagem desorganizada. | Alucinações auditivas, delírios, embotamento afetivo, curso crônico com remissões e exacerbações. |
| Transtorno Conversivo (Afonia/Disfonia Histérica) | Fator psicológico (conversão). | Mutismo súbito ou capacidade apenas de sussurrar. | Incongruência com exames neurológicos. Presença de ganho primário/secundário. Histórico de estressor psicológico. |
| Síndrome Velocardiofacial (22q11.2) | Deleção cromossômica. | Atraso na aquisição, fala hipernasal (voz anasalada). | Melhor desempenho em habilidades verbais que visuoespaciais. Cardiopatia congênita, palato fendido, fenótipo facial característico. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Atribuir a ecolalia e perseveração apenas a causas psiquiátricas: Na DPM, estes são sinais orgânicos de liberação por lesão pré-frontal, não indicativos de psicose ou TEA primário.
- Confundir disartria com afasia: O paciente com DPM tem ambos. É crucial testar a linguagem interna (nomeação por apontar, compreensão) para isolar o componente afásico do motor.
- Subestimar a compreensão: A aparência de desconexão e a fala não fluente podem levar o clínico a superestimar o déficit de compreensão. Testes formais são essenciais.
- Não investigar a progressão: Considerar o quadro como um atraso de desenvolvimento estático, sem notar a natureza regressiva e progressiva dos sintomas linguísticos.
Condições associadas
A afasia na DPM é um sintoma central dentro de um Transtorno Neurocognitivo Maior (Demência) de origem neurológica específica. Sua ocorrência é obrigatoriamente associada a:
- Leucodistrofias: A DPM é o protótipo. Outras leucodistrofias (ex.: Adrenoleucodistrofia, Leucodistrofia Metacromática) também podem cursar com afasia em suas fases avançadas, conforme a desmielinização atinge os circuitos de linguagem.
- Paralisia Cerebral (Formas Disquinéticas ou Mistass): Embora a DPM não seja uma paralisia cerebral, o quadro motor (espasticidade, ataxia) pode ser semelhante. A afasia ajuda a diferenciar, pois não é um componente típico da PC pura.
- Epilepsia: Crises convulsivas são comuns na DPM. A própria atividade epileptiforme, especialmente se focal no hemisfério esquerdo, ou os efeitos de drogas antiepilépticas sedativas, podem exacerbar temporariamente os déficits de linguagem.
- Transtornos do Sono e Hiperatividade: Problemas de sono e comportamentos hiperativos são frequentes e podem impactar negativamente a atenção e o desempenho em tarefas de linguagem durante o dia.
Correlações nos Manuais Diagnósticos:
- CID-11: O diagnóstico principal é 8A44.1 Doença de Pelizaeus-Merzbacher. A afasia é codificada como um sintoma sob MB21.0 Afasia (inclui afasia de desenvolvimento e adquirida). O transtorno neurocognitivo é codificado separadamente (6D70-6D7Z).
- DSM-5-TR: Enquadra-se em Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido a Outra Condição Médica, especificando "Doença de Pelizaeus-Merzbacher". O especificador "Com Comprometimento da Linguagem" deve ser utilizado.
Implicações terapêuticas
Não há tratamento curativo para a DPM ou para reverter a afasia decorrente da hipomielinização. A abordagem é multidisciplinar, sintomática, de suporte e focada na maximização da funcionalidade.
Abordagens Não-Farmacológicas (Base da Intervenção):
- Fonoaudiologia Intensiva e Especializada: É a intervenção central. Deve focar em:
- Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA): Introdução precoce de sistemas pictográficos (PECS), tablets com software de comunicação por símbolos ou sintetizadores de voz, antes que o mutismo se instale.
- Terapia de Linguagem: Estratégias para contornar a anomia (treino de circunlóquios), estimulação da compreensão através de pistas multimodais (visuais, gestuais), e trabalho para reduzir a perseveração e ecolalia através de pausas estruturadas e redirecionamento.
- Treino de Funções Executivas: Para melhorar o planejamento e a organização do discurso.
- Psicoterapia de Suporte: Fundamental para o paciente e a família. Trabalha a ansiedade e a frustração relacionadas à perda comunicativa. Para o paciente, pode utilizar técnicas adaptadas (terapia através de imagens, comunicação alternativa). Para a família, oferece psicoeducação sobre a doença e treinamento em estratégias comunicativas.
- Intervenção Educacional Especializada: Ambiente escolar com adaptações curriculares, uso de CAA, e foco em habilidades não-verbais e visuoespaciais, que podem estar relativamente mais preservadas.
Abordagens Farmacológicas:
Não existem fármacos aprovados especificamente para a afasia na DPM. O uso de medicamentos é direcionado a sintomas associados:
- Espasticidade: Baclofeno (oral ou intratecal), toxina botulínica.
- Epilepsia: Antiepilépticos de escolha conforme o tipo de crise, preferindo-se aqueles com menor impacto cognitivo.
- Hiperatividade/Desregulação Comportamental: Pode-se considerar, com extrema cautela, estimulantes (como o metilfenidato) ou agonistas alfa-2 (como a guanfacina), monitorando efeitos colaterais.
- Ansiedade e Irritabilidade: ISRS (como sertralina) podem ser úteis. Antipsicóticos atípicos em baixa dose (como risperidona) podem ser considerados para agitação severa, pesando-se o risco de efeitos extrapiramidais.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
A afasia na DPM é progressiva. A resposta às terapias de reabilitação é limitada pela neurodegeneração contínua. O objetivo realista não é a recuperação, mas a manutenção das habilidades por maior tempo, a prevenção de complicações secundárias (como o isolamento social total) e a preservação de um canal de comunicação funcional, mesmo que não-verbal. O prognóstico da afasia está intrinsecamente ligado ao prognóstico geral da doença, que nas formas clássicas é de deterioração neurológica lenta mas inexorável, com sobrevida variável até a idade adulta.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
O paciente com DPM e afasia vivencia um profundo isolamento no interior de si mesmo. Ele compreende mais do que consegue expressar (especialmente nas fases iniciais), levando a uma sensação angustiante de estar "preso". A frustração é um sentimento ubíquo: a palavra desejada não vem, ou sai errada, e os interlocutores não compreendem. A ansiedade floresce em situações sociais ou demandas comunicativas. A perda da prosódia pode fazer com que suas tentativas de expressar emoção soem falsas ou planas, dificultando a conexão emocional. Com a progressão, a perda da compreensão gera confusão e desorientação, aumentando a dependência.
Orientações para Comunicação com Paciente e Família:
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Paciente:
- Dê Tempo: Aguarde. A latência de resposta está aumentada. Não complete as frases por ele precipitadamente.
- Ofereça Escolhas: Em vez de perguntas abertas ("O que você quer?"), faça perguntas de escolha ("Você quer água ou suco?").
- Use Suportes Visuais: Aponte, use imagens, gestos. A informação multimodal é mais fácil de processar.
- Confirme a Compreensão: Peça para apontar ou fazer um gesto de "sim/não" para verificar se uma mensagem foi entendida.
- Mantenha a Calma e o Contato Visual: A comunicação não-verbal de aceitação e paciência é fundamental.
- Respeite as Tentativas: Valorize qualquer tentativa de comunicação, mesmo que imperfeita. Corrija com delicadeza, se necessário.
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Família/Cuidadores:
- Psicoeducação: Explicar que a afasia é um sintoma orgânico da doença, não teimosia, falta de inteligência ou preguiça.
- Treino em CAA: Envolver a família no aprendizado e uso diário dos sistemas de comunicação alternativa desde cedo.
- Estratégias Ambientais: Criar um ambiente de baixa pressão comunicativa, rotinas previsíveis, e reduzir ruídos de fundo para facilitar o processamento.
- Cuidado com o Cuidador: Oferecer suporte psicológico e grupos de apoio. O luto pela perda progressiva da comunicação com o ente querido é real e desgastante.
Impacto Funcional:
- Educação: Barreiras intransponíveis sem adaptação radical e CAA. Risco alto de exclusão escolar.
- Relacionamentos: Dificuldade em formar e manter amizades típicas. A comunicação com a família torna-se básica e instrumental. Risco de isolamento social severo.
- Qualidade de Vida: Diretamente ligada à manutenção de um canal de comunicação eficaz. A perda da capacidade de expressar necessidades, desejos, dor e afeto é devastadora para a qualidade de vida. A autonomia é gravemente comprometida.
Perguntas frequentes
1. A afasia na DPM é igual à afasia de um adulto que teve um AVC?
Não exatamente. No AVC, a lesão é focal e aguda, permitindo a reabilitação em um cérebero cujo resto é saudável. Na DPM, a lesão é difusa, progressiva e ocorre em um cérebro que nunca se mielinizou completamente. Os padrões podem ser semelhantes (ex.: afasia de Broca), mas o substrato, a evolução e o potencial de recuperação são radicalmente diferentes.
2. Meu filho repete tudo o que eu falo (ecolalia). Isso significa que ele não entende nada?
Não necessariamente. A ecolalia é um sintoma motor de liberação verbal, comum em lesões cerebrais difusas. Muitas vezes, a compreensão está mais preservada do que a expressão. A ecolalia pode, inclusive, ser uma tentativa de comunicação. É preciso testar a compreensão de forma não-verbal (comandos gestuais, apontar para figuras) para avaliá-la com precisão.
3. Existe algum remédio para melhorar a fala na DPM?
Atualmente, não existem medicamentos aprovados para tratar o núcleo da afasia na DPM (a hipomielinização). Medicamentos podem ser usados para controlar sintomas que pioram a comunicação, como ansiedade excessiva ou espasticidade que afeta a musculatura da fala. A principal intervenção é a reabilitação fonoaudiológica intensiva.
4. Quando devemos introduzir um sistema de comunicação alternativa (tablet com voz)?
O mais precocemente possível, assim que ficar claro que a fala oral não será suficiente ou funcional. Não se deve esperar pelo mutismo total. A introdução precoce da CAA não atrapalha o desenvolvimento da fala oral; pelo contrário, pode reduzir a frustração e fornecer um modelo visual para a estrutura da linguagem. É um direito fundamental de comunicação.
5. A afasia na DPM piora com o tempo?
Sim. A DPM é uma doença neurodegenerativa progressiva. Os distúrbios de linguagem tendem a piorar ao longo dos anos, evoluindo de uma fala lenta e dificultosa para um comprometimento mais grave, podendo chegar ao mutismo. A intervenção precoce e contínua visa retardar essa perda funcional e manter canais de comunicação.
6. Como diferenciar a afasia da DPM de um transtorno do espectro autista (TEA), já que ambos podem ter ecolalia?
A diferenciação é crucial. No TEA, a ecolalia ocorre em um contexto de interação social prejudicada desde muito cedo e padrões restritos/repetitivos. A compreensão da linguagem costuma estar preservada. Na DPM, a ecolalia vem acompanhada de sinais neurológicos objetivos (nistagmo, espasticidade, regressão de marcos motores) e a compreensão está frequentemente comprometida. A ressonância magnética cerebral é diagnóstica na DPM.
7. O paciente com DPM e afasia sente dor emocional por não se comunicar?
Sim, de forma profunda. A consciência da dificuldade, especialmente nas fases iniciais e intermediárias da doença, gera sofrimento, frustração, ansiedade e pode levar a sintomas depressivos. A perda da capacidade de expressão é uma forma de luto vivo, tanto para o paciente quanto para a família.
8. O que o médico do SUS (neurologista ou psiquiatra) pode fazer por esse paciente?
No SUS, o médico atua no diagnóstico (solicitando e interpretando a RM), no encaminhamento para reabilitação multidisciplinar nos CAPS Infantil ou CAPS AD (conforme a idade), na prescrição de medicamentos para sintomas associados (espasticidade, epilepsia) e no fornecimento de laudos para acesso a direitos (como a CAA via políticas de assistência). A articulação com a Atenção Básica para o cuidado continuado é essencial.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Mesulam, M. M. Principles of Behavioral and Cognitive Neurology. 2nd ed. Oxford: Oxford University Press, 2000.
- Barkovich, A. J.; Deon, S. Pediatric Neuroimaging. 6th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2018.
- Vanderver, A.; et al. "Diagnosis, prognosis, and treatment of leukodystrophies". The Lancet Neurology, 18(10), 2019, p. 962-972.
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Código de Ética Médica. Brasília, 2019.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento da esquizofrenia. 2010 (e outras diretrizes pertinentes a cuidados em neuropsiquiatria).
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.