Acamprosato

O que é e para que serve?

O acamprosato é um medicamento usado para ajudar pessoas que estão se tratando da dependência de álcool a manterem a abstinência — ou seja, a continuarem sem beber depois de já terem parado. Ele não é um remédio para desintoxicação (aquela fase inicial e difícil de parar de beber), mas sim para a fase seguinte: a de manutenção, quando o maior desafio é resistir à vontade de voltar a beber.

No Brasil, o acamprosato é comercializado principalmente com o nome Campral®, em comprimidos de 333 mg. É um medicamento que faz parte de uma classe chamada de agentes para dependência alcoólica, e funciona de forma diferente de outros remédios usados no mesmo contexto, como o dissulfiram (Antabuse®) ou a naltrexona — ele não causa mal-estar se você beber, nem bloqueia o prazer do álcool. O que ele faz é trabalhar diretamente no cérebro para reduzir aquela sensação de “falta” que o álcool deixa.

É fundamental entender que o acamprosato não funciona sozinho. Ele é muito mais eficaz quando combinado com acompanhamento psicológico, grupos de apoio (como o AA) ou outras formas de suporte. Pense nele como uma âncora que ajuda a segurar o barco — mas você ainda precisa remar.


Como ele age no seu cérebro?

Para entender o acamprosato, imagine que o seu cérebro é uma cidade com dois tipos de moradores: os agitadores (representados por um mensageiro químico chamado glutamato) e os pacificadores (representados por outro mensageiro chamado GABA). Numa cidade saudável, esses dois grupos vivem em equilíbrio.

O problema é que o álcool, quando usado por muito tempo, bagunça completamente essa cidade. Ele imita os pacificadores e acalma os agitadores artificialmente. Quando você para de beber de repente, os agitadores ficam sem controle — e é aí que surgem a ansiedade, a agitação, a insônia e aquela vontade intensa de beber de novo. O cérebro está, literalmente, em desequilíbrio.

O acamprosato age como um regulador de tráfego nessa cidade caótica: ele freia os agitadores (reduz a atividade do glutamato) e dá um reforço aos pacificadores (potencializa o GABA). Com isso, o cérebro vai, aos poucos, voltando ao seu estado natural de equilíbrio — sem precisar do álcool para isso. Não é uma cura, mas é um apoio químico real enquanto o cérebro se reorganiza.


Quando começa a fazer efeito?

O acamprosato não é um remédio de efeito imediato — ele não vai fazer você acordar amanhã sem nenhuma vontade de beber. Pense nele como uma fisioterapia para o cérebro: os resultados aparecem com o uso contínuo, ao longo de semanas.

Do ponto de vista técnico, o medicamento atinge níveis estáveis no sangue em cerca de 5 a 7 dias de uso regular. Mas os benefícios clínicos — a redução da fissura (aquela vontade intensa de beber) e o aumento da capacidade de resistir — costumam ser percebidos de forma mais clara ao longo das primeiras semanas a meses de tratamento.

Nas primeiras semanas, é normal que a vontade de beber ainda apareça. Isso não significa que o remédio não está funcionando. Significa que o processo está em andamento. Mantenha o tratamento, converse com seu médico sobre como está se sentindo, e não abandone o acompanhamento psicológico — ele é parte fundamental do resultado.


Como tomar corretamente

A dose habitual para adultos com mais de 60 kg é de dois comprimidos de 333 mg, três vezes ao dia — ou seja, 6 comprimidos por dia no total (de manhã, à tarde e à noite). Para pessoas com menos de 60 kg, o médico pode recomendar apenas duas tomadas diárias.

Com ou sem comida? Pode tomar das duas formas — a comida não interfere de forma significativa na absorção do remédio. Mas um truque prático: se você tem o hábito de fazer três refeições por dia, tomar o comprimido junto com cada refeição ajuda a não esquecer.

E se esquecer uma dose? Tome assim que lembrar, desde que não esteja muito próximo do horário da próxima dose. Se já estiver perto, pule a dose esquecida e siga normalmente. Nunca tome dose dupla para compensar.

Não pare por conta própria. Mesmo que você se sinta bem, mesmo que ache que não precisa mais — a decisão de parar o acamprosato deve ser sempre conversada com seu médico. O tratamento costuma durar pelo menos um ano.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Diarreia: É o efeito colateral mais frequente do acamprosato. Acontece porque o medicamento age no intestino antes de ser absorvido, e pode irritar um pouco a mucosa intestinal. Na maioria das vezes é leve e melhora nas primeiras semanas. Beba bastante água e avise seu médico se for intensa ou persistente.

  • Náusea: Alguns pacientes sentem enjoo, especialmente no início do tratamento. Tomar o comprimido junto com uma refeição costuma ajudar bastante.

  • Gases e desconforto abdominal: Pelo mesmo motivo da diarreia — o remédio passa pelo trato digestivo e pode causar um pouco de fermentação. Geralmente passa com o tempo.

  • Coceira (prurido) e suor excessivo: Podem ocorrer em algumas pessoas. Não são perigosos, mas se forem incômodos, vale conversar com o médico.

Menos comuns

  • Insônia ou sonhos intensos: O acamprosato mexe com o equilíbrio de mensageiros químicos que também influenciam o sono. Se isso acontecer, evite tomar a dose noturna muito tarde.

  • Ansiedade: Pode aparecer, especialmente no início. Lembre-se que parte dessa ansiedade pode ser da própria abstinência do álcool, não necessariamente do remédio.

  • Tontura e formigamentos: Sensações passageiras que costumam diminuir com o tempo.

  • Perda de apetite: Algumas pessoas relatam comer menos. Se houver perda de peso significativa, informe seu médico.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Pensamentos de se machucar ou de suicídio: Pessoas em tratamento para dependência de álcool já têm um risco aumentado de depressão. O acamprosato, por si só, não causa isso — mas é fundamental que qualquer pensamento desse tipo seja comunicado imediatamente ao médico ou a um familiar de confiança. Não espere a próxima consulta.

  • Reação alérgica grave: Dificuldade para respirar, inchaço no rosto, lábios ou garganta, urticária intensa. Vá a uma emergência imediatamente.

  • Problemas renais: Inchaço nas pernas, urina muito escura ou em pouca quantidade. O acamprosato é eliminado pelos rins, então qualquer sinal de problema renal precisa de avaliação médica urgente.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

Primeiro: não entre em pânico e não pare o remédio por conta própria. A maioria dos efeitos colaterais do acamprosato é leve e passa nas primeiras semanas de uso. Parar abruptamente não vai te machucar fisicamente (o acamprosato não causa dependência), mas pode comprometer seu tratamento num momento importante.

Ligue para o seu médico se: a diarreia for intensa e não melhorar, se você sentir muita tontura, se aparecer depressão ou tristeza profunda, ou se qualquer efeito colateral estiver atrapalhando sua rotina.

Vá a uma UPA ou emergência se: tiver sinais de reação alérgica grave (falta de ar, inchaço na garganta), se tiver pensamentos de se machucar, ou se sentir dor intensa nos rins ou alterações na urina.

O que NÃO fazer: não dobre a dose achando que vai funcionar melhor, não tome com bebida alcoólica esperando que “cancele” o efeito, e não abandone o acompanhamento psicológico achando que só o remédio resolve.


Cuidados importantes

Álcool: O acamprosato não causa reação com o álcool (ao contrário do dissulfiram). Mas beber durante o tratamento reduz muito a eficácia do remédio. Se você recaiu e bebeu, não jogue o tratamento fora — continue tomando o acamprosato e avise seu médico. Recaída faz parte do processo de recuperação, e o remédio ainda pode ajudar.

Rins: O acamprosato é eliminado quase inteiramente pelos rins, sem passar pelo fígado. Por isso, se você tiver algum problema renal, é essencial informar seu médico. Em casos de insuficiência renal grave, o remédio é contraindicado. Em casos moderados, a dose precisa ser reduzida.

Fígado: Boa notícia — o acamprosato praticamente não é processado pelo fígado. Isso é importante porque muitas pessoas com histórico de uso intenso de álcool têm o fígado comprometido. O acamprosato é uma das poucas opções que não sobrecarrega esse órgão.

Gravidez e amamentação: Não há estudos suficientes em humanos para garantir a segurança durante a gravidez. Se você está grávida ou planejando engravidar, converse com seu médico — o risco e o benefício precisam ser avaliados individualmente. Durante a amamentação, o remédio pode passar para o leite, mas em quantidades pequenas. Mesmo assim, informe seu médico.

Idosos: O remédio pode se acumular mais no organismo de pessoas mais velhas, porque os rins tendem a funcionar com menos eficiência com a idade. Seu médico pode pedir exames de função renal periodicamente.

Crianças e adolescentes: O acamprosato não foi estudado nessa faixa etária e não é recomendado.

Sensibilidade a sulfitos: O acamprosato pode conter traços de sulfito na sua composição. Se você tem alergia a sulfitos (presentes em alguns alimentos e vinhos), avise seu médico antes de começar.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente do acamprosato?
Não. O acamprosato não causa dependência nem tolerância — ou seja, seu corpo não vai precisar de doses cada vez maiores para sentir o efeito, e você não vai ter sintomas de abstinência se parar de tomá-lo. Ele é muito diferente, nesse sentido, de remédios como benzodiazepínicos.

Posso beber álcool enquanto tomo o acamprosato?
O remédio não vai te deixar mal se você beber (ele não funciona assim). Mas beber vai reduzir muito a eficácia do tratamento. Se você recaiu, não pare o remédio — continue tomando e avise seu médico. A recaída não significa fracasso; significa que o tratamento precisa ser ajustado.

Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Não sem conversar com seu médico antes. Sentir-se bem é exatamente o objetivo — e muitas vezes é o acamprosato que está ajudando a manter esse equilíbrio. Parar cedo demais pode aumentar o risco de recaída. O tratamento costuma durar pelo menos um ano.

O acamprosato vai tirar completamente a vontade de beber?
Ele ajuda a reduzir a fissura — aquela vontade intensa e física de beber — mas não é uma “vacina” contra o álcool. Ele trabalha em conjunto com o acompanhamento psicológico e o suporte social. Sozinho, o efeito é menor.

E se eu esquecer de tomar por alguns dias?
Retome o uso normalmente assim que lembrar, sem tentar “compensar” as doses perdidas. Se ficou muitos dias sem tomar, avise seu médico na próxima consulta. O remédio leva alguns dias para atingir níveis estáveis no sangue de novo, mas não há problema em retomar.


Referências

  • Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª edição. Artmed, 2014.
  • Clínica Psiquiátrica USP, 2ª edição, Volume 2. Manole, 2021.
  • FDA. Acamprosate Calcium Delayed-Release Tablets — Prescribing Information. Disponível em: www.fda.gov

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

marque sua consulta

Cansado de consultas apressadas e respostas vagas?

Para adultos buscando respostas ou pais preocupados com os filhos: avaliação profunda de TDAH e Autismo que transformam vidas.

Médico Psiquiatra com foco em TDAH e Autismo.
Atendimento a adultos, adolescentes e crianças a partir de 6 anos.

CRM/UF · RQE 00000 · Psiquiatria

Atendimento

Credenciais

© 2026 Dr. Luigi Fernando - Psiquiatria. Todos os direitos reservados.

Site desenvolvido por: