O que é?
Imagine que você está em uma festa e alguém oferece um comprimido colorido dizendo: “Isso aqui é ótimo, te deixa ligado na mesma hora!”. Você não faz ideia do que é, mas resolve experimentar. Ou então, você compra um “remédio natural” pela internet para dormir melhor, mas depois de alguns dias percebe que não consegue mais ficar sem ele. Ou ainda, você encontra um frasco com um líquido estranho na mochila do seu filho adolescente e ele se recusa a dizer o que é.
Essas situações podem estar relacionadas ao que chamamos de transtornos devidos ao uso de substâncias psicoativas desconhecidas ou não especificadas. O nome é comprido, mas o conceito é simples: são problemas de saúde mental causados pelo uso de substâncias que mexem com o cérebro (as chamadas “psicoativas”), mas que não sabemos exatamente o que são ou que não se encaixam nas categorias mais conhecidas de drogas.
Quando falamos em substâncias psicoativas, estamos nos referindo a qualquer coisa que altere o funcionamento do seu cérebro e, consequentemente, seu humor, pensamentos, percepções ou comportamento. Álcool, maconha, cocaína e remédios para ansiedade são exemplos conhecidos. Mas existem centenas de outras substâncias – algumas sintéticas, outras “naturais”, algumas vendidas como medicamentos, outras como drogas recreativas – que podem causar dependência e outros problemas psicológicos.
A diferença crucial aqui é que, nos transtornos por uso de substâncias conhecidas (como alcoolismo ou dependência de cocaína), os médicos sabem exatamente com o que estão lidando. Eles conhecem os efeitos, os riscos, os tratamentos mais eficazes. Mas quando a substância é desconhecida ou não especificada, tudo fica mais complicado. É como tentar consertar um carro sem saber qual peça está quebrada.
Segundo os dados disponíveis (ainda limitados, porque esse é um campo relativamente novo de estudo), esses transtornos são menos comuns do que os relacionados a substâncias conhecidas, como álcool ou tabaco. Mas isso não significa que sejam menos graves. Pelo contrário: quando não sabemos qual substância está sendo usada, os riscos para a saúde são ainda maiores, porque não temos como prever exatamente como o corpo e a mente vão reagir.
No Brasil, esse problema tem se tornado mais frequente com o aumento do uso de drogas sintéticas e de medicamentos falsificados vendidos pela internet. Um estudo da Fiocruz de 2021 mostrou que cerca de 3% dos brasileiros já usaram algum tipo de droga sintética (como ecstasy ou LSD), mas muitos desses compostos são modificados em laboratórios clandestinos, criando substâncias novas que nem os cientistas conhecem direito. Além disso, há um mercado crescente de “remédios naturais” e “suplementos” vendidos online que podem conter substâncias psicoativas não declaradas no rótulo.
Essa condição afeta pessoas de todas as idades, mas é mais comum em adolescentes e adultos jovens (entre 15 e 35 anos), provavelmente porque essa faixa etária tem mais curiosidade para experimentar novas substâncias e mais acesso a elas (através de amigos, festas, internet). Não há uma diferença clara entre homens e mulheres, embora alguns estudos sugiram que homens podem ter um pouco mais de propensão a buscar substâncias desconhecidas em contextos recreativos.
Historicamente, esse diagnóstico é relativamente novo. No passado, quando alguém chegava ao hospital com sintomas de intoxicação ou abstinência, mas não sabia dizer qual substância havia usado, os médicos simplesmente registravam como “intoxicação por substância desconhecida” e tratavam os sintomas. Mas com o aumento das drogas sintéticas e a complexidade do mercado de substâncias, os profissionais de saúde mental perceberam a necessidade de criar uma categoria específica para esses casos, que reconhecesse não apenas a intoxicação aguda, mas também os padrões de uso problemático que podem se desenvolver.
Quais são os sintomas?
Para entender se alguém está desenvolvendo um transtorno por uso de substância desconhecida, os médicos usam critérios específicos. Vamos traduzir cada um deles para uma linguagem do dia a dia, com exemplos concretos de como esses sintomas aparecem na prática.
1. Uso contínuo apesar dos problemas
O que significa: A pessoa continua usando a substância mesmo quando ela claramente está causando problemas na vida dela.
Como aparece no dia a dia:
– Você percebe que seu irmão mais novo está faltando às aulas porque passa as noites acordado depois de usar “alguma coisa” que comprou na internet. Quando você pergunta, ele diz que não é nada sério, mas as notas dele estão caindo e ele parece cada vez mais distante da família.
– Sua amiga começou a tomar uns comprimidos que uma conhecida trouxe de viagem para “aliviar o estresse”. No começo, ela dizia que era só um relaxante natural, mas agora você a vê tomando várias vezes ao dia, mesmo depois de ter sido demitida por chegar atrasada várias vezes no trabalho.
– Seu parceiro usa uma substância que ele chama de “poção da energia” antes de sair para a balada. Ele jura que é só um energético natural, mas você já o viu tendo crises de ansiedade, gastando dinheiro que não tem e brigando com amigos por causa dos efeitos.
Normal vs. Problemático:
É comum as pessoas experimentarem substâncias novas em algum momento da vida, especialmente na adolescência ou início da vida adulta. O problema começa quando os efeitos negativos ficam claros, mas a pessoa continua usando mesmo assim. É como continuar dirigindo um carro que você sabe que está com os freios falhando – em algum momento, o acidente vai acontecer.
2. Desejo intenso ou compulsão para usar
O que significa: A pessoa sente uma vontade tão forte de usar a substância que é difícil pensar em outra coisa.
Como aparece no dia a dia:
– Você acorda de manhã e a primeira coisa que vem à sua mente é “preciso daquilo”. Você tenta se distrair, mas a vontade não passa. É como quando você está com muita fome e só consegue pensar em comida.
– Seu filho adolescente fica irritado e ansioso quando não consegue a substância que usa. Ele diz que é só um “chá calmante”, mas você percebe que ele fica agitado quando o vidro acaba e ele precisa esperar o “fornecedor” repor.
– Você marca de sair com amigos, mas no último minuto inventa uma desculpa porque sabe que não vai conseguir usar a substância naquele lugar. A vontade é tão forte que prefere ficar em casa sozinho.
Normal vs. Problemático:
Todo mundo tem desejos – por comida, por sexo, por momentos de prazer. O problema é quando esse desejo se torna tão intenso que domina seus pensamentos e comportamentos. É como se o cérebro ficasse “travado” na ideia de usar a substância, dificultando focar em qualquer outra coisa.
3. Dificuldade em controlar o uso
O que significa: A pessoa tenta diminuir ou parar, mas não consegue.
Como aparece no dia a dia:
– Você promete a si mesmo que só vai usar “aquilo” nos fins de semana, mas na quarta-feira já está usando de novo. Você se sente fraco, como se não tivesse força de vontade.
– Sua mãe começou a tomar uns comprimidos para dormir que comprou na farmácia sem receita. Ela diz que é só por um tempo, mas já faz meses e ela não consegue dormir sem eles. Quando tenta parar, fica tão ansiosa que acaba tomando de novo.
– Você esconde a substância em vários lugares da casa porque tem medo de acabar. Quando percebe que está acabando, fica desesperado para conseguir mais, mesmo que isso signifique gastar dinheiro que não tem ou pedir para pessoas que você não gosta.
Normal vs. Problemático:
É normal querer repetir experiências prazerosas. O problema é quando você perde o controle sobre esse desejo. É como tentar fazer dieta e não conseguir resistir a um doce – a diferença é que, com substâncias desconhecidas, as consequências podem ser muito mais graves.
4. Tolerância
O que significa: Com o tempo, a pessoa precisa de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito.
Como aparece no dia a dia:
– No começo, um comprimido daquela “pílula da felicidade” era suficiente para você se sentir bem. Agora, você precisa tomar três ou quatro para ter o mesmo efeito.
– Seu amigo começou a usar um “óleo essencial” que um conhecido trouxe da Índia. No início, uma gota era suficiente para ele se sentir relaxado. Agora, ele usa o frasco inteiro e ainda diz que não está fazendo efeito.
– Você percebe que está gastando cada vez mais dinheiro com a substância porque a quantidade que usava antes já não é suficiente.
Normal vs. Problemático:
Nosso corpo tem uma capacidade incrível de se adaptar. Quando usamos uma substância com frequência, o cérebro se acostuma e os efeitos diminuem. Isso acontece com café, álcool e muitas outras substâncias. O problema é quando essa tolerância leva a pessoa a usar quantidades cada vez maiores, aumentando os riscos para a saúde.
5. Abstinência
O que significa: Quando a pessoa para de usar a substância, aparecem sintomas físicos e psicológicos desagradáveis.
Como aparece no dia a dia:
– Você tenta parar de usar aquela “poção energética” que comprou na internet, mas fica com dor de cabeça, tremores e uma ansiedade tão forte que parece que vai explodir.
– Sua irmã parou de tomar os comprimidos que usava para dormir e agora não consegue dormir de jeito nenhum. Ela fica irritada, suando frio e dizendo que se sente “doente”.
– Você fica alguns dias sem usar a substância e começa a ter náuseas, diarreia e uma sensação de que algo muito ruim vai acontecer. É como uma gripe forte, mas sem febre.
Normal vs. Problemático:
Algumas substâncias causam sintomas de abstinência quando paramos de usá-las. Isso é comum com café (dor de cabeça), álcool (tremores) e nicotina (irritabilidade). O problema é quando esses sintomas são tão intensos que a pessoa volta a usar a substância só para aliviá-los, criando um ciclo difícil de quebrar.
6. Priorização do uso em detrimento de outras atividades
O que significa: A pessoa passa a dedicar cada vez mais tempo e energia para conseguir, usar e se recuperar dos efeitos da substância, deixando de lado outras áreas importantes da vida.
Como aparece no dia a dia:
– Você costumava adorar jogar futebol com os amigos, mas agora prefere ficar em casa usando a substância. Quando vai aos jogos, não consegue se concentrar porque está pensando em quando vai poder usar de novo.
– Seu filho adolescente abandonou o curso de inglês que tanto queria fazer porque o dinheiro que ganha do estágio está indo todo para comprar a substância.
– Você percebe que está faltando ao trabalho ou chegando atrasado porque passa as noites usando a substância e as manhãs se recuperando dos efeitos.
Normal vs. Problemático:
É normal que nossos interesses mudem com o tempo. O problema é quando a substância se torna o centro da vida da pessoa, empurrando para segundo plano coisas que antes eram importantes, como trabalho, estudos, relacionamentos e hobbies.
7. Uso em situações de risco
O que significa: A pessoa usa a substância em situações onde isso pode causar danos a ela mesma ou a outras pessoas.
Como aparece no dia a dia:
– Você dirige depois de usar a substância, mesmo sabendo que seus reflexos estão mais lentos. Você se convence de que “está tudo bem”, mas no fundo sabe que está colocando sua vida e a dos outros em risco.
– Sua amiga usa a substância antes de operar máquinas no trabalho porque diz que “ajuda a se concentrar”. Ela já teve alguns pequenos acidentes, mas insiste que não é nada grave.
– Você usa a substância em festas mesmo sabendo que ela não combina com seus remédios de uso contínuo. Você já teve algumas reações estranhas, mas continua fazendo isso.
Normal vs. Problemático:
Todos nós assumimos riscos em algum momento da vida. O problema é quando a pessoa passa a ignorar perigos reais por causa da substância. É como atravessar a rua de olhos fechados – pode dar certo algumas vezes, mas em algum momento algo ruim vai acontecer.
8. Problemas sociais ou interpessoais
O que significa: O uso da substância começa a causar conflitos com familiares, amigos, colegas de trabalho ou outras pessoas importantes na vida da pessoa.
Como aparece no dia a dia:
– Você e seu parceiro brigam constantemente porque ele acha que você está gastando muito dinheiro com a substância. Você promete parar, mas não consegue, e as brigas ficam cada vez mais frequentes.
– Seus pais descobriram que você está usando uma substância desconhecida e agora vivem em cima de você, revistando seu quarto e controlando seu celular. Você se sente invadido, mas não consegue parar de usar.
– Você perdeu amigos porque eles não querem mais sair com você quando está usando a substância. Eles dizem que você fica “outra pessoa” e que não é legal estar por perto.
Normal vs. Problemático:
Conflitos fazem parte de qualquer relacionamento. O problema é quando a substância se torna a principal causa de desentendimentos, afastando as pessoas que são importantes para você.
9. Negligência de responsabilidades
O que significa: A pessoa deixa de cumprir obrigações importantes por causa do uso da substância.
Como aparece no dia a dia:
– Você está sempre atrasado para o trabalho porque passa as noites usando a substância e tem dificuldade para acordar de manhã.
– Você esquece de buscar seu filho na escola porque estava usando a substância e perdeu a noção do tempo.
– Você deixa de pagar contas porque gastou o dinheiro com a substância. Agora está com o nome sujo e não consegue mais crédito.
Normal vs. Problemático:
Todo mundo tem dias em que não consegue dar conta de tudo. O problema é quando a negligência se torna um padrão, afetando áreas importantes da vida, como trabalho, estudos e família.
10. Desejo persistente ou esforços malsucedidos para parar
O que significa: A pessoa quer parar ou diminuir o uso, mas não consegue, mesmo tentando várias vezes.
Como aparece no dia a dia:
– Você já tentou parar de usar a substância várias vezes, mas sempre volta depois de alguns dias. Você se sente frustrado e começa a acreditar que nunca vai conseguir.
– Sua irmã fez várias promessas de parar de usar aqueles comprimidos para dormir, mas sempre acaba voltando. Ela diz que “dessa vez vai ser diferente”, mas você já não acredita mais.
– Você já procurou ajuda na internet, conversou com amigos e até tentou terapias alternativas, mas nada parece funcionar. Você se sente sem esperança.
Normal vs. Problemático:
É comum as pessoas tentarem mudar comportamentos que não estão fazendo bem. O problema é quando essas tentativas são sempre malsucedidas, levando a um ciclo de frustração e desespero.
Importante: Nem todo mundo que usa substâncias desconhecidas tem um transtorno
Ter alguns desses sintomas não significa necessariamente que a pessoa tenha um transtorno por uso de substância desconhecida. O que define o diagnóstico é:
- O conjunto de sintomas: Não basta ter um ou dois sintomas isolados. O médico vai avaliar quantos critérios a pessoa preenche.
- A intensidade: Os sintomas precisam ser fortes o suficiente para causar sofrimento ou prejuízo na vida da pessoa.
- A duração: Os sintomas precisam estar presentes por um período significativo (geralmente meses).
- O impacto na vida: Os sintomas precisam estar afetando áreas importantes da vida, como trabalho, relacionamentos, saúde física ou mental.
Além disso, é importante lembrar que muitas pessoas usam substâncias desconhecidas sem desenvolver um transtorno. O problema começa quando esse uso se torna problemático, causando sofrimento para a pessoa ou para quem está ao redor.
Como se manifesta no dia a dia?
Os transtornos por uso de substâncias desconhecidas podem afetar praticamente todos os aspectos da vida de uma pessoa. Vamos ver como isso acontece em diferentes áreas:
No trabalho ou na escola
- Faltas e atrasos: A pessoa pode começar a faltar ao trabalho ou à escola com frequência, especialmente nos dias seguintes ao uso da substância. Isso acontece porque ela pode estar se recuperando dos efeitos (como ressaca ou cansaço extremo) ou porque está usando a substância durante o dia e não consegue se concentrar nas atividades.
-
Exemplo: João sempre foi pontual no trabalho, mas ultimamente tem chegado atrasado várias vezes por semana. Seu chefe já chamou a atenção, mas ele não consegue explicar direito o que está acontecendo. Na verdade, João tem usado uma substância que comprou pela internet para “aumentar a produtividade”, mas os efeitos colaterais (insônia, ansiedade) estão atrapalhando sua rotina.
-
Queda no desempenho: Mesmo quando está presente, a pessoa pode ter dificuldade para se concentrar, lembrar de informações importantes ou realizar tarefas com a mesma qualidade de antes.
-
Exemplo: Maria era uma aluna exemplar, mas suas notas caíram muito no último semestre. Ela diz que está com dificuldade para se concentrar nas aulas e que esquece o que estudou na véspera das provas. Seus pais não entendem o que está acontecendo, mas Maria sabe que é por causa daquela “poção para memória” que começou a tomar.
-
Problemas com colegas: O uso da substância pode deixar a pessoa mais irritada, ansiosa ou paranoica, levando a conflitos com colegas de trabalho ou de escola.
-
Exemplo: Carlos sempre foi tranquilo, mas ultimamente tem brigado com todo mundo no trabalho. Ele acusa os colegas de estarem “contra ele” e fica agressivo quando alguém faz uma crítica. Na verdade, Carlos está usando uma substância que comprou como “suplemento para energia”, mas que está deixando ele mais paranoico.
-
Risco de demissão ou reprovação: Quando os problemas se acumulam, a pessoa pode acabar sendo demitida ou reprovada na escola.
- Exemplo: Ana foi demitida depois de faltar várias vezes e chegar atrasada em reuniões importantes. Ela sabe que o problema começou quando passou a usar aqueles comprimidos para “controlar a ansiedade”, mas não consegue parar. Agora, está desempregada e com dificuldade para arrumar outro trabalho.
Nos relacionamentos
- Distanciamento: A pessoa pode começar a se afastar de familiares e amigos, preferindo ficar sozinha para usar a substância sem ser incomodada.
-
Exemplo: Pedro sempre foi muito próximo da família, mas ultimamente tem evitado os almoços de domingo. Ele inventa desculpas para não ir e, quando vai, fica quieto e distante. Na verdade, Pedro está usando uma substância que comprou como “remédio natural para depressão” e não quer que a família descubra.
-
Mentiras e segredos: Para esconder o uso da substância, a pessoa pode começar a mentir para as pessoas próximas, criando um clima de desconfiança.
-
Exemplo: Carla diz para o marido que está saindo com as amigas, mas na verdade está indo comprar mais daquela substância que usa para “relaxar”. Ela esconde os frascos no fundo do armário e apaga as mensagens do fornecedor. Quando o marido pergunta onde ela estava, Carla inventa histórias complicadas.
-
Brigas constantes: O uso da substância pode deixar a pessoa mais irritada, ansiosa ou agressiva, levando a discussões frequentes.
-
Exemplo: Lucas e sua namorada brigam quase todos os dias. Ela diz que ele está “diferente”, que fica agressivo por qualquer coisa. Lucas sabe que o problema começou quando passou a usar aquela “poção para aumentar a libido”, mas não consegue parar. As brigas estão colocando o relacionamento em risco.
-
Perda de confiança: Quando as mentiras e os segredos são descobertos, a confiança entre a pessoa e seus entes queridos pode ser abalada.
- Exemplo: Os pais de Rafael descobriram que ele estava usando uma substância desconhecida depois de encontrarem frascos estranhos no quarto dele. Agora, eles revistam suas coisas, controlam seu celular e não acreditam em nada do que ele diz. Rafael se sente invadido, mas não consegue parar de usar.
Na rotina
- Sono desregulado: A pessoa pode ter dificuldade para dormir ou passar a dormir em horários estranhos, como durante o dia.
-
Exemplo: Sofia sempre foi uma pessoa matutina, mas ultimamente só consegue dormir de madrugada. Ela passa as noites acordada, usando aquela substância que comprou como “chá para ansiedade”, e dorme até o meio-dia. Quando acorda, se sente cansada e sem energia.
-
Alimentação desequilibrada: O uso da substância pode tirar o apetite ou levar a pessoa a comer em horários estranhos.
-
Exemplo: Marcos sempre almoçava com a família, mas ultimamente tem pulado refeições. Ele diz que não está com fome, mas na verdade está usando uma substância que comprou como “suplemento para energia” e que tira seu apetite. Quando come, prefere alimentos rápidos e pouco nutritivos.
-
Falta de autocuidado: A pessoa pode deixar de lado hábitos importantes de higiene e cuidado pessoal.
-
Exemplo: Juliana sempre foi vaidosa, mas ultimamente não tem se importado com a aparência. Ela passa dias sem tomar banho, não escova os dentes direito e usa as mesmas roupas por vários dias. Seus amigos perceberam a mudança, mas ela diz que está “só passando por uma fase”. Na verdade, Juliana está usando uma substância que comprou como “remédio para emagrecer” e que a deixa sem energia para se cuidar.
-
Perda de interesse em hobbies: Atividades que antes davam prazer podem deixar de ser interessantes.
- Exemplo: Ricardo adorava tocar violão, mas agora não tem mais paciência para praticar. Ele diz que está “sem inspiração”, mas na verdade está usando uma substância que comprou como “estimulante criativo” e que o deixa ansioso e impaciente.
Na saúde física
- Problemas gastrointestinais: Náuseas, vômitos, diarreia ou constipação podem ser comuns, especialmente durante a abstinência.
-
Exemplo: Depois de parar de usar aquela “poção para energia”, Tiago começou a ter crises de diarreia e vômitos. Ele se sente fraco e desidratado, mas não quer voltar a usar a substância.
-
Dores de cabeça e tonturas: Esses sintomas podem aparecer tanto durante o uso quanto na abstinência.
-
Exemplo: Fernanda começou a ter dores de cabeça fortes depois de usar aqueles comprimidos para “melhorar o foco”. Ela pensou que era só uma reação passageira, mas as dores estão cada vez mais frequentes.
-
Problemas cardíacos: Algumas substâncias desconhecidas podem causar taquicardia, pressão alta ou outros problemas no coração.
-
Exemplo: Depois de usar uma substância que comprou como “pré-treino natural”, Gustavo sentiu o coração acelerado e uma dor no peito. Ele foi ao hospital, mas os médicos não encontraram nada de errado. Gustavo não contou que estava usando a substância porque tinha medo de ser julgado.
-
Problemas neurológicos: Tremores, convulsões ou dificuldade para coordenar movimentos podem aparecer em casos mais graves.
- Exemplo: Depois de usar uma substância que comprou como “remédio para ansiedade”, Camila começou a ter tremores nas mãos e dificuldade para andar em linha reta. Ela foi ao médico, que suspeitou de uma reação à substância, mas Camila não quis contar qual era.
O que causa essa condição?
Quando falamos em transtornos por uso de substâncias desconhecidas, é importante entender que não existe uma única causa. Assim como em outras condições de saúde mental, o que acontece é uma combinação complexa de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Vamos entender cada um deles:
Fatores genéticos: “A roleta da hereditariedade”
Imagine que nosso corpo é como um computador, e nossos genes são o sistema operacional. Algumas pessoas nascem com um sistema operacional que as torna mais vulneráveis a desenvolver problemas com substâncias. Isso não significa que elas vão, necessariamente, desenvolver um transtorno – mas o risco é maior.
- Histórico familiar: Se você tem parentes próximos (pais, irmãos) com problemas de dependência, seu risco de desenvolver um transtorno por uso de substância é maior. Isso não é uma sentença, mas uma probabilidade aumentada.
-
Exemplo: João sempre ouviu histórias sobre o avô alcoólatra e o tio que usava drogas. Quando ele começou a experimentar substâncias desconhecidas na adolescência, o risco de desenvolver problemas era maior do que o de um amigo que não tinha esse histórico familiar.
-
Diferenças individuais: Algumas pessoas metabolizam substâncias de forma diferente. Isso pode fazer com que elas sintam efeitos mais intensos (ou menos intensos) do que outras pessoas que usam a mesma quantidade.
- Exemplo: Maria e Ana tomaram a mesma quantidade de uma substância desconhecida em uma festa. Enquanto Ana se sentiu apenas levemente eufórica, Maria teve uma reação muito mais intensa, com alucinações e ansiedade. Essa diferença pode estar relacionada a fatores genéticos.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Se meus pais tiveram problemas com álcool, eu também vou ter.”
✅ Verdade: Ter histórico familiar aumenta o risco, mas não determina o futuro. Muitas pessoas com histórico familiar de dependência nunca desenvolvem problemas com substâncias, enquanto outras sem histórico nenhum acabam desenvolvendo. Os genes são apenas uma parte da equação.
Fatores neurobiológicos: “O cérebro viciado”
Nosso cérebro é como uma orquestra, com diferentes áreas trabalhando juntas para produzir pensamentos, emoções e comportamentos. Quando usamos substâncias psicoativas, é como se alguém começasse a tocar um instrumento fora do ritmo – a música toda fica desarmoniosa.
- O sistema de recompensa: Nosso cérebro tem um sistema que nos faz buscar coisas que nos dão prazer, como comida, sexo e interações sociais. Substâncias psicoativas “hackeiam” esse sistema, fazendo com que o cérebro associe o uso da substância a uma recompensa muito maior do que as recompensas naturais.
-
Exemplo: Imagine que seu cérebro é como um videogame. Cada vez que você faz algo bom (como comer um alimento saudável ou passar tempo com amigos), você ganha 10 pontos. Quando usa uma substância psicoativa, é como se ganhasse 1000 pontos de uma vez. Com o tempo, seu cérebro começa a priorizar a substância porque ela dá uma recompensa muito maior.
-
Neuroadaptação: Com o uso repetido, o cérebro se adapta à presença da substância. É como se ele “desligasse” alguns receptores ou produzisse menos de certas substâncias naturais para compensar os efeitos da droga.
-
Exemplo: Pense no cérebro como um termostato. Quando você usa uma substância que aumenta a dopamina (um neurotransmissor relacionado ao prazer), é como se o termostato ficasse muito quente. Para compensar, o cérebro “abaixa o termostato” – ou seja, reduz a produção natural de dopamina. Quando a substância sai do organismo, o termostato está baixo demais, e a pessoa se sente deprimida ou ansiosa.
-
Memória e aprendizado: O cérebro cria associações fortes entre o uso da substância e os contextos em que ela é usada. Isso pode desencadear desejos intensos quando a pessoa está em situações semelhantes.
- Exemplo: Se você sempre usa uma substância em festas, seu cérebro começa a associar festas com o uso. Quando você vai a uma festa sem usar, pode sentir uma vontade intensa de usar, mesmo que não tenha planejado fazer isso.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Dependência é falta de força de vontade. Se a pessoa quisesse, parava.”
✅ Verdade: A dependência muda a estrutura e o funcionamento do cérebro. Não é uma questão de força de vontade, mas de neurobiologia. É como dizer que uma pessoa com diabetes não tem força de vontade para produzir insulina – não é algo que ela possa controlar apenas com a mente.
Fatores ambientais: “O solo onde a semente cresce”
Se os fatores genéticos são as sementes e os neurobiológicos são o solo interno, os fatores ambientais são como o clima, a água e os nutrientes que determinam se a planta vai crescer saudável ou não.
- Disponibilidade da substância: Quanto mais fácil é conseguir uma substância, maior o risco de uso problemático.
-
Exemplo: Se você mora em uma cidade onde é fácil comprar substâncias desconhecidas pela internet ou em lojas de suplementos, o risco de experimentar e desenvolver problemas é maior do que em um lugar onde o acesso é mais difícil.
-
Pressão social: O ambiente social pode incentivar ou desencorajar o uso de substâncias.
-
Exemplo: Se todos os seus amigos usam substâncias desconhecidas em festas e dizem que “é só diversão”, você pode se sentir pressionado a experimentar. Por outro lado, se seus amigos evitam substâncias e valorizam um estilo de vida saudável, o risco de uso problemático é menor.
-
Traumas e estresse: Eventos traumáticos ou estresse crônico podem aumentar o risco de usar substâncias como forma de “automedicação”.
-
Exemplo: Depois de perder o emprego e passar por um divórcio, Carlos começou a usar uma substância que comprou como “remédio para ansiedade”. Ele diz que “ajuda a esquecer os problemas”, mas na verdade está criando um problema ainda maior.
-
Falta de apoio social: Pessoas com pouco apoio de familiares e amigos têm mais dificuldade para lidar com os desafios da vida e podem recorrer a substâncias como forma de alívio.
- Exemplo: Ana se mudou para uma cidade nova e não conhece ninguém. Ela se sente sozinha e começou a usar uma substância que comprou pela internet para “sentir-se mais confiante”. Sem uma rede de apoio, o risco de desenvolver um transtorno é maior.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Pessoas de classe alta não desenvolvem dependência porque têm mais acesso a tratamento.”
✅ Verdade: A dependência não escolhe classe social. Pessoas de todas as origens podem desenvolver transtornos por uso de substâncias. A diferença é que pessoas com mais recursos podem ter mais acesso a tratamentos de qualidade, enquanto pessoas em situação de vulnerabilidade podem ter mais dificuldade para buscar ajuda.
Fatores da gestação e desenvolvimento: “As raízes do problema”
Alguns fatores que influenciam o risco de desenvolver transtornos por uso de substâncias começam antes mesmo do nascimento.
- Exposição pré-natal: Se a mãe usou substâncias psicoativas durante a gravidez, o bebê pode nascer com maior vulnerabilidade a problemas de dependência no futuro.
-
Exemplo: Estudos mostram que bebês expostos ao álcool ou outras drogas durante a gestação podem ter alterações no desenvolvimento cerebral que aumentam o risco de problemas com substâncias na adolescência e vida adulta.
-
Traumas na infância: Crianças que sofrem abuso, negligência ou outros traumas têm maior risco de desenvolver problemas com substâncias mais tarde.
-
Exemplo: João cresceu em uma família violenta e começou a usar substâncias na adolescência como forma de lidar com a dor emocional. O trauma da infância deixou marcas que ele tentou “apagar” com as drogas.
-
Início precoce do uso: Quanto mais cedo uma pessoa começa a usar substâncias, maior o risco de desenvolver problemas no futuro.
- Exemplo: Maria experimentou sua primeira substância aos 13 anos. Seu cérebro ainda estava em desenvolvimento, e o uso precoce aumentou o risco de ela desenvolver um transtorno por uso de substância mais tarde.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Se a pessoa teve uma infância feliz, não vai desenvolver dependência.”
✅ Verdade: Uma infância feliz reduz o risco, mas não elimina a possibilidade. Fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais também desempenham um papel importante. Além disso, traumas podem acontecer em qualquer fase da vida, não apenas na infância.
Modelo biopsicossocial: “A receita do bolo”
Para entender realmente o que causa os transtornos por uso de substâncias desconhecidas, precisamos pensar no modelo biopsicossocial. Esse modelo reconhece que nossa saúde mental é influenciada por uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais – como os ingredientes de um bolo.
- Biológico: Genes, neuroquímica, saúde física.
- Psicológico: Personalidade, traumas, habilidades de enfrentamento.
- Social: Família, amigos, cultura, acesso a substâncias.
Exemplo: Imagine que o transtorno por uso de substância é como um incêndio. Os fatores biológicos são como a madeira seca – ela queima mais facilmente, mas não pega fogo sozinha. Os fatores psicológicos são como o vento – podem espalhar o fogo ou mantê-lo sob controle. Os fatores sociais são como a chuva – podem apagar o fogo ou, se forem escassos, deixar que ele se alastre.
Nenhum desses fatores sozinho causa o transtorno. É a combinação deles que determina se uma pessoa vai desenvolver problemas com substâncias.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de transtorno por uso de substância desconhecida pode ser um alívio para algumas pessoas (“Finalmente sei o que está acontecendo!”) e um choque para outras (“Eu não sou um viciado!”). Independentemente da reação inicial, o diagnóstico é o primeiro passo para entender o problema e buscar ajuda.
O processo de avaliação: “Desvendando o mistério”
Quando uma pessoa chega ao consultório com suspeita de transtorno por uso de substância desconhecida, o médico ou psicólogo vai seguir um processo parecido com o de um detetive tentando solucionar um caso. Vamos ver como isso acontece na prática:
1. A primeira conversa: “Conta pra mim o que está acontecendo”
A avaliação geralmente começa com uma conversa aberta, onde o profissional vai perguntar sobre:
- Os sintomas: “O que você tem sentido? Como isso tem afetado sua vida?”
- O histórico de uso: “Quando você começou a usar? Com que frequência? Em que situações?”
- O impacto na vida: “Como isso tem afetado seu trabalho, seus relacionamentos, sua saúde?”
- Tentativas de parar: “Você já tentou parar ou diminuir? Como foi?”
Exemplo: Se você fosse ao médico, ele poderia perguntar:
– “Você tem sentido vontade de usar essa substância com frequência?”
– “Já aconteceu de você usar mais do que pretendia?”
– “Você já deixou de fazer coisas importantes por causa do uso?”
– “Alguém já reclamou do seu uso?”
Essa conversa inicial é fundamental porque ajuda o profissional a entender o contexto e a gravidade do problema. Não existe exame de sangue ou de imagem que diagnostique um transtorno por uso de substância – o diagnóstico é feito com base no que a pessoa conta e no que o profissional observa.
2. Avaliação dos critérios diagnósticos: “Vamos ver se os sintomas se encaixam”
Depois da conversa inicial, o profissional vai comparar o que a pessoa contou com os critérios diagnósticos do DSM-5 ou da CID-11. Lembra dos sintomas que explicamos na seção anterior? É aqui que eles são usados.
O profissional vai verificar quantos critérios a pessoa preenche e com que intensidade. Por exemplo:
– Leve: 2-3 critérios
– Moderado: 4-5 critérios
– Grave: 6 ou mais critérios
Exemplo: Se você contou que:
1. Tem dificuldade para controlar o uso (critério 3)
2. Sente desejo intenso pela substância (critério 2)
3. Continua usando apesar dos problemas no trabalho (critério 1)
4. Já tentou parar várias vezes sem sucesso (critério 10)
O profissional pode diagnosticar um transtorno moderado por uso de substância desconhecida.
3. Exames complementares: “Vamos descartar outras possibilidades”
Embora não existam exames específicos para diagnosticar transtornos por uso de substância, o profissional pode pedir alguns exames para:
- Avaliar a saúde física: Exames de sangue, urina, função hepática, etc., podem mostrar se o uso da substância está causando danos ao corpo.
- Descartar outras condições: Algumas condições médicas ou psiquiátricas podem causar sintomas semelhantes aos do transtorno por uso de substância. Por exemplo:
- Depressão ou ansiedade: Podem causar falta de energia, dificuldade de concentração e irritabilidade, que podem ser confundidos com os efeitos da abstinência.
- Transtorno bipolar: Pode causar comportamentos impulsivos e mudanças de humor que podem ser confundidos com os efeitos de substâncias.
- Transtornos psicóticos: Podem causar paranoia ou alucinações, que podem ser confundidas com os efeitos de substâncias alucinógenas.
Exemplo: Se você chegou ao consultório dizendo que ouve vozes e vê coisas que não existem, o profissional pode pedir exames para descartar esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos antes de diagnosticar um transtorno por uso de substância.
4. Identificação da substância: “O que exatamente você está usando?”
Esse é um dos maiores desafios no diagnóstico de transtornos por uso de substância desconhecida: muitas vezes, nem a pessoa nem o profissional sabem exatamente qual substância está sendo usada.
- Substâncias desconhecidas: A pessoa pode não saber o que está usando, especialmente se comprou de um fornecedor não confiável ou se a substância foi adulterada.
-
Exemplo: Você comprou um “suplemento natural” pela internet, mas não sabe exatamente o que tem nele. O rótulo diz apenas “extrato de plantas”, mas você suspeita que pode conter algo mais forte.
-
Substâncias não especificadas: A pessoa pode saber o nome da substância, mas ela não se encaixa nas categorias conhecidas (como álcool, maconha, cocaína, etc.).
- Exemplo: Você usa uma substância chamada “Kratom”, que é uma planta com efeitos estimulantes e opioides. Ela não se encaixa perfeitamente em nenhuma das categorias tradicionais de drogas.
Nesses casos, o profissional pode:
– Pedir exames toxicológicos para tentar identificar a substância.
– Perguntar sobre os efeitos que a pessoa sente para tentar deduzir qual pode ser a substância.
– Registrar o diagnóstico como “transtorno por uso de substância desconhecida” ou “transtorno por uso de substância não especificada”.
5. Diagnóstico diferencial: “O que mais poderia ser?”
O diagnóstico diferencial é como um jogo de “o que não é”. O profissional vai descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes. Alguns exemplos:
- Transtornos de humor (depressão, bipolaridade): Podem causar falta de energia, irritabilidade e comportamentos impulsivos.
- Transtornos de ansiedade: Podem causar sintomas físicos como taquicardia, sudorese e tremores, que podem ser confundidos com abstinência.
- Transtornos psicóticos: Podem causar paranoia, alucinações e delírios, que podem ser confundidos com os efeitos de substâncias alucinógenas.
- Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): Pode causar impulsividade e dificuldade de concentração, que podem ser confundidos com os efeitos de estimulantes.
- Transtornos de personalidade: Podem causar comportamentos impulsivos, instabilidade emocional e dificuldade nos relacionamentos.
Exemplo: Se você chegou ao consultório dizendo que está sempre irritado, com dificuldade para dormir e sem energia, o profissional pode considerar:
– Transtorno por uso de substância desconhecida (se você mencionou o uso de alguma substância).
– Depressão (se não há histórico de uso de substância).
– Transtorno bipolar (se há histórico de episódios de euforia).
6. Gravidade e evolução: “Como isso tem mudado com o tempo?”
O profissional também vai avaliar:
– A gravidade do transtorno: Leve, moderado ou grave, com base no número de critérios preenchidos.
– A evolução dos sintomas: Se estão melhorando, piorando ou se mantendo estáveis.
– A presença de outros transtornos: Muitas pessoas com transtorno por uso de substância também têm outros problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático.
Exemplo: Se você contou que:
– Começou a usar a substância há 6 meses.
– No começo, usava uma vez por semana, mas agora usa quase todos os dias.
– Já tentou parar duas vezes, mas não conseguiu ficar mais de 3 dias sem usar.
– Está tendo problemas no trabalho e brigando com a família.
O profissional pode diagnosticar um transtorno moderado a grave, com evolução rápida.
Quanto tempo leva para ser diagnosticado?
Não existe um prazo fixo para o diagnóstico, mas geralmente o processo leva algumas semanas. Isso acontece porque:
- O profissional precisa de tempo para conhecer a pessoa: Uma única consulta não é suficiente para entender toda a complexidade do problema.
- É preciso descartar outras condições: Alguns exames e avaliações podem levar tempo.
- A pessoa pode não contar tudo de uma vez: Muitas pessoas têm vergonha ou medo de contar sobre o uso de substâncias, especialmente se forem desconhecidas ou ilegais.
Exemplo: João procurou ajuda porque estava tendo problemas no trabalho. Na primeira consulta, ele não mencionou o uso de substâncias. Só na terceira consulta, depois de criar confiança com o profissional, é que ele contou sobre o “suplemento para energia” que estava usando. O diagnóstico só foi possível depois dessa revelação.
Quem pode diagnosticar?
No Brasil, os profissionais capacitados para diagnosticar transtornos por uso de substância incluem:
- Psiquiatras: Médicos especializados em saúde mental. Podem diagnosticar e prescrever medicamentos.
- Psicólogos: Profissionais da psicologia que podem diagnosticar e oferecer psicoterapia. Não podem prescrever medicamentos.
- Médicos de outras especialidades: Como clínicos gerais ou médicos de família, especialmente em locais onde não há psiquiatras disponíveis.
Importante: Nem todo médico ou psicólogo tem experiência com transtornos por uso de substância, especialmente os relacionados a substâncias desconhecidas. Se possível, procure um profissional especializado em dependência química ou saúde mental.
SUS vs. Particular: “Onde buscar ajuda?”
No Brasil, você pode buscar ajuda tanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na rede particular. Vamos ver as diferenças:
SUS: “Saúde pública para todos”
O SUS oferece atendimento gratuito para transtornos por uso de substância através de:
- Unidades Básicas de Saúde (UBS): O primeiro ponto de contato. Você pode agendar uma consulta com um clínico geral ou médico de família, que pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para serviços especializados.
- Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): Serviços especializados em saúde mental. Existem CAPS específicos para álcool e drogas (CAPS AD), que oferecem atendimento multiprofissional (psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, etc.).
- Hospitais gerais: Em casos de urgência, como intoxicação aguda ou abstinência grave, você pode procurar um hospital geral com pronto-socorro.
- Comunidades terapêuticas: Serviços residenciais para pessoas com transtornos graves por uso de substância. O acesso é feito através de encaminhamento do CAPS ou da UBS.
Vantagens do SUS:
– Gratuito.
– Acesso universal (qualquer pessoa pode buscar ajuda).
– Serviços integrados (você pode ser encaminhado para diferentes tipos de tratamento conforme sua necessidade).
Desvantagens do SUS:
– Filas de espera (dependendo da região, pode demorar para conseguir uma consulta).
– Falta de profissionais especializados em algumas regiões.
– Serviços podem estar sobrecarregados.
Rede particular: “Mais rápido, mas nem sempre acessível”
Na rede particular, você pode buscar ajuda em:
- Consultórios particulares: Psiquiatras e psicólogos que atendem em consultório.
- Clínicas especializadas: Clínicas que oferecem tratamento para dependência química.
- Hospitais particulares: Em casos de urgência, você pode procurar um hospital particular com pronto-socorro.
Vantagens da rede particular:
– Menos filas de espera.
– Mais opções de profissionais especializados.
– Maior privacidade.
Desvantagens da rede particular:
– Custo elevado (consultas, exames e tratamentos podem ser caros).
– Nem todo mundo tem plano de saúde ou condições de pagar do próprio bolso.
O que esperar da primeira consulta?
A primeira consulta pode ser um pouco assustadora, especialmente se você não sabe o que esperar. Vamos desmistificar esse momento:
Antes da consulta
- Prepare-se: Anote os sintomas que você tem sentido, há quanto tempo eles começaram e como têm afetado sua vida. Isso ajuda o profissional a entender melhor o seu caso.
- Seja honesto: Não tenha vergonha ou medo de contar sobre o uso de substâncias. Lembre-se: o profissional está ali para ajudar, não para julgar.
- Leve exames: Se você já fez algum exame recentemente (de sangue, urina, etc.), leve os resultados.
- Leve uma lista de medicamentos: Anote todos os remédios que você está tomando, incluindo vitaminas, suplementos e substâncias não prescritas.
Durante a consulta
- Conversa inicial: O profissional vai perguntar sobre seus sintomas, histórico de uso de substâncias, histórico médico e familiar, etc.
- Avaliação dos critérios: O profissional vai comparar o que você contou com os critérios diagnósticos.
- Exame físico: Em alguns casos, o profissional pode fazer um exame físico para avaliar sua saúde geral.
- Exames complementares: Se necessário, o profissional pode pedir exames de sangue, urina, etc.
- Plano de tratamento: Se o diagnóstico for confirmado, o profissional vai conversar com você sobre as opções de tratamento.
Depois da consulta
- Reflita: A primeira consulta pode trazer muitas informações e emoções. Reserve um tempo para refletir sobre o que foi conversado.
- Tire dúvidas: Se ficou com alguma dúvida, não hesite em entrar em contato com o profissional.
- Siga as orientações: Se o profissional recomendou algum exame ou tratamento, siga as orientações.
Importante: A primeira consulta não é um julgamento. O profissional está ali para ajudar, não para criticar ou condenar. Se você não se sentir à vontade com o profissional, pode buscar outro.
Diagnóstico diferencial: “O que mais poderia ser?”
Como mencionamos antes, o diagnóstico diferencial é fundamental para garantir que o tratamento seja adequado. Vamos ver algumas condições que podem ser confundidas com transtorno por uso de substância desconhecida e como o profissional as diferencia:
1. Transtornos de humor (depressão, bipolaridade)
Sintomas em comum:
– Falta de energia.
– Irritabilidade.
– Dificuldade de concentração.
– Mudanças no sono e apetite.
Como diferenciar?
– Histórico de uso de substância: Se a pessoa tem um histórico de uso de substâncias (mesmo que desconhecidas), o profissional vai considerar a possibilidade de um transtorno por uso de substância.
– Evolução dos sintomas: Em transtornos de humor, os sintomas costumam ser mais estáveis ao longo do tempo. Em transtornos por uso de substância, os sintomas podem variar conforme o uso (por exemplo, piorar durante a abstinência).
– Resposta ao tratamento: Se os sintomas melhoram com a abstinência da substância, é mais provável que sejam causados pelo uso.
2. Transtornos de ansiedade
Sintomas em comum:
– Ansiedade.
– Taquicardia.
– Sudorese.
– Tremores.
Como diferenciar?
– Contexto dos sintomas: Em transtornos de ansiedade, os sintomas costumam aparecer em situações específicas (por exemplo, falar em público). Em transtornos por uso de substância, os sintomas podem aparecer em qualquer contexto, especialmente durante a abstinência.
– Histórico de uso: Se a pessoa tem um histórico de uso de substâncias, o profissional vai considerar a possibilidade de um transtorno por uso de substância.
3. Transtornos psicóticos (esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo)
Sintomas em comum:
– Paranoia.
– Alucinações.
– Delírios.
Como diferenciar?
– Histórico de uso de substâncias alucinógenas: Se a pessoa usou substâncias com efeitos alucinógenos (como LSD ou cogumelos), os sintomas psicóticos podem ser temporários e relacionados ao uso.
– Duração dos sintomas: Em transtornos psicóticos, os sintomas costumam ser persistentes. Em transtornos por uso de substância, os sintomas podem desaparecer com a abstinência.
– Exames toxicológicos: Podem ajudar a identificar se a pessoa está sob efeito de alguma substância.
4. Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)
Sintomas em comum:
– Impulsividade.
– Dificuldade de concentração.
– Hiperatividade.
Como diferenciar?
– Início dos sintomas: O TDAH geralmente começa na infância. Se os sintomas começaram na vida adulta, é mais provável que sejam causados por outra condição, como um transtorno por uso de substância.
– Histórico de uso de estimulantes: Se a pessoa usa substâncias estimulantes (como cocaína ou anfetaminas), os sintomas podem ser causados pelo uso.
5. Transtornos de personalidade
Sintomas em comum:
– Comportamentos impulsivos.
– Instabilidade emocional.
– Dificuldade nos relacionamentos.
Como diferenciar?
– Padrão de comportamento: Transtornos de personalidade geralmente envolvem padrões de comportamento estáveis ao longo da vida. Transtornos por uso de substância podem causar mudanças mais abruptas no comportamento.
– Histórico de uso de substância: Se a pessoa tem um histórico de uso de substâncias, o profissional vai considerar a possibilidade de um transtorno por uso de substância.
E se a substância for identificada depois?
Uma das características dos transtornos por uso de substância desconhecida é que muitas vezes a substância acaba sendo identificada com o tempo. Quando isso acontece, o diagnóstico pode ser atualizado para refletir a substância específica.
Exemplo: Você foi diagnosticado com transtorno por uso de substância desconhecida porque não sabia o que estava usando. Depois de alguns exames, descobriu-se que a substância era um opioide sintético. Seu diagnóstico pode ser atualizado para “transtorno por uso de opioides”.
Isso não significa que o diagnóstico inicial estava errado. Significa apenas que, com mais informações, o profissional pode oferecer um tratamento mais direcionado.
Tratamento
Receber um diagnóstico de transtorno por uso de substância desconhecida pode ser assustador, mas é importante lembrar que é possível se recuperar. O tratamento geralmente envolve uma combinação de medicamentos, psicoterapia e mudanças no estilo de vida. Vamos entender cada uma dessas abordagens:
Medicamentos: “Os aliados químicos”
Os medicamentos não são a solução mágica para os transtornos por uso de substância, mas podem ser ferramentas poderosas para ajudar no processo de recuperação. Eles podem:
- Aliviar os sintomas de abstinência.
- Reduzir os desejos pela substância.
- Tratar outros problemas de saúde mental que podem estar contribuindo para o uso (como depressão ou ansiedade).
- Estabilizar o humor e melhorar a qualidade de vida.
Vamos ver as principais classes de medicamentos usadas no tratamento:
1. Medicamentos para abstinência
Quando uma pessoa para de usar uma substância, pode sentir sintomas de abstinência, como ansiedade, insônia, náuseas, tremores, etc. Alguns medicamentos podem ajudar a aliviar esses sintomas.
- Benzodiazepínicos: Usados para aliviar ansiedade e insônia durante a abstinência. São medicamentos controlados e devem ser usados com cautela, pois também podem causar dependência.
-
Exemplo: Se você está tendo crises de ansiedade durante a abstinência, o médico pode prescrever um benzodiazepínico por um curto período para ajudar a controlar os sintomas.
-
Anticonvulsivantes: Podem ajudar a prevenir convulsões durante a abstinência de algumas substâncias.
-
Exemplo: Se você está em abstinência de álcool ou benzodiazepínicos, o médico pode prescrever um anticonvulsivante para reduzir o risco de convulsões.
-
Medicamentos para náuseas e vômitos: Podem ajudar a aliviar sintomas gastrointestinais durante a abstinência.
- Exemplo: Se você está tendo náuseas e vômitos durante a abstinência, o médico pode prescrever um medicamento para aliviar esses sintomas.
Importante: Os medicamentos para abstinência devem ser usados sob supervisão médica, pois alguns podem causar dependência ou interagir com outras substâncias.
2. Medicamentos para reduzir os desejos
Alguns medicamentos podem ajudar a reduzir os desejos pela substância, facilitando a abstinência.
- Naltrexona: Bloqueia os receptores de opioides no cérebro, reduzindo os efeitos prazerosos de substâncias como álcool e opioides. Também pode reduzir os desejos.
-
Exemplo: Se você está tentando parar de usar opioides, a naltrexona pode ajudar a reduzir os desejos e os efeitos prazerosos da substância.
-
Acamprosato: Ajuda a restaurar o equilíbrio químico no cérebro após a abstinência de álcool, reduzindo os desejos.
-
Exemplo: Se você está tentando parar de beber, o acamprosato pode ajudar a reduzir os desejos e a manter a abstinência.
-
Bupropiona: Um antidepressivo que também pode ajudar a reduzir os desejos por nicotina e outras substâncias.
- Exemplo: Se você está tentando parar de fumar, a bupropiona pode ajudar a reduzir os desejos e os sintomas de abstinência.
Importante: Esses medicamentos não são uma cura, mas podem ser ferramentas úteis no processo de recuperação. Eles devem ser usados em combinação com outras abordagens, como psicoterapia e mudanças no estilo de vida.
3. Medicamentos para tratar outros problemas de saúde mental
Muitas pessoas com transtorno por uso de substância também têm outros problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático. Tratar esses problemas pode facilitar a recuperação.
- Antidepressivos: Podem ajudar a tratar depressão e ansiedade.
-
Exemplo: Se você está deprimido, um antidepressivo pode ajudar a melhorar seu humor e sua motivação para se recuperar.
-
Estabilizadores de humor: Podem ajudar a tratar transtorno bipolar e outros transtornos de humor.
-
Exemplo: Se você tem transtorno bipolar, um estabilizador de humor pode ajudar a controlar os episódios de euforia e depressão.
-
Antipsicóticos: Podem ajudar a tratar sintomas psicóticos, como alucinações e delírios.
- Exemplo: Se você está tendo alucinações, um antipsicótico pode ajudar a controlar esses sintomas.
Importante: Alguns medicamentos psiquiátricos podem interagir com substâncias psicoativas, por isso é fundamental que o médico saiba sobre qualquer substância que você esteja usando.
4. Medicamentos para substituir a substância (terapia de substituição)
Em alguns casos, o médico pode prescrever uma substância semelhante àquela que a pessoa está usando, mas de forma controlada e segura. Isso é chamado de terapia de substituição e pode ajudar a reduzir os danos e facilitar a abstinência.
- Metadona: Um opioide de ação prolongada usado no tratamento da dependência de opioides. Ajuda a reduzir os desejos e os sintomas de abstinência, permitindo que a pessoa se estabilize e comece a se recuperar.
-
Exemplo: Se você é dependente de heroína, a metadona pode ajudar a reduzir os desejos e os sintomas de abstinência, permitindo que você se concentre na recuperação.
-
Buprenorfina: Outro opioide usado no tratamento da dependência de opioides. Tem um efeito mais suave que a metadona e menor risco de overdose.
-
Exemplo: Se você é dependente de opioides, a buprenorfina pode ser uma opção mais segura e eficaz para ajudar na recuperação.
-
Nicotina (adesivos, gomas, etc.): Usada no tratamento da dependência de nicotina. Ajuda a reduzir os desejos e os sintomas de abstinência.
- Exemplo: Se você está tentando parar de fumar, os adesivos de nicotina podem ajudar a reduzir os desejos e facilitar a abstinência.
Importante: A terapia de substituição deve ser usada sob supervisão médica e como parte de um plano de tratamento mais amplo, que inclua psicoterapia e mudanças no estilo de vida.
Psicoterapia: “A cura pela palavra”
A psicoterapia é uma parte fundamental do tratamento dos transtornos por uso de substância. Ela pode ajudar a pessoa a:
- Entender as causas do uso problemático.
- Desenvolver estratégias para lidar com os desejos e evitar recaídas.
- Melhorar a autoestima e a motivação para a recuperação.
- Reparar relacionamentos danificados pelo uso.
- Desenvolver habilidades para lidar com o estresse e as emoções de forma saudável.
Vamos ver as principais abordagens de psicoterapia usadas no tratamento:
1. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
A TCC é uma das abordagens mais eficazes no tratamento dos transtornos por uso de substância. Ela se baseia na ideia de que nossos pensamentos, emoções e comportamentos estão interligados, e que mudar um pode afetar os outros.
- Identificação de pensamentos disfuncionais: A TCC ajuda a pessoa a identificar pensamentos que contribuem para o uso problemático, como “Eu não consigo viver sem isso” ou “Só mais uma vez não vai fazer mal”.
- Desenvolvimento de estratégias de enfrentamento: A pessoa aprende estratégias para lidar com os desejos, como técnicas de relaxamento, distração e resolução de problemas.
- Prevenção de recaídas: A TCC ajuda a pessoa a identificar situações de risco e desenvolver planos para evitá-las ou lidar com elas de forma saudável.
Exemplo: Se você costuma usar a substância quando está estressado, a TCC pode ajudar a identificar esse padrão e desenvolver estratégias alternativas para lidar com o estresse, como exercícios de respiração ou atividades prazerosas.
2. Entrevista Motivacional
A entrevista motivacional é uma abordagem centrada na pessoa, que ajuda a aumentar a motivação para a mudança. Ela é especialmente útil para pessoas que ainda não estão totalmente convencidas de que precisam parar de usar a substância.
- Exploração da ambivalência: A entrevista motivacional ajuda a pessoa a explorar os prós e contras do uso da substância, aumentando a consciência sobre os problemas causados pelo uso.
- Reforço da motivação: O terapeuta ajuda a pessoa a identificar suas próprias razões para mudar, aumentando a motivação para a recuperação.
- Planejamento da mudança: A pessoa é encorajada a desenvolver um plano concreto para a mudança, com metas realistas e passos claros.
Exemplo: Se você está em dúvida sobre parar de usar a substância, a entrevista motivacional pode ajudar a explorar os motivos para continuar usando e os motivos para parar, ajudando a tomar uma decisão mais consciente.
3. Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
A ACT é uma abordagem que combina técnicas de aceitação e mindfulness com estratégias de mudança de comportamento. Ela ajuda a pessoa a:
- Aceitar os pensamentos e emoções difíceis sem tentar suprimi-los ou evitá-los.
- Identificar seus valores e objetivos de vida.
- Desenvolver ações alinhadas com esses valores, mesmo na presença de pensamentos e emoções difíceis.
Exemplo: Se você costuma usar a substância para evitar sentimentos de tristeza ou ansiedade, a ACT pode ajudar a aceitar esses sentimentos e desenvolver estratégias para lidar com eles de forma saudável, sem recorrer à substância.
4. Terapia Familiar
Os transtornos por uso de substância afetam não apenas a pessoa que usa, mas também seus familiares e amigos. A terapia familiar pode ajudar a:
- Melhorar a comunicação entre os membros da família.
- Reparar relacionamentos danificados pelo uso.
- Desenvolver estratégias para apoiar a recuperação da pessoa.
- Lidar com sentimentos de culpa, raiva e frustração.
Exemplo: Se sua família está tendo dificuldade para lidar com seu uso de substância, a terapia familiar pode ajudar a melhorar a comunicação, reduzir os conflitos e desenvolver estratégias para apoiar sua recuperação.
5. Grupos de apoio
Os grupos de apoio, como os Narcóticos Anônimos (NA) ou Alcoólicos Anônimos (AA), podem ser uma parte importante do tratamento. Eles oferecem:
- Um espaço seguro para compartilhar experiências e sentimentos.
- Apoio de pessoas que estão passando ou já passaram por situações semelhantes.
- Estratégias práticas para lidar com os desafios da recuperação.
Exemplo: Se você está se sentindo sozinho na recuperação, participar de um grupo de apoio pode ajudar a se conectar com outras pessoas que entendem o que você está passando e oferecer apoio e encorajamento.
Mudanças no dia a dia: “Reconstruindo a vida”
Além de medicamentos e psicoterapia, fazer mudanças no estilo de vida é fundamental para a recuperação. Vamos ver algumas áreas importantes:
1. Exercício físico: “Movimente-se para se recuperar”
O exercício físico pode ajudar na recuperação de várias formas:
- Reduz os desejos: O exercício libera endorfinas, substâncias naturais do cérebro que produzem sensação de bem-estar, reduzindo os desejos pela substância.
- Melhora o humor: O exercício pode ajudar a reduzir sintomas de depressão e ansiedade, que muitas vezes contribuem para o uso problemático.
- Promove a saúde física: O uso de substâncias pode causar danos ao corpo. O exercício ajuda a reparar esses danos e melhorar a saúde geral.
Tipos de exercício que podem ajudar:
– Caminhada ou corrida: Simples e acessível, pode ser feito em qualquer lugar.
– Yoga: Combina movimento físico com técnicas de relaxamento e mindfulness.
– Musculação: Ajuda a melhorar a força e a autoestima.
– Dança: Combina exercício físico com diversão e expressão emocional.
Exemplo: Se você está se sentindo ansioso e com vontade de usar a substância, uma caminhada de 30 minutos pode ajudar a reduzir a ansiedade e os desejos.
2. Sono: “Durma para se recuperar”
O sono é fundamental para a recuperação. O uso de substâncias pode desregular o sono, e a falta de sono pode aumentar os desejos e a irritabilidade.
Dicas para melhorar o sono:
– Estabeleça uma rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana.
– Crie um ambiente propício: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco.
– Evite estimulantes: Reduza o consumo de cafeína, nicotina e álcool, especialmente à noite.
– Relaxe antes de dormir: Pratique técnicas de relaxamento, como meditação ou respiração profunda.
Exemplo: Se você está tendo dificuldade para dormir, tente estabelecer uma rotina noturna relaxante, como tomar um banho quente e ler um livro antes de dormir.
3. Alimentação: “Nutrição para a recuperação”
Uma alimentação saudável pode ajudar na recuperação de várias formas:
- Repara danos ao corpo: O uso de substâncias pode causar deficiências nutricionais. Uma alimentação equilibrada ajuda a reparar esses danos.
- Melhora o humor: Alguns nutrientes, como ômega-3 e vitaminas do complexo B, podem ajudar a melhorar o humor e reduzir a ansiedade.
- Aumenta a energia: Uma alimentação saudável fornece a energia necessária para enfrentar os desafios da recuperação.
Dicas para uma alimentação saudável:
– Coma alimentos variados: Inclua frutas, verduras, legumes, grãos integrais, proteínas magras e gorduras saudáveis na sua dieta.
– Evite alimentos processados: Eles podem ser ricos em açúcar, gordura e aditivos químicos, que podem piorar o humor e a energia.
– Beba água: A desidratação pode causar fadiga e irritabilidade. Beba pelo menos 2 litros de água por dia.
Exemplo: Se você está se sentindo cansado e sem energia, tente incluir mais frutas, verduras e proteínas magras na sua dieta.
4. Rotina: “Estruture seu dia para a recuperação”
Uma rotina estruturada pode ajudar na recuperação de várias formas:
- Reduz a ociosidade: A ociosidade pode aumentar os desejos pela substância. Uma rotina estruturada ajuda a manter a mente ocupada.
- Promove a sensação de controle: A recuperação pode ser um processo caótico. Uma rotina estruturada ajuda a recuperar a sensação de controle sobre a vida.
- Facilita a incorporação de hábitos saudáveis: Uma rotina estruturada facilita a incorporação de hábitos saudáveis, como exercício físico, alimentação equilibrada e sono regular.
Dicas para estruturar sua rotina:
– Estabeleça horários fixos: Tente acordar, comer, trabalhar, se exercitar e dormir nos mesmos horários todos os dias.
– Inclua atividades prazerosas: Reserve um tempo para atividades que você gosta, como ler, ouvir música ou passar tempo com amigos.
– Planeje seu dia: Faça uma lista das tarefas do dia e priorize as mais importantes.
Exemplo: Se você está tendo dificuldade para se organizar, tente estabelecer uma rotina simples, como acordar às 7h, tomar café da manhã às 8h, trabalhar das 9h às 17h, se exercitar às 18h e dormir às 22h.
5. Técnicas de manejo de desejos: “Lidando com a vontade de usar”
Os desejos pela substância são uma parte normal da recuperação, mas é possível aprender a lidar com eles. Algumas técnicas que podem ajudar:
- Distração: Quando sentir vontade de usar, tente se distrair com uma atividade prazerosa, como ouvir música, ler um livro ou conversar com um amigo.
- Relaxamento: Pratique técnicas de relaxamento, como respiração profunda, meditação ou yoga.
- Autoconversa: Lembre-se dos motivos pelos quais você decidiu parar de usar e dos benefícios da recuperação.
- Apoio social: Ligue para um amigo, familiar ou membro de um grupo de apoio quando sentir vontade de usar.
Exemplo: Se você sentir vontade de usar a substância, tente se distrair com uma atividade que goste, como assistir a um filme ou sair para caminhar.
6. Tecnologia assistiva: “Ferramentas para a recuperação”
A tecnologia pode ser uma aliada na recuperação. Alguns aplicativos e ferramentas que podem ajudar:
- Aplicativos de meditação: Como Headspace ou Calm, que oferecem meditações guiadas para reduzir a ansiedade e os desejos.
- Aplicativos de rastreamento: Como o Sober Time, que ajuda a acompanhar o tempo de abstinência e oferece motivação.
- Aplicativos de apoio: Como o AA Big Book, que oferece recursos e apoio para pessoas em recuperação.
- Lembretes e alarmes: Para ajudar a manter a rotina e lembrar de tomar medicamentos ou praticar técnicas de relaxamento.
Exemplo: Se você está tendo dificuldade para meditar, um aplicativo de meditação guiada pode ajudar a começar.
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de transtorno por uso de substância desconhecida pode ser um momento de muitas emoções: alívio (“Finalmente sei o que está acontecendo!”), medo (“E agora, o que eu faço?”), vergonha (“Como vou contar para minha família?”), esperança (“Será que eu consigo me recuperar?”). Não existe uma forma “certa” de se sentir – cada pessoa reage de um jeito.
O importante é lembrar que o diagnóstico não define quem você é. Você não é “um viciado” ou “um dependente” – você é uma pessoa que está enfrentando um desafio de saúde mental, assim como milhões de outras pessoas ao redor do mundo. E, assim como outros desafios de saúde, esse também pode ser superado.
Vamos ver como conviver com o diagnóstico, tanto para a pessoa que recebeu o diagnóstico quanto para seus familiares e amigos.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceite o diagnóstico (mas não se identifique com ele)
Aceitar o diagnóstico não significa se resignar a ele. Significa reconhecer que você está enfrentando um desafio e que precisa de ajuda para superá-lo. Mas lembre-se: você não é o seu diagnóstico. Você é muito mais do que isso.
Exemplo: Em vez de pensar “Eu sou um viciado”, pense “Eu estou enfrentando um transtorno por uso de substância, e estou buscando ajuda para superá-lo”.
2. Busque ajuda profissional
O tratamento é fundamental para a recuperação. Não tente enfrentar o problema sozinho – busque ajuda de um psiquiatra, psicólogo ou outro profissional de saúde mental.
Exemplo: Se você ainda não começou o tratamento, marque uma consulta com um profissional especializado em dependência química. Se já começou, siga as orientações e não desista, mesmo que tenha recaídas.
3. Construa uma rede de apoio
A recuperação é mais fácil quando você não está sozinho. Construa uma rede de apoio com familiares, amigos, grupos de apoio e profissionais de saúde.
Exemplo: Conte para as pessoas em quem você confia sobre o diagnóstico e peça apoio. Participe de grupos de apoio, como Narcóticos Anônimos ou Alcoólicos Anônimos.
4. Seja gentil consigo mesmo
A recuperação é um processo, e é normal ter altos e baixos. Não se cobre perfeição – celebre cada pequeno progresso e seja gentil consigo mesmo quando as coisas não saírem como planejado.
Exemplo: Se você teve uma recaída, não se culpe. Em vez disso, tente entender o que levou à recaída e como evitar situações semelhantes no futuro.
5. Desenvolva novos interesses e hobbies
O uso de substâncias muitas vezes ocupa um espaço grande na vida da pessoa. Quando você para de usar, pode sentir um “vazio”. Desenvolver novos interesses e hobbies pode ajudar a preencher esse espaço de forma saudável.
Exemplo: Se você sempre usou a substância para relaxar, experimente novas formas de relaxamento, como meditação, yoga ou pintura.
6. Cuide da sua saúde física
O uso de substâncias pode causar danos ao corpo. Cuide da sua saúde física através de uma alimentação equilibrada, exercício físico regular e sono de qualidade.
Exemplo: Faça um check-up médico para avaliar sua saúde geral e siga as orientações do profissional.
7. Aprenda a lidar com os desejos
Os desejos pela substância são uma parte normal da recuperação. Aprenda técnicas para lidar com eles, como distração, relaxamento e autoconversa.
Exemplo: Quando sentir vontade de usar, tente se distrair com uma atividade prazerosa ou pratique técnicas de relaxamento.
8. Estabeleça metas realistas
A recuperação é um processo gradual. Estabeleça metas realistas e celebre cada conquista, por menor que seja.
Exemplo: Em vez de pensar “Vou parar de usar para sempre”, pense “Vou ficar sem usar hoje”. E amanhã, pense a mesma coisa.
9. Evite situações de risco
Identifique as situações que aumentam o risco de recaída e evite-as, especialmente no início da recuperação.
Exemplo: Se você costumava usar a substância em festas, evite ir a festas no início da recuperação. Se usava quando estava estressado, desenvolva estratégias saudáveis para lidar com o estresse.
10. Não desista
A recuperação é um processo com altos e baixos. Não desista, mesmo que tenha recaídas. Cada dia sem usar é uma vitória.
Exemplo: Se você teve uma recaída, não pense “Eu falhei”. Pense “Eu tive uma recaída, mas isso não apaga todo o meu progresso. Vou continuar tentando”.
Para familiares e amigos
Se alguém que você ama recebeu um diagnóstico de transtorno por uso de substância desconhecida, é natural sentir uma mistura de emoções: preocupação, raiva, frustração, medo, culpa. Você pode se perguntar: “O que eu fiz de errado?”, “Como posso ajudar?”, “Será que ele/ela vai se recuperar?”.
Lembre-se: você não é responsável pelo diagnóstico da pessoa, mas pode ser uma parte importante da solução. Vamos ver como ajudar de forma efetiva:
1. Informe-se sobre o transtorno
Quanto mais você souber sobre o transtorno, melhor poderá ajudar. Leia sobre o assunto, converse com profissionais de saúde e participe de grupos de apoio para familiares.
Exemplo: Leia este artigo, converse com o psiquiatra ou psicólogo da pessoa e participe de grupos como o Nar-Anon (para familiares de dependentes químicos).
2. Ofereça apoio, não julgamento
A pessoa já está lidando com muita culpa e vergonha. Ofereça apoio e compreensão, não julgamento ou críticas.
Exemplo: Em vez de dizer “Você está destruindo a vida de todo mundo”, diga “Eu estou aqui para te apoiar. Vamos enfrentar isso juntos”.
3. Estabeleça limites saudáveis
Apoiar não significa permitir comportamentos prejudiciais. Estabeleça limites claros e saudáveis para proteger a si mesmo e à pessoa.
Exemplo: Se a pessoa está usando a substância em casa, você pode dizer “Eu te amo e quero te ajudar, mas não posso permitir que você use aqui. Se precisar de ajuda para parar, estou aqui para te apoiar”.
4. Encoraje o tratamento
Incentive a pessoa a buscar ajuda profissional e a seguir o tratamento. Ofereça-se para acompanhá-la às consultas, se ela quiser.
Exemplo: Diga “Eu sei que é difícil, mas o tratamento pode te ajudar. Vamos marcar uma consulta juntos?”.
5. Cuide de si mesmo
Cuidar de alguém com transtorno por uso de substância pode ser desgastante. Não se esqueça de cuidar de si mesmo também.
Exemplo: Reserve um tempo para suas próprias necessidades, participe de grupos de apoio para familiares e busque ajuda profissional se precisar.
6. Evite confrontos
Confrontos podem aumentar a resistência da pessoa ao tratamento. Em vez de confrontar, tente abordagens mais empáticas e colaborativas.
Exemplo: Em vez de dizer “Você precisa parar com isso agora!”, diga “Eu percebi que você não está feliz com essa situação. Como posso te ajudar?”.
7. Não minimize o problema
Evite frases como “É só uma fase” ou “Todo mundo experimenta”. Reconheça a gravidade do problema e a necessidade de ajuda profissional.
Exemplo: Em vez de dizer “Isso não é nada, logo passa”, diga “Eu sei que isso é sério, e estou aqui para te apoiar no que você precisar”.
8. Esteja preparado para recaídas
Recaídas são uma parte comum do processo de recuperação. Não as veja como fracassos, mas como oportunidades para aprender e ajustar o tratamento.
Exemplo: Se a pessoa tiver uma recaída, diga “Eu sei que isso é difícil, mas não desista. Vamos ver o que podemos aprender com isso e seguir em frente”.
9. Celebre as conquistas
Celebre cada pequena conquista da pessoa, por menor que seja. Isso pode aumentar a motivação e a autoestima.
Exemplo: Se a pessoa ficou um dia sem usar, diga “Estou orgulhoso de você. Cada dia sem usar é uma vitória”.
10. Não desista
A recuperação é um processo longo e desafiador. Não desista da pessoa, mesmo que ela tenha recaídas ou pareça não querer ajuda.
Exemplo: Se a pessoa se recusar a buscar ajuda, continue oferecendo apoio e incentivo. Diga “Eu estou aqui para você, sempre que você precisar”.
O que NÃO fazer
Algumas atitudes, mesmo que bem-intencionadas, podem piorar a situação. Vamos ver o que evitar:
❌ Culpar a pessoa: Frases como “Você fez isso consigo mesmo” ou “Você não tem força de vontade” só aumentam a culpa e a vergonha, dificultando a recuperação.
❌ Minimizar o problema: Frases como “Isso não é nada” ou “Todo mundo experimenta” podem fazer a pessoa se sentir incompreendida e desmotivada a buscar ajuda.
❌ Habilitar o uso: Dar dinheiro, cobrir as consequências do uso ou permitir que a pessoa use em casa não ajuda – só prolonga o problema.
❌ Confrontar de forma agressiva: Confrontos podem aumentar a resistência da pessoa ao tratamento. Em vez disso, use abordagens empáticas e colaborativas.
❌ Desistir: A recuperação é um processo longo e desafiador. Não desista da pessoa, mesmo que ela tenha recaídas ou pareça não querer ajuda.
Como explicar para outras pessoas
Explicar o diagnóstico para outras pessoas pode ser desafiador, especialmente em uma sociedade que ainda estigmatiza os transtornos por uso de substância. Aqui estão algumas dicas:
1. Escolha o momento certo
Escolha um momento em que a pessoa esteja calma e receptiva. Evite momentos de estresse ou conflito.
2. Seja honesto, mas não dê mais informações do que a pessoa precisa
Você não precisa contar todos os detalhes. Dê informações suficientes para que a pessoa entenda a situação, mas respeite sua privacidade.
Exemplo: “O João está enfrentando um problema de saúde mental chamado transtorno por uso de substância. Ele está buscando ajuda e nós estamos apoiando ele nesse processo”.
3. Enfatize que é um problema de saúde, não uma falha moral
Ajude a pessoa a entender que o transtorno por uso de substância é uma condição de saúde, não uma falha de caráter ou falta de força de vontade.
Exemplo: “Isso não é uma questão de força de vontade. É uma condição de saúde, como diabetes ou hipertensão, e precisa de tratamento”.
4. Explique como a pessoa pode ajudar
Diga à pessoa como ela pode apoiar, seja oferecendo ajuda prática, seja simplesmente ouvindo.
Exemplo: “Se você quiser ajudar, pode oferecer apoio emocional, respeitar os limites dele e evitar julgamentos”.
5. Esteja preparado para perguntas e reações
Algumas pessoas podem ter perguntas ou reações inesperadas. Esteja preparado para responder com calma e paciência.
Exemplo: Se alguém perguntar “Ele é um viciado?”, você pode responder “Ele está enfrentando um transtorno por uso de substância, e está buscando ajuda para superá-lo”.
Quando os sintomas podem piorar?
Os transtornos por uso de substância desconhecida podem ter períodos de melhora e piora. Alguns fatores que podem levar a uma piora dos sintomas incluem:
1. Estresse
Situações estressantes, como problemas no trabalho, conflitos familiares ou dificuldades financeiras, podem aumentar os desejos pela substância e levar a recaídas.
Exemplo: Se você está passando por um divórcio ou perdeu o emprego, pode sentir uma vontade maior de usar a substância para aliviar o estresse.
2. Exposição a gatilhos
Gatilhos são situações, pessoas ou lugares que lembram a pessoa do uso da substância e podem aumentar os desejos. Exemplos incluem:
- Pessoas: Amigos com quem você costumava usar.
- Lugares: Bares, festas ou outros locais onde você costumava usar.
- Situações: Momentos de tédio, solidão ou celebração.
Exemplo: Se você costumava usar a substância em festas, ir a uma festa pode ser um gatilho forte, mesmo que você não tenha intenção de usar.
3. Recaídas
Recaídas são uma parte comum do processo de recuperação. Elas não significam que o tratamento falhou, mas podem levar a uma piora temporária dos sintomas.
Exemplo: Se você teve uma recaída, pode se sentir culpado, envergonhado e desmotivado, o que pode levar a mais uso.
4. Falta de tratamento
Interromper o tratamento, seja por falta de acesso, seja por desmotivação, pode levar a uma piora dos sintomas.
Exemplo: Se você parou de tomar os medicamentos ou de ir às consultas com o psicólogo, pode sentir uma piora nos sintomas de abstinência e nos desejos pela substância.
5. Problemas de saúde mental não tratados
Muitas pessoas com transtorno por uso de substância também têm outros problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático. Se esses problemas não forem tratados, podem levar a uma piora do uso da substância.
Exemplo: Se você está deprimido e não está recebendo tratamento, pode sentir uma vontade maior de usar a substância para aliviar os sintomas.
6. Falta de apoio social
A falta de apoio de familiares, amigos ou grupos de apoio pode aumentar o risco de recaída e piora dos sintomas.
Exemplo: Se você se sente sozinho na recuperação, pode ter mais dificuldade para lidar com os desafios e mais vontade de usar a substância.
Como lidar com a piora dos sintomas?
Se você perceber que os sintomas estão piorando, aqui estão algumas coisas que podem ajudar:
1. Busque ajuda profissional
Se os sintomas estiverem piorando, é importante buscar ajuda profissional o mais rápido possível. Entre em contato com seu psiquiatra, psicólogo ou outro profissional de saúde mental.
Exemplo: Se você está tendo crises de ansiedade ou desejos intensos pela substância, marque uma consulta com seu psiquiatra para ajustar o tratamento.
2. Reforce sua rede de apoio
Converse com familiares, amigos ou membros de grupos de apoio. Eles podem oferecer apoio emocional e prático.
Exemplo: Se você está se sentindo sozinho, ligue para um amigo ou participe de uma reunião de grupo de apoio.
3. Revise seu plano de tratamento
Converse com seu profissional de saúde sobre o que pode estar contribuindo para a piora dos sintomas e ajuste o plano de tratamento, se necessário.
Exemplo: Se você está tendo dificuldade para lidar com o estresse, converse com seu psicólogo sobre estratégias adicionais de enfrentamento.
4. Evite gatilhos
Identifique os gatilhos que podem estar contribuindo para a piora dos sintomas e evite-os, se possível.
Exemplo: Se festas são um gatilho para você, evite ir a festas no início da recuperação.
5. Pratique técnicas de manejo de desejos
Use técnicas de manejo de desejos, como distração, relaxamento e autoconversa, para lidar com os desejos intensos.
Exemplo: Se você sentir vontade de usar, tente se distrair com uma atividade prazerosa ou pratique técnicas de relaxamento.
6. Cuide da sua saúde física
Uma alimentação equilibrada, exercício físico regular e sono de qualidade podem ajudar a melhorar o humor e reduzir os desejos.
Exemplo: Se você está se sentindo cansado e sem energia, tente melhorar sua alimentação e praticar exercícios físicos regularmente.
7. Não desista
Lembre-se de que a recuperação é um processo com altos e baixos. Não desista, mesmo que os sintomas estejam piorando.
Exemplo: Se você teve uma recaída, não pense “Eu falhei”. Pense “Eu tive uma recaída, mas isso não apaga todo o meu progresso. Vou continuar tentando”.
Perguntas frequentes
1. “Eu não sei qual substância estou usando. Como posso descobrir?”
Descobrir qual substância você está usando pode ser um desafio, especialmente se você comprou de um fornecedor não confiável ou se a substância foi adulterada. Aqui estão algumas opções:
- Exames toxicológicos: Alguns exames de sangue ou urina podem identificar a presença de substâncias no organismo. No entanto, esses exames nem sempre são capazes de identificar substâncias desconhecidas ou novas.
-
Exemplo: Se você suspeita que está usando opioides, um exame de urina pode detectar a presença dessas substâncias.
-
Análise da substância: Alguns laboratórios e organizações não governamentais oferecem serviços de análise de substâncias, onde você pode enviar uma amostra da substância para ser testada.
-
Exemplo: No Brasil, algumas ONGs e coletivos de redução de danos oferecem testes para identificar substâncias em festas e eventos.
-
Observação dos efeitos: Anote os efeitos que você sente ao usar a substância. Isso pode ajudar um profissional de saúde a deduzir qual pode ser a substância.
-
Exemplo: Se você sente euforia, aumento de energia e diminuição do apetite, pode ser um estimulante, como cocaína ou anfetamina.
-
Consulta com um profissional de saúde: Um médico ou psicólogo pode ajudar a identificar a substância com base nos efeitos que você descreve e em exames complementares.
Importante: Se você não sabe qual substância está usando, é ainda mais importante buscar ajuda profissional. Substâncias desconhecidas podem ser perigosas e causar danos graves à saúde.
2. “Eu tentei parar várias vezes, mas sempre volto a usar. Isso significa que não tenho jeito?”
Não, isso não significa que você não tem jeito. Recaídas são uma parte comum do processo de recuperação, especialmente em transtornos por uso de substância. Elas não significam que o tratamento falhou, mas que você precisa de mais apoio ou de ajustes no plano de tratamento.
Aqui estão algumas coisas que podem ajudar:
- Entenda as causas da recaída: Tente identificar o que levou à recaída. Foi estresse? Exposição a gatilhos? Falta de apoio? Entender as causas pode ajudar a evitar recaídas futuras.
- Ajuste o tratamento: Converse com seu profissional de saúde sobre o que pode ser ajustado no tratamento para reduzir o risco de recaídas.
- Reforce sua rede de apoio: Converse com familiares, amigos ou membros de grupos de apoio. Eles podem oferecer apoio emocional e prático.
- Não se culpe: Recaídas não são fracassos. Elas são oportunidades para aprender e ajustar o tratamento.
- Continue tentando: A recuperação é um processo com altos e baixos. Não desista, mesmo que tenha recaídas.
Exemplo: Se você teve uma recaída depois de uma briga com seu parceiro, converse com seu psicólogo sobre estratégias para lidar com conflitos de forma saudável, sem recorrer à substância.
3. “Meu filho/familiar não admite que tem um problema. O que eu posso fazer?”
É comum que pessoas com transtorno por uso de substância neguem o problema, especialmente no início. Isso pode acontecer por vários motivos: vergonha, medo de ser julgado, falta de consciência sobre a gravidade do problema, etc.
Aqui estão algumas estratégias que podem ajudar:
- Evite confrontos: Confrontos podem aumentar a resistência da pessoa ao tratamento. Em vez disso, use abordagens empáticas e colaborativas.
-
Exemplo: Em vez de dizer “Você precisa parar com isso agora!”, diga “Eu percebi que você não está feliz com essa situação. Como posso te ajudar?”.
-
Ofereça apoio, não julgamento: A pessoa já está lidando com muita culpa e vergonha. Ofereça apoio e compreensão, não julgamento ou críticas.
-
Exemplo: Diga “Eu te amo e estou aqui para te apoiar. Vamos enfrentar isso juntos”.
-
Estabeleça limites saudáveis: Apoiar não significa permitir comportamentos prejudiciais. Estabeleça limites claros e saudáveis para proteger a si mesmo e à pessoa.
-
Exemplo: Se a pessoa está usando a substância em casa, você pode dizer “Eu te amo e quero te ajudar, mas não posso permitir que você use aqui. Se precisar de ajuda para parar, estou aqui para te apoiar”.
-
Incentive a busca por ajuda profissional: Encoraje a pessoa a buscar ajuda de um psiquiatra, psicólogo ou outro profissional de saúde mental.
-
Exemplo: Diga “Eu sei que é difícil, mas o tratamento pode te ajudar. Vamos marcar uma consulta juntos?”.
-
Participe de grupos de apoio para familiares: Grupos como o Nar-Anon (para familiares de dependentes químicos) podem oferecer apoio e estratégias para lidar com a situação.
-
Exemplo: Participe de reuniões do Nar-Anon para aprender com outras pessoas que estão passando por situações semelhantes.
-
Cuide de si mesmo: Cuidar de alguém com transtorno por uso de substância pode ser desgastante. Não se esqueça de cuidar de si mesmo também.
-
Exemplo: Reserve um tempo para suas próprias necessidades, participe de grupos de apoio para familiares e busque ajuda profissional se precisar.
-
Não desista: A recuperação é um processo longo e desafiador. Não desista da pessoa, mesmo que ela não admita o problema ou pareça não querer ajuda.
Importante: Você não pode forçar a pessoa a buscar ajuda, mas pode oferecer apoio e incentivo. Se a pessoa estiver em risco imediato (por exemplo, com sintomas graves de abstinência ou ideação suicida), procure ajuda profissional imediatamente.
4. “Quanto tempo leva para se recuperar?”
Não existe um prazo fixo para a recuperação. Cada pessoa é única, e o tempo de recuperação pode variar dependendo de vários fatores, como:
- Gravidade do transtorno: Transtornos mais graves podem exigir um tempo maior de recuperação.
- Tipo de substância: Algumas substâncias causam dependência física mais forte, o que pode exigir um tempo maior de recuperação.
- Presença de outros problemas de saúde mental: Se a pessoa tem outros problemas de saúde mental, como depressão ou ansiedade, a recuperação pode ser mais longa.
- Apoio social: Pessoas com uma rede de apoio forte tendem a se recuperar mais rápido.
- Motivação para a mudança: Pessoas mais motivadas tendem a se recuperar mais rápido.
Em geral, a recuperação é um processo gradual, que pode levar meses ou até anos. O importante não é o tempo, mas o progresso. Cada dia sem usar é uma vitória, e cada pequena conquista deve ser celebrada.
Exemplo: Se você ficou um dia sem usar, celebre. Se ficou uma semana, celebre ainda mais. Não se compare com outras pessoas – cada um tem seu próprio ritmo.
5. “Posso me recuperar sozinho, sem tratamento?”
Algumas pessoas conseguem se recuperar sem tratamento profissional, especialmente em casos leves. No entanto, a maioria das pessoas precisa de ajuda profissional para se recuperar, especialmente em casos moderados a graves.
Aqui estão alguns motivos pelos quais o tratamento profissional é importante:
- Abstinência segura: Algumas substâncias podem causar sintomas graves de abstinência, que podem ser perigosos ou até fatais. O tratamento profissional pode ajudar a gerenciar esses sintomas de forma segura.
- Tratamento de outros problemas de saúde mental: Muitas pessoas com transtorno por uso de substância também têm outros problemas de saúde mental, como depressão ou ansiedade. O tratamento profissional pode ajudar a tratar esses problemas também.
- Prevenção de recaídas: O tratamento profissional pode ajudar a identificar gatilhos e desenvolver estratégias para evitar recaídas.
- Apoio emocional: O tratamento profissional oferece um espaço seguro para falar sobre seus sentimentos e desafios, sem julgamento.
Exemplo: Se você está tentando parar de usar opioides, a abstinência pode causar sintomas graves, como convulsões e depressão respiratória. O tratamento profissional pode ajudar a gerenciar esses sintomas de forma segura, com medicamentos como a metadona ou a buprenorfina.
Importante: Se você está tentando se recuperar sozinho e não está conseguindo, não hesite em buscar ajuda profissional. Não há vergonha em pedir ajuda – é um sinal de força, não de fraqueza.
6. “O tratamento vai me deixar ‘dopado’ ou mudar minha personalidade?”
Essa é uma preocupação comum, mas os medicamentos usados no tratamento dos transtornos por uso de substância não são feitos para deixar a pessoa ‘dopada’ ou mudar sua personalidade. Eles são feitos para:
- Aliviar os sintomas de abstinência: Medicamentos como benzodiazepínicos ou anticonvulsivantes podem ser usados por um curto período para aliviar sintomas de abstinência.
- Reduzir os desejos: Medicamentos como a naltrexona ou o acamprosato podem ajudar a reduzir os desejos pela substância.
- Tratar outros problemas de saúde mental: Medicamentos como antidepressivos ou estabilizadores de humor podem ajudar a tratar problemas como depressão ou ansiedade, que muitas vezes contribuem para o uso problemático.
Os medicamentos são usados em doses controladas e sob supervisão médica, para minimizar os efeitos colaterais e evitar dependência. O objetivo não é mudar quem você é, mas ajudar você a se sentir melhor e a ter mais controle sobre sua vida.
Exemplo: Se você está tomando naltrexona para reduzir os desejos por álcool, o medicamento não vai mudar sua personalidade. Ele simplesmente vai ajudar a reduzir a vontade de beber, permitindo que você se concentre em outras áreas da sua vida.
Importante: Se você está preocupado com os efeitos de um medicamento, converse com seu médico. Ele pode ajustar a dose ou trocar o medicamento por outro com menos efeitos colaterais.
7. “Como posso ajudar um amigo que está em recuperação?”
Ajudar um amigo em recuperação pode fazer uma grande diferença no processo. Aqui estão algumas coisas que você pode fazer:
- Ofereça apoio emocional: Esteja presente para ouvir, sem julgamento. Às vezes, só o fato de saber que alguém se importa pode fazer uma grande diferença.
-
Exemplo: Diga “Estou aqui para você, sempre que precisar. Se quiser conversar, estou aqui para ouvir”.
-
Evite gatilhos: Se você sabe que certas situações ou lugares são gatilhos para seu amigo, evite-os quando estiverem juntos.
-
Exemplo: Se seu amigo está em recuperação de álcool, evite sugerir encontros em bares ou festas onde haja bebida.
-
Incentive hábitos saudáveis: Ofereça-se para praticar exercícios juntos, cozinhar refeições saudáveis ou participar de atividades prazerosas que não envolvam o uso de substâncias.
-
Exemplo: Convide seu amigo para uma caminhada no parque ou para cozinhar uma refeição saudável juntos.
-
Respeite os limites: Se seu amigo precisar de espaço ou não quiser falar sobre a recuperação, respeite isso.
-
Exemplo: Se seu amigo disser “Hoje não estou a fim de falar sobre isso”, respeite e mude de assunto.
-
Celebre as conquistas: Celebre cada pequena conquista do seu amigo, por menor que seja. Isso pode aumentar a motivação e a autoestima.
-
Exemplo: Se seu amigo ficou um dia sem usar, diga “Estou orgulhoso de você. Cada dia sem usar é uma vitória”.
-
Incentive a busca por ajuda profissional: Se seu amigo ainda não está em tratamento, incentive-o a buscar ajuda profissional.
-
Exemplo: Diga “Eu sei que é difícil, mas o tratamento pode te ajudar. Vamos marcar uma consulta juntos?”.
-
Cuide de si mesmo: Apoiar um amigo em recuperação pode ser desgastante. Não se esqueça de cuidar de si mesmo também.
- Exemplo: Reserve um tempo para suas próprias necessidades e busque apoio se precisar.
Importante: Você não pode “consertar” seu amigo. A recuperação é um processo pessoal, e cada um tem seu próprio ritmo. Seu papel é oferecer apoio, não assumir a responsabilidade pela recuperação do outro.
8. “O que fazer se eu tiver uma recaída?”
Recaídas são uma parte comum do processo de recuperação. Elas não significam que você falhou – significam que você é humano e que está enfrentando um desafio difícil. Aqui estão algumas coisas que podem ajudar:
- Não se culpe: Recaídas não são fracassos. Elas são oportunidades para aprender e ajustar o tratamento.
- Entenda as causas: Tente identificar o que levou à recaída. Foi estresse? Exposição a gatilhos? Falta de apoio? Entender as causas pode ajudar a evitar recaídas futuras.
- Busque ajuda: Entre em contato com seu profissional de saúde, familiares ou amigos. Eles podem oferecer apoio emocional e prático.
- Ajuste o tratamento: Converse com seu profissional de saúde sobre o que pode ser ajustado no tratamento para reduzir o risco de recaídas.
- Reinicie o processo: Não desista. Cada dia sem usar é uma vitória, mesmo que você tenha tido uma recaída.
- Aprenda com a experiência: Use a recaída como uma oportunidade para aprender e crescer. O que você pode fazer diferente da próxima vez?
Exemplo: Se você teve uma recaída depois de uma briga com seu parceiro, converse com seu psicólogo sobre estratégias para lidar com conflitos de forma saudável, sem recorrer à substância.
9. “Como posso saber se estou tendo uma overdose?”
Uma overdose ocorre quando o corpo não consegue processar a quantidade de substância que foi consumida, levando a sintomas graves e potencialmente fatais. Os sintomas de overdose variam dependendo da substância, mas alguns sinais comuns incluem:
- Opioides (heroína, morfina, oxicodona, etc.):
- Respiração lenta ou superficial.
- Pele fria e úmida.
- Lábios e unhas azulados.
- Sonolência extrema ou incapacidade de acordar.
-
Pupilas muito pequenas (como pontinhos).
-
Estimulantes (cocaína, anfetamina, metanfetamina, etc.):
- Batimentos cardíacos acelerados ou irregulares.
- Pressão alta.
- Temperatura corporal elevada (hipertermia).
- Agitação ou paranoia.
-
Convulsões.
-
Depressores do sistema nervoso central (álcool, benzodiazepínicos, barbitúricos, etc.):
- Respiração lenta ou superficial.
- Confusão ou desorientação.
- Sonolência extrema ou incapacidade de acordar.
- Fala arrastada.
-
Perda de coordenação motora.
-
Alucinógenos (LSD, cogumelos, etc.):
- Alucinações intensas e assustadoras.
- Paranoia extrema.
- Comportamento imprevisível ou violento.
- Aumento da frequência cardíaca e pressão arterial.
O que fazer em caso de overdose:
1. Ligue para o SAMU (192) ou leve a pessoa para o pronto-socorro imediatamente.
2. Se a pessoa estiver inconsciente, coloque-a de lado para evitar asfixia por vômito.
3. Se a pessoa estiver respirando com dificuldade, tente mantê-la acordada e respirando.
4. Se a substância for um opioide, administre naloxona (Narcan), se disponível. A naloxona é um medicamento que pode reverter a overdose de opioides.
5. Não deixe a pessoa sozinha até a chegada do socorro.
Importante: Mesmo que a pessoa pareça estar bem depois de uma overdose, é fundamental buscar ajuda médica. Algumas complicações podem aparecer horas depois.
10. “Onde posso encontrar ajuda no Brasil?”
No Brasil, você pode buscar ajuda tanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na rede particular. Vamos ver as opções:
SUS (gratuito)
- Unidades Básicas de Saúde (UBS): O primeiro ponto de contato. Você pode agendar uma consulta com um clínico geral ou médico de família, que pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para serviços especializados.
-
Como acessar: Procure a UBS mais próxima da sua casa.
-
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): Serviços especializados em saúde mental. Existem CAPS específicos para álcool e drogas (CAPS AD), que oferecem atendimento multiprofissional (psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, etc.).
-
Como acessar: Procure o CAPS AD mais próximo da sua casa. O encaminhamento pode ser feito pela UBS.
-
Hospitais gerais: Em casos de urgência, como intoxicação aguda ou abstinência grave, você pode procurar um hospital geral com pronto-socorro.
-
Como acessar: Procure o pronto-socorro mais próximo.
-
Comunidades terapêuticas: Serviços residenciais para pessoas com transtornos graves por uso de substância. O acesso é feito através de encaminhamento do CAPS ou da UBS.
-
Como acessar: Converse com o profissional de saúde do CAPS ou da UBS.
-
Centros de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas (CRATOD): Serviços especializados em dependência química, oferecidos em algumas cidades.
-
Como acessar: Procure o CRATOD da sua cidade.
-
Disque Saúde (136): Um serviço do Ministério da Saúde que oferece informações e orientações sobre saúde mental e dependência química.
-
Como acessar: Ligue para 136.
-
Centro de Valorização da Vida (CVV): Oferece apoio emocional e prevenção do suicídio. Pode ser útil para pessoas em crise.
- Como acessar: Ligue para 188 ou acesse o site www.cvv.org.br.
Rede particular
- Consultórios particulares: Psiquiatras e psicólogos que atendem em consultório.
-
Como acessar: Procure profissionais especializados em dependência química na sua cidade.
-
Clínicas especializadas: Clínicas que oferecem tratamento para dependência química.
-
Como acessar: Pesquise clínicas especializadas na sua cidade.
-
Hospitais particulares: Em casos de urgência, você pode procurar um hospital particular com pronto-socorro.
-
Como acessar: Procure o pronto-socorro de um hospital particular.
-
Grupos de apoio:
- Narcóticos Anônimos (NA): Grupos de apoio para pessoas com transtornos por uso de substância.
- Como acessar: Acesse o site www.na.org.br para encontrar reuniões na sua cidade.
- Alcoólicos Anônimos (AA): Grupos de apoio para pessoas com transtornos por uso de álcool.
- Como acessar: Acesse o site www.alcoolicosanonimos.org.br para encontrar reuniões na sua cidade.
- Nar-Anon: Grupos de apoio para familiares de dependentes químicos.
- Como acessar: Acesse o site www.naranon.org.br para encontrar reuniões na sua cidade.
Aplicativos e recursos online
- Aplicativos:
- Sober Time: Acompanha o tempo de abstinência e oferece motivação.
- Headspace ou Calm: Oferecem meditações guiadas para reduzir a ansiedade e os desejos.
-
AA Big Book: Oferece recursos e apoio para pessoas em recuperação.
-
Sites e fóruns:
- Viva Voz (132): Um serviço da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) que oferece informações e apoio sobre dependência química.
- Como acessar: Ligue para 132 ou acesse o site www.vivavoz.com.br.
- Fórum Clínica da Dependência: Um fórum online onde pessoas em recuperação e familiares podem trocar experiências.
- Como acessar: Acesse o site www.clinicadadependencia.com.br.
Quando procurar ajuda urgente
Algumas situações exigem ajuda médica imediata. Se você ou alguém que você conhece apresentar algum dos sinais abaixo, procure um pronto-socorro ou ligue para o SAMU (192) imediatamente:
Sinais de alerta vermelho (procure ajuda IMEDIATA):
- Overdose:
- Respiração lenta ou superficial (menos de 8 respirações por minuto).
- Incapacidade de acordar ou responder a estímulos.
- Pele fria, úmida e pálida ou azulada (especialmente lábios e unhas).
- Convulsões.
-
Batimentos cardíacos muito lentos ou irregulares.
-
Sintomas graves de abstinência:
- Convulsões.
- Alucinações ou delírios intensos.
- Confusão mental grave.
- Febre alta.
-
Batimentos cardíacos acelerados ou irregulares.
-
Risco de suicídio:
- Falar sobre querer morrer ou se matar.
- Fazer planos ou se preparar para o suicídio (por exemplo, comprar uma arma ou juntar comprimidos).
- Expressar sentimentos de desesperança ou falta de razão para viver.
- Isolar-se de amigos e familiares.
-
Comportamentos autodestrutivos, como dirigir em alta velocidade ou se envolver em brigas.
-
Sintomas psicóticos graves:
- Alucinações intensas (ouvir vozes, ver coisas que não existem).
- Delírios (acreditar em coisas que não são verdadeiras, como achar que está sendo perseguido).
-
Comportamento violento ou imprevisível.
-
Lesões ou acidentes:
- Ferimentos graves causados por quedas, brigas ou acidentes enquanto estava sob efeito da substância.
- Queimaduras ou outros ferimentos causados pelo uso da substância.
Sinais de alerta amarelo (procure ajuda o mais rápido possível):
- Sintomas moderados de abstinência:
- Ansiedade intensa.
- Insônia persistente.
- Náuseas, vômitos ou diarreia.
- Tremores.
-
Sudorese excessiva.
-
Piora dos sintomas de saúde mental:
- Aumento da depressão ou ansiedade.
- Isolamento social.
-
Dificuldade para realizar atividades do dia a dia.
-
Comportamentos de risco:
- Dirigir sob efeito da substância.
- Envolver-se em atividades ilegais para conseguir a substância.
-
Ter relações sexuais sem proteção sob efeito da substância.
-
Problemas físicos:
- Dor no peito.
- Dificuldade para respirar.
- Dor abdominal intensa.
- Sangramentos.
Importante: Se você não tem certeza se a situação é grave, é melhor procurar ajuda. Não espere os sintomas piorarem. Em casos de dúvida, ligue para o SAMU (192) ou procure um pronto-socorro.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- Fiocruz. III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira. Rio de Janeiro, 2021.
- National Institute on Drug Abuse (NIDA). Principles of Drug Addiction Treatment: A Research-Based Guide. 3ª ed. 2018.
- Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA). Treatment Improvement Protocol (TIP) 35: Enhancing Motivation for Change in Substance Use Disorder Treatment. 2019.
- Centro de Valorização da Vida (CVV). Prevenção do Suicídio: Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. 2020.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.