Definição e conceito
Delirium é um transtorno neurocognitivo agudo, caracterizado por uma perturbação flutuante da atenção, do nível de consciência e da cognição, que se desenvolve em um curto período de tempo (horas a dias) e representa uma mudança aguda em relação à linha de base cognitiva do indivíduo. Na semiologia psiquiátrica, situa-se entre os transtornos neurocognitivos, sendo um quadro de natureza orgânica, frequentemente decorrente de uma condição médica subjacente, intoxicação ou abstinência de substâncias, ou múltiplas etiologias. O termo "delirium" deriva do latim delirare, que significa "sair do sulco" (no sentido de desviar do pensamento lógico). Em inglês, mantém-se o termo delirium, sendo coloquialmente referido como acute confusional state.
Distinguir delirium de outras condições é fundamental. O transtorno neurocognitivo maior (demência) é um declínio cognitivo crônico e progressivo, enquanto o delirium é agudo e flutuante. A pseudodemência depressiva refere-se a déficits cognitivos secundários a um transtorno depressivo, que são transitórios e melhoram com o tratamento do humor. O transtorno neurocognitivo leve, introduzido pelo DSM-5, representa um declínio cognitivo mensurável, mas que não interfere significativamente na independência nas atividades da vida diária, sendo um conceito distinto do quadro agudo e grave do delirium.
Epidemiologicamente, o delirium é um problema de saúde pública subdiagnosticado. Sua incidência é mais alta em populações vulneráveis: atinge 10 a 30% dos idosos hospitalizados em enfermarias clínicas, 50 a 80% dos pacientes em unidades de terapia intensiva (UTI) e é extremamente prevalente em cenários pós-operatórios, especialmente após cirurgias de grande porte. A população idosa é a mais suscetível devido à reserva cognitiva reduzida, polifarmácia e maior prevalência de comorbidades. O delirium está associado a desfechos clínicos adversos significativos, incluindo aumento da mortalidade hospitalar, prolongamento do tempo de internação, maior risco de institucionalização pós-alta e aceleração do declínio cognitivo a longo prazo.
Apresentação clínica
A apresentação clínica do delirium é heterogênea, mas seu núcleo é a perturbação aguda da atenção e da consciência, com flutuação ao longo do dia, frequentemente piorando ao entardecer e à noite (fenômeno do "pôr do sol" ou sundowning). A síndrome se manifesta através de múltiplos domínios:
Domínio Cognitivo:
- Atenção: Déficit grave e flutuante na capacidade de focar, sustentar ou deslocar a atenção. O paciente parece facilmente distraído, incapaz de seguir uma conversa ou instruções simples.
- Consciência: Nível de alerta alterado, que pode variar desde o estado de hiperalerta (agitação, vigilância aumentada) até o hipoalerta (letargia, sonolência). A clareza da consciência em relação ao ambiente está reduzida.
- Memória: Prejuízo na memória de fixação e, frequentemente, na evocação. O paciente pode não lembrar o que almoçou ou o nome do médico que o atendeu horas antes.
- Orientação: Desorientação temporoespacial é um achado quase universal, podendo atingir também a orientação pessoal em casos graves.
- Pensamento: O pensamento torna-se desorganizado, ilógico, incoerente ou notavelmente lento. O discurso pode ser tangencial, circunstancial ou irrelevante.
- Linguagem: Podem ocorrer déficits como disnomia (dificuldade para encontrar palavras), discurso desorganizado ou dificuldade de compreensão.
Domínio da Sensopercepção:
- Alucinações: Mais comumente visuais (ver insetos, pessoas ou animais inexistentes), mas também podem ser táteis, auditivas ou menos frequentemente olfativas. São tipicamente vívidas e podem gerar grande medo.
- Ilusões: Interpretações errôneas de estímulos reais (ex.: a sombra da cortina é percebida como uma pessoa ameaçadora).
Domínio Afetivo:
- Labilidade emocional: Mudanças rápidas e imprevisíveis no humor, como passagem súbita da apatia para a irritabilidade ou do choro à euforia.
- Ansiedade e medo: Frequentemente presentes, especialmente em reação às experiências perceptivas alteradas e à desorientação.
Domínio Comportamental e Psicomotor:
- Alterações psicomotoras: Podem se apresentar como:
- Hiperatividade: Agitação, inquietação, tentativas de retirar cateteres ou sair do leito (delirium hiperativo).
- Hipoactividade: Lentidão, apatia, redução drástica dos movimentos (delirium hipoativo). Esta forma é frequentemente subdiagnosticada.
- Misto: Alternância entre estados de agitação e letargia.
- Ciclo sono-vigília: Perturbação marcante, com insônia noturna, sonolência diurna, inversão do ciclo ou sono fragmentado.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Caso Hiperativo: Sr. J., 78 anos, 2 dias pós-operatório de fratura de fêmur. À noite, torna-se agitado, tenta arrancar o acesso venoso, grita que há formigas subindo pela parede. Chama a enfermeira pelo nome da falecida esposa. Está sudorético, taquicárdico e completamente desorientado no tempo e local.
- Caso Hipoativo: D. Maria, 82 anos, com infecção urinária. Familiares notam que está "muito quieta" e "sonolenta" durante o dia. Responde com monossílabos, parece não reconhecer o neto, não se alimenta adequadamente. À noite, fica acordada, olhando fixamente para o vazio, murmurando palavras desconexas.
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia do delirium é complexa e multifatorial, envolvendo uma interação entre vulnerabilidade do paciente (ex.: idade avançada, demência pré-existente) e fatores precipitantes (ex.: infecção, cirurgia, medicações). Não há um único mecanismo, mas sim uma disfunção cerebral aguda e difusa.
Hipóteses Neuroquímicas:
- Déficit Colinérgico / Excesso Dopaminérgico: É o modelo mais consolidado. A redução aguda na atividade da acetilcolina, um neurotransmissor crucial para a atenção, memória e consciência, desempenha papel central. Esse déficit pode ser causado por inflamação, hipóxia ou efeitos anticolinérgicos de medicamentos. Paralelamente, um aumento relativo na atividade dopaminérgica estaria associado aos sintomas psicóticos (alucinações, agitação). Esta hipótese fundamenta o uso de antipsicóticos (bloqueadores dopaminérgicos) no manejo sintomático.
- Resposta Inflamatória Sistêmica: Doenças agudas (sepse, pneumonia, COVID-19) ou cirurgias major liberam citocinas pró-inflamatórias (ex.: IL-1, IL-6, TNF-alfa) que podem atravessar a barreira hematoencefálica ou ativá-la indiretamente. No cérebro, essas citocinas ativam a micróglia, levando a uma neuroinflamação que interfere na neurotransmissão, na função neuronal e no metabolismo energético.
- Estresse Oxidativo e Disfunção Mitocondrial: A incapacidade do cérebro, especialmente em indivíduos vulneráveis, de atender à demanda metabólica aumentada durante uma doença aguda pode levar à produção excessiva de radicais livres e falha na produção de energia (ATP), contribuindo para a disfunção neuronal.
- Alterações no Eixo Hipotálamo-Pituitária-Adrenal (HPA): O estresse físico agudo leva à liberação de cortisol. Em alguns contextos, pode ocorrer tanto hipercortisolemia (com efeitos neurotóxicos) quanto, paradoxalmente, insuficiência adrenal relativa, ambas podendo contribuir para a confusão mental.
Achados de Neuroimagem: Não há um padrão patognomônico. Estudos de ressonância magnética funcional (fMRI) em pacientes com delirium mostram, de forma inespecífica, redução do metabolismo cerebral global e regional, bem como alterações na conectividade funcional de redes importantes para a atenção (rede de saliência) e consciência (rede de modo padrão). Lesões estruturais prévias, especialmente no córtex pré-frontal e regiões talâmicas, aumentam a vulnerabilidade.
Em resumo, o delirium é entendido como uma síndrome de falência cerebral aguda, onde múltiplos insultos (inflamatórios, metabólicos, farmacológicos) sobrepõem-se a um cérebro vulnerável, levando a uma desregulação global dos sistemas de neurotransmissores e a uma falha na integração das informações necessárias para a cognição e a consciência claras.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
O diagnóstico do delirium é essencialmente clínico, baseado na observação cuidadosa e na história colhida do paciente e, crucialmente, de informantes (familiares, cuidadores, equipe de enfermagem).
Achados ao Exame do Estado Mental:
A avaliação deve focar nos critérios diagnósticos (DSM-5-TR/ CID-11):
- Perturbação da Atenção: Testar com tarefas simples como nomear os meses do ano ao contrário, subtrair 7 a partir de 100 (seriação de 7) ou repetir uma sequência de dígitos. A incapacidade de sustentar o foco na entrevista é um sinal flagrante.
- Alteração da Consciência: Observar o nível de alerta (hiper, hipo, flutuante).
- Déficit Cognitivo Adicional: Avaliar memória (três palavras para evocar após 5 minutos), orientação (tempo, lugar, pessoa), linguagem (nomeação, compreensão) e percepção visuoespacial (copiar um desenho simples como um relógio).
- Curso Temporal Agudo e Flutuante: Confirmar com informante que a mudança ocorreu em horas/dias e que os sintomas pioram e melhoram ao longo do dia.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Confusion Assessment Method (CAM): Ferramenta de rastreio rápida e validada, amplamente utilizada. Avalia: 1) Início agudo e curso flutuante; 2) Desatenção; 3) Pensamento desorganizado; 4) Nível de consciência alterado. O diagnóstico de delirium requer a presença dos itens 1 e 2, mais 3 ou 4.
- Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98): Escala mais detalhada, útil para quantificar a gravidade e monitorar a resposta ao tratamento.
- 4AT (4 A’s Test): Inclui avaliação de alerta, teste abreviado de cognição, atenção (teste dos meses ao contrário) e mudança aguda/flutuação. É rápido e não requer treinamento extensivo.
- Exame Cognitivo Abreviado (Mini-Mental): Pode ser usado, mas tem sensibilidade limitada para delirium, especialmente na forma hipoativa. É mais útil para estabelecer a linha de base prévia.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas | Como Diferenciar |
|---|---|---|
| Demência (Transt. Neurocognitivo Maior) | Início insidioso, curso progressivo e estável (sem flutuação aguda), memória e outras funções cognitivas prejudicadas, mas atenção e consciência tipicamente preservadas até fases avançadas. | História de declínio crônico; ausência de flutuação aguda no nível de consciência; déficits cognitivos sem o componente agudo de desatenção grave. |
| Transtorno Depressivo com Sintomas Cognitivos (Pseudodemência) | Humor deprimido proeminente e persistente; queixas cognitivas ("não consigo me concentrar", "esqueço tudo") podem ser desproporcionais ao déficit objetivo; melhora cognitiva com tratamento antidepressivo. | Avaliação do humor é central; os déficits cognitivos são menos flutuantes e mais ligados à falta de iniciativa e energia. |
| Transtorno Psicótico (ex.: Esquizofrenia) | Psicose crônica (delírios, alucinações) sem alteração do nível de consciência ou desorientação marcante. Déficits cognitivos são mais estáveis (déficit cognitivo da esquizofrenia). | História psiquiátrica prévia; alucinações tipicamente auditivas e inseridas em um sistema delirante organizado; consciência e orientação preservadas. |
| Estado de Mal Epiléptico Não-Convulsivo | Alteração comportamental ou cognitiva súbita, com ou sem movimentos sutis (piscar de olhos, movimentos labiais). Pode ser flutuante. | EEG é diagnóstico, mostrando atividade epileptiforme contínua. Suspeitar em pacientes com história de epilepsia ou lesão cerebral conhecida. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Supervalorizar a "Consciência" em detrimento da "Atenção": O DSM-5 prioriza a "perturbação da atenção". Um paciente que sai do coma e é difícil de avaliar cognitivamente pode não apresentar um nível de consciência claramente alterado, mas ter grave desatenção. Focar numa noção ampla de desatenção evita subdiagnosticar estes casos.
- Atribuir sintomas à "idade" ou "demência": O delirium é uma emergência médica, não uma consequência normal do envelhecimento. Todo idoso com mudança aguda do comportamento ou cognição deve ser investigado para delirium.
- Não reconhecer o Delirium Hipoativo: A forma quieta e apática é frequentemente negligenciada, sendo erroneamente interpretada como depressão ou cansaço. É associada a pior prognóstico.
- Confundir com Agitação por Dor ou Outro Desconforto: É fundamental investigar e tratar causas de dor, retenção urinária, constipação ou fome/sede, que podem precipitar ou mimetizar agitação.
Condições associadas
O delirium raramente é uma entidade primária; quase sempre é um sinal de uma descompensação aguda de uma condição médica subjacente. Sua ocorrência é frequente e de grande importância clínica nas seguintes situações:
- Infecções Sistêmicas: Sepse, pneumonia, infecção do trato urinário (especialmente em idosos, que podem não apresentar febre), COVID-19.
- Desordens Metabólicas: Desidratação, distúrbios eletrolíticos (hipo/hipernatremia, hipercalcemia), insuficiência renal ou hepática, hipóxia, hipercapnia, hipoglicemia.
- Pós-Operatório (especialmente cirurgias cardíacas, ortopédicas e de grande porte): Associado à anestesia, analgesia opioide, dor, inflamação sistêmica e alterações metabólicas.
- Traumatismo Cranioencefálico (TCE) e Acidente Vascular Cerebral (AVC): Lesão cerebral aguda direta.
- Abstinência ou Intoxicação por Substâncias: Abstinência alcoólica (delirium tremens), intoxicação por anticolinérgicos, benzodiazepínicos, opioides, corticoides, levodopa, entre outros.
- Contexto de Cuidados Paliativos e Terminal: Frequente devido à progressão da doença de base, polifarmácia e fragilidade extrema.
No DSM-5-TR, o delirium é classificado sob "Transtornos Neurocognitivos", com especificadores para substância/medicação induzido, devido a outra condição médica, devido a múltiplas etiologias, ou não especificado. A CID-11 o classifica no capítulo de "Transtornos do Desenvolvimento Neurológico" (código 6D70), também com subcategorias etiológicas. A coexistência com um transtorno neurocognitivo leve ou maior pré-existente é o fator de risco mais potente para o desenvolvimento de delirium, pois representa uma reserva cerebral já comprometida.
Implicações terapêuticas
O tratamento do delirium é etiológico e de suporte. A abordagem farmacológica tem papel limitado e sintomático.
Abordagem Não-Farmacológica (Fundamental e de Primeira Linha):
Esta é a espinha dorsal do tratamento e coincide com estratégias de prevenção.
- Identificação e Tratamento da Causa Subjacente: Investigação clínica rigorosa (exames laboratoriais, imagem, revisão de medicamentos) para diagnosticar e tratar a condição precipitante (ex.: antibioticoterapia para infecção, correção hidroeletrolítica).
- Medidas de Suporte Ambiental e Psicosocial (Reorientação):
- Orientação: Presença de familiares, relógios e calendários visíveis, reorientação verbal frequente e calma pela equipe.
- Estimulação Sensorial Adequada: Iluminação natural durante o dia, ambiente calmo à noite, redução de ruídos desnecessários (alarmes, conversas). A presença de objetos familiares (fotos, um cobertor de casa) pode trazer conforto.
- Mobilização Precoce: Incentivar o paciente a sair do leito, sentar-se na poltrona, caminhar com assistência, conforme tolerado.
- Otimização do Ciclo Sono-Vigília: Evitar sestas longas durante o dia, estabelecer rotinas noturnas, minimizar intervenções durante a noite.
- Estimulação Cognitiva: Envolver o paciente em conversas simples, atividades manuais básicas, conforme sua capacidade.
- Garantir Necessidades Básicas: Correção de deficiências sensoriais (oferecer óculos, aparelho auditivo), manejo adequado da dor, prevenção de constipação e retenção urinária, hidratação e nutrição adequadas.
- Empoderamento e Inclusão do Paciente: Sempre que possível, incluir o paciente nas decisões sobre seu cuidado, mesmo que de forma simplificada, para preservar seu senso de controle e autonomia.
Abordagem Farmacológica (Sintomática e com Cautela):
Indicada apenas para sintomas que coloquem o paciente ou outros em risco (agitação psicomotora grave, angústia extrema, sintomas psicóticos que impeçam os cuidados médicos).
- Antipsicóticos Atípicos: São os mais utilizados. Risperidona (0,25-1 mg/dia), Olanzapina (2,5-10 mg/dia), Quetiapina (12,5-100 mg/dia) em doses baixas e tituladas lentamente. O objetivo é a sedação leve e o controle da agitação/psicose, não a "resolução" do delirium.
- Antipsicóticos Típicos: Haloperidol (0,25-2 mg VO/IM) ainda é usado, especialmente em contextos de agitação aguda, mas com maior risco de efeitos extrapiramidais e de prolongamento do intervalo QT.
- Precauções: Evitar benzodiazepínicos (exceto em delirium por abstinência de álcool/sedativos), pois podem piorar a confusão. A farmacoterapia deve ser reavaliada diariamente e descontinuada o mais breve possível.
Impacto Prognóstico: O delirium é um marcador de gravidade. Mesmo após a resolução do episódio agudo, está associado a piores desfechos a longo prazo: declínio cognitivo acelerado, maior dependência funcional, aumento do risco de institucionalização em asilos e maior mortalidade em 6 a 12 meses. O manejo adequado e precoce pode mitigar, mas não eliminar completamente, esses riscos.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente: Para o paciente, o delirium é uma experiência frequentemente aterradora e fragmentada. É como estar preso em um sonho vívido e caótico do qual não se consegue acordar. A desorientação gera medo e insegurança. Alucinações visuais ameaçadoras podem levar a reações de fuga ou defesa. A incapacidade de pensar com clareza ou se comunicar gera frustração e isolamento. Memórias do episódio podem ser confusas ou ausentes (amnésia lacunar), mas a sensação de angústia pode persistir.
Comunicação com o Paciente e Família:
- Com o Paciente:
- Abordagem Calma e Reasseguradora: Fale de forma lenta, clara e em tom baixo. Identifique-se sempre.
- Validação, Não Confrontação: Não discuta a realidade das alucinações ou delírios. Em vez de "não há ninguém ali", diga "eu sei que você está vendo algo assustador, mas eu não vejo. Estou aqui para mantê-lo seguro".
- Instruções Simples: Dê uma instrução de cada vez. "Vamos sentar na cadeira" em vez de "preciso que você se levante, ande até a cadeira e se sente".
- Presença Familiar: A presença de um rosto conhecido é o melhor antipsicótico e ansiolítico.
- Com a Família/Cuidador:
- Educação Imediata: Explique que o delirium é uma condição médica tratável, não uma loucura ou piora súbita da demência. Esclareça que é comum em hospitais.
- Esclareça o Papel deles: Encoraje-os a participar do cuidado de reorientação: conversar sobre assuntos familiares, mostrar fotos, ajudar na alimentação. Informe que o paciente pode captar e entender mais do que consegue expressar.
- Prepare para Flutuações: Alerte que o paciente pode ter momentos de lucidez seguidos de confusão, especialmente à noite.
- Ofereça Suporte Psicológico: Reconheça que testemunhar um ente querido em delirium é angustiante. Valide seus sentimentos e os encoraje a cuidar de sua própria saúde.
Impacto Funcional: Durante o episódio, há incapacidade total para atividades complexas (trabalho, gestão financeira) e até para atividades básicas de vida diária (alimentação, higiene). Após a resolução, pode haver fadiga cognitiva persistente, dificuldades de memória e perda de confiança para atividades antes rotineiras, impactando a qualidade de vida e a independência.
Perguntas frequentes
1. Delirium é o mesmo que "surto psicótico" ou loucura?
Não. O delirium é uma disfunção cerebral orgânica aguda, um sinal de que o corpo (e o cérebro) está doente devido a uma infecção, desidratação, efeito colateral de remédio, etc. É uma condição médica. O "surto psicótico" geralmente se refere a uma exacerbação de um transtorno psiquiátrico primário (como esquizofrenia), onde não há, necessariamente, uma causa médica aguda identificável nem alteração flutuante do nível de consciência.
2. Meu familiar idoso ficou confuso no hospital. Isso é normal para a idade?
Absolutamente não. Confusão mental aguda nunca é uma parte normal do envelhecimento. É sempre um sinal de alerta de que algo está errado. Deve ser comunicada imediatamente à equipe médica para investigação de causas como infecção, efeito de medicação ou alterações metabólicas.
3. O delirium tem cura?
Sim, na grande maioria dos casos, o delirium é reversível uma vez que a causa subjacente seja identificada e tratada adequadamente. A recuperação pode levar dias ou semanas, e a função cognitiva geralmente retorna ao nível basal prévio. No entanto, em pacientes muito frágeis ou com demência avançada, a recuperação pode ser incompleta.
4. O que eu, como familiar, posso fazer para ajudar durante um episódio de delirium?
Você é uma peça fundamental. Sua presença é calmante. Você pode: (a) ajudar na reorientação, lembrando-o onde está, que dia é hoje, quem são as pessoas; (b) trazer objetos familiares de casa (fotos, travesseiro); (c) garantir que ele use óculos e aparelho auditivo, se for o caso; (d) conversar sobre assuntos familiares e agradáveis; (e) observar e relatar à equipe qualquer mudança de comportamento ou sinal de desconforto (dor, por exemplo).
5. O delirium pode deixar sequelas?
Embora reversível, estudos mostram que um episódio de delirium pode estar associado a um declínio cognitivo acelerado a longo prazo, especialmente em pessoas que já tinham algum comprometimento prévio (transtorno neurocognitivo leve). O cérebro que passou por um estresse agudo como o delirium pode ficar mais vulnerável. Por isso, a prevenção e o manejo precoce são tão críticos.
6. Quais medicamentos podem causar delirium?
Muitos, especialmente em idosos. Os principais suspeitos são: drogas com efeito anticolinérgico (alguns antidepressivos tricíclicos, anti-histamínicos, medicações para incontinência urinária como oxibutinina), benzodiazepínicos (diazepam, lorazepam), opioides (morfina, tramadol), corticoides, e uma combinação de múltiplos medicamentos (polifarmácia). A revisão da farmacoterapia é um passo essencial.
7. O delirium só acontece em hospitais?
Não. Pode ocorrer em qualquer lugar, mas é mais comum em hospitais devido à gravidade das doenças que levam à internação, aos procedimentos e à medicação. Também pode ocorrer em casa, por exemplo, em um idoso com uma infecção urinária silenciosa que desencadeia confusão.
8. Como posso prevenir o delirium no meu familiar idoso que vai ser operado?
Converse com a equipe médica e de enfermagem sobre estratégias de prevenção. Isso inclui: (a) otimizar o controle da dor com o mínimo de opioides possível; (b) incentivar a mobilização precoce; (c) garantir boa hidratação e nutrição; (d) trazer seus óculos e aparelho auditivo para o hospital; (e) manter um ciclo claro de dia/noite no quarto; (f) revisar com o médico a necessidade de todos os medicamentos de uso crônico no perioperatório.
Referências
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- Barlow, D.H.; Durand, V.M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Tradução da edição norte-americana. São Paulo: Cengage Learning, 2016.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
- Inouye, S.K. Delirium in Older Persons. New England Journal of Medicine. 2006;354:1157-1165.
- Fearing, M.A., & Inouye, S.K. Delirium. In: The American Psychiatric Publishing Textbook of Geriatric Psychiatry. 4th ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing; 2009.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.