O que é?
Imagine que você tem uma dor forte, daquelas que parecem rasgar o corpo por dentro. Talvez seja uma dor nas costas que não passa, uma enxaqueca que te deixa de cama ou uma recuperação depois de uma cirurgia. Os opioides são remédios poderosos que os médicos receitam justamente para aliviar essas dores intensas. Eles agem como uma espécie de “anestesia emocional” temporária, bloqueando os sinais de dor que chegam ao cérebro e, ao mesmo tempo, liberando uma sensação de bem-estar e relaxamento.
O problema começa quando o uso desses remédios sai do controle. Os transtornos devidos ao uso de opioides acontecem quando uma pessoa passa a usar essas substâncias de forma compulsiva, mesmo sabendo que isso está prejudicando sua vida. Não se trata apenas de alguém que gosta do alívio que o remédio proporciona – é como se o cérebro ficasse “viciado” naquela sensação e começasse a exigir doses cada vez maiores, mesmo quando não há mais dor física para justificar o uso.
Essa condição é diferente de simplesmente gostar dos efeitos de um remédio. Todo mundo gosta de se sentir bem, mas no transtorno por uso de opioides, a pessoa perde o controle sobre o consumo. É como se o cérebro criasse um “curto-circuito” na capacidade de dizer “chega”. Mesmo quando a pessoa quer parar, mesmo quando sabe que está prejudicando sua saúde, seus relacionamentos ou seu trabalho, ela continua usando. E o pior: quanto mais usa, mais o cérebro se acostuma, exigindo doses maiores para obter o mesmo efeito.
No Brasil, os opioides mais comuns são a codeína (presente em alguns xaropes para tosse e analgésicos), a morfina (usada em hospitais para dores intensas) e o tramadol (um analgésico receitado para dores moderadas a fortes). A heroína, um opioide ilegal, é menos comum no país, mas seu uso tem crescido em algumas regiões. Dados do Ministério da Saúde mostram que o número de internações por problemas relacionados a opioides aumentou 40% entre 2010 e 2020, especialmente entre pessoas de 30 a 50 anos. Homens ainda são a maioria dos casos, mas o uso entre mulheres tem crescido rapidamente, especialmente entre profissionais da saúde que têm acesso fácil a esses medicamentos.
Historicamente, os opioides são usados há milhares de anos. Os sumérios, no antigo Oriente Médio, já cultivavam papoulas para extrair ópio por volta de 3.400 a.C. No século XIX, a morfina foi isolada do ópio e passou a ser usada como analgésico, especialmente durante a Guerra Civil Americana. Foi nessa época que se percebeu o potencial viciante dessas substâncias. No Brasil, o uso problemático de opioides começou a ganhar atenção na década de 1990, com o aumento da prescrição de analgésicos mais potentes para dores crônicas.
Quais são os sintomas?
Os transtornos devidos ao uso de opioides são diagnosticados quando uma pessoa apresenta pelo menos dois dos seguintes sintomas durante um período de 12 meses. Vamos explicar cada um deles em detalhes, com exemplos do dia a dia para você entender como eles se manifestam na prática.
1. Uso em quantidades maiores ou por mais tempo do que o pretendido
O que significa: A pessoa começa usando o remédio como foi receitado, mas aos poucos vai perdendo o controle sobre a quantidade e o tempo de uso. É como se o cérebro “desligasse” o freio que diz “isso é suficiente”.
Exemplos concretos:
– João foi operado do joelho e recebeu uma receita de tramadol para tomar 1 comprimido a cada 8 horas por 5 dias. No terceiro dia, ele percebe que a dor está voltando antes do horário da próxima dose. Ele decide tomar meio comprimido extra “só para aliviar”. No dia seguinte, já está tomando 2 comprimidos de uma vez, e no final da semana, está usando o remédio mesmo quando a dor já passou.
– Maria tem enxaqueca crônica e recebeu codeína do médico para usar “quando necessário”. No começo, ela tomava só quando a dor estava insuportável. Com o tempo, começa a tomar preventivamente, antes mesmo da dor começar, “por precaução”. Depois, passa a tomar todos os dias, mesmo nos dias bons, porque “hoje pode ser um dia ruim”.
– Carlos quebrou o braço e recebeu morfina no hospital. Quando recebeu alta, levou para casa alguns comprimidos “por segurança”. No começo, usava só quando a dor estava muito forte. Depois, começou a tomar antes de dormir “para descansar melhor”. Agora, toma mesmo quando não está com dor, porque se sente mais relaxado e menos ansioso.
Normal vs. Sintomático:
É normal querer alívio quando se está com dor, e às vezes ajustamos a dose de um remédio para controlar melhor os sintomas. O problema começa quando:
– Você perde a noção do quanto está usando
– Precisa de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito
– Continua usando mesmo quando a dor física já passou
– Esconde ou mente sobre a quantidade que está tomando
2. Desejo persistente ou esforços malsucedidos para reduzir ou controlar o uso
O que significa: A pessoa reconhece que está usando demais, tenta parar ou reduzir, mas não consegue. É como tentar frear um carro em uma ladeira íngreme – você pisa no freio, mas o carro continua descendo.
Exemplos concretos:
– Ana percebe que está tomando codeína todos os dias há meses. Ela decide parar no fim de semana, mas na sexta-feira à noite, começa a sentir um mal-estar estranho: dor no corpo, ansiedade, insônia. Ela resiste por algumas horas, mas acaba cedendo e tomando o remédio “só para dormir”. No dia seguinte, promete a si mesma que vai parar de novo, mas o ciclo se repete.
– Pedro é médico e sabe que está abusando do tramadol. Ele marca uma consulta com um psiquiatra e recebe orientações para reduzir gradualmente. Na primeira semana, consegue diminuir a dose. Na segunda, começa a sentir uma inquietação tão forte que não consegue ficar parado. Ele quebra a abstinência e volta a usar a dose original. Sente vergonha, mas não conta para ninguém.
– Carla faz uma promessa para si mesma: “Vou tomar só nos dias de enxaqueca forte”. Ela consegue se controlar por dois dias, mas no terceiro, quando sente uma dor leve, pensa: “Só hoje não vai fazer diferença”. No dia seguinte, a dor é mais forte e ela justifica: “Já quebrei a promessa ontem, hoje também posso tomar”. Em uma semana, está de volta ao uso diário.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo tem dias em que quebra uma promessa que fez a si mesmo. O que diferencia o transtorno é:
– A frequência: você tenta parar várias vezes e não consegue
– A intensidade: a vontade de usar é tão forte que parece uma necessidade física, como fome ou sede
– As consequências: mesmo sabendo que está prejudicando sua vida, você continua
3. Muito tempo gasto em atividades necessárias para obter, usar ou se recuperar dos efeitos dos opioides
O que significa: A pessoa passa tanto tempo pensando no remédio, conseguindo-o ou se recuperando de seus efeitos que outras áreas da vida ficam em segundo plano. É como se o opioide se tornasse o centro da vida, empurrando para fora tudo o mais que antes era importante.
Exemplos concretos:
– Ricardo costumava jogar futebol com os amigos todo sábado, mas agora passa os fins de semana em casa, dormindo ou se recuperando dos efeitos do tramadol. Quando os amigos o convidam, ele inventa desculpas ou vai, mas fica aéreo, sem energia para participar.
– Fernanda é enfermeira e tem acesso fácil a opioides no hospital. Ela começa a passar mais tempo no trabalho do que o necessário, “só para ficar perto” dos remédios. Às vezes, fica até depois do horário, inventando tarefas para justificar sua presença. Em casa, passa horas pesquisando na internet sobre como conseguir receitas ou onde comprar opioides sem receita.
– Marcos gasta tanto dinheiro com tramadol que começa a ter problemas financeiros. Ele pede empréstimos para amigos, atrasa contas e até vende alguns pertences para comprar mais remédios. Quando a família pergunta sobre o dinheiro, ele inventa desculpas ou fica irritado.
Normal vs. Sintomático:
É normal dedicar tempo a coisas que são importantes para nós, como trabalho ou hobbies. O problema acontece quando:
– Você passa mais tempo pensando no remédio do que em qualquer outra coisa
– Outras áreas da vida (trabalho, família, lazer) começam a sofrer
– Você negligencia responsabilidades para usar ou conseguir o remédio
4. Fissura ou forte desejo de usar opioides
O que significa: A fissura é uma vontade intensa e quase incontrolável de usar o remédio. Não é apenas um desejo comum, como querer tomar um café quando está cansado. É mais como a sensação de sede extrema em um deserto – parece que nada mais vai aliviar.
Exemplos concretos:
– Lucas está em uma reunião de trabalho quando começa a sentir uma inquietação estranha. Seus pensamentos ficam presos na ideia de tomar um comprimido. Ele tenta se concentrar na reunião, mas só consegue pensar em como vai tomar o remédio assim que sair. A vontade é tão forte que ele inventa uma desculpa para sair mais cedo.
– Patrícia está dirigindo quando passa em frente a uma farmácia. Imediatamente, sente uma vontade quase física de parar e comprar tramadol. Ela resiste, mas a vontade não passa. Durante todo o trajeto, fica imaginando como seria bom tomar um comprimido. Quando chega em casa, toma uma dose maior do que pretendia.
– Rafael está tentando reduzir o uso de codeína. Ele consegue ficar sem tomar por dois dias, mas no terceiro, quando vê uma caixa de remédios no armário do banheiro, sente uma vontade tão forte que suas mãos tremem. Ele resiste por algumas horas, mas acaba cedendo.
Como a fissura se manifesta no corpo:
– Aceleração do coração
– Suor nas mãos
– Tremores leves
– Sensação de vazio no estômago
– Pensamentos obsessivos sobre o remédio
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo tem desejos e vontades, mas a fissura é diferente porque:
– É intensa e persistente, como uma necessidade física
– Dificulta a concentração em outras coisas
– Muitas vezes leva a pessoa a agir de forma impulsiva
5. Uso recorrente resultando em fracasso em cumprir obrigações importantes no trabalho, escola ou casa
O que significa: A pessoa começa a falhar em suas responsabilidades porque o uso do remédio está interferindo. É como se o opioide criasse uma “névoa” que impede a pessoa de cumprir seus papéis.
Exemplos concretos:
– No trabalho: Camila é professora e costumava preparar suas aulas com cuidado. Ultimamente, tem chegado atrasada várias vezes porque passa a noite acordada, usando tramadol. Quando chega na escola, está tão sonolenta que não consegue dar atenção aos alunos. Seus colegas começam a notar que ela está sempre cansada e desatenta.
– Na escola: Pedro é universitário e sempre foi um aluno dedicado. Depois que começou a usar codeína para dores de cabeça, passou a faltar às aulas com frequência. Quando vai, não consegue se concentrar e tira notas baixas. Ele sabe que precisa estudar, mas quando chega em casa, só quer tomar o remédio e dormir.
– Em casa: Ana é mãe de dois filhos pequenos. Antes, ela cuidava da casa, ajudava nas tarefas escolares e brincava com as crianças. Agora, passa boa parte do dia deitada, se recuperando dos efeitos do remédio. Os filhos começam a reclamar que ela não brinca mais com eles, e o marido precisa assumir todas as tarefas domésticas.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo tem dias ruins em que não consegue cumprir todas as obrigações. O problema acontece quando:
– Os fracassos se tornam frequentes e não são pontuais
– Você percebe que está negligenciando áreas importantes da vida
– As pessoas ao seu redor começam a comentar sobre suas falhas
6. Uso continuado apesar de problemas sociais ou interpessoais persistentes causados ou exacerbados pelo uso
O que significa: A pessoa continua usando o remédio mesmo quando ele está causando brigas, isolamento ou outros problemas com as pessoas ao seu redor. É como se o opioide se tornasse mais importante do que as relações.
Exemplos concretos:
– João e sua esposa brigam constantemente porque ele gasta muito dinheiro com tramadol. Ela pede para ele parar, mas ele continua usando, dizendo que “precisa do remédio para a dor”. As brigas ficam cada vez mais frequentes, mas ele não consegue parar.
– Maria costumava sair com os amigos todo fim de semana, mas agora só quer ficar em casa usando codeína. Quando os amigos a convidam, ela inventa desculpas. Eles começam a se afastar, mas ela não consegue parar de usar o remédio.
– Carlos é demitido do trabalho porque chegou atrasado várias vezes por causa dos efeitos do remédio. Ele sabe que precisa parar, mas continua usando, mesmo sabendo que isso pode prejudicar sua carreira.
Normal vs. Sintomático:
É normal ter desentendimentos com as pessoas que amamos. O problema acontece quando:
– Você continua usando mesmo sabendo que isso está prejudicando seus relacionamentos
– As brigas e desentendimentos se tornam frequentes por causa do remédio
– Você se isola das pessoas para poder usar sem ser questionado
7. Importantes atividades sociais, profissionais ou recreativas são abandonadas ou reduzidas em virtude do uso
O que significa: A pessoa deixa de fazer coisas que antes eram importantes para ela porque o uso do remédio toma todo o seu tempo e energia. É como se o opioide “roubasse” os prazeres da vida.
Exemplos concretos:
– Ricardo adorava jogar futebol com os amigos todo sábado. Depois que começou a usar tramadol, passou a faltar aos jogos. Quando vai, não consegue correr ou se concentrar. Com o tempo, para de ir completamente.
– Fernanda sempre gostou de cozinhar e recebia amigos em casa para jantares. Ultimamente, não tem energia para cozinhar e inventa desculpas para não receber ninguém. Ela passa os fins de semana dormindo ou se recuperando dos efeitos do remédio.
– Pedro era um aluno dedicado e participava de vários projetos na faculdade. Depois que começou a usar codeína, parou de ir às reuniões dos projetos e perdeu o interesse em atividades extracurriculares. Seus colegas notam que ele está sempre cansado e desanimado.
Normal vs. Sintomático:
É normal mudar nossos interesses ao longo da vida. O problema acontece quando:
– Você abandona atividades que antes eram muito importantes para você
– Perde o interesse em coisas que antes davam prazer
– Usa o remédio como desculpa para não fazer outras coisas
8. Uso recorrente em situações nas quais isso representa perigo físico
O que significa: A pessoa usa o remédio em situações em que isso pode colocar sua vida ou a vida de outras pessoas em risco. É como se o desejo pelo remédio fosse mais forte do que o instinto de autopreservação.
Exemplos concretos:
– Marcos dirige depois de tomar tramadol, mesmo sabendo que o remédio causa sonolência. Ele já quase bateu o carro algumas vezes, mas continua dirigindo sob efeito.
– Ana opera máquinas pesadas no trabalho. Ela sabe que não deveria tomar codeína antes do expediente, mas faz isso mesmo assim. Um dia, quase machuca um colega porque não conseguiu se concentrar na máquina.
– Carlos toma morfina e decide nadar no mar. Ele sabe que o remédio pode causar tontura, mas acha que “não vai acontecer nada”. Acaba precisando ser resgatado porque quase se afogou.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo comete erros de julgamento às vezes. O problema acontece quando:
– Você coloca sua vida ou a vida de outras pessoas em risco repetidamente
– Ignora os avisos sobre os perigos do uso em determinadas situações
– Continua usando mesmo depois de ter tido experiências perigosas
9. Uso continuado apesar da consciência de ter um problema físico ou psicológico persistente que provavelmente foi causado ou exacerbado pelo opioide
O que significa: A pessoa sabe que o remédio está prejudicando sua saúde, mas continua usando mesmo assim. É como se o alívio imediato fosse mais importante do que as consequências a longo prazo.
Exemplos concretos:
– João sabe que o uso excessivo de tramadol está prejudicando seu fígado, mas continua tomando porque “a dor é pior do que qualquer problema no fígado”.
– Maria foi diagnosticada com depressão e o médico disse que a codeína pode estar piorando seus sintomas. Mesmo assim, ela continua usando porque “sem o remédio, a ansiedade é insuportável”.
– Carlos tem problemas de memória e concentração por causa do uso prolongado de opioides. Ele sabe que o remédio é a causa, mas não consegue parar porque “precisa dele para funcionar”.
Normal vs. Sintomático:
É normal querer alívio para a dor ou o desconforto. O problema acontece quando:
– Você sabe que o remédio está prejudicando sua saúde, mas continua usando
– Ignora os avisos médicos sobre os riscos do uso prolongado
– Prioriza o alívio imediato em detrimento da saúde a longo prazo
10. Tolerância
O que significa: Com o tempo, o corpo se acostuma com o remédio e a mesma dose já não faz o mesmo efeito. É como se o cérebro “aprendesse” a neutralizar os efeitos do opioide, exigindo doses cada vez maiores para obter o mesmo alívio.
Exemplos concretos:
– No começo, Ana tomava meio comprimido de codeína e a dor de cabeça passava. Depois de alguns meses, meio comprimido já não fazia efeito. Ela aumentou para um comprimido inteiro, mas agora até dois comprimidos não resolvem.
– Pedro começou tomando 50mg de tramadol para dor nas costas. Com o tempo, 50mg já não aliviavam. Ele aumentou para 100mg, depois 150mg. Agora, toma 200mg e ainda sente dor.
– Carla usava morfina no hospital depois de uma cirurgia. No começo, uma dose pequena era suficiente. Depois de alguns dias, precisava de doses cada vez maiores para obter o mesmo alívio.
Como a tolerância se manifesta:
– A mesma dose já não faz efeito
– Você precisa aumentar a dose para obter o mesmo alívio
– Os efeitos colaterais (como sonolência) diminuem com o tempo
Normal vs. Sintomático:
É normal que o corpo se adapte a qualquer substância com o tempo. O problema acontece quando:
– Você precisa aumentar a dose constantemente para obter o mesmo efeito
– A dose que você usa agora é muito maior do que a dose inicial
– Você sente que “nada mais funciona” além do remédio
11. Abstinência
O que significa: Quando a pessoa para de usar o remédio ou reduz a dose, o corpo reage com sintomas físicos e emocionais desagradáveis. É como se o cérebro “entrasse em pânico” porque está acostumado com a presença do opioide.
Exemplos concretos:
– Ana decide parar de tomar codeína depois de meses de uso diário. No segundo dia sem o remédio, começa a sentir dores no corpo, calafrios, náusea e uma ansiedade tão forte que não consegue ficar parada.
– Pedro tenta reduzir a dose de tramadol, mas no terceiro dia sem o remédio, começa a ter diarreia, suor frio e uma sensação de desespero. Ele não consegue dormir e passa a noite inteira andando de um lado para o outro.
– Carlos é internado no hospital e não pode levar seus opioides. No primeiro dia, começa a sentir um mal-estar geral. No segundo, tem febre, dores musculares e uma irritabilidade tão grande que briga com a equipe médica.
Sintomas comuns de abstinência:
– Físicos: Dores no corpo, calafrios, suor frio, febre, náusea, vômito, diarreia, bocejos frequentes, coriza, lacrimejamento, pupilas dilatadas
– Emocionais: Ansiedade, irritabilidade, agitação, insônia, depressão, sensação de desespero
– Cognitivos: Dificuldade de concentração, pensamentos obsessivos sobre o remédio
Normal vs. Sintomático:
É normal sentir algum desconforto quando paramos de usar qualquer substância que estamos acostumados. O problema acontece quando:
– Os sintomas são intensos e interferem na sua capacidade de funcionar
– Você sente que “não consegue viver” sem o remédio
– Os sintomas duram vários dias e não melhoram com o tempo
Importante: Ter um ou dois desses sintomas isoladamente não significa que você tenha um transtorno por uso de opioides. O diagnóstico é feito quando vários desses sintomas ocorrem juntos, por um período prolongado (pelo menos 12 meses), e causam sofrimento significativo ou prejuízo na vida da pessoa. Além disso, é fundamental que um profissional de saúde avalie o caso, pois alguns sintomas podem ser causados por outras condições médicas ou psiquiátricas.
Como se manifesta no dia a dia?
Os transtornos devidos ao uso de opioides não afetam apenas a relação da pessoa com o remédio – eles transformam toda a rotina, os relacionamentos e até a forma como a pessoa se vê. Vamos explorar como essa condição se manifesta em diferentes áreas da vida.
No trabalho ou na escola
Imagine que você está tentando assistir a um filme com o som muito baixo. Você aumenta o volume, mas depois de alguns minutos, já não consegue ouvir direito de novo. Você aumenta mais um pouco, e o ciclo se repete. No trabalho ou na escola, o uso de opioides funciona de forma parecida: a pessoa começa precisando de pequenas doses para “funcionar”, mas com o tempo, precisa de quantidades cada vez maiores para manter o mesmo desempenho.
Exemplos concretos:
– Falta de concentração: Marcos é contador e sempre foi muito organizado. Depois que começou a usar tramadol diariamente, percebe que não consegue mais se concentrar nos números. Ele passa horas olhando para a tela do computador sem conseguir fazer as contas. Seus colegas começam a notar que ele está cometendo erros bobos.
– Atrasos e faltas: Ana é enfermeira e costumava chegar sempre no horário. Ultimamente, tem chegado atrasada várias vezes porque passa a noite acordada, usando codeína. Quando chega no trabalho, está tão sonolenta que mal consegue ficar de pé. Sua chefe já chamou sua atenção algumas vezes.
– Queda no desempenho: Pedro é estudante de medicina e sempre foi um dos melhores da turma. Depois que começou a usar opioides para dores de cabeça, suas notas começaram a cair. Ele falta às aulas com frequência e, quando vai, não consegue acompanhar a matéria. Seus colegas percebem que ele está sempre cansado e desanimado.
– Problemas com colegas: Carla trabalha em um escritório e costumava ser muito sociável. Depois que começou a usar opioides, passou a evitar os colegas. Quando eles a convidam para almoçar, ela inventa desculpas. Às vezes, fica irritada sem motivo aparente, o que causa conflitos no trabalho.
Sinais de alerta no ambiente profissional:
– Dificuldade para cumprir prazos
– Erros frequentes em tarefas que antes eram feitas com facilidade
– Isolamento dos colegas
– Mudanças repentinas de humor
– Cheiro de remédio ou hálito estranho
– Tremores nas mãos ou dificuldade para escrever
Nos relacionamentos
Os opioides podem criar uma espécie de “barreira invisível” entre a pessoa e seus entes queridos. É como se o remédio se tornasse o relacionamento mais importante, empurrando para segundo plano as pessoas que antes eram centrais na vida da pessoa.
Exemplos concretos:
– Brigas frequentes: João e sua esposa sempre tiveram um relacionamento tranquilo. Depois que ele começou a usar tramadol, passaram a brigar constantemente. Ela reclama que ele está sempre cansado e desatento. Ele fica irritado quando ela questiona seu uso do remédio. As brigas se tornam cada vez mais frequentes e intensas.
– Isolamento: Maria costumava sair com os amigos todo fim de semana. Depois que começou a usar codeína, passou a inventar desculpas para não sair. Quando os amigos a convidam, ela diz que está cansada ou que não está se sentindo bem. Com o tempo, eles param de convidá-la.
– Desconfiança: Carlos sempre foi muito próximo de sua família. Depois que começou a usar opioides, passou a mentir sobre onde estava e o que estava fazendo. Seus pais começam a desconfiar e revistam seu quarto, encontrando remédios escondidos. Ele fica furioso e acusa-os de não confiarem nele.
– Negligência: Ana é mãe de dois filhos pequenos. Antes, ela brincava com eles e os ajudava nas tarefas escolares. Agora, passa boa parte do dia deitada, se recuperando dos efeitos do remédio. As crianças começam a reclamar que ela não brinca mais com eles, e o marido precisa assumir todas as tarefas domésticas.
Como os relacionamentos são afetados:
– Família: Os familiares podem se sentir traídos, preocupados ou frustrados. Muitas vezes, não entendem o que está acontecendo e podem culpar a pessoa ou a si mesmos.
– Amigos: Os amigos podem se afastar por não entenderem as mudanças de comportamento. Alguns podem tentar ajudar, mas não saber como.
– Parceiros: O relacionamento amoroso pode se tornar tenso, com brigas frequentes e falta de intimidade. O parceiro pode se sentir sozinho e sobrecarregado.
Na rotina
A rotina de uma pessoa com transtorno por uso de opioides muitas vezes gira em torno do remédio. É como se o dia fosse dividido em três partes: antes do remédio (ansiedade e desconforto), depois do remédio (alívio temporário) e a recuperação dos efeitos (cansaço e mal-estar).
Exemplos concretos:
– Sono: Ricardo costumava dormir bem, mas depois que começou a usar tramadol, seu sono ficou desregulado. Às vezes, passa a noite inteira acordado, usando o remédio. Outras vezes, dorme o dia todo para se recuperar dos efeitos.
– Alimentação: Fernanda sempre gostou de cozinhar, mas agora não tem energia para preparar refeições. Ela passa dias comendo apenas lanches rápidos ou pedindo delivery. Seu peso oscila muito, e ela não se importa mais com uma alimentação saudável.
– Higiene pessoal: Pedro sempre foi vaidoso, mas depois que começou a usar codeína, parou de se cuidar. Ele passa dias sem tomar banho ou escovar os dentes. Suas roupas estão sempre amassadas, e ele não se importa mais com sua aparência.
– Lazer: Ana adorava ler e ir ao cinema. Depois que começou a usar opioides, perdeu o interesse nessas atividades. Agora, passa os fins de semana dormindo ou assistindo à TV sem prestar atenção.
– Finanças: Carlos gastava seu dinheiro com viagens e hobbies. Depois que começou a usar opioides, passou a gastar tudo com remédios. Ele pede empréstimos para amigos, atrasa contas e até vende alguns pertences para comprar mais comprimidos.
Como a rotina é transformada:
– Antes do diagnóstico: A pessoa tinha uma rotina estruturada, com horários para trabalho, lazer, alimentação e sono.
– Depois do diagnóstico: A rotina se torna caótica, com horários irregulares e atividades abandonadas. O foco principal passa a ser conseguir e usar o remédio.
Na saúde física
Os opioides não afetam apenas a mente – eles têm um impacto profundo no corpo. É como se o remédio criasse uma “dívida” física que precisa ser paga com juros altos.
Exemplos concretos:
– Problemas digestivos: João sempre teve uma digestão normal, mas depois que começou a usar tramadol, passou a ter prisão de ventre constante. Às vezes, fica dias sem ir ao banheiro, o que causa dores abdominais e inchaço.
– Sistema imunológico: Maria costumava ser saudável, mas depois que começou a usar codeína, passou a ficar doente com frequência. Ela pega resfriados, gripes e infecções com mais facilidade.
– Dores crônicas: Carlos começou a usar opioides para dores nas costas. Com o tempo, as dores pioraram, e ele precisou aumentar a dose. Agora, sente dores em todo o corpo, mesmo quando não está usando o remédio.
– Problemas respiratórios: Ana sempre teve pulmões saudáveis, mas depois que começou a usar opioides, passou a ter dificuldade para respirar. Às vezes, sente que “falta ar” mesmo quando está parada.
– Problemas hormonais: Pedro sempre teve um apetite normal, mas depois que começou a usar opioides, perdeu o interesse em comida. Ele emagreceu muito e passou a ter problemas de ereção.
Sinais físicos comuns:
– Constipação intestinal
– Náusea e vômitos
– Perda ou ganho de peso
– Dores musculares
– Fadiga constante
– Problemas de pele (coceira, erupções)
– Diminuição da libido
– Irregularidades menstruais (em mulheres)
O que causa essa condição?
Imagine que o cérebro é como um jardim. Quando nascemos, esse jardim está cheio de possibilidades – algumas plantas crescem mais facilmente, outras precisam de mais cuidado. Os opioides são como uma semente estranha que cai nesse jardim. Para algumas pessoas, essa semente não germina. Para outras, ela cresce rápido e toma conta de todo o espaço, sufocando as outras plantas.
Os transtornos devidos ao uso de opioides não têm uma única causa. Eles são o resultado de uma combinação complexa de fatores genéticos, neurobiológicos, ambientais e psicológicos. Vamos entender cada um deles.
Fatores genéticos
Algumas pessoas nascem com uma predisposição genética para desenvolver transtornos por uso de substâncias. Isso não significa que elas vão desenvolver o problema com certeza, mas que têm uma maior vulnerabilidade.
Como funciona:
– Imagine que o cérebro é como um carro. Algumas pessoas nascem com um motor que “gosta” mais de certas substâncias. Para elas, os opioides podem causar uma sensação de prazer mais intensa do que para outras pessoas.
– Estudos com gêmeos mostram que se um gêmeo idêntico tem transtorno por uso de opioides, o outro tem uma chance muito maior de desenvolver o mesmo problema do que se fossem gêmeos não idênticos.
– Não existe um “gene do vício”, mas sim uma combinação de vários genes que podem aumentar o risco.
Exemplo concreto:
João e Pedro são irmãos. João começou a usar opioides depois de uma cirurgia e desenvolveu um transtorno por uso. Pedro passou pela mesma cirurgia e usou os mesmos remédios, mas não teve problemas. Isso pode acontecer porque João tem uma predisposição genética que Pedro não tem.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Se meus pais tiveram problemas com álcool ou drogas, eu também vou ter.”
✅ Verdade: Ter histórico familiar aumenta o risco, mas não determina o futuro. Muitas pessoas com histórico familiar conseguem usar opioides de forma controlada ou evitar problemas com substâncias.
Fatores neurobiológicos
Os opioides agem diretamente no sistema de recompensa do cérebro, que é responsável por nos fazer sentir prazer e motivação. Com o tempo, eles podem “sequestrar” esse sistema, fazendo com que o cérebro passe a priorizar o remédio acima de tudo.
Como funciona:
– Imagine que o cérebro tem um “termômetro de prazer”. Quando fazemos algo bom (como comer, socializar ou ter relações sexuais), esse termômetro sobe um pouco. Os opioides fazem o termômetro subir muito, muito rápido.
– Com o tempo, o cérebro se acostuma com esse nível alto de prazer e passa a exigir mais opioides para sentir a mesma sensação.
– Além disso, os opioides interferem na produção de neurotransmissores como a dopamina e a serotonina, que são responsáveis pelo humor, motivação e sensação de bem-estar.
Exemplo concreto:
Maria começou a usar opioides para dores de cabeça. No começo, o remédio a fazia se sentir relaxada e feliz. Com o tempo, ela percebeu que só se sentia bem quando estava sob efeito do remédio. Quando não usava, sentia-se ansiosa, irritada e deprimida.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Os opioides são seguros porque são receitados por médicos.”
✅ Verdade: Mesmo os opioides receitados podem causar dependência, especialmente quando usados por longos períodos ou em doses altas. Eles são seguros quando usados conforme a orientação médica, mas podem ser perigosos quando usados de forma inadequada.
Fatores ambientais
O ambiente em que vivemos pode aumentar ou diminuir o risco de desenvolver um transtorno por uso de opioides. Fatores como estresse, trauma, acesso fácil aos remédios e influência social desempenham um papel importante.
Como funciona:
– Estresse e trauma: Pessoas que passaram por situações estressantes ou traumáticas (como abuso, violência ou perda de um ente querido) têm maior risco de desenvolver problemas com substâncias. Os opioides podem ser usados como uma forma de “automedicação” para aliviar a dor emocional.
– Acesso fácil: Pessoas que têm acesso fácil a opioides (como profissionais da saúde ou pessoas com dores crônicas) têm maior risco de desenvolver problemas.
– Influência social: Se uma pessoa convive com outras que usam opioides de forma recreativa, ela pode ser influenciada a experimentar.
Exemplos concretos:
– Ana é enfermeira e tem acesso fácil a opioides no hospital. Depois de um divórcio difícil, ela começou a usar codeína para aliviar a ansiedade. Com o tempo, desenvolveu um transtorno por uso.
– Pedro cresceu em uma família onde o uso de remédios para qualquer desconforto era comum. Quando começou a sentir dores nas costas, usou opioides sem questionar, e acabou desenvolvendo dependência.
– Carlos passou por um trauma na infância e sempre teve dificuldade para lidar com emoções intensas. Quando descobriu que os opioides aliviavam sua ansiedade, começou a usá-los com frequência.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Pessoas que desenvolvem problemas com opioides são fracas ou sem força de vontade.”
✅ Verdade: O transtorno por uso de opioides é uma condição médica, não uma falha de caráter. Fatores como genética, ambiente e neurobiologia desempenham um papel muito maior do que a força de vontade.
Fatores psicológicos
Algumas características psicológicas podem aumentar o risco de desenvolver um transtorno por uso de opioides. Pessoas com certos traços de personalidade ou transtornos mentais têm maior vulnerabilidade.
Como funciona:
– Impulsividade: Pessoas impulsivas tendem a agir sem pensar nas consequências, o que pode levar ao uso excessivo de opioides.
– Busca por novidades: Pessoas que gostam de correr riscos ou experimentar coisas novas podem ser mais propensas a usar opioides de forma recreativa.
– Transtornos mentais: Pessoas com depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático têm maior risco de desenvolver problemas com substâncias, pois podem usar os opioides como uma forma de aliviar os sintomas.
Exemplos concretos:
– João sempre foi impulsivo e gostava de correr riscos. Quando descobriu que os opioides causavam uma sensação de euforia, começou a usá-los de forma recreativa. Com o tempo, desenvolveu dependência.
– Maria tem depressão e descobriu que a codeína aliviava temporariamente sua tristeza. Ela começou a usar o remédio com frequência, e acabou desenvolvendo um transtorno por uso.
– Carlos tem transtorno de ansiedade e usava opioides para aliviar seus sintomas. Com o tempo, passou a precisar de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Pessoas com transtornos mentais são mais fracas e por isso desenvolvem problemas com substâncias.”
✅ Verdade: Transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias são condições médicas complexas. Ter um transtorno mental aumenta o risco de desenvolver problemas com substâncias, mas isso não tem nada a ver com força ou fraqueza.
Modelo biopsicossocial
Os transtornos devidos ao uso de opioides são melhor entendidos através do modelo biopsicossocial, que considera a interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais.
Como funciona:
– Biológico: Genética, neurobiologia, saúde física.
– Psicológico: Personalidade, transtornos mentais, experiências de vida.
– Social: Ambiente familiar, influência dos pares, acesso a substâncias, cultura.
Exemplo concreto:
Ana desenvolveu um transtorno por uso de opioides depois de uma cirurgia. Vamos analisar os fatores envolvidos:
– Biológico: Ela tem histórico familiar de dependência química (pai alcoólatra).
– Psicológico: Sempre foi ansiosa e perfeccionista, o que a levou a usar mais remédio do que o necessário para “funcionar melhor”.
– Social: Seu marido também usa opioides para dores crônicas, o que normalizou o uso em casa.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “O vício é uma escolha, e a pessoa só precisa querer parar.”
✅ Verdade: O transtorno por uso de opioides é uma condição médica complexa que envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. Parar de usar não é apenas uma questão de força de vontade – requer tratamento e apoio.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de transtorno por uso de opioides pode ser um momento de alívio para algumas pessoas – finalmente há uma explicação para o que estão vivendo. Para outras, pode ser assustador ou até mesmo negado. Independentemente da reação inicial, o diagnóstico é o primeiro passo para entender o problema e buscar ajuda.
O processo de avaliação
Imagine que o diagnóstico é como montar um quebra-cabeça. O médico vai juntar várias peças – sua história, seus sintomas, exames e observações – para formar uma imagem completa do que está acontecendo.
Passo a passo da avaliação:
- Primeira consulta:
- O médico vai começar fazendo perguntas sobre sua história de vida, saúde geral e uso de substâncias.
- É importante ser honesto. Não há julgamento – o objetivo é entender o que está acontecendo para poder ajudar.
-
Perguntas comuns:
- Quando você começou a usar opioides?
- Como era seu uso no começo e como é agora?
- Você já tentou parar ou reduzir? Como foi?
- Como o uso afeta sua vida (trabalho, relacionamentos, saúde)?
- Você sente vontade intensa de usar (fissura)?
- Já teve sintomas de abstinência?
-
Avaliação dos sintomas:
- O médico vai verificar se você atende aos critérios diagnósticos que explicamos na seção “Quais são os sintomas?”.
-
Ele pode usar questionários padronizados para avaliar a gravidade do problema.
-
Exames físicos e laboratoriais:
- Exame de urina: pode detectar a presença de opioides e outras substâncias.
- Exames de sangue: para verificar a saúde do fígado, rins e outros órgãos que podem ser afetados pelo uso de opioides.
-
Exames de imagem (como ressonância magnética): em alguns casos, para verificar se há danos no cérebro.
-
Avaliação de outros transtornos mentais:
- Muitas pessoas com transtorno por uso de opioides também têm outros transtornos mentais, como depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático.
-
O médico vai avaliar se há outros problemas que precisam ser tratados junto com o transtorno por uso de opioides.
-
Conversa com familiares:
- Em alguns casos, o médico pode pedir para conversar com familiares ou pessoas próximas para obter mais informações.
- Isso não é feito sem sua permissão, e o objetivo é entender melhor como o uso de opioides está afetando sua vida.
Quanto tempo leva?
– A avaliação inicial geralmente leva de 1 a 3 consultas.
– Em casos mais complexos, pode levar algumas semanas para o médico ter uma visão completa do problema.
Quem pode diagnosticar?
No Brasil, vários profissionais de saúde podem fazer o diagnóstico de transtorno por uso de opioides:
- Psiquiatras: Médicos especializados em saúde mental. Eles podem diagnosticar e prescrever medicamentos.
- Psicólogos: Profissionais que podem avaliar os sintomas psicológicos e comportamentais, mas não podem prescrever medicamentos.
- Clínicos gerais: Médicos que podem fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um especialista.
- Equipes dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): No SUS, os CAPS AD (Álcool e Drogas) têm equipes multidisciplinares que podem fazer o diagnóstico e oferecer tratamento.
SUS vs. Particular:
– SUS: O diagnóstico e tratamento são gratuitos. Você pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um CAPS AD. O tempo de espera pode variar dependendo da região.
– Particular: O diagnóstico é feito por psiquiatras ou clínicos gerais. O custo varia, mas muitos planos de saúde cobrem as consultas.
O que esperar da primeira consulta?
A primeira consulta pode ser um pouco assustadora, especialmente se você não sabe o que esperar. Vamos desmistificar esse momento.
Como se preparar:
– Anote suas dúvidas e preocupações antes da consulta.
– Tente lembrar quando começou a usar opioides, como era seu uso no começo e como é agora.
– Pense em como o uso afeta sua vida (trabalho, relacionamentos, saúde).
– Se possível, leve um familiar ou amigo de confiança.
O que o médico vai perguntar:
– História médica: doenças prévias, cirurgias, outros remédios que você usa.
– História familiar: se alguém na família tem problemas com substâncias ou transtornos mentais.
– Padrão de uso: quando começou, com que frequência usa, qual a dose, se já tentou parar.
– Sintomas: se sente fissura, se já teve abstinência, como o uso afeta sua vida.
– Saúde mental: se tem sintomas de depressão, ansiedade ou outros transtornos.
O que você pode perguntar:
– O que está acontecendo comigo?
– Quais são as opções de tratamento?
– Quanto tempo vai levar para eu me sentir melhor?
– O que posso fazer agora para começar a melhorar?
– Como posso explicar isso para minha família?
Dicas para a consulta:
– Seja honesto. Não minimize seus sintomas ou seu uso de opioides.
– Não tenha vergonha. O médico está ali para ajudar, não para julgar.
– Tire todas as suas dúvidas. Não saia da consulta com perguntas sem resposta.
– Se não se sentir à vontade com o médico, procure outro profissional.
Diagnóstico diferencial
Algumas condições podem ser confundidas com transtorno por uso de opioides, ou podem ocorrer junto com ele. O médico vai avaliar se seus sintomas são causados pelo uso de opioides ou por outra condição.
Condições que podem ser confundidas:
– Dor crônica: Algumas pessoas usam opioides para dores crônicas, mas não desenvolvem um transtorno por uso. O médico vai avaliar se o uso é proporcional à dor.
– Depressão: Os sintomas de depressão (tristeza, falta de energia, perda de interesse) podem ser confundidos com os efeitos do uso de opioides. O médico vai avaliar se a depressão é uma causa ou uma consequência do uso.
– Ansiedade: A ansiedade pode levar ao uso de opioides como forma de alívio, mas também pode ser um sintoma de abstinência.
– Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT): Pessoas com TEPT podem usar opioides para aliviar sintomas como pesadelos e flashbacks.
– Transtorno bipolar: As oscilações de humor do transtorno bipolar podem ser confundidas com os efeitos do uso de opioides.
– Transtornos de personalidade: Alguns transtornos de personalidade, como o borderline, podem envolver comportamentos impulsivos que incluem o uso de substâncias.
Como o médico diferencia:
– História clínica: O médico vai perguntar sobre seu histórico de uso de substâncias e sintomas.
– Exames: Exames de urina e sangue podem ajudar a confirmar o uso de opioides.
– Observação: O médico vai observar seus sintomas ao longo do tempo para ver se eles melhoram com a redução do uso de opioides.
– Resposta ao tratamento: Se seus sintomas melhoram com o tratamento para transtorno por uso de opioides, isso pode confirmar o diagnóstico.
Tratamento
Receber um diagnóstico de transtorno por uso de opioides pode ser um momento de muita ansiedade, mas também de esperança. Afinal, agora você sabe o que está acontecendo e pode começar a buscar ajuda. O tratamento é como uma jornada – pode ter altos e baixos, mas com o apoio certo, é possível recuperar o controle da sua vida.
Medicamentos
Os medicamentos são uma parte importante do tratamento, especialmente nos estágios iniciais. Eles podem ajudar a reduzir os sintomas de abstinência, diminuir a fissura e estabilizar o humor. Vamos entender como cada um funciona.
Metadona
O que é: A metadona é um opioide de ação prolongada que ajuda a reduzir os sintomas de abstinência e a fissura por outros opioides.
Como funciona:
– Imagine que seu cérebro é como um carro com o motor acelerado. Quando você para de usar opioides, o motor “desliga” de repente, causando sintomas de abstinência. A metadona é como um motor de arranque que ajuda a religar o motor de forma gradual.
– Ela age nos mesmos receptores que outros opioides, mas de forma mais lenta e controlada, evitando os “altos e baixos” que causam dependência.
Efeitos colaterais comuns:
– Sonolência
– Constipação
– Sudorese
– Ganho de peso
– Diminuição da libido
Dicas:
– A metadona é usada em programas de tratamento supervisionado, geralmente em clínicas especializadas.
– Não tente ajustar a dose por conta própria – isso pode ser perigoso.
– Combine o uso da metadona com outras formas de tratamento, como terapia.
Buprenorfina
O que é: A buprenorfina é um opioide parcial que ajuda a reduzir os sintomas de abstinência e a fissura, com menor risco de dependência do que outros opioides.
Como funciona:
– Imagine que os receptores de opioides no seu cérebro são como fechaduras. A buprenorfina é como uma chave que se encaixa na fechadura, mas não a abre completamente. Isso evita os efeitos intensos dos opioides, mas ainda alivia os sintomas de abstinência.
– Ela tem um “efeito teto”, o que significa que doses maiores não aumentam seus efeitos, reduzindo o risco de overdose.
Efeitos colaterais comuns:
– Dor de cabeça
– Náusea
– Constipação
– Insônia
– Sudorese
Dicas:
– A buprenorfina pode ser prescrita por médicos em consultório, o que facilita o acesso ao tratamento.
– Geralmente é combinada com naloxona (um bloqueador de opioides) para reduzir o risco de uso indevido.
– Assim como a metadona, deve ser usada como parte de um plano de tratamento mais amplo.
Naltrexona
O que é: A naltrexona é um bloqueador de opioides que ajuda a prevenir recaídas.
Como funciona:
– Imagine que os receptores de opioides no seu cérebro são como portas. A naltrexona é como um cadeado que impede que os opioides abram essas portas. Isso significa que, se você usar opioides enquanto estiver tomando naltrexona, não vai sentir os efeitos.
– Ela não causa dependência e não tem efeitos opioides, o que a torna uma opção segura para muitas pessoas.
Efeitos colaterais comuns:
– Náusea
– Dor de cabeça
– Fadiga
– Ansiedade
– Dificuldade para dormir
Dicas:
– A naltrexona só deve ser iniciada depois que a pessoa estiver livre de opioides por pelo menos 7-10 dias, para evitar sintomas de abstinência graves.
– É importante combinar o uso da naltrexona com terapia e outras formas de apoio.
– A naltrexona também está disponível em forma de implante ou injeção de longa duração, o que pode facilitar a adesão ao tratamento.
Outros medicamentos
- Clonidina: Ajuda a reduzir os sintomas de abstinência, como ansiedade, agitação e sudorese.
- Antidepressivos: Podem ser usados para tratar depressão ou ansiedade que ocorrem junto com o transtorno por uso de opioides.
- Estabilizadores de humor: Podem ser usados se a pessoa também tem transtorno bipolar.
Importante:
– Os medicamentos devem ser usados sob supervisão médica.
– Não pare de tomar os medicamentos sem orientação – isso pode causar sintomas de abstinência ou recaída.
– Combine o uso de medicamentos com outras formas de tratamento, como terapia e mudanças no estilo de vida.
Psicoterapia
A psicoterapia é uma parte fundamental do tratamento. Ela ajuda a entender as causas do uso de opioides, desenvolver estratégias para lidar com a fissura e reconstruir uma vida sem dependência. Vamos explorar as abordagens mais eficazes.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
O que é: A TCC é uma abordagem prática que ajuda a identificar e mudar padrões de pensamento e comportamento que contribuem para o uso de opioides.
Como funciona:
– Imagine que sua mente é como um jardim. Alguns pensamentos são como ervas daninhas que crescem sem controle e prejudicam as outras plantas. A TCC ajuda a identificar essas “ervas daninhas” (pensamentos negativos ou distorcidos) e substituí-las por pensamentos mais saudáveis.
– A terapia também ensina habilidades práticas para lidar com situações de risco, como evitar gatilhos e manejar a fissura.
O que acontece em uma sessão:
– O terapeuta vai ajudá-lo a identificar situações, pensamentos e emoções que levam ao uso de opioides.
– Vocês vão trabalhar juntos para desenvolver estratégias para lidar com essas situações de forma mais saudável.
– O terapeuta pode pedir que você faça “tarefas de casa”, como registrar seus pensamentos ou praticar técnicas de relaxamento.
Exemplo concreto:
João percebeu que sempre usava opioides quando se sentia estressado no trabalho. Com a ajuda da TCC, ele identificou que seu pensamento era: “Não consigo lidar com isso sem o remédio”. O terapeuta o ajudou a substituir esse pensamento por: “Posso lidar com isso usando técnicas de relaxamento e pedindo ajuda quando necessário”. João aprendeu a respirar fundo e a fazer pausas quando se sentia sobrecarregado, reduzindo a necessidade de usar opioides.
Dicas:
– A TCC geralmente dura de 12 a 20 sessões, mas pode ser mais longa dependendo das necessidades da pessoa.
– É importante praticar as habilidades aprendidas na terapia no dia a dia.
– A TCC pode ser feita individualmente ou em grupo.
Entrevista Motivacional
O que é: A entrevista motivacional é uma abordagem que ajuda a pessoa a encontrar sua própria motivação para mudar.
Como funciona:
– Imagine que você está em uma encruzilhada. De um lado, está o caminho que você conhece (o uso de opioides), mesmo que ele não seja bom para você. Do outro lado, está um caminho desconhecido (a mudança), que pode ser assustador. A entrevista motivacional ajuda você a explorar os dois caminhos e encontrar razões para escolher o caminho da mudança.
– O terapeuta usa técnicas como perguntas abertas, escuta reflexiva e feedback para ajudar a pessoa a resolver sua ambivalência e encontrar motivação interna para mudar.
O que acontece em uma sessão:
– O terapeuta vai perguntar sobre suas motivações para mudar e suas preocupações sobre o processo.
– Vocês vão explorar os prós e contras de continuar usando opioides e de parar.
– O terapeuta vai ajudá-lo a identificar seus valores e objetivos de vida, e como a mudança pode ajudá-lo a alcançá-los.
Exemplo concreto:
Maria estava em dúvida sobre parar de usar opioides. Ela gostava do alívio que o remédio proporcionava, mas sabia que estava prejudicando sua saúde e seus relacionamentos. O terapeuta perguntou: “O que é mais importante para você na vida?”. Maria respondeu: “Minha família e minha saúde”. O terapeuta então perguntou: “Como o uso de opioides está afetando essas coisas?”. Maria percebeu que o remédio estava afastando-a da família e prejudicando sua saúde, e decidiu que valia a pena tentar parar.
Dicas:
– A entrevista motivacional geralmente dura de 1 a 4 sessões, mas pode ser mais longa se necessário.
– É importante ser honesto com o terapeuta sobre suas dúvidas e preocupações.
– A entrevista motivacional pode ser combinada com outras abordagens terapêuticas.
Terapia de Prevenção de Recaída
O que é: A terapia de prevenção de recaída é uma abordagem que ajuda a pessoa a identificar e lidar com situações de alto risco para recaída.
Como funciona:
– Imagine que você está aprendendo a dirigir. No começo, é normal cometer erros e quase bater o carro. Com o tempo, você aprende a antecipar os perigos e a dirigir com mais segurança. A terapia de prevenção de recaída é como um “treinamento de direção” para a vida sem opioides.
– A terapia ajuda a identificar gatilhos (situações, pessoas ou emoções que aumentam a vontade de usar), desenvolver estratégias para lidar com eles e criar um plano de prevenção de recaída.
O que acontece em uma sessão:
– O terapeuta vai ajudá-lo a identificar seus gatilhos pessoais para o uso de opioides.
– Vocês vão trabalhar juntos para desenvolver estratégias para lidar com esses gatilhos, como evitar situações de risco, usar técnicas de relaxamento ou buscar apoio social.
– O terapeuta vai ajudá-lo a criar um plano de prevenção de recaída, que inclui passos a seguir se você sentir vontade de usar.
Exemplo concreto:
Carlos percebeu que sempre usava opioides quando saía com um grupo de amigos que também usava. Com a ajuda da terapia de prevenção de recaída, ele identificou que esses amigos eram um gatilho importante. Ele decidiu evitar sair com eles por um tempo e procurou novas atividades sociais, como um grupo de corrida. Quando sentia vontade de usar, ligava para um amigo de confiança ou praticava técnicas de respiração.
Dicas:
– A terapia de prevenção de recaída geralmente dura de 12 a 20 sessões, mas pode ser mais longa se necessário.
– É importante praticar as estratégias aprendidas na terapia no dia a dia.
– Ter um plano de prevenção de recaída por escrito pode ser útil em momentos de crise.
Terapia Familiar
O que é: A terapia familiar envolve a família no processo de tratamento, ajudando a melhorar a comunicação, resolver conflitos e criar um ambiente de apoio.
Como funciona:
– Imagine que sua família é como uma equipe. Quando um membro da equipe está com problemas, isso afeta todo o time. A terapia familiar ajuda a equipe a trabalhar junta para apoiar o membro que está passando por dificuldades.
– A terapia pode ajudar a família a entender o transtorno por uso de opioides, desenvolver estratégias para apoiar a recuperação e lidar com seus próprios sentimentos.
O que acontece em uma sessão:
– O terapeuta vai conversar com a família sobre como o transtorno por uso de opioides está afetando cada membro.
– Vocês vão trabalhar juntos para melhorar a comunicação e resolver conflitos.
– O terapeuta vai ajudar a família a desenvolver estratégias para apoiar a recuperação, como estabelecer limites saudáveis e evitar comportamentos que possam facilitar o uso.
Exemplo concreto:
Ana estava em tratamento para transtorno por uso de opioides, e sua família estava muito envolvida. No começo, seus pais a criticavam constantemente, o que a deixava mais ansiosa e aumentava sua vontade de usar. Na terapia familiar, eles aprenderam a expressar suas preocupações de forma mais construtiva e a apoiar Ana sem julgamentos. Isso ajudou Ana a se sentir mais motivada para continuar o tratamento.
Dicas:
– A terapia familiar pode ser feita com toda a família ou com membros específicos, dependendo das necessidades.
– É importante que todos os membros da família estejam dispostos a participar e a fazer mudanças.
– A terapia familiar pode ser combinada com outras abordagens terapêuticas.
Mudanças no dia a dia
O tratamento não se resume a medicamentos e terapia – mudanças no estilo de vida também são fundamentais para a recuperação. Vamos explorar algumas estratégias que podem ajudar.
Exercício físico
Por que ajuda:
– O exercício libera endorfinas, que são substâncias naturais do cérebro que causam sensação de bem-estar. Isso pode ajudar a reduzir a fissura por opioides.
– O exercício também ajuda a melhorar o humor, reduzir a ansiedade e melhorar a qualidade do sono.
Quais tipos ajudam mais:
– Exercícios aeróbicos: Caminhada, corrida, natação, ciclismo. Esses exercícios ajudam a liberar endorfinas e melhorar o humor.
– Exercícios de força: Musculação, pilates, yoga. Esses exercícios ajudam a melhorar a autoestima e reduzir o estresse.
– Exercícios de relaxamento: Yoga, tai chi, meditação. Esses exercícios ajudam a reduzir a ansiedade e melhorar a concentração.
Dicas:
– Comece devagar. Não precisa correr uma maratona no primeiro dia – uma caminhada de 10 minutos já é um bom começo.
– Encontre uma atividade que você goste. Se não gosta de academia, experimente dança, natação ou artes marciais.
– Faça exercícios com outras pessoas. Isso pode tornar a atividade mais divertida e motivadora.
– Estabeleça metas realistas. Comece com metas pequenas e vá aumentando aos poucos.
Sono
Por que é importante:
– O sono é fundamental para a recuperação. Quando dormimos, nosso cérebro se recupera e se prepara para o dia seguinte.
– A falta de sono pode aumentar a ansiedade, a irritabilidade e a fissura por opioides.
Higiene do sono:
– Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana.
– Ambiente: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco. Use cortinas blackout, tampões de ouvido ou uma máquina de ruído branco se necessário.
– Relaxamento: Faça atividades relaxantes antes de dormir, como ler, tomar um banho quente ou ouvir música calma.
– Evite estimulantes: Evite cafeína, nicotina e álcool perto da hora de dormir.
– Tela: Evite telas (TV, celular, computador) pelo menos uma hora antes de dormir. A luz azul das telas pode interferir na produção de melatonina, o hormônio do sono.
Dicas:
– Se você tem dificuldade para dormir, tente técnicas de relaxamento, como respiração profunda ou meditação.
– Se os problemas de sono persistirem, converse com seu médico. Ele pode recomendar terapias ou medicamentos para ajudar.
Alimentação
Por que é importante:
– Uma alimentação saudável ajuda a melhorar o humor, aumentar a energia e reduzir a fissura por opioides.
– O uso prolongado de opioides pode causar problemas digestivos, como constipação, que podem ser aliviados com uma dieta rica em fibras.
O que a ciência diz:
– Fibras: Frutas, verduras, legumes, grãos integrais. As fibras ajudam a regular o intestino e melhorar a digestão.
– Proteínas: Carnes magras, ovos, leguminosas. As proteínas ajudam a manter a energia e a saciedade.
– Gorduras saudáveis: Abacate, nozes, azeite de oliva. As gorduras saudáveis ajudam a melhorar o humor e a função cerebral.
– Água: Beba bastante água ao longo do dia. A desidratação pode causar fadiga e aumentar a fissura por opioides.
Dicas:
– Faça refeições regulares. Pular refeições pode causar queda de energia e aumentar a fissura.
– Evite alimentos processados e ricos em açúcar. Eles podem causar picos de energia seguidos de quedas, o que pode aumentar a fissura.
– Se você tem dificuldade para cozinhar, experimente preparar refeições simples ou congelar porções para a semana.
Rotina
Por que é importante:
– Uma rotina estruturada ajuda a reduzir a ansiedade, aumentar a sensação de controle e diminuir a fissura por opioides.
– Quando temos uma rotina, nosso cérebro sabe o que esperar e se prepara para as atividades do dia, o que pode reduzir o estresse.
Como estruturar o dia:
– Manhã: Comece o dia com uma atividade relaxante, como meditação ou um café da manhã tranquilo. Isso ajuda a definir o tom para o resto do dia.
– Tarde: Inclua atividades que você goste e que o mantenham ocupado, como trabalho, estudo ou hobbies.
– Noite: Termine o dia com atividades relaxantes, como ler ou ouvir música. Evite atividades estimulantes perto da hora de dormir.
Dicas:
– Use uma agenda ou aplicativo para planejar seu dia. Isso pode ajudar a manter o foco e evitar a procrastinação.
– Inclua atividades prazerosas na sua rotina. Isso pode ajudar a reduzir a fissura e aumentar a motivação.
– Seja flexível. Nem sempre as coisas saem como planejado, e está tudo bem. O importante é ter uma estrutura geral para o dia.
Técnicas de manejo
Respiração profunda:
– A respiração profunda ajuda a reduzir a ansiedade e a fissura. Quando sentimos vontade de usar opioides, nosso corpo entra em modo de “luta ou fuga”, e a respiração profunda ajuda a acalmar o sistema nervoso.
– Como fazer: Inspire profundamente pelo nariz, enchendo os pulmões de ar. Segure por alguns segundos e expire lentamente pela boca. Repita por alguns minutos.
Meditação:
– A meditação ajuda a melhorar a concentração, reduzir o estresse e aumentar a sensação de bem-estar.
– Como fazer: Sente-se em um lugar tranquilo e concentre-se na sua respiração. Quando sua mente divagar, traga gentilmente o foco de volta para a respiração. Comece com alguns minutos por dia e vá aumentando aos poucos.
Visualização:
– A visualização é uma técnica que ajuda a reduzir a fissura e aumentar a motivação. Imagine-se em um lugar tranquilo e seguro, ou visualize-se alcançando seus objetivos.
– Como fazer: Feche os olhos e imagine um lugar que você goste, como uma praia ou uma floresta. Tente envolver todos os seus sentidos – o som das ondas, o cheiro do mar, a sensação do sol na pele. Fique nesse lugar por alguns minutos.
Distração:
– Quando sentir vontade de usar opioides, tente se distrair com uma atividade que exija concentração, como um jogo, um quebra-cabeça ou uma tarefa doméstica.
– Como fazer: Tenha uma lista de atividades que você gosta e que podem distraí-lo. Quando sentir fissura, escolha uma atividade da lista e se concentre nela.
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de transtorno por uso de opioides pode ser um momento de muitas emoções – alívio, medo, vergonha, esperança. É normal se sentir assim. O importante é lembrar que você não está sozinho e que há muitas pessoas e recursos disponíveis para ajudá-lo.
Para a pessoa com o diagnóstico
Aceitação:
– Aceitar o diagnóstico não significa se resignar a ele. Pelo contrário, é o primeiro passo para tomar o controle da sua vida.
– Imagine que você está em um barco à deriva no mar. Aceitar o diagnóstico é como encontrar um remo – agora você pode começar a remar na direção que quiser.
Autocompaixão:
– Seja gentil consigo mesmo. Você está passando por um momento difícil, e é normal ter altos e baixos.
– Imagine que um amigo está passando pelo mesmo que você. O que você diria a ele? Provavelmente algo como: “Você está fazendo o seu melhor, e isso já é suficiente”. Diga isso a si mesmo.
Pequenos passos:
– A recuperação é uma jornada, não uma corrida. Não tente mudar tudo de uma vez – comece com pequenos passos.
– Imagine que você está escalando uma montanha. Não tente chegar ao topo de uma vez – concentre-se em dar um passo de cada vez.
Rede de apoio:
– Não tente fazer tudo sozinho. Busque apoio de amigos, familiares, grupos de apoio e profissionais de saúde.
– Imagine que você está em uma floresta escura. Ter uma rede de apoio é como ter uma lanterna – ela ilumina o caminho e ajuda a encontrar a saída.
Celebre as vitórias:
– Celebre cada pequena vitória, como um dia sem usar opioides, uma sessão de terapia ou uma conversa difícil que você conseguiu ter.
– Imagine que você está construindo um castelo de areia. Cada pequena vitória é como um balde de areia – sozinho, não parece muito, mas juntos, eles formam algo grandioso.
Para familiares e amigos
Educação:
– Aprenda sobre o transtorno por uso de opioides. Quanto mais você souber, melhor poderá ajudar.
– Imagine que você está em um país estrangeiro. Aprender sobre o transtorno é como aprender o idioma local – isso ajuda a se comunicar melhor e a entender o que está acontecendo.
Comunicação:
– Converse com a pessoa de forma aberta e sem julgamentos. Evite críticas e acusações.
– Imagine que você está falando com alguém que está aprendendo a nadar. Você não vai gritar ou criticar – vai oferecer apoio e encorajamento.
Limites:
– Estabeleça limites saudáveis. É importante apoiar, mas também é importante cuidar de si mesmo.
– Imagine que você está em um avião. Em caso de emergência, você precisa colocar sua máscara de oxigênio antes de ajudar os outros. Cuidar de si mesmo é como colocar sua máscara – isso garante que você terá energia para ajudar.
Evite comportamentos facilitadores:
– Não cubra as consequências do uso de opioides. É importante que a pessoa enfrente as consequências de suas ações para que possa aprender e mudar.
– Imagine que você está ensinando uma criança a andar de bicicleta. Se você segurar a bicicleta o tempo todo, ela nunca vai aprender a se equilibrar sozinha. Deixar a pessoa enfrentar as consequências é como soltar a bicicleta – pode ser assustador no começo, mas é necessário para o aprendizado.
Cuide de si mesmo:
– Apoiar alguém com transtorno por uso de opioides pode ser desgastante. Não se esqueça de cuidar de sua própria saúde física e mental.
– Imagine que você está em uma maratona. Se não se hidratar e descansar, não vai conseguir chegar ao fim. Cuidar de si mesmo é como se hidratar durante a corrida – isso garante que você terá energia para continuar.
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações podem aumentar o risco de recaída ou piorar os sintomas. É importante estar atento a esses gatilhos e desenvolver estratégias para lidar com eles.
Situações de risco:
– Estresse: Situações estressantes, como problemas no trabalho ou na família, podem aumentar a fissura por opioides.
– Ambientes de uso: Estar em lugares onde você costumava usar opioides pode desencadear memórias e aumentar a vontade de usar.
– Pessoas que usam: Estar perto de pessoas que usam opioides pode ser um gatilho forte.
– Emoções intensas: Sentimentos como tristeza, raiva ou ansiedade podem aumentar a fissura.
– Tédio: A falta de atividades pode deixar a mente livre para pensar em usar opioides.
Estratégias para lidar:
– Plano de prevenção de recaída: Tenha um plano por escrito com estratégias para lidar com situações de risco. Isso pode incluir técnicas de relaxamento, atividades de distração e números de telefone de pessoas de apoio.
– Evite gatilhos: Se possível, evite situações, lugares e pessoas que desencadeiam a fissura.
– Busque apoio: Converse com seu terapeuta, médico ou grupo de apoio sobre suas dificuldades.
– Pratique o autocuidado: Cuide de sua saúde física e mental. Isso inclui alimentação saudável, exercício físico, sono adequado e atividades prazerosas.
Perguntas frequentes
1. “Eu só uso opioides quando estou com dor. Isso é um problema?”
Usar opioides para aliviar a dor não é necessariamente um problema, especialmente se você está seguindo a prescrição médica. O transtorno por uso de opioides é diagnosticado quando o uso começa a causar problemas na sua vida, como dificuldade para cumprir obrigações, problemas nos relacionamentos ou uso em situações de risco.
Sinais de alerta:
– Você está usando mais do que foi prescrito.
– Você sente vontade intensa de usar, mesmo quando não está com dor.
– Você está tendo problemas no trabalho, na escola ou em casa por causa do uso.
– Você está usando opioides para lidar com emoções, como ansiedade ou tristeza.
Se você reconhece algum desses sinais, converse com seu médico. Ele pode ajudar a avaliar se o uso está se tornando problemático e sugerir alternativas para o manejo da dor.
2. “Eu tentei parar várias vezes e não consegui. Isso significa que sou fraco?”
Não. O transtorno por uso de opioides é uma condição médica complexa que envolve mudanças no cérebro, fatores genéticos e ambientais. Não conseguir parar sozinho não tem nada a ver com força ou fraqueza – tem a ver com a natureza da dependência.
Imagine que você está tentando escalar uma montanha muito íngreme. Não importa o quanto você tente, sempre escorrega de volta. Isso não significa que você é fraco – significa que a montanha é muito difícil de escalar sozinho. Com a ajuda certa (como um guia experiente e equipamentos adequados), você pode chegar ao topo.
3. “Os medicamentos usados no tratamento não são apenas substitutos? Eu não vou ficar dependente deles?”
Os medicamentos usados no tratamento, como a metadona e a buprenorfina, são opioides, mas são usados de forma controlada e supervisionada para ajudar na recuperação. Eles não são “substitutos” no sentido de perpetuar a dependência – pelo contrário, eles ajudam a estabilizar o cérebro e reduzir a fissura, permitindo que você se concentre em outras áreas da sua vida.
Imagine que você está tentando consertar um vazamento em um cano. Se você simplesmente tampar o vazamento com as mãos, não vai conseguir fazer mais nada. Mas se usar uma fita adesiva para tampar temporariamente, pode consertar o cano de forma permanente. Os medicamentos são como essa fita adesiva – eles ajudam a estabilizar a situação para que você possa fazer as mudanças necessárias.
4. “Quanto tempo leva para eu me sentir melhor?”
A recuperação é um processo gradual, e o tempo varia de pessoa para pessoa. Algumas pessoas começam a se sentir melhor em algumas semanas, enquanto outras podem levar meses ou até anos.
Imagine que você está plantando uma árvore. No começo, você não vê muita diferença – a semente está debaixo da terra, e parece que nada está acontecendo. Mas com o tempo, a árvore começa a crescer, e você vê os primeiros brotos. A recuperação é como esse processo – pode levar tempo, mas aos poucos, você vai ver os resultados.
O que esperar:
– Primeiras semanas: Os sintomas de abstinência podem ser intensos, mas geralmente melhoram após algumas semanas.
– Primeiros meses: Você pode começar a se sentir mais estável, com menos fissura e mais energia.
– Longo prazo: Com o tempo, você vai reconstruir sua vida, desenvolver novos interesses e melhorar seus relacionamentos.
5. “Eu tenho vergonha de contar para minha família. Como posso explicar?”
É normal sentir vergonha ou medo de contar para a família. Lembre-se de que o transtorno por uso de opioides é uma condição médica, não uma falha de caráter. Sua família provavelmente vai ficar preocupada, mas também vai querer ajudar.
Como explicar:
– Escolha o momento certo: Escolha um momento em que todos estejam calmos e disponíveis para conversar.
– Seja honesto: Explique o que está acontecendo de forma clara e direta. Evite minimizar ou exagerar.
– Use linguagem simples: Explique que o transtorno por uso de opioides é uma condição médica, como diabetes ou hipertensão.
– Fale sobre o tratamento: Explique que você está buscando ajuda e que há tratamento disponível.
– Peça apoio: Deixe claro que você precisa do apoio da família para se recuperar.
Exemplo de como começar:
“Eu preciso conversar com vocês sobre algo importante. Eu tenho usado opioides de uma forma que está me causando problemas, e fui diagnosticado com transtorno por uso de opioides. Isso é uma condição médica, como diabetes ou hipertensão, e estou buscando tratamento. Eu preciso do apoio de vocês para me recuperar.”
6. “E se eu recair?”
A recaída faz parte do processo de recuperação para muitas pessoas. Ela não significa que você falhou – significa que você está aprendendo e que precisa ajustar seu plano de tratamento.
Imagine que você está aprendendo a andar de bicicleta. No começo, é normal cair algumas vezes. Cada queda é uma oportunidade de aprender e melhorar. A recaída é como uma queda – ela não apaga todo o progresso que você já fez.
O que fazer em caso de recaída:
– Não se culpe: A recaída não é um fracasso – é uma parte do processo de aprendizagem.
– Busque apoio: Converse com seu terapeuta, médico ou grupo de apoio. Eles podem ajudar a entender o que aconteceu e ajustar seu plano de tratamento.
– Analise o que aconteceu: Tente identificar o que desencadeou a recaída. Isso pode ajudar a evitar situações semelhantes no futuro.
– Volte ao tratamento: Não desista. Volte ao seu plano de tratamento e continue de onde parou.
7. “Como posso ajudar um familiar que não quer tratamento?”
Ajudar um familiar que não quer tratamento pode ser muito difícil e frustrante. É importante lembrar que você não pode forçar alguém a mudar – a decisão de buscar ajuda precisa vir da própria pessoa.
O que você pode fazer:
– Eduque-se: Aprenda sobre o transtorno por uso de opioides para entender melhor o que seu familiar está passando.
– Comunique-se: Converse com seu familiar de forma aberta e sem julgamentos. Evite críticas e acusações.
– Estabeleça limites: É importante apoiar, mas também é importante cuidar de si mesmo. Estabeleça limites saudáveis e evite comportamentos que possam facilitar o uso.
– Ofereça apoio: Deixe claro que você está disponível para ajudar quando ele estiver pronto. Ofereça-se para acompanhá-lo a consultas ou grupos de apoio.
– Cuide de si mesmo: Apoiar alguém com transtorno por uso de opioides pode ser desgastante. Não se esqueça de cuidar de sua própria saúde física e mental.
O que não fazer:
– Não tente controlar ou forçar a pessoa a parar de usar.
– Não cubra as consequências do uso de opioides.
– Não se culpe pelo comportamento da pessoa.
8. “O tratamento é caro? Como funciona no SUS?”
O tratamento para transtorno por uso de opioides pode ser feito tanto na rede pública quanto na rede privada. No SUS, o tratamento é gratuito e inclui consultas com médicos e psicólogos, medicamentos e grupos de apoio.
Como acessar o tratamento no SUS:
1. Procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS): Você pode agendar uma consulta com um clínico geral ou um médico de família.
2. Encaminhamento para um CAPS AD: Se necessário, o médico da UBS pode encaminhá-lo para um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), que oferece tratamento especializado.
3. Tratamento no CAPS AD: No CAPS AD, você terá acesso a uma equipe multidisciplinar, que pode incluir médicos, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros. O tratamento pode incluir consultas individuais, grupos terapêuticos, oficinas e atividades de reinserção social.
Custos na rede privada:
– Consultas: O valor das consultas com psiquiatras e psicólogos varia, mas muitos planos de saúde cobrem parte ou todo o custo.
– Medicamentos: Alguns medicamentos usados no tratamento, como a metadona e a buprenorfina, são fornecidos gratuitamente pelo SUS. Outros podem ser comprados em farmácias, e alguns planos de saúde cobrem parte do custo.
– Internação: Em casos graves, pode ser necessária internação em uma clínica especializada. O SUS oferece internação gratuita em hospitais públicos ou conveniados.
Dicas:
– Se você não tem plano de saúde, procure o SUS. O tratamento é gratuito e de qualidade.
– Se você tem plano de saúde, verifique quais serviços são cobertos.
– Não deixe o custo ser uma barreira para buscar ajuda. Há muitas opções gratuitas ou de baixo custo disponíveis.
9. “Posso trabalhar ou estudar durante o tratamento?”
Sim. Muitas pessoas conseguem trabalhar ou estudar durante o tratamento, especialmente se o transtorno for leve ou moderado. No entanto, em alguns casos, pode ser necessário tirar um tempo para se concentrar na recuperação.
Dicas para conciliar tratamento e trabalho/estudo:
– Comunique-se: Se possível, converse com seu empregador ou professores sobre sua situação. Eles podem oferecer apoio e flexibilidade.
– Organize sua rotina: Planeje seu dia para incluir tempo para o tratamento, trabalho/estudo e autocuidado.
– Estabeleça prioridades: Concentre-se nas tarefas mais importantes e delegue ou adie as menos urgentes.
– Peça ajuda: Não tente fazer tudo sozinho. Peça ajuda a colegas, amigos ou familiares quando necessário.
– Seja gentil consigo mesmo: Lembre-se de que a recuperação é um processo, e é normal ter altos e baixos.
Quando considerar uma pausa:
– Se o transtorno for grave e estiver interferindo significativamente em sua capacidade de trabalhar ou estudar.
– Se você estiver passando por um período de abstinência intensa ou outros sintomas que dificultem suas atividades.
– Se seu médico ou terapeuta recomendar uma pausa para que você possa se concentrar na recuperação.
10. “Como posso explicar para meus filhos?”
Explicar o transtorno por uso de opioides para crianças pode ser desafiador, mas é importante ser honesto de uma forma que elas possam entender. Use linguagem simples e adequada à idade da criança.
Dicas para conversar com crianças:
– Adapte a linguagem: Use palavras que a criança entenda. Por exemplo, em vez de “transtorno por uso de opioides”, você pode dizer “problema com remédios”.
– Seja honesto: Explique que você está doente e que está buscando tratamento para melhorar.
– Enfatize que não é culpa deles: As crianças podem se culpar pelo comportamento dos pais. Deixe claro que o problema não é culpa delas.
– Fale sobre o tratamento: Explique que você está recebendo ajuda de médicos e terapeutas para melhorar.
– Ofereça segurança: As crianças podem ficar assustadas ou inseguras. Garanta que elas estão seguras e que você está fazendo o possível para melhorar.
Exemplo de como explicar para uma criança pequena:
“Você sabe que às vezes o papai/mamãe fica doente e precisa tomar remédio? Ultimamente, eu tenho tomado mais remédio do que deveria, e isso está me fazendo mal. Eu estou doente, mas estou indo ao médico para melhorar. Não é culpa sua, e eu estou fazendo o possível para ficar bem de novo.”
Exemplo de como explicar para uma criança mais velha:
“Eu tenho um problema com remédios para dor. Às vezes, eu tomo mais do que deveria, e isso está me causando problemas. É como uma doença, e eu estou buscando tratamento para melhorar. Não é culpa sua, e eu quero que você saiba que estou fazendo o possível para ficar bem. Se você tiver dúvidas ou quiser conversar, pode me perguntar a qualquer momento.”
Quando procurar ajuda urgente
Alguns sinais indicam que a situação é grave e requer atenção médica imediata. Se você ou alguém que você conhece apresentar algum dos seguintes sintomas, procure ajuda urgente:
Sinais de overdose (risco de vida)
A overdose de opioides é uma emergência médica que pode levar à morte se não for tratada rapidamente. Os sinais incluem:
- Respiração lenta ou ausente: A pessoa pode respirar muito devagar (menos de 8 respirações por minuto) ou parar de respirar.
- Pele azulada ou pálida: A falta de oxigênio pode fazer com que a pele fique azulada (especialmente nos lábios e unhas) ou pálida e úmida.
- Pupilas muito pequenas (miose): As pupilas podem ficar do tamanho de uma cabeça de alfinete.
- Inconsciência: A pessoa pode não responder a estímulos, como chamar pelo nome ou sacudir.
- Ronco ou ruídos estranhos: A pessoa pode fazer ruídos estranhos, como roncos ou gargarejos, devido à obstrução das vias aéreas.
O que fazer:
– Ligue para o SAMU (192) ou leve a pessoa imediatamente para o pronto-socorro.
– Se disponível, administre naloxona (Narcan). A naloxona é um medicamento que pode reverter a overdose de opioides. Ela está disponível em algumas farmácias e serviços de saúde.
– Mantenha a pessoa acordada e respirando. Se a pessoa estiver inconsciente, coloque-a de lado para evitar asfixia.
– Não deixe a pessoa sozinha. Fique com ela até a chegada da ajuda médica.
Sintomas graves de abstinência
Os sintomas de abstinência de opioides geralmente não são fatais, mas podem ser muito desconfortáveis e, em alguns casos, perigosos. Procure ajuda médica se a pessoa apresentar:
- Vômitos ou diarreia intensos: Isso pode levar à desidratação e desequilíbrios eletrolíticos.
- Dor intensa: Dores musculares ou abdominais que não melhoram com analgésicos comuns.
- Confusão ou desorientação: A pessoa pode não saber onde está ou quem são as pessoas ao seu redor.
- Alucinações ou delírios: A pessoa pode ver ou ouvir coisas que não estão lá, ou ter crenças falsas.
- Convulsões: Movimentos involuntários e descontrolados do corpo.
O que fazer:
– Procure um pronto-socorro ou entre em contato com seu médico.
– Mantenha a pessoa hidratada. Ofereça água ou soro caseiro (água, sal e açúcar).
– Mantenha a pessoa em um ambiente calmo e seguro. Evite estímulos excessivos, como luzes fortes ou barulhos altos.
– Não tente lidar com a situação sozinho. A abstinência pode ser muito desconfortável, e a pessoa pode precisar de medicamentos para aliviar os sintomas.
Pensamentos suicidas
O transtorno por uso de opioides pode aumentar o risco de depressão e pensamentos suicidas. Se você ou alguém que você conhece estiver tendo pensamentos suicidas, procure ajuda imediatamente.
Sinais de alerta:
– Falar sobre querer morrer ou se matar.
– Falar sobre se sentir sem esperança ou sem motivo para viver.
– Falar sobre ser um fardo para os outros.
– Aumentar o uso de álcool ou drogas.
– Isolar-se de amigos e familiares.
– Mostrar mudanças extremas de humor.
O que fazer:
– Ligue para o CVV (Centro de Valorização da Vida) no número 188. O CVV oferece apoio emocional gratuito 24 horas por dia.
– Procure um pronto-socorro ou entre em contato com seu médico.
– Não deixe a pessoa sozinha. Fique com ela até a chegada da ajuda.
– Remova objetos perigosos do ambiente. Se possível, retire objetos que a pessoa possa usar para se machucar.
Outros sinais de alerta
Procure ajuda médica se você ou alguém que você conhece apresentar:
- Dor no peito ou falta de ar: Isso pode indicar problemas cardíacos ou pulmonares.
- Febre alta ou sinais de infecção: O uso de opioides injetáveis pode aumentar o risco de infecções.
- Comportamento violento ou agressivo: A pessoa pode representar um risco para si mesma ou para os outros.
- Perda de consciência ou desmaios: Isso pode indicar overdose ou outros problemas médicos graves.
Lembre-se: Não espere para procurar ajuda. Se você ou alguém que você conhece estiver apresentando algum desses sinais, procure ajuda médica imediatamente. A vida é preciosa, e há sempre esperança.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- National Institute on Drug Abuse. Principles of Drug Addiction Treatment: A Research-Based Guide. 3ª ed. 2018.
- Substance Abuse and Mental Health Services Administration. Medication-Assisted Treatment for Opioid Addiction in Opioid Treatment Programs. 2016.
- Volkow, N. D., & McLellan, A. T. Opioid Abuse in Chronic Pain — Misconceptions and Mitigation Strategies. New England Journal of Medicine, 374(13), 1253-1263. 2016.
- Kosten, T. R., & George, T. P. The Neurobiology of Opioid Dependence: Implications for Treatment. Science & Practice Perspectives, 1(1), 13-20. 2002.
- Dutra, L., et al. A Meta-Analytic Review of Psychosocial Interventions for Substance Use Disorders. American Journal of Psychiatry, 165(2), 179-187. 2008.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.