Definição e conceito
Delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda e flutuante, caracterizada por uma perturbação primária da atenção e da consciência, acompanhada de alterações cognitivas globais. O DSM-5 define o delirium como uma perturbação da atenção (capacidade reduzida para dirigir, focar, sustentar e deslocar a atenção) e da consciência (consciência reduzida do ambiente), que se desenvolve em um curto período de tempo (geralmente horas a poucos dias), representa uma mudança em relação à linha de base da atenção e consciência do indivíduo e flutua em gravidade ao longo do dia. A perturbação deve ser adicionalmente acompanhada por uma alteração cognitiva (por exemplo, déficit de memória, desorientação, perturbação da linguagem, da percepção ou do comportamento motor) que não é melhor explicada por um transtorno neurocognitivo estabelecido ou em evolução. Deve haver evidências, a partir da história, do exame físico ou de achados laboratoriais, de que a perturbação é uma consequência fisiológica direta de outra condição médica, intoxicação ou abstinência de substância, exposição a uma toxina ou múltiplas etiologias.
Na semiologia psiquiátrica, o delirium situa-se na interface entre a neurologia e a psiquiatria, sendo um distúrbio fundamentalmente orgânico da consciência. Distingue-se de outros transtornos neurocognitivos (como a demência) por seu início agudo, curso flutuante e natureza frequentemente reversível, desde que a causa subjacente seja identificada e tratada. O termo "estado confusional agudo" é frequentemente usado como sinônimo, embora o DSM-5 tenha padronizado o uso de "delirium". Em inglês, o termo "acute confusional state" também é utilizado.
Epidemiologicamente, o delirium é altamente prevalente em ambientes hospitalares, especialmente em unidades de terapia intensiva (UTI), enfermarias cirúrgicas e em pacientes idosos. Estima-se que afete de 11% a 42% dos pacientes hospitalizados em enfermarias médicas e até 80% dos pacientes em UTI. É um marcador de gravidade clínica e está associado a desfechos adversos significativos, como aumento da mortalidade, maior tempo de internação, declínio funcional acelerado e maior risco de institucionalização após a alta.
Apresentação clínica
A apresentação clínica do delirium é heterogênea, mas segue um padrão de disfunção cognitiva global de início agudo e curso flutuante. A avaliação clínica deve ser organizada por domínios psicopatológicos:
Domínio Cognitivo:
- Atenção: Este é o déficit central e obrigatório. O paciente apresenta dificuldade para iniciar, manter e deslocar o foco atencional. Parece facilmente distraído por estímulos irrelevantes e tem dificuldade em seguir uma linha de pensamento ou conversação. Testes simples, como pedir para o paciente nomear os meses do ano em ordem inversa ou soletrar uma palavra de trás para frente, revelam falhas significativas.
- Consciência: Há uma redução na clareza da consciência do ambiente. O paciente pode parecer alheio, "desligado", ou apresentar períodos de sonolência intercalados com agitação.
- Orientação: A desorientação é comum, principalmente temporal (não saber o dia, mês, ano ou hora), seguida pela espacial (não saber onde está) e, em casos mais graves, pessoal.
- Memória: Há prejuízo da memória de fixação e, frequentemente, da evocação. O paciente não consegue reter novas informações (por exemplo, o nome do examinador) e pode ter lacunas sobre eventos recentes.
- Pensamento: O pensamento é desorganizado, ilógico e incoerente. O discurso pode ser tangencial, circunstancial ou marcado por uma fuga de ideias. O conteúdo pode incluir delírios, tipicamente de natureza persecutória, de prejuízo ou de referência, mas que são pouco sistematizados e flutuantes.
- Linguagem: Podem ocorrer déficits de linguagem, como discurso desorganizado, nomeação prejudicada, perseverações ou, mais raramente, afasia.
Domínio Afetivo:
A labilidade afetiva é proeminente. O paciente pode transitar rapidamente entre apatia, ansiedade intensa, irritabilidade, euforia ou medo. O afeto pode ser incongruente com o conteúdo do pensamento.
Domínio Comportamental e Psicomotor:
O delirium pode se apresentar em três subtipos psicomotores, que podem coexistir ou alternar-se no mesmo paciente:
- Hiperativo: Agitação psicomotora, inquietação, agressividade, vocalizações (gritos, gemidos), tentativas de retirar cateteres ou sondas. É o subtipo mais facilmente reconhecido.
- Hipoativo: Lentificação psicomotora, apatia, letargia, reduzida mobilidade espontânea, fala escassa. É o subtipo mais comum e frequentemente não diagnosticado, sendo erroneamente atribuído à depressão ou demência.
- Misto: Alternância entre períodos de hiperatividade e hipoatividade ao longo do dia.
Domínio da Sensopercepção:
Alucinações são comuns, especialmente visuais (ver insetos, animais, pessoas ameaçadoras na sala) e táteis (sensação de insetos rastejando na pele). Podem também ocorrer ilusões (interpretações errôneas de estímulos reais, como confundir o cabo do soro com uma cobra).
Domínio do Ciclo Sono-Vigília:
Há uma perturbação marcante do ritmo circadiano. O paciente pode apresentar sonolência diurna excessiva, insônia noturna, inversão do ciclo sono-vigília ou fragmentação do sono.
Exemplos Clínicos:
- Caso 1 (Hipoativo): Paciente de 78 anos, 48h após cirurgia de fratura de fêmur. Na visita, está quieto no leito, com olhar fixo no teto. Responde monossilabicamente às perguntas, parece desatento e não consegue dizer o dia da semana ou onde está. A família relata que "ele não está sendo ele mesmo, está muito quieto".
- Caso 2 (Hiperativo Misto): Paciente de 65 anos com insuficiência hepática descompensada. Durante a noite, torna-se agitado, tenta sair do leito, grita que há pessoas querendo roubá-lo. De manhã, está sonolento e pouco responsivo. À tarde, volta a apresentar agitação e alucinações visuais (vê ratos no chão).
Neurobiologia e fisiopatologia
O delirium resulta de uma disfunção cerebral global e aguda, frequentemente desencadeada por um estressor fisiológico em um cérebro vulnerável. Não há uma lesão estrutural única; trata-se de uma perturbação da rede neuronal e da neurotransmissão.
Modelos Fisiopatológicos Principais:
- Hipótese da Inflamação: Citocinas pró-inflamatórias (IL-1β, IL-6, TNF-α), liberadas em resposta a infecções, cirurgias ou traumas, atravessam a barreira hematoencefálica e atuam no cérebro, afetando a neurotransmissão, a função astrocitária e a homeostase neuronal. A inflamação sistêmica é um dos principais mecanismos desencadeantes.
- Hipótese do Estresse Oxidativo: O aumento do estresse oxidativo e a falha nos mecanismos antioxidantes celulares levam a danos neuronais e disfunção mitocondrial, comprometendo a produção de energia (ATP) e a função sináptica.
- Hipótese da Neurotransmissão:
- Acetilcolina: O déficit colinérgico é uma das teorias mais consolidadas. A redução da atividade colinérgica, seja por depleção de precursores, por ação de anticolinérgicos ou por inflamação, está fortemente associada ao surgimento do delirium. Fármacos anticolinérgicos são potentes indutores de delirium.
- Dopamina: O excesso relativo de atividade dopaminérgica, frequentemente em desequilíbrio com o sistema colinérgico, está associado aos sintomas psicóticos (alucinações, delírios) e à agitação.
- GABA e Glutamato: Alterações no equilíbrio entre os sistemas excitatórios (glutamatérgicos) e inibitórios (GABAérgicos) podem contribuir para a instabilidade neuronal e as alterações do nível de consciência.
- Serotonina e Noradrenalina: Também estão envolvidas, com alterações podendo contribuir para os sintomas afetivos e comportamentais.
Circuitos Envolvidos:
A disfunção não é localizada, mas afeta redes amplamente distribuídas:
- Córtex Pré-Frontal Dorsolateral: Envolvido nas funções executivas (atenção, planejamento, memória de trabalho). Sua disfunção explica os déficits atencionais e a desorganização do pensamento.
- Córtex Cingulado Anterior: Relacionado à monitoração de conflito e ao controle atencional.
- Tálamo: Atua como estação retransmissora de informações sensoriais para o córtex. Sua disfunção pode levar a desorganização do fluxo informacional e alterações da consciência.
- Formação Reticular Ativadora Ascendente: Regula o ciclo sono-vigília e o nível de alerta. Sua perturbação está na base das alterações do nível de consciência e do ciclo sono-vigília.
Neuroimagem: Não há achados de imagem patognomônicos para o delirium. Estudos de neuroimagem funcional (fMRI, PET) em pacientes delirantes mostram, de forma inconsistente, redução do metabolismo e do fluxo sanguíneo cerebral global, com possíveis alterações mais pronunciadas em regiões frontais e parietais. A neuroimagem é útil principalmente para excluir outras causas estruturais (como hematoma subdural, acidente vascular cerebral).
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
O diagnóstico do delirium é essencialmente clínico, baseado em uma história detalhada (frequentemente colhida de acompanhantes ou prontuário) e em um exame do estado mental cuidadoso e seriado.
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Agitação ou lentificação psicomotora, descontrole de impulsos, comportamento inadequado ao contexto.
- Fala e Linguagem: Discurso desorganizado, incoerente, tangencial. Pode haver afasia ou discurso vago.
- Humor e Afeto: Labilidade, ansiedade, irritabilidade, apatia, euforia incongruente.
- Conteúdo do Pensamento: Delírios pouco sistematizados, frequentemente persecutórios ou de prejuízo. Pensamento concreto.
- Processo do Pensamento: Desorganização, incoerência, fuga de ideias.
- Sensopercepção: Alucinações (principalmente visuais e táteis), ilusões.
- Cognição:
- Atenção: Testar com sequência de dias da semana ou meses do ano em ordem inversa, subtrair 7 a partir de 100 (subtração seriada).
- Orientação: Avaliar orientação temporal, espacial e pessoal.
- Memória: Testar memória imediata (repetir 3 palavras) e de curto prazo (recordar as palavras após 5 minutos com distração).
- Funções Executivas: Teste do desenho do relógio (Clock Drawing Test) pode revelar desorganização.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Confusion Assessment Method (CAM): É a ferramenta mais utilizada e validada para o diagnóstico de delirium. Avalia quatro características: 1) Início agudo e curso flutuante; 2) Desatenção; 3) Pensamento desorganizado; 4) Nível de consciência alterado. O diagnóstico requer a presença dos itens 1 e 2, mais o 3 ou o 4.
- Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98): Escala mais detalhada que avalia a gravidade dos sintomas, útil para monitorar a resposta ao tratamento.
- 3D-CAM / CAM-ICU: Versões adaptadas para uso rápido (3D-CAM) ou para pacientes em UTI e não verbalizantes (CAM-ICU).
- Richmond Agitation-Sedation Scale (RASS) / Sedation-Agitation Scale (SAS): Avaliam o nível de sedação e agitação, importantes para classificar o subtipo psicomotor.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Pontos de Similaridade | Pontos de Diferenciação |
|---|---|---|
| Demência | Déficits cognitivos (memória, orientação). | Início insidioso e progressivo; curso estável ao longo do dia; atenção e consciência geralmente preservadas até fases avançadas. Paciente com demência pode desenvolver delirium sobreposto (delirium superposto à demência). |
| Transtorno Depressivo Maior com Características Psicóticas | Lentificação psicomotora, apatia, possível presença de delírios. | Humor depressivo persistente; delírios congruentes com o humor (culpa, ruína); início mais gradual; déficits cognitivos são menos proeminentes e não flutuam acentuadamente. |
| Esquizofrenia ou Transtorno Esquizoafetivo | Alucinações, delírios, desorganização do pensamento. | História crônica com sintomas prodrômicos; déficits cognitivos são mais estáveis e não flutuantes; consciência e orientação preservadas; não há causa médica aguda identificável. |
| Estado de Mal Epiléptico Não Convulsivo | Alteração do nível de consciência, comportamento automatizado, desatenção. | EEG é diagnóstico, mostrando atividade epileptiforme contínua. Pode haver pequenos movimentos clônicos focais (pálpebras, dedos). |
| Abstinência ou Intoxicação por Substâncias | Alteração do nível de consciência, agitação, alucinações. | História de uso de substâncias; sinais de intoxicação ou abstinência (midríase/miose, taquicardia/bradicardia, tremor, sudorese). |
| Transtorno Neurocognitivo Leve (DSM-5) | Declínio cognitivo mensurável. | Declínio é leve (1-2 desvios-padrão abaixo do esperado), não interfere significativamente na independência funcional, e não há perturbação da atenção e consciência características do delirium. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Subdiagnóstico do Subtipo Hipoativo: Atribuir letargia e apatia à depressão, cansaço ou "idade avançada".
- Confusão com Demência: Não reconhecer uma mudança aguda no estado mental de um paciente com demência pré-existente (delirium superposto).
- Superdiagnóstico em Pacientes com Doença Psiquiátrica Prévia: Atribuir uma exacerbação aguda de sintomas psicóticos à esquizofrenia, sem investigar causas orgânicas (ex.: infecção urinária, desequilíbrio eletrolítico).
- Dependência Excessiva de Exames Laboratoriais: O diagnóstico é clínico. Exames normais não excluem delirium, especialmente em idosos com alta vulnerabilidade cerebral.
- Ignorar a Flutuação: Avaliar o paciente apenas em um momento "lúcido" e descartar o diagnóstico.
Condições associadas
O delirium nunca é um diagnóstico primário; é sempre secundário a uma condição médica subjacente ou a um agente tóxico. Sua ocorrência sinaliza uma emergência médica. As principais etiologias podem ser lembradas pelo mnemônico DELIRIUM:
- D – Drogas (intoxicação ou abstinência; especialmente anticolinérgicos, benzodiazepínicos, opioides, corticoides).
- E – Eletrólitos / Endócrinas (desidratação, hipo/hipernatremia, hipo/hiperglicemia, disfunção tireoidiana).
- L – Lesão / Infecção do SNC (AVC, hemorragia, meningite, encefalite).
- I – Infecção (especialmente urinária e respiratória, sepse).
- R – Restrição / Retenção (retenção urinária, fecal; restrição física).
- I – Isquemia / Iatrogenia (infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca, hipotensão; efeitos adversos de procedimentos).
- U – Uremia / Insuficiência Orgânica (renal, hepática, respiratória).
- M – Metabolismo / Metais (hipóxia, deficiência de tiamina/B12, porfiria, intoxicação por metais pesados).
Fatores de Risco e Vulnerabilidade:
- Idade avançada (principal fator de risco).
- Demência pré-existente (aumenta o risco em 2 a 5 vezes).
- Comorbidades clínicas múltiplas.
- Comprometimento sensorial (cegueira, surdez).
- Desnutrição.
- Uso de múltiplos medicamentos (polifarmácia).
- Histórico prévio de delirium.
- Fratura de fêmur.
- Internação em UTI.
Correlações nos Sistemas Classificatórios:
- DSM-5-TR: Classificado sob "Transtornos Neurocognitivos". Códigos específicos para delirium devido a outra condição médica, intoxicação por substância, abstinência de substância, múltiplas etiologias ou outra especificada/não especificada.
- CID-11: Classificado no capítulo "06 Transtornos mentais, comportamentais ou do neurodesenvolvimento", sob "Disorders with neurocognitive impairment as a major feature" (6D70). Possui especificadores para a etiologia (devido a doença, lesão ou disfunção cerebral; devido a substância; devido a múltiplas causas; etc.).
Implicações terapêuticas
O tratamento do delirium é primariamente etiológico: identificar e tratar a causa subjacente (ex.: antibioticoterapia para infecção, correção de distúrbios hidroeletrolíticos, suspensão de drogas precipitantes). Paralelamente, devem ser instituídas medidas não farmacológicas e, se necessário, farmacológicas para o manejo dos sintomas comportamentais.
Abordagens Não Farmacológicas (Evidência Nível A – Primeira Linha):
São a base do tratamento e devem ser aplicadas a todos os pacientes. Incluem intervenções multicomponentes:
- Orientação e Reorientação: Colocar relógio e calendário visíveis; apresentar-se frequentemente; explicar procedimentos; incentivar visitas familiares.
- Estimulação Cognitiva: Conversar com o paciente; envolver em atividades simples e familiares.
- Mobilização Precoce: Levantar da cama, sentar na cadeira, deambular (se seguro).
- Otimização do Ambiente: Garantir iluminação adequada (luz natural durante o dia, penumbra à noite); reduzir ruídos desnecessários; garantir que o paciente use óculos e aparelho auditivo se necessário.
- Normalização do Ciclo Sono-Vigília: Estimular atividade diurna; criar rotina para o sono noturno (reduzir ruídos e interrupções, evitar sedativos quando possível).
- Prevenção de Complicações: Cuidados para evitar úlceras de pressão, aspiração, desnutrição e desidratação.
Abordagens Farmacológicas:
Indicadas apenas para controle de sintomas que coloquem o paciente, a equipe ou outros em risco iminente (agitação severa, agressividade, angústia extrema) ou que impeçam a realização de cuidados médicos essenciais. Não tratam o delirium em si.
- Antipsicóticos:
- Haloperidol: Antipsicótico típico de primeira escolha em muitos contextos (especialmente em UTI). Dose baixa (0,5 – 2 mg VO/IM/EV, repetível). Monitorar intervalo QT no ECG e sinais extrapiramidais.
- Antipsicóticos Atípicos: Risperidona, olanzapina, quetiapina. Podem ser alternativas, especialmente em pacientes com doença de Parkinson ou maior risco de efeitos extrapiramidais. A quetiapina, por seu perfil sedativo, pode ser útil no subtipo hiperativo noturno.
- Agentes GABAérgicos (Benzodiazepínicos):
- Uso Restrito: Devem ser evitados como primeira linha, exceto no delirium por abstinência alcoólica ou de benzodiazepínicos, onde são a terapia de escolha. Em outras etiologias, podem piorar a desinibição e a confusão.
- Dexmedetomidina: Agonista alfa-2 adrenérgico utilizado em UTI para sedação, associado a menor incidência de delirium comparado a benzodiazepínicos.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O delirium está associado a um pior prognóstico global: maior mortalidade intra-hospitalar e em até um ano após a alta, declínio funcional acelerado, maior risco de institucionalização e desenvolvimento de demência. A resposta ao tratamento depende da rapidez na identificação e correção da causa subjacente, da vulnerabilidade cerebral basal do paciente e da implementação rigorosa das medidas não farmacológicas. O delirium pode durar dias a semanas após a resolução do fator desencadeante, especialmente em idosos.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
A experiência do delirium é frequentemente aterrorizante e fragmentada. O paciente pode ter períodos de lucidez intercalados com episódios de confusão profunda, alucinações vívidas e delírios persecutórios. A desorientação no tempo e no espaço gera intensa ansiedade. Memórias do episódio podem ser parciais, distorcidas ou ausentes (amnésia lacunar). Após a resolução, muitos pacientes relatam sentimentos de vergonha, medo de que os sintomas retornem ou preocupação com a possibilidade de "loucura".
Comunicação com o Paciente e a Família:
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Para o Paciente (durante episódios lúcidos):
- Linguagem Clara e Calma: Use frases curtas e simples. Repita as informações se necessário.
- Validação e Não-Confrontação: Não discuta a veracidade das alucinações ou delírios. Em vez de "Não há aranhas na parede", diga "Entendo que você está vendo coisas que o assustam. Estou aqui para ajudá-lo e garantir sua segurança".
- Orientação Suave: Reoriente de forma não condescendente. "Você está no hospital São Paulo. Eu sou o Dr. Luigi. Hoje é terça-feira."
- Explicação Simplificada: "Você está passando por uma confusão que pode acontecer quando o corpo está doente. Isso é temporário e estamos cuidando disso."
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Para a Família/Cuidadores:
- Educação sobre a Condição: Explicar que o delirium é uma complicação médica comum, não um transtorno psiquiátrico primário, e que é potencialmente reversível.
- Esclarecer o Papel: Encorajar a presença familiar como fator calmante e orientador. Instruí-los a conversar calmamente, tocar suavemente (se bem aceito), trazer objetos familiares (fotos, rádio).
- Manejo de Sintomas Comportamentais: Orientar a não repreender o paciente por comportamentos inadequados. Explicar que agitação ou agressividade são sintomas da condição.
- Apoio Psicoeducacional: Informar sobre a possibilidade de flutuação dos sintomas e a importância de medidas não farmacológicas. Alertar para a possibilidade de sequelas cognitivas prolongadas e a necessidade de reabilitação após a alta.
Impacto Funcional:
O delirium tem um impacto devastador na funcionalidade. Durante o episódio, o paciente é incapaz de tomar decisões, gerenciar seus cuidados ou realizar atividades básicas de vida diária. Após a alta hospitalar, mesmo com a resolução do quadro agudo, é comum persistirem déficits cognitivos (especialmente atenção e memória) que podem comprometer a capacidade de viver independentemente, retornar ao trabalho e manter relacionamentos sociais. A recuperação funcional completa pode levar meses ou não ocorrer, principalmente em pacientes com vulnerabilidade prévia (demência incipiente).
Perguntas frequentes
1. O delirium é o mesmo que "delírio" ou "loucura"?
Não. Delirium é um termo técnico para uma síndrome orgânica aguda de confusão mental, com alterações de atenção, consciência e cognição. "Delírio" refere-se a uma crença falsa fixa, que é um sintoma que pode ocorrer no delirium, mas também em outras condições como esquizofrenia. "Loucura" é um termo leigo e estigmatizante sem precisão diagnóstica.
2. O delirium é reversível?
Na maioria dos casos, sim, desde que a causa subjacente seja prontamente identificada e tratada. No entanto, especialmente em idosos e pessoas com vulnerabilidade cerebral, alguns déficits cognitivos podem persistir por semanas, meses ou se tornar permanentes. O delirium pode acelerar o declínio cognitivo em pacientes com demência pré-existente.
3. Por que é tão importante diagnosticar o delirium?
Porque ele é um marcador de gravidade clínica. Sua presença indica que o cérebro do paciente está sofrendo um insulto agudo (infecção, desequilíbrio metabólico, etc.). Diagnosticá-lo leva à busca ativa de sua causa, que pode ser uma condição potencialmente fatal se não tratada. Além disso, o delirium em si está associado a piores desfechos (maior mortalidade, perda funcional).
4. Meu familiar idoso ficou muito agitado e agressivo após a cirurgia. Isso é normal?
Não é "normal", mas é uma complicação comum no pós-operatório de idosos, conhecida como delirium pós-operatório. A agitação e agressividade são sintomas do subtipo hiperativo de delirium. Deve ser comunicada imediatamente à equipe médica para investigação de causas (dor, infecção, efeito de anestésicos, distúrbios metabólicos) e manejo adequado.
5. O tratamento com antipsicóticos pode "cura" o delirium?
Não. Os antipsicóticos são usados apenas para controlar sintomas comportamentais graves (como agitação que coloca o paciente em risco). Eles não tratam a causa do delirium. A "cura" vem do tratamento da condição médica subjacente (ex.: tratar a pneumonia, corrigir a desidratação). As medidas não farmacológicas (orientação, mobilização, ambiente calmo) são igualmente ou mais importantes que os medicamentos.
6. O delirium pode deixar sequelas?
Sim. Mesmo após a resolução do episódio agudo, muitos pacientes, principalmente idosos, podem apresentar declínio cognitivo persistente, problemas de memória, dificuldades de atenção e perda da capacidade funcional. O delirium é um fator de risco independente para o desenvolvimento de demência.
7. Como posso prevenir o delirium em um familiar idoso hospitalizado?
Famílias podem ser agentes ativos na prevenção:
- Visite frequentemente para fornecer orientação e estimulação cognitiva.
- Garanta que ele use óculos e aparelho auditivo.
- Incentive a mobilização (sentar na cadeira, caminhar com ajuda).
- Ajude na alimentação e hidratação.
- Converse sobre assuntos familiares e traga objetos de casa (fotos, travesseiro).
- Comunique à equipe qualquer mudança súbita no comportamento ou cognição.
8. O delirium é uma forma de demência?
Não. São condições distintas. A demência é um declínio crônico e progressivo da cognição. O delirium é um estado agudo e flutuante de confusão mental. No entanto, a demência é o maior fator de risco para desenvolver delirium. E um episódio de delirium pode revelar ou acelerar uma demência subjacente.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. revisada. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Inouye, S.K., Westendorp, R.G.J., Saczynski, J.S. Delirium in elderly people. The Lancet, 383(9920), 911-922, 2014.
- Marcantonio, E.R. Delirium in Hospitalized Older Adults. New England Journal of Medicine, 377(15), 1456-1466, 2017.
- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Diretrizes Brasileiras para Manejo do Delirium em Idosos Hospitalizados. 2015.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.