Definição e conceito
O delírio mnêmico, também conhecido como recordação delirante, é um sintoma psicótico caracterizado pela formação de uma crença delirante cujo conteúdo e convicção são derivados de uma falsa memória (paramnésia) ou da interpretação delirante de uma memória verdadeira. Trata-se de um fenômeno complexo que se situa na interface entre os distúrbios do conteúdo do pensamento (delírio) e os distúrbios da memória (paramnésia/fabulação). O paciente não apenas relata uma lembrança falsa, mas atribui a essa "lembrança" um significado pessoal, anormal e inabalável, construindo sobre ela um sistema de crenças delirante.
Na nomenclatura técnica, o termo "delírio mnêmico" (do grego mneme, memória) é preferido. Em inglês, os termos equivalentes são mnemic delusion ou delusional memory. É crucial diferenciá-lo de conceitos adjacentes:
- Paramnésia (ou Alucinação de Memória): É a falsa lembrança em si, a recordação vívida de um evento que não ocorreu. Pode existir sem que se desenvolva um delírio em torno dela. É análoga a uma alucinação no domínio da memória.
- Fabulação (ou Confabulação): Tipo específico de paramnésia observado em quadros amnésicos orgânicos (p. ex., síndrome de Korsakoff, demências). O paciente preenche lacunas de memória com invenções plausíveis, mas falsas, frequentemente sem uma convicção delirante firme e sem a elaboração de um sistema delirante. É involuntária e não tem a intencionalidade de uma mentira.
- Pseudologia Fantástica (Mentira Patológica): O indivíduo constrói narrativas fantasiosas e pode, em um segundo momento, passar a acreditar nelas. A fronteira com a paramnésia e o delírio mnêmico pode ser tênue, mas geralmente envolve um componente mais voluntário e uma personalidade predisposta (ex.: transtornos de personalidade histriônica ou borderline).
- Delírio Sensorial ou Secundário: O delírio mnêmico é considerado um tipo de delírio secundário, pois surge a partir de uma alteração em outra função psíquica – neste caso, a memória. Distingue-se do delírio sensorial, que é secundário a ilusões ou alucinações, e do delírio oniroide, que emerge de um estado de rebaixamento da consciência (delirium).
Dados epidemiológicos específicos para o delírio mnêmico são escassos na literatura, pois ele é geralmente estudado como um sintoma dentro de transtornos psiquiátricos maiores. Sua prevalência é intrinsecamente ligada à dos transtornos nos quais ocorre com maior frequência, como a esquizofrenia, o transtorno delirante persistente e as condições orgânicas que cursam com amnésia e fabulação (demências, transtorno amnésico).
Apresentação clínica
A manifestação do delírio mnêmico na entrevista clínica é sutil e requer uma anamnese cuidadosa da memória e do conteúdo do pensamento. O fenômeno pode ser analisado por domínios:
Domínio Cognitivo:
- Memória: Presença de uma ou mais paramnésias. O paciente relata com riqueza de detalhes sensoriais (visuais, auditivos) um evento passado que é objetivamente falso. A lembrança tem a qualidade de uma "reminiscência" vívida. Em alguns casos, memórias reais são deturpadas ou distorcidas de forma involuntária para se adequarem ao tema delirante.
- Pensamento: O núcleo da apresentação é o delírio. A falsa memória não é um relato isolado; ela serve como evidência fundamental, ponto de partida ou justificativa para um sistema de crenças delirante. O tema do delírio (perseguição, grandeza, ciúme, etc.) é alimentado e sustentado pela recordação falsa. O pensamento pode mostrar perseveração em torno dessa memória e desagregação leve a moderada, dependendo da condição de base.
- Consciência e Orientação: No delirium, o delírio mnêmico ocorre em um contexto de rebaixamento do nível de consciência, desorientação e confusão. Nas psicoses esquizofrênicas ou no transtorno delirante, a consciência e a orientação estão tipicamente preservadas.
- Crítica (Insight): Ausente para o conteúdo delirante. O paciente não duvida da veracidade da memória nem da interpretação delirante que dela deriva. Tentativas de confrontação lógica são rejeitadas.
Domínio Afetivo:
- O afeto é geralmente congruente com o tema do delírio. Uma memória falsa de ter sido traído pode gerar raiva e hostilidade. Uma lembrança delirante de uma missão divina pode estar associada a exaltação do humor ou solenidade. No entanto, em quadros como a esquizofrenia, podem ocorrer delírios humor-incongruentes (ex.: lembrar-se de ser perseguido sem demonstrar medo aparente), o que sugere pior evolução clínica.
Domínio Comportamental:
- A conduta é diretamente influenciada pela crença delirante baseada na memória falsa. O paciente pode agir de forma defensiva, agressiva, processar pessoas, isolar-se ou adotar rituais de proteção com base na "lembrança" de uma ameaça. Em casos de fabulação orgânica (demência), o comportamento pode ser mais desorganizado e menos sistematizado.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Esquizofrenia: Um paciente, internado há anos, relata com detalhes que na noite anterior saiu do hospital, foi para sua casa natal e matou vários bandidos, acreditando ser um policial infiltrado. A paramnésia (falsa memória da ação) sustenta o delírio de identidade/missão.
- Demência com Componente Psicótico: Um homem com doença de Alzheimer moderada acusa repetidamente a cuidadora de roubar seu relógio. Quando questionado, ele "recorda" vividamente tê-la visto escondendo o objeto em sua bolsa na semana anterior (fabulação). Essa falsa memória cristaliza-se em um delírio de prejuízo.
- Transtorno Delirante Persistente (Tipo Ciúmes): Uma mulher está convencida de que o marido a traiu em uma conferência há dois anos. Ela "se lembra" de ter ouvido uma risada específica dele ao telefone naquela noite e de ter visto uma sombra suspeita na janela do hotel, interpretando esses fragmentos (reais ou falsos) como evidência mnêmica incontestável da infidelidade.
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia do delírio mnêmico é multifatorial, envolvendo disfunções em circuitos neurais responsáveis pela memória, monitoramento da realidade e atribuição de significado.
Circuitos de Memória e Monitoramento da Fonte: O fenômeno está intimamente ligado a uma falha no monitoramento da fonte, ou seja, a capacidade de identificar corretamente a origem de uma memória (se foi vivida, imaginada, sonhada ou ouvida). Este processo depende do funcionamento integrado do córtex pré-frontal (especialmente dorsolateral e ventromedial) e de estruturas mediais temporais (hipocampo, córtex entorrinal). Na esquizofrenia, há evidências de alterações na conectividade e no metabolismo dessas áreas, o que poderia levar à geração de "memórias" internas (pensamentos, imaginações) que são erroneamente atribuídas a uma experiência passada real.
Sistemas de Neurotransmissão:
- Dopaminérgico: A hiperatividade dopaminérgica mesolímbica, central nas teorias da psicose, está implicada na atribuição de saliência anormal a estímulos. No delírio mnêmico, uma representação mental interna (a falsa memória) receberia uma carga de importância e veracidade indevida ("saliente"), tornando-se uma convicção.
- Colinérgico e Glutamatérgico: Em condições orgânicas como delirium e demência, o desequilíbrio colinérgico (déficit) e a disfunção glutamatérgica (excitotoxicidade) contribuem para distúrbios globais de cognição, incluindo graves prejuízos na memória de fixação e na consolidação. A fabulação que surge nesses contextos é um mecanismo compensatório falho do cérebro para preencher lacunas amnésicas, e essa produção mnêmica defeituosa pode ser tomada como verdade, evoluindo para um delírio secundário.
Modelos Explicativos:
- Modelo Integrativo de Dupla Via: Propõe que o delírio mnêmico surge da confluência de duas vias deficitárias: (a) uma via de geração defeituosa (sistema de memória/imaginação que produz a paramnésia) e (b) uma via de avaliação/crença comprometida (sistema de verificação de realidade e atribuição de significado, mediado pelo córtex pré-frontal). A falha em ambas as fases é necessária para que uma falsa lembrança se transforme em uma convicção delirante.
- Modelo Baseado no Déficit de Metacognição: A metacognição refere-se à capacidade de refletir sobre os próprios processos mentais. Pacientes com delírios mnêmicos apresentariam um déficit específico na metacognição sobre a memória, sendo incapazes de duvidar da precisão ou origem de suas próprias recordações, mesmo diante de evidências contrárias.
Evidências de neuroimagem são mais consistentes para os transtornos de base (esquizofrenia, demência) do que para o sintoma específico. Estudos em esquizofrenia com sintomas positivos mostram frequentemente alterações de volume e atividade no lobo temporal medial e no córtex pré-frontal.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Pode ser normal ou revelar agitação/desconfiança congruente com o delírio.
- Fala e Pensamento: O discurso pode levar naturalmente ao relato da falsa memória. O curso do pensamento pode ser preservado ou mostrar leves tangencialidades. O conteúdo é marcado pela presença do delírio, cujo núcleo é uma narrativa mnêmica. É essencial explorar: "Como você tem certeza disso? O que você se lembra exatamente?"
- Percepção: Alucinações podem ou não estar presentes. Se presentes, podem alimentar o sistema delirante, mas o componente central permanece sendo a "lembrança".
- Memória: A avaliação formal (testes de memória imediata, recente e remota) é crucial. Em psicoses primárias, a memória pode estar intacta ou com déficits sutis. Em quadros orgânicos, encontrar-se-á hipomnésia ou amnésia de fixação marcante.
- Funções Executivas: Podem estar comprometidas, especialmente em quadros orgânicos ou na esquizofrenia deficitária.
- Insight: Gravemente prejudicado para o delírio.
Instrumentos e Escalas:
Não há escalas específicas para delírio mnêmico. Sua avaliação faz parte da investigação geral dos sintomas psicóticos e cognitivos:
- PANSS (Escala de Sintomas Positivos e Negativos): Itens de Delírios (P1) e Pensamento Desorganizado (P2) podem capturar o fenômeno.
- SCID-5 ou MINI: Entrevistas estruturadas para diagnósticos psiquiátricos.
- Testes Neuropsicológicos: Baterias como o NEUPSILIN ou instrumentos específicos como o Teste de Memória de Fonte podem ser úteis para investigar o monitoramento da fonte e diferenciar déficits de memória.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Mecanismo Central | Qualidade da "Lembrança" | Convicção (Delírio) | Contexto e Outros Sintomas |
|---|---|---|---|---|
| Delírio Mnêmico | Paramnésia + Delírio Secundário | Vívida, detalhada, como uma recordação real. | Inabalável, sistemática. | Psicose (esquizofrenia, transtorno delirante) ou quadro orgânico com insight preservado para a memória. |
| Fabulação (Síndrome Amnésica) | Preenchimento de lacunas de memória. | Plausível, mas frequentemente variável e inconsistente ao ser requestionada. | Frágil; o paciente pode aceitar a correção. | Amnésia anterógrada grave (ex.: Korsakoff). Nível de consciência preservado. |
| Pseudologia Fantástica | Construção narrativa intencional/compulsiva. | Elaborada, fantástica, visando impressionar. | Pode haver uma crença transitória ("mentira sincera"). | Transtornos de personalidade (histriônica, borderline). Relação interpessoal manipulativa. |
| Delirium com Atividade Delirante | Rebaixamento de consciência + desorganização cognitiva. | Fragmentada, oniroide, bizarra. | Flutuante, ligada ao estado confusional. | Nível de consciência rebaixado, desorientação, flutuação. Causa orgânica identificável. |
| Flashback no TEPT | Revivescência traumática. | Perceptiva (como se estivesse ocorrendo agora), não mnêmica. | O paciente sabe que é uma revivescência, não uma memória atual. | História de trauma. Sintomas de hipervigilância e evitação. |
| Déjà Vu Fisiológico/Epiléptico | Disfunção epileptiforme no lobo temporal. | Sensação ilusória de familiaridade. | O indivíduo geralmente tem crítica para a estranheza da experiência. | Breve, paroxística. Pode ocorrer em pessoas saudáveis ou na epilepsia do lobo temporal. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Confundir com Confabulação Benigna: Atribuir um delírio mnêmico a uma simples confabulação de um paciente demenciado, subestimando o sofrimento e o risco comportamental associado à convicção delirante.
- Não Investigar a Causa Orgânica: Assumir que um delírio mnêmico de início recente em um idoso é uma psicose primária, deixando de diagnosticar uma demência incipiente, um delirium ou uma condição médica.
- Supervalorizar a Consistência Narrativa: A riqueza de detalhes e a convicção do paciente podem ser tão persuasivas que o clínico pode, momentaneamente, questionar a realidade dos fatos. Manter o ceticismo clínico é fundamental.
- Ignorar o Impacto Funcional: Focar apenas no aspecto psicopatológico e negligenciar como a crença baseada na falsa memória está prejudicando o trabalho, a família e a segurança do paciente.
Condições associadas
O delírio mnêmico não é um diagnóstico, mas um sintoma que ocorre no contexto de diversos transtornos:
- Esquizofrenia e Outras Psicoses Esquizofreniformes: É um quadro clássico para sua apresentação. A atividade delirante primária pode utilizar tanto recordações verdadeiras deturpadas quanto falsas lembranças (paramnésias) como material básico para sua elaboração. Delírios de controle, perseguição e grandeza podem ter um substrato mnêmico.
- Transtorno Delirante Persistente (DSM-5-TR) / Transtorno Delirante (CID-11): O delírio mnêmico é particularmente comum nos tipos persecutório, ciumento e de grandeza. A falsa memória serve como a "prova" fundamental que sustenta o sistema delirante, muitas vezes isolado e bem sistematizado.
- Transtornos do Humor com Características Psicóticas: Tanto na mania quanto na depressão grave podem ocorrer delírios. Quando humor-congruentes, podem ser alimentados por falsas lembranças (ex.: na depressão, lembrar-se de ter cometido um crime terrível – delírio de culpa).
- Psicoses "Orgânicas":
- Demência (especialmente por Corpos de Lewy, Alzheimer em fases moderadas): A combinação de déficits de memória (levando a fabulações) e frequentes alucinações visuais cria um terreno fértil para delírios mnêmicos, normalmente de perseguição ou prejuízo.
- Delirium: O delírio que ocorre no contexto confusional é frequentemente do tipo oniroide, mas pode ter conteúdo mnêmico (ex.: o paciente acredita estar em um evento passado). É secundário ao rebaixamento do nível de consciência.
- Epilepsia do Lobo Temporal: Estados crepusculares pós-ictais ou interictais podem cursar com experiências mnêmicas anômalas e delírios, frequentemente de caráter místico ou autobiográfico.
- Transtornos de Personalidade: Indivíduos com traços esquizotípicos, borderline ou histriônicos podem, em situações de estresse ou descompensação, apresentar episódios breves com paramnésias e ideias de referência que beiram o delirante, mas geralmente sem a fixação e sistematização de uma psicose plena.
Implicações terapêuticas
O tratamento do delírio mnêmico é o tratamento do transtorno psiquiátrico ou condição médica subjacente, com foco adicional no manejo do sintoma psicótico e no suporte cognitivo.
Abordagem Farmacológica:
- Antipsicóticos: A base do tratamento quando o fenômeno ocorre no contexto de uma psicose primária (esquizofrenia, transtorno delirante) ou de uma psicose no humor. A escolha (atípicos ou típicos) segue os protocolos usuais da ABP e do SUS (Risperidona, Olanzapina, Quetiapina como opções de primeira linha). A resposta do componente delirante pode ser boa, mas a falsa memória em si pode persistir como uma crença fixa, mesmo com a remissão da agitação.
- Correção da Causa Orgânica: No delirium, a intervenção urgente é identificar e tratar a causa (infecção, desequilíbrio metabólico, abstinência). Os antipsicóticos (ex.: Haloperidol em baixa dose) são usados de forma sintomática e temporária para agitação e angústia, não para "curar" o delírio mnêmico, que tenderá a desaparecer com a melhora do nível de consciência.
- Inibidores da Colinesterase e Memantina: Nas demências, estas medicações podem melhorar globalmente a cognição, incluindo a memória, e reduzir a frequência e intensidade de sintomas psicóticos, como as fabulações delirantes.
- Estabilizadores do Humor: Essenciais no tratamento das psicoses afetivas (mania, depressão com psicose).
Abordagem Psicoterapêutica:
- Terapia Cognitivo-Comportamental para Psicoses (TCCp): É a psicoterapia com maior evidência. Não visa confrontar diretamente a falsa memória, o que é contraproducente. O foco está em: (1) desenvolver uma relação terapêutica de confiança; (2) explorar o impacto emocional da crença e da memória na vida do paciente; (3) desenvolver estratégias de coping para reduzir o sofrimento e os comportamentos disfuncionais; (4) examinar, de forma colaborativa, interpretações alternativas para os eventos que o paciente "recorda", sem invalidar sua experiência subjetiva.
- Intervenções Psicossociais e de Reabilitação: Treino de habilidades sociais, terapia ocupacional e suporte familiar são fundamentais para melhorar o funcionamento global e reduzir o isolamento que frequentemente alimenta o sistema delirante.
Impacto Prognóstico e na Resposta:
A presença de delírios, incluindo os mnêmicos, em geral está associada a uma maior gravidade do transtorno. Em condições como a esquizofrenia, delírios humor-incongruentes (que podem incluir delírios mnêmicos bizarros) são indicadores de pior evolução. A resposta ao tratamento antipsicótico do componente de convicção e angústia pode ser satisfatória, mas a fixidez da falsa memória costuma ser um desafio terapêutico maior do que outros tipos de delírio. Em condições orgânicas, o prognóstico do sintoma está diretamente ligado ao controle da doença de base.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivenciando o Fenômeno: Para o paciente, a experiência é de recordar um fato. Não há uma sensação de "invenção" ou "imaginação". A memória é tão vívida e real quanto qualquer outra de sua biografia. A certeza que dela decorre é absoluta. A frustração e a raiva surgem quando outros (familiares, médicos) não acreditam nessa "verdade" evidente para o paciente, o que é interpretado como deslealdade, cumplicidade com perseguidores ou incompetência.
Comunicação Clínica e com a Família:
- Não Confrontar Diretamente: Evitar frases como "Isso não aconteceu" ou "Isso é invenção da sua cabeça". Isso rompe a aliança terapêutica e fortalece a convicção delirante.
- Validar a Experiência Emocional: Focar no sentimento. "Pelo que você me conta, deve ser muito assustador acreditar que alguém fez isso com você" ou "Entendo que, baseado naquilo que você se lembra, faz todo sentido você se sentir traído."
- Explorar com Curiosidade Neutra: Fazer perguntas detalhadas sobre a "lembrança" de forma não acusatória pode, às vezes, revelar inconsistências ao próprio paciente, ou pelo menos mapear o sistema de crenças. "Você pode me descrever o ambiente onde isso aconteceu? Que horas eram?"
- Oferecer uma Perspectiva Alternativa (Modelo de Estresse-Vulnerabilidade): Em momentos de boa aliança, pode-se introduzir a ideia de que o cérebro, sob estresse ou devido a uma condição médica, pode às vezes produzir lembranças que parecem muito reais, mas que não correspondem a fatos. Enfatizar que isso é um sintoma, não uma fraqueza de caráter.
- Orientação à Família: Educar a família sobre a natureza do sintoma. Ensinar as mesmas técnicas de comunicação (não confrontar). Orientar a não alimentar o delírio, mas também a não discutir. Redirecionar a conversa para temas neutros e focar na segurança e no bem-estar prático do paciente. A família deve ser incluída no plano terapêutico, muitas vezes necessitando de suporte próprio via CAPS.
Impacto Funcional: O impacto é severo. Relacionamentos são destruídos pela desconfiança (ciúmes delirantes). A vida profissional pode ser prejudicada se o delírio envolver colegas. Pacientes podem gastar recursos em processos judiciais infundados, mudar de cidade repetidamente ou se isolar completamente. O risco de comportamento violento, embora não seja a regra, existe, especialmente se o paciente acreditar, baseado em sua "memória", que precisa se defender de uma ameaça iminente.
Perguntas frequentes
1. Delírio mnêmico é o mesmo que mentir?
Não. A mentira é um ato voluntário de engano. No delírio mnêmico, o paciente está relatando sua verdade subjetiva. Ele genuinamente acredita na veracidade da memória e na interpretação delirante que dela faz. Não há intenção de manipular ou enganar.
2. Uma pessoa sem doença mental pode ter um delírio mnêmico?
É extremamente raro. Paramnésias isoladas (falsas lembranças) podem ocorrer em pessoas saudáveis, especialmente sob forte estresse emocional ou em situações de sugestão (como em certas técnicas terapêuticas inadequadas). No entanto, para que essa falsa lembrança se transforme em uma convicção delirante inabalável, é necessária geralmente a presença de uma condição psicótica ou orgânica subjacente.
3. Como provar para o paciente que a memória dele é falsa?
Em geral, não é possível nem terapêutico tentar "provar" isso de forma direta. A convicção é parte do sintoma psicótico (a falta de crítica). A abordagem eficaz é tratar a condição de base (com medicação) e usar técnicas psicoterapêuticas (como a TCCp) para ajudar o paciente a questionar gradualmente o impacto e a utilidade daquela crença, sem atacar frontalmente a memória em si.
4. O delírio mnêmico é um sinal de Alzheimer?
Pode ser. Na demência, especialmente naquela com componentes psicóticos, as fabulações (falsas memórias para preencher lacunas) são comuns. Se o paciente passar a acreditar firmemente nessas fabulações e agir de acordo (ex.: acusar um familiar de roubo), configura-se um delírio mnêmico. É um sintoma que merece avaliação geriátrica e psiquiátrica especializada.
5. Existe um exame que diagnostica o delírio mnêmico?
Não há exame de laboratório ou de imagem específico. O diagnóstico é clínico, feito por um psiquiatra através da entrevista e do exame do estado mental, dentro da investigação de um transtorno psiquiátrico ou condição médica mais ampla. Exames (sangue, neuroimagem) são usados para afastar causas orgânicas.
6. O tratamento com antipsicóticos faz a falsa memória "desaparecer"?
Os antipsicóticos atuam principalmente reduzindo a convicção angustiante, a preocupação e a centralidade que o delírio tem na vida do paciente. A memória falsa em si pode permanecer como uma narrativa na mente do indivíduo, mas ele pode parar de dar importância a ela ("Ah, eu me lembro daquilo, mas não ligo mais" ou "Isso deve ter sido coisa da minha doença"). O objetivo é a remissão do sofrimento e do prejuízo funcional, não necessariamente o apagamento da lembrança.
7. É perigoso concordar com o delírio do paciente para acalmá-lo?
É uma prática desaconselhada. Concordar ativamente ("Sim, você está certo, eles estão te perseguindo") pode reforçar o delírio e dificultar o tratamento futuro. A estratégia recomendada é a validação emocional sem validação do conteúdo: não se discute se é verdade ou não, mas se acolhe o sentimento que isso gera.
8. O delírio mnêmico tem cura?
A "cura" depende da condição de base. Em um episódio psicótico único bem tratado, o sintoma pode remitir completamente. Em transtornos crônicos como a esquizofrenia ou demências degenerativas, o sintoma pode ser controlado com tratamento contínuo, apresentando recidivas em fases de descompensação. O manejo é geralmente de longo prazo.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto rev. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- La Corte, V.; Dalla Barba, G. "Confabulation: Remembering the past, looking at the future". In: The Handbook of Memory Disorders. John Wiley & Sons, 2015.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento da esquizofrenia. 2020.
- Ministério da Saúde (BR). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas – Transtorno do Espectro Esquizofrênico e Outros Transtornos Psicóticos. Portaria SCTIE nº 123, de 6 de maio de 2022.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.