O que é?
Imagine que o cérebro é como um painel de controle supercomplexo, cheio de botões, alavancas e luzes que regulam tudo o que sentimos, pensamos e fazemos. Agora, pense que cada substância psicoativa — seja um remédio controlado, uma droga ilícita ou até mesmo um medicamento receitado — é como alguém apertando esses botões de forma desordenada. Quando uma pessoa usa várias dessas substâncias ao mesmo tempo ou em sequência, é como se várias pessoas estivessem mexendo no painel ao mesmo tempo, cada uma puxando alavancas diferentes sem saber o que a outra está fazendo. O resultado? Um sistema que começa a funcionar de forma caótica, prejudicando a saúde física, mental e as relações da pessoa.
O transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias psicoativas especificadas é justamente isso: um padrão problemático de uso de duas ou mais substâncias que alteram o funcionamento do cérebro, causando sofrimento significativo ou prejuízos na vida da pessoa. A palavra-chave aqui é “múltiplas” — não se trata de um vício em uma única substância, mas de um uso combinado ou alternado de várias delas, o que torna o quadro ainda mais complexo e perigoso. Essas substâncias podem incluir álcool, maconha, cocaína, remédios para ansiedade (como os benzodiazepínicos), analgésicos opioides (como a codeína ou o tramadol), estimulantes (como as anfetaminas), entre outras.
Diferente de uma pessoa que, por exemplo, bebe socialmente ou usa um remédio para dormir ocasionalmente, quem desenvolve esse transtorno perde o controle sobre o uso dessas substâncias. Não é uma questão de “falta de força de vontade” ou “mau caráter”, como muitos ainda pensam. É como se o cérebro da pessoa tivesse sido “sequestrado” pelas substâncias: ele passa a priorizar o uso delas acima de tudo, mesmo quando isso causa problemas graves, como perder o emprego, brigar com a família ou adoecer fisicamente. E o mais complicado é que, quando se usa várias substâncias ao mesmo tempo, os efeitos de uma podem mascarar ou potencializar os da outra, tornando tudo ainda mais imprevisível e arriscado.
No Brasil, não temos dados exatos sobre a prevalência desse transtorno específico, mas sabemos que o uso de múltiplas substâncias é um problema crescente. Segundo o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), realizado pela UNIFESP em 2012, cerca de 3,8% dos brasileiros adultos já haviam usado cocaína e álcool juntos, e 1,4% já haviam combinado cocaína com maconha. Entre os jovens, o uso de múltiplas drogas também é preocupante: um estudo com estudantes de ensino médio em 2015 mostrou que 13,8% já haviam usado duas ou mais substâncias ilícitas no último ano. O problema é ainda mais grave entre pessoas em situação de rua ou em tratamento para dependência química, onde o uso combinado de substâncias é a regra, não a exceção.
Historicamente, o reconhecimento desse transtorno como uma condição médica é relativamente recente. Até meados do século XX, o vício em drogas era visto principalmente como um “defeito moral” ou uma “fraqueza de caráter”. Foi só a partir dos anos 1960 e 1970, com avanços na neurociência, que a medicina começou a entender que o uso problemático de substâncias envolve mudanças reais no funcionamento do cérebro, especialmente em áreas relacionadas ao prazer, à tomada de decisões e ao controle dos impulsos. Hoje, tanto a Classificação Internacional de Doenças (CID-11) quanto o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) reconhecem que o uso de múltiplas substâncias é um transtorno mental legítimo, que requer tratamento especializado — assim como a depressão ou a esquizofrenia.
Quais são os sintomas?
Para entender se uma pessoa está desenvolvendo um transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias, os médicos e psicólogos avaliam uma série de sinais e comportamentos. Esses sintomas são como peças de um quebra-cabeça: sozinhos, podem não significar muito, mas quando se encaixam, formam um quadro claro de que algo não está certo. Vamos traduzir cada um dos critérios diagnósticos para uma linguagem do dia a dia, com exemplos concretos de como eles aparecem na vida real.
1. Uso em quantidades maiores ou por mais tempo do que o planejado
O que significa: A pessoa começa a usar as substâncias de forma descontrolada, mesmo quando havia prometido a si mesma que não faria isso. É como tentar comer só um biscoito e acabar devorando o pacote inteiro — só que, nesse caso, o “biscoito” pode ser uma dose de remédio, um baseado ou uma carreira de cocaína.
Como aparece no dia a dia:
– Exemplo 1: João tem uma receita de clonazepam (um remédio para ansiedade) para tomar meio comprimido à noite. Nos últimos meses, ele vem tomando um comprimido inteiro, e às vezes até dois, porque “só assim consegue dormir”. Ele já tentou reduzir várias vezes, mas sempre acaba cedendo.
– Exemplo 2: Maria combinou com as amigas de tomar só duas taças de vinho no jantar, mas depois da segunda taça, ela pede uma dose de vodca. Quando percebe, já tomou meia garrafa e está bêbada, mesmo sabendo que no dia seguinte precisa acordar cedo para trabalhar.
– Exemplo 3: Pedro usa maconha para relaxar depois do trabalho, mas ultimamente tem fumado logo pela manhã, antes mesmo de tomar café. Ele diz que “só vai dar uns dois tragadas”, mas acaba fumando o baseado inteiro e chegando atrasado no serviço.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já perdeu o controle em alguma situação — como comer demais em uma festa ou gastar mais do que devia em uma liquidação. A diferença é que, no transtorno, isso acontece com frequência e apesar das consequências negativas. Se João, Maria ou Pedro fizessem isso uma vez ou outra, sem que isso afetasse suas vidas, não seria um problema. Mas quando o uso descontrolado vira regra, e não exceção, é um sinal de alerta.
2. Desejo persistente ou esforços malsucedidos para reduzir ou controlar o uso
O que significa: A pessoa sente uma vontade quase irresistível de usar as substâncias e, mesmo quando tenta parar ou diminuir, não consegue. É como tentar segurar a respiração por muito tempo: chega uma hora em que o corpo simplesmente não aguenta e você precisa respirar, não importa o quanto tente se controlar.
Como aparece no dia a dia:
– Exemplo 1: Ana toma remédios para dormir há anos e já tentou parar várias vezes. Toda vez que reduz a dose, começa a ter insônia, ansiedade e até tremores. Ela dura no máximo três dias sem o remédio antes de voltar a tomá-lo, mesmo sabendo que isso está prejudicando sua saúde.
– Exemplo 2: Carlos prometeu à esposa que pararia de usar cocaína depois que quase perdeu o emprego por chegar atrasado várias vezes. Ele até conseguiu ficar uma semana sem usar, mas no primeiro happy hour com os colegas, não resistiu e cheirou duas carreiras no banheiro do bar. Depois, ficou se culpando, mas no dia seguinte fez a mesma coisa.
– Exemplo 3: Beatriz usa maconha e álcool para lidar com o estresse da faculdade. Ela já baixou vários aplicativos de controle de uso, fez promessas para os amigos e até marcou consultas com um psicólogo, mas sempre acaba desistindo na última hora. “Eu sei que preciso parar, mas não consigo”, ela diz.
Normal vs. Sintomático:
É comum as pessoas terem vontades fortes — como querer comer chocolate depois do almoço ou assistir mais um episódio da série antes de dormir. A diferença é que, no transtorno, essa vontade domina os pensamentos e interfere nas decisões. Se Ana, Carlos ou Beatriz conseguissem reduzir o uso por um tempo sem sofrimento intenso ou recaídas frequentes, não seria um problema. Mas quando a luta para controlar o uso vira uma batalha diária, é um sinal de que o cérebro já está dependente.
3. Muito tempo gasto para obter, usar ou se recuperar dos efeitos das substâncias
O que significa: A vida da pessoa começa a girar em torno das substâncias. Ela passa horas do dia pensando em como conseguir mais, usando ou se recuperando dos efeitos. É como se as substâncias tivessem se tornado o “trabalho” principal da pessoa, tomando o lugar de outras atividades importantes.
Como aparece no dia a dia:
– Exemplo 1: Ricardo trabalha como motorista de aplicativo e usa anfetaminas para aguentar os turnos longos. Ele passa horas pesquisando onde comprar os comprimidos mais baratos, dirige até bairros distantes para buscar a droga e, depois do expediente, fica o resto da noite acordado, sem conseguir dormir por causa do efeito estimulante. No dia seguinte, acorda exausto e mal consegue trabalhar sem tomar mais uma dose.
– Exemplo 2: Fernanda toma remédios para ansiedade e usa maconha para relaxar. Ela já faltou a vários compromissos porque passou a manhã inteira tentando conseguir receita com diferentes médicos para renovar seus remédios. Quando finalmente consegue, fuma um baseado para “comemorar” e acaba dormindo o resto do dia.
– Exemplo 3: Tiago é universitário e usa cocaína para estudar até tarde. Ele passa noites em claro fazendo trabalhos, mas depois fica dois dias de cama, se recuperando da exaustão e da ressaca. Nesse período, não consegue ir às aulas, nem responder mensagens dos amigos. Sua rotina virou um ciclo: usar para produzir → ficar exausto → dormir o dia todo → usar de novo para compensar.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já teve dias em que uma atividade tomou mais tempo do que deveria — como passar horas nas redes sociais ou maratonar uma série. A diferença é que, no transtorno, as substâncias se tornam a prioridade número um, empurrando para segundo plano coisas que antes eram importantes, como trabalho, estudos, família ou lazer. Se Ricardo, Fernanda ou Tiago conseguissem equilibrar o uso das substâncias com outras atividades sem prejuízos, não seria um problema. Mas quando o uso começa a roubar tempo e energia de outras áreas da vida, é um sinal de alerta.
4. Fissura (craving) ou forte desejo de usar as substâncias
O que significa: A pessoa sente um desejo intenso e quase incontrolável de usar as substâncias, como se fosse uma fome avassaladora que não passa até que ela ceda. É como quando você está com muita sede em um dia quente e só pensa em tomar um copo d’água gelada — só que, nesse caso, o “copo d’água” é a droga ou o remédio.
Como aparece no dia a dia:
– Exemplo 1: Lucas está tentando parar de fumar maconha, mas toda vez que passa em frente à casa do amigo que sempre tem um baseado, sente uma vontade tão forte que chega a tremer. Ele já saiu de perto do amigo várias vezes, mas no fim sempre acaba cedendo e fumando.
– Exemplo 2: Camila toma remédios para dormir e, nos dias em que esquece de comprar a receita, sente uma ansiedade tão grande que não consegue se concentrar em nada. Ela já chegou a dirigir até uma farmácia de madrugada, mesmo sabendo que não deveria tomar o remédio sem orientação médica.
– Exemplo 3: Rafael usa cocaína nos fins de semana e, durante a semana, passa os dias contando as horas para chegar sexta-feira. Ele sonha com a sensação de usar, pensa nisso o tempo todo e, quando finalmente chega o dia, não consegue pensar em mais nada. Mesmo sabendo que vai se arrepender depois, a vontade é mais forte.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já sentiu vontade intensa de algo — como comer um doce depois do almoço ou tomar um café quando está cansado. A diferença é que, no transtorno, essa vontade é avassaladora e difícil de ignorar, mesmo quando a pessoa sabe que vai se prejudicar. Se Lucas, Camila ou Rafael conseguissem resistir à vontade sem sofrimento intenso ou sem que isso afetasse suas vidas, não seria um problema. Mas quando a fissura domina os pensamentos e as ações, é um sinal de que o cérebro já está condicionado a buscar a substância a qualquer custo.
5. Uso recorrente resultando em fracasso em cumprir obrigações importantes
O que significa: A pessoa começa a falhar em compromissos importantes por causa do uso das substâncias. É como se as substâncias tivessem se tornado um chefe exigente que não deixa a pessoa cumprir suas outras responsabilidades.
Como aparece no dia a dia:
– Exemplo 1: Marcos é pai de dois filhos e usa álcool e remédios para ansiedade. Nos últimos meses, ele já faltou a várias reuniões de pais na escola porque estava dormindo depois de uma noite de bebedeira. Também já esqueceu de buscar os filhos na creche duas vezes porque estava “chapado” demais para dirigir.
– Exemplo 2: Juliana é estudante de medicina e usa anfetaminas para estudar. Ela já perdeu o prazo de entrega de três trabalhos porque passou a noite inteira estudando sob efeito da droga e, no dia seguinte, não conseguiu acordar a tempo. Também já foi reprovada em uma prova porque, no dia, estava tão cansada de usar a droga que não conseguiu se concentrar.
– Exemplo 3: Roberto é gerente de uma loja e usa cocaína para aguentar os turnos longos. Ele já chegou atrasado ao trabalho várias vezes porque passou a noite usando e não conseguiu acordar. Também já brigou com clientes porque estava irritado por causa da abstinência da droga.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já teve dias em que não conseguiu cumprir todas as obrigações — como faltar a um compromisso por estar doente ou atrasar um trabalho por imprevistos. A diferença é que, no transtorno, os fracassos são frequentes e diretamente ligados ao uso das substâncias. Se Marcos, Juliana ou Roberto conseguissem cumprir suas obrigações mesmo usando as substâncias, não seria um problema. Mas quando o uso começa a prejudicar áreas importantes da vida, como família, trabalho ou estudos, é um sinal de que algo está errado.
6. Uso continuado apesar de problemas sociais ou interpessoais causados ou exacerbados pelas substâncias
O que significa: A pessoa continua usando as substâncias mesmo quando isso causa brigas, isolamento ou outros problemas com as pessoas ao seu redor. É como se ela estivesse em um relacionamento abusivo com as substâncias: mesmo sabendo que fazem mal, não consegue se afastar.
Como aparece no dia a dia:
– Exemplo 1: Daniela usa maconha e remédios para dormir. Sua família já brigou com ela várias vezes porque ela fica irritada e distante quando está sob efeito das substâncias. Ela prometeu parar várias vezes, mas sempre volta a usar, mesmo sabendo que isso está afastando as pessoas que ama.
– Exemplo 2: Eduardo bebe e usa cocaína nos fins de semana. Sua esposa já ameaçou pedir o divórcio várias vezes porque ele fica agressivo quando está bêbado. Mesmo assim, ele continua usando, dizendo que “só vai parar quando quiser”.
– Exemplo 3: Sofia usa remédios para ansiedade e já perdeu várias amizades porque, quando está sob efeito, fala coisas que magoam as pessoas. Ela sabe que as substâncias a deixam impulsiva, mas não consegue parar de usá-las, mesmo sabendo que isso está destruindo seus relacionamentos.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já teve desentendimentos com pessoas próximas — como uma briga com o parceiro ou um mal-entendido com um amigo. A diferença é que, no transtorno, os problemas são recorrentes e diretamente ligados ao uso das substâncias. Se Daniela, Eduardo ou Sofia conseguissem manter seus relacionamentos saudáveis mesmo usando as substâncias, não seria um problema. Mas quando o uso começa a prejudicar as relações de forma constante, é um sinal de que a pessoa está priorizando as substâncias acima de tudo.
7. Redução ou abandono de atividades sociais, ocupacionais ou recreativas importantes
O que significa: A pessoa deixa de fazer coisas que antes eram importantes para ela por causa do uso das substâncias. É como se as substâncias tivessem roubado o lugar de hobbies, amigos e outras fontes de prazer na vida da pessoa.
Como aparece no dia a dia:
– Exemplo 1: Gustavo adorava jogar futebol com os amigos, mas nos últimos meses parou de ir aos jogos porque prefere ficar em casa bebendo. Ele também já desistiu de ir a festas porque “não curte mais o agito” — na verdade, ele só quer ficar em casa, usando suas substâncias.
– Exemplo 2: Larissa era apaixonada por dança e fazia aulas três vezes por semana. Depois que começou a usar remédios para dormir e maconha, parou de ir às aulas porque “não tem mais energia”. Ela também já recusou convites para sair com as amigas porque prefere ficar em casa, “relaxando” com as substâncias.
– Exemplo 3: Thiago trabalhava como músico e adorava tocar em bares aos fins de semana. Depois que começou a usar cocaína, parou de se apresentar porque prefere gastar seu dinheiro com a droga. Ele também já deixou de ir a ensaios da banda porque estava “ocupado demais” — na verdade, estava usando ou se recuperando dos efeitos.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já passou por fases em que perdeu o interesse por algumas atividades — como deixar de ir à academia por um tempo ou cancelar um encontro com amigos por cansaço. A diferença é que, no transtorno, a pessoa abandona várias atividades importantes de uma vez, e isso está diretamente ligado ao uso das substâncias. Se Gustavo, Larissa ou Thiago conseguissem manter suas atividades mesmo usando as substâncias, não seria um problema. Mas quando o uso começa a roubar o lugar de coisas que antes davam prazer, é um sinal de que as substâncias estão tomando conta da vida.
8. Uso recorrente em situações fisicamente perigosas
O que significa: A pessoa usa as substâncias em situações em que isso coloca sua vida ou a vida de outras pessoas em risco. É como dirigir um carro sabendo que os freios estão com defeito: você pode até chegar ao destino, mas o risco de um acidente grave é enorme.
Como aparece no dia a dia:
– Exemplo 1: Amanda toma remédios para ansiedade e bebe antes de dirigir para o trabalho. Ela já quase bateu o carro duas vezes porque estava sonolenta demais para prestar atenção no trânsito. Mesmo assim, continua fazendo isso porque “precisa” das substâncias para aguentar o dia.
– Exemplo 2: Bruno usa cocaína e, quando está sob efeito, gosta de nadar no mar à noite. Ele já quase se afogou uma vez porque perdeu a noção de onde estava e não conseguiu voltar para a praia. Mesmo assim, continua fazendo isso porque “a sensação é incrível”.
– Exemplo 3: Carla toma remédios para dormir e, quando não consegue dormir, mistura com álcool para “potencializar o efeito”. Ela já desmaiou duas vezes depois de fazer isso e precisou ser levada ao hospital. Mesmo assim, continua misturando as substâncias porque “não aguenta mais a insônia”.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já assumiu riscos em algum momento — como dirigir cansado ou nadar em um lugar desconhecido. A diferença é que, no transtorno, os riscos são frequentes e diretamente ligados ao uso das substâncias. Se Amanda, Bruno ou Carla conseguissem evitar situações perigosas mesmo usando as substâncias, não seria um problema. Mas quando o uso começa a colocar a vida em risco de forma recorrente, é um sinal de que a pessoa perdeu o controle.
9. Uso continuado apesar de problemas físicos ou psicológicos causados ou exacerbados pelas substâncias
O que significa: A pessoa continua usando as substâncias mesmo quando elas estão piorando sua saúde física ou mental. É como continuar comendo doces mesmo sabendo que está com diabetes: você sabe que faz mal, mas não consegue parar.
Como aparece no dia a dia:
– Exemplo 1: Ricardo usa anfetaminas para emagrecer e já desenvolveu pressão alta por causa disso. Mesmo assim, continua tomando os comprimidos porque “precisa” perder peso. Ele já teve uma crise de ansiedade tão forte que precisou ir ao hospital, mas voltou a usar no dia seguinte.
– Exemplo 2: Fernanda toma remédios para dormir e já desenvolveu problemas de memória por causa do uso prolongado. Ela esquece compromissos importantes, como consultas médicas e aniversários de familiares. Mesmo assim, continua tomando os remédios porque “não consegue dormir sem eles”.
– Exemplo 3: Tiago usa maconha e álcool para lidar com a depressão, mas as substâncias só pioram seu humor. Ele já tentou se matar duas vezes depois de noites de uso intenso, mas continua usando porque “não sabe lidar com a vida sem elas”.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já ignorou um problema de saúde em algum momento — como não ir ao médico por preguiça ou continuar comendo algo que faz mal. A diferença é que, no transtorno, os problemas de saúde são graves e diretamente ligados ao uso das substâncias. Se Ricardo, Fernanda ou Tiago conseguissem parar de usar as substâncias quando percebessem que estavam prejudicando sua saúde, não seria um problema. Mas quando o uso continua apesar de danos claros, é um sinal de que a dependência já está instalada.
10. Tolerância
O que significa: Com o tempo, a pessoa precisa de doses cada vez maiores das substâncias para sentir o mesmo efeito. É como aumentar o volume da música aos poucos: no começo, um volume baixo já é suficiente, mas depois de um tempo, você precisa aumentar cada vez mais para ouvir a mesma coisa.
Como aparece no dia a dia:
– Exemplo 1: João começou tomando meio comprimido de clonazepam para dormir. Hoje, ele toma dois comprimidos inteiros e ainda não consegue dormir direito. Ele já tentou aumentar a dose por conta própria, mas mesmo assim não sente o mesmo efeito de antes.
– Exemplo 2: Maria começou fumando um baseado por semana para relaxar. Hoje, ela fuma três por dia e ainda sente que não é suficiente. Ela já experimentou maconhas mais fortes e até misturou com álcool para “potencializar o efeito”.
– Exemplo 3: Pedro começou cheirando uma carreira de cocaína nos fins de semana. Hoje, ele cheira cinco carreiras por noite e ainda sente que “não bateu”. Ele já tentou usar mais vezes durante a semana, mas mesmo assim não sente a mesma euforia de antes.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já se acostumou com algo ao longo do tempo — como precisar de mais café para acordar ou aumentar o volume da TV porque a audição já não é mais a mesma. A diferença é que, no transtorno, a tolerância se desenvolve rapidamente e leva a pessoa a usar doses cada vez maiores, aumentando o risco de overdose e outros problemas de saúde. Se João, Maria ou Pedro conseguissem manter a mesma dose sem precisar aumentar, não seria um problema. Mas quando o corpo exige doses maiores para o mesmo efeito, é um sinal de que a dependência está se instalando.
11. Abstinência
O que significa: Quando a pessoa para ou reduz o uso das substâncias, ela passa por sintomas físicos e psicológicos desconfortáveis, como se o corpo estivesse “reclamando” pela falta da droga. É como quando você fica muito tempo sem comer e começa a sentir fraqueza, tremores e irritação — só que, nesse caso, os sintomas são causados pela falta da substância.
Como aparece no dia a dia:
– Exemplo 1: Ana toma remédios para dormir há anos. Quando tenta parar, começa a ter insônia, ansiedade, tremores e até alucinações. Ela já tentou reduzir a dose várias vezes, mas os sintomas são tão fortes que ela sempre volta a tomar o remédio.
– Exemplo 2: Carlos usa cocaína nos fins de semana. Durante a semana, ele fica deprimido, irritado e com dores no corpo. Ele já tentou ficar sem usar, mas os sintomas são tão intensos que ele sempre acaba recaindo.
– Exemplo 3: Beatriz fuma maconha todos os dias. Quando fica sem fumar por um dia, começa a sentir náuseas, suor frio e uma ansiedade tão grande que não consegue se concentrar em nada. Ela já tentou parar várias vezes, mas sempre volta a fumar para aliviar os sintomas.
Normal vs. Sintomático:
Todo mundo já sentiu desconforto ao parar de fazer algo que estava acostumado — como ficar irritado quando não toma café ou sentir fome quando pula uma refeição. A diferença é que, no transtorno, os sintomas de abstinência são intensos e específicos para cada substância, e muitas vezes só melhoram quando a pessoa volta a usar. Se Ana, Carlos ou Beatriz conseguissem parar de usar as substâncias sem sofrimento intenso, não seria um problema. Mas quando a abstinência causa sintomas físicos e psicológicos graves, é um sinal de que o corpo já está dependente.
Importante: Ter alguns desses sintomas não significa ter o diagnóstico
É normal se identificar com alguns desses exemplos — afinal, todo mundo já perdeu o controle em alguma situação ou sentiu vontade intensa de algo. O que diferencia um uso problemático de um transtorno é:
1. A quantidade de sintomas: Quanto mais sintomas a pessoa tiver, mais grave é o quadro.
2. A intensidade: Os sintomas são leves e passageiros ou intensos e persistentes?
3. A duração: Os sintomas duram algumas semanas ou vários meses?
4. O impacto na vida: Os sintomas estão prejudicando áreas importantes, como trabalho, relacionamentos ou saúde?
Por exemplo, uma pessoa que usa maconha e álcool ocasionalmente, sem prejuízos na vida, não tem um transtorno. Já alguém que usa várias substâncias diariamente, perde o emprego por causa disso e não consegue parar mesmo querendo, provavelmente tem. O diagnóstico só pode ser feito por um profissional de saúde mental, como um psiquiatra ou psicólogo, após uma avaliação detalhada.
Como se manifesta no dia a dia?
O transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias não afeta só a pessoa que usa as drogas ou remédios — ele se espalha como uma mancha de óleo, prejudicando todas as áreas da vida. Vamos ver como isso acontece na prática, com exemplos concretos de situações que pacientes e familiares costumam relatar.
No trabalho ou na escola
O uso de múltiplas substâncias costuma bagunçar completamente a rotina profissional ou acadêmica. A pessoa pode até conseguir “funcionar” por um tempo, mas com o passar dos meses, os prejuízos ficam impossíveis de ignorar.
Exemplos comuns:
– Chegar atrasado ou faltar com frequência: Muitos pacientes relatam que, depois de uma noite de uso intenso, não conseguem acordar para trabalhar ou estudar. Alguns inventam desculpas (“estou com dor de cabeça”, “peguei trânsito”), outros simplesmente somem e não dão satisfação. Com o tempo, os atrasos e faltas viram regra, não exceção.
– Queda no desempenho: A pessoa pode até estar presente fisicamente, mas sua produtividade cai muito. Quem usa estimulantes (como cocaína ou anfetaminas) pode começar com uma sensação de “superpoderes”, achando que está rendendo mais, mas depois de alguns dias, o cansaço e a falta de sono cobram o preço. Já quem usa depressores (como álcool ou remédios para ansiedade) costuma ter dificuldade para se concentrar, esquece prazos e comete erros bobos.
– Problemas com colegas ou chefes: O uso de substâncias pode deixar a pessoa mais irritada, impulsiva ou paranoica. Ela pode brigar por motivos banais, interpretar críticas como ataques pessoais ou até roubar dinheiro do trabalho para comprar drogas. Alguns pacientes relatam que, depois de um tempo, os colegas começam a evitá-los, e os chefes dão “toques” ou ameaçam demitir.
– Perda do emprego ou reprovação na escola: Muitos pacientes só buscam ajuda depois de serem demitidos ou reprovados. Alguns tentam esconder o problema por vergonha, outros assumem um tom de “não me importo”, mas por dentro estão arrasados. Infelizmente, é comum que a pessoa só perceba a gravidade da situação quando já perdeu coisas importantes.
História real (nomes alterados):
Lucas, 28 anos, trabalhava como vendedor em uma loja de eletrônicos. Ele usava cocaína para aguentar os turnos longos e álcool para relaxar depois do trabalho. No começo, conseguia manter as aparências, mas com o tempo, começou a chegar atrasado, esquecer de fechar vendas e até discutir com clientes. Seu chefe deu vários avisos, mas ele sempre prometia melhorar — até que foi demitido. Depois disso, Lucas passou meses desempregado, usando ainda mais drogas para “aliviar a frustração”. Só procurou ajuda quando sua namorada ameaçou terminar o relacionamento.
Nos relacionamentos
Os relacionamentos são uma das áreas mais afetadas por esse transtorno. As substâncias podem mudar a personalidade da pessoa, deixando-a mais distante, agressiva ou imprevisível. Com o tempo, familiares e amigos começam a se afastar, e a pessoa pode acabar isolada.
Exemplos comuns:
– Brigas frequentes: Muitos pacientes relatam que, quando estão sob efeito das substâncias, ficam mais irritados, ciumentos ou paranoicos. Uma palavra mal interpretada pode virar uma discussão feia, e o que antes era uma briga passageira vira um padrão constante. Alguns pacientes dizem coisas horríveis para as pessoas que amam e depois se arrependem, mas no momento não conseguem se controlar.
– Mentiras e segredos: Para esconder o uso das substâncias, a pessoa começa a mentir sobre onde está, com quem está e o que está fazendo. Alguns pacientes inventam histórias elaboradas (“fui assaltado”, “tive que ajudar um amigo”), outros simplesmente somem por horas ou dias. Com o tempo, as mentiras se acumulam, e a confiança vai embora.
– Isolamento: A pessoa pode começar a evitar encontros familiares, festas ou até conversas com amigos porque “não está no clima”. Na verdade, ela está usando as substâncias sozinha ou tem vergonha de ser descoberta. Alguns pacientes relatam que se sentem como “fantasmas” — estão fisicamente presentes, mas emocionalmente distantes.
– Manipulação: Em casos mais graves, a pessoa pode começar a manipular familiares e amigos para conseguir dinheiro ou favores. Alguns pacientes pedem “empréstimos” que nunca pagam, outros chantageiam emocionalmente (“se você me ama, me ajuda”). Infelizmente, muitos familiares caem nessa armadilha por amor, mas acabam se machucando.
História real (nomes alterados):
Mariana, 35 anos, era casada e tinha dois filhos pequenos. Ela usava remédios para ansiedade e álcool para “relaxar”. No começo, seu marido não se importava, mas com o tempo, ela começou a ficar agressiva quando bebia. Uma vez, quebrou a televisão durante uma briga e assustou as crianças. Seu marido tentou ajudá-la, mas ela negava que tinha um problema. As brigas ficaram cada vez mais frequentes, até que ele pediu o divórcio. Mariana só procurou ajuda quando percebeu que estava perdendo a guarda dos filhos.
Na rotina
A rotina de uma pessoa com esse transtorno costuma ser caótica. As substâncias bagunçam o sono, a alimentação, o autocuidado e até os momentos de lazer. Com o tempo, a pessoa pode se sentir como se estivesse vivendo em um “piloto automático”, onde o único objetivo é conseguir e usar as substâncias.
Exemplos comuns:
– Sono desregulado: Quem usa estimulantes (como cocaína ou anfetaminas) pode passar dias sem dormir, enquanto quem usa depressores (como álcool ou remédios para ansiedade) pode dormir demais. Alguns pacientes relatam que seu “relógio biológico” fica completamente bagunçado — dormem de dia, ficam acordados de noite e nunca se sentem descansados.
– Alimentação irregular: Muitas substâncias tiram o apetite (como a cocaína) ou aumentam a vontade de comer besteiras (como a maconha). Alguns pacientes pulam refeições, outros comem só porcarias. Com o tempo, a saúde física piora: alguns emagrecem demais, outros engordam, e muitos desenvolvem problemas como gastrite ou diabetes.
– Falta de autocuidado: A pessoa pode parar de tomar banho, escovar os dentes ou trocar de roupa. Alguns pacientes relatam que se sentem “desconectados do corpo” e não conseguem cuidar de si mesmos. Outros simplesmente não têm energia para isso.
– Lazer prejudicado: Atividades que antes davam prazer (como ler, praticar esportes ou sair com amigos) perdem a graça. A pessoa pode até tentar manter seus hobbies, mas não consegue se concentrar ou se divertir. Com o tempo, o único “lazer” que resta é usar as substâncias.
História real (nomes alterados):
Rafael, 22 anos, era um jovem saudável que adorava correr e jogar futebol. Depois que começou a usar maconha e remédios para dormir, sua rotina virou de cabeça para baixo. Ele parou de fazer exercícios, passou a dormir de dia e ficar acordado de noite, e sua alimentação se resumia a lanches gordurosos. Em poucos meses, ganhou 15 quilos e desenvolveu pressão alta. Seus amigos tentaram ajudá-lo, mas ele se isolou. Só procurou ajuda quando teve uma crise de ansiedade tão forte que precisou ser internado.
Na saúde física
O uso de múltiplas substâncias cobra um preço alto do corpo. Cada substância afeta o organismo de um jeito, e quando elas são combinadas, os riscos aumentam. Alguns problemas são reversíveis com o tratamento, mas outros podem deixar sequelas permanentes.
Problemas comuns:
– Coração: O uso de cocaína, anfetaminas e até mesmo álcool em excesso pode causar arritmias, pressão alta e até infartos. Alguns pacientes relatam que sentem o coração “disparar” depois de usar certas substâncias.
– Fígado: O álcool e alguns remédios (como o paracetamol em doses altas) podem causar hepatite ou cirrose. Alguns pacientes descobrem que têm problemas no fígado só quando já estão em estágios avançados.
– Pulmões: Fumar maconha ou crack pode causar bronquite, enfisema e até câncer de pulmão. Alguns pacientes tossem muito, têm falta de ar e desenvolvem infecções respiratórias frequentes.
– Cérebro: O uso prolongado de substâncias pode causar problemas de memória, dificuldade de concentração e até alterações permanentes na estrutura do cérebro. Alguns pacientes relatam que se sentem “mais burros” ou “mais lentos” depois de anos de uso.
– Sistema imunológico: Muitas substâncias enfraquecem as defesas do corpo, deixando a pessoa mais propensa a infecções. Alguns pacientes relatam que ficam doentes com mais frequência.
– Overdose: Quando se usa várias substâncias ao mesmo tempo, o risco de overdose aumenta muito. Por exemplo, misturar álcool com remédios para ansiedade pode causar parada respiratória. Alguns pacientes só percebem o perigo quando já passaram por uma overdose.
História real (nomes alterados):
Thiago, 30 anos, usava cocaína, álcool e remédios para dormir. Ele achava que “controlava” o uso, mas uma noite, depois de beber muito e tomar vários comprimidos, desmaiou e precisou ser levado ao hospital. Os médicos disseram que ele teve uma parada respiratória e que, se tivesse demorado mais para ser socorrido, poderia ter morrido. Thiago ficou internado por uma semana e, depois disso, decidiu buscar ajuda. Hoje, está em tratamento e não usa mais substâncias.
O que causa essa condição?
Entender as causas do transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias é como montar um quebra-cabeça: não existe uma única peça responsável, mas sim uma combinação de fatores que, juntos, aumentam o risco. Vamos explorar cada um deles de forma simples e com exemplos do dia a dia.
Fatores genéticos: “O vício corre na família?”
Imagine que o cérebro é como um computador, e os genes são o “sistema operacional” que vem instalado de fábrica. Algumas pessoas nascem com um sistema mais vulnerável a vícios — não porque sejam “fracas” ou “sem força de vontade”, mas porque seus cérebros reagem de forma diferente às substâncias.
Como isso funciona na prática:
– Histórico familiar: Se um ou ambos os pais têm problemas com álcool, drogas ou até mesmo jogo, os filhos têm um risco maior de desenvolver dependência. Isso não significa que vão desenvolver, mas que precisam ficar mais atentos. Por exemplo, uma pessoa que cresceu vendo o pai beber todos os dias pode ter mais dificuldade para perceber quando seu próprio uso de álcool está saindo do controle.
– Diferenças no cérebro: Alguns estudos mostram que pessoas com histórico familiar de dependência têm menos receptores de dopamina (o “hormônio do prazer”) no cérebro. Isso significa que elas podem sentir menos prazer com coisas simples da vida (como comer um chocolate ou assistir a um filme) e buscar substâncias para “compensar”.
– Exemplo real: João, 25 anos, sempre achou que “aguentava bem” o álcool porque seu pai bebia muito e nunca parecia bêbado. Quando começou a faculdade, João passou a beber todos os dias para “relaxar”. Em poucos meses, estava bebendo de manhã para “curar a ressaca” e usando cocaína para “ficar acordado”. Só quando perdeu o emprego é que percebeu que tinha um problema — e descobriu que seu avô também tinha sido alcoólatra.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Se meu pai era alcoólatra, eu também vou ser.”
✅ Verdade: Ter histórico familiar aumenta o risco, mas não é uma sentença. Muitas pessoas com predisposição genética nunca desenvolvem dependência, enquanto outras, sem histórico, acabam desenvolvendo. O que importa é como a pessoa lida com as substâncias e com os fatores de risco ao longo da vida.
Fatores neurobiológicos: “O que acontece no cérebro?”
O cérebro é como uma orquestra: vários instrumentos (neurônios) tocam juntos para produzir uma música harmoniosa. Quando uma pessoa usa substâncias psicoativas, é como se alguém começasse a tocar um instrumento fora do ritmo — no começo, pode até parecer interessante, mas com o tempo, a música vira uma bagunça.
Como as substâncias “sequestram” o cérebro:
1. Sistema de recompensa: Toda vez que fazemos algo prazeroso (como comer, transar ou receber um elogio), o cérebro libera dopamina, um neurotransmissor que nos faz sentir bem. As substâncias psicoativas “enganam” o cérebro, liberando quantidades muito maiores de dopamina do que o normal. Com o tempo, o cérebro se acostuma com esses picos e passa a “exigir” as substâncias para se sentir bem.
2. Tolerância: Como vimos antes, o cérebro se adapta às substâncias e passa a precisar de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito. É como aumentar o volume da música: no começo, um volume baixo já é suficiente, mas depois de um tempo, você precisa aumentar cada vez mais.
3. Dependência: Quando a pessoa para de usar as substâncias, o cérebro “reclama” e causa sintomas de abstinência (como ansiedade, tremores e depressão). É como se o cérebro tivesse esquecido como produzir prazer sem as substâncias.
4. Mudanças estruturais: O uso prolongado de substâncias pode causar alterações físicas no cérebro, como a redução de certas áreas (como o córtex pré-frontal, responsável pelo controle dos impulsos) e o aumento de outras (como a amígdala, responsável pelas emoções). Essas mudanças podem ser reversíveis com tratamento, mas em alguns casos, deixam sequelas permanentes.
Exemplo real:
Ana, 32 anos, começou a tomar remédios para ansiedade depois de um divórcio difícil. No começo, meio comprimido já era suficiente para acalmá-la. Com o tempo, precisou aumentar a dose para dois comprimidos, e depois começou a misturar com álcool para “potencializar o efeito”. Quando tentou parar, sentiu uma ansiedade tão grande que não conseguia sair de casa. Um exame de ressonância mostrou que seu cérebro tinha alterações semelhantes às de pessoas com depressão crônica. Ana só entendeu a gravidade do problema quando seu psiquiatra explicou que seu cérebro já não sabia mais funcionar sem as substâncias.
Analogia:
Imagine que seu cérebro é como um jardim. As substâncias são como ervas daninhas: no começo, são fáceis de arrancar, mas se você as deixa crescer, elas tomam conta de todo o espaço, sufocando as flores (as coisas que antes davam prazer). Com o tempo, o jardim fica feio e sem vida, e você precisa de ajuda para recuperá-lo.
Fatores ambientais: “O que está ao meu redor influencia?”
O ambiente em que uma pessoa vive é como o solo onde uma planta cresce: se o solo for fértil e bem cuidado, a planta tem mais chances de se desenvolver saudável. Mas se o solo for pobre ou contaminado, a planta pode crescer fraca ou doente. No caso do transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias, o “solo” inclui desde a família e os amigos até a escola, o trabalho e a comunidade.
Fatores de risco ambientais:
1. Família:
– Falta de apoio: Pessoas que crescem em famílias desestruturadas, com pais ausentes ou emocionalmente distantes, têm mais risco de buscar conforto nas substâncias.
– Exemplo: Pedro, 19 anos, cresceu em uma casa onde o pai era alcoólatra e a mãe trabalhava o dia todo. Ele se sentia sozinho e começou a fumar maconha com os amigos da escola para “pertencer a um grupo”. Com o tempo, passou a usar cocaína para “escapar” dos problemas em casa.
– Modelos negativos: Crianças que crescem vendo os pais ou irmãos usando substâncias têm mais chances de repetir o comportamento.
– Exemplo: Mariana, 22 anos, sempre viu sua mãe tomando remédios para dormir e seu irmão usando maconha. Quando começou a faculdade, achou “normal” misturar álcool com remédios para ansiedade.
- Amigos e grupos sociais:
- Pressão do grupo: Adolescentes e jovens adultos são especialmente vulneráveis à pressão dos amigos. Se o grupo usa substâncias, a pessoa pode se sentir pressionada a fazer o mesmo para “pertencer”.
- Exemplo: Lucas, 17 anos, nunca tinha usado drogas, mas quando entrou em uma turma nova na escola, todos fumavam maconha e cheiravam cocaína. No começo, ele recusava, mas depois de alguns meses, começou a usar para “não ficar de fora”.
- Isolamento: Por outro lado, pessoas que se sentem isoladas ou rejeitadas podem usar substâncias para “preencher o vazio”.
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Exemplo: Beatriz, 28 anos, se mudou para uma cidade nova e não conseguiu fazer amigos. Ela começou a beber sozinha em casa para “aliviar a solidão”. Com o tempo, passou a misturar álcool com remédios para dormir.
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Escola e trabalho:
- Estresse: Ambientes muito competitivos ou estressantes podem levar as pessoas a usar substâncias para “aguentar a pressão”.
- Exemplo: Carlos, 35 anos, trabalhava em uma empresa onde os funcionários eram constantemente pressionados a bater metas. Ele começou a usar cocaína para “render mais” e álcool para “relaxar” depois do expediente. Em poucos meses, estava usando as duas substâncias diariamente.
- Bullying ou assédio: Pessoas que sofrem bullying na escola ou assédio no trabalho podem usar substâncias para “escapar” da dor emocional.
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Exemplo: Fernanda, 16 anos, era constantemente zoada na escola por ser gorda. Ela começou a fumar maconha para “esquecer” os comentários maldosos. Com o tempo, passou a usar remédios para emagrecer, mesmo sem receita.
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Comunidade e cultura:
- Disponibilidade de substâncias: Em comunidades onde as drogas são fáceis de conseguir, o risco de uso problemático é maior.
- Exemplo: Rafael, 20 anos, morava em uma região onde o tráfico de drogas era comum. Ele começou a usar maconha aos 14 anos porque “todo mundo usava”. Aos 18, já estava usando cocaína e crack.
- Normalização do uso: Em algumas culturas ou grupos sociais, o uso de substâncias é visto como “normal” ou até “desejável”.
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Exemplo: Juliana, 25 anos, trabalhava em uma empresa onde os funcionários saíam para beber todas as sextas-feiras. No começo, ela só tomava uma cerveja, mas com o tempo, passou a beber mais para “se enturmar”. Hoje, bebe todos os dias e já faltou ao trabalho várias vezes por causa da ressaca.
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Traumas e eventos estressantes:
- Abuso físico, sexual ou emocional: Pessoas que sofreram abuso na infância ou na vida adulta têm mais risco de usar substâncias para “anestesiar” a dor.
- Exemplo: Sofia, 30 anos, foi abusada sexualmente na adolescência. Ela começou a usar maconha para “esquecer” o que aconteceu. Com o tempo, passou a usar cocaína e remédios para ansiedade para “controlar os ataques de pânico”.
- Perda de entes queridos: A morte de um familiar ou amigo próximo pode levar ao uso de substâncias como forma de luto.
- Exemplo: Thiago, 40 anos, perdeu a esposa em um acidente de carro. Ele começou a beber para “aliviar a dor”. Com o tempo, passou a misturar álcool com remédios para dormir. Hoje, não consegue mais trabalhar e vive de favor na casa da mãe.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Pessoas que usam drogas são fracas e não têm força de vontade.”
✅ Verdade: O uso problemático de substâncias é influenciado por uma combinação de fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais. Ninguém escolhe ter um transtorno — assim como ninguém escolhe ter diabetes ou depressão. Culpar a pessoa só aumenta o estigma e dificulta o tratamento.
Fatores da gestação e desenvolvimento: “O que aconteceu antes de eu nascer?”
Alguns fatores que aumentam o risco de desenvolver um transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias começam antes mesmo do nascimento. É como se o “sistema operacional” do cérebro já viesse com alguns “defeitos de fábrica”.
Fatores de risco:
1. Exposição a substâncias na gestação:
– Bebês cujas mães usaram álcool, tabaco, maconha ou outras drogas durante a gravidez podem ter alterações no desenvolvimento do cérebro. Essas alterações podem aumentar o risco de problemas de atenção, impulsividade e dependência na vida adulta.
– Exemplo: Gabriel, 22 anos, foi exposto ao álcool e à cocaína durante a gestação. Ele sempre teve dificuldade para se concentrar na escola e, na adolescência, começou a usar maconha para “acalmar a cabeça”. Hoje, usa várias substâncias e já foi diagnosticado com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade).
- Complicações no parto:
- Falta de oxigênio durante o parto ou outras complicações podem causar danos cerebrais que aumentam o risco de problemas de saúde mental, incluindo dependência.
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Exemplo: Letícia, 28 anos, teve uma complicação no parto e ficou alguns minutos sem oxigênio. Ela sempre foi mais impulsiva que os irmãos e, na adolescência, começou a usar drogas para “se sentir aceita”. Hoje, está em tratamento para dependência química e transtorno bipolar.
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Traumas na primeira infância:
- Crianças que sofrem negligência, abuso ou separação dos pais nos primeiros anos de vida têm mais risco de desenvolver problemas emocionais e comportamentais, incluindo o uso problemático de substâncias.
- Exemplo: Rafael, 35 anos, foi abandonado pela mãe aos 3 anos e passou a infância em abrigos. Ele começou a cheirar cola aos 10 anos para “esquecer a fome”. Hoje, usa crack e já esteve várias vezes em situação de rua.
Mito vs. Verdade:
❌ Mito: “Se meu filho foi exposto a drogas na gestação, ele vai ser um dependente químico.”
✅ Verdade: A exposição a substâncias na gestação aumenta o risco, mas não determina o futuro da criança. Muitos fatores influenciam o desenvolvimento, incluindo o ambiente em que a criança cresce e o apoio que recebe. Com acompanhamento adequado, é possível minimizar os riscos e promover um desenvolvimento saudável.
Modelo biopsicossocial: “Por que é sempre uma combinação de fatores?”
O modelo biopsicossocial é como uma receita de bolo: para que o bolo fique bom, você precisa dos ingredientes certos (fatores biológicos), da técnica certa (fatores psicológicos) e do forno na temperatura certa (fatores sociais). Se um desses elementos estiver faltando ou desequilibrado, o bolo pode desandar — assim como a saúde mental.
Como os fatores se combinam:
1. Biológicos (o “hardware”):
– Genética, neuroquímica, saúde física e desenvolvimento cerebral.
– Exemplo: Uma pessoa com histórico familiar de dependência (fator biológico) pode ter um cérebro mais vulnerável às substâncias.
- Psicológicos (o “software”):
- Personalidade, emoções, traumas, crenças e habilidades de enfrentamento.
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Exemplo: Uma pessoa com baixa autoestima (fator psicológico) pode usar substâncias para “se sentir melhor” consigo mesma.
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Sociais (o “ambiente”):
- Família, amigos, escola, trabalho, cultura e comunidade.
- Exemplo: Uma pessoa que cresce em um ambiente onde o uso de drogas é normalizado (fator social) pode achar que “todo mundo usa” e não perceber os riscos.
Exemplo real:
Marcos, 26 anos, tem histórico familiar de alcoolismo (fator biológico), sofreu bullying na escola (fator psicológico) e mora em uma comunidade onde o tráfico de drogas é comum (fator social). Ele começou a beber na adolescência para “esquecer” os problemas e, com o tempo, passou a usar cocaína para “aguentar” os turnos longos no trabalho. Hoje, usa várias substâncias diariamente e já perdeu o emprego duas vezes por causa disso. Marcos só entendeu a gravidade do problema quando um psiquiatra explicou que seu transtorno era resultado de uma combinação de fatores — e que o tratamento precisaria abordar todos eles.
Analogia:
Imagine que o transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias é como um incêndio em uma floresta. Para que o incêndio comece, você precisa de três coisas:
1. Combustível (fatores biológicos): Árvores secas, folhas no chão.
2. Faísca (fatores psicológicos): Um cigarro aceso, um raio.
3. Vento (fatores sociais): Um dia seco, falta de chuva.
Se você tirar qualquer um desses elementos, o incêndio não começa. Da mesma forma, se você trabalhar em todos os fatores de risco, pode prevenir ou tratar o transtorno.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias pode ser assustador, mas também é o primeiro passo para entender o que está acontecendo e buscar ajuda. Vamos explicar como funciona o processo de avaliação, o que esperar da primeira consulta e como o médico diferencia esse transtorno de outras condições.
O processo de avaliação: passo a passo
O diagnóstico não é feito com um único exame ou pergunta — é como montar um quebra-cabeça, onde cada peça (sintoma, histórico, exames) ajuda a formar o quadro completo. O processo costuma seguir estes passos:
1. Primeira consulta: a conversa inicial
A primeira consulta é como uma entrevista detalhada, onde o profissional (psiquiatra, psicólogo ou médico de família) vai fazer perguntas para entender:
– O padrão de uso: Quais substâncias a pessoa usa, com que frequência, em que quantidade e há quanto tempo.
– Exemplo de pergunta: “Você consegue me contar como é um dia típico seu em relação ao uso de remédios ou drogas?”
– Os sintomas: Como o uso afeta a vida da pessoa (trabalho, relacionamentos, saúde).
– Exemplo de pergunta: “Você já deixou de fazer algo importante por causa do uso de substâncias?”
– O histórico familiar: Se há casos de dependência química, depressão, ansiedade ou outros transtornos mentais na família.
– Exemplo de pergunta: “Alguém na sua família já teve problemas com álcool, drogas ou saúde mental?”
– O histórico pessoal: Traumas, eventos estressantes, doenças físicas ou mentais.
– Exemplo de pergunta: “Você já passou por alguma situação muito difícil na vida, como abuso, perda de um ente querido ou acidente?”
Dica para pacientes e familiares:
Não tenha vergonha de contar a verdade. O profissional não está ali para julgar, mas para ajudar. Se você omitir informações por medo ou vergonha, o diagnóstico pode ficar incompleto e o tratamento menos eficaz.
2. Exames físicos e laboratoriais
Dependendo das substâncias usadas, o médico pode pedir exames para avaliar a saúde física da pessoa. Alguns exemplos:
– Exames de sangue: Para verificar danos no fígado (como hepatite ou cirrose), nos rins, no coração ou para detectar a presença de substâncias no organismo.
– Exames de urina: Para confirmar o uso recente de drogas (como maconha, cocaína ou opioides).
– Exames de imagem: Em casos mais graves, o médico pode pedir uma ressonância magnética ou tomografia para avaliar danos no cérebro.
– Avaliação cardiológica: Se a pessoa usa estimulantes (como cocaína ou anfetaminas), o médico pode pedir um eletrocardiograma para verificar o risco de arritmias ou infarto.
Exemplo real:
Joana, 38 anos, procurou ajuda porque estava usando remédios para ansiedade e álcool diariamente. Seu médico pediu exames de sangue e descobriu que seu fígado estava inflamado (hepatite alcoólica). Ele explicou que, se ela não parasse de beber, poderia desenvolver cirrose. Joana ficou assustada e decidiu se tratar.
3. Avaliação psicológica
Além da conversa inicial, o profissional pode aplicar questionários ou escalas para avaliar:
– A gravidade do transtorno: Quão intenso é o uso e como ele afeta a vida da pessoa.
– Exemplo de escala: O AUDIT (para álcool) ou o DAST (para drogas) são questionários que ajudam a medir o risco de dependência.
– Outros transtornos mentais: Muitas pessoas com transtorno devido ao uso de substâncias também têm depressão, ansiedade, bipolaridade ou transtorno de personalidade. Esses transtornos podem ser a causa do uso (a pessoa usa para “aliviar” os sintomas) ou a consequência (o uso piora os sintomas).
– Exemplo: Uma pessoa com depressão pode usar cocaína para “sentir algo”, mas a droga acaba piorando a depressão a longo prazo.
– Motivação para o tratamento: O profissional pode avaliar se a pessoa está pronta para mudar e quais são suas principais dificuldades.
– Exemplo de pergunta: “Em uma escala de 0 a 10, o quanto você está motivado para parar de usar essas substâncias?”
4. Diagnóstico diferencial: “Será que é outra coisa?”
O médico precisa descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes. Por exemplo:
– Depressão ou ansiedade: Às vezes, os sintomas de abstinência (como tristeza, irritabilidade ou insônia) podem ser confundidos com depressão ou ansiedade. O médico vai avaliar se os sintomas melhoram quando a pessoa para de usar as substâncias.
– Transtorno bipolar: Os episódios de euforia causados por estimulantes (como cocaína) podem ser confundidos com mania. O médico vai investigar se a pessoa tem histórico de episódios de humor sem relação com o uso de substâncias.
– Esquizofrenia ou transtorno psicótico: Algumas substâncias (como maconha ou alucinógenos) podem causar alucinações ou delírios. O médico vai avaliar se os sintomas persistem mesmo depois que a pessoa para de usar.
– Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): Pessoas com TDAH podem usar substâncias para “se acalmar” ou “se concentrar”. O médico vai investigar se os sintomas de desatenção e impulsividade já existiam antes do uso.
Exemplo real:
Pedro, 25 anos, procurou ajuda porque estava ouvindo vozes e tendo paranoia. Ele usava maconha diariamente e achava que as vozes eram “mensagens secretas”. O psiquiatra investigou e descobriu que Pedro tinha um histórico familiar de esquizofrenia. Ele explicou que a maconha pode desencadear psicose em pessoas predispostas e que Pedro precisava parar de usar a droga e tratar a esquizofrenia.
5. Chegada ao diagnóstico
Depois de juntar todas as informações, o profissional vai comparar os sintomas da pessoa com os critérios do CID-11 ou do DSM-5. Para receber o diagnóstico de transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias, a pessoa precisa:
1. Ter usado duas ou mais substâncias de forma problemática.
2. Apresentar pelo menos dois dos sintomas listados na seção “Quais são os sintomas?” (como tolerância, abstinência, uso descontrolado, etc.).
3. Ter esses sintomas por pelo menos 12 meses (em casos graves, o diagnóstico pode ser feito antes).
4. Ter prejuízos significativos na vida (trabalho, relacionamentos, saúde).
Exemplo de diagnóstico:
“Maria, 32 anos, apresenta transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias psicoativas (CID-11: 6C4F), caracterizado pelo uso problemático de álcool e benzodiazepínicos (clonazepam) há 3 anos. Apresenta tolerância, abstinência, uso descontrolado, fissura e prejuízos no trabalho e nos relacionamentos. Também preenche critérios para transtorno de ansiedade generalizada (CID-11: 6A00), que parece ter precedido o uso das substâncias.”
Quanto tempo leva para ser diagnosticado?
Não existe um prazo exato, mas o processo costuma levar:
– De 1 a 3 consultas: Para coletar todas as informações e fazer os exames necessários.
– De algumas semanas a meses: Se a pessoa estiver em crise (como uma overdose ou psicose), o diagnóstico pode ser feito mais rápido. Se os sintomas forem leves, o profissional pode acompanhar a pessoa por um tempo antes de confirmar o diagnóstico.
Exemplo real:
Lucas, 28 anos, procurou ajuda porque estava usando cocaína e álcool diariamente. Na primeira consulta, o psiquiatra suspeitou de transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias, mas pediu que Lucas voltasse em duas semanas para avaliar se os sintomas persistiam. Nesse período, Lucas tentou reduzir o uso por conta própria, mas não conseguiu. Na segunda consulta, o diagnóstico foi confirmado.
Quem pode diagnosticar?
No Brasil, os profissionais capacitados para diagnosticar transtornos mentais são:
1. Psiquiatras: Médicos especializados em saúde mental. Eles podem fazer o diagnóstico, prescrever medicamentos e encaminhar para outros tratamentos.
2. Psicólogos: Profissionais da psicologia que podem fazer a avaliação psicológica e encaminhar para um psiquiatra se necessário. No Brasil, psicólogos não podem prescrever medicamentos.
3. Médicos de família ou clínicos gerais: Em cidades pequenas ou onde não há psiquiatras, esses profissionais podem fazer o diagnóstico inicial e encaminhar para tratamento.
Dica:
Se você suspeita que tem esse transtorno, procure um psiquiatra ou um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Os CAPS são serviços públicos gratuitos que oferecem atendimento especializado para pessoas com transtornos mentais e dependência química.
SUS vs. particular: como funciona no Brasil?
No Brasil, você pode buscar ajuda tanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) quanto pelo sistema particular. Vamos ver como funciona cada um:
SUS (gratuito)
- Primeiro passo: Procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Estratégia Saúde da Família (ESF) perto da sua casa. Lá, um médico de família ou enfermeiro pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar você para um CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas).
- CAPS AD: É o serviço especializado em dependência química. Lá, você será atendido por uma equipe multiprofissional (psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros) e poderá participar de grupos terapêuticos, oficinas e atividades de reinserção social.
- Internação: Se necessário, o CAPS pode encaminhar você para uma internação em hospital psiquiátrico ou comunidade terapêutica. A internação pelo SUS é gratuita, mas pode ter fila de espera.
- Medicamentos: Os remédios para tratar a dependência química (como a naltrexona para álcool ou a metadona para opioides) são fornecidos gratuitamente pelo SUS.
Vantagens do SUS:
– Gratuito.
– Atendimento multiprofissional (não é só o médico, mas uma equipe inteira).
– Acesso a medicamentos e internação sem custo.
Desvantagens do SUS:
– Fila de espera para consultas com psiquiatras (em algumas cidades, pode demorar meses).
– Falta de profissionais em algumas regiões (especialmente no Norte e Nordeste).
– Comunidades terapêuticas nem sempre são regulamentadas (algumas são religiosas e não seguem protocolos científicos).
Particular (pago)
- Primeiro passo: Procure um psiquiatra ou psicólogo particular. Você pode encontrar profissionais em clínicas, consultórios ou plataformas online (como o Doctoralia ou o Psicologia Viva).
- Avaliação: O profissional fará a avaliação e, se necessário, pedirá exames.
- Tratamento: Você poderá fazer psicoterapia, tomar medicamentos e, se necessário, ser internado em uma clínica particular.
- Planos de saúde: Alguns planos cobrem consultas com psiquiatras e psicólogos, mas nem todos cobrem internação ou medicamentos específicos.
Vantagens do particular:
– Atendimento mais rápido (você pode marcar uma consulta em poucos dias).
– Mais opções de profissionais e abordagens.
– Clínicas de internação geralmente oferecem mais conforto e privacidade.
Desvantagens do particular:
– Custo elevado (uma consulta com psiquiatra pode custar entre R$ 200 e R$ 600).
– Nem todos os planos de saúde cobrem tratamentos para dependência química.
– Algumas clínicas particulares não são regulamentadas e podem oferecer tratamentos sem comprovação científica.
Dica:
Se você não tem condições de pagar pelo tratamento particular, não desista! O SUS oferece atendimento de qualidade, e muitos pacientes se recuperam completamente com o tratamento público. O importante é buscar ajuda, não importa como.
O que esperar da primeira consulta?
A primeira consulta pode ser um pouco assustadora, especialmente se você nunca foi a um psiquiatra ou psicólogo antes. Mas não precisa se preocupar: o profissional está ali para ajudar, não para julgar. Veja o que costuma acontecer:
- Acolhimento: O profissional vai se apresentar e explicar como funciona a consulta. Ele pode começar com perguntas simples, como “Como você está se sentindo hoje?” ou “O que te trouxe aqui?”.
- Histórico: Ele vai perguntar sobre seu histórico de uso de substâncias, sua saúde física e mental, sua família, seu trabalho e sua rotina.
- Sintomas: Ele vai perguntar sobre os sintomas que você está sentindo (como fissura, abstinência, problemas no trabalho).
- Expectativas: Ele pode perguntar o que você espera do tratamento e quais são suas maiores dificuldades.
- Explicações: No final da consulta, o profissional vai explicar o que acha que está acontecendo e quais são as opções de tratamento. Ele também pode pedir exames ou encaminhar você para outros profissionais (como um psicólogo ou assistente social).
Dicas para a primeira consulta:
– Seja honesto: Não minimize ou exagere seus sintomas. O profissional precisa saber a verdade para ajudar.
– Leve um acompanhante: Se você se sentir mais seguro, leve um familiar ou amigo de confiança.
– Anote suas dúvidas: Antes da consulta, anote tudo o que você quer perguntar (como “Quanto tempo dura o tratamento?” ou “Quais são os efeitos colaterais dos remédios?”).
– Não tenha vergonha: O profissional já ouviu de tudo. Não há nada que você possa dizer que vá chocá-lo.
Exemplo real:
Carlos, 30 anos, foi à primeira consulta com um psiquiatra porque estava usando cocaína e álcool diariamente. Ele estava nervoso e achava que o médico ia “dar bronca” nele. Mas o psiquiatra foi muito acolhedor: ouviu sua história sem julgamentos, explicou que o cérebro dele estava “viciado” nas substâncias e disse que o tratamento ia ajudá-lo a retomar o controle da vida. Carlos saiu da consulta aliviado e com esperança.
Diagnóstico diferencial: “Será que não é outra coisa?”
Às vezes, os sintomas do transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias podem ser confundidos com outras condições. O médico precisa fazer o diagnóstico diferencial, ou seja, descartar outras possibilidades antes de confirmar o diagnóstico. Vamos ver algumas condições que podem ser confundidas:
1. Depressão ou ansiedade
- Semelhanças: Tristeza, irritabilidade, insônia, falta de energia.
- Diferenças: Na depressão ou ansiedade, esses sintomas não melhoram quando a pessoa para de usar as substâncias. Além disso, a depressão e a ansiedade costumam ter outras causas (como genética, traumas ou estresse).
- Exemplo: Mariana, 25 anos, procurou ajuda porque estava triste, sem energia e com dificuldade para dormir. Ela usava maconha para “relaxar”, mas os sintomas persistiam mesmo quando não usava. O psiquiatra investigou e descobriu que ela tinha depressão, não dependência química.
2. Transtorno bipolar
- Semelhanças: Oscilações de humor, impulsividade, comportamento de risco.
- Diferenças: No transtorno bipolar, os episódios de euforia (mania) e depressão não estão ligados ao uso de substâncias. Além disso, os episódios duram semanas ou meses, não horas ou dias.
- Exemplo: João, 35 anos, foi diagnosticado com transtorno bipolar porque tinha episódios de euforia e depressão. Mas o psiquiatra percebeu que os episódios de euforia só aconteciam quando ele usava cocaína. Quando João parou de usar a droga, os episódios de euforia desapareceram. O diagnóstico foi revisado para transtorno devido ao uso de cocaína.
3. Esquizofrenia ou transtorno psicótico
- Semelhanças: Alucinações, delírios, paranoia.
- Diferenças: Na esquizofrenia, os sintomas psicóticos persistem mesmo quando a pessoa para de usar as substâncias. Além disso, a esquizofrenia costuma ter outros sintomas, como dificuldade para organizar os pensamentos e falta de motivação.
- Exemplo: Pedro, 22 anos, começou a ouvir vozes depois de usar maconha. Ele achava que as vozes eram “mensagens secretas”. O psiquiatra investigou e descobriu que Pedro tinha um histórico familiar de esquizofrenia. Ele explicou que a maconha pode desencadear psicose em pessoas predispostas e que Pedro precisava parar de usar a droga e tratar a esquizofrenia.
4. Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)
- Semelhanças: Impulsividade, dificuldade de concentração, desorganização.
- Diferenças: No TDAH, esses sintomas já existiam antes do uso de substâncias. Além disso, o TDAH costuma ser diagnosticado na infância.
- Exemplo: Ana, 28 anos, sempre teve dificuldade para se concentrar na escola e no trabalho. Ela começou a usar cocaína para “ficar mais focada”, mas o psiquiatra percebeu que os sintomas de desatenção já existiam antes do uso da droga. O diagnóstico foi TDAH, e Ana começou a tomar medicamentos específicos para o transtorno.
5. Transtorno de personalidade borderline
- Semelhanças: Impulsividade, instabilidade emocional, comportamento autodestrutivo.
- Diferenças: No transtorno de personalidade borderline, os sintomas não estão ligados ao uso de substâncias. Além disso, o borderline costuma ter outros sintomas, como medo de abandono e relacionamentos instáveis.
- Exemplo: Juliana, 26 anos, tinha crises de raiva, se cortava e usava cocaína para “aliviar a dor”. O psiquiatra investigou e descobriu que ela tinha transtorno de personalidade borderline. Ele explicou que o uso de cocaína era uma forma de automedicação e que Juliana precisava de terapia específica para o borderline.
Tratamento
Receber o diagnóstico de transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias pode ser um baque, mas também é o primeiro passo para uma vida mais saudável e equilibrada. O tratamento não é uma “cura mágica”, mas um processo de reconstrução — como reformar uma casa que estava caindo aos pedaços. Pode levar tempo, exigir esforço e, às vezes, parecer que não está dando certo, mas com paciência e apoio, é possível recuperar o controle da própria vida.
O tratamento costuma ser multidisciplinar, ou seja, envolve vários profissionais e abordagens trabalhando juntos. Não existe uma “receita de bolo” que funcione para todo mundo, mas a combinação de medicamentos, psicoterapia e mudanças no dia a dia costuma dar os melhores resultados.
Medicamentos: “Remédios podem me ajudar a parar?”
Muitas pessoas têm medo de tomar medicamentos para tratar a dependência química, seja por preconceito (“remédio vicia”), seja por desinformação (“não quero trocar uma droga por outra”). Mas os medicamentos usados no tratamento são seguros, comprovados cientificamente e não causam dependência quando usados corretamente. Eles funcionam como “muletas” temporárias, ajudando o cérebro a se recuperar enquanto a pessoa aprende novas formas de lidar com a vida.
Vamos ver os principais tipos de medicamentos usados e como eles funcionam:
1. Medicamentos para reduzir a fissura (craving)
A fissura é aquele desejo intenso e quase incontrolável de usar a substância. É como quando você está com muita fome e só pensa em comida — só que, nesse caso, a “comida” é a droga ou o remédio. Alguns medicamentos ajudam a diminuir essa vontade, tornando mais fácil resistir ao impulso.
Exemplos:
– Naltrexona: Usada principalmente para álcool e opioides (como codeína, tramadol ou heroína). Ela bloqueia os receptores de opioides no cérebro, reduzindo a sensação de prazer causada pela substância. É como colocar um “tampão” nos botões de prazer do cérebro: mesmo que a pessoa use a substância, não vai sentir o mesmo efeito.
– Efeitos colaterais: Náusea, dor de cabeça, cansaço (geralmente leves e passageiros).
– Exemplo real: Marcos, 40 anos, bebia todos os dias e já tinha tentado parar várias vezes, mas sempre recaía. Seu psiquiatra receitou naltrexona, e em poucas semanas, Marcos percebeu que não sentia mais vontade de beber. “É como se o álcool tivesse perdido a graça”, ele disse.
– Acamprosato: Usado para álcool. Ele ajuda a estabilizar o cérebro depois de um período de abstinência, reduzindo a ansiedade e a fissura. É como um “regulador de humor” que ajuda o cérebro a voltar ao normal.
– Efeitos colaterais: Diarreia, coceira, dor de cabeça.
– Exemplo real: Ana, 35 anos, parou de beber depois de uma internação, mas sentia uma ansiedade tão grande que não conseguia dormir. Seu psiquiatra receitou acamprosato, e em duas semanas, ela já estava se sentindo mais calma e conseguindo dormir melhor.
– Bupropiona: Usada para nicotina e, em alguns casos, para cocaína. Ela aumenta os níveis de dopamina no cérebro, reduzindo a fissura. É como “enganar” o cérebro, fazendo-o pensar que já recebeu a substância.
– Efeitos colaterais: Boca seca, insônia, agitação.
– Exemplo real: Pedro, 28 anos, fumava maconha e cigarro há 10 anos. Ele tentou parar várias vezes, mas sempre recaía por causa da fissura. Seu psiquiatra receitou bupropiona, e em um mês, Pedro já não sentia mais vontade de fumar.
2. Medicamentos para aliviar a abstinência
Quando a pessoa para de usar uma substância, o corpo “reclama” e causa sintomas desconfortáveis (como ansiedade, tremores, insônia ou depressão). Alguns medicamentos ajudam a aliviar esses sintomas, tornando a abstinência mais suportável.
Exemplos:
– Benzodiazepínicos (como diazepam ou clonazepam): Usados para álcool e sedativos (como remédios para ansiedade). Eles ajudam a acalmar o sistema nervoso durante a abstinência, reduzindo a ansiedade, os tremores e o risco de convulsões. Mas atenção: Esses remédios podem causar dependência se usados por muito tempo, por isso são prescritos apenas por curtos períodos e com acompanhamento médico.
– Efeitos colaterais: Sonolência, tontura, confusão mental.
– Exemplo real: João, 50 anos, bebia todos os dias e decidiu parar depois de uma crise de pancreatite. Nos primeiros dias, ele teve tremores, suor frio e ansiedade tão forte que não conseguia dormir. Seu médico receitou diazepam por uma semana, e os sintomas melhoraram. Depois disso, João conseguiu ficar sem beber.
– Metadona ou buprenorfina: Usadas para opioides (como heroína, morfina ou analgésicos como codeína). Elas imitam o efeito dos opioides, mas de forma mais suave e controlada, reduzindo a fissura e os sintomas de abstinência. São usadas em programas de redução de danos, onde a pessoa recebe a medicação em doses controladas para evitar o uso de drogas ilícitas.
– Efeitos colaterais: Prisão de ventre, náusea, sonolência.
– Exemplo real: Carlos, 32 anos, usava heroína há 5 anos e já tinha tentado parar várias vezes, mas sempre recaía por causa da abstinência. Ele entrou em um programa de metadona e, aos poucos, conseguiu reduzir o uso da heroína. Hoje, ele toma metadona diariamente e está reconstruindo sua vida.
– Clonidina: Usada para opioides e álcool. Ela ajuda a reduzir os sintomas físicos da abstinência, como tremores, suor e pressão alta.
– Efeitos colaterais: Boca seca, tontura, sonolência.
– Exemplo real: Mariana, 26 anos, usava codeína e tramadol para dor crônica. Quando tentou parar, teve tremores, náusea e pressão alta. Seu médico receitou clonidina, e em poucos dias, os sintomas melhoraram.
3. Medicamentos para tratar transtornos associados
Muitas pessoas com transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias também têm outros transtornos mentais, como depressão, ansiedade, TDAH ou transtorno bipolar. Tratar esses transtornos é fundamental para o sucesso do tratamento da dependência, porque muitas vezes a pessoa usa as substâncias para “aliviar” os sintomas.
Exemplos:
– Antidepressivos (como fluoxetina, sertralina ou venlafaxina): Usados para depressão e ansiedade. Eles ajudam a estabilizar o humor e reduzir a vontade de usar substâncias para “se sentir melhor”.
– Efeitos colaterais: Náusea, dor de cabeça, insônia (geralmente leves e passageiros).
– Exemplo real: Beatriz, 30 anos, usava cocaína para “fugir” da depressão. Quando parou de usar, a depressão piorou, e ela quase recaiu. Seu psiquiatra receitou sertralina, e em algumas semanas, Beatriz já estava se sentindo mais disposta e menos tentada a usar a droga.
– Estabilizadores de humor (como lítio ou valproato): Usados para transtorno bipolar. Eles ajudam a controlar as oscilações de humor, reduzindo o risco de recaída.
– Efeitos colaterais: Ganho de peso, tremores, sede excessiva.
– Exemplo real: Thiago, 28 anos, tinha transtorno bipolar e usava álcool para “acalmar” os episódios de euforia. Quando parou de beber, os episódios de mania pioraram, e ele quase perdeu o emprego. Seu psiquiatra ajustou a dose de lítio, e Thiago conseguiu estabilizar o humor.
– Estimulantes (como metilfenidato ou lisdexanfetamina): Usados para TDAH. Eles ajudam a melhorar a concentração e o controle dos impulsos, reduzindo a necessidade de usar substâncias para “ficar ligado”.
– Efeitos colaterais: Insônia, perda de apetite, ansiedade.
– Exemplo real: Rafael, 22 anos, usava cocaína para “se concentrar” nos estudos. Ele descobriu que tinha TDAH e começou a tomar metilfenidato. Com o tempo, conseguiu parar de usar cocaína e melhorou seu desempenho na faculdade.
4. Medicamentos para prevenir recaídas
Alguns medicamentos são usados para prevenir recaídas, ou seja, para ajudar a pessoa a manter a abstinência a longo prazo.
Exemplos:
– Dissulfiram: Usado para álcool. Ele causa uma reação desagradável (como náusea, vômito e dor de cabeça) se a pessoa beber. É como um “alarme” que avisa: “Se você beber, vai passar mal”. Mas atenção: Esse remédio só funciona se a pessoa quiser parar de beber, porque ela pode simplesmente parar de tomá-lo.
– Efeitos colaterais: Gosto metálico na boca, cansaço, dor de cabeça.
– Exemplo real: Lucas, 45 anos, bebia todos os dias e já tinha tentado parar várias vezes, mas sempre recaía. Seu médico receitou dissulfiram, e Lucas decidiu tentar. Na primeira vez que bebeu depois de começar o remédio, passou mal e vomitou. Depois disso, ele conseguiu ficar meses sem beber.
– Nalmefeno: Usado para álcool. Ele reduz o prazer causado pelo álcool, tornando mais fácil controlar o consumo. Diferente do dissulfiram, ele não causa reações desagradáveis.
– Efeitos colaterais: Náusea, tontura, insônia.
– Exemplo real: Fernanda, 32 anos, não conseguia parar de beber depois do trabalho. Seu médico receitou nalmefeno, e em poucas semanas, ela percebeu que não sentia mais vontade de beber tanto. “Agora, consigo tomar só uma taça de vinho e parar”, ela disse.
Psicoterapia: “Falar sobre meus problemas vai me ajudar?”
A psicoterapia é uma parte fundamental do tratamento, porque ajuda a pessoa a entender por que usa as substâncias, a desenvolver novas formas de lidar com as emoções e a reconstruir sua vida sem depender das drogas ou remédios. É como aprender a dirigir: no começo, pode parecer difícil, mas com prática, você ganha confiança e autonomia.
Existem várias abordagens de psicoterapia, e o profissional vai escolher a que melhor se adapta às necessidades da pessoa. Vamos ver as principais:
1. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
A TCC é uma das abordagens mais usadas no tratamento da dependência química. Ela parte do princípio de que nossos pensamentos influenciam nossas emoções e comportamentos. Se a pessoa consegue identificar e mudar os pensamentos disfuncionais (como “Eu não consigo viver sem isso” ou “Todo mundo usa, por que eu não posso?”), ela consegue mudar também seus comportamentos.
Como funciona na prática:
– Identificação de gatilhos: O terapeuta ajuda a pessoa a identificar as situações, emoções ou pensamentos que desencadeiam o uso das substâncias. Por exemplo:
– Gatilho emocional: Estresse no trabalho → uso de cocaína para “aguentar”.
– Gatilho social: Encontro com amigos que usam → uso de álcool para “pertencer”.
– Gatilho físico: Insônia → uso de remédios para dormir.
– Técnicas de enfrentamento: A pessoa aprende novas formas de lidar com os gatilhos, como:
– Respiração profunda: Para lidar com a ansiedade.
– Distração: Fazer uma atividade prazerosa (como ouvir música ou caminhar) quando sentir vontade de usar.
– Reestruturação cognitiva: Mudar pensamentos como “Eu preciso disso para relaxar” para “Eu consigo relaxar de outras formas”.
– Prevenção de recaídas: A pessoa aprende a identificar os sinais de alerta de uma recaída (como isolamento, irritabilidade ou fissura intensa) e a criar um plano de ação para evitá-la.
Exemplo real:
Carlos, 30 anos, usava cocaína sempre que se sentia estressado no trabalho. Na TCC, ele identificou que seu gatilho era a sensação de “não dar conta” das tarefas. O terapeuta ensinou técnicas de respiração e organização do tempo para lidar com o estresse. Carlos também criou um “plano B”: sempre que sentisse vontade de usar, ligaria para um amigo ou faria uma caminhada. Com o tempo, ele conseguiu reduzir o uso da cocaína e, depois, parar completamente.
Duração:
A TCC costuma ser breve e focada no problema, com duração de 12 a 24 sessões (uma vez por semana). Em casos mais graves, pode ser necessário um tratamento mais longo.
2. Entrevista Motivacional (EM)
A Entrevista Motivacional é uma abordagem gentil e colaborativa, que ajuda a pessoa a encontrar sua própria motivação para mudar. Ela parte do princípio de que a mudança só acontece quando a pessoa está pronta, e o terapeuta atua como um “facilitador”, ajudando a pessoa a explorar suas ambivalências (como “Eu quero parar, mas não consigo”).
Como funciona na prática:
– Expressão de empatia: O terapeuta ouve sem julgar e valida os sentimentos da pessoa. Por exemplo:
– Paciente: “Eu sei que preciso parar, mas não consigo. Sou um fracasso.”
– Terapeuta: “Parece que você está se cobrando muito. É normal sentir dificuldade para mudar algo que faz parte da sua vida há tanto tempo.”
– Desenvolvimento de discrepância: O terapeuta ajuda a pessoa a identificar a diferença entre seus valores e seus comportamentos. Por exemplo:
– Terapeuta: “Você disse que quer ser um bom pai. Como o uso de álcool tem afetado isso?”
– Paciente: “Eu já cheguei bêbado em casa e assustei meus filhos. Não quero que eles me vejam assim.”
– Evitar argumentação: O terapeuta não confronta a pessoa, mas a ajuda a encontrar seus próprios argumentos para mudar. Por exemplo:
– Terapeuta: “O que você acha que ganharia se parasse de usar?”
– Paciente: “Eu teria mais dinheiro, mais saúde e meus filhos confiariam em mim de novo.”
– Apoio à autoeficácia: O terapeuta reforça a confiança da pessoa em sua capacidade de mudar. Por exemplo:
– Terapeuta: “Você já conseguiu ficar uma semana sem usar. Isso mostra que você tem força de vontade.”
Exemplo real:
Mariana, 25 anos, usava maconha e remédios para ansiedade diariamente. Ela sabia que precisava parar, mas não conseguia. Na Entrevista Motivacional, o terapeuta a ajudou a explorar suas ambivalências: “Eu quero parar, mas tenho medo de não conseguir lidar com a ansiedade”. Mariana percebeu que seu maior medo era “ficar sozinha” sem as substâncias. O terapeuta a ajudou a encontrar outras formas de lidar com a ansiedade (como terapia e exercícios) e a construir uma rede de apoio. Depois de algumas sessões, Mariana conseguiu reduzir o uso e, depois, parar completamente.
Duração:
A Entrevista Motivacional costuma ser breve, com duração de 4 a 6 sessões. Ela pode ser usada sozinha ou combinada com outras abordagens, como a TCC.
3. Terapia de Grupo
A terapia de grupo é um espaço onde várias pessoas com o mesmo problema se reúnem para compartilhar experiências, dar e receber apoio. É como um “time” onde todos estão lutando pela mesma coisa: a recuperação.
Como funciona na prática:
– Compartilhamento de experiências: Cada pessoa tem a oportunidade de falar sobre suas dificuldades e conquistas. Isso ajuda a reduzir o sentimento de isolamento e a perceber que “não está sozinha”.
– Exemplo: “Eu achei que era a única que sentia vontade de usar quando estava estressada. Depois que ouvi outras pessoas falando a mesma coisa, me senti mais normal.”
– Aprendizado com os outros: As pessoas aprendem umas com as outras, trocando dicas e estratégias para lidar com os desafios.
– Exemplo: “Uma pessoa do grupo me ensinou a técnica do ‘5 minutos’: quando sinto vontade de usar, espero 5 minutos e faço outra coisa. Isso já me ajudou várias vezes.”
– Feedback construtivo: Os participantes dão feedback uns aos outros, ajudando a identificar padrões de comportamento e a encontrar soluções.
– Exemplo: “No começo, eu não percebia que estava me isolando. Foi o grupo que me alertou, e isso me ajudou a buscar mais apoio.”
– Responsabilização: O grupo ajuda a pessoa a se comprometer com a mudança, porque ela sabe que será questionada nas próximas sessões.
– Exemplo: “Eu prometi ao grupo que não usaria no fim de semana, e isso me deu força para resistir à tentação.”
Exemplo real:
João, 35 anos, participava de um grupo de terapia para dependentes de álcool. No começo, ele tinha vergonha de falar, mas com o tempo, se sentiu à vontade para compartilhar suas dificuldades. Em uma sessão, ele contou que tinha recaído depois de uma briga com a esposa. Os outros participantes o apoiaram e compartilharam suas próprias experiências de recaída. João percebeu que a recaída fazia parte do processo e que não precisava desistir. Com o apoio do grupo, ele conseguiu retomar a abstinência.
Duração:
A terapia de grupo pode ser aberta (as pessoas entram e saem conforme necessário) ou fechada (um grupo fixo que se reúne por um período determinado, como 12 semanas). Ela pode ser usada sozinha ou combinada com terapia individual.
4. Terapia Familiar
A dependência química não afeta só a pessoa que usa as substâncias — ela afeta toda a família. A terapia familiar ajuda a melhorar a comunicação, a reduzir conflitos e a construir uma rede de apoio para a recuperação.
Como funciona na prática:
– Educação sobre a dependência: A família aprende o que é a dependência química, como ela afeta o cérebro e por que a pessoa não consegue simplesmente “parar”.
– Exemplo: “Eu achava que meu filho era fraco e não tinha força de vontade. Depois que entendi que a dependência é uma doença, consegui parar de culpá-lo e começar a ajudá-lo.”
– Melhoria da comunicação: A família aprende a se comunicar de forma mais assertiva, sem julgamentos ou críticas destrutivas.
– Exemplo: Antes: “Você é um irresponsável! Só pensa em beber!”
– Depois: “Eu fico preocupado quando você bebe, porque quero que você fique bem.”
– Estabelecimento de limites: A família aprende a definir limites saudáveis, sem cair em armadilhas como a codependência (quando a família “protege” a pessoa, permitindo que ela continue usando).
– Exemplo: “Eu não vou mais mentir para seu chefe quando você faltar ao trabalho por causa da bebida. Se você quiser mudar, eu te ajudo, mas não vou mais encobrir seus erros.”
– Planejamento da recuperação: A família ajuda a pessoa a criar um plano de recuperação, identificando gatilhos, estratégias de enfrentamento e metas.
– Exemplo: “Vamos fazer uma lista de atividades que você pode fazer quando sentir vontade de usar, como ligar para um amigo ou ir à academia.”
Exemplo real:
Ana, 40 anos, bebia todos os dias e já tinha tentado parar várias vezes, mas sempre recaía. Sua família estava cansada de “ajudar” (na verdade, encobrindo seus erros) e ameaçou abandoná-la. Ana e sua família começaram a terapia familiar, e aos poucos, conseguiram reconstruir a confiança. A família aprendeu a não “salvar” Ana quando ela bebia, e Ana aprendeu a pedir ajuda quando sentia vontade de beber. Com o apoio da família, ela conseguiu ficar abstinente por um ano.
Duração:
A terapia familiar costuma durar de 12 a 24 sessões, dependendo das necessidades da família. Ela pode ser usada sozinha ou combinada com terapia individual ou de grupo.
5. Terapias Complementares
Além das abordagens tradicionais, algumas terapias complementares podem ajudar no tratamento da dependência química. Elas não substituem a psicoterapia ou os medicamentos, mas podem ser um complemento útil.
Exemplos:
– Mindfulness (Atenção Plena): Ajuda a pessoa a viver o momento presente, reduzindo a ansiedade e a fissura. Técnicas como meditação e respiração consciente podem ser ensinadas em sessões individuais ou em grupos.
– Exemplo real: Pedro, 28 anos, usava cocaína para “escapar” dos pensamentos negativos. Na terapia de mindfulness, ele aprendeu a observar seus pensamentos sem julgamento e a lidar com a fissura sem ceder. “Agora, quando sinto vontade de usar, eu respiro e deixo a vontade passar, como uma onda”, ele disse.
– Terapia Ocupacional: Ajuda a pessoa a reconstruir sua rotina e a encontrar novas fontes de prazer e realização. Pode incluir atividades como arte, música, culinária ou esportes.
– Exemplo real: Mariana, 32 anos, usava maconha para “relaxar” depois do trabalho. Na terapia ocupacional, ela descobriu que adorava pintar e começou a fazer aulas de arte. “Pintar me dá a mesma sensação de paz que a maconha dava, mas sem os efeitos negativos”, ela disse.
– Grupos de Apoio (como Narcóticos Anônimos ou Alcoólicos Anônimos): São grupos de autoajuda onde as pessoas compartilham experiências e se apoiam mutuamente. Eles seguem o modelo dos “12 passos”, que inclui admitir o problema, buscar ajuda e fazer reparações.
– Exemplo real: Carlos, 45 anos, frequentava o AA (Alcoólicos Anônimos) há 5 anos. “No começo, eu achava que não precisava, mas hoje vejo que o grupo me salvou. Lá, eu encontro pessoas que entendem o que eu passo e me dão força para continuar”, ele disse.
Mudanças no dia a dia: “O que eu posso fazer para me ajudar?”
O tratamento não acontece só no consultório do médico ou do terapeuta — ele acontece no dia a dia. Pequenas mudanças na rotina podem fazer uma grande diferença na recuperação. Vamos ver algumas estratégias que ajudam:
1. Exercício físico: “Mexer o corpo ajuda a mente?”
O exercício físico é um dos melhores remédios para a dependência química. Ele ajuda a:
– Reduzir a fissura: O exercício libera endorfinas (substâncias naturais do cérebro que causam prazer), reduzindo a necessidade de usar substâncias.
– Melhorar o humor: Ajuda a combater a depressão e a ansiedade, que muitas vezes estão por trás do uso de substâncias.
– Regular o sono: Muitas pessoas com dependência química têm o sono bagunçado. O exercício ajuda a regular o relógio biológico, melhorando a qualidade do sono.
– Aumentar a autoestima: Ver o próprio corpo ficando mais forte e saudável dá uma sensação de realização e controle.
Dicas:
– Comece devagar: Não precisa virar atleta de uma hora para outra. Caminhadas de 30 minutos por dia já fazem diferença.
– Escolha algo que goste: Se você odeia correr, não adianta se forçar. Experimente dança, natação, musculação, artes marciais ou qualquer outra atividade que te dê prazer.
– Faça em grupo: Exercitar-se com amigos ou em uma aula coletiva aumenta a motivação e reduz o isolamento.
– Estabeleça metas: Comece com metas pequenas (como caminhar 3 vezes por semana) e vá aumentando aos poucos.
Exemplo real:
João, 30 anos, usava cocaína e álcool diariamente. Quando começou o tratamento, seu terapeuta sugeriu que ele experimentasse correr. No começo, João achou difícil, mas depois de algumas semanas, começou a sentir prazer na atividade. “Correr me dá uma sensação de euforia natural, sem precisar de drogas”, ele disse. Hoje, João corre maratonas e usa o esporte como uma forma de lidar com a fissura.
2. Sono: “Dormir bem faz diferença?”
O sono é fundamental para a recuperação. Quando dormimos, o cérebro se recupera, consolida memórias e regula as emoções. Muitas pessoas com dependência química têm o sono bagunçado — algumas dormem demais, outras de menos, e muitas têm insônia.
Dicas para melhorar o sono:
– Estabeleça uma rotina: Tente dormir e acordar sempre no mesmo horário, mesmo nos fins de semana.
– Evite estimulantes à noite: Café, chá preto, refrigerantes e nicotina podem atrapalhar o sono. Evite-os pelo menos 6 horas antes de dormir.
– Crie um ritual de relaxamento: Tome um banho quente, leia um livro ou ouça uma música calma antes de dormir.
– Evite telas antes de dormir: A luz azul dos celulares e computadores engana o cérebro, fazendo-o pensar que ainda é dia. Desligue as telas pelo menos 1 hora antes de dormir.
– Faça do quarto um ambiente tranquilo: Mantenha o quarto escuro, silencioso e em uma temperatura agradável.
– Evite cochilos longos durante o dia: Cochilos de até 20 minutos podem ser revigorantes, mas cochilos longos atrapalham o sono noturno.
Exemplo real:
Ana, 28 anos, usava remédios para dormir há 5 anos. Quando tentou parar, teve insônia por semanas. Seu médico recomendou que ela estabelecesse uma rotina de sono: jantar cedo, tomar um chá de camomila e ler um livro antes de dormir. Ana também começou a meditar por 10 minutos antes de deitar. Em um mês, seu sono melhorou, e ela conseguiu parar de usar os remédios.
3. Alimentação: “Comer bem ajuda na recuperação?”
Uma alimentação equilibrada ajuda o corpo a se recuperar dos danos causados pelas substâncias e melhora o humor e a energia. Muitas pessoas com dependência química têm uma alimentação desregulada — algumas comem demais, outras de menos, e muitas consomem apenas “besteiras”.
Dicas para uma alimentação saudável:
– Coma regularmente: Tente fazer 3 refeições principais (café da manhã, almoço e jantar) e 2 lanches saudáveis por dia. Isso ajuda a estabilizar o açúcar no sangue e reduz a fissura.
– Priorize alimentos naturais: Frutas, verduras, legumes, grãos integrais, proteínas magras (como frango, peixe e ovos) e gorduras boas (como abacate e azeite).
– Evite açúcar e alimentos ultraprocessados: Eles causam picos de açúcar no sangue, seguidos de quedas bruscas, o que pode aumentar a fissura e a irritabilidade.
– Beba água: A desidratação pode causar fadiga, dor de cabeça e confusão mental. Beba pelo menos 2 litros de água por dia.
– Suplementos (se necessário): Algumas pessoas com dependência química têm deficiências nutricionais (como falta de vitaminas do complexo B ou magnésio). Um nutricionista pode avaliar se você precisa de suplementos.
Exemplo real:
Pedro, 35 anos, usava cocaína e álcool diariamente. Ele costumava pular refeições e comer apenas lanches gordurosos. Quando começou o tratamento, seu nutricionista recomendou que ele comesse mais proteínas e verduras. Pedro também começou a tomar um suplemento de magnésio, porque tinha cãibras frequentes. Em poucas semanas, ele percebeu que tinha mais energia e menos fissura.
4. Rotina: “Ter uma rotina ajuda a não recair?”
Uma rotina estruturada ajuda a reduzir a ansiedade, a aumentar a sensação de controle e a evitar gatilhos. Quando a vida está bagunçada, é mais fácil cair na tentação de usar substâncias para “aliviar” o estresse.
Dicas para criar uma rotina saudável:
– Planeje o dia: Faça uma lista das tarefas do dia e tente cumpri-las. Isso ajuda a evitar a procrastinação e a reduzir a sensação de sobrecarga.
– Inclua atividades prazerosas: Reserve um tempo para fazer coisas que você gosta, como ler, ouvir música, passear ou praticar um hobby.
– Estabeleça horários fixos: Tente acordar, comer, trabalhar e dormir sempre nos mesmos horários. Isso ajuda o corpo a se regular.
– Evite o tédio: O tédio é um dos maiores gatilhos para a recaída. Mantenha-se ocupado com atividades produtivas ou prazerosas.
– Faça pausas: Trabalhar ou estudar sem parar pode aumentar o estresse. Faça pequenas pausas ao longo do dia para relaxar.
Exemplo real:
Mariana, 25 anos, usava maconha e remédios para ansiedade para “relaxar”. Quando começou o tratamento, sua vida estava completamente desorganizada: ela dormia de dia, ficava acordada de noite e não tinha horários para comer. Seu terapeuta a ajudou a criar uma rotina: acordar às 7h, tomar café da manhã, trabalhar até o meio-dia, almoçar, fazer uma caminhada, voltar ao trabalho e dormir às 22h. Mariana também incluiu atividades prazerosas, como pintar e sair com amigos. Em poucos meses, ela percebeu que não sentia mais tanta vontade de usar as substâncias.
5. Técnicas de manejo da fissura: “Como resistir à vontade de usar?”
A fissura é um dos maiores desafios da recuperação. Ela pode aparecer do nada, como uma onda gigante, e durar de alguns minutos a algumas horas. Mas existem técnicas para surfar essa onda sem cair na tentação.
Técnicas para lidar com a fissura:
– A técnica do “5 minutos”: Quando sentir vontade de usar, espere 5 minutos e faça outra coisa (como beber água, ligar para um amigo ou respirar profundamente). Na maioria das vezes, a fissura passa sozinha.
– Distração: Faça uma atividade que exija concentração, como um quebra-cabeça, um jogo no celular ou uma caminhada. Isso ajuda a “desviar” a atenção da fissura.
– Respiração profunda: Inspire profundamente pelo nariz (contando até 4), segure o ar (contando até 4) e expire pela boca (contando até 6). Repita até se sentir mais calmo.
– Visualização: Imagine a fissura como uma onda no mar. Ela vai crescer, atingir o pico e depois diminuir. Você não precisa lutar contra ela — basta esperar que ela passe.
– Lembre-se das consequências: Faça uma lista das coisas ruins que aconteceram por causa do uso das substâncias (como brigas, problemas de saúde ou perda de emprego) e leia sempre que sentir vontade de usar.
– Peça ajuda: Ligue para um amigo, um familiar ou um padrinho do AA/NA. Falar sobre a fissura ajuda a aliviar a pressão.
Exemplo real:
Carlos, 30 anos, usava cocaína diariamente. Quando começou o tratamento, a fissura era tão forte que ele quase desistiu. Seu terapeuta ensinou a técnica do “5 minutos”: sempre que sentia vontade de usar, Carlos esperava 5 minutos e fazia uma atividade (como ligar para um amigo ou tomar um banho). Com o tempo, ele percebeu que a fissura passava sozinha. “Hoje, quando sinto vontade, eu respiro e espero. A vontade vem, mas também vai”, ele disse.
6. Tecnologia assistiva: “Apps e dispositivos podem ajudar?”
Hoje em dia, existem vários aplicativos e dispositivos que podem ajudar na recuperação. Eles funcionam como “ferramentas extras” para lidar com a fissura, monitorar o progresso e se conectar com outras pessoas.
Exemplos de apps e dispositivos:
– Apps de meditação (como Headspace ou Calm): Ajudam a reduzir a ansiedade e a fissura através de meditações guiadas.
– Apps de acompanhamento (como Sober Time ou I Am Sober): Permitem que você acompanhe seu tempo de abstinência, veja estatísticas e receba mensagens de motivação.
– Apps de terapia (como Woebot ou Sanvello): Oferecem técnicas de TCC e apoio emocional 24 horas por dia.
– Dispositivos de monitoramento (como o SCRAM para álcool): São pulseiras ou tornozeleiras que monitoram o consumo de álcool através do suor. São usados em alguns programas de tratamento para ajudar a pessoa a manter a abstinência.
– Grupos online (como o Reddit/r/stopdrinking ou r/leaves): Comunidades virtuais onde as pessoas compartilham experiências e se apoiam mutuamente.
Exemplo real:
Ana, 28 anos, usava remédios para dormir e álcool. Ela baixou o app I Am Sober para acompanhar seu tempo de abstinência. Sempre que sentia vontade de usar, abria o app e lia as mensagens de motivação. “Ver que eu já tinha ficado 30 dias sem usar me dava força para continuar”, ela disse. Ana também participava de um grupo online de apoio, onde trocava experiências com outras pessoas em recuperação.
Convivendo com o diagnóstico
Receber o diagnóstico de transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias pode ser um choque, mas também é uma oportunidade para repensar a vida e fazer mudanças positivas. Conviver com esse diagnóstico não é fácil — exige paciência, autocompaixão e apoio —, mas é possível levar uma vida plena e feliz. Vamos ver como lidar com os desafios, tanto para a pessoa com o diagnóstico quanto para seus familiares e amigos.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceitação: “Como lidar com o diagnóstico?”
O primeiro passo é aceitar o diagnóstico, e isso pode ser difícil. Muitas pessoas sentem vergonha, culpa ou negação (“Eu não tenho um problema”, “Eu consigo parar quando quiser”). Mas a aceitação não significa se resignar — significa reconhecer a realidade para poder mudá-la.
Dicas para aceitar o diagnóstico:
– Não se culpe: A dependência química não é uma escolha, mas uma doença. Você não é “fraco” ou “sem força de vontade” — seu cérebro está doente e precisa de tratamento.
– Busque informações: Entender o que está acontecendo com seu cérebro e seu corpo ajuda a reduzir o medo e a vergonha. Leia livros, assista a vídeos ou converse com seu médico.
– Fale sobre isso: Guardar o diagnóstico só para você aumenta o isolamento. Converse com pessoas de confiança (como familiares, amigos ou um terapeuta) sobre o que está sentindo.
– Permita-se sentir: É normal sentir raiva, tristeza ou medo. Não tente reprimir essas emoções — elas fazem parte do processo.
– Lembre-se: você não está sozinho: Milhões de pessoas no mundo têm o mesmo diagnóstico, e muitas delas estão se recuperando e levando vidas felizes.
Exemplo real:
João, 35 anos, recebeu o diagnóstico de transtorno devido ao uso de álcool e cocaína. No começo, ele se sentiu envergonhado e achou que era “um fracasso”. Mas depois de conversar com seu terapeuta e ler sobre o assunto, ele entendeu que a dependência era uma doença, não uma falha de caráter. “Hoje, eu vejo o diagnóstico como uma chance de mudar. Se eu não soubesse o que tenho, não poderia tratar”, ele disse.
2. Autocompaixão: “Como parar de me julgar?”
A autocompaixão é tratar a si mesmo com a mesma gentileza e compreensão que você trataria um amigo querido. Muitas pessoas com dependência química são muito duras consigo mesmas, se culpando por cada recaída ou erro. Mas a autocrítica excessiva só piora a situação, aumentando a ansiedade e a vontade de usar substâncias para “aliviar” a dor.
Dicas para cultivar a autocompaixão:
– Fale consigo mesmo como falaria com um amigo: Se um amigo estivesse passando pelo mesmo problema, o que você diria a ele? Provavelmente, algo como “Você está fazendo o seu melhor” ou “Isso é difícil, mas você vai conseguir”. Tente dizer essas mesmas coisas para si mesmo.
– Reconheça seu esforço: Mesmo que você tenha recaído, reconheça o esforço que fez para tentar mudar. Cada pequeno passo conta.
– Aceite que erros fazem parte do processo: Ninguém é perfeito. Recaídas são comuns e não significam que você falhou — significam que você está aprendendo.
– Pratique a gratidão: Todos os dias, liste 3 coisas pelas quais você é grato. Isso ajuda a focar no positivo e a reduzir a autocrítica.
– Cuide de si mesmo: Faça coisas que te dão prazer e te fazem sentir bem, como tomar um banho relaxante, ouvir música ou passear no parque.
Exemplo real:
Ana, 30 anos, se culpava muito por suas recaídas. “Eu sou uma fracassada”, ela dizia. Seu terapeuta a ajudou a praticar a autocompaixão: sempre que ela tinha um pensamento negativo, ele pedia que ela imaginasse o que diria a uma amiga na mesma situação. “Eu diria: ‘Ana, você está tentando, e isso já é um grande passo. Não desista'”, ela respondeu. Com o tempo, Ana começou a tratar a si mesma com mais gentileza.
3. Recaídas: “E se eu recair?”
As recaídas são comuns no processo de recuperação. Elas não significam que você falhou — significam que você está aprendendo e que precisa ajustar seu plano de tratamento. O importante é não desistir e buscar ajuda assim que possível.
O que fazer em caso de recaída:
– Não se culpe: A recaída não é um fracasso, mas uma oportunidade de aprender. Pergunte a si mesmo: “O que desencadeou essa recaída? Como posso evitar isso no futuro?”
– Busque apoio: Converse com seu terapeuta, médico ou grupo de apoio. Eles podem te ajudar a entender o que aconteceu e a retomar o tratamento.
– Volte ao tratamento: Se você parou de tomar medicamentos ou de ir à terapia, volte o mais rápido possível. Não espere “melhorar sozinho”.
– Aprenda com a recaída: Identifique os gatilhos que levaram à recaída e crie estratégias para lidar com eles no futuro. Por exemplo:
– Gatilho: Estresse no trabalho → Estratégia: Fazer pausas durante o dia e praticar respiração profunda.
– Gatilho: Encontro com amigos que usam → Estratégia: Evitar esses encontros ou levar um amigo de apoio.
– Não desista: Uma recaída não apaga todo o progresso que você fez. Lembre-se de como estava antes do tratamento e de como está agora. Você já deu passos importantes — não deixe que uma recaída apague isso.
Exemplo real:
Pedro, 28 anos, estava há 3 meses sem usar cocaína quando teve uma recaída depois de uma briga com a namorada. Ele se sentiu tão culpado que quase desistiu do tratamento. Mas seu terapeuta o ajudou a ver a recaída como uma oportunidade de aprendizado: “O que você pode fazer diferente da próxima vez que brigar com sua namorada?”. Pedro percebeu que precisava de estratégias para lidar com a raiva e a tristeza sem usar drogas. Ele voltou ao tratamento e, hoje, está há 6 meses sem recair.
4. Reconstruindo a vida: “Como encontrar propósito?”
A dependência química costuma roubar o sentido da vida. Muitas pessoas perdem o emprego, os amigos, os hobbies e até a autoestima. Reconstruir a vida é um processo gradual, mas é possível encontrar novos propósitos e novas fontes de prazer.
Dicas para reconstruir a vida:
– Redescubra seus interesses: Faça uma lista das coisas que você gostava de fazer antes da dependência (como esportes, arte, música ou culinária) e tente retomá-las. Se não souber por onde começar, experimente coisas novas.
– Estabeleça metas pequenas: Metas muito grandes podem parecer impossíveis e aumentar a ansiedade. Comece com metas pequenas e alcançáveis, como:
– “Vou caminhar 3 vezes por semana.”
– “Vou ligar para um amigo uma vez por semana.”
– “Vou cozinhar uma refeição saudável por dia.”
– Volte a estudar ou trabalhar: Se você perdeu o emprego ou abandonou os estudos, considere voltar. Isso ajuda a recuperar a autoestima e a criar uma rotina estruturada.
– Faça trabalho voluntário: Ajudar os outros é uma ótima forma de encontrar propósito e se conectar com a comunidade. Você pode se voluntariar em um abrigo, uma ONG ou até mesmo em um grupo de apoio.
– Construa uma rede de apoio: Cerque-se de pessoas que te apoiam e te incentivam. Isso pode incluir familiares, amigos, terapeutas ou grupos de apoio.
– Celebre as pequenas vitórias: Cada dia sem usar é uma vitória. Celebre seus progressos, por menores que sejam.
Exemplo real:
Mariana, 32 anos, perdeu o emprego e se isolou por causa da dependência de maconha e remédios para ansiedade. Quando começou o tratamento, ela se sentiu perdida e sem propósito. Seu terapeuta a incentivou a retomar um antigo hobby: a pintura. Mariana começou a fazer aulas de arte e, aos poucos, recuperou a autoestima. Hoje, ela vende seus quadros em uma feira de artesanato e se sente realizada. “Pintar me deu um novo sentido para a vida”, ela disse.
5. Lidando com o estigma: “Como lidar com o preconceito?”
Infelizmente, a dependência química ainda é muito estigmatizada. Muitas pessoas acreditam que quem usa drogas é “fraco”, “sem caráter” ou “perigoso”. Esse preconceito pode fazer com que a pessoa se sinta envergonhada, isolada ou desmotivada a buscar ajuda.
Dicas para lidar com o estigma:
– Eduque as pessoas: Muitas vezes, o preconceito vem da desinformação. Se você se sentir à vontade, explique para as pessoas que a dependência é uma doença, não uma escolha.
– Escolha com quem falar: Nem todo mundo merece saber do seu diagnóstico. Escolha pessoas de confiança para compartilhar sua história.
– Não se isole: O estigma pode fazer com que você queira se esconder, mas isso só piora a situação. Busque apoio em grupos de apoio, terapia ou comunidades online.
– Lembre-se: você não é seu diagnóstico: Você é uma pessoa com sonhos, qualidades e defeitos — assim como todo mundo. A dependência é apenas uma parte da sua história, não a história toda.
– Defenda-se: Se alguém te tratar com preconceito, não tenha medo de se defender. Você merece respeito, assim como qualquer outra pessoa.
Exemplo real:
Carlos, 40 anos, tinha vergonha de contar para os colegas de trabalho que estava em tratamento para dependência de álcool. Um dia, um colega fez um comentário preconceituoso: “Quem bebe assim é fraco mesmo”. Carlos ficou magoado, mas decidiu responder: “Na verdade, a dependência é uma doença, assim como a diabetes. Eu estou me tratando, e isso mostra que sou forte, não fraco”. O colega ficou surpreso e pediu desculpas. Carlos percebeu que, ao se defender, estava ajudando a combater o estigma.
Para familiares e amigos
1. Como ajudar de forma efetiva (e o que NÃO fazer)
Apoiar uma pessoa com transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias pode ser desafiador. Muitas vezes, os familiares e amigos não sabem o que fazer e acabam agindo de forma que piora a situação, mesmo com as melhores intenções. Vamos ver o que ajuda e o que atrapalha:
O que AJUDA:
– Informe-se sobre a doença: Entender o que é a dependência química ajuda a reduzir o preconceito e a agir de forma mais empática. Leia livros, assista a vídeos ou converse com profissionais.
– Ofereça apoio emocional: Diga coisas como:
– “Eu estou aqui para te apoiar.”
– “Você não está sozinho.”
– “Eu te amo e quero te ver bem.”
– Incentive o tratamento: Ajude a pessoa a buscar ajuda profissional, seja marcando consultas, acompanhando-a às sessões ou pesquisando opções de tratamento.
– Estabeleça limites saudáveis: É importante não encobrir os erros da pessoa (como mentir para o chefe quando ela falta ao trabalho) e não dar dinheiro que possa ser usado para comprar substâncias. Limites claros ajudam a pessoa a assumir a responsabilidade por suas ações.
– Cuide de si mesmo: Apoiar alguém com dependência química pode ser exaustivo. Não deixe de lado suas próprias necessidades — busque apoio para si mesmo, seja em terapia, grupos de apoio (como o Al-Anon para familiares de alcoólatras) ou conversando com amigos.
– Celebre as pequenas vitórias: Cada dia sem usar é uma vitória. Reconheça os progressos da pessoa, por menores que sejam.
O que NÃO fazer:
– Não julgue ou critique: Frases como “Você é um fraco” ou “Isso é falta de vergonha na cara” só aumentam a vergonha e a culpa, piorando a situação.
– Não tente controlar a pessoa: Você não pode “forçar” a pessoa a parar de usar. Ela precisa querer mudar para que o tratamento funcione.
– Não faça ameaças vazias: Dizer “Se você não parar, eu vou embora” e não cumprir só enfraquece sua credibilidade. Se for estabelecer um limite, cumpra-o.
– Não minimize o problema: Frases como “Todo mundo bebe” ou “Isso é só uma fase” podem fazer a pessoa achar que seu problema não é sério.
– Não se culpe: A dependência química não é culpa dos familiares. Você não “causou” o problema, e não pode “consertá-lo” sozinho.
Exemplo real:
Ana, 28 anos, tinha um irmão mais novo, Pedro, que usava cocaína e álcool. No começo, Ana tentava “ajudar” encobrindo os erros de Pedro (como mentir para os pais quando ele faltava à faculdade) e dando dinheiro para ele. Com o tempo, ela percebeu que estava piorando a situação, porque Pedro não assumia a responsabilidade por seus atos. Ana começou a terapia e aprendeu a estabelecer limites: “Eu te amo e quero te ajudar, mas não vou mais mentir para os nossos pais. Se você quiser mudar, eu te apoio, mas não vou mais encobrir seus erros”. Pedro ficou bravo no começo, mas depois percebeu que Ana estava certa e buscou ajuda.
2. Como cuidar de si mesmo enquanto cuida do outro
Apoiar uma pessoa com dependência química pode ser emocionalmente desgastante. Muitos familiares e amigos se sentem culpados, ansiosos, deprimidos ou exaustos. É fundamental cuidar de si mesmo para não adoecer junto.
Dicas para cuidar de si mesmo:
– Busque apoio: Converse com amigos, familiares ou um terapeuta sobre o que está sentindo. Grupos de apoio para familiares (como o Al-Anon ou Nar-Anon) também podem ajudar.
– Estabeleça limites: Não deixe que a vida da pessoa com dependência domine a sua. Reserve um tempo para suas próprias necessidades, hobbies e relacionamentos.
– Pratique o autocuidado: Faça coisas que te dão prazer e te ajudam a relaxar, como exercícios, meditação, leitura ou passeios.
– Não se isole: O estigma pode fazer com que você queira se esconder, mas isso só piora a situação. Mantenha contato com pessoas que te apoiam.
– Aceite que você não pode controlar a outra pessoa: Você não pode “consertar” a pessoa com dependência — só ela pode fazer isso. Foque no que você pode controlar: suas ações, suas emoções e seu bem-estar.
– Permita-se sentir: É normal sentir raiva, tristeza, frustração ou medo. Não tente reprimir essas emoções — elas fazem parte do processo.
Exemplo real:
João, 50 anos, era pai de Lucas, 25 anos, que usava cocaína e álcool. João se sentia culpado e achava que tinha “falhado como pai”. Ele parou de sair com os amigos, deixou de lado seus hobbies e vivia em função de Lucas. Um dia, João teve uma crise de ansiedade e precisou ser internado. Seu médico o encaminhou para terapia e para o Al-Anon. Lá, João aprendeu que não podia controlar o filho e que precisava cuidar de si mesmo. Ele voltou a jogar futebol com os amigos e a fazer caminhadas. “Hoje, eu entendo que não posso salvar meu filho — só ele pode se salvar. Mas posso estar aqui para apoiá-lo, sem me destruir no processo”, ele disse.
3. Como explicar para outras pessoas
Muitas vezes, os familiares e amigos não sabem como explicar o diagnóstico para outras pessoas, como colegas de trabalho, parentes ou amigos da família. Isso pode gerar vergonha, medo do julgamento ou isolamento.
Dicas para explicar:
– Seja honesto, mas seletivo: Você não precisa contar todos os detalhes para todo mundo. Escolha pessoas de confiança e compartilhe apenas o que se sentir à vontade.
– Use uma linguagem simples: Explique que a dependência química é uma doença, assim como a diabetes ou a hipertensão. Por exemplo:
– “Meu filho tem um problema com álcool. É uma doença, e ele está se tratando.”
– “Minha esposa está lutando contra a dependência de remédios. É difícil, mas ela está buscando ajuda.”
– Enfatize o tratamento: Mostre que a pessoa está buscando ajuda e que o diagnóstico não define quem ela é. Por exemplo:
– “Ele está em tratamento e fazendo o possível para melhorar.”
– “Ela está lutando, e nós estamos apoiando.”
– Peça apoio: Se a pessoa com quem você está falando for de confiança, peça ajuda. Por exemplo:
– “Se você souber de algum grupo de apoio para familiares, me avise.”
– “Se você puder, ore por nós.”
– Prepare-se para perguntas difíceis: Algumas pessoas podem fazer perguntas invasivas ou preconceituosas. Tenha respostas prontas, como:
– “Eu prefiro não falar sobre isso.”
– “Isso é algo pessoal, mas agradeço sua preocupação.”
Exemplo real:
Mariana, 30 anos, tinha vergonha de contar para os colegas de trabalho que seu irmão estava em tratamento para dependência de cocaína. Um dia, uma colega perguntou por que ele não aparecia mais nas festas da empresa. Mariana respirou fundo e disse: “Meu irmão está com um problema de saúde. Ele está se tratando, e nós estamos apoiando. É difícil, mas estamos confiantes de que ele vai melhorar”. A colega ficou surpresa, mas respeitou o espaço de Mariana. “Falar sobre isso me ajudou a perceber que não preciso ter vergonha. Meu irmão está lutando, e isso é o que importa”, ela disse.
Quando os sintomas podem piorar?
A recuperação não é um processo linear — há altos e baixos, e alguns momentos são mais difíceis do que outros. Saber identificar os sinais de alerta de uma possível piora ajuda a agir rápido e evitar recaídas ou crises.
Sinais de que os sintomas podem piorar:
– Mudanças de humor: A pessoa fica mais irritada, ansiosa, deprimida ou apática do que o normal.
– Isolamento: Ela começa a evitar contato com familiares, amigos ou grupos de apoio.
– Negligência com o tratamento: Ela para de tomar os medicamentos, faltar às consultas ou participar das terapias.
– Mudanças na rotina: Ela dorme demais ou de menos, come demais ou de menos, ou abandona atividades que antes gostava.
– Comportamentos de risco: Ela volta a frequentar lugares ou pessoas ligadas ao uso de substâncias, ou começa a mentir sobre seu comportamento.
– Fissura intensa: Ela fala muito sobre as substâncias ou parece obcecada com a ideia de usar.
– Recaída: Ela usa a substância novamente, mesmo que seja “só uma vez”.
O que fazer nesses casos:
– Converse com a pessoa: Pergunte como ela está se sentindo e se precisa de ajuda. Evite julgamentos ou críticas.
– Incentive-a a buscar apoio: Lembre-a de entrar em contato com seu terapeuta, médico ou grupo de apoio.
– Ofereça companhia: Se ela estiver isolada, convide-a para fazer algo juntos, como uma caminhada ou um café.
– Evite gatilhos: Se possível, ajude-a a evitar situações que possam desencadear o uso, como festas com álcool ou encontros com amigos que usam drogas.
– Busque ajuda profissional: Se a pessoa estiver em crise (como uma overdose, psicose ou ideação suicida), leve-a a um pronto-socorro ou ligue para o SAMU (192).
Exemplo real:
Thiago, 26 anos, estava há 6 meses sem usar cocaína quando começou a ficar irritado e isolado. Sua mãe percebeu que ele estava faltando às consultas com o psiquiatra e parou de tomar os medicamentos. Ela conversou com Thiago e descobriu que ele estava com medo de recair. Juntos, eles marcaram uma consulta extra com o psiquiatra e retomaram o tratamento. “Se minha mãe não tivesse percebido os sinais, eu poderia ter recaído”, ele disse.
Perguntas frequentes
Receber o diagnóstico de transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias traz muitas dúvidas, tanto para a pessoa quanto para seus familiares. Vamos responder às perguntas mais comuns de forma detalhada e honesta, baseada em evidências científicas e na experiência clínica.
1. “Eu sou fraco por não conseguir parar sozinho?”
Resposta:
Não, você não é fraco. A dependência química é uma doença, não uma falha de caráter. Ela afeta o cérebro de forma profunda, alterando áreas relacionadas ao prazer, à tomada de decisões e ao controle dos impulsos. Quando uma pessoa usa substâncias por muito tempo, o cérebro se acostuma com elas e passa a “exigir” as drogas ou remédios para funcionar normalmente. É como se o cérebro tivesse sido “sequestrado” pelas substâncias — ele prioriza o uso acima de tudo, mesmo quando isso causa problemas graves.
Imagine que seu cérebro é como um carro. As substâncias são como um freio de mão puxado: você pode até tentar acelerar (parar de usar), mas o carro não vai andar direito. O tratamento é como soltar o freio de mão — ele ajuda o cérebro a voltar a funcionar normalmente, mas isso leva tempo e exige esforço.
Muitas pessoas tentam parar sozinhas várias vezes antes de buscar ajuda, e isso não significa que sejam fracas. Pelo contrário: reconhecer que precisa de ajuda é um sinal de força. Assim como você não tentaria tratar uma pneumonia sozinho, não precisa tentar tratar a dependência química sozinho.
2. “O tratamento vai me deixar ‘sem graça’ ou ‘sem personalidade’?”
Resposta:
Não, o tratamento não vai mudar quem você é. Muitas pessoas têm medo de que os medicamentos ou a terapia as deixem “apagadas”, “sem emoções” ou “como zumbis”. Mas na verdade, o tratamento ajuda a recuperar sua verdadeira personalidade, que estava “mascarada” pelos efeitos das substâncias.
Pense nas substâncias como um filtro de Instagram: elas distorcem a realidade, fazendo você se sentir mais feliz, mais corajoso ou mais relaxado do que realmente está. Quando você para de usar, o filtro some, e você volta a ver as coisas como elas são — o que pode ser assustador no começo. Mas com o tempo, você aprende a sentir as emoções de forma autêntica, sem precisar das substâncias para “turbiná-las” ou “anestesiá-las”.
Os medicamentos usados no tratamento (como a naltrexona ou os antidepressivos) não causam dependência quando usados corretamente, e seus efeitos colaterais costumam ser leves e passageiros. Eles não vão te deixar “sem graça” — vão te ajudar a se sentir mais estável e a recuperar o controle sobre suas emoções.
Exemplo real:
João, 35 anos, tinha medo de tomar antidepressivos porque achava que eles o deixariam “sem emoções”. Quando começou o tratamento, percebeu que, na verdade, os remédios o ajudaram a sentir as emoções de forma mais equilibrada. “Antes, eu oscilava entre a euforia da cocaína e a depressão da ressaca. Hoje, eu me sinto mais estável, como se tivesse voltado a ser eu mesmo”, ele disse.
3. “Quanto tempo dura o tratamento?”
Resposta:
Não existe um prazo fixo para o tratamento, porque cada pessoa é única. Algumas pessoas respondem rápido e conseguem se recuperar em alguns meses, enquanto outras precisam de anos de acompanhamento. O importante é não desistir e seguir as orientações do seu médico e terapeuta.
O tratamento costuma ser dividido em fases:
1. Desintoxicação (se necessário): Dura de alguns dias a algumas semanas, dependendo da substância e da gravidade da dependência. Nessa fase, o foco é aliviar os sintomas de abstinência e estabilizar a pessoa.
2. Tratamento intensivo: Dura de 3 a 12 meses, com consultas frequentes (semanal ou quinzenal) com o psiquiatra e o terapeuta. Nessa fase, o foco é manter a abstinência, tratar transtornos associados (como depressão ou ansiedade) e reconstruir a vida.
3. Manutenção: Dura anos ou até a vida toda, com consultas menos frequentes (mensal ou trimestral). Nessa fase, o foco é prevenir recaídas e manter a qualidade de vida.
Fatores que influenciam a duração do tratamento:
– Gravidade da dependência: Quanto mais grave o quadro, mais longo costuma ser o tratamento.
– Substâncias usadas: Algumas substâncias (como opioides ou álcool) causam dependência mais forte e exigem tratamento mais longo.
– Transtornos associados: Se a pessoa tem depressão, ansiedade ou outro transtorno mental, o tratamento pode ser mais longo.
– Rede de apoio: Pessoas com uma boa rede de apoio (família, amigos, grupos de apoio) costumam se recuperar mais rápido.
– Motivação: Pessoas motivadas a mudar costumam responder melhor ao tratamento.
Exemplo real:
Ana, 30 anos, usava maconha e remédios para ansiedade. Ela fez um tratamento intensivo de 6 meses, com terapia e medicamentos, e conseguiu parar de usar as substâncias. Depois disso, entrou na fase de manutenção, com consultas mensais com o psiquiatra. Hoje, 2 anos depois, ela ainda toma um antidepressivo e vai à terapia a cada 3 meses, mas leva uma vida normal. “O tratamento não tem um fim — é um processo contínuo. Mas vale a pena”, ela disse.
4. “Posso beber socialmente ou usar ‘só de vez em quando’ depois do tratamento?”
Resposta:
Para a maioria das pessoas com transtorno devido ao uso de múltiplas substâncias, não é recomendado beber socialmente ou usar “só de vez em quando”. Isso porque a dependência química é uma doença crônica, ou seja, ela não tem cura, mas tem controle. Para muitas pessoas, qualquer uso de substâncias pode desencadear uma recaída.
Imagine que seu cérebro é como um interruptor de luz. Antes da dependência, o interruptor funcionava normalmente: você podia ligar e desligar o uso das substâncias sem problemas. Mas depois da dependência, o interruptor fica quebrado — qualquer contato com a substância pode fazer com que ele “dispare” e você perca o controle.
Algumas pessoas conseguem beber socialmente depois do tratamento, mas isso é raro e depende de vários fatores, como:
– O tipo de substância: Pessoas com dependência de álcool ou opioides têm mais dificuldade para beber ou usar “só de vez em quando”.
– O tempo de abstinência: Quanto mais tempo a pessoa ficar sem usar, menor o risco de recaída. Mas mesmo depois de anos, o risco existe.
– A presença de transtornos associados: Pessoas com depressão, ansiedade ou TDAH têm mais dificuldade para controlar o uso.
– O ambiente: Se a pessoa frequenta lugares ou pessoas ligadas ao uso de substâncias, o risco de recaída é maior.
O que diz a ciência:
Estudos mostram que cerca de 60% das pessoas com dependência de álcool recaem nos primeiros 6 meses depois de parar de beber. Para outras substâncias, como cocaína ou opioides, a taxa de recaída é ainda maior. Por isso, a maioria dos profissionais recomenda abstinência total como a opção mais segura.
Exemplo real:
*Carlos, 40