Transtornos devidos ao uso de estimulantes, incluindo anfetaminas, metanfetamina ou metcatinona (CID-11: 6C46)

O que é?

Imagine que o seu cérebro é como um carro. Quando tudo está funcionando bem, ele tem um acelerador (que nos deixa alertas, animados e com energia) e um freio (que nos ajuda a descansar, relaxar e dormir). Os estimulantes, como as anfetaminas, a metanfetamina e a metcatinona, são como um turbo nesse acelerador. Eles fazem o cérebro trabalhar em uma velocidade muito maior do que o normal, deixando a pessoa elétrica, agitada e cheia de energia — pelo menos no começo.

Mas aqui está o problema: quando usamos esse “turbo” com muita frequência ou em doses altas, o cérebro começa a se acostumar. É como se o carro passasse a precisar de cada vez mais combustível para andar na mesma velocidade. Com o tempo, o freio natural do cérebro (aquele que nos ajuda a relaxar) vai ficando desgastado, e a pessoa passa a depender da substância para se sentir “normal”. Quando tenta parar ou reduzir o uso, vem a sensação de que o carro está sem gasolina: cansaço extremo, tristeza profunda, irritabilidade e até sintomas físicos como dores no corpo e tremores.

Esse padrão de uso problemático, que traz sofrimento e prejudica a vida da pessoa, é o que chamamos de transtorno devido ao uso de estimulantes. Não é apenas uma questão de “falta de força de vontade” ou “mau comportamento”, como muitas pessoas pensam. É uma condição médica real, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (CID-11) e pela Associação Americana de Psiquiatria (DSM-5), que afeta o funcionamento do cérebro e do corpo de forma profunda.

Como isso se diferencia de um uso ocasional ou de outras condições?

Todo mundo já tomou um café para ficar acordado ou sentiu aquele “up” depois de uma bebida energética. A diferença entre um uso ocasional e um transtorno está na frequência, na quantidade, no impacto na vida e na perda de controle. Por exemplo:
Uso ocasional: Você toma um energético para estudar para uma prova e, no dia seguinte, volta à sua rotina normal. Não sente vontade de repetir no dia seguinte, não deixa de fazer outras coisas por causa disso e não tem sintomas físicos ou emocionais quando para.
Transtorno: Você começa a tomar estimulantes todos os dias para dar conta do trabalho, mesmo quando não precisa. Passa a gastar mais dinheiro do que pode, deixa de ver os amigos e, quando tenta parar, sente uma tristeza tão forte que volta a usar só para se sentir “normal” de novo. Isso é um sinal de que o cérebro já se adaptou à substância e agora depende dela para funcionar.

Outra diferença importante é que o transtorno por uso de estimulantes pode ser confundido com outras condições, como:
Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): Algumas pessoas com TDAH usam estimulantes (como o metilfenidato, conhecido pelo nome comercial Ritalina) com prescrição médica para ajudar a se concentrar. O problema surge quando o uso sai do controle, mesmo com a receita. Por exemplo: uma pessoa com TDAH pode começar a tomar doses maiores do que as prescritas para “render mais” no trabalho, ou a usar o remédio em horários não recomendados (como à noite para ficar acordada).
Transtorno bipolar: Durante uma fase de euforia (mania), a pessoa pode se sentir cheia de energia, falar muito e dormir pouco — sintomas que também aparecem com o uso de estimulantes. A diferença é que, no transtorno bipolar, esses sintomas acontecem sem o uso da substância. Já no transtorno por uso de estimulantes, eles são causados pelo uso da droga.
Esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos: O uso prolongado de estimulantes pode causar alucinações (ver ou ouvir coisas que não existem) e delírios (acreditar em coisas que não são reais, como achar que está sendo perseguido). Esses sintomas podem ser confundidos com esquizofrenia, mas no caso do transtorno por uso de estimulantes, eles desaparecem quando a pessoa para de usar a substância (embora possam levar semanas ou meses para sumir completamente).

Quem é afetado?

Os transtornos por uso de estimulantes são mais comuns do que muitas pessoas imaginam. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 0,4% da população global (ou seja, 1 em cada 250 pessoas) teve algum transtorno por uso de anfetaminas nos últimos 12 meses. No Brasil, os números são preocupantes:
– Um estudo publicado na revista The Lancet em 2021 estimou que 1,5 milhão de brasileiros (0,7% da população) tiveram transtorno por uso de anfetaminas no último ano.
– O uso de metanfetamina, embora menos comum que o de cocaína, vem crescendo em algumas regiões do país, especialmente no Sul e Sudeste.
– A faixa etária mais afetada é entre 18 e 35 anos, mas o problema também aparece em adolescentes e adultos mais velhos.
Homens são mais propensos a desenvolver o transtorno do que mulheres, mas a diferença vem diminuindo nos últimos anos, especialmente com o aumento do uso de estimulantes para emagrecer entre mulheres jovens.

No Brasil, um dos maiores problemas é o uso de anfetaminas para emagrecer. Muitas pessoas, especialmente mulheres, começam a tomar remédios como o femproporex (conhecido como “rebite”) ou a anfepramona com prescrição médica para perder peso, mas acabam desenvolvendo dependência. O que começa como uma tentativa de “controlar a fome” pode se transformar em um ciclo vicioso: a pessoa passa a sentir que não consegue funcionar sem o remédio, mesmo depois de atingir o peso desejado.

Outro grupo de risco são os profissionais que trabalham em turnos longos ou noturnos, como caminhoneiros, médicos e enfermeiros. Para aguentar plantões de 12, 24 ou até 36 horas, muitos recorrem a estimulantes, seja comprando remédios controlados no mercado ilegal, seja usando drogas como a metanfetamina (conhecida como “crystal” ou “ice”). O problema é que, com o tempo, o corpo se acostuma e a pessoa precisa de doses cada vez maiores para ter o mesmo efeito, aumentando o risco de overdose e de problemas de saúde graves.

Um pouco de história

Os estimulantes não são uma invenção moderna. A anfetamina, por exemplo, foi sintetizada pela primeira vez em 1887, mas só começou a ser usada clinicamente na década de 1930, quando foi prescrita para tratar asma, narcolepsia (um distúrbio do sono que faz a pessoa dormir em momentos inapropriados) e até depressão. Durante a Segunda Guerra Mundial, soldados de ambos os lados usavam anfetaminas para ficar acordados e alertas durante longas batalhas.

Nos anos 1950 e 1960, as anfetaminas se tornaram populares como remédios para emagrecer e para melhorar o desempenho no trabalho e nos estudos. Anúncios da época mostravam mulheres sorridentes tomando pílulas para “controlar o apetite” e “ter mais energia”. O problema é que muitas pessoas começaram a abusar desses remédios, levando a casos de dependência e a efeitos colaterais graves, como psicose (perda de contato com a realidade) e problemas cardíacos.

A metanfetamina, uma versão mais potente da anfetamina, foi desenvolvida no início do século XX e também foi usada durante a Segunda Guerra Mundial. Nos anos 1980 e 1990, ela se tornou uma droga de abuso popular nos Estados Unidos, especialmente na forma de “crystal meth” (um cristal que pode ser fumado). No Brasil, o uso de metanfetamina ainda é menos comum que o de cocaína, mas vem crescendo, especialmente em festas eletrônicas e entre grupos que buscam um efeito mais intenso e duradouro.

A metcatinona é um estimulante sintético que ganhou popularidade mais recentemente, especialmente na forma de “sais de banho” ou “drogas legais”. Ela é quimicamente semelhante à catinona, uma substância encontrada na planta khat (usada tradicionalmente em alguns países da África e do Oriente Médio). Por ser mais barata e fácil de produzir que a cocaína ou a metanfetamina, a metcatinona se tornou uma opção para traficantes e usuários que buscam um efeito estimulante forte, mas com alto risco de efeitos colaterais graves, como paranoia, agressividade e problemas cardíacos.

Hoje, os estimulantes continuam sendo usados com fins médicos, como no tratamento do TDAH (com remédios como o metilfenidato) e da narcolepsia. Mas o uso recreativo e o abuso dessas substâncias são um problema de saúde pública em todo o mundo, incluindo o Brasil. Entender como elas funcionam e quais são os sinais de um uso problemático é o primeiro passo para buscar ajuda — seja para você mesmo ou para alguém que você ama.


Quais são os sintomas?

Quando falamos em transtorno por uso de estimulantes, os sintomas não são apenas “usar a droga com frequência”. É muito mais do que isso. É como se o cérebro e o corpo da pessoa tivessem sido reprogramados para depender da substância, e essa dependência se manifesta de várias formas: no comportamento, nas emoções, na saúde física e até na forma como a pessoa enxerga a si mesma e o mundo.

Para receber o diagnóstico, a pessoa precisa apresentar pelo menos dois dos critérios abaixo por um período de 12 meses. Mas atenção: ter um ou dois desses sintomas isoladamente não significa que a pessoa tenha o transtorno. O que importa é o conjunto, a intensidade e o impacto na vida. Por exemplo: todo mundo já perdeu o controle de alguma coisa na vida (como comer um pacote inteiro de biscoito sem querer), mas no transtorno por uso de estimulantes, esse “perder o controle” acontece repetidamente, mesmo quando a pessoa não quer, e traz consequências sérias.

Vamos traduzir cada um dos critérios diagnósticos para uma linguagem do dia a dia, com exemplos concretos de como eles aparecem na vida real.


1. Usar mais do que pretendia ou por mais tempo do que planejava

Tradução leiga: A pessoa começa a usar a substância com um plano na cabeça (“vou tomar só um comprimido hoje”, “vou usar só no fim de semana”), mas acaba perdendo o controle e usando muito mais do que imaginava. É como quando você abre um pacote de salgadinho pensando “vou comer só um punhado” e, quando vê, já comeu o pacote inteiro — só que, no caso dos estimulantes, as consequências são muito mais sérias.

Exemplos do dia a dia:
No trabalho: João é motorista de aplicativo e toma um comprimido de anfetamina para aguentar um plantão de 12 horas. Ele planeja tomar só metade do comprimido, mas depois de algumas horas, sente que a energia está acabando e toma a outra metade. No fim do dia, já tomou três comprimidos inteiros e ainda compra mais para o dia seguinte.
Nos estudos: Maria está se preparando para o Enem e decide tomar um remédio para TDAH (com prescrição) para estudar à noite. Ela planeja tomar só um comprimido, mas quando vê que está conseguindo se concentrar muito bem, toma outro para “aproveitar o embalo”. No fim da semana, está tomando três comprimidos por dia, mesmo sabendo que isso não é seguro.
Em festas: Pedro vai a um festival de música e leva dois comprimidos de ecstasy (que contém metanfetamina). Ele planeja tomar só um, mas depois de algumas horas, vê os amigos usando mais e decide tomar o segundo. No dia seguinte, descobre que na verdade tomou quatro comprimidos, porque perdeu a conta durante a noite.

O que é normal vs. o que é sintomático:
Normal: Você toma um café para ficar acordado e consegue parar depois de uma xícara, mesmo que ainda sinta sono.
Sintomático: Você toma um comprimido de anfetamina para trabalhar e, mesmo querendo parar, não consegue. Sente que “precisa” de mais para continuar funcionando, mesmo que isso signifique gastar dinheiro que não tem ou mentir para o médico para conseguir mais receitas.


2. Tentar parar ou reduzir o uso, mas não conseguir

Tradução leiga: A pessoa percebe que o uso da substância está causando problemas (na saúde, no trabalho, nos relacionamentos) e decide parar ou reduzir. Ela até consegue ficar alguns dias sem usar, mas sempre acaba voltando, mesmo quando não quer. É como tentar fazer uma dieta: você sabe que precisa comer menos açúcar, consegue ficar alguns dias sem doces, mas depois de um tempo, volta a comer brigadeiro todos os dias, mesmo sabendo que não é bom para você.

Exemplos do dia a dia:
Promessas quebradas: Ana promete para si mesma que vai parar de tomar anfetaminas para emagrecer depois do verão. Ela consegue ficar uma semana sem usar, mas quando vê que engordou um quilo, volta a tomar os comprimidos, mesmo sabendo que isso está prejudicando seu coração.
Esforços malsucedidos: Carlos já tentou parar de usar metanfetamina pelo menos cinco vezes. Sempre consegue ficar alguns dias sem usar, mas quando bate a tristeza ou o tédio, ele volta a procurar a droga, mesmo sabendo que isso está destruindo sua vida.
Substituições que não funcionam: Beatriz tenta substituir as anfetaminas por café ou energéticos, mas logo percebe que não é a mesma coisa. Ela consegue reduzir um pouco o uso, mas não consegue parar completamente, porque sente que “precisa” daquela energia extra para dar conta do trabalho e dos filhos.

O que é normal vs. o que é sintomático:
Normal: Você decide parar de tomar café porque está sentindo dor de estômago. Nos primeiros dias, sente um pouco de dor de cabeça, mas depois se acostuma e não sente mais vontade.
Sintomático: Você decide parar de tomar anfetaminas porque seu médico disse que seu coração está acelerado demais. Nos primeiros dias, consegue ficar sem usar, mas depois de uma semana, começa a sentir uma tristeza tão forte e um cansaço tão grande que volta a tomar os comprimidos, mesmo sabendo que isso pode te matar.


3. Gastar muito tempo para conseguir a substância, usá-la ou se recuperar dos efeitos

Tradução leiga: A substância começa a tomar conta da vida da pessoa. Ela passa horas do dia pensando em como vai conseguir mais, usando ou se recuperando dos efeitos. É como se a droga virasse o centro da vida, e tudo o mais (trabalho, família, hobbies) ficasse em segundo plano. Imagine que você é apaixonado por videogame: você acorda pensando no jogo, passa o dia jogando e, quando não está jogando, está pensando em como vai conseguir mais tempo para jogar. No caso dos estimulantes, é assim, só que com consequências muito mais graves.

Exemplos do dia a dia:
No trabalho: Ricardo é vendedor e usa metanfetamina para aguentar longas jornadas. Ele passa horas do dia procurando traficantes para comprar mais droga, mesmo sabendo que isso está prejudicando suas vendas. Quando não está usando, está se recuperando da “ressaca” da droga (cansaço extremo, dor de cabeça, irritabilidade), sem energia para fazer nada.
Nos estudos: Fernanda é universitária e toma anfetaminas para estudar. Ela passa noites inteiras pesquisando onde comprar mais remédios (mesmo sem receita), mentindo para médicos para conseguir receitas e se recuperando dos efeitos colaterais (como insônia e ansiedade) durante o dia. Ela já perdeu várias provas porque estava dormindo demais depois de usar.
Nos relacionamentos: Marcos usa metcatinona (um estimulante sintético) e passa os fins de semana inteiros procurando a droga ou se recuperando dos efeitos. Ele já perdeu vários aniversários de família e encontros com amigos porque estava “na fissura” ou “de ressaca”. Sua namorada ameaçou terminar o relacionamento, mas ele não consegue parar.

O que é normal vs. o que é sintomático:
Normal: Você gosta de tomar um vinho no fim de semana e, às vezes, passa uma tarde pesquisando rótulos novos ou visitando uma vinícola. Mas isso não atrapalha seu trabalho, seus estudos ou seus relacionamentos.
Sintomático: Você passa horas do dia procurando onde comprar metanfetamina, mesmo sabendo que isso está te fazendo perder o emprego e afastando sua família. Quando não está usando, está se recuperando dos efeitos, sem energia para fazer nada além de pensar em como vai conseguir mais droga.


4. Ter fissura (vontade intensa de usar a substância)

Tradução leiga: A fissura é aquela vontade irresistível de usar a droga, como se fosse uma coceira no cérebro que só passa quando a pessoa usa. É mais forte do que uma vontade normal — é como quando você está com muita fome e passa na frente de uma padaria cheirando a pão fresco. A diferença é que, no caso dos estimulantes, essa vontade não passa com o tempo, e a pessoa faz de tudo para satisfazê-la, mesmo sabendo que isso vai trazer consequências ruins.

Exemplos do dia a dia:
No trânsito: Daniela está dirigindo para casa depois de um dia cansativo de trabalho quando sente uma fissura por metanfetamina. Ela sabe que não deveria usar, mas a vontade é tão forte que ela para o carro em um posto de gasolina, liga para um traficante e compra a droga, mesmo sabendo que pode ser presa.
No trabalho: Eduardo está em uma reunião importante quando sente uma vontade intensa de tomar anfetaminas. Ele tenta se concentrar, mas a fissura é tão forte que ele inventa uma desculpa para sair da reunião, vai até o banheiro e toma um comprimido, mesmo sabendo que isso pode prejudicar sua carreira.
Em casa: Patrícia está tentando parar de usar metcatinona e consegue ficar alguns dias sem usar. Mas quando vê um vídeo na internet de pessoas usando a droga, a fissura volta com tudo. Ela tenta resistir, mas acaba ligando para um amigo que usa e combinando de se encontrar, mesmo sabendo que isso pode fazer ela recair.

O que é normal vs. o que é sintomático:
Normal: Você está com vontade de tomar um sorvete e, quando passa na frente de uma sorveteria, decide entrar e comprar um. Mas se não tiver sorvete, você consegue seguir em frente sem problemas.
Sintomático: Você está com uma vontade tão forte de usar metanfetamina que não consegue pensar em mais nada. Você cancela compromissos, gasta dinheiro que não tem e até rouba para conseguir a droga, mesmo sabendo que isso vai te trazer problemas sérios.


5. Não conseguir cumprir obrigações por causa do uso

Tradução leiga: A pessoa começa a falhar no trabalho, nos estudos ou em casa porque está usando a substância ou se recuperando dos efeitos. É como se a droga virasse o chefe da vida dela, e tudo o mais ficasse em segundo plano. Imagine que você tem um projeto importante no trabalho, mas passa a noite inteira jogando videogame e, no dia seguinte, não consegue entregar o projeto no prazo. No caso dos estimulantes, é assim, só que com consequências muito mais graves e frequentes.

Exemplos do dia a dia:
No trabalho: Juliana é enfermeira e usa anfetaminas para aguentar plantões duplos. Ela já chegou atrasada várias vezes porque estava se recuperando da “ressaca” da droga, e já cometeu erros graves no trabalho (como trocar medicações de pacientes) porque estava sob efeito. Ela já recebeu várias advertências, mas não consegue parar de usar.
Nos estudos: Lucas é estudante de medicina e toma metilfenidato (um estimulante usado para TDAH) para estudar. Ele já perdeu várias provas porque passou a noite inteira usando a droga e, no dia seguinte, não conseguiu acordar. Ele também já foi reprovado em disciplinas porque, mesmo estudando muito, não conseguia se concentrar nas aulas por causa dos efeitos colaterais da droga (como ansiedade e insônia).
Em casa: Roberto é pai de dois filhos e usa metanfetamina. Ele já deixou de buscar as crianças na escola várias vezes porque estava dormindo depois de usar, e já esqueceu de pagar contas porque gastou todo o dinheiro com a droga. Sua esposa já ameaçou pedir o divórcio, mas ele não consegue parar.

O que é normal vs. o que é sintomático:
Normal: Você está cansado depois de uma festa e decide faltar ao trabalho no dia seguinte para descansar. Você avisa seu chefe e consegue compensar o dia depois.
Sintomático: Você falta ao trabalho várias vezes por mês porque está usando metanfetamina ou se recuperando dos efeitos. Você não avisa seu chefe, não consegue compensar os dias e já recebeu advertências. Mesmo assim, não consegue parar de usar.


6. Continuar usando mesmo quando isso causa problemas nos relacionamentos

Tradução leiga: A pessoa sabe que o uso da substância está prejudicando seus relacionamentos (com a família, os amigos, o parceiro ou os colegas de trabalho), mas continua usando mesmo assim. É como quando você sabe que está magoando alguém que ama, mas não consegue parar de fazer aquilo que está magoando. No caso dos estimulantes, a pessoa pode até querer parar, mas a vontade de usar é mais forte do que o amor pelas pessoas ao seu redor.

Exemplos do dia a dia:
Com a família: Camila usa anfetaminas para emagrecer e já brigou várias vezes com a mãe, que diz que ela está se matando. Sua mãe já chorou na frente dela, implorando para que pare, mas Camila continua usando, mesmo sabendo que isso está destruindo o relacionamento das duas.
Com o parceiro: André usa metanfetamina e já traiu sua namorada várias vezes porque, sob efeito da droga, não consegue controlar seus impulsos. Sua namorada já descobriu e ameaçou terminar o relacionamento, mas André não consegue parar de usar, mesmo amando ela.
Com os amigos: Larissa usa metcatinona e já perdeu vários amigos porque, quando está sob efeito, fica agressiva e paranoica. Seus amigos já tentaram ajudá-la, mas ela continua usando, mesmo sabendo que isso está afastando as pessoas que ama.

O que é normal vs. o que é sintomático:
Normal: Você gosta de tomar uma cerveja com os amigos e, às vezes, briga com sua parceira porque ela acha que você bebe demais. Vocês conversam, chegam a um acordo e você consegue reduzir o consumo.
Sintomático: Você usa metanfetamina todos os dias e já perdeu vários amigos porque, sob efeito, fica agressivo e paranoico. Sua parceira já ameaçou terminar o relacionamento, mas você não consegue parar de usar, mesmo sabendo que isso está destruindo sua vida.


7. Abandonar atividades que antes eram importantes

Tradução leiga: A pessoa para de fazer coisas que gostava (hobbies, esportes, sair com amigos) porque prefere usar a substância ou porque está se recuperando dos efeitos. É como quando você para de jogar futebol porque prefere ficar em casa vendo série. A diferença é que, no caso dos estimulantes, a pessoa não escolhe conscientemente — é como se a droga tivesse roubado o prazer que ela sentia antes em outras atividades.

Exemplos do dia a dia:
Hobbies: Gustavo adorava tocar violão e fazia aulas duas vezes por semana. Depois que começou a usar metanfetamina, parou de tocar porque prefere passar o tempo procurando a droga ou se recuperando dos efeitos. Ele até tentou voltar a tocar algumas vezes, mas não sente mais prazer nisso.
Esportes: Renata era corredora e participava de maratonas. Depois que começou a tomar anfetaminas para emagrecer, parou de correr porque sente que não tem mais energia para isso. Ela também parou de ir à academia porque prefere passar o tempo usando a droga ou dormindo para se recuperar.
Sair com amigos: Thiago adorava sair com os amigos para jantar ou ir ao cinema. Depois que começou a usar metcatinona, parou de sair porque prefere ficar em casa usando a droga. Quando os amigos o convidam, ele inventa desculpas ou vai, mas não consegue se divertir porque está pensando em como vai conseguir mais droga.

O que é normal vs. o que é sintomático:
Normal: Você está muito ocupado no trabalho e decide parar de fazer aulas de pintura por um tempo. Quando as coisas se acalmam, você volta a pintar e sente prazer nisso.
Sintomático: Você para de fazer coisas que amava (como tocar violão ou jogar futebol) porque prefere usar metanfetamina. Mesmo quando tenta voltar, não sente mais prazer nas atividades, porque a droga roubou sua capacidade de sentir alegria com outras coisas.


8. Usar a substância em situações perigosas

Tradução leiga: A pessoa usa a substância em situações em que isso pode colocar ela ou outras pessoas em risco, como dirigir, operar máquinas ou tomar decisões importantes. É como quando você bebe e decide dirigir, mesmo sabendo que isso é perigoso. A diferença é que, no caso dos estimulantes, a pessoa pode até achar que está “mais alerta”, mas na verdade está com os reflexos prejudicados e tomando decisões impulsivas.

Exemplos do dia a dia:
Dirigir sob efeito: Marcos usa metanfetamina e, mesmo sabendo que isso é perigoso, dirige sob efeito porque acha que está “mais focado”. Ele já quase causou vários acidentes porque, sob efeito, se distrai facilmente e toma decisões impulsivas (como ultrapassar em local proibido).
Operar máquinas: Juliana trabalha em uma fábrica e usa anfetaminas para aguentar o turno da noite. Ela já operou máquinas pesadas sob efeito, mesmo sabendo que isso é contra as regras da empresa e pode causar acidentes graves.
Tomar decisões importantes: Carlos é empresário e usa metcatinona para trabalhar até tarde. Ele já tomou decisões financeiras importantes sob efeito, como assinar contratos sem ler direito ou investir dinheiro em negócios arriscados. Ele já perdeu muito dinheiro por causa disso.

O que é normal vs. o que é sintomático:
Normal: Você toma um café para dirigir à noite e se sente mais alerta. Mesmo assim, dirige com cuidado e respeita as regras de trânsito.
Sintomático: Você usa metanfetamina e dirige sob efeito, mesmo sabendo que isso é perigoso. Você já quase causou acidentes porque, sob efeito, se distrai facilmente e toma decisões impulsivas.


9. Continuar usando mesmo quando isso causa problemas de saúde

Tradução leiga: A pessoa sabe que o uso da substância está prejudicando sua saúde (causando problemas no coração, no fígado, na mente), mas continua usando mesmo assim. É como quando você sabe que fumar faz mal para os pulmões, mas não consegue parar. A diferença é que, no caso dos estimulantes, os problemas de saúde podem ser muito graves e aparecer rapidamente, como infartos, derrames e psicose.

Exemplos do dia a dia:
Problemas cardíacos: Ana toma anfetaminas para emagrecer e já teve várias crises de taquicardia (coração acelerado). Seu médico disse que ela pode ter um infarto se continuar usando, mas ela não consegue parar, porque tem medo de engordar.
Problemas mentais: Pedro usa metanfetamina e já teve vários episódios de psicose (alucinações e delírios). Ele já foi internado várias vezes, mas continua usando porque acha que “não é tão grave” e que “consegue controlar”.
Problemas no fígado: Mariana usa metcatinona e já teve hepatite (inflamação no fígado) por causa disso. Seu médico disse que ela pode precisar de um transplante se continuar usando, mas ela não consegue parar, porque a fissura é mais forte do que o medo de morrer.

O que é normal vs. o que é sintomático:
Normal: Você sabe que comer fast food todo dia faz mal para a saúde, mas às vezes cede à tentação. Quando percebe que está engordando ou sentindo dores no estômago, consegue reduzir o consumo.
Sintomático: Você sabe que usar metanfetamina está te causando problemas cardíacos e psicose, mas não consegue parar, mesmo sabendo que pode morrer por causa disso.


10. Desenvolver tolerância (precisar de doses cada vez maiores para ter o mesmo efeito)

Tradução leiga: Com o tempo, o cérebro se acostuma com a substância e ela passa a fazer menos efeito. É como quando você toma um café pela primeira vez e sente um “up” forte, mas depois de um tempo, precisa de três xícaras para sentir o mesmo efeito. No caso dos estimulantes, a pessoa começa a precisar de doses cada vez maiores para se sentir “normal” ou para ter o mesmo prazer de antes. Isso é perigoso porque aumenta o risco de overdose e de efeitos colaterais graves.

Exemplos do dia a dia:
No começo: Quando Lucas começou a tomar anfetaminas para estudar, um comprimido era suficiente para ele ficar acordado a noite inteira. Agora, ele precisa de três comprimidos para ter o mesmo efeito, e mesmo assim, não consegue se concentrar como antes.
Com o tempo: Sofia começou a usar metanfetamina em festas e, no começo, uma pequena quantidade era suficiente para ela se sentir eufórica. Agora, ela precisa de doses cada vez maiores para ter o mesmo efeito, e mesmo assim, não sente mais o mesmo prazer de antes.
Na dependência: Ricardo usava metcatinona para trabalhar e, no começo, uma dose pequena era suficiente para ele aguentar o turno da noite. Agora, ele precisa de doses cada vez maiores para se sentir “normal”, e mesmo assim, passa o dia cansado e irritado.

O que é normal vs. o que é sintomático:
Normal: Você toma café todos os dias e, com o tempo, precisa de mais xícaras para sentir o mesmo efeito. Mas você consegue reduzir o consumo se quiser, sem sentir sintomas de abstinência.
Sintomático: Você toma anfetaminas e, com o tempo, precisa de doses cada vez maiores para se sentir “normal”. Quando tenta reduzir, sente sintomas de abstinência (como cansaço extremo, depressão e irritabilidade), e acaba voltando a usar.


11. Ter sintomas de abstinência quando para de usar

Tradução leiga: Quando a pessoa para de usar a substância ou reduz a dose, o corpo reage com sintomas físicos e emocionais desagradáveis, como se estivesse “em greve”. É como quando você para de tomar café de repente e sente dor de cabeça, cansaço e irritabilidade. No caso dos estimulantes, os sintomas de abstinência podem ser muito mais intensos e duradouros, incluindo depressão profunda, ansiedade, insônia e até pensamentos suicidas.

Exemplos do dia a dia:
Depressão: Depois de parar de usar metanfetamina, Carlos se sente tão deprimido que não consegue sair da cama. Ele chora sem motivo, não sente prazer em nada e pensa em se matar. Ele já tentou parar várias vezes, mas sempre volta a usar porque não aguenta a tristeza.
Ansiedade: Ana parou de tomar anfetaminas para emagrecer e, nos primeiros dias, se sente tão ansiosa que não consegue ficar parada. Ela tem crises de pânico, sente o coração acelerado e tem medo de que algo ruim aconteça. Ela já voltou a usar várias vezes porque não aguenta a ansiedade.
Insônia: Pedro parou de usar metcatinona e, nos primeiros dias, não consegue dormir. Ele passa noites inteiras acordado, pensando na droga, e durante o dia, se sente exausto e irritado. Ele já voltou a usar várias vezes porque não aguenta a insônia.

O que é normal vs. o que é sintomático:
Normal: Você para de tomar café e, nos primeiros dias, sente um pouco de dor de cabeça e cansaço. Depois de uma semana, os sintomas passam e você se sente bem.
Sintomático: Você para de usar metanfetamina e, nos primeiros dias, sente uma depressão tão forte que pensa em se matar. Você também sente ansiedade, insônia e dores no corpo. Mesmo sabendo que os sintomas vão passar com o tempo, você volta a usar porque não aguenta o sofrimento.


Um aviso importante

Ter um ou dois desses sintomas não significa que a pessoa tenha um transtorno por uso de estimulantes. Por exemplo:
– Todo mundo já perdeu o controle de alguma coisa na vida (como comer um pacote inteiro de biscoito sem querer), mas isso não significa que tenha um transtorno.
– Todo mundo já tentou parar de fazer algo e não conseguiu (como parar de roer unhas), mas isso não significa que tenha uma dependência.
– Todo mundo já sentiu vontade de fazer algo que sabe que não é bom (como comer um doce antes do jantar), mas isso não significa que tenha fissura.

O que define o transtorno é o conjunto de sintomas, a intensidade e o impacto na vida. Se a pessoa apresenta vários desses sintomas por um período prolongado (pelo menos 12 meses) e isso está prejudicando sua saúde, seus relacionamentos, seu trabalho ou seus estudos, é importante buscar ajuda profissional.


Como se manifesta no dia a dia?

O transtorno por uso de estimulantes não afeta apenas o momento em que a pessoa está usando a droga. Ele invade todos os aspectos da vida, como uma sombra que não sai de perto. Os efeitos aparecem no trabalho, nos relacionamentos, na rotina e até na saúde física. Vamos ver como isso acontece na prática, com exemplos concretos de situações que pacientes e familiares relatam no consultório.


No trabalho ou na escola

O trabalho e os estudos são duas das áreas mais afetadas pelo transtorno por uso de estimulantes. No começo, a pessoa pode até se sentir mais produtiva, mas com o tempo, a droga começa a prejudicar seu desempenho, sua reputação e sua capacidade de manter um emprego ou concluir os estudos.

Exemplos concretos:

  1. Falta de pontualidade e absenteísmo
  2. Situação: Ricardo é motorista de aplicativo e usa metanfetamina para aguentar longas jornadas. Nos primeiros meses, ele conseguia trabalhar 16 horas por dia sem problemas, mas com o tempo, começou a chegar atrasado ou a faltar ao trabalho porque estava dormindo demais depois de usar. Ele já perdeu várias corridas porque não acordou a tempo, e seus clientes começaram a reclamar. Seu chefe já o advertiu várias vezes, mas ele não consegue parar de usar.
  3. Impacto: Ricardo está prestes a ser demitido, mas não consegue parar de usar a droga porque acha que “precisa” dela para trabalhar.

  4. Erros no trabalho

  5. Situação: Juliana é enfermeira e toma anfetaminas para aguentar plantões duplos. Nos primeiros meses, ela se sentia mais alerta e conseguia dar conta de tudo, mas com o tempo, começou a cometer erros graves, como trocar medicações de pacientes ou esquecer de anotar informações importantes no prontuário. Ela já foi advertida várias vezes, mas não consegue parar de usar porque acha que “precisa” da droga para dar conta do trabalho.
  6. Impacto: Juliana está com medo de ser demitida ou, pior, de causar um erro que prejudique um paciente. Ela já pensou em pedir demissão, mas não consegue porque precisa do dinheiro para comprar a droga.

  7. Dificuldade de concentração

  8. Situação: Lucas é estudante de medicina e toma metilfenidato (um estimulante usado para TDAH) para estudar. Nos primeiros meses, ele conseguia se concentrar por horas e absorver muito conteúdo, mas com o tempo, começou a ter dificuldade para se concentrar, mesmo sob efeito da droga. Ele passa horas lendo um texto, mas não consegue entender nada. Ele já tentou aumentar a dose, mas isso só piorou a ansiedade e a insônia.
  9. Impacto: Lucas está prestes a ser reprovado em várias disciplinas e não sabe o que fazer. Ele já pensou em desistir do curso, mas não consegue porque sonha em ser médico desde criança.

  10. Problemas com colegas e chefes

  11. Situação: Marcos é vendedor e usa metcatinona para trabalhar até tarde. Nos primeiros meses, ele era o funcionário do mês, mas com o tempo, começou a ficar agressivo e paranoico no trabalho. Ele já brigou com vários colegas e com seu chefe, acusando-os de “estarem contra ele”. Ele também já faltou ao trabalho várias vezes porque estava se recuperando dos efeitos da droga.
  12. Impacto: Marcos está prestes a ser demitido, mas não consegue parar de usar porque acha que “precisa” da droga para vender. Ele também está isolado no trabalho, porque ninguém quer mais trabalhar com ele.

  13. Perda de oportunidades

  14. Situação: Fernanda é advogada e toma anfetaminas para trabalhar em casos importantes. Nos primeiros meses, ela conseguia trabalhar até tarde e dar conta de tudo, mas com o tempo, começou a perder prazos e a cometer erros em petições. Ela já perdeu vários clientes importantes e foi preterida em uma promoção porque seu chefe disse que ela “não é mais confiável”.
  15. Impacto: Fernanda está com medo de perder o emprego e não conseguir outro. Ela também está endividada porque gastou muito dinheiro com a droga.

Nos relacionamentos

Os relacionamentos são outra área gravemente afetada pelo transtorno por uso de estimulantes. A pessoa pode se tornar agressiva, paranoica, distante ou até violenta, afastando as pessoas que ama. Muitos pacientes relatam que, no auge do uso, não reconhecem mais a si mesmos e não entendem por que seus familiares e amigos estão tão preocupados.

Exemplos concretos:

  1. Brigas constantes
  2. Situação: André usa metanfetamina e, quando está sob efeito, fica agressivo e paranoico. Ele já acusou sua namorada de traição várias vezes, mesmo sem provas, e já a agrediu fisicamente durante uma discussão. Ela já tentou terminar o relacionamento várias vezes, mas ele sempre pede desculpas e promete mudar. Depois de alguns dias, volta a usar e a agressividade retorna.
  3. Impacto: A namorada de André está com medo de continuar com ele, mas não sabe como ajudá-lo. Ela também está emocionalmente esgotada e pensa em procurar ajuda para si mesma.

  4. Isolamento social

  5. Situação: Larissa usava metcatinona e, no começo, saía com os amigos todos os fins de semana. Com o tempo, começou a preferir ficar em casa usando a droga, porque sob efeito, se sentia mais “conectada” com as pessoas. Seus amigos começaram a convidá-la menos, porque ela sempre inventava desculpas para não sair. Quando saía, não conseguia se divertir porque estava pensando em como ia conseguir mais droga.
  6. Impacto: Larissa está sozinha e deprimida. Ela já tentou voltar a sair com os amigos, mas não sente mais prazer em nada. Ela também está com medo de que seus amigos a abandonem de vez.

  7. Traição e infidelidade

  8. Situação: Thiago usa anfetaminas e, quando está sob efeito, não consegue controlar seus impulsos sexuais. Ele já traiu sua esposa várias vezes com pessoas que conheceu em festas ou na internet. Sua esposa já descobriu e ameaçou pedir o divórcio, mas ele não consegue parar de usar porque acha que “precisa” da droga para se sentir desejado.
  9. Impacto: A esposa de Thiago está pensando em se separar, mas não sabe como lidar com a situação. Ela também está com medo de pegar uma doença sexualmente transmissível.

  10. Negligência com os filhos

  11. Situação: Patrícia é mãe de dois filhos e usa metanfetamina. Nos primeiros meses, ela conseguia dar conta de tudo, mas com o tempo, começou a negligenciar os cuidados com as crianças. Ela já deixou de buscar os filhos na escola várias vezes porque estava dormindo depois de usar, e já esqueceu de dar comida para eles porque estava “na fissura”. Seu ex-marido já ameaçou pedir a guarda das crianças, mas ela não consegue parar de usar.
  12. Impacto: Patrícia está com medo de perder a guarda dos filhos, mas não consegue parar de usar porque acha que “precisa” da droga para dar conta de tudo. Ela também está com vergonha de pedir ajuda, porque acha que vão julgá-la como uma “mãe ruim”.

  13. Desconfiança e paranoia

  14. Situação: Eduardo usa metcatinona e, quando está sob efeito, fica paranoico e desconfiado. Ele já acusou sua mãe de “estar contra ele” e já trancou a porta do quarto para que ela não entrasse. Ele também já escondeu dinheiro e objetos de valor porque achava que ela ia roubá-lo. Sua mãe já tentou levá-lo ao médico várias vezes, mas ele se recusa a ir porque acha que “não precisa de ajuda”.
  15. Impacto: A mãe de Eduardo está emocionalmente esgotada e não sabe mais o que fazer. Ela também está com medo de que ele faça algo contra si mesmo ou contra ela.

Na rotina

A rotina da pessoa com transtorno por uso de estimulantes costuma ser caótica. O sono, a alimentação, o autocuidado e o lazer são deixados de lado em nome do uso da droga. Muitos pacientes relatam que, no auge do uso, não reconhecem mais sua própria vida — é como se estivessem vivendo em um filme, sem controle sobre o que acontece.

Exemplos concretos:

  1. Sono desregulado
  2. Situação: Sofia toma anfetaminas para emagrecer e, no começo, conseguia dormir normalmente. Com o tempo, começou a ter insônia e a passar noites inteiras acordada, mesmo sem querer. Ela já tentou tomar remédios para dormir, mas não adianta. Durante o dia, se sente exausta e irritada, mas não consegue parar de usar porque acha que “precisa” da droga para emagrecer.
  3. Impacto: Sofia está com olheiras profundas, dificuldade de concentração e memória. Ela também está mais propensa a acidentes, porque está sempre cansada.

  4. Alimentação desregulada

  5. Situação: Carlos usa metanfetamina e, quando está sob efeito, não sente fome. Ele já passou dias inteiros sem comer, porque a droga tira seu apetite. Quando a fissura passa, ele come tudo o que vê pela frente, porque sente uma fome incontrolável. Ele já ganhou e perdeu muito peso por causa disso.
  6. Impacto: Carlos está desnutrido e com problemas de saúde, como gastrite e anemia. Ele também está com vergonha do seu corpo e evita sair de casa.

  7. Falta de autocuidado

  8. Situação: Mariana usa metcatinona e, no começo, conseguia manter uma rotina de autocuidado. Com o tempo, começou a negligenciar sua higiene pessoal, porque preferia passar o tempo usando a droga. Ela já passou dias sem tomar banho, escovar os dentes ou trocar de roupa. Seus amigos já comentaram sobre o cheiro, mas ela não se importa.
  9. Impacto: Mariana está isolada socialmente, porque as pessoas evitam ficar perto dela. Ela também está com problemas de saúde, como infecções de pele e cáries.

  10. Lazer abandonado

  11. Situação: Gustavo adorava tocar violão e fazia aulas duas vezes por semana. Depois que começou a usar metanfetamina, parou de tocar porque preferia passar o tempo procurando a droga ou se recuperando dos efeitos. Ele já tentou voltar a tocar algumas vezes, mas não sente mais prazer nisso.
  12. Impacto: Gustavo está deprimido e entediado. Ele não sabe mais o que fazer para se divertir e passa os dias pensando em como vai conseguir mais droga.

  13. Gastos excessivos

  14. Situação: Renata usa anfetaminas e gasta todo o seu salário com a droga. Ela já deixou de pagar contas importantes, como aluguel e luz, porque preferiu comprar mais comprimidos. Ela também já pediu dinheiro emprestado para amigos e familiares, mas nunca pagou de volta.
  15. Impacto: Renata está endividada e com o nome sujo. Ela também está com medo de ser despejada, porque já atrasou o aluguel várias vezes.

Na saúde física

Os estimulantes não afetam apenas a mente — eles também causam danos graves ao corpo. Muitos pacientes chegam ao consultório com problemas de saúde que não sabiam que estavam relacionados ao uso da droga. Alguns desses problemas podem ser irreversíveis, como danos ao coração, ao fígado e ao cérebro.

Exemplos concretos:

  1. Problemas cardíacos
  2. Situação: Ana toma anfetaminas para emagrecer e já teve várias crises de taquicardia (coração acelerado). Ela já foi ao pronto-socorro várias vezes, mas os médicos sempre dizem que é “ansiedade”. Um dia, ela teve uma dor forte no peito e foi diagnosticada com arritmia cardíaca. O médico disse que ela pode ter um infarto se continuar usando.
  3. Impacto: Ana está com medo de morrer, mas não consegue parar de usar porque tem medo de engordar. Ela também está com vergonha de contar para a família o que está acontecendo.

  4. Problemas mentais

  5. Situação: Pedro usa metanfetamina e já teve vários episódios de psicose (alucinações e delírios). Ele já viu coisas que não existiam, como pessoas o perseguindo, e já acreditou em coisas que não eram reais, como achar que sua família estava contra ele. Ele já foi internado várias vezes, mas sempre volta a usar porque acha que “não é tão grave”.
  6. Impacto: Pedro está com medo de perder o contato com a realidade de vez. Ele também está com vergonha de contar para os amigos o que está acontecendo, porque acha que vão julgá-lo.

  7. Problemas no fígado

  8. Situação: Mariana usa metcatinona e já teve hepatite (inflamação no fígado) por causa disso. Ela já foi internada várias vezes e os médicos disseram que ela pode precisar de um transplante se continuar usando. Ela também já teve icterícia (pele e olhos amarelados) e dores abdominais fortes.
  9. Impacto: Mariana está com medo de morrer, mas não consegue parar de usar porque a fissura é mais forte do que o medo. Ela também está com vergonha de contar para a família o que está acontecendo.

  10. Problemas dentários

  11. Situação: Thiago usa metanfetamina e já perdeu vários dentes por causa da droga. Ele também tem cáries profundas e gengivite (inflamação na gengiva). Seu dentista disse que ele precisa fazer vários tratamentos, mas ele não tem dinheiro porque gastou tudo com a droga.
  12. Impacto: Thiago está com vergonha de sorrir e evita sair de casa. Ele também está com dor constante e dificuldade para comer.

  13. Problemas de pele

  14. Situação: Eduardo usa metcatinona e já teve várias infecções de pele por causa da droga. Ele também tem feridas que não cicatrizam e coceira constante. Seu médico disse que isso acontece porque a droga enfraquece o sistema imunológico e prejudica a cicatrização.
  15. Impacto: Eduardo está com vergonha de mostrar o corpo e evita sair de casa. Ele também está com medo de pegar uma infecção grave.

O que causa essa condição?

Quando falamos em transtorno por uso de estimulantes, muitas pessoas pensam que é apenas uma questão de “falta de força de vontade” ou “mau comportamento”. Mas a ciência mostra que as coisas são muito mais complexas do que isso. O desenvolvimento desse transtorno envolve uma combinação de fatores genéticos, neurobiológicos, ambientais e psicológicos, que interagem de forma única em cada pessoa.

Vamos entender cada um desses fatores de forma simples, como se estivéssemos conversando na sala de espera de um consultório. Vamos usar analogias, exemplos do dia a dia e desfazer alguns mitos pelo caminho.


Fatores genéticos: “A roleta da herança”

Imagine que o seu cérebro é como um computador, e os seus genes são o sistema operacional. Alguns sistemas operacionais são mais vulneráveis a vírus do que outros. Da mesma forma, algumas pessoas têm uma predisposição genética para desenvolver dependência de estimulantes, enquanto outras não.

Como isso funciona na prática?

  1. Histórico familiar
  2. Se você tem um parente de primeiro grau (pai, mãe, irmão) com transtorno por uso de substâncias, suas chances de desenvolver o mesmo problema são 4 a 8 vezes maiores do que alguém sem histórico familiar. Isso não significa que você vai desenvolver o transtorno, mas que seu “sistema operacional” é mais vulnerável.
  3. Exemplo: João cresceu vendo seu pai usar anfetaminas para trabalhar. Quando João começou a tomar os mesmos remédios para estudar, desenvolveu dependência muito mais rápido do que seus amigos que não tinham histórico familiar.

  4. Genes específicos

  5. Alguns genes influenciam como o seu cérebro responde aos estimulantes. Por exemplo:
    • Gene DRD2: Esse gene está relacionado aos receptores de dopamina (um neurotransmissor ligado ao prazer e à recompensa). Pessoas com uma variação específica desse gene podem sentir um “barato” mais intenso com os estimulantes, o que aumenta o risco de dependência.
    • Gene COMT: Esse gene ajuda a regular a dopamina no cérebro. Pessoas com uma variação desse gene podem ter mais dificuldade para “desligar” os efeitos dos estimulantes, o que aumenta o risco de uso prolongado e dependência.
  6. Analogia: Imagine que a dopamina é como a gasolina do seu cérebro. Algumas pessoas têm um tanque de gasolina que enche muito rápido (e transborda com facilidade), enquanto outras têm um tanque que enche devagar (e não transborda tão fácil). Quem tem o tanque que enche rápido tem mais risco de dependência.

  7. Diferenças entre homens e mulheres

  8. As mulheres tendem a desenvolver dependência de estimulantes mais rápido do que os homens, mesmo usando doses menores. Isso acontece por causa de diferenças hormonais e na forma como o corpo metaboliza a droga.
  9. Exemplo: Maria e Pedro começaram a usar metanfetamina na mesma época. Maria desenvolveu dependência em 6 meses, enquanto Pedro levou 1 ano e meio. Além disso, Maria teve mais problemas de saúde (como ansiedade e depressão) do que Pedro.

Mito vs. Verdade

Mito: “Se meus pais não tiveram problemas com drogas, eu também não vou ter.”
Verdade: Ter histórico familiar aumenta o risco, mas não é uma sentença. Muitas pessoas sem histórico familiar desenvolvem dependência, e muitas com histórico nunca usam drogas. Os genes são apenas um dos fatores — o ambiente e as escolhas também contam muito.

Mito: “Dependência é questão de caráter, não de genética.”
Verdade: A dependência é uma doença do cérebro, não uma falha moral. Assim como algumas pessoas têm predisposição para diabetes ou hipertensão, outras têm predisposição para dependência. Isso não significa que a pessoa seja “fraca” ou “sem vergonha”.


Fatores neurobiológicos: “O cérebro sequestrado”

Os estimulantes agem diretamente no sistema de recompensa do cérebro, que é como um “circuito de prazer” que nos motiva a fazer coisas importantes para a sobrevivência, como comer, beber água e ter relações sexuais. Quando usamos estimulantes, esse circuito é hackeado, e o cérebro passa a associar a droga com prazer e sobrevivência.

Como isso acontece?

  1. Dopamina: o neurotransmissor do prazer
  2. A dopamina é um mensageiro químico que nos faz sentir prazer e motivação. Quando você come um chocolate ou recebe um elogio, seu cérebro libera dopamina e você se sente bem.
  3. Os estimulantes aumentam artificialmente os níveis de dopamina no cérebro, de forma muito mais intensa do que qualquer experiência natural. É como se você ganhasse na loteria toda vez que usasse a droga.
  4. Analogia: Imagine que a dopamina é como um alto-falante que grita “ISSO É BOM! FAÇA DE NOVO!”. Com os estimulantes, o alto-falante fica no volume máximo, e o cérebro passa a ignorar outras fontes de prazer (como comida, sexo ou hobbies).

  5. Tolerância: o cérebro se acostuma

  6. Com o uso repetido, o cérebro se acostuma com os altos níveis de dopamina e reduz a produção natural desse neurotransmissor. É como se o cérebro dissesse: “Se você está me dando dopamina de graça, eu não preciso produzir a minha.”
  7. Isso faz com que a pessoa precise de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito. É como quando você toma um café pela primeira vez e sente um “up” forte, mas depois de um tempo, precisa de três xícaras para sentir o mesmo efeito.
  8. Exemplo: No começo, Lucas tomava um comprimido de anfetamina para estudar e conseguia se concentrar por horas. Depois de alguns meses, precisava de três comprimidos para ter o mesmo efeito, e mesmo assim, não conseguia se concentrar como antes.

  9. Dependência: o cérebro passa a “precisar” da droga

  10. Quando o cérebro reduz a produção natural de dopamina, a pessoa passa a se sentir deprimida, ansiosa e sem energia quando não está usando a droga. É como se o cérebro tivesse esquecido como produzir prazer sozinho.
  11. Nesse ponto, a pessoa não usa mais a droga para se sentir “bem”, mas para se sentir “normal”. É como se ela estivesse em um buraco e a droga fosse a única escada para sair.
  12. Exemplo: Depois de parar de usar metanfetamina, Carlos se sentiu tão deprimido que não conseguia sair da cama. Ele chorava sem motivo e pensava em se matar. Ele já tentou parar várias vezes, mas sempre volta a usar porque não aguenta a tristeza.

  13. Mudanças estruturais no cérebro

  14. Estudos mostram que o uso prolongado de estimulantes pode encolher áreas do cérebro relacionadas ao autocontrole, à tomada de decisões e à memória. É como se o cérebro “desaprendesse” a fazer essas coisas sozinho.
  15. Exemplo: Fernanda usava anfetaminas para trabalhar e, com o tempo, começou a ter dificuldade para tomar decisões simples, como escolher o que comer no almoço. Ela também esquecia coisas importantes, como compromissos e aniversários.

Mito vs. Verdade

Mito: “Dependência é falta de força de vontade. Se a pessoa quisesse, parava.”
Verdade: A dependência muda a estrutura e o funcionamento do cérebro, tornando muito difícil parar sem ajuda. É como tentar parar de respirar voluntariamente: você até consegue por alguns segundos, mas depois o corpo assume o controle. No caso da dependência, o cérebro “assume o controle” e faz a pessoa buscar a droga, mesmo quando ela não quer.

Mito: “Se a pessoa parar de usar, o cérebro volta ao normal em poucos dias.”
Verdade: O cérebro pode levar meses ou anos para se recuperar dos danos causados pelos estimulantes. Alguns danos podem ser permanentes, como problemas de memória e dificuldade de sentir prazer com coisas simples (como comer ou ouvir música).


Fatores ambientais: “O solo onde a semente cresce”

Os fatores ambientais são como o solo onde a semente da dependência pode (ou não) crescer. Eles incluem tudo o que acontece ao redor da pessoa: a família, os amigos, o trabalho, a escola, a comunidade e até a cultura em que ela está inserida.

Como isso funciona?

  1. Família: o primeiro ambiente
  2. Ambiente familiar instável: Crianças que crescem em lares com violência, abuso, negligência ou pais com dependência química têm mais risco de desenvolver problemas com drogas. Isso acontece porque o cérebro da criança se adapta ao estresse constante, tornando-a mais vulnerável a buscar alívio em substâncias.
    • Exemplo: Mariana cresceu em uma casa onde o pai batia na mãe e usava cocaína. Quando ela começou a usar metanfetamina na adolescência, se sentiu “em casa”, porque era um ambiente que ela já conhecia.
  3. Superproteção ou negligência: Tanto a superproteção (quando os pais resolvem todos os problemas da criança) quanto a negligência (quando os pais ignoram as necessidades da criança) podem aumentar o risco de dependência. A superproteção impede a criança de desenvolver resiliência, enquanto a negligência a deixa vulnerável a buscar conforto em substâncias.

    • Exemplo: João foi criado por pais superprotetores que nunca deixaram ele resolver seus próprios problemas. Quando ele entrou na faculdade e se sentiu sobrecarregado, não sabia como lidar com o estresse e começou a tomar anfetaminas para dar conta dos estudos.
  4. Amigos e grupos sociais

  5. Pressão dos pares: Adolescentes e jovens adultos são especialmente vulneráveis à pressão dos amigos. Se o grupo usa drogas, a pessoa pode começar a usar para “pertencer” ou para não ser excluída.
    • Exemplo: Pedro começou a usar metanfetamina porque seus amigos de faculdade usavam e diziam que era “legal”. Ele não queria usar, mas tinha medo de ser zoado ou excluído do grupo.
  6. Isolamento social: Por outro lado, pessoas que se sentem isoladas ou rejeitadas podem usar drogas para aliviar a solidão.

    • Exemplo: Larissa se mudou para uma cidade nova e não conseguiu fazer amigos. Ela começou a usar metcatinona para se sentir “conectada” com as pessoas, mesmo que fosse apenas virtualmente.
  7. Trabalho e escola

  8. Ambientes de alta pressão: Profissões ou cursos com alta demanda (como medicina, direito ou plantões noturnos) podem aumentar o risco de uso de estimulantes, especialmente se a cultura do ambiente normaliza o uso de drogas para “dar conta”.
    • Exemplo: Lucas é estudante de medicina e começou a tomar metilfenidato (um estimulante usado para TDAH) porque seus colegas diziam que era “normal” usar para passar nas provas. Com o tempo, ele desenvolveu dependência.
  9. Trabalhos noturnos ou em turnos: Pessoas que trabalham à noite ou em turnos irregulares (como caminhoneiros, médicos e enfermeiros) têm mais risco de usar estimulantes para aguentar a jornada.

    • Exemplo: Ricardo é motorista de caminhão e usa anfetaminas para aguentar viagens longas. Ele começou a usar porque seus colegas faziam o mesmo, e agora não consegue parar.
  10. Comunidade e cultura

  11. Disponibilidade da droga: Em comunidades onde as drogas são fáceis de conseguir, o risco de uso e dependência é maior.
    • Exemplo: Em algumas regiões do Brasil, como o Sul e o Sudeste, a metanfetamina é mais fácil de conseguir do que em outras regiões. Isso aumenta o risco de uso e dependência nessas áreas.
  12. Normalização do uso: Em algumas culturas ou grupos sociais, o uso de drogas é visto como “normal” ou até “desejável”. Isso pode diminuir a percepção de risco e aumentar o uso.

    • Exemplo: Em algumas festas eletrônicas, o uso de ecstasy (que contém metanfetamina) é tão comum que as pessoas não veem problema em usar. Isso normaliza o uso e aumenta o risco de dependência.
  13. Traumas e estresse

  14. Traumas na infância: Crianças que sofrem abuso físico, sexual ou emocional têm mais risco de desenvolver dependência na vida adulta. Isso acontece porque o trauma muda a forma como o cérebro lida com o estresse e a dor.
    • Exemplo: Ana sofreu abuso sexual na infância e, na adolescência, começou a usar anfetaminas para “esquecer” o que aconteceu. Com o tempo, desenvolveu dependência.
  15. Estresse crônico: Pessoas que vivem em situações de estresse constante (como pobreza, violência ou desemprego) têm mais risco de usar drogas para aliviar o sofrimento.
    • Exemplo: Carlos perdeu o emprego e não conseguia arrumar outro. Ele começou a usar metanfetamina para “esquecer” os problemas e se sentir mais confiante. Com o tempo, desenvolveu dependência.

Mito vs. Verdade

Mito: “Pessoas de classe alta não desenvolvem dependência porque têm mais oportunidades.”
Verdade: A dependência não escolhe classe social. Pessoas de todas as classes podem desenvolver o transtorno, especialmente se tiverem acesso fácil às drogas (como remédios controlados) ou se viverem em ambientes de alta pressão (como profissões competitivas).

Mito: “Se a pessoa cresceu em uma família estruturada, não vai desenvolver dependência.”
Verdade: Mesmo em famílias estruturadas, a pessoa pode desenvolver dependência por causa de outros fatores, como genética, traumas ou pressão dos amigos. Além disso, algumas famílias “estruturadas” podem ser superprotetoras ou negligentes, o que também aumenta o risco.


Fatores da gestação e desenvolvimento: “As raízes do problema”

O que acontece durante a gestação e nos primeiros anos de vida pode influenciar o risco de dependência na vida adulta. É como se o cérebro da criança fosse uma planta: se as raízes não forem bem cuidadas, a planta pode crescer torta ou fraca.

Como isso funciona?

  1. Exposição a drogas durante a gestação
  2. Se a mãe usa estimulantes (ou outras drogas) durante a gravidez, o bebê pode nascer com síndrome de abstinência neonatal, que causa irritabilidade, tremores e dificuldade para se alimentar. Além disso, a exposição a drogas na gestação pode aumentar o risco de a criança desenvolver dependência na vida adulta.
  3. Exemplo: Maria usou anfetaminas durante a gravidez e seu filho, João, nasceu com síndrome de abstinência. Quando João cresceu, teve mais dificuldade para controlar impulsos e desenvolveu dependência de metanfetamina na adolescência.

  4. Nascimento prematuro ou baixo peso

  5. Bebês que nascem prematuros ou com baixo peso podem ter dificuldades no desenvolvimento cerebral, o que aumenta o risco de problemas de comportamento e dependência na vida adulta.
  6. Exemplo: Ana nasceu prematura e teve dificuldades de aprendizagem na escola. Na adolescência, começou a usar metanfetamina para “se sentir mais inteligente” e desenvolveu dependência.

  7. Traumas na primeira infância

  8. Crianças que sofrem negligência, abuso ou separação dos pais nos primeiros anos de vida têm mais risco de desenvolver dependência na vida adulta. Isso acontece porque o cérebro da criança se adapta ao estresse constante, tornando-a mais vulnerável a buscar alívio em substâncias.
  9. Exemplo: Pedro foi abandonado pela mãe aos 3 anos e criado por uma tia que não lhe dava atenção. Na adolescência, começou a usar anfetaminas para “esquecer” a solidão e desenvolveu dependência.

  10. Estilo de criação

  11. Crianças criadas em ambientes muito rígidos (com punições excessivas) ou muito permissivos (sem limites) têm mais risco de desenvolver problemas de comportamento e dependência na vida adulta.
  12. Exemplo: Lucas foi criado por pais muito rígidos que nunca deixavam ele tomar decisões. Na adolescência, começou a usar metanfetamina para “se sentir livre” e desenvolveu dependência.

Mito vs. Verdade

Mito: “Se a mãe não usou drogas durante a gravidez, a criança não vai ter problemas.”
Verdade: Mesmo sem exposição a drogas, fatores como estresse materno, má nutrição ou complicações no parto podem aumentar o risco de a criança desenvolver dependência na vida adulta.

Mito: “Crianças que crescem em orfanatos ou abrigos estão condenadas a ter problemas.”
Verdade: Embora crianças que crescem em ambientes instáveis tenham mais risco, muitas conseguem superar as dificuldades com apoio adequado (como terapia e educação de qualidade). O ambiente não é uma sentença.


Modelo biopsicossocial: “A receita do bolo”

O modelo biopsicossocial é uma forma de entender a dependência como resultado da interação entre fatores biológicos (genética, neurobiologia), psicológicos (traumas, personalidade) e sociais (família, amigos, cultura). É como uma receita de bolo: se você mudar um ingrediente, o resultado final também muda.

Como isso funciona?

  1. Biológico + Psicológico
  2. Uma pessoa com predisposição genética para dependência (biológico) que sofreu abuso na infância (psicológico) tem mais risco de desenvolver o transtorno do que alguém sem esses fatores.
  3. Exemplo: Ana tem uma variação no gene DRD2 (que aumenta a sensibilidade à dopamina) e sofreu abuso sexual na infância. Quando começou a usar anfetaminas na adolescência, desenvolveu dependência muito mais rápido do que seus amigos.

  4. Psicológico + Social

  5. Uma pessoa com baixa autoestima (psicológico) que vive em um ambiente onde o uso de drogas é normalizado (social) tem mais risco de desenvolver dependência.
  6. Exemplo: Pedro sempre se sentiu inferior aos colegas de faculdade e começou a usar metanfetamina porque seus amigos diziam que era “legal”. Com o tempo, desenvolveu dependência.

  7. Biológico + Social

  8. Uma pessoa com histórico familiar de dependência (biológico) que trabalha em um ambiente de alta pressão (social) tem mais risco de desenvolver o transtorno.
  9. Exemplo: Lucas tem pai alcoólatra (histórico familiar) e é estudante de medicina (ambiente de alta pressão). Ele começou a tomar metilfenidato para estudar e desenvolveu dependência.

  10. Biológico + Psicológico + Social

  11. Quando os três fatores se combinam, o risco de dependência é ainda maior.
  12. Exemplo: Maria tem uma variação no gene COMT (biológico), sofreu bullying na escola (psicológico) e vive em uma comunidade onde o uso de metanfetamina é comum (social). Ela começou a usar a droga para “esquecer” os problemas e desenvolveu dependência.

Mito vs. Verdade

Mito: “Dependência é só questão de genética.”
Verdade: A genética é apenas um dos fatores. Mesmo pessoas com alto risco genético podem não desenvolver dependência se tiverem um ambiente saudável e apoio psicológico.

Mito: “Se a pessoa tem uma infância feliz, não vai desenvolver dependência.”
Verdade: Embora uma infância feliz reduza o risco, outros fatores (como genética, traumas na vida adulta ou pressão social) podem levar ao desenvolvimento do transtorno.


Como é feito o diagnóstico?

Receber um diagnóstico de transtorno por uso de estimulantes pode ser um alívio para algumas pessoas (“Finalmente sei o que tenho!”) e um choque para outras (“Não pode ser, eu não sou viciado!”). Independentemente da reação inicial, o diagnóstico é o primeiro passo para entender o problema e buscar tratamento.

Mas como esse diagnóstico é feito na prática? Quem pode diagnosticar? Quanto tempo leva? O que o médico pergunta? Vamos responder a essas e outras perguntas de forma detalhada, como se estivéssemos acompanhando uma consulta passo a passo.


O processo de avaliação: passo a passo

O diagnóstico de transtorno por uso de estimulantes não é feito com um exame de sangue ou uma ressonância magnética. Ele é baseado em uma avaliação clínica, que inclui:
1. Entrevista detalhada (com a pessoa e, se possível, com familiares ou amigos).
2. Questionários e escalas (para avaliar a gravidade dos sintomas).
3. Exames físicos e laboratoriais (para descartar outras condições e avaliar danos à saúde).
4. Avaliação psicológica (para identificar transtornos mentais associados, como depressão ou ansiedade).

Vamos ver cada etapa em detalhes.


1. A primeira consulta: o que esperar

A primeira consulta costuma ser a mais longa, porque o médico ou psicólogo precisa entender a história da pessoa de forma completa. É como uma entrevista de emprego, mas ao contrário: em vez de você tentar convencer o entrevistador de que é bom, o profissional está tentando entender o que está acontecendo com você, sem julgamentos.

O que o profissional vai perguntar?
O médico ou psicólogo vai fazer perguntas sobre:
Padrão de uso da substância:
– Que tipo de estimulante você usa? (anfetamina, metanfetamina, metcatinona, etc.)
– Como você usa? (engole, cheira, injeta, fuma?)
– Com que frequência você usa? (todos os dias, nos fins de semana, só em festas?)
– Quanto você usa por vez? (um comprimido, meio grama, um papelote?)
– Há quanto tempo você usa?
– Você já tentou parar? Como foi?
Impacto na vida:
– O uso da substância já causou problemas no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos?
– Você já deixou de fazer coisas importantes (como trabalhar, estudar ou cuidar dos filhos) por causa da droga?
– Você já usou a substância em situações perigosas (como dirigir ou operar máquinas)?
– Você já teve problemas legais por causa da droga (como ser preso ou multado)?
Sintomas físicos e mentais:
– Você já sentiu sintomas de abstinência quando parou de usar? (cansaço, depressão, ansiedade, insônia, etc.)
– Você já teve alucinações ou delírios enquanto usava? (ver ou ouvir coisas que não existem, acreditar em coisas que não são reais)
– Você já teve problemas de saúde por causa da droga? (taquicardia, pressão alta, problemas no fígado, etc.)
Histórico pessoal e familiar:
– Você já teve outros problemas com drogas ou álcool?
– Você já foi diagnosticado com algum transtorno mental? (depressão, ansiedade, TDAH, bipolaridade, etc.)
– Alguém na sua família tem ou teve problemas com drogas ou transtornos mentais?
Motivação para mudar:
– Você quer parar de usar a substância? Por quê?
– O que você acha que aconteceria se parasse?
– O que você acha que aconteceria se continuasse usando?

Dica: Não tenha vergonha de responder com honestidade. O profissional não está ali para julgar, mas para ajudar. Se você mentir ou omitir informações, o diagnóstico pode ficar comprometido e o tratamento não vai funcionar.


2. Questionários e escalas: medindo a gravidade

Além da entrevista, o profissional pode usar questionários padronizados para avaliar a gravidade do transtorno. Esses questionários são como “réguas” que medem o quanto o uso da substância está prejudicando sua vida.

Alguns dos questionários mais usados são:
ASSIST (Alcohol, Smoking and Substance Involvement Screening Test): Um questionário da Organização Mundial da Saúde que avalia o uso de várias substâncias, incluindo estimulantes. Ele pergunta sobre frequência de uso, problemas relacionados e tentativas de parar.
Exemplo de pergunta: “Nos últimos três meses, com que frequência você usou anfetaminas ou outros estimulantes?” (Opções: nunca, uma ou duas vezes, mensalmente, semanalmente, diariamente ou quase diariamente).
DAST-10 (Drug Abuse Screening Test): Um questionário curto que avalia problemas relacionados ao uso de drogas.
Exemplo de pergunta: “Você já sentiu que deveria diminuir o uso de estimulantes?” (Opções: sim ou não).
Escala de Gravidade da Dependência (SDS): Um questionário que avalia a gravidade da dependência em uma escala de 0 a 15.
Exemplo de pergunta: “Com que frequência você acha que não consegue controlar o uso de estimulantes?” (Opções: nunca, às vezes, frequentemente, sempre).

Por que esses questionários são importantes?
Eles ajudam o profissional a:
– Identificar se o uso da substância é problemático ou não.
– Avaliar a gravidade do transtorno (leve, moderado ou grave).
– Monitorar a evolução do tratamento (se a pessoa está melhorando ou piorando).


3. Exames físicos e laboratoriais: olhando para o corpo

O médico também pode pedir exames físicos e laboratoriais para:
– Avaliar danos à saúde causados pelo uso da substância (como problemas no coração, no fígado ou nos rins).
– Descartar outras condições que podem estar causando os sintomas (como hipertireoidismo, que pode causar ansiedade e insônia).
– Verificar se a pessoa está usando outras substâncias (como álcool ou maconha), o que pode complicar o diagnóstico e o tratamento.

Alguns exames comuns são:
Exame de sangue: Para avaliar funções do fígado, rins e coração, além de verificar a presença de outras drogas.
Eletrocardiograma (ECG): Para avaliar o ritmo do coração, especialmente se a pessoa relata taquicardia ou dores no peito.
Exame de urina: Para detectar a presença de estimulantes ou outras drogas.
Tomografia ou ressonância magnética: Em casos mais graves, para avaliar danos cerebrais causados pelo uso prolongado.

Dica: Não se assuste se o médico pedir vários exames. Eles são importantes para garantir que o diagnóstico seja preciso e que o tratamento seja seguro.


4. Avaliação psicológica: olhando para a mente

Muitas pessoas com transtorno por uso de estimulantes também têm outros transtornos mentais, como depressão, ansiedade, TDAH ou bipolaridade. Por isso, o médico ou psicólogo pode fazer uma avaliação psicológica para identificar esses transtornos e planejar o tratamento adequado.

Alguns transtornos que podem estar associados são:
Depressão: Muitas pessoas usam estimulantes para “aliviar” a tristeza, mas o uso prolongado pode piorar a depressão.
Ansiedade: Os estimulantes podem causar ou piorar a ansiedade, especialmente em pessoas que já têm predisposição.
TDAH: Algumas pessoas com TDAH usam estimulantes (como o metilfenidato) com prescrição médica, mas podem desenvolver dependência se usarem doses maiores do que as recomendadas.
Transtorno bipolar: Durante uma fase de euforia (mania), a pessoa pode usar estimulantes para “potencializar” a energia, o que pode levar à dependência.
Esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos: O uso prolongado de estimulantes pode causar alucinações e delírios, que podem ser confundidos com esquizofrenia.

Como é feita a avaliação psicológica?
O psicólogo ou psiquiatra pode:
– Fazer perguntas sobre seu humor, pensamentos e comportamentos.
– Pedir para você preencher questionários sobre sintomas de depressão, ansiedade, TDAH, etc.
– Observar seu comportamento durante a consulta (se você está agitado, desatento, triste, etc.).


Quanto tempo leva para ser diagnosticado?

O tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico pode variar muito. Algumas pessoas demoram anos para buscar ajuda, enquanto outras são diagnosticadas em poucas semanas. Isso depende de vários fatores, como:
Reconhecimento do problema: Algumas pessoas demoram para perceber que o uso da substância está causando problemas. Outras sabem que têm um problema, mas têm vergonha ou medo de buscar ajuda.
Acesso a serviços de saúde: No Brasil, o acesso a serviços de saúde mental ainda é limitado, especialmente no SUS. Muitas pessoas demoram para conseguir uma consulta com um psiquiatra ou psicólogo.
Gravidade dos sintomas: Em casos mais graves (como psicose ou overdose), a pessoa pode ser diagnosticada rapidamente, porque precisa de atendimento de urgência.

Exemplo de trajetórias:
1. Diagnóstico rápido (algumas semanas):
– Maria começou a usar metanfetamina em festas e, em poucos meses, desenvolveu psicose (alucinações e delírios). Ela foi levada ao pronto-socorro pelos amigos e foi diagnosticada com transtorno por uso de estimulantes e transtorno psicótico induzido por substância.
2. Diagnóstico demorado (alguns anos):
– João começou a tomar anfetaminas para emagrecer e, aos poucos, desenvolveu dependência. Ele demorou anos para perceber que tinha um problema, porque achava que “todo mundo toma remédio para emagrecer”. Quando finalmente buscou ajuda, já tinha problemas de saúde graves (como arritmia cardíaca) e dificuldade para parar de usar.
3. Diagnóstico tardio (décadas):
– Carlos começou a usar cocaína na juventude e, com o tempo, passou a usar metanfetamina. Ele só buscou ajuda aos 50 anos, quando já tinha perdido o emprego, a família e a saúde. Ele foi diagnosticado com transtorno por uso de estimulantes e depressão grave.


Quem pode diagnosticar?

No Brasil, o diagnóstico de transtorno por uso de estimulantes pode ser feito por:
Psiquiatras: Médicos especializados em saúde mental. Eles podem fazer o diagnóstico, prescrever medicamentos e encaminhar para outros profissionais (como psicólogos ou terapeutas ocupacionais).
Psicólogos clínicos: Profissionais da psicologia que podem fazer o diagnóstico e oferecer psicoterapia. No entanto, eles não podem prescrever medicamentos.
Médicos de outras especialidades: Em alguns casos, médicos de família, clínicos gerais ou neurologistas podem suspeitar do diagnóstico e encaminhar para um psiquiatra.

Dica: Se você suspeita que tem um transtorno por uso de estimulantes, o ideal é buscar um psiquiatra, porque ele pode avaliar tanto os aspectos físicos quanto mentais do problema e prescrever medicamentos, se necessário.


SUS vs. particular: como funciona no Brasil?

No Brasil, você pode buscar ajuda tanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) quanto pelo sistema particular. Vamos ver como funciona cada um.

SUS (Sistema Único de Saúde)

O SUS oferece atendimento gratuito para transtornos por uso de substâncias, mas o acesso pode ser demorado e variar de acordo com a região.

Onde buscar ajuda?
1. Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Estratégia Saúde da Família (ESF):
– É o primeiro ponto de contato. Você pode agendar uma consulta com um médico de família ou clínico geral, que pode avaliar seus sintomas e encaminhar para um especialista (como um psiquiatra).
Dica: Leve um familiar ou amigo para te acompanhar, porque às vezes é difícil explicar tudo sozinho.
2. Centro de Atenção Psicossocial (CAPS):
– Os CAPS são serviços especializados em saúde mental e oferecem atendimento para pessoas com transtornos por uso de substâncias.
– Existem diferentes tipos de CAPS:
CAPS AD (Álcool e Drogas): Para pessoas com transtornos por uso de álcool e outras drogas.
CAPS II e CAPS III: Para pessoas com transtornos mentais graves (como esquizofrenia ou bipolaridade), que podem estar associados ao uso de substâncias.
Como acessar: Você pode ir diretamente a um CAPS ou ser encaminhado pela UBS.
3. Hospitais psiquiátricos:
– Em casos graves (como psicose ou risco de suicídio), a pessoa pode ser internada em um hospital psiquiátrico para desintoxicação e estabilização.
Dica: A internação deve ser a última opção, porque pode ser traumática. O ideal é buscar ajuda antes que a situação chegue a esse ponto.

Vantagens do SUS:
– Gratuito.
– Oferece uma rede de apoio (como grupos de ajuda e oficinas terapêuticas).

Desvantagens do SUS:
– Demora para conseguir consultas e exames.
– Falta de profissionais especializados em algumas regiões.
– Estigma e preconceito em alguns serviços.

Sistema particular

No sistema particular, você pode buscar ajuda em:
1. Clínicas especializadas em dependência química:
– Algumas clínicas oferecem tratamento ambulatorial (consultas e terapias) ou internação para desintoxicação.
Exemplo: Clínicas como a Clínica Maia (São Paulo) ou a Clínica Greenwood (Rio de Janeiro) oferecem tratamento para dependência de estimulantes.
2. Consultórios particulares de psiquiatras e psicólogos:
– Você pode agendar uma consulta com um psiquiatra ou psicólogo particular. O valor da consulta varia de R$ 200 a R$ 800, dependendo do profissional e da região.
Dica: Verifique se o profissional tem experiência em tratar transtornos por uso de substâncias.
3. Planos de saúde:
– Alguns planos de saúde cobrem consultas com psiquiatras e psicólogos, além de internações em clínicas especializadas.
Dica: Verifique com seu plano quais são os profissionais e serviços cobertos.

Vantagens do sistema particular:
– Agilidade no atendimento.
– Mais opções de profissionais e abordagens terapêuticas.
– Ambiente mais acolhedor e menos estigmatizante.

Desvantagens do sistema particular:
– Custo elevado (consultas, exames, medicamentos, internações).
– Nem todo mundo tem condições de pagar.


Diagnóstico diferencial: o que pode ser confundido?

O transtorno por uso de estimulantes pode ser confundido com outras condições, porque muitos dos sintomas são semelhantes. Por isso, o médico precisa fazer um diagnóstico diferencial, ou seja, descartar outras possibilidades antes de confirmar o diagnóstico.

Algumas condições que podem ser confundidas são:

1. Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)

  • Semelhanças: Pessoas com TDAH podem ter dificuldade de concentração, impulsividade e hiperatividade, sintomas que também aparecem com o uso de estimulantes.
  • Diferenças:
  • No TDAH, os sintomas começam na infância e não estão relacionados ao uso de substâncias.
  • No transtorno por uso de estimulantes, os sintomas começam ou pioram com o uso da droga.
  • Como o médico diferencia?
  • Perguntando sobre o histórico dos sintomas (se começaram na infância ou depois do uso da droga).
  • Avaliando se os sintomas melhoram quando a pessoa para de usar a substância.

2. Transtorno bipolar

  • Semelhanças: Durante uma fase de euforia (mania), a pessoa pode se sentir cheia de energia, falar muito e dormir pouco — sintomas que também aparecem com o uso de estimulantes.
  • Diferenças:
  • No transtorno bipolar, os sintomas de euforia acontecem sem o uso de substâncias.
  • No transtorno por uso de estimulantes, os sintomas de euforia são causados pelo uso da droga.
  • Como o médico diferencia?
  • Perguntando se a pessoa já teve episódios de euforia ou depressão sem usar drogas.
  • Avaliando se os sintomas melhoram quando a pessoa para de usar a substância.

3. Esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos

  • Semelhanças: O uso prolongado de estimulantes pode causar alucinações (ver ou ouvir coisas que não existem) e delírios (acreditar em coisas que não são reais), sintomas que também aparecem na esquizofrenia.
  • Diferenças:
  • Na esquizofrenia, os sintomas psicóticos persistem mesmo sem o uso de substâncias.
  • No transtorno por uso de estimulantes, os sintomas psicóticos desaparecem ou melhoram quando a pessoa para de usar a droga (embora possam levar semanas ou meses para sumir completamente).
  • Como o médico diferencia?
  • Perguntando se a pessoa já teve alucinações ou delírios sem usar drogas.
  • Avaliando se os sintomas melhoram quando a pessoa para de usar a substância.

4. Depressão ou ansiedade

  • Semelhanças: A abstinência de estimulantes pode causar depressão, ansiedade, irritabilidade e insônia, sintomas que também aparecem nesses transtornos.
  • Diferenças:
  • Na depressão ou ansiedade, os sintomas não estão relacionados ao uso de substâncias.
  • No transtorno por uso de estimulantes, os sintomas melhoram quando a pessoa para de usar a droga (embora possam levar semanas ou meses para sumir completamente).
  • Como o médico diferencia?
  • Perguntando se a pessoa já teve depressão ou ansiedade sem usar drogas.
  • Avaliando se os sintomas melhoram quando a pessoa para de usar a substância.

5. Hipertireoidismo

  • Semelhanças: O hipertireoidismo (excesso de hormônios da tireoide) pode causar ansiedade, insônia, taquicardia e perda de peso, sintomas que também aparecem com o uso de estimulantes.
  • Diferenças:
  • No hipertireoidismo, os sintomas não estão relacionados ao uso de substâncias.
  • No transtorno por uso de estimulantes, os sintomas são causados pelo uso da droga.
  • Como o médico diferencia?
  • Pedindo exames de sangue para avaliar os níveis de hormônios da tireoide.
  • Perguntando sobre o histórico de uso de substâncias.

O que fazer depois do diagnóstico?

Receber o diagnóstico de transtorno por uso de estimulantes pode ser um alívio (“Finalmente sei o que tenho!”) ou um choque (“Não pode ser, eu não sou viciado!”). Independentemente da reação inicial, o importante é não desistir. O diagnóstico é o primeiro passo para entender o problema e buscar tratamento.

Algumas dicas para lidar com o diagnóstico:
1. Não se culpe: A dependência não é uma falha moral, mas uma doença do cérebro. Você não é “fraco” ou “sem vergonha” — você está doente e precisa de ajuda.
2. Busque apoio: Converse com familiares, amigos ou grupos de apoio (como o Narcóticos Anônimos). Ter pessoas ao seu lado faz toda a diferença.
3. Siga o tratamento: O tratamento pode incluir medicamentos, psicoterapia e mudanças no estilo de vida. Não desista no meio do caminho, mesmo que seja difícil.
4. Tenha paciência: A recuperação não acontece da noite para o dia. Pode levar meses ou anos para o cérebro se recuperar dos danos causados pelos estimulantes.
5. Cuide da sua saúde física: Faça exames regulares, alimente-se bem, durma o suficiente e pratique exercícios físicos. A saúde do corpo ajuda na recuperação da mente.
6. Evite gatilhos: Identifique as situações, pessoas ou lugares que te fazem querer usar a droga e tente evitá-los, pelo menos no começo do tratamento.
7. Celebre as pequenas vitórias: Parar de usar estimulantes é um processo difícil, mas cada dia sem usar é uma vitória. Celebre suas conquistas, por menores que sejam.


Tratamento

Receber o diagnóstico de transtorno por uso de estimulantes pode ser assustador, mas a boa notícia é que essa condição tem tratamento. Não existe uma “cura mágica”, mas com a combinação certa de medicamentos, psicoterapia e mudanças no estilo de vida, é possível recuperar o controle da sua vida e viver de forma saudável e feliz.

O tratamento é como uma receita de bolo: cada ingrediente é importante, e a combinação certa faz toda a diferença. Vamos ver quais são esses ingredientes e como eles funcionam na prática.


Medicamentos: os remédios que ajudam o cérebro a se recuperar

Os medicamentos são uma parte importante do tratamento, porque ajudam a reduzir os sintomas de abstinência, controlar a fissura e tratar transtornos mentais associados (como depressão ou ansiedade). Eles não são uma “cura”, mas podem facilitar muito o processo de recuperação.

Vamos ver os principais tipos de medicamentos usados no tratamento do transtorno por uso de estimulantes, como eles funcionam e o que esperar deles.


1. Medicamentos para abstinência e fissura

Quando a pessoa para de usar estimulantes, o cérebro reage com sintomas de abstinência, como depressão, ansiedade, irritabilidade e insônia. Alguns medicamentos podem ajudar a aliviar esses sintomas e reduzir a fissura (vontade intensa de usar a droga).

Principais medicamentos:
Antidepressivos (ISRS):
O que são: Medicamentos que aumentam os níveis de serotonina (um neurotransmissor ligado ao humor) no cérebro. Exemplos: fluoxetina (Prozac), sertralina (Zoloft), escitalopram (Lexapro).
Como ajudam: Reduzem a depressão e a ansiedade causadas pela abstinência. Também podem ajudar a controlar a fissura.
Efeitos colaterais: Náusea, dor de cabeça, insônia, sonolência, diminuição do desejo sexual.
Tempo para fazer efeito: 2 a 6 semanas.
Exemplo: Maria parou de usar anfetaminas e se sentiu muito deprimida. Seu médico receitou fluoxetina, e depois de algumas semanas, ela começou a se sentir melhor e a fissura diminuiu.
Bupropiona (Wellbutrin, Zyban):
O que é: Um antidepressivo que também é usado para parar de fumar. Ele aumenta os níveis de dopamina e noradrenalina no cérebro.
Como ajuda: Reduz a fissura por estimulantes e melhora o humor. Também pode ajudar a controlar a impulsividade.
Efeitos colaterais: Boca seca, insônia, dor de cabeça, agitação.
Tempo para fazer efeito: 1 a 2 semanas.
Exemplo: João parou de usar metanfetamina e sentiu uma fissura muito forte. Seu médico receitou bupropiona, e depois de alguns dias, a vontade de usar diminuiu.
Modafinila (Stavigile, Provigil):
O que é: Um medicamento usado para tratar narcolepsia (um distúrbio do sono que causa sonolência excessiva). Ele promove o estado de vigília sem causar euforia.
Como ajuda: Reduz a sonolência e a fadiga causadas pela abstinência de estimulantes. Também pode ajudar a melhorar a concentração.
Efeitos colaterais: Dor de cabeça, náusea, ansiedade, insônia.
Tempo para fazer efeito: Algumas horas.
Exemplo: Carlos parou de usar anfetaminas e se sentiu muito cansado. Seu médico receitou modafinila, e ele conseguiu voltar a trabalhar sem se sentir exausto.
Naltrexona (ReVia):
O que é: Um medicamento usado para tratar dependência de álcool e opioides. Ele bloqueia os receptores de opioides no cérebro.
Como ajuda: Reduz a fissura por estimulantes e diminui os efeitos prazerosos da droga, caso a pessoa volte a usar.
Efeitos colaterais: Náusea, dor de cabeça, tontura, insônia.
Tempo para fazer efeito: Alguns dias.
Exemplo: Ana parou de usar metanfetamina, mas ainda sentia muita vontade de usar. Seu médico receitou naltrexona, e ela percebeu que, mesmo quando usava, não sentia mais o mesmo prazer de antes.

Dica: Os medicamentos não funcionam sozinhos. Eles são mais eficazes quando combinados com psicoterapia e mudanças no estilo de vida.


2. Medicamentos para transtornos mentais associados

Muitas pessoas com transtorno por uso de estimulantes também têm outros transtornos mentais, como depressão, ansiedade, TDAH ou bipolaridade. Tratar esses transtornos é fundamental para a recuperação, porque eles podem piorar a fissura e aumentar o risco de recaída.

Principais medicamentos:
Estabilizadores de humor (para transtorno bipolar):
O que são: Medicamentos que ajudam a controlar as oscilações de humor. Exemplos: lítio, valproato (Depakote), carbamazepina (Tegretol).
Como ajudam: Reduzem os sintomas de euforia (mania) e depressão, que podem levar ao uso de estimulantes.
Efeitos colaterais: Ganho de peso, tremores, sede excessiva, problemas renais (no caso do lítio).
Tempo para fazer efeito: 1 a 2 semanas.
Exemplo: Pedro foi diagnosticado com transtorno bipolar e transtorno por uso de metanfetamina. Seu médico receitou lítio, e ele percebeu que as oscilações de humor diminuíram, o que reduziu a vontade de usar a droga.
Antipsicóticos (para psicose):
O que são: Medicamentos usados para tratar alucinações e delírios. Exemplos: risperidona (Risperdal), olanzapina (Zyprexa), quetiapina (Seroquel).
Como ajudam: Reduzem os sintomas psicóticos causados pelo uso prolongado de estimulantes.
Efeitos colaterais: Ganho de peso, sonolência, tremores, rigidez muscular.
Tempo para fazer efeito: Alguns dias.
Exemplo: Maria usou metanfetamina por anos e começou a ter alucinações. Seu médico receitou risperidona, e depois de alguns dias, as alucinações diminuíram.
Ansiolíticos (para ansiedade):
O que são: Medicamentos que reduzem a ansiedade. Exemplos: clonazepam (Rivotril), alprazolam (Frontal), diazepam (Valium).
Como ajudam: Reduzem a ansiedade e a agitação causadas pela abstinência de estimulantes.
Efeitos colaterais: Sonolência, tontura, dependência (se usados por muito tempo).
Tempo para fazer efeito: Algumas horas.
Dica: Os ansiolíticos devem ser usados por curto prazo, porque podem causar dependência. O ideal é combiná-los com psicoterapia para tratar a ansiedade a longo prazo.
Exemplo: João parou de usar anfetaminas e se sentiu muito ansioso. Seu médico receitou clonazepam por algumas semanas, até que a ansiedade diminuísse.

Dica: Nunca tome medicamentos sem orientação médica. Alguns remédios podem interagir entre si ou com outras substâncias, causando efeitos colaterais graves.


3. Medicamentos para TDAH (quando há diagnóstico)

Algumas pessoas com transtorno por uso de estimulantes também têm TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). Nesses casos, o médico pode prescrever medicamentos para o TDAH, mas com muito cuidado, para evitar o risco de dependência.

Principais medicamentos:
Metilfenidato (Ritalina, Concerta):
O que é: Um estimulante usado para tratar TDAH. Ele aumenta os níveis de dopamina e noradrenalina no cérebro.
Como ajuda: Melhora a concentração, a impulsividade e a hiperatividade em pessoas com TDAH.
Riscos: Pode causar dependência se usado em doses maiores do que as prescritas ou por pessoas sem TDAH.
Efeitos colaterais: Insônia, perda de apetite, ansiedade, taquicardia.
Tempo para fazer efeito: Algumas horas.
Dica: O metilfenidato deve ser usado apenas com prescrição médica e em doses controladas. Pessoas com histórico de dependência devem evitar esse medicamento ou usá-lo com supervisão rigorosa.
Exemplo: Lucas foi diagnosticado com TDAH e transtorno por uso de anfetaminas. Seu médico receitou metilfenidato em doses baixas e monitorou de perto seu uso. Com o tempo, Lucas conseguiu se concentrar melhor nos estudos sem precisar de anfetaminas.
Atomoxetina (Strattera):
O que é: Um medicamento não estimulante usado para tratar TDAH. Ele aumenta os níveis de noradrenalina no cérebro.
Como ajuda: Melhora a concentração e reduz a impulsividade, sem o risco de dependência dos estimulantes.
Efeitos colaterais: Náusea, sonolência, perda de apetite.
Tempo para fazer efeito: 2 a 4 semanas.
Exemplo: Ana foi diagnosticada com TDAH e transtorno por uso de metanfetamina. Seu médico receitou atomoxetina, e ela percebeu que conseguia se concentrar melhor sem sentir vontade de usar a droga.

Dica: Se você tem TDAH e transtorno por uso de estimulantes, converse com seu médico sobre as opções de tratamento. Alguns medicamentos para TDAH podem ser usados com segurança, desde que haja supervisão médica.


Psicoterapia: a conversa que cura

Os medicamentos ajudam a aliviar os sintomas, mas a psicoterapia é fundamental para tratar as causas do transtorno e ensinar estratégias para lidar com a fissura, o estresse e as emoções difíceis. É como uma “ginástica para o cérebro”: quanto mais você treina, mais forte fica.

Vamos ver as principais abordagens de psicoterapia usadas no tratamento do transtorno por uso de estimulantes, como elas funcionam e o que esperar de cada uma.


1. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das abordagens mais eficazes para o tratamento do transtorno por uso de estimulantes. Ela ajuda a pessoa a identificar e mudar padrões de pensamento e comportamento que levam ao uso da droga.

Como funciona?
A TCC se baseia na ideia de que nossos pensamentos influenciam nossas emoções e comportamentos. Por exemplo:
Pensamento: “Eu não consigo viver sem anfetaminas.”
Emoção: Ansiedade, desespero.
Comportamento: Usar a droga.

Na TCC, o terapeuta ajuda a pessoa a:
1. Identificar pensamentos disfuncionais: Aqueles que levam ao uso da droga (ex.: “Eu só consigo me concentrar se usar”, “Eu mereço usar porque tive um dia difícil”).
2. Questionar esses pensamentos: “Será que isso é verdade? Existem outras formas de lidar com isso?”
3. Substituir por pensamentos mais realistas: “Eu consigo me concentrar sem usar, mesmo que seja mais difícil”, “Eu mereço me cuidar, e usar a droga não é cuidar de mim”.
4. Mudar comportamentos: Aprender estratégias para lidar com a fissura, o estresse e as emoções difíceis sem usar a droga.

Exemplo de sessão de TCC:
Situação: João está em uma festa e sente vontade de usar metanfetamina.
Pensamento disfuncional: “Todo mundo está usando, eu também quero.”
Questionamento: “Será que todo mundo está usando? O que acontece se eu não usar? Quais são as consequências?”
Pensamento realista: “Nem todo mundo está usando. Se eu não usar, vou me sentir orgulhoso de mim mesmo e não vou me arrepender depois.”
Comportamento: João decide não usar e sai da festa para dar uma caminhada e se acalmar.

Técnicas usadas na TCC:
Registro de pensamentos: Anotar situações que desencadeiam a vontade de usar, os pensamentos associados e as emoções.
Exposição gradual: Enfrentar situações que causam fissura (como festas ou lugares onde a pessoa costumava usar) de forma gradual e controlada, para aprender a lidar com a vontade de usar.
Treinamento de habilidades: Aprender técnicas de relaxamento, resolução de problemas e comunicação assertiva para lidar com o estresse e as emoções difíceis.
Prevenção de recaída: Identificar gatilhos (pessoas, lugares, situações) que podem levar ao uso da droga e planejar estratégias para evitá-los ou lidar com eles.

Duração do tratamento:
– A TCC costuma ser breve e focada, com duração de 12 a 24 sessões (3 a 6 meses). Em casos mais graves, pode ser necessário um tratamento mais longo.

Para quem é indicada?
– Pessoas que querem entender e mudar os padrões de pensamento e comportamento que levam ao uso da droga.
– Pessoas que têm dificuldade para lidar com a fissura, o estresse e as emoções difíceis.
– Pessoas que querem aprender estratégias práticas para evitar recaídas.


2. Entrevista Motivacional

A Entrevista Motivacional é uma abordagem que ajuda a pessoa a encontrar motivação para mudar. Ela é especialmente útil para pessoas que não estão prontas para parar de usar ou que têm dúvidas sobre o tratamento.

Como funciona?
A Entrevista Motivacional se baseia na ideia de que a motivação para mudar vem de dentro da pessoa, e não de pressões externas (como família ou médico). O terapeuta usa técnicas para ajudar a pessoa a:
1. Explorar suas ambivalências: “O que você gosta no uso da droga? O que não gosta?”
2. Identificar seus valores e objetivos: “O que é importante para você na vida? Como o uso da droga está afetando isso?”
3. Aumentar sua confiança na mudança: “O que você já conseguiu mudar na sua vida? Como pode usar essas habilidades para parar de usar?”
4. Planejar a mudança: “O que você está disposto a fazer para mudar? Quais são os primeiros passos?”

Exemplo de sessão de Entrevista Motivacional:
Terapeuta: “O que você gosta no uso de metanfetamina?”
Paciente: “Me sinto mais confiante, mais sociável, mais energético.”
Terapeuta: “E o que você não gosta?”
Paciente: “Me sinto deprimido depois, gasto muito dinheiro, minha família está preocupada.”
Terapeuta: “Como o uso da droga está afetando seus objetivos de vida?”
Paciente: “Eu queria voltar a estudar, mas não consigo me concentrar. Também queria ter um relacionamento estável, mas minha namorada ameaçou terminar.”
Terapeuta: “O que você acha que pode fazer para mudar isso?”
Paciente: “Acho que preciso parar de usar, mas não sei se consigo.”
Terapeuta: “O que você já conseguiu mudar na sua vida?”
Paciente: “Já parei de fumar, já voltei a estudar depois de desistir.”
Terapeuta: “Como você conseguiu essas mudanças?”
Paciente: “Fui aos poucos, pedi ajuda, não desisti.”
Terapeuta: “Como pode usar essas habilidades para parar de usar metanfetamina?”

Técnicas usadas na Entrevista Motivacional:
Perguntas abertas: “O que você acha que pode acontecer se continuar usando?” em vez de “Você precisa parar de usar”.
Escuta reflexiva: Repetir o que a pessoa disse de forma a incentivá-la a explorar mais o assunto. Ex.: “Então você está dizendo que se sente mais confiante quando usa, mas também se sente deprimido depois?”
Resumos: Resumir o que a pessoa disse para ajudá-la a ver as contradições. Ex.: “Então você gosta de se sentir confiante quando usa, mas não gosta de se sentir deprimido depois e de gastar dinheiro. Como isso se encaixa nos seus objetivos de vida?”
Encorajamento: Reconhecer os esforços da pessoa e incentivá-la a continuar. Ex.: “Você já conseguiu parar de fumar, isso mostra que é capaz de mudar. Como pode usar essa força para parar de usar metanfetamina?”

Duração do tratamento:
– A Entrevista Motivacional costuma ser breve, com duração de 1 a 4 sessões. Em alguns casos, pode ser combinada com outras abordagens, como a TCC.

Para quem é indicada?
– Pessoas que não estão prontas para parar de usar ou que têm dúvidas sobre o tratamento.
– Pessoas que resistem à ideia de mudança ou que se sentem pressionadas pela família ou pelo médico.
– Pessoas que já tentaram parar várias vezes e não conseguiram.


3. Terapia de Prevenção de Recaída (TPR)

A Terapia de Prevenção de Recaída (TPR) é uma abordagem focada em identificar e lidar com situações de alto risco que podem levar ao uso da droga. Ela é especialmente útil para pessoas que já pararam de usar, mas têm medo de recair.

Como funciona?
A TPR se baseia na ideia de que a recaída não é um fracasso, mas um processo que pode ser prevenido com estratégias adequadas. O terapeuta ajuda a pessoa a:
1. Identificar situações de alto risco: Pessoas, lugares, emoções ou pensamentos que aumentam a vontade de usar.
2. Desenvolver estratégias de enfrentamento: Técnicas para lidar com a fissura, o estresse e as emoções difíceis sem usar a droga.
3. Planejar para emergências: O que fazer se a fissura for muito forte ou se a pessoa tiver uma recaída.
4. Mudar o estilo de vida: Adotar hábitos saudáveis (como exercícios físicos, alimentação equilibrada e sono regular) para reduzir o estresse e aumentar o bem-estar.

Exemplo de sessão de TPR:
Situação de alto risco: João costuma usar metanfetamina quando está estressado no trabalho.
Estratégia de enfrentamento: João aprende técnicas de relaxamento (como respiração profunda e meditação) para lidar com o estresse.
Plano para emergências: Se a fissura for muito forte, João liga para um amigo de confiança ou vai dar uma caminhada.
Mudança no estilo de vida: João começa a praticar exercícios físicos regularmente para reduzir o estresse e melhorar o humor.

Técnicas usadas na TPR:
Análise funcional: Identificar os antecedentes (o que acontece antes do uso), os comportamentos (o uso da droga) e as consequências (o que acontece depois).
Treinamento de habilidades: Aprender técnicas de relaxamento, resolução de problemas e comunicação assertiva.
Exposição gradual: Enfrentar situações de alto risco de forma gradual e controlada, para aprender a lidar com a vontade de usar.
Automonitoramento: Anotar situações que desencadeiam a fissura e as estratégias usadas para lidar com ela.

Duração do tratamento:
– A TPR costuma ser breve e focada, com duração de 12 a 24 sessões (3 a 6 meses). Em casos mais graves, pode ser necessário um tratamento mais longo.

Para quem é indicada?
– Pessoas que já pararam de usar e querem evitar recaídas.
– Pessoas que têm medo de recair e querem aprender estratégias para lidar com situações de alto risco.
– Pessoas que já tiveram recaídas e querem entender o que aconteceu para evitar que se repita.


4. Terapia de Grupo

A terapia de grupo é uma abordagem em que várias pessoas com o mesmo problema se reúnem para compartilhar experiências e aprender umas com as outras. Ela é especialmente útil para pessoas que se sentem isoladas ou que têm dificuldade para falar sobre seus problemas em um setting individual.

Como funciona?
Na terapia de grupo, um terapeuta conduz as sessões, mas os participantes são os principais agentes de mudança. Eles compartilham suas experiências, dão e recebem feedback, e aprendem estratégias para lidar com o transtorno.

Exemplo de sessão de terapia de grupo:
Tema da sessão: “Como lidar com a fissura”.
Participante 1: “Eu sinto uma vontade muito forte de usar quando estou estressado no trabalho. Não consigo pensar em outra coisa.”
Participante 2: “Eu também sinto isso. O que eu faço é ligar para um amigo ou sair para caminhar. Às vezes, a fissura passa em alguns minutos.”
Participante 3: “Eu tento me distrair com algo que gosto, como ouvir música ou desenhar. Funciona para mim.”
Terapeuta: “Vocês estão dizendo que a fissura é forte, mas passa. O que mais vocês fazem para lidar com ela?”
Participante 1: “Eu nunca tinha pensado em ligar para um amigo. Vou tentar isso da próxima vez.”

Benefícios da terapia de grupo:
Redução do isolamento: A pessoa percebe que não está sozinha e que outras pessoas passam pelo mesmo problema.
Aprendizado com os outros: Os participantes compartilham estratégias que funcionaram (ou não) para eles.
Feedback imediato: Os participantes dão e recebem feedback em tempo real, o que pode ser muito útil para identificar padrões de pensamento e comportamento.
Suporte emocional: O grupo oferece um espaço seguro para compartilhar experiências e emoções difíceis.

Duração do tratamento:
– A terapia de grupo costuma ser longa, com duração de vários meses ou anos. Alguns grupos, como o Narcóticos Anônimos (NA), são abertos e a pessoa pode participar pelo tempo que quiser.

Para quem é indicada?
– Pessoas que se sentem isoladas ou que têm dificuldade para falar sobre seus problemas em um setting individual.
– Pessoas que querem aprender com as experiências dos outros.
– Pessoas que precisam de suporte emocional para lidar com o transtorno.


5. Terapia Familiar

A terapia familiar é uma abordagem que envolve a família no tratamento, porque o transtorno por uso de estimulantes afeta não apenas a pessoa, mas também seus familiares. Ela é especialmente útil para famílias que estão desestruturadas, em conflito ou que não sabem como ajudar.

Como funciona?
Na terapia familiar, o terapeuta trabalha com a pessoa e seus familiares para:
1. Melhorar a comunicação: Ensinar a família a se comunicar de forma clara e respeitosa, sem julgamentos ou críticas.
2. Resolver conflitos: Ajudar a família a lidar com conflitos de forma construtiva, sem recorrer à violência ou ao isolamento.
3. Estabelecer limites: Ensinar a família a estabelecer limites saudáveis, sem ser superprotetora ou negligente.
4. Oferecer suporte: Ajudar a família a entender o transtorno e a oferecer suporte de forma efetiva, sem reforçar o uso da droga.

Exemplo de sessão de terapia familiar:
Situação: João usa metanfetamina e sua mãe está muito preocupada. Ela liga para ele várias vezes por dia para “ver se ele está bem”, mas João se sente sufocado e acaba mentindo para ela.
Terapeuta: “Como vocês se sentem nessa situação?”
Mãe: “Eu fico muito preocupada. Tenho medo de que ele use de novo e morra.”
João: “Eu me sinto sufocado. Ela não confia em mim e eu acabo mentindo para ela.”
Terapeuta: “O que vocês acham que pode ser feito para melhorar essa situação?”
Mãe: “Eu não sei. Só quero que ele pare de usar.”
João: “Eu quero parar, mas preciso que ela confie em mim. Se ela ficar me ligando o tempo todo, eu vou acabar usando de novo.”
Terapeuta: “Vocês acham que podem chegar a um acordo? Por exemplo, a mãe liga uma vez por dia, em um horário combinado, e João se compromete a atender e ser honesto?”
Mãe: “Eu posso tentar.”
João: “Eu também.”

Técnicas usadas na terapia familiar:
Comunicação não violenta: Ensinar a família a se comunicar de forma clara e respeitosa, sem críticas ou julgamentos.
Resolução de conflitos: Ajudar a família a lidar com conflitos de forma construtiva, sem recorrer à violência ou ao isolamento.
Estabelecimento de limites: Ensinar a família a estabelecer limites saudáveis, sem ser superprotetora ou negligente.
Psicoeducação: Explicar para a família o que é o transtorno por uso de estimulantes, como ele afeta a pessoa e como a família pode ajudar.

Duração do tratamento:
– A terapia familiar costuma ser breve e focada, com duração de 12 a 24 sessões (3 a 6 meses). Em casos mais graves, pode ser necessário um tratamento mais longo.

Para quem é indicada?
– Famílias que estão desestruturadas ou em conflito por causa do transtorno.
– Famílias que não sabem como ajudar a pessoa com o transtorno.
– Famílias que reforçam o uso da droga (por exemplo, dando dinheiro para a pessoa comprar a droga).


Mudanças no dia a dia: o estilo de vida que ajuda na recuperação

Os medicamentos e a psicoterapia são fundamentais, mas as mudanças no estilo de vida também fazem toda a diferença na recuperação. É como construir uma casa: os medicamentos e a terapia são as paredes e o teto, mas o estilo de vida é o alicerce. Sem ele, a casa pode desabar.

Vamos ver quais são as mudanças mais importantes e como colocá-las em prática.


1. Exercício físico: o remédio natural

O exercício físico é um dos melhores remédios naturais para o transtorno por uso de estimulantes. Ele ajuda a:
Reduzir a fissura: O exercício libera endorfinas (substâncias químicas que causam prazer), o que pode diminuir a vontade de usar a droga.
Melhorar o humor: O exercício aumenta os níveis de serotonina e dopamina no cérebro, o que pode aliviar a depressão e a ansiedade causadas pela abstinência.
Reduzir o estresse: O exercício ajuda a liberar a tensão acumulada, o que pode diminuir a vontade de usar a droga para “aliviar” o estresse.
Melhorar o sono: O exercício regular ajuda a regular o sono, o que é fundamental para a recuperação.
Aumentar a autoestima: Ver o próprio corpo ficando mais forte e saudável pode aumentar a confiança e a motivação para continuar no tratamento.

Quais exercícios são mais indicados?
Não existe um “melhor” exercício — o importante é escolher algo que você goste e que consiga fazer regularmente. Algumas opções são:
Caminhada ou corrida: São exercícios simples, que não exigem equipamentos e podem ser feitos em qualquer lugar. Comece com 10 minutos por dia e vá aumentando aos poucos.
Musculação: Ajuda a aumentar a força e a resistência, além de melhorar a autoestima. Comece com pesos leves e vá aumentando aos poucos.
Yoga ou pilates: São exercícios que combinam movimento, respiração e meditação, o que pode ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade.
Dança: É uma forma divertida de se exercitar e pode ajudar a melhorar o humor.
Artes marciais: Além de melhorar a força e a resistência, as artes marciais ensinam disciplina e autocontrole, o que pode ser útil para lidar com a fissura.

Dicas para começar:
Comece devagar: Não tente fazer uma hora de exercício no primeiro dia. Comece com 10 ou 15 minutos e vá aumentando aos poucos.
Escolha algo que você goste: Se você não gosta de correr, não force. Experimente outras opções até encontrar algo que te dê prazer.
Faça com um amigo: Ter companhia pode tornar o exercício mais divertido e motivador.
Estabeleça uma rotina: Tente fazer exercício sempre no mesmo horário, para criar o hábito.
Celebre as pequenas vitórias: Cada vez que você fizer exercício, celebre. Isso ajuda a manter a motivação.

Exemplo:
Antes: João usava metanfetamina todos os dias e não fazia nenhum exercício. Ele se sentia deprimido, ansioso e sem energia.
Depois: João começou a caminhar 30 minutos por dia. No começo, foi difícil, mas depois de algumas semanas, ele começou a se sentir mais disposto e menos ansioso. A fissura também diminuiu, e ele conseguiu parar de usar a droga.


2. Sono: o reparador do cérebro

O sono é fundamental para a recuperação do cérebro. Quando dormimos, o cérebro se recupera dos danos causados pelos estimulantes, consolida memórias e regula as emoções. A abstinência de estimulantes pode causar insônia ou sono excessivo, o que prejudica a recuperação.

Como melhorar o sono?
Estabeleça uma rotina: Tente dormir e acordar sempre no mesmo horário, mesmo nos fins de semana.
Crie um ritual de relaxamento: Faça algo relaxante antes de dormir, como ler um livro, tomar um banho quente ou ouvir música calma.
Evite estimulantes: Não tome café, chá preto, refrigerante ou energéticos depois das 16h.
Evite telas: A luz azul das telas (celular, tablet, TV) pode atrapalhar o sono. Tente desligar os aparelhos pelo menos 1 hora antes de dormir.
Faça exercício físico: O exercício regular ajuda a regular o sono, mas evite fazer exercício intenso perto da hora de dormir.
Crie um ambiente propício: Mantenha o quarto escuro, silencioso e em uma temperatura agradável.
Evite cochilos longos: Cochilos de até 20 minutos podem ser revigorantes, mas cochilos longos podem atrapalhar o sono noturno.

Dicas para lidar com a insônia:
Não fique na cama acordado: Se você não conseguir dormir depois de 20 minutos, levante-se e faça algo relaxante (como ler um livro) até sentir sono.
Não use a cama para outras atividades: Evite trabalhar, estudar ou comer na cama. A cama deve ser associada apenas ao sono.
Evite olhar o relógio: Olhar o relógio pode aumentar a ansiedade e dificultar o sono.
Pratique técnicas de relaxamento: Respiração profunda, meditação ou relaxamento muscular progressivo podem ajudar a adormecer.

Exemplo:
Antes: Maria usava anfetaminas para emagrecer e tinha insônia. Ela passava noites inteiras acordada e, durante o dia, se sentia exausta e irritada.
Depois: Maria começou a seguir uma rotina de sono: dormia e acordava sempre no mesmo horário, evitava telas antes de dormir e fazia exercício físico regularmente. Depois de algumas semanas, seu sono melhorou, e ela se sentiu mais disposta e menos ansiosa.


3. Alimentação: o combustível do cérebro

Uma alimentação equilibrada é fundamental para a recuperação do cérebro. Os estimulantes podem causar perda de apetite, desnutrição e deficiências de vitaminas e minerais, o que prejudica a recuperação.

O que comer?
Proteínas: Carnes magras, ovos, peixes, leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico). As proteínas ajudam a reparar os danos causados pelos estimulantes e a regular os neurotransmissores.
Carboidratos complexos: Arroz integral, pão integral, aveia, batata-doce. Os carboidratos complexos fornecem energia de forma gradual, o que ajuda a evitar picos de açúcar no sangue (que podem piorar a ansiedade e a fissura).
Gorduras saudáveis: Abacate, azeite de oliva, castanhas, peixes gordurosos (salmão, sardinha). As gorduras saudáveis são essenciais para a saúde do cérebro.
Frutas e verduras: Ricas em vitaminas, minerais e antioxidantes, que ajudam a reparar os danos causados pelos estimulantes.
Água: A desidratação pode piorar a fadiga, a dor de cabeça e a irritabilidade. Beba pelo menos 2 litros de água por dia.

O que evitar?
Açúcar refinado: Doces, refrigerantes, sucos industrializados. O açúcar refinado causa picos de açúcar no sangue, o que pode piorar a ansiedade e a fissura.
Cafeína: Café, chá preto, refrigerante, energéticos. A cafeína pode piorar a ansiedade, a insônia e a fissura.
Alimentos processados: Salgadinhos, fast food, embutidos. Esses alimentos são pobres em nutrientes e podem piorar a inflamação no cérebro.
Álcool: O álcool pode piorar a depressão, a ansiedade e a fissura, além de aumentar o risco de recaída.

Dicas para uma alimentação saudável:
Faça refeições regulares: Tente comer a cada 3 ou 4 horas, para evitar picos de açúcar no sangue.
Planeje suas refeições: Faça uma lista de compras e planeje suas refeições para a semana, para evitar comer alimentos não saudáveis por falta de opção.
Cozinhe em casa: Cozinhar em casa permite controlar os ingredientes e evitar alimentos processados.
Coma devagar: Mastigue bem os alimentos e preste atenção no que está comendo. Isso ajuda a evitar excessos e a melhorar a digestão.
Não pule refeições: Pular refeições pode causar hipoglicemia (baixo nível de açúcar no sangue), o que pode piorar a ansiedade e a fissura.

Exemplo:
Antes: Carlos usava metanfetamina e não sentia fome. Ele passava dias sem comer ou comia apenas fast food. Ele se sentia fraco, cansado e deprimido.
Depois: Carlos começou a fazer refeições regulares, com alimentos saudáveis. Ele também passou a cozinhar em casa e a evitar açúcar e cafeína. Depois de algumas semanas, ele se sentiu mais disposto, menos ansioso e com mais energia.


4. Rotina: a estrutura que protege

Uma rotina estruturada é fundamental para a recuperação, porque ajuda a reduzir o estresse, aumentar a sensação de controle e evitar situações de alto risco. Quando a vida está bagunçada, é mais fácil ceder à fissura e usar a droga.

Como estruturar a rotina?
Estabeleça horários fixos: Tente acordar, comer, trabalhar, fazer exercício e dormir sempre no mesmo horário.
Planeje o dia: Faça uma lista das tarefas do dia e priorize as mais importantes. Isso ajuda a evitar a procrastinação e a sensação de sobrecarga.
Inclua atividades prazerosas: Reserve um tempo para fazer coisas que você gosta, como ler, ouvir música ou sair com amigos.
Evite o tédio: O tédio pode aumentar a fissura. Mantenha-se ocupado com atividades produtivas ou prazerosas.
Estabeleça metas realistas: Não tente fazer tudo de uma vez. Estabeleça metas pequenas e alcançáveis, e vá aumentando aos poucos.

Exemplo de rotina:
| Horário | Atividade |
|—————|————————————|
| 7:00 | Acordar |
| 7:30 | Café da manhã |
| 8:00 – 12:00 | Trabalho/estudo |
| 12:00 – 13:00 | Almoço |
| 13:00 – 17:00 | Trabalho/estudo |
| 17:00 – 18:00 | Exercício físico |
| 18:00 – 19:00 | Jantar |
| 19:00 – 20:00 | Atividade prazerosa (ler, ouvir música) |
| 20:00 – 21:00 | Preparação para dormir (banho, meditação) |
| 21:00 | Dormir |

Dicas para manter a rotina:
Use um planner ou agenda: Anote suas tarefas e compromissos para não esquecer.
Estabeleça lembretes: Use alarmes no celular para lembrar de fazer suas atividades.
Seja flexível: Nem sempre as coisas saem como planejado, e tudo bem. O importante é não desistir.
Peça ajuda: Se você está com dificuldade para manter a rotina, peça ajuda para um amigo, familiar ou terapeuta.

Exemplo:
Antes: Ana usava anfetaminas para emagrecer e não tinha rotina. Ela acordava e dormia em horários diferentes todos os dias, não fazia exercício e comia quando sentia fome. Ela se sentia perdida, ansiosa e sem controle.
Depois: Ana estabeleceu uma rotina com horários fixos para acordar, comer, trabalhar e dormir. Ela também incluiu exercício físico e atividades prazerosas. Depois de algumas semanas, ela se sentiu mais organizada, menos ansiosa e com mais controle sobre sua vida.


5. Técnicas de manejo: como lidar com a fissura e o estresse

A fissura e o estresse são dois dos maiores desafios na recuperação do transtorno por uso de estimulantes. Felizmente, existem técnicas de manejo que podem ajudar a lidar com esses desafios sem usar a droga.

Técnicas para lidar com a fissura:
1. Distração:
– Quando sentir vontade de usar, faça algo para se distrair, como:
– Ligar para um amigo.
– Assistir a um filme ou série.
– Ouvir música.
– Fazer um quebra-cabeça ou jogar um jogo.
Exemplo: João sentiu vontade de usar metanfetamina enquanto estava em casa sozinho. Ele ligou para um amigo e os dois conversaram por uma hora. Quando desligou o telefone, a fissura tinha passado.
2. Respiração profunda:
– Inspire profundamente pelo nariz, segure o ar por alguns segundos e expire lentamente pela boca. Repita por alguns minutos.
Exemplo: Maria sentiu uma fissura forte enquanto estava no trabalho. Ela foi ao banheiro e fez respiração profunda por 5 minutos. Quando voltou para a mesa, a fissura tinha diminuído.
3. Relaxamento muscular progressivo:
– Contraia e relaxe os músculos do corpo, um grupo de cada vez (comece pelos pés e vá subindo até a cabeça).
Exemplo: Carlos sentiu vontade de usar anfetaminas enquanto estava no trânsito. Ele parou o carro em um lugar seguro e fez relaxamento muscular progressivo por 10 minutos. Quando terminou, a fissura tinha passado.
4. Visualização:
– Feche os olhos e imagine um lugar tranquilo, como uma praia ou uma floresta. Tente sentir os cheiros, os sons e as sensações desse lugar.
Exemplo: Ana sentiu uma fissura forte enquanto estava em uma festa. Ela foi ao banheiro, fechou os olhos e imaginou que estava em uma praia. Depois de alguns minutos, a fissura tinha diminuído.
5. Autodiálogo positivo:
– Fale consigo mesmo de forma encorajadora, como se estivesse falando com um amigo. Ex.: “Eu consigo lidar com isso”, “Essa vontade vai passar”, “Eu mereço me cuidar”.
Exemplo: Pedro sentiu vontade de usar metcatinona enquanto estava estressado no trabalho. Ele parou por um momento e disse para si mesmo: “Eu consigo lidar com isso. Essa vontade vai passar. Eu mereço me cuidar”. Depois de alguns minutos, a fissura tinha diminuído.

Técnicas para lidar com o estresse:
1. Exercício físico:
– O exercício ajuda a liberar a tensão acumulada e a reduzir o estresse.
Exemplo: João estava estressado no trabalho e sentiu vontade de usar metanfetamina. Ele saiu para caminhar por 20 minutos e, quando voltou, se sentiu mais calmo.
2. Meditação:
– A meditação ajuda a acalmar a mente e a reduzir o estresse. Você pode usar aplicativos como Headspace ou Calm para guiar a meditação.
Exemplo: Maria estava estressada com os estudos e sentiu vontade de usar anfetaminas. Ela fez uma meditação guiada de 10 minutos e, quando terminou, se sentiu mais tranquila.
3. Yoga:
– O yoga combina movimento, respiração e meditação, o que pode ajudar a reduzir o estresse.
Exemplo: Carlos estava estressado com os problemas familiares e sentiu vontade de usar metanfetamina. Ele fez uma aula de yoga online e, quando terminou, se sentiu mais relaxado.
4. Escrita terapêutica:
– Escrever sobre seus sentimentos pode ajudar a organizar os pensamentos e a reduzir o estresse.
Exemplo: Ana estava estressada com o trabalho e sentiu vontade de usar anfetaminas. Ela escreveu em um diário sobre o que estava sentindo e, depois de alguns minutos, se sentiu mais leve.
5. Técnicas de resolução de problemas:
– Identifique o problema que está causando estresse, liste as possíveis soluções, escolha a melhor opção e coloque-a em prática.
Exemplo: Pedro estava estressado porque não conseguia pagar as contas. Ele listou as possíveis soluções (pedir um empréstimo, vender algo, procurar um trabalho extra) e escolheu procurar um trabalho extra. Depois de colocar o plano em prática, se sentiu mais aliviado.

Dicas para usar as técnicas de manejo:
Pratique regularmente: Quanto mais você praticar, mais fácil será usar as técnicas quando precisar.
Tenha um plano B: Se uma técnica não funcionar, tente outra. O importante é não desistir.
Peça ajuda: Se você está com dificuldade para lidar com a fissura ou o estresse, peça ajuda para um amigo, familiar ou terapeuta.


Convivendo com o diagnóstico

Receber o diagnóstico de transtorno por uso de estimulantes pode ser um divisor de águas na vida de uma pessoa. Para alguns, é o momento em que finalmente entendem o que está acontecendo e podem começar a buscar ajuda. Para outros, é um baque, uma confirmação de que algo está muito errado. Independentemente da reação inicial, o importante é não desistir. Conviv

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