Definição e conceito
Coprolalia e copropraxia são fenômenos psicopatológicos caracterizados pela expressão involuntária e abrupta de conteúdo obsceno, vulgar ou relacionado a excrementos. Pertencem ao domínio dos transtornos do movimento e do comportamento verbal, enquadrando-se na semiologia psiquiátrica como sinais de liberação ou desinibição de padrões motores e verbais complexos.
A coprolalia (do grego kopros, esterco, e lalia, fala) é definida como a emissão involuntária, repetitiva e inapropriada de palavras obscenas, palavrões ou termos referentes a excrementos. É um tipo específico de tique vocal complexo. A copropraxia (do grego kopros e praxis, ação) consiste na realização de gestos abruptos e involuntários de conteúdo obsceno, ofensivo ou agressivo, como gestos de conotação sexual ou insultuosos. É um tipo de tique motor complexo.
Do ponto de vista terminológico, é crucial diferenciar esses fenômenos de outros similares:
- Tiques motores/vocais simples vs. complexos: Coprolalia e copropraxia são tiques complexos, pois envolvem sequências coordenadas de movimentos ou vocalizações que parecem propositais, mas são involuntários. Tiques simples são movimentos ou sons breves e sem significado (piscar, pigarrear).
- Ecolalia/Ecopraxia: Repetição involuntária de palavras ou gestos de outrem, sem o conteúdo obsceno obrigatório.
- Palilalia/Palipraxia: Repetição involuntária das próprias palavras ou gestos.
- Maneirismos: Comportamentos motores ou verbais afetados, rebuscados e bizarros, mas não necessariamente involuntários ou obscenos. São mais comuns na esquizofrenia catatônica.
- Coprolalia ictal: Emissão de obscenidades durante uma crise epiléptica, geralmente de lobo temporal ou orbitofrontal, precedida por auras límbicas ou automatismos. É um fenômeno epiléptico, não um tique.
Dados epidemiológicos precisos sobre a coprolalia e copropraxia isoladamente são escassos, sendo mais bem estudadas no contexto do Transtorno de Tourette (TT). A coprolalia ocorre em aproximadamente 25% dos pacientes com TT ao longo da vida, sendo, portanto, um sintoma marcante, mas não obrigatório para o diagnóstico. A copropraxia é considerada ainda menos frequente. A prevalência do TT é estimada entre 1 a 10 casos por 1.000 crianças, com início tipicamente antes dos 14 anos. Ambos os fenômenos podem, mais raramente, ocorrer em outras condições neurológicas, como epilepsias focais, lesões cerebrais e doenças neurodegenerativas.
Apresentação clínica
A manifestação clínica da coprolalia e da copropraxia é caracterizada por sua natureza súbita, intermitente, involuntária e espasmódica. O paciente experimenta uma urgência pré-monitória (uma sensação física ou psíquica de tensão ou impulso) que precede o tique, seguida pela execução do ato e, frequentemente, por um alívio temporário. A capacidade de suprimir temporariamente o tique, com esforço consciente, é comum, mas a tensão interna tende a aumentar até que o tique ocorra.
Domínio Comportamental/Motor:
- Copropraxia: Manifesta-se como gestos complexos, coordenados e abruptos. Exemplos incluem fazer gestos obscenos com as mãos (ex.: mostrar o dedo médio), gestos de conotação sexual, ou simular ações agressivas (ex.: um gesto de golpear). São atos que, fora do contexto, pareceriam intencionais.
- Coprolalia: A vocalização é tipicamente gutural, abrupta e espasmódica. A palavra ou frase obscena é emitida fora de contexto, muitas vezes com volume e entonação alterados. Pode ser um palavrão isolado ("porra!", "merda!") ou frases curtas. A emissão pode ocorrer no meio de uma frase normal, interrompendo o fluxo da fala.
Domínio Cognitivo:
- O paciente mantém plena consciência do ato e, em geral, experimenta extremo sofrimento, vergonha e constrangimento. Há um reconhecimento claro da inapropriação social do comportamento.
- Não há associação com delírios ou alterações do pensamento que justifiquem o conteúdo. O paciente não "quer" dizer ou fazer aquilo no contexto da interação.
- A ansiedade, o estresse e a fadiga são fatores que exacerbam significativamente a frequência e a intensidade dos tiques. Momentos de relaxamento ou concentração em uma atividade podem reduzi-los temporariamente.
Domínio Afetivo:
- Predominam sentimentos de humilhação, culpa e frustração. Pacientes relatam medo constante de que o tique ocorra em situações sociais formais, levando a um isolamento social progressivo.
- A reação do ambiente (espanto, risos, repreensão) gera um ciclo de ansiedade antecipatória que pode piorar o fenômeno.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Durante uma consulta psiquiátrica, um adolescente, ao responder sobre a escola, interrompe sua fala para gritar "VAI TOMAR NO CU!" de forma gutural e abrupta. Imediatamente após, abaixa a cabeça e sussurra "desculpa, doutor, não foi por sua causa".
- Uma jovem adulta, em uma reunião de trabalho, levanta a mão para fazer um comentário. Antes de começar a falar, seu braço realiza involuntariamente um gesto obsceno em direção à chefe. Ela segura o próprio pulso com a outra mão, corando intensamente.
- Um homem com TT está em fila de banco. Diante da demora, sua ansiedade aumenta. Ele começa a pigarrear (tique simples) e, subitamente, faz um gesto de masturbação no ar (copropraxia), seguido por um sussurro da palavra "buceta" (coprolalia de baixa intensidade).
Neurobiologia e fisiopatologia
A coprolalia e a copropraxia são entendidas como manifestações de uma disfunção nos circuitos cortico-estriato-tálamo-corticais (CSTC), que regulam o planejamento, a inibição e a execução de movimentos e comportamentos.
Circuitos Neurais Envolvidos:
- Circuito Motor: Envolve o córtex motor e pré-motor, putâmen, globo pálido, tálamo e suas projeções de volta ao córtex. A hiperatividade neste circuito está mais associada aos tiques motores simples e complexos, incluindo a copropraxia.
- Circuito Associativo (Cognitivo) e Limbico (Emocional): A coprolalia, por envolver conteúdo verbal carregado emocionalmente, sugere um envolvimento mais específico de estruturas límbicas e paralímbicas integradas a estes circuitos. A rede neural paralímbica temporo-orbitofrontal é apontada como um substrato chave, especialmente na coprolalia ictal de epilepsias do lobo temporal ou orbitofrontal. Neste caso, a descarga epiléptica ativa de forma paroxística circuitos envolvidos no processamento emocional e na linguagem, liberando a expressão verbal inibida.
- Gânglios da Base: O putâmen e o núcleo caudado apresentam alterações em volume, atividade e conectividade no TT. Acredita-se que haja uma desinibição tônica destas estruturas, levando à liberação de sequências motoras e vocais pré-programadas (os tiques) que normalmente seriam suprimidas pelo córtex.
Neurotransmissão:
O sistema dopaminérgico é central na fisiopatologia. A hipótese predominante é de uma hipersensibilidade pós-sináptica aos receptores D2 no estriado, ou uma hiperinervação dopaminérgica. Isso levaria a uma modulação excessiva dos circuitos CSTC. Evidências indiretas incluem a eficácia de antagonistas dopaminérgicos (antipsicóticos) no controle dos tiques e a exacerbação dos sintomas por agonistas dopaminérgicos. Outros sistemas, como o GABAérgico (inibitório) e o serotoninérgico, também parecem estar envolvidos, dada a comorbidade com Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e a resposta a alguns inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS).
Evidências de Neuroimagem:
Estudos de ressonância magnética estrutural e funcional no TT têm mostrado:
- Volumes ligeiramente reduzidos no putâmen, globo pálido e núcleo caudado.
- Alterações na espessura cortical e no padrão de conectividade em regiões do córtex pré-frontal, córtex cingulado anterior (envolvido no monitoramento de erros e controle inibitório) e áreas motoras suplementares.
- Ativação anômala das regiões mencionadas durante a supressão de tiques ou na fase pré-monitória.
Modelo Explicativo Integrado:
Um modelo atual propõe que uma vulnerabilidade genética leve a alterações no desenvolvimento dos circuitos CSTC e na modulação dopaminérgica. Em resposta a fatores ambientais (estresse, infecções), ocorreria uma falha no mecanismo de inibição cortical sobre os gânglios da base. Comportamentos motores e fragmentos de fala (incluindo aqueles com alto valor emocional e social, como obscenidades) que normalmente são filtrados e suprimidos, ganhariam expressão involuntária na forma de tiques complexos. A coprolalia representaria, assim, uma "falha no filtro social" em nível neurobiológico, onde palavras tabu escapam do controle inibitório.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Pode haver inquietação, ansiedade visível. Durante a entrevista, ocorrem os tiques motores e vocais de forma intermitente. O paciente pode tentar disfarçar um tique motor transformando-o em um gesto aparentemente voluntário (fenômeno de "camuflagem").
- Fala e Linguagem: A fala pode ser interrompida abruptamente pelas vocalizações da coprolalia. A prosódia (entoação) pode ser alterada durante o tique. É fundamental avaliar a presença de ecolalia, palilalia ou outros distúrbios formais do pensamento que apontem para outras condições.
- Humor e Afeto: Humor frequentemente disfórico, com relato de vergonha e frustração. Afeto é reativo e congruente.
- Pensamento: O conteúdo do pensamento não é delirante. O paciente não atribui significado patológico às palavras obscenas emitidas, reconhecendo-as como sintomas intrusivos e indesejados. Deve-se investigar obsessões e compulsões, dada a alta comorbidade com TOC.
- Percepção: Geralmente intacta. Alucinações auditivas comandantes devem ser descartadas.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Yale Global Tic Severity Scale (YGTSS): Padrão-ouro para avaliação da gravidade e prejuízo dos tiques motores e vocais. Avalia número, frequência, intensidade, complexidade e interferência dos tiques.
- Diagnostic Interview for Tics and Tourette Syndrome: Entrevista semiestruturada para diagnóstico.
- Escala de Impressão Clínica Global para o Transtorno de Tourette (EICG-TT): Para avaliação global da gravidade.
- Escalas para TOC (Y-BOCS) e TDAH: Devem ser utilizadas para rastreio de comorbidades frequentes.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Fenômeno/Condição | Características Distintivas | Mecanismo/Contexto |
|---|---|---|
| Coprolalia (como tique) | Involuntária, abrupta, com urgência pré-monitória e alívio. Paciente se envergonha. | Transtorno de Tique/Tourette. Disfunção dos circuitos CSTC. |
| Coprolalia Ictal | Ocorre durante uma crise epiléptica. Pode ser precedida por aura (e.g., epigástrica, de medo). | Epilepsia focal (temporal/orbitofrontal). Descarga neuronal paroxística. |
| Copropraxia (como tique) | Gestos obscenos involuntários, complexos. Parte de uma síndrome de tiques. | Transtorno de Tique/Tourette. |
| Maneirismos | Gestos afetados, bizarros, rebuscados. Podem ser voluntários ou semi-voluntários. Não são necessariamente obscenos. | Esquizofrenia (catatônica), Deficiência Intelectual grave. |
| Comportamento Socialmente Inapropriado na Demência | Palavrões ou gestos obscenos podem ocorrer no contexto de desinibição frontal (perda da autocensura). Associado a outros sinais de demência (apraxia, agnosia, déficit de memória). | Doença de Alzheimer, Demência Frontotemporal. Lesão/ degeneração do córtex pré-frontal. |
| Sintomas Conversivos/Dissociativos | "Afonia histérica", mutismo. Raríssimo que se manifeste como coprolalia/copropraxia estereotipada. Geralmente há ganho primário/secundário e relação temporal com estressor psicológico. | Transtorno de Sintomas Neurológicos Funcionais. Origem psicogênica. |
| Alucinação Auditiva Comandante | O paciente ouve uma voz que ordena que ele diga ou faça algo obsceno. Ele pode ou não resistir à ordem. Diferente da urgência interna/pré-monitora do tique. | Esquizofrenia, Transtornos Psicóticos. |
| Transtorno Explosivo Intermitente | Agressividade verbal (xingamentos) é reativa, desproporcional e impulsiva, mas não involuntária ou estereotipada. Seguida de arrependimento. | Falha no controle de impulsos. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Atribuir Intencionalidade: Interpretar o fenômeno como um ato de provocação, má-educação ou desafio, especialmente em crianças e adolescentes. Isso leva a punições e agravamento do sofrimento.
- Confundir com Psicose: A emissão de palavras desconexas ou bizarras pode, superficialmente, lembrar um discurso psicótico. A avaliação cuidadosa do contexto, da presença de outros sintomas psicóticos e da vivência do paciente (urgência vs. comando alucinatório) é crucial.
- Superestimar sua Necessidade para o Diagnóstico de Tourette: A coprolalia não é um critério necessário para o diagnóstico de TT (DSM-5-TR: múltiplos tiques motores e pelo menos um tique vocal). Sua ausência não exclui o transtorno.
- Negligenciar a Epilepsia: Em um adulto com início súbito de coprolalia sem história de tiques na infância, a investigação de epilepsia focal (especialmente do lobo temporal) com EEG prolongado é mandatória.
- Ignorar Comorbidades: Focar apenas nos tiques e não rastrear TOC, TDAH, depressão e ansiedade, que são frequentemente a principal fonte de prejuízo funcional.
Condições associadas
A associação clínica mais importante e frequente é com os Transtornos de Tique:
- Transtorno de Tourette (TT): É a condição paradigmática. A coprolalia é um sintoma marcante, presente em cerca de 25% dos casos. A copropraxia também é característica, embora menos comum. O diagnóstico de TT requer a presença de múltiplos tiques motores e um ou mais tiques vocais (não necessariamente coprolalia), com duração superior a um ano, início antes dos 18 anos.
- Transtorno de Tique Motor ou Vocal Persistente (Crônico): Tiques motores ou vocais persistentes, mas não ambos. A coprolalia pode ocorrer na forma vocal crônica.
- Transtorno de Tique Transitório: Tiques com duração inferior a um ano. Coprolalia é rara nessa apresentação breve.
Outras Condições Neurológicas e Psiquiátricas:
- Epilepsias Focais: A coprolalia ictal é uma manifestação rara, mas reconhecida, de epilepsias do lobo temporal ou orbitofrontal. A disfunção estaria na rede paralímbica temporo-orbitofrontal.
- Doenças Neurodegenerativas e Lesões Cerebrais:
- Demência Frontotemporal (Variante Comportamental): A desinibição frontal pode manifestar-se como linguagem vulgar, insultos e comportamentos socialmente inapropriados, que podem mimetizar uma coprolalia. No entanto, há uma perda da autocensura e do julgamento social, e o comportamento é menos estereotipado e mais integrado à personalidade alterada.
- Doenças do Sistema Extrapiramidal: Condições como Doença de Parkinson, Paralisia Supranuclear Progressiva e Doença de Huntington podem apresentar palilalia, ecolalia e, mais raramente, vocalizações complexas.
- Lesões em Núcleos Subtalâmicos, Tálamo Medial ou Mesencéfalo: Podem causar palilalia e outros distúrbios da fala.
- Esquizofrenia: Embora não seja típico, maneirismos motores e verbais podem ocorrer, principalmente no subtipo catatônico. A ecolalia e a estereotipia verbal também são descritas. A coprolalia como tique é incomum.
- Transtorno do Espectro Autista (TEA): Pode haver ecolalia e estereotipias motoras, mas a coprolalia não é uma característica do TEA. No entanto, TT e TEA podem ser comórbidos.
Correlações nos Manuais Diagnósticos:
- DSM-5-TR (APA): Coprolalia e copropraxia são mencionadas como exemplos de tiques vocais e motores complexos, respectivamente, no contexto dos Transtornos de Tique (Tourette, Tique Persistente, Tique Transitório). Não possuem códigos próprios.
- CID-11 (OMS): Na categoria 8A05.0 Transtorno de Tourette, a coprolalia é listada como um sintoma comum. Em 8A05.1 Transtorno de tique motores ou vocais crônicos também pode ser observada. A coprolalia ictal se enquadraria nos códigos de Epilepsia (8A60-8A6Z).
Implicações terapêuticas
O tratamento da coprolalia e da copropraxia é o tratamento do transtorno de base, prioritariamente o Transtorno de Tourette, com foco na redução do prejuízo funcional e do sofrimento.
Abordagens Farmacológicas:
A escolha depende da gravidade, comorbidades e prejuízo.
- Antagonistas Dopaminérgicos (Antipsicóticos): São a primeira linha para tiques moderados a graves.
- Risperidona, Aripiprazol, Pimozida, Haloperidol: Possuem maior evidência para controle de tiques. O aripiprazol, um agonista parcial de D2, tem perfil favorável de efeitos colaterais. O monitoramento de efeitos extrapiramidais, sedação, ganho de peso e metabólicos é essencial.
- Agonistas dos Receptores α2-Adrenérgicos:
- Clonidina e Guanfacina: São considerados primeira linha, especialmente em crianças e quando há comorbidade com TDAH. Têm efeito mais modesto nos tiques, mas são bem tolerados. Ajudam no controle da impulsividade e da hiperatividade.
- Inibidores da Recaptação de Serotonina (ISRS):
- Fluoxetina, Sertralina, Fluvoxamina: Não são eficazes para os tiques em si, mas são fundamentais no tratamento da comorbidade com Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e depressão, que frequentemente causam mais sofrimento que os próprios tiques.
- Outros:
- Topiramato: Possui algumas evidências como terapia adjuvante.
- Clonazepam: Pode ser útil para crises de tiques exacerbados pela ansiedade, mas o risco de dependência limita seu uso.
- Toxina Botulínica: Injeções nas cordas vocais têm sido usadas em casos refratários de coprolalia grave, com o objetivo de dificultar mecanicamente a emissão da palavra.
Abordagens Psicoterapêuticas e Comportamentais:
- Terapia Comportamental para Tiques (CBIT – Comprehensive Behavioral Intervention for Tics): É a psicoterapia com maior nível de evidência. Baseia-se em dois componentes principais:
- Treinamento de Reversão de Hábitos: O paciente aprende a identificar a sensação pré-monitória (o "sinal de alerta") e a responder com um comportamento competitivo – um movimento ou ação fisicamente incompatível com o tique, que seja socialmente discreto (ex.: contrair os músculos das mãos ao invés de fazer um gesto obsceno; respirar profundamente de forma controlada ao invés de vocalizar).
- Reestruturação do Ambiente: Identificar e modificar situações que exacerbam os tiques (estresse, cansaço, certos contextos sociais).
- Psicoeducação: É a base de todo tratamento. Explicar ao paciente, à família e, quando apropriado, à escola a natureza neurológica, involuntária do sintoma reduz a culpa, o estigma e a punição, quebrando o ciclo de ansiedade.
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Essencial para o manejo das comorbidades de ansiedade, depressão e TOC, que perpetuam e exacerbam os tiques.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
- A presença de coprolalia/copropraxia está associada a uma forma mais grave do TT e a um maior prejuízo psicossocial.
- A resposta ao tratamento farmacológico é variável. Muitos pacientes experimentam redução significativa, mas raramente a eliminação completa dos sintomas.
- O prognóstico funcional depende fortemente do manejo das comorbidades (TDAH, TOC) e da implementação de suportes psicossociais e educacionais.
- A CBIT demonstra eficácia duradoura e é uma opção para pacientes que não toleram ou não respondem à medicação.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
Pacientes descrevem a coprolalia e a copropraxia como uma "traição do próprio corpo". A sensação pré-monitória é frequentemente descrita como uma "coceira no cérebro", uma "pressão" ou uma "energia" que se acumula e só é aliviada com a execução do tique. O constrangimento é profundo e constante. Muitos desenvolvem estratégias exaustivas de evitação: deixam de sair de casa, de falar em público, de estabelecer relacionamentos íntimos por medo da reação alheia. A sensação de ser mal interpretado ("ele é mal-educado", "ela está me provocando") gera isolamento e depressão.
Orientações para Comunicação Clínica:
- Validação e Normalização: Inicie a entrevista normalizando o sintoma: "Muitas pessoas com sua condição apresentam tiques vocais ou gestuais que podem ser constrangedores. Isso é parte do quadro neurológico e não um defeito de caráter. Você pode se sentir à vontade para descrevê-los."
- Linguagem Neutra e Técnica: Use os termos "tique vocal complexo" ou "tique motor complexo" ao invés de apenas "palavrões" ou "gestos obscenos". Isso medicaliza e despersonaliza o sintoma.
- Investigue o Impacto, não apenas a Frequência: Pergunte: "Como esse sintoma afeta seu dia a dia? No trabalho? Nos seus relacionamentos? Como você se sente depois que ele acontece?"
- Inclua a Família: Realize sessões de psicoeducação com os familiares, explicando a natureza involuntária. Encoraje-os a ignorar o tique (não comentar, não rir, não repreender) após o diagnóstico estabelecido, pois a atenção, positiva ou negativa, pode reforçá-lo.
- Comunicação com a Escola/Ambiente de Trabalho: Com autorização do paciente, o médico pode fornecer um laudo ou carta de orientação explicando a condição, sugerindo adaptações (ex.: permissão para sair da sala por alguns minutos se a urgência for muito grande) e combatendo o estigma.
Impacto Funcional:
- Educacional/Trabalho: Risco de suspensão escolar, dificuldade de concentração (tiques e TDAH), evitação de apresentações orais, assédio moral no trabalho, demissão.
- Relacionamentos: Dificuldade em fazer e manter amigos, isolamento social, conflitos familiares, dificuldade em estabelecer relacionamentos amorosos.
- Qualidade de Vida: Prejuízos severos nos domínios psicológico e social. Alta prevalência de transtornos de humor e ansiedade secundários. O estresse de gerenciar os sintomas em público é exaustivo.
Perguntas frequentes
1. A coprolalia significa que a pessoa tem pensamentos obscenos ou deseja ofender os outros?
Não. A coprolalia é um sintoma motor/vocal involuntário, como um espasmo. Não reflete o conteúdo dos pensamentos conscientes ou a intenção do indivíduo. O paciente tipicamente pensa o oposto: deseja ardentemente não dizer aquilo.
2. Todo mundo com Tourette tem coprolalia?
Não. Apenas cerca de 1 em cada 4 pessoas com Transtorno de Tourette desenvolve coprolalia ao longo da vida. Sua ausência não exclui o diagnóstico.
3. É possível controlar ou segurar um tique como a coprolalia?
Sim, por um tempo limitado. Muitos pacientes aprendem a suprimir os tiques por alguns minutos ou horas, especialmente em situações sociais críticas. No entanto, isso requer um esforço cognitivo enorme e geralmente é seguido por uma explosão de tiques (rebound) quando a pessoa está em um ambiente privado e seguro, devido à liberação da tensão acumulada.
4. Esses sintomas pioram com o estresse?
Sim. Ansiedade, estresse, excitação (mesmo positiva) e fadiga são exacerbadores quase universais dos tiques. Por outro lado, a concentração em uma atividade prazerosa e absorvente (ex.: tocar um instrumento, praticar um esporte) pode reduzi-los temporariamente.
5. Coprolalia pode começar na vida adulta?
O início de um transtorno de tique típico na idade adulta é muito raro. Se um adulto apresenta início súbito de coprolalia, é imperativo investigar causas neurológicas, como epilepsia focal (coprolalia ictal), lesões cerebrais ou doenças neurodegenerativas.
6. Como devo reagir se alguém próximo apresentar coprolalia ou copropraxia?
A reação mais útil é a ignorância educada. Não comente, não ria, não repreenda, não faça perguntas no momento. Aja como se não tivesse ouvido/visto. Oferecer apoio emocional posteriormente ("sei que isso é difícil para você") é muito mais valioso. Punir ou chamar a atenção para o tique só aumenta a ansiedade e piora o sintoma.
7. Existe cura para a coprolalia?
Não há uma "cura" no sentido de eliminação definitiva. No entanto, com o tratamento adequado (medicação, terapia comportamental), a grande maioria dos pacientes alcança uma redução significativa dos sintomas a um nível que permite uma vida plena e funcional. Em muitos casos, os tiques podem atenuar significativamente na idade adulta.
8. A coprolalia é mais comum em algum gênero?
O Transtorno de Tourette é cerca de 3 a 4 vezes mais comum em pessoas do sexo masculino. Como a coprolalia é um sintoma dentro deste transtorno, ela também é mais frequente em homens. No entanto, quando presente em mulheres, algumas estudos sugerem que possa estar associada a uma gravidade geral maior do quadro.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11.
- Kobierska, M., Gergont, A., & Kaciński, M. (2014). Coprolalia as a first symptom of Tourette syndrome. Przeglad lekarski, 71(7), 395-397.
- Massot-Tarrús, A., White, C., & Mirsattari, S. M. (2016). Ictal coprolalia: a case series and review of the literature. Epilepsy & Behavior Case Reports, 6, 42-45.
- Jummani, R., & Coffey, B. (2009). Tics and Tourette’s disorder. Psychiatric Clinics of North America, 32(3), 591-605.
- Piacentini, J., et al. (2010). Behavior therapy for children with Tourette disorder: a randomized controlled trial. JAMA, 303(19), 1929-1937.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.