Definição e conceito
A autolesão não suicida (ANS), também conhecida como automutilação, refere-se ao ato intencional e deliberado de causar dano ao próprio tecido corporal, sem intenção consciente de suicídio, frequentemente com a função primária de regular estados emocionais aversivos. Na semiologia psiquiátrica, este comportamento é classificado como um sintoma comportamental, inserido no espectro dos transtornos do controle dos impulsos e intimamente ligado à desregulação emocional. A forma mais comum e paradigmática deste fenômeno envolve cortes superficiais na pele (especialmente nos braços, coxas e abdômen) utilizando objetos cortantes, mas o espectro inclui queimaduras, bater-se, arranhar-se, interferir na cicatrização de feridas e beliscões intensos.
É crucial diferenciar a autolesão como mecanismo regulador de outros fenômenos:
- Comportamento suicida: A intencionalidade é a distinção fundamental. Enquanto o comportamento suicida visa cessar a consciência ou a vida, a autolesão reguladora visa modificar um estado emocional insuportável para continuar vivendo. Contudo, a fronteira é porosa e o risco de suicídio é elevado nesta população.
- Síndrome de Lesch-Nyhan e Automutilação Grave em Psicoses: São condições distintas. Como descrito por Dalgalarrondo (2018), formas graves como autoenucleação ou autoamputação ocorrem em contextos psicóticos (esquizofrenia, psicoses tóxicas), geralmente sob influência de alucinações ou delírios comandados, não tendo a função de regulação emocional consciente.
- Comportamentos Repetitivos Focados no Corpo (CRFC): Como tricotilomania (arrancar cabelos) e escoriação (beliscar a pele). Estes podem compartilhar a função de alívio de tensão, mas são categorizados separadamente no DSM-5/ICD-11. É relevante notar que, como apontado nas fontes, nem todos os indivíduos com CRFC relatam alívio de tensão, o que levou à remoção desse critério obrigatório no DSM-5.
- Autolesão em Transtorno do Espectro Autista (TEA): Comportamentos como bater a cabeça ou morder-se, frequentemente observados em crianças com TEA, têm uma função mais comunicativa (expressão de frustração, dor, superestimulação) ou sensorial, diferindo do perfil de regulação emocional complexa visto no transtorno de personalidade borderline (TPB).
A terminologia técnica inclui: Automutilação (termo tradicional, mas com conotação estigmatizante); Autolesão Não Suicida (ANS) / Non-Suicidal Self-Injury (NSSI) (termo mais preciso e descritivo); Comportamento Autolesivo; Frangofilia (termo citado por Dalgalarrondo para impulso patológico de se machucar, menos utilizado atualmente).
Epidemiologicamente, a autolesão é um comportamento transdiagnóstico, mas sua associação mais robusta e estudada é com o Transtorno da Personalidade Borderline (TPB). O TPB tem prevalência de 1% a 2% na população geral. Dentro deste grupo, comportamentos autolesivos (cortar, queimar, bater) são extremamente frequentes, sendo quase um marcador clínico do transtorno. A taxa de suicídio consumado entre indivíduos com TPB é de aproximadamente 6%, sublinhando a letalidade do transtorno mesmo quando a autolesão não é inicialmente suicida.
Apresentação clínica
A apresentação clínica da autolesão como reguladora emocional é multidimensional, envolvendo principalmente os domínios afetivo, cognitivo e comportamental.
Domínio Afetivo:
- Desregulação Emocional Extrema: É o cerne do fenômeno. Pacientes relatam uma labilidade emocional intensa, com oscilações rápidas e profundas de humor. Emoções negativas como raiva, ódio, ansiedade, vazio crônico e vergonha são predominantes e vividas com uma intensidade avassaladora.
- Anestesia Afetiva / Vazio: Muitos pacientes descrevem um estado de entorpecimento emocional, uma sensação de "não sentir nada" ou de vazio insuportável que precede o ato autolesivo.
- Alívio Imediato Pós-Ato: O momento seguinte à autolesão é frequentemente descrito como de alívio, calma ou liberação da tensão emocional acumulada. Este reforço negativo (remoção de um estado aversivo) é fundamental para a manutenção do comportamento.
Domínio Cognitivo:
- Pensamentos Dicotômicos (Tudo ou Nada): Visão polarizada de si, dos outros e das situações ("sou completamente ruim", "ele me odeia").
- Medo Intenso de Abandono: Ideação permeada pela certeza de que serão rejeitados ou abandonados, levando a comportamentos desesperados para evitar tal cenário.
- Cognições de Autoaversão e Culpa: Pensamentos autodepreciativos e de desvalor pessoal são constantes. A autolesão pode ser uma forma de autopunição por estes sentimentos.
- Dissociação: Episódios de despersonalização (sentir-se fora do corpo) ou desrealização (o mundo parece irreal) podem preceder ou acompanhar o ato. A autolesão pode ser uma estratégia para "sair" do estado dissociativo e reconectar-se com a realidade física através da dor.
Domínio Comportamental:
- Atos Autolesivos Ritualizados: O comportamento não é casual. Envolve frequentemente um ritual: a escolha do instrumento (lâmina de barbear, fragmento de vidro, ponta de cigarro), o local do corpo (geralmente áreas facilmente ocultáveis), o momento (frequentemente à noite ou em solidão). Os cortes são tipicamente lineares, paralelos e superficiais, destinados a sangrar sem causar dano arterial grave.
- Impulsividade: O ato é frequentemente impulsivo, uma resposta imediata a um pico de angústia. No entanto, pode também ser planejado antecipando situações de estresse.
- Comportamentos de Risco Associados: Abuso de substâncias (forma de automedicação), compulsões alimentares, gastos impulsivos e sexo de risco são comuns, compartilhando a função de regulação emocional disfuncional.
Exemplo Clínico Conciso:
Paciente M., 22 anos, relata que após uma discussão por mensagem com o namorado, onde ele demorou a responder, foi inundada por uma onda de raiva, seguida por uma certeza aterradora de que ele iria terminá-la. Sentiu um vazio profundo no peito e uma "pressão interna insuportável". Foi ao banheiro, pegou uma lâmina de depilar guardada e fez três cortes superficiais no antebraço. Relata que, ao ver o sangue, "a pressão saiu", sentiu-se "aliviada e real" novamente. Logo em seguida, sentiu vergonha e cobriu os ferimentos.
Neurobiologia e fisiopatologia
Os mecanismos neurobiológicos subjacentes à desregulação emocional e à autolesão no TPB são complexos e envolvem sistemas de neurotransmissão e circuitos neurais específicos.
Disfunção do Sistema Serotoninérgico: Evidências robustas, como citado nas fontes, apontam para uma baixa atividade serotoninérgica em indivíduos com TPB. A serotonina está envolvida no controle do impulso, na modulação do humor e na inibição comportamental. Sua disfunção correlaciona-se diretamente com a impulsividade e a instabilidade afetiva características do transtorno, criando um substrato biológico para respostas comportamentais desreguladas à angústia.
Alterações no Sistema Opioide Endógeno: Modelos propõem que indivíduos com histórico de autolesão podem ter um sistema opioide endógeno disfuncional. Estados de estresse agudo ou anestesia emocional poderiam corresponder a uma queda nos níveis de opioides endógenos. A dor física provocada pela autolesão desencadearia uma liberação desses opioides, produzindo o efeito de alívio, calma e até euforia relatado pelos pacientes. A autolesão atuaria, assim, como uma forma de automedicação para um desequilíbrio neuroquímico.
Circuitos Neurais e a Amígdala:
- Hiperreatividade da Amígdala: A amígdala, estrutura límbica central no processamento de emoções (especialmente medo e raiva), apresenta hiperreatividade em indivíduos com TPB. Estímulos emocionais neutros ou ambíguos são interpretados como intensamente negativos ou ameaçadores, explicando a reatividade emocional exagerada.
- Hipofunção do Córtex Pré-Frontal (CPF): Regiões do CPF, em particular o córtex pré-frontal ventromedial e o córtex orbitofrontal, responsáveis pelo controle de impulsos, regulação emocional "de cima para baixo", tomada de decisões e empatia, frequentemente mostram reduzida atividade ou volume. O desequilíbrio entre uma amígdala hiperativa e um CPF hipofuncional resulta em uma "sobrecarga" emocional sem os freios cognitivos adequados.
- Sistema de Dor Alterado: Alguns estudos indicam um limiar de dor aumentado em indivíduos com TPB durante estados de desregulação, o que poderia facilitar a autolesão em profundidades que seriam intoleráveis para outros.
Fatores Genéticos e de Desenvolvimento: Há uma contribuição genética para a vulnerabilidade ao TPB, muitas vezes interagindo com fatores ambientais. Experiências adversas na infância (abuso, negligência, invalidamento emocional) em indivíduos biologicamente vulneráveis podem levar a alterações duradouras no eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e nos circuitos de estresse e regulação emocional, consolidando o padrão disfuncional.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência: Pode haver cicatrizes lineares múltiplas e paralelas em antebraços, coxas ou abdômen. Feridas recentes em diferentes estágios de cicatrização. Uso de roupas de manga longa mesmo em clima quente.
- Humor e Afeto: Humor lábil, irritável ou deprimido. Afeto intenso, reativo, podendo alternar rapidamente entre raiva, angústia e aparente calma.
- Pensamento: Conteúdo frequentemente focado em rejeição, auto-depreciação, culpa e desesperança. Pode haver ideação suicida passiva ou ativa, que deve ser sempre investigada.
- Impulsividade e Julgamento: Claramente prejudicados. O paciente pode relatar dificuldade extrema em tolerar qualquer angústia sem recorrer a comportamentos impulsivos (autolesão, abuso de substânks, etc.).
Instrumentos de Avaliação:
- Entrevista Clínica Estruturada: A abordagem empática e não julgadora é o principal instrumento. Perguntas diretas como "Alguma vez você já se machucou de propósito, como se cortando ou queimando, sem intenção de suicídio?" são necessárias.
- Escala de Comportamentos Autolesivos (Self-Injury Behavior Questionnaire): Avalia frequência, métodos, intenção e funções da autolesão.
- Inventário de Desregulação Emocional (Difficulties in Emotion Regulation Scale – DERS): Mede múltiplas dimensões da desregulação emocional.
- Escala de Impulsividade de Barratt (BIS-11): Avalia traços de impulsividade.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas | Função da Autolesão |
|---|---|---|
| Transtorno Depressivo Maior | Humor deprimido persistente, anedonia, alterações neurovegetativas. A autolesão é menos frequente e, quando presente, geralmente associada a ideação suicida ou sentimento de desesperança profunda. | Alívio de sentimentos de inutilidade ou punição; pode ser um passo para tentativa de suicídio. |
| Transtorno de Estresse Pós-Traumático | Revivência do trauma, evitação, hipervigilância. A autolesão pode ocorrer durante flashbacks ou estados dissociativos. | Interromper flashback; "sentir-se real" durante dissociação; autopunição por culpa relacionada ao trauma. |
| Transtornos do Espectro Psicótico | Presença de delírios e/ou alucinações. A autolesão é comandada por vozes ou parte de um sistema delirante (ex.: arrancar os olhos para não ver o demônio). | Obedecer a comandos alucinatórios; atuar sobre conteúdo delirante. Não é reguladora emocional no sentido típico. |
| Transtorno Obsessivo-Compulsivo | Presença de obsessões e compulsões para neutralizá-las. Comportamentos como escoriação (skin picking) são compulsões em resposta a obsessões sobre a pele. | Reduzir a ansiedade gerada pela obsessão, seguindo uma "regra" rígida. O alívio é da ansiedade, não de uma onda emocional difusa. |
| Deficiência Intelectual ou TEA | Comprometimento cognitivo e/ou déficits na comunicação. Comportamentos autolesivos (bater a cabeça, morder) são mais frequentes em casos graves. | Comunicação de desconforto; autoestimulação; resposta a frustração em um repertório comportamental limitado. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Subestimar o Risco Suicida: Assumir que por ser "apenas" autolesão, não há perigo. A impulsividade, o acesso a meios letais e a comorbidade com depressão elevam enormemente o risco. Como citado, um estudo acompanhou pessoas após automutilação e encontrou uma taxa de suicídio 30 vezes maior que a da população geral.
- Patologizar ou Estigmatizar em Excesso: Rotular o paciente como "manipulador" ou buscar atenção. Embora o comportamento possa ter efeitos interpessoais, sua função primária é intrapsíquica (regulação emocional). Esta visão errônea prejudica a aliança terapêutica.
- Focar Exclusivamente na Cessão do Comportamento: Exigir que o paciente pare de se machucar sem antes oferecer estratégias alternativas de regulação emocional é contraproducente e gera mais frustração.
- Negligenciar Comorbidades: Não investigar e tratar condições coexistentes como depressão, abuso de substâncias ou transtornos alimentares.
Condições associadas
A autolesão reguladora emocional é um fenômeno transdiagnóstico, mas sua ocorrência é particularmente central e definidora em algumas condições:
- Transtorno da Personalidade Borderline (TPB) (CID-11: 6D10.5, DSM-5-TR: 301.83): A associação é paradigmática. O comportamento autolesivo é um dos critérios diagnósticos (critério 5 no DSM-5: "Comportamento, gestos ou ameaças suicidas recorrentes, ou comportamento de automutilação"). Reflete a confluência da desregulação afetiva, impulsividade e instabilidade identitária.
- Transtorno Depressivo Maior (especialmente com traços mistos ou borderline): Em contextos de depressão com alta labilidade emocional e impulsividade, a autolesão pode surgir como mecanismo de coping.
- Transtornos de Estresse Pós-Traumático e Relacionados a Trauma (CID-11: 6B40): A autolesão pode ser uma estratégia para gerenciar flashbacks, dissociação e a hiperativação do sistema de alarme.
- Transtornos Alimentares (especialmente Bulimia Nervosa): Compartilham núcleos de impulsividade, desregulação emocional e autoaversão. O comportamento purgativo pode ter função reguladora semelhante.
- Transtornos por Uso de Substâncias: A autolesão e o uso de substâncias podem ser formas paralelas de automedicação para estados emocionais aversivos.
A correlação com os manuais diagnósticos é clara. No DSM-5-TR, a autolesão não suicida é listada como uma condição que necessita de mais estudo, refletindo seu reconhecimento como entidade clínica relevante. Na prática clínica, sua presença deve sempre levantar a hipótese de TPB ou de outra condição caracterizada por desregulação emocional grave.
Implicações terapêuticas
O tratamento da autolesão reguladora deve ser integrado, visando a função do comportamento (regulação emocional) e não apenas sua topografia (o ato em si).
Abordagens Psicoterapêuticas com Evidência:
- Terapia Comportamental Dialética (TCD): Desenvolvida por Marsha Linehan especificamente para o TPB, é o tratamento com maior nível de evidência. Seu núcleo é o ensino de habilidades de regulação emocional, tolerância ao mal-estar, efetividade interpessoal e mindfulness. A TCD valida a dor do paciente enquanto o ensina a mudar comportamentos disfuncionais. O paciente aprende a identificar a "onda" emocional e a usar técnicas (como água gelada, exercício intenso, respiração) como alternativas à autolesão, "surfando" a emoção até ela passar.
- Terapia Focada em Esquemas (TFE): Foca em modificar os esquemas desadaptativos precoces (ex.: abandono, desconfiança) que geram as reações emocionais intensas. Trabalha os modos do "Paciente Borderline" (modo criança vulnerável, modo protetor desapegado, modo pai punitivo).
- Terapia Baseada em Mentalização (MBT): Auxilia o paciente a desenvolver a capacidade de mentalizar, isto é, de entender seus próprios estados mentais e os dos outros. Isso permite uma melhor regulação emocional e interpretação menos catastrófica das intenções alheias.
- Treinamento de Reversão de Hábitos (TRH): Mais utilizado para CRFC como tricotilomania, pode ser adaptado. Envolve conscientização do impulso, treino de resposta competitiva (ex.: fechar as mãos) e controle de estímulos.
Abordagens Farmacológicas (Adjuvantes):
Não existe medicação específica para autolesão. O uso é sintomático e visa estabilizar os domínios que a alimentam:
- Estabilizadores de Humor/Impulso: Anticonvulsivantes como lamotrigina e ácido valproico podem ajudar a reduzir a labilidade afetiva e a impulsividade.
- Antipsicóticos de Segunda Geração: Olanzapina, aripiprazol e quetiapina em baixas doses podem ter efeito estabilizador do humor, reduzir a agressividade impulsiva e os sintomas cognitivo-perceptivos transitórios.
- ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina): Como a fluoxetina, podem ajudar na modulação do impulso e nos sintomas depressivos e ansiosos comórbidos, mas sua resposta no TPB puro é mais modesta.
Impacto Prognóstico e na Resposta: A presença de autolesão frequente e grave é um marcador de pior prognóstico, indicando maior desregulação e risco de suicídio. No entanto, a resposta à TCD e outras terapias especializadas pode ser muito boa. A redução da frequência e intensidade dos atos autolesivos é um dos primeiros e mais importantes indicadores de resposta positiva ao tratamento, sinalizando que o paciente está desenvolvendo habilidades de regulação mais adaptativas.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente: Para o paciente, a autolesão não é um "drama" ou uma "chantagem". É uma solução. É o mecanismo de coping mais eficaz que ele encontrou para sobreviver a emoções que sente como literalmente insuportáveis, ameaçadoras à sua integridade psíquica. A vergonha e o estigma subsequentes são enormes, levando ao segredo. Eles frequentemente se descrevem como "viciados" no alívio que o ato proporciona. A ideia de abandonar esse comportamento gera pânico: "Sem isso, como vou sobreviver ao próximo tsunami emocional?".
Orientação para Comunicação Clínica:
- Abordagem Não-Julgadora e Validante: Inicie validando a função do comportamento. "Pelo que você descreve, cortar-se tem sido a forma que você encontrou para aliviar uma dor emocional muito intensa. Isso faz sentido, dada a dificuldade que você relata em tolerar essas emoções." Evite expressões de horror, desaprovação ou minimização ("Isso não é nada grave").
- Investigar a Função, Não Apenas o Ato: Pergunte: "O que acontece em você, emocionalmente, pouco antes de ter a vontade de se machucar?"; "O que você sente durante e logo depois do ato?"; "O que o ato faz por você que você não consegue de outra forma?".
- Avaliar o Risco de Forma Colaborativa: Em vez de um interrogatório, faça uma avaliação de risco em parceria. "Vamos juntos entender o que aumenta o risco de você se machucar de forma mais grave? E o que poderia te proteger nesses momentos?".
- Com Famílias: Educar sobre a função reguladora. Explicar que não é "falta de vontade" ou "manipulação", mas um sintoma de um sofrimento real. Ensinar a não focar no comportamento de forma punitiva, mas a oferecer suporte emocional e ajudar a pessoa a usar estratégias alternativas. Orientar sobre como agir em crise (manter a calma, remover meios letais do ambiente, acionar serviços de crise como CAPS ou UPAs).
Impacto Funcional: O impacto é profundo. Relacionamentos são marcados por ciclos de idealização e desvalorização, medo de abandono e conflitos intensos. A vida profissional/acadêmica é prejudicada pela instabilidade emocional, impulsividade e pelas ausências devido a crises ou hospitalizações. A qualidade de vida é severamente comprometida pelo sofrimento emocional constante, pelo estigma e pelo isolamento social que o segredo da autolesão pode impor.
Perguntas frequentes
1. Para profissionais: Como diferenciar autolesão de uma tentativa de suicídio?
A diferenciação é clínica e baseada na intenção declarada e no método. Autolesão reguladora usa métodos de baixa letalidade imediata (cortes superficiais, queimaduras leves) em contextos de angústia aguda, com relato de alívio posterior. A tentativa de suicídio tende a usar métodos de maior letalidade potencial e o desejo declarado é de "acabar com a dor" de forma permanente. A armadilha é que os dois podem coexistir e um ato autolesivo impulsivo pode, por acidente, tornar-se letal. Toda autolesão deve ter seu risco suicida avaliado.
2. Para profissionais: O paciente diz que só se sente "real" quando se corta. O que isso significa?
Isso frequentemente indica estados dissociativos. A anestesia emocional ou o estresse extremo podem levar a uma sensação de irrealidade, despersonalização. A dor física aguda atua como um estímulo intenso e concreto que "reconecta" o indivíduo ao seu corpo e ao momento presente, interrompendo a dissociação. É uma estratégia desesperada para recuperar a sensação de existência.
3. Para pacientes: Por que sinto alívio depois de me machucar?
O alívio é real e tem bases biológicas e psicológicas. Psicologicamente, você externaliza uma dor emocão interna e indescritível em uma dor física concreta e controlável. Biologicamente, a dor desencadeia a liberação de endorfinas (analgésicos naturais) que produzem uma sensação de calma. Além disso, o ato pode interromper um ciclo de pensamentos angustiantes ou um estado dissociativo. É importante entender que esse alívio é temporário e que é possível aprender outras formas de obter regulação sem causar dano.
4. Para pacientes: Como posso começar a parar se isso é minha principal forma de alívio?
Parar abruptamente, sem alternativas, é perigoso e improdutivo. O caminho é aprender, com ajuda terapêutica (como a TCD), habilidades de substituição. Em vez de "parar de se cortar", o foco é "o que posso fazer quando a vontade vier?". Técnicas de tolerância ao mal-estar, como segurar gelo na mão, tomar um banho frio, exercício físico intenso, ou técnicas de grounding (como descrever detalhadamente objetos ao redor) podem oferecer um alívio sensorial similar sem o dano tecidual. É um processo de reaprendizagem.
5. Para familiares: Como devo reagir quando descubro os cortes?
Evite reações de pânico, raiva ou culpa ("O que foi que eu fiz?"). Essas reações, embora compreensíveis, aumentam a vergonha e o isolamento do seu familiar. Tente uma abordagem calma e de preocupação: "Vejo que você está passando por uma dor muito grande e que isso tem sido a sua forma de lidar. Estou aqui para te ajudar a encontrar outras saídas. Podemos conversar sobre o que você sentiu antes de fazer isso?". Ofereça apoio para buscar ajuda profissional especializada.
6. Para familiares: É verdade que a pessoa se machuca para manipular os outros?
Esta é uma visão simplista e prejudicial. A função primária é a regulação interna de emoções intoleráveis. Embora o comportamento possa, secundariamente, gerar respostas nos outros (como cuidado ou atenção), interpretá-lo primariamente como manipulação invalida o sofrimento real e quebra a confiança. O tratamento eficaz foca em ensinar a pessoa a pedir o que precisa de forma direta e adaptativa (efetividade interpessoal), tornando a "manipulação" desnecessária.
7. Para todos: A autolesão é um "vício"?
Pode adquirir características similares a um vício. O ciclo de: 1) Experiência de emoção aversiva intensa; 2) Atuação autolesiva; 3) Alívio neuroquímico e psicológico imediato, cria um poderoso reforço comportamental. A pessoa pode sentir um "craving" (fissura) pelo ato em situações de estresse. Por isso, abordagens que incluem prevenção de recaída, comuns no tratamento de dependências, são úteis.
8. Para todos: O tratamento com remédios resolve a autolesão?
Não resolve sozinho. Medicamentos (como estabilizadores de humor) podem ser adjuvantes muito úteis para "baixar o volume" da labilidade emocional e da impulsividade, criando um terreno neuroquímico mais estável para que a psicoterapia (como a TCD) seja eficaz. A medicação ajuda a conter a inundação, enquanto a terapia ensina a construir diques e canais de drenagem. O tratamento de escolha é a psicoterapia especializada.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Barlow, D.H.; Durand, V.M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Tradução da 7ª ed. São Paulo: Cengage Learning, 2021.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
- Linehan, M.M. Treinamento de Habilidades para o Transtorno da Personalidade Borderline. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.