O que é?
Imagine que você está assistindo a um filme em que as cores ficam mais vivas, os sons parecem vir de todos os lados, e até mesmo objetos comuns ganham um brilho especial. Agora, imagine que essa sensação não passa depois que o filme acaba — ou pior, que ela volta do nada, dias, semanas ou até meses depois, mesmo sem você ter usado nenhuma substância. Para algumas pessoas, é assim que os transtornos devidos ao uso de alucinógenos se manifestam.
Essa condição não é apenas sobre “ter uma viagem ruim” depois de usar LSD, cogumelos ou ecstasy. É algo mais profundo: um padrão de uso que causa sofrimento real, seja porque a pessoa não consegue parar, porque as experiências com a droga deixam marcas duradouras na mente, ou porque os efeitos colaterais — como alucinações persistentes ou crises de ansiedade — atrapalham a vida cotidiana. Diferente de uma ressaca ou de um mal-estar passageiro, aqui os sintomas persistem, se repetem e prejudicam áreas importantes da vida, como trabalho, relacionamentos e saúde mental.
Como isso se diferencia de uma “viagem” normal?
Quando alguém usa um alucinógeno pela primeira vez, é comum ter experiências intensas: ver padrões geométricos, sentir que o tempo está distorcido ou até ter insights profundos sobre a vida. Para a maioria das pessoas, esses efeitos passam em algumas horas, e a vida volta ao normal. Mas em transtornos devidos ao uso de alucinógenos, três coisas podem acontecer:
- O uso se torna um problema: A pessoa sente uma necessidade incontrolável de usar a substância, mesmo sabendo que isso está prejudicando sua vida. É como se o cérebro ficasse “viciado” não só na droga, mas na sensação de escapar da realidade.
- Os efeitos não vão embora: Mesmo depois que a substância sai do corpo, a pessoa continua tendo alucinações, flashbacks ou distorções perceptivas (como ver cores mais vivas ou ouvir sons que não existem). Isso é chamado de Transtorno Persistente da Percepção Induzido por Alucinógenos (TPPIA) e pode durar anos.
- A droga desencadeia outros transtornos mentais: Em pessoas predispostas, o uso de alucinógenos pode “acordar” problemas como psicose, depressão ou ansiedade grave, que continuam mesmo depois que a droga é eliminada do organismo.
Quem é afetado?
Esse transtorno é raro se comparado a outros, como os relacionados ao álcool ou à maconha. Nos Estados Unidos, estudos mostram que:
– Apenas 0,1% dos adultos (1 em cada 1.000) têm diagnóstico de transtorno por uso de alucinógenos.
– Entre adolescentes (12 a 17 anos), a taxa sobe para 0,5% (5 em cada 1.000).
– Homens são mais afetados que mulheres (0,2% vs. 0,1% em adultos).
No Brasil, não há dados tão específicos, mas pesquisas como o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD, 2012) indicam que:
– Cerca de 1,5% dos brasileiros já usaram alucinógenos pelo menos uma vez na vida.
– O uso é mais comum entre jovens de 18 a 24 anos (3,2%) e em grandes cidades.
– A substância mais consumida é o LSD, seguida por cogumelos (psilocibina) e ecstasy (MDMA).
Um pouco de história
Os alucinógenos não são uma invenção moderna. Povos indígenas das Américas usam cogumelos sagrados (como o Psilocybe cubensis) e o peyote (um cacto com mescalina) em rituais religiosos há milhares de anos. Na década de 1940, o químico suíço Albert Hofmann sintetizou o LSD acidentalmente e, depois de experimentá-lo, descreveu suas propriedades alucinógenas. Nos anos 1960, a substância se popularizou no movimento hippie como uma forma de “expandir a consciência”.
Mas foi também nessa época que os primeiros relatos de problemas mentais persistentes começaram a surgir. Pessoas que usavam LSD em grandes quantidades ou com frequência relatavam flashbacks, paranoia e até surtos psicóticos. Hoje, sabemos que, embora a maioria dos usuários não desenvolva transtornos, alguns são mais vulneráveis — especialmente quem tem histórico familiar de doenças mentais.
Quais são os sintomas?
Os transtornos devidos ao uso de alucinógenos podem se manifestar de várias formas. Alguns sintomas são imediatos (durante ou logo após o uso), enquanto outros aparecem dias, semanas ou até anos depois. Vamos entender cada um deles, como se manifestam no dia a dia e como diferenciar o que é normal do que é um sinal de alerta.
1. Padrão problemático de uso (Dependência ou uso nocivo)
O que é?
A pessoa usa alucinógenos de forma recorrente, mesmo sabendo que isso está causando problemas. Pode ser uma dependência psicológica (sentir que “precisa” da droga para funcionar) ou um uso que já trouxe consequências negativas (brigas, perda de emprego, problemas de saúde).
Como aparece no dia a dia?
– Exemplo 1: João, 22 anos, começou a usar LSD nos fins de semana para “se soltar”. No começo, era só uma vez por mês, mas agora ele sente ansiedade e irritação se passa uma semana sem usar. Ele já faltou a provas na faculdade porque estava “viajando” e brigou com a namorada porque ela disse que ele estava “viciado”.
– Exemplo 2: Maria, 30 anos, usa ecstasy em festas. Ela sabe que a droga pode causar depressão nos dias seguintes, mas mesmo assim continua usando porque “é a única coisa que a faz se sentir feliz”. Ela já perdeu dois empregos por faltar às segundas-feiras, quando os efeitos da droga ainda estão fortes.
– Exemplo 3: Pedro, 19 anos, fuma sálvia (um alucinógeno natural) quase todos os dias. Ele diz que “ajuda a esquecer os problemas”, mas seus pais notaram que ele parou de sair de casa, abandonou os estudos e vive em um mundo de fantasia.
Sintomas específicos (critérios do DSM-5):
✅ Usar em situações de risco: Dirigir sob efeito, usar no trabalho ou em locais perigosos.
✅ Tolerância: Precisar de doses cada vez maiores para ter o mesmo efeito.
✅ Fissura (craving): Pensar obsessivamente na droga, sentir uma vontade incontrolável de usar.
✅ Prejuízos sociais: Brigas com família, perda de amigos, isolamento.
✅ Prejuízos na saúde: Ansiedade, depressão, problemas de memória.
✅ Tentar parar e não conseguir: Mesmo querendo, a pessoa não consegue reduzir ou parar o uso.
O que é NORMAL vs. o que é PROBLEMA?
– Normal: Usar uma vez ou outra em um contexto seguro (ex.: um ritual religioso, uma experiência controlada com amigos).
– Problema: Quando o uso interfere na vida, causa sofrimento ou a pessoa não consegue parar, mesmo querendo.
2. Intoxicação por alucinógenos (A “viagem” que dá errado)
O que é?
É o conjunto de sintomas físicos e mentais que aparecem durante ou logo após o uso da droga. Alguns são prazerosos (como sensações de paz ou euforia), mas outros podem ser assustadores (paranoia, pânico, alucinações aterrorizantes).
Como aparece no dia a dia?
– Exemplo 1 (efeitos “bons”): Ana tomou LSD em um festival. Ela viu cores vibrantes, sentiu que estava “conectada com o universo” e riu muito com os amigos. Mas depois de algumas horas, começou a se sentir desorientada e teve medo de que “nunca mais voltaria ao normal”.
– Exemplo 2 (efeitos “ruins”): Carlos usou cogumelos em casa sozinho. De repente, ele começou a ver monstros nas paredes e achou que sua família estava tentando envenená-lo. Ele quebrou móveis e tentou pular da janela, achando que podia voar.
– Exemplo 3 (efeitos físicos): Beatriz tomou ecstasy em uma festa. Ela dançou a noite toda, mas depois sentiu calafrios, náusea e uma dor de cabeça insuportável. No dia seguinte, estava deprimida e exausta, sem conseguir sair da cama.
Sintomas comuns da intoxicação:
🔹 Alucinações visuais: Ver padrões geométricos, cores intensas, objetos se movendo.
🔹 Distorção do tempo: Minutos parecem horas, ou horas parecem segundos.
🔹 Sinestesia: Misturar sentidos (ex.: “ver” sons, “ouvir” cores).
🔹 Euforia ou pânico: Sentir uma alegria extrema ou um medo paralisante.
🔹 Paranoia: Achar que as pessoas estão contra você, que está sendo perseguido.
🔹 Sintomas físicos: Taquicardia, suor frio, tremores, náusea, boca seca.
Quanto tempo dura?
Depende da substância:
– LSD: 8 a 12 horas.
– Cogumelos (psilocibina): 4 a 6 horas.
– Ecstasy (MDMA): 3 a 6 horas.
– Sálvia: Apenas alguns minutos, mas os efeitos são muito intensos.
Quando é um sinal de alerta?
Se a pessoa:
⚠️ Perde o contato com a realidade (acha que é outra pessoa, que está em outro lugar).
⚠️ Tem comportamentos perigosos (quer pular de lugares altos, se machucar).
⚠️ Não reconhece pessoas conhecidas (acha que os pais são impostores, por exemplo).
⚠️ Tem sintomas físicos graves (convulsões, desmaios, dor no peito).
3. Transtorno Persistente da Percepção Induzido por Alucinógenos (TPPIA) — Os “flashbacks”
O que é?
É quando a pessoa continua tendo alucinações ou distorções perceptivas meses ou anos depois de ter usado a droga. Não é uma “viagem” nova — são fragmentos da experiência original que voltam sem aviso, como um filme que passa na mente sem ser convidado.
Como aparece no dia a dia?
– Exemplo 1: Lucas usou LSD há dois anos. De vez em quando, do nada, ele vê halos de luz ao redor das pessoas ou objetos se movendo como se estivessem vivos. Isso dura alguns segundos, mas o assusta muito.
– Exemplo 2: Camila fumou sálvia uma vez e, desde então, às vezes sente que o chão está se mexendo quando está parada. Ela já caiu algumas vezes porque perdeu o equilíbrio.
– Exemplo 3: Rafael usou ecstasy várias vezes na adolescência. Hoje, aos 30 anos, ainda vê flashes de luz quando fecha os olhos para dormir. Ele evita dirigir à noite porque as luzes dos carros o deixam desorientado.
Sintomas comuns do TPPIA:
🔹 Alucinações visuais: Ver pontos brilhantes, rastros de luz, padrões geométricos.
🔹 Distorção de objetos: Coisas parecem maiores, menores, tortas ou em movimento.
🔹 Macropsia/micropsia: Ver as coisas muito grandes (macropsia) ou muito pequenas (micropsia).
🔹 Palavras ou sons distorcidos: Ouvir vozes ou músicas que não existem.
🔹 Sensação de déjà vu constante: Achar que já viveu uma situação antes, mesmo que não tenha.
Quem tem mais risco de desenvolver TPPIA?
– Pessoas que usaram alucinógenos muitas vezes.
– Quem tem histórico familiar de transtornos mentais (esquizofrenia, transtorno bipolar).
– Quem misturou alucinógenos com outras drogas (como álcool ou maconha).
– Quem usou em situações de estresse ou trauma.
Isso tem cura?
Não existe um “remédio” que faça os flashbacks desaparecerem completamente, mas terapia e medicamentos podem ajudar a controlá-los. Muitas pessoas aprendem a conviver com os sintomas, especialmente se evitam novos usos de alucinógenos.
4. Outros transtornos induzidos por alucinógenos
Além do TPPIA, o uso de alucinógenos pode desencadear outros problemas mentais, como:
a) Psicose induzida por alucinógenos
O que é?
A pessoa perde o contato com a realidade e passa a ter delírios (crenças falsas) ou alucinações (ver/ouvir coisas que não existem). Diferente do TPPIA, aqui os sintomas não são apenas visuais — podem incluir paranoia extrema, vozes na cabeça ou ideias de perseguição.
Exemplo:
Marcos usou LSD e, depois de alguns dias, começou a achar que seus vizinhos estavam espionando ele. Ele trancou todas as portas e janelas, parou de dormir e passou a ouvir vozes dizendo que ele seria assassinado. Sua família o levou ao hospital, onde foi diagnosticado com psicose induzida por alucinógenos.
Como diferenciar de esquizofrenia?
– Na psicose induzida, os sintomas começam logo após o uso da droga e, em muitos casos, melhoram com o tempo.
– Na esquizofrenia, os sintomas aparecem gradualmente e persistem por anos, mesmo sem uso de drogas.
b) Depressão ou ansiedade induzida por alucinógenos
O que é?
Algumas pessoas desenvolvem depressão grave ou crises de pânico depois de usar alucinógenos, especialmente ecstasy (MDMA). Isso acontece porque a droga esgota os neurotransmissores responsáveis pelo humor (como a serotonina).
Exemplo:
Juliana usou ecstasy em uma festa e, nos dias seguintes, sentiu uma tristeza profunda, sem motivo. Ela não conseguia sair da cama, chorava o tempo todo e pensava em se machucar. Seu médico disse que era uma depressão induzida pela droga e que poderia durar semanas.
Sintomas comuns:
– Tristeza profunda, desesperança.
– Falta de energia, cansaço extremo.
– Crises de pânico, medo de morrer.
– Insônia ou sono excessivo.
– Pensamentos suicidas.
c) Transtorno de ansiedade induzido por alucinógenos
O que é?
A pessoa passa a ter crises de ansiedade intensas depois do uso, mesmo em situações que antes não a incomodavam.
Exemplo:
Rodrigo usou cogumelos e, desde então, não consegue mais andar de metrô. Toda vez que entra em um lugar fechado, ele sente falta de ar, taquicardia e medo de morrer. Ele foi diagnosticado com transtorno de pânico induzido por alucinógenos.
Um aviso importante
Ter um ou dois desses sintomas não significa que a pessoa tenha um transtorno. O que define o diagnóstico é:
✔️ A intensidade (os sintomas atrapalham a vida?).
✔️ A duração (eles persistem por semanas ou meses?).
✔️ O sofrimento (a pessoa se sente angustiada com isso?).
Se você ou alguém que você conhece está passando por isso, não é “frescura” nem “falta de força de vontade”. É um problema de saúde real, que pode ser tratado.
Como se manifesta no dia a dia?
Os transtornos devidos ao uso de alucinógenos não afetam só a mente — eles bagunçam a vida inteira. Vamos ver como isso aparece em diferentes áreas.
No trabalho ou na escola
- Faltas e atrasos: A pessoa pode faltar ao trabalho ou à escola porque está deprimida depois de usar ecstasy ou porque teve uma noite de insônia por causa de um flashback.
- Dificuldade de concentração: Quem tem TPPIA pode se distrair facilmente com alucinações visuais ou sons distorcidos, tornando difícil ler, escrever ou acompanhar reuniões.
- Problemas de memória: Alguns alucinógenos (como o ecstasy) danificam neurônios e podem causar esquecimentos frequentes, como não lembrar de compromissos ou tarefas importantes.
- Conflitos com colegas: Se a pessoa está paranoica ou irritada por causa da droga, pode ter brigas no trabalho ou ser vista como “instável”.
Exemplo real:
Carlos, 25 anos, era um ótimo programador, mas depois de começar a usar LSD nos fins de semana, passou a ter flashbacks durante o expediente. Ele via códigos de computador se movendo na tela e não conseguia trabalhar. Foi demitido depois de três meses.
Nos relacionamentos
- Isolamento: A pessoa pode evitar amigos e família porque se sente envergonhada dos sintomas ou porque acha que “ninguém vai entender”.
- Brigas constantes: A irritabilidade causada pela abstinência de ecstasy ou os delírios de perseguição do LSD podem levar a discussões frequentes.
- Desconfiança: Quem desenvolve psicose induzida pode achar que parceiros, pais ou amigos estão contra ela, mesmo sem motivo.
- Perda de interesse em sexo: Alguns alucinógenos (como o ecstasy) diminuem a libido a longo prazo, causando problemas no relacionamento.
Exemplo real:
Ana, 28 anos, usava cogumelos com o namorado. Depois de um tempo, começou a ter flashbacks e achava que ele estava trocando mensagens secretas com outras mulheres. Ela invadiu o celular dele várias vezes e, mesmo sem encontrar nada, não conseguia confiar. O relacionamento acabou em seis meses.
Na rotina (sono, alimentação, autocuidado)
- Sono desregulado: Alguns alucinógenos bagunçam o ciclo do sono, fazendo a pessoa dormir de dia e ficar acordada à noite.
- Perda de apetite: O ecstasy, por exemplo, suprime a fome, e a pessoa pode emagrecer muito sem perceber.
- Negligência com a saúde: Quem está deprimido ou psicótico pode parar de tomar remédios, escovar os dentes ou tomar banho.
- Comportamentos de risco: Dirigir sob efeito, ter relações sexuais sem proteção ou se machucar acidentalmente.
Exemplo real:
Pedro, 20 anos, usava LSD quase todos os dias. Ele parou de comer direito, perdeu 10 kg em dois meses e não dormia há semanas. Seus pais o levaram ao médico, que diagnosticou desnutrição e insônia grave.
Na saúde física
Os alucinógenos não afetam só a mente — eles também podem prejudicar o corpo:
– Problemas cardíacos: O ecstasy aumenta a frequência cardíaca e pode causar arritmias ou até infarto em pessoas predispostas.
– Danos no fígado: Alguns alucinógenos (como o MDMA) são tóxicos para o fígado, especialmente se usados em grandes quantidades.
– Convulsões: Em casos raros, o uso de LSD ou cogumelos pode desencadear convulsões, especialmente em quem já tem epilepsia.
– Síndrome serotoninérgica: Uma reação grave que acontece quando há excesso de serotonina no cérebro (causada por ecstasy, por exemplo). Os sintomas incluem febre alta, rigidez muscular e confusão mental.
Exemplo real:
Mariana, 19 anos, tomou ecstasy em uma festa e, depois de algumas horas, começou a sentir calafrios, febre e dores musculares. Foi levada ao hospital e diagnosticada com síndrome serotoninérgica. Ficou internada por uma semana.
O que causa essa condição?
Não existe uma única causa para os transtornos devidos ao uso de alucinógenos. Eles surgem de uma combinação de fatores, como:
1. Fatores genéticos (A “herança” da vulnerabilidade)
Imagine que o cérebro é como um computador. Algumas pessoas nascem com um sistema operacional mais frágil — ou seja, têm genes que as tornam mais sensíveis aos efeitos das drogas.
- Histórico familiar de transtornos mentais: Se pais, avós ou irmãos têm esquizofrenia, transtorno bipolar ou depressão, o risco de desenvolver problemas com alucinógenos é maior.
- Diferenças no metabolismo: Algumas pessoas processam as drogas mais devagar, o que pode aumentar os efeitos colaterais.
Exemplo:
João tem um irmão com esquizofrenia. Quando ele usou LSD pela primeira vez, teve uma viagem muito intensa e, depois, começou a ter flashbacks frequentes. Seu médico disse que o histórico familiar pode ter contribuído.
2. Fatores neurobiológicos (O que acontece no cérebro?)
Os alucinógenos bagunçam a comunicação entre os neurônios, especialmente os que usam serotonina (um neurotransmissor ligado ao humor, sono e percepção).
- LSD e cogumelos: Se ligam aos receptores de serotonina, causando alucinações e distorções perceptivas.
- Ecstasy (MDMA): Esgota a serotonina no cérebro, o que pode levar a depressão e ansiedade depois do uso.
- Mudanças duradouras: Em algumas pessoas, o cérebro não volta ao normal depois do uso, levando a flashbacks e psicose.
Analogia:
Pense no cérebro como uma orquestra. Os alucinógenos são como um maestro bêbado — eles fazem os instrumentos tocarem fora do ritmo, e às vezes a música não volta ao normal mesmo depois que o maestro vai embora.
3. Fatores ambientais (O que acontece fora do corpo?)
- Traumas na infância: Abuso, negligência ou violência podem aumentar a vulnerabilidade a transtornos mentais.
- Pressão social: Se os amigos usam drogas, a pessoa pode se sentir pressionada a experimentar.
- Estresse crônico: Problemas financeiros, desemprego ou relacionamentos tóxicos podem piorar os efeitos das drogas.
- Falta de apoio: Quem não tem rede de suporte (família, amigos, terapia) tem mais dificuldade para parar o uso.
Exemplo:
Maria começou a usar ecstasy depois de perder o emprego e terminar um relacionamento. Ela dizia que a droga era a única coisa que a fazia feliz. Mas, com o tempo, desenvolveu depressão grave e precisou de internação.
4. Fatores da gestação e desenvolvimento
- Exposição a drogas na gravidez: Se a mãe usou alucinógenos durante a gestação, o bebê pode ter maior risco de problemas mentais no futuro.
- Complicações no parto: Falta de oxigênio no nascimento pode aumentar a vulnerabilidade a transtornos psiquiátricos.
Mitos e verdades sobre as causas
❌ Mito 1: “Só quem é fraco desenvolve problemas com drogas.”
✅ Verdade: A vulnerabilidade é biológica e psicológica, não tem a ver com “força de vontade”. Algumas pessoas têm mais risco por causa de genes, traumas ou estrutura cerebral.
❌ Mito 2: “Alucinógenos são naturais, então não fazem mal.”
✅ Verdade: Cogumelos e ayahuasca são naturais, mas isso não significa que sejam seguros. Eles podem causar psicose, depressão e flashbacks, assim como as drogas sintéticas.
❌ Mito 3: “Se eu usar só uma vez, não vai acontecer nada.”
✅ Verdade: Uma única dose pode desencadear psicose, TPPIA ou depressão, especialmente em pessoas predispostas.
❌ Mito 4: “Quem usa alucinógenos é louco ou drogado.”
✅ Verdade: Muitas pessoas usam alucinógenos sem desenvolver transtornos. O problema não é a droga em si, mas como o cérebro de cada um reage a ela.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de transtorno devido ao uso de alucinógenos não é como fazer um exame de sangue — não existe um teste único que confirme. O processo envolve conversas, observação e exclusão de outras condições. Vamos entender como funciona.
Passo 1: A primeira consulta (O que esperar?)
Geralmente, a pessoa chega ao médico ou psicólogo por dois motivos:
1. Ela mesma percebeu que algo está errado (ex.: flashbacks, depressão, paranoia).
2. Alguém a levou (família, amigos, polícia, escola).
O que o profissional vai perguntar?
– “Quando você começou a usar alucinógenos?” (idade, frequência, quantidade).
– “Como você se sente durante e depois do uso?” (alucinações, medo, euforia).
– “Você já tentou parar? Como foi?” (sintomas de abstinência, fissura).
– “Isso está atrapalhando sua vida?” (trabalho, relacionamentos, saúde).
– “Você tem histórico de transtornos mentais na família?” (esquizofrenia, depressão, bipolaridade).
Exemplo de diálogo:
Médico: “Você disse que vê luzes piscando às vezes. Isso acontece só depois de usar LSD ou em outros momentos?”
Paciente: “Não, acontece do nada, mesmo quando estou sóbrio. Já faz seis meses.”
Médico: “E isso te assusta?”
Paciente: “Muito. Às vezes acho que estou ficando louco.”
Passo 2: Exames e avaliações (Descartando outras causas)
Antes de confirmar o diagnóstico, o médico vai excluir outras condições que podem causar sintomas parecidos, como:
– Esquizofrenia: Se a pessoa tem delírios e alucinações mesmo sem usar drogas.
– Transtorno bipolar: Se os sintomas de euforia e depressão aparecem em ciclos.
– Epilepsia ou tumores cerebrais: Algumas condições neurológicas podem causar alucinações.
– Abstinência de outras drogas: Álcool, benzodiazepínicos e até maconha podem causar sintomas psicóticos na abstinência.
Exames que podem ser pedidos:
– Exame de sangue: Para verificar função hepática, renal e níveis de vitaminas (algumas deficiências causam sintomas psiquiátricos).
– Eletroencefalograma (EEG): Se houver suspeita de epilepsia.
– Tomografia ou ressonância magnética: Para descartar tumores ou lesões cerebrais.
– Teste toxicológico: Para confirmar se a pessoa usou drogas recentemente.
Passo 3: Critérios diagnósticos (Como o médico decide?)
O diagnóstico é baseado nos critérios do DSM-5 e da CID-11. Vamos ver os principais:
Transtorno por uso de alucinógenos (Dependência)
A pessoa precisa ter pelo menos 2 dos seguintes sintomas por 12 meses:
1. Usar em maiores quantidades ou por mais tempo do que pretendia (ex.: planejou usar uma vez e usou cinco).
2. Desejo persistente ou esforços malsucedidos para parar (ex.: tenta parar, mas não consegue).
3. Gastar muito tempo para obter, usar ou se recuperar da droga (ex.: passa o dia todo pensando em como conseguir LSD).
4. Fissura (craving): Vontade intensa de usar.
5. Uso recorrente que interfere em obrigações (trabalho, escola, família).
6. Continuar usando apesar de problemas sociais (brigas, isolamento).
7. Reduzir atividades importantes (lazer, hobbies) por causa da droga.
8. Usar em situações de risco (dirigir, operar máquinas).
9. Continuar usando apesar de problemas físicos ou psicológicos (depressão, ansiedade).
10. Tolerância: Precisar de doses maiores para o mesmo efeito.
11. Abstinência: Sintomas físicos ou psicológicos quando para de usar (mais comum com ecstasy).
Exemplo de diagnóstico:
Lucas, 22 anos, usa LSD há dois anos. Ele:
– Já tentou parar três vezes, mas sempre volta a usar.
– Faltou ao trabalho várias vezes porque estava “viajando”.
– Tem flashbacks frequentes, mas mesmo assim continua usando.
– Brigou com a família porque eles disseram que ele está “viciado”.
➡️ Diagnóstico provável: Transtorno por uso de alucinógenos (moderado).
Transtorno Persistente da Percepção Induzido por Alucinógenos (TPPIA)
Para esse diagnóstico, a pessoa precisa:
1. Ter usado alucinógenos no passado.
2. Ter alucinações ou distorções perceptivas recorrentes (flashbacks).
3. Esses sintomas causarem sofrimento ou prejuízo (ex.: não conseguir dirigir, trabalhar ou dormir).
4. Os sintomas não serem explicados por outra condição (esquizofrenia, enxaqueca, epilepsia).
Exemplo de diagnóstico:
Camila, 25 anos, usou cogumelos há um ano. Desde então:
– Vê halos de luz ao redor das pessoas várias vezes por semana.
– Tem medo de dirigir à noite porque as luzes dos carros a deixam desorientada.
– Já procurou um oftalmologista, mas os exames deram normais.
➡️ Diagnóstico provável: TPPIA.
Psicose induzida por alucinógenos
A pessoa precisa:
1. Ter usado alucinógenos recentemente.
2. Ter delírios ou alucinações (ex.: achar que está sendo perseguido, ouvir vozes).
3. Os sintomas não serem explicados por outra condição (esquizofrenia, transtorno bipolar).
4. Os sintomas causarem sofrimento ou prejuízo.
Exemplo de diagnóstico:
Marcos, 19 anos, usou LSD há três dias. Desde então:
– Acha que seus vizinhos estão espionando ele.
– Ouve vozes dizendo que ele vai morrer.
– Não dorme há 48 horas e está agitado e agressivo.
➡️ Diagnóstico provável: Psicose induzida por alucinógenos.
Passo 4: Quanto tempo leva para ser diagnosticado?
Depende de quando a pessoa procura ajuda:
– Se os sintomas são graves (psicose, depressão profunda), o diagnóstico pode ser feito em algumas semanas.
– Se os sintomas são leves (flashbacks ocasionais), pode levar meses ou anos até que a pessoa perceba que precisa de ajuda.
Dica importante:
Muitas pessoas demoram a procurar ajuda porque:
– Têm vergonha de admitir que usam drogas.
– Acham que é “só uma fase” e que vai passar.
– Não sabem que os sintomas podem ser tratados.
Se você ou alguém que você conhece está passando por isso, não espere piorar. Quanto antes o tratamento começar, melhores são as chances de recuperação.
Quem pode diagnosticar?
- Psiquiatra: Médico especializado em saúde mental (pode receitar remédios).
- Psicólogo: Faz avaliação psicológica, mas não pode receitar medicamentos.
- Neurologista: Se houver suspeita de problemas neurológicos (epilepsia, tumores).
- Clínico geral: Pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um especialista.
No SUS (Sistema Único de Saúde):
– CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Oferece tratamento gratuito para transtornos mentais e dependência química.
– UBS (Unidade Básica de Saúde): Pode encaminhar para um psiquiatra ou psicólogo.
– Hospitais psiquiátricos: Em casos graves (psicose, risco de suicídio).
Na rede particular:
– Consultórios de psiquiatria e psicologia.
– Clínicas de reabilitação (para dependência química).
Diagnóstico diferencial (O que pode ser confundido?)
Algumas condições têm sintomas parecidos com os transtornos por alucinógenos. O médico precisa descartar essas possibilidades antes de confirmar o diagnóstico.
| Condição | Como diferenciar? |
|---|---|
| Esquizofrenia | Os sintomas (delírios, alucinações) persistem por anos, mesmo sem uso de drogas. |
| Transtorno bipolar | A pessoa tem episódios de euforia e depressão em ciclos, não relacionados ao uso de drogas. |
| Enxaqueca com aura | As alucinações visuais (luzes, pontos) são breves e acompanhadas de dor de cabeça. |
| Epilepsia do lobo temporal | As alucinações são mais complexas (cheiros, memórias falsas) e podem vir com convulsões. |
| Abstinência de álcool/benzodiazepínicos | Os sintomas (ansiedade, tremores, alucinações) aparecem quando a pessoa para de beber ou tomar remédios. |
| Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) | Os flashbacks são lembranças de um trauma real (ex.: abuso, acidente), não de uma “viagem”. |
Tratamento
Receber um diagnóstico de transtorno devido ao uso de alucinógenos pode ser assustador, mas tem tratamento. A boa notícia é que, com a abordagem certa, muitas pessoas conseguem controlar os sintomas e retomar suas vidas. Vamos entender as opções.
1. Medicamentos (O que pode ajudar?)
Não existe um remédio específico para os transtornos por alucinógenos, mas alguns medicamentos podem aliviar os sintomas. O psiquiatra vai escolher com base no que está incomodando mais (ansiedade, depressão, psicose, flashbacks).
a) Para flashbacks e alucinações (TPPIA)
- Benzodiazepínicos (ex.: clonazepam, diazepam): Usados em crises agudas para acalmar a ansiedade e reduzir as alucinações. Não são para uso contínuo (risco de dependência).
- Anticonvulsivantes (ex.: lamotrigina, valproato): Podem ajudar a estabilizar a atividade cerebral e reduzir os flashbacks.
- Antipsicóticos atípicos (ex.: quetiapina, olanzapina): Usados se os flashbacks forem muito intensos ou se houver sintomas psicóticos.
Como funcionam?
Imagine que o cérebro é como um rádio com o volume muito alto. Esses remédios ajustam o volume, reduzindo as alucinações e a ansiedade.
Efeitos colaterais comuns:
– Sonolência.
– Ganho de peso.
– Boca seca.
– Tontura.
Dica importante:
– Nunca pare de tomar o remédio de uma vez — isso pode causar sintomas de abstinência ou piorar os flashbacks.
– Converse com o médico se os efeitos colaterais forem muito incômodos. Às vezes, basta ajustar a dose ou trocar o medicamento.
b) Para depressão e ansiedade (induzidas por ecstasy ou outros alucinógenos)
- Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) (ex.: fluoxetina, sertralina): Ajudam a repor a serotonina (que o ecstasy esgota) e melhoram o humor.
- Estabilizadores de humor (ex.: lítio): Usados se a pessoa tiver oscilações bruscas de humor.
Como funcionam?
Pense na serotonina como um tanque de combustível. O ecstasy esvazia o tanque, e os ISRS ajudam a enchê-lo de novo.
Efeitos colaterais comuns:
– Náusea (nos primeiros dias).
– Diminuição do desejo sexual.
– Insônia ou sonolência.
Dica importante:
– Os ISRS demoram 2 a 4 semanas para fazer efeito. Não desista se não sentir melhora logo no começo.
– Evite álcool enquanto estiver tomando esses remédios — pode piorar a depressão e a ansiedade.
c) Para psicose induzida por alucinógenos
- Antipsicóticos (ex.: risperidona, aripiprazol): Reduzem delírios e alucinações.
- Benzodiazepínicos (ex.: lorazepam): Usados em crises agudas para acalmar a agitação.
Como funcionam?
Os antipsicóticos são como filtros que ajudam o cérebro a diferenciar o que é real do que não é.
Efeitos colaterais comuns:
– Rigidez muscular.
– Tremores.
– Ganho de peso.
Dica importante:
– Se a pessoa estiver muito agitada ou agressiva, pode ser necessário internação temporária para estabilização.
2. Psicoterapia (A “terapia da conversa”)
Os remédios ajudam a controlar os sintomas, mas a psicoterapia é fundamental para entender as causas do uso, lidar com os gatilhos e reconstruir a vida. Vamos ver as abordagens mais usadas.
a) Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
O que é?
É uma terapia prática e focada no presente. O terapeuta ajuda a pessoa a:
– Identificar pensamentos disfuncionais (ex.: “Só consigo me divertir se usar drogas”).
– Modificar comportamentos prejudiciais (ex.: evitar lugares onde usava alucinógenos).
– Desenvolver habilidades de enfrentamento (ex.: técnicas de relaxamento para lidar com a fissura).
Como funciona na prática?
– Sessões semanais (geralmente 12 a 20 sessões).
– Exercícios para fazer em casa (ex.: registrar pensamentos, praticar respiração diafragmática).
– Treinamento de habilidades sociais (para quem se isolou por causa da droga).
Para quem é indicada?
– Pessoas com dependência leve a moderada.
– Quem quer entender os gatilhos do uso.
– Quem tem ansiedade ou depressão associada.
Exemplo de técnica usada na TCC:
João usava LSD sempre que se sentia estressado no trabalho. Na terapia, ele aprendeu:
1. Identificar o gatilho: “Quando meu chefe me pressiona, sinto vontade de usar LSD.”
2. Questionar o pensamento: “Será que a droga realmente resolve o problema ou só adia?”
3. Substituir o comportamento: “Em vez de usar, vou dar uma caminhada ou ligar para um amigo.”
b) Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
O que é?
Uma abordagem que ensina a pessoa a aceitar os pensamentos e sentimentos difíceis (como fissura ou flashbacks) sem lutar contra eles, enquanto age de acordo com seus valores.
Como funciona na prática?
– Mindfulness: Técnicas de atenção plena para lidar com flashbacks ou ansiedade.
– Definição de valores: “O que é importante para você?” (ex.: família, trabalho, saúde).
– Ação comprometida: “Como você pode agir de acordo com esses valores, mesmo com os sintomas?”
Para quem é indicada?
– Pessoas com TPPIA (flashbacks) que se sentem frustradas ou desesperadas.
– Quem tem dificuldade em aceitar que os sintomas podem ser crônicos.
Exemplo:
Maria tem flashbacks frequentes e se sente culpada por ter usado LSD. Na ACT, ela aprende:
– “Os flashbacks são como ondas: eles vêm e vão. Não preciso lutar contra eles.”
– “Meu valor é ser uma boa mãe. Mesmo com os flashbacks, posso brincar com meu filho.”
c) Terapia Familiar
O que é?
Envolve familiares e parceiros no tratamento, porque a dependência química afeta todo o sistema familiar.
Como funciona na prática?
– Educação sobre a doença: Explicar que não é falta de força de vontade.
– Melhorar a comunicação: Ensinar a família a apoiar sem julgar.
– Resolver conflitos: Muitas famílias têm brigas e ressentimentos acumulados.
Para quem é indicada?
– Famílias que não sabem como ajudar.
– Casos em que a dinâmica familiar contribui para o uso (ex.: pais que também usam drogas).
Exemplo:
Os pais de Pedro brigavam muito com ele por causa do uso de cogumelos. Na terapia familiar, eles aprenderam:
– “Não adianta gritar ou ameaçar. Isso só aumenta a vontade de usar.”
– “Em vez de criticar, podemos oferecer apoio: ‘Estamos aqui para te ajudar.'”
d) Grupos de apoio (Narcóticos Anônimos, NA)
O que é?
Grupos de pessoas em recuperação que se reúnem para compartilhar experiências e se apoiar.
Como funciona na prática?
– Reuniões semanais (presenciais ou online).
– Programa de 12 passos (similar ao dos Alcoólicos Anônimos).
– Padrinho/madrinha: Uma pessoa mais experiente na recuperação que orienta e apoia.
Para quem é indicado?
– Quem precisa de apoio social.
– Quem se sente sozinho na recuperação.
Exemplo:
Lucas frequentava o NA e dizia: “No começo, eu achava que era o único com esse problema. Depois, vi que muitas pessoas passaram pelo mesmo e conseguiram parar. Isso me deu esperança.”
3. Mudanças no dia a dia (O que você pode fazer por si mesmo?)
Os remédios e a terapia são essenciais, mas pequenas mudanças no cotidiano podem fazer uma grande diferença. Vamos ver o que ajuda.
a) Exercício físico
Por que ajuda?
– Libera endorfinas (substâncias que melhoram o humor).
– Reduz a ansiedade e a depressão.
– Melhora a qualidade do sono.
Quais exercícios são melhores?
– Caminhada, corrida ou natação (30 minutos, 3 vezes por semana).
– Yoga ou tai chi (ajudam a controlar a ansiedade).
– Musculação (aumenta a autoestima).
Dica:
Comece devagar. Se você não está acostumado, 10 minutos por dia já fazem diferença.
b) Sono (A base de tudo)
Por que é importante?
– A falta de sono piora a ansiedade, a depressão e os flashbacks.
– Muitas pessoas com transtornos por alucinógenos têm insônia ou pesadelos.
Como melhorar o sono?
✅ Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias.
✅ Ambiente: Quarto escuro, silencioso e fresco.
✅ Evite telas: Nada de celular ou TV 1 hora antes de dormir.
✅ Relaxamento: Meditação, respiração profunda ou chá de camomila.
❌ Evite: Café, álcool e nicotina 6 horas antes de dormir.
Dica:
Se você acorda no meio da noite com flashbacks, tente:
1. Levantar e beber água.
2. Respirar fundo (inspire por 4 segundos, segure por 4, expire por 6).
3. Escrever o que está sentindo em um caderno.
c) Alimentação
Por que é importante?
– Alguns alucinógenos (como o ecstasy) esgotam nutrientes importantes (magnésio, vitamina B12).
– Uma dieta equilibrada melhora o humor e a energia.
O que comer?
✅ Alimentos ricos em triptofano (precursor da serotonina): Banana, ovos, peixes, castanhas.
✅ Ômega-3 (melhora a função cerebral): Salmão, sardinha, linhaça.
✅ Magnésio (reduz a ansiedade): Espinafre, abacate, chocolate amargo.
❌ Evite: Açúcar refinado, fast food e excesso de café.
Dica:
Se você não tem fome (comum na depressão), tente:
– Comer pequenas porções ao longo do dia.
– Sopas ou vitaminas (mais fáceis de engolir).
d) Rotina (Estrutura é segurança)
Por que é importante?
– A falta de rotina pode aumentar a ansiedade e a fissura.
– Ter objetivos diários dá sensação de controle.
Como estruturar o dia?
1. Acordar no mesmo horário (mesmo nos fins de semana).
2. Fazer uma lista de tarefas (ex.: tomar café, caminhar, ligar para um amigo).
3. Reservar um tempo para lazer (ler, assistir a um filme, cozinhar).
4. Dormir no mesmo horário.
Exemplo de rotina:
| Horário | Atividade |
|———|———–|
| 7h | Acordar, tomar café |
| 8h | Caminhada de 30 minutos |
| 9h | Trabalho/estudo |
| 12h | Almoço + descanso |
| 14h | Terapia ou grupo de apoio |
| 16h | Ler ou ouvir música |
| 18h | Jantar em família |
| 20h | Banho relaxante |
| 22h | Dormir |
e) Técnicas de manejo para flashbacks e ansiedade
1. Grounding (Aterramento)
Quando um flashback começar, traga sua atenção para o presente:
– 5-4-3-2-1: Nomeie 5 coisas que você vê, 4 que toca, 3 que ouve, 2 que cheira, 1 que saboreia.
– Segure um objeto frio (gelo, chave) e concentre-se na sensação.
2. Respiração diafragmática
– Coloque uma mão no peito e outra na barriga.
– Inspire pelo nariz (4 segundos), sentindo a barriga subir.
– Segure (4 segundos).
– Expire pela boca (6 segundos), sentindo a barriga descer.
3. Distração
– Conte de trás para frente (100, 99, 98…).
– Cante uma música em voz alta.
– Desenhe ou escreva o que está sentindo.
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de transtorno devido ao uso de alucinógenos pode ser um baque. Muitas pessoas se sentem envergonhadas, culpadas ou sem esperança. Mas é possível reconstruir a vida — e essa jornada começa com aceitação, apoio e pequenas mudanças.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceite que a recuperação é um processo
- Não é linear: Haverá dias bons e ruins. Não se cobre perfeição.
- Celebre as pequenas vitórias: Parar de usar por uma semana, ir a uma sessão de terapia, dormir bem uma noite.
- Seja gentil consigo mesmo: Você está aprendendo a viver de um jeito novo. Isso leva tempo.
Exemplo:
Carlos se sentia frustrado porque, depois de três meses sem usar LSD, teve um flashback intenso. Seu terapeuta disse: “Isso não é um fracasso. É parte do processo. Você está aprendendo a lidar com isso.”
2. Identifique seus gatilhos
Gatilhos são situações, pessoas ou emoções que aumentam a vontade de usar ou pioram os sintomas. Alguns comuns:
– Estresse (problemas no trabalho, brigas em casa).
– Tédio (não ter o que fazer).
– Lugares ou pessoas associadas ao uso (ex.: festas, amigos que usam).
– Emoções difíceis (tristeza, raiva, solidão).
O que fazer?
– Evite gatilhos no começo: Se festas te fazem querer usar, fique longe delas por um tempo.
– Tenha um plano B: Se sentir vontade de usar, ligue para um amigo, faça exercício ou escreva.
– Substitua o comportamento: Em vez de usar, faça algo que te dê prazer (cozinhar, desenhar, dançar).
Exemplo:
Ana percebeu que ficar sozinha à noite a deixava ansiosa e com vontade de usar ecstasy. Ela criou um plano:
1. Evitar ficar sozinha (convidar um amigo para dormir).
2. Assistir a um filme engraçado para distrair.
3. Ligar para sua madrinha do NA se a fissura fosse muito forte.
3. Construa uma rede de apoio
- Família e amigos: Escolha pessoas que te apoiam sem julgar. Evite quem minimiza seu problema (“Ah, é só uma fase”).
- Grupos de apoio: O Narcóticos Anônimos (NA) é gratuito e tem reuniões em todo o Brasil.
- Profissionais: Mantenha contato regular com seu psiquiatra e terapeuta.
Como pedir ajuda?
– Seja específico: Em vez de “Estou mal”, diga “Estou com vontade de usar LSD. Você pode ficar comigo hoje?”.
– Aceite ajuda prática: Se alguém oferecer para cozinhar, limpar ou te levar a uma reunião, aceite.
Exemplo:
Pedro disse à mãe: “Mãe, estou com medo de ter uma recaída. Você pode me ajudar a tirar os cogumelos de casa e ficar comigo hoje à noite?”
4. Crie novos hábitos e hobbies
Muitas pessoas associam alucinógenos a diversão ou escape. Para mudar isso, é preciso encontrar prazer em outras coisas.
Ideias:
– Arte: Pintura, música, escrita.
– Esportes: Futebol, natação, escalada.
– Voluntariado: Ajudar em um abrigo de animais ou asilo.
– Aprendizado: Cursos online, idiomas, culinária.
Exemplo:
Juliana usava ecstasy para “se soltar” em festas. Depois do diagnóstico, ela descobriu que dançar salsa a fazia se sentir tão feliz quanto a droga — e sem os efeitos colaterais.
5. Cuide da sua saúde mental a longo prazo
- Continue a terapia: Mesmo depois que os sintomas melhorarem, a terapia ajuda a prevenir recaídas.
- Tome os remédios como prescrito: Não pare por conta própria, mesmo se estiver se sentindo bem.
- Faça check-ups regulares: Alguns alucinógenos podem afetar o coração, fígado e rins.
Dica:
Mantenha um diário de humor. Anote:
– Como você se sentiu durante o dia.
– Se teve fissura, flashbacks ou crises de ansiedade.
– O que ajudou ou piorou os sintomas.
Para familiares e amigos
1. Como ajudar (sem sufocar)
- Ouça sem julgar: Em vez de “Você está destruindo sua vida!”, diga “Estou aqui para te ouvir. Como posso ajudar?”.
- Ofereça apoio prático: “Quer que eu te leve à terapia?”, “Posso cozinhar para você hoje?”.
- Informe-se sobre a doença: Quanto mais você entender, melhor poderá ajudar.
- Respeite os limites: Se a pessoa não quiser falar, não force. Diga “Estou aqui quando você precisar.”.
Exemplo:
A mãe de Lucas percebeu que ele estava isolado e irritado. Em vez de brigar, ela disse: “Filho, sei que você está passando por um momento difícil. Quer conversar ou prefere que eu te deixe em paz por enquanto?“.
2. O que NÃO fazer
❌ Minimizar o problema: “Ah, todo mundo usa, não é nada demais.”
❌ Culpar a pessoa: “Você é fraco, por isso não consegue parar.”
❌ Fazer ameaças: “Se você usar de novo, vou te expulsar de casa.” (Isso só aumenta a vergonha e a vontade de usar.)
❌ Vigiar ou controlar: Revistar o quarto, checar o celular. Confiança é fundamental.
❌ Usar drogas na frente da pessoa: Se você fuma maconha ou bebe, evite fazer isso perto dela.
3. Como lidar com recaídas
- Não desista: Uma recaída não é um fracasso. É parte do processo.
- Evite brigas: Em vez de “Eu sabia que você ia recair!”, diga “O que podemos aprender com isso?”.
- Ajude a pessoa a voltar ao tratamento: “Vamos ligar para o seu terapeuta juntos.”
Exemplo:
Depois de seis meses sem usar, Ana teve uma recaída com LSD. Seu namorado, em vez de terminar o relacionamento, disse: “Eu te amo e não vou te abandonar. Vamos procurar ajuda juntos.”
4. Cuide de si mesmo
- Não negligencie sua saúde: Cuidar de alguém com dependência química é exaustivo.
- Procure apoio: Grupos como Al-Anon (para familiares de dependentes químicos) podem ajudar.
- Estabeleça limites: Você não é responsável pela recuperação da pessoa. Faça o que puder, mas não se sacrifique.
Exemplo:
Os pais de Pedro estavam exaustos de tentar ajudá-lo. Eles decidiram:
– Ir a um grupo de apoio para familiares.
– Reservar um dia por semana para si mesmos (cinema, jantar fora).
– Não discutir sobre drogas em casa (para evitar estresse).
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações aumentam o risco de recaída ou piora dos sintomas:
– Estresse intenso (perda de emprego, término de relacionamento).
– Falta de sono.
– Isolamento social.
– Exposição a gatilhos (lugares, pessoas ou situações associadas ao uso).
– Parar o tratamento (remédios ou terapia).
O que fazer?
– Tenha um plano de emergência: Anote números de telefone de pessoas de confiança, endereços de CAPS e técnicas de grounding.
– Evite situações de risco: Se uma festa vai ter drogas, não vá.
– Peça ajuda imediatamente: Se sentir que vai usar ou que os sintomas estão fora de controle, ligue para seu terapeuta ou vá a um CAPS.
Exemplo de plano de emergência:
1. Ligar para meu padrinho do NA: (XX) XXXXX-XXXX.
2. Ir para um lugar seguro (casa da minha mãe).
3. Fazer exercícios de respiração.
4. Tomar o remédio extra que meu psiquiatra prescreveu para crises.
Perguntas frequentes
1. “Alucinógenos causam dependência física?”
Resposta curta: Não como o álcool ou a nicotina, mas podem causar dependência psicológica.
Explicação:
– Dependência física é quando o corpo precisa da droga para funcionar e, sem ela, surgem sintomas como tremores, suor e convulsões (comum no álcool e nos opioides).
– Dependência psicológica é quando a pessoa sente uma necessidade emocional da droga, como se não conseguisse ser feliz ou lidar com a vida sem ela.
Exemplo:
João não tremia nem suava quando parava de usar LSD, mas sentia uma tristeza profunda e uma vontade incontrolável de usar de novo. Isso é dependência psicológica.
2. “Os flashbacks (TPPIA) têm cura?”
Resposta curta: Não há uma cura definitiva, mas muitas pessoas aprendem a controlá-los.
Explicação:
– Os flashbacks acontecem porque o cérebro ficou “marcado” pela experiência com a droga. É como se uma trilha neural tivesse sido criada e, às vezes, a mente volta para ela sem querer.
– Remédios e terapia podem reduzir a frequência e a intensidade dos flashbacks.
– Evitar novos usos de alucinógenos é fundamental — cada nova dose pode piorar os sintomas.
Exemplo:
Maria tinha flashbacks diários depois de usar LSD. Com terapia e remédios, eles diminuíram para uma vez por mês. Ela aprendeu a não se assustar quando aconteciam e a usar técnicas de grounding para voltar ao presente.
3. “Posso usar alucinógenos de vez em quando sem risco?”
Resposta curta: Depende. Para algumas pessoas, uma única dose pode desencadear problemas graves.
Explicação:
– Fatores de risco:
– Histórico familiar de transtornos mentais (esquizofrenia, bipolaridade).
– Traumas ou estresse crônico.
– Uso de outras drogas (álcool, maconha, cocaína).
– Mesmo sem fatores de risco, algumas pessoas desenvolvem TPPIA ou psicose depois de um único uso.
Exemplo:
Pedro usou cogumelos uma única vez em um ritual religioso. Desde então, tem flashbacks frequentes e crises de ansiedade. Seu psiquiatra disse que ele provavelmente tinha uma predisposição genética.
4. “Meu filho/familiar usa alucinógenos. Como convencer ele a parar?”
Resposta curta: Não tente “convencer” — ofereça apoio e informação.
Explicação:
– Pessoas em negação não vão parar só porque você grita, ameaça ou chora.
– O que funciona:
– Converse em um momento calmo: Não aborde o assunto durante ou logo depois do uso.
– Mostre preocupação, não julgamento: “Estou preocupado com você. Quer conversar sobre como está se sentindo?”.
– Ofereça ajuda prática: “Posso te levar a um médico ou terapia?”.
– Estabeleça limites: “Não vou te dar dinheiro se for para comprar drogas.”.
– Procure um profissional: Um psiquiatra ou terapeuta pode ajudar a pessoa a perceber o problema.
Exemplo:
A mãe de Lucas percebeu que ele estava usando LSD. Em vez de brigar, ela disse: “Filho, sei que você está passando por um momento difícil. Vamos juntos procurar um médico para conversar?“. Lucas aceitou e começou o tratamento.
5. “Alucinógenos podem causar esquizofrenia?”
Resposta curta: Não causam esquizofrenia em quem não tem predisposição, mas podem desencadear a doença em pessoas vulneráveis.
Explicação:
– A esquizofrenia tem causas genéticas e ambientais. Se a pessoa já tem genes de risco, o uso de alucinógenos pode acelerar o aparecimento dos sintomas.
– Sintomas de alerta:
– Histórico familiar de esquizofrenia.
– Mudanças de personalidade (isolamento, desconfiança).
– Alucinações ou delírios que persistem por semanas, mesmo sem usar drogas.
Exemplo:
Marcos tinha um tio com esquizofrenia. Depois de usar LSD, começou a ouvir vozes e achar que estava sendo perseguido. Foi diagnosticado com esquizofrenia desencadeada pelo uso de alucinógenos.
6. “Quanto tempo dura a abstinência de alucinógenos?”
Resposta curta: Depende da substância e da frequência de uso.
Explicação:
– LSD e cogumelos: Não causam abstinência física, mas podem causar ansiedade, depressão e fissura psicológica por dias ou semanas.
– Ecstasy (MDMA): Pode causar depressão, fadiga e irritabilidade por 1 a 2 semanas (porque esgota a serotonina).
– Sintomas comuns de abstinência psicológica:
– Tristeza profunda.
– Insônia ou sono excessivo.
– Irritabilidade.
– Dificuldade de concentração.
Exemplo:
Juliana usava ecstasy todo fim de semana. Quando parou, chorava sem motivo, não conseguia dormir e se sentia exausta. Os sintomas melhoraram depois de duas semanas.
7. “Posso tomar remédios psiquiátricos e usar alucinógenos?”
Resposta curta: Não. É extremamente perigoso.
Explicação:
– Risco de interações graves:
– ISRS (antidepressivos) + ecstasy: Pode causar síndrome serotoninérgica (febre, convulsões, morte).
– Antipsicóticos + LSD: Pode aumentar os efeitos colaterais (tremores, rigidez muscular).
– Benzodiazepínicos + qualquer alucinógeno: Risco de depressão respiratória (parar de respirar).
Exemplo:
Carlos tomava fluoxetina para depressão. Em uma festa, usou ecstasy e começou a ter convulsões. Foi levado ao hospital com síndrome serotoninérgica.
8. “Como explicar meu diagnóstico para outras pessoas?”
Resposta curta: Seja honesto, mas escolha com quem compartilhar.
Explicação:
– Para familiares e amigos próximos:
– “Tenho um transtorno devido ao uso de alucinógenos. Isso significa que meu cérebro ficou sensível à droga e agora tenho [flashbacks/depressão/psicose]. Estou em tratamento e preciso de apoio.”
– Para colegas de trabalho ou conhecidos:
– “Estou passando por um problema de saúde mental. Por isso, às vezes preciso me ausentar para tratamento.” (Não precisa dar detalhes.)
– Para crianças:
– “Às vezes, meu cérebro fica confuso e vejo coisas que não existem. Mas estou tomando remédio para melhorar.”
Dica:
– Não se sinta obrigado a contar para todo mundo. Escolha pessoas de confiança.
– Se alguém julgar, lembre-se: o problema não é você, é a falta de informação da pessoa.
9. “Posso beber álcool ou fumar maconha se tenho esse diagnóstico?”
Resposta curta: Não é recomendado.
Explicação:
– Álcool:
– Piora a depressão e a ansiedade.
– Aumenta o risco de recaída (muitas pessoas usam álcool para “aliviar” a fissura por alucinógenos).
– Maconha:
– Pode desencadear flashbacks ou psicose em pessoas predispostas.
– Diminui a motivação para o tratamento.
Exemplo:
Ana parou de usar LSD, mas continuou fumando maconha. Depois de alguns meses, começou a ter flashbacks de novo. Seu médico disse que a maconha pode ter reativado os sintomas.
10. “Vou ter que tomar remédios para o resto da vida?”
Resposta curta: Depende do caso.
Explicação:
– Algumas pessoas precisam de remédios por anos (ex.: quem tem TPPIA grave ou psicose).
– Outras conseguem reduzir ou parar depois de um tempo (ex.: quem teve depressão induzida por ecstasy).
– Nunca pare os remédios por conta própria — isso pode piorar os sintomas.
Exemplo:
Pedro tomava quetiapina para flashbacks. Depois de dois anos de terapia e remédios, seu psiquiatra reduziu a dose gradualmente. Hoje, ele não toma mais remédios, mas continua evitando alucinógenos.
Quando procurar ajuda urgente
Alguns sintomas exigem atendimento imediato. Se você ou alguém que você conhece apresentar qualquer um dos sinais abaixo, vá para um hospital ou CAPS agora:
Sinais de alerta GRAVES (risco de vida)
🚨 Tentativa de suicídio ou automutilação:
– Falar em se matar (“Não aguento mais”, “Quero desaparecer”).
– Cortar-se, queimar-se ou se machucar de propósito.
– Dar objetos pessoais (“Pode ficar com meu violão”).
🚨 Psicose aguda (perda total do contato com a realidade):
– Acreditar em coisas impossíveis (ex.: “Sou Deus”, “Estou sendo controlado por aliens”).
– Ouvir vozes mandando fazer algo perigoso (ex.: “Pule da janela”).
– Agitação extrema (gritar, quebrar coisas, correr sem rumo).
🚨 Síndrome serotoninérgica (reação grave ao ecstasy ou ISRS):
– Febre alta (acima de 38°C).
– Rigidez muscular (dificuldade para se mover).
– Confusão mental (não reconhecer pessoas, falar coisas sem sentido).
– Convulsões.
🚨 Overdose ou reação alérgica:
– Dificuldade para respirar.
– Batimentos cardíacos acelerados ou irregulares.
– Desmaio ou perda de consciência.
Sinais de alerta MODERADOS (procure ajuda nas próximas 24-48 horas)
⚠️ Depressão grave:
– Não conseguir sair da cama por dias.
– Chorar o tempo todo sem motivo.
– Pensamentos recorrentes de morte (mas sem plano de suicídio).
⚠️ Ansiedade ou pânico incontrolável:
– Crises de falta de ar, taquicardia e medo de morrer.
– Não conseguir ficar sozinho.
⚠️ Flashbacks muito intensos ou frequentes:
– Não conseguir trabalhar ou estudar por causa das alucinações.
– Medo constante de “enlouquecer”.
⚠️ Comportamentos de risco:
– Dirigir sob efeito de drogas.
– Ter relações sexuais sem proteção.
– Gastar todo o dinheiro em drogas.
Onde procurar ajuda?
- SUS:
- CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Atendimento gratuito para transtornos mentais e dependência química.
- UPA (Unidade de Pronto Atendimento): Para emergências.
- CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue 188 para apoio emocional (24 horas).
- Particular:
- Hospitais psiquiátricos.
- Clínicas de reabilitação.
- Psiquiatras e psicólogos.
Lembre-se:
Você não está sozinho. Muitas pessoas passam por isso e conseguem se recuperar. Procurar ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022. Disponível em: https://icd.who.int/
- American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude
- LENAD (II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas). Uso de substâncias psicoativas no Brasil. 2012.
- Narcóticos Anônimos (NA). Guia de recuperação. Disponível em: https://www.na.org.br/
- National Institute on Drug Abuse (NIDA). Hallucinogens and Dissociative Drugs. 2023. Disponível em: https://nida.nih.gov/
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.