Definição e conceito
As alterações da consciência de vigilância, também conhecidas como alterações quantitativas da consciência, referem-se a variações no nível de alerta ou clareza da consciência de um indivíduo. Em termos psicopatológicos, a vigilância é um conceito neurofisiológico, definido como a capacidade do sistema nervoso de sustentar um estado de alerta que serve de suporte a atividades adaptativas. Corresponde ao que se denomina de ativação ou atenção tônica. Estar consciente, neste sentido, significa estar vígil, desperto, alerta, com o sensório claro, em oposição aos estados de sono ou coma.
A lucidez da consciência representa o estado ideal de clareza, no qual os conteúdos mentais possuem nitidez e são claramente delimitados. As alterações quantitativas patológicas consistem em um rebaixamento progressivo desse nível de alerta, ao longo de um continuum que vai desde a lucidez normal até o coma profundo. Este rebaixamento é uma dimensão vertical da consciência, referindo-se à intensidade da clareza das vivências psíquicas.
A terminologia nesta área é notoriamente heterogênea. Diferentes autores e escolas empregam termos de forma não uniforme para designar os graus de rebaixamento. A classificação mais tradicional e didática, adotada por Dalgalarrondo (2018), divide o rebaixamento em quatro graus progressivos: obnubilação, torpor, sopor e coma. Outros termos comumente encontrados na literatura incluem: embotamento, sonolência, estupor, pré-coma, estado confusional e amência. É fundamental que o clínico descreva com precisão o comportamento observado, além de apenas nomear o grau, para evitar ambiguidades.
O conceito de "elevação do nível de consciência" ou "hipervigilância" é considerado inadequado por muitos autores, como Alonso-Fernández, citado por Cheniaux (2021). Estados de aparente aumento da intensidade perceptiva ou afetiva (como em intoxicações por alucinógenos, mania ou auras epilépticas) são acompanhados por prejuízos na concentração, raciocínio e memória de fixação, configurando mais uma alteração qualitativa ou dissociativa do que um genuíno aumento quantitativo da lucidez.
Epidemiologicamente, as alterações da vigilância não são diagnósticos em si, mas sinais centrais de condições médicas e psiquiátricas agudas e graves. São extremamente comuns em cenários de emergência, unidades de terapia intensiva, enfermarias gerais (especialmente em idosos com delirium) e em contextos de intoxicação ou abstinência de substâncias. Sua presença é sempre um marcador de gravidade e demanda investigação etiológica urgente.
Apresentação clínica
A apresentação clínica é caracterizada por uma redução gradual da capacidade de interação com o ambiente, da responsividade a estímulos e da clareza dos processos mentais. A progressão segue um gradiente de gravidade.
1. Obnubilação (Grau Leve):
É o primeiro grau de rebaixamento, frequentemente descrito como uma "turvação" ou "nuvem" sobre a consciência. Cheniaux (2021) subdivide a obnubilação em simples e oniroide.
- Obnubilação Simples: O paciente apresenta intensa sonolência patológica (diferente da sonolência fisiológica). Há hipoprosexia (diminuição global da atenção), desorientação temporoespacial (primeiro no tempo, depois no espaço), pensamento empobrecido e alentecido (lentificação do fluxo ideativo), podendo chegar ao mutismo. Apresenta dificuldades de compreensão e raciocínio, hipomnesia de fixação e evocação (dificuldade para reter novas informações e acessar memórias), apatia e inibição psicomotora. A percepção do ambiente está embotada (hipoestesia), mas não há sintomas psicóticos proeminentes.
- Obnubilação Oniroide (ou Estado Confuso-Onírico): Além dos elementos da obnubilação simples, há uma alteração qualitativa marcante do campo da consciência, com a intrusão de conteúdos oníricos, alucinatórios (geralmente visuais) e ideias delirórias fragmentadas. O paciente está desorientado, perplexo e pode agir de acordo com seu mundo experiencial interior alterado. É o quadro central do Delirium (transtorno neurocognitivo agudo).
- Exemplo clínico: Paciente de 78 anos, 48h após cirurgia de fratura de fêmur, encontra-se na cama com o olhar perdido. Responde ao chamado do nome após várias repetições, em voz alta. Diz estar "mais ou menos" no hospital, mas acha que é 1995. Relata ver "bichinhos" subindo pela cortina e acredita que os enfermeiros querem roubá-lo. Sua fala é lenta, entrecortada por pausas longas.
2. Torpor (Grau Moderado):
O rebaixamento é mais profundo. O paciente permanece a maior parte do tempo em um estado semelhante ao sono profundo, do qual só é despertado por estímulos vigorosos e repetidos (ex.: sacudir o ombro, chamar em voz alta). Uma vez despertado, suas respostas são lentas, monossilábicas e muitas vezes inadequadas. A interação é mínima e, cessado o estímulo, ele rapidamente retorna ao estado de "sono". A atividade psicomotora é muito reduzida. A desorientação é completa.
3. Sopor (Grau Grave):
Estado de profunda prostração. O paciente não é despertado por estímulos verbais ou leves. Reage apenas a estímulos dolorosos vigorosos e repetidos (ex.: pressão no leito ungueal, pinçamento do trapézio), com respostas motoras estereotipadas de retirada (retirar o membro) ou vocalizações inespecíficas (gemidos). Não há comunicação verbal ou contato ocular significativo. As funções vegetativas (respiração, circulação) geralmente estão preservadas.
4. Coma (Grau Muito Grave):
É a abolição completa da consciência. Não há qualquer resposta a estímulos, mesmo os dolorosos mais intensos. Os reflexos do tronco encefálico (fotomotor, córneo-palpebral, oculocefálico, etc.) podem estar abolidos ou presentes, dependendo da profundidade e da causa do coma. A atividade motora espontânea está ausente, exceto por possíveis reflexos espinalizados. O controle das funções vegetativas pode estar comprometido, necessitando de suporte vital.
Domínios afetados:
- Cognitivo: Atenção (grave prejuízo), orientação (precocemente afetada), memória (especialmente de fixação), velocidade de processamento, raciocínio e compreensão.
- Comportamental/Psiomotor: De lentificação e apatia (obnubilação) até imobilidade completa (coma). Em estados oniroides, pode haver agitação psicomotora.
- Perceptivo: De embotamento (hipoestesia) a alucinações vívidas (principalmente visuais, no delirium).
- Somatovegetativo: O padrão de sono-vigília fica profundamente desorganizado, muitas vezes com inversão. Sinais de ativação autonômica (taquicardia, sudorese, hipertensão) são comuns em delirium, enquanto em lesões estruturais ou depressões metabólicas profundas pode haver hipotonia autonômica.
Neurobiologia e fisiopatologia
As alterações da vigilância são, em sua essência, distúrbios da ativação cortical. A manutenção do estado de alerta depende da integridade de um sistema ascendente de ativação, o Sistema Ativador Reticular Ascendente (SARA), localizado na formação reticular do tronco encefálico (especialmente no mesencéfalo e ponte rostral).
Mecanismos Neuroanatômicos e Neurofuncionais:
O SARA recebe aferências sensoriais colaterais de todas as vias sensoriais. Quando ativado, projeta-se de forma difusa e não específica para o tálamo (núcleos intralaminares e reticular) e, diretamente, para o córtex cerebral e hipotálamo. Essas projeções liberam neurotransmissores que promovem a despolarização e a prontidão para o processamento de informações no córtex. Qualquer lesão, disfunção ou interferência farmacológica neste sistema ou em suas projeções talâmicas e corticais pode levar ao rebaixamento do nível de consciência.
Sistemas de Neurotransmissão Envolvidos:
- Colinérgico (via pedúnculo-pontino e núcleo basal de Meynert): Crucial para a atenção sustentada e a memória. Sua deficiência é um dos pilares fisiopatológicos do delirium e da obnubilação.
- Monoaminérgicos:
- Noradrenérgico (Locus Coeruleus): Relacionado ao alerta, vigilância e resposta ao estresse.
- Dopaminérgico (Área Tegmental Ventral): Envolvido na motivação e direcionamento da atenção.
- Serotoninérgico (Núcleos da Rafe): Modula o ciclo sono-vigília e o humor.
- Glutamatérgico e GABAérgico: O equilíbrio entre excitação (glutamato) e inibição (GABA) é fundamental. Agentes sedativos-hipnóticos (que potencializam o GABA) deprimem diretamente o SARA. A redução da atividade glutamatérgica também contribui para o rebaixamento.
Fisiopatologia das Causas Comuns:
- Lesões Estruturais: Massas, hemorragias ou infartos que comprimem ou destroem o tronco encefálico rostral ou as projeções talâmicas bilaterais (ex.: hemorragia talâmica bilateral, infarto do território da artéria cerebral posterior).
- Disfunções Metabólicas/Tóxicas: Hipoglicemia, hipóxia, distúrbios iônicos (hiper/hiponatremia), insuficiência hepática/renal, acidoses. Essas condições alteram o ambiente neuroquímico, prejudicando a transmissão sináptica e a geração de energia neuronal.
- Infecções/Inflamações: Meningites, encefalites, sepse. Citocinas inflamatórias interferem na neurotransmissão, particularmente colinérgica.
- Convulsões: Especialmente estados pós-ictais prolongados ou estados de mal epiléptico não convulsivo.
- Delirium: Modelo multifatorial de "vulnerabilidade cerebral aguda" (ex.: idade avançada, demência) somada a um "fator precipitante" (ex.: infecção, cirurgia, medicação). A hipótese colinérgica é central, com relativo excesso de dopamina e desregulação de outros sistemas.
Evidências de neuroimagem no delirium, por exemplo, mostram alterações difusas, incluindo redução do metabolismo cortical global e regional, e possíveis alterações na conectividade funcional de redes como a Default Mode Network.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
A avaliação é uma emergência médica. O objetivo é quantificar o nível de rebaixamento, identificar a causa subjacente e monitorar a evolução.
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Avaliação do Nível de Consciência: Usar uma escala padronizada (ver abaixo). Observar a resposta a estímulos de intensidade crescente: chamado verbal → toque leve → estímulo doloroso.
- Atenção: Testar com tarefas simples como repetir uma sequência de dígitos (digito-span), dizer os dias da semana ou meses do ano ao contrário, ou o teste de subtrair 7 a partir de 100. Prejuízo é um dos primeiros sinais.
- Orientação: Perguntar sobre pessoa, lugar, tempo e situação. A desorientação temporal é muito sensível.
- Pensamento e Linguagem: Avaliar fluência, coerência, presença de ideias delirórias ou perseverações.
- Percepção: Investigar ativamente a presença de ilusões ou alucinações (perguntar: "Você tem visto ou ouvido coisas que os outros não veem/ouvem?").
- Memória: Testar memória imediata (repetir 3 palavras), recente (lembrar das 3 palavras após 5 minutos) e remota.
- Psicomotricidade: Observar nível de atividade, agitação, retardo ou posturas anormais.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Escala de Coma de Glasgow (GCS): Padrão-ouro para avaliação quantitativa do nível de consciência em emergências, especialmente em trauma. Avalia abertura ocular (1-4), resposta verbal (1-5) e resposta motora (1-6). Pontuação de 3 (coma profundo) a 15 (vígil).
- Confusion Assessment Method (CAM): Instrumento validado e amplamente utilizado para diagnóstico de delirium. Avalia: 1) Início agudo e curso flutuante; 2) Desatenção; 3) Pensamento desorganizado; 4) Nível de consciência alterado. O diagnóstico requer a presença de 1+2 + (3 ou 4).
- Escala de Avaliação de Delirium de Richmond (RASS): Escala de 10 pontos (+4 a -5) que avalia agitação e sedação, muito útil em UTIs.
- Teste do Relógio e do CAM-ICU: Versões adaptadas para pacientes em ventilação mecânica ou com comunicação limitada.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
É fundamental diferenciar o rebaixamento quantitativo puro (obnubilação simples, torpor, coma) de estados onde há uma alteração qualitativa concomitante (delirium, estado oniroide). A principal diferenciação se dá com:
| Característica | Obnubilação Simples / Rebaixamento Quantitativo | Delirium (Obnubilação Oniroide) | Demência | Estado Dissociativo/ Psicogênico |
|---|---|---|---|---|
| Início | Agudo ou subagudo. | Agudo (horas/dias), flutuante. | Insidioso e progressivo (meses/anos). | Agudo, frequentemente ligado a estressor. |
| Nível de Consciência | Rebaixado (sonolento a estuporoso). | Rebaixado e flutuante. | Normal (lúcido) até estágios muito avançados. | Pode parecer rebaixado (estupor dissociativo), mas exames neurológicos são normais. |
| Atenção | Globalmente prejudicada, sem flutuação marcante. | Gravemente prejudicada e flutuante (sinal cardinal). | Preservada nas fases iniciais. | Pode estar seletivamente alterada. |
| Pensamento | Empobrecido, alentecido. | Desorganizado, incoerente, com delírios fragmentados. | Empobrecido, com afasia, apraxia, agnosia. | Pode ter conteúdo relacionado a trauma. |
| Percepção | Hipoestesia (embotamento). | Alucinações visuais/ táteis frequentes. | Geralmente ausentes até fases tardias. | Raras, se presentes são auditivas e relacionadas ao trauma. |
| Memória | Prejuízo global de fixação e evocação. | Grave prejuízo de fixação. | Prejuízo de memória recente proeminente, com relativa preservação da remota. | Pode haver amnésia dissociativa. |
| Curso | Estável ou progressivo, dependendo da causa. | Flutuante, frequentemente pior à noite (sundowning). | Estável ao longo do dia, com declínio crônico. | Variável, muitas vezes de curta duração. |
| Causa Primária | Lesão estrutural, depressão metabólica, intoxicação profunda. | Multifatorial: doença médica, intoxicação/abstinência, pós-operatório. | Doença neurodegenerativa (Alzheimer, etc.) ou vascular. | Fator estressor psicológico. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Atribuir ao "envelhecimento" ou "demência": Todo quadro agudo de alteração do nível de consciência em um idoso com demência deve ser considerado delirium sobreposto até prova em contrário.
- Negligenciar o exame físico e laboratorial: A alteração da consciência é sempre um sintoma orgânico até que se prove o contrário. Um diagnóstico de "transtorno conversivo" ou "psicogênico" é de exclusão.
- Confundir com depressão grave (estupor depressivo): Pacientes com depressão melancólica grave podem apresentar retardo psicomotor extremo, mutismo e aparente redução da responsividade. No entanto, o exame neurológico é normal, e há história e sinais afetivos de depressão.
- Superestimar o efeito de psicofármacos: Embora sedativos possam causar obnubilação, uma alteração nova ou abrupta em um paciente medicado crônico exige busca por outras causas (ex.: infecção, lesão intracraniana).
Condições associadas
As alterações da consciência de vigilância são sinais nucleares ou complicações graves de uma vasta gama de condições:
- Transtornos Neurocognitivos Agudos:
- Delirium (Síndrome Confusional Aguda): A alteração quantitativa (rebaixamento flutuante) e qualitativa (alteração do conteúdo) da consciência é a sua definição. É codificado no CID-11 como 6D70 (Delirium) e no DSM-5-TR como Transtorno Neurocognitivo Agudo.
- Intoxicações e Abstinências de Substâncias:
- Intoxicação: Por depressorores do SNC (álcool, benzodiazepínicos, barbitúricos, opioides), antipsicóticos, anticonvulsivantes, entre outros.
- Abstinência: Síndrome de abstinência grave de álcool ou benzodiazepínicos pode cursar com agitação e obnubilação/ delirium.
- Overdose: Causa direta de obnubilação, estupor e coma.
- Transtornos Mentais Orgânicos/ Sintomáticos:
- Transtornos Psicóticos Agudos devidos a Condição Médica Geral.
- Transtornos do Humor com Características Catatônicas ou Melancólicas Graves: O estupor depressivo pode mimetizar um rebaixamento orgânico.
- Catatonia: O estupor catatônico é um dos seus subtipos. A imobilidade, mutismo e estupor podem ser impressionantes. A presença de flexibilidade cérea, negativismo e maneirismos auxilia no diagnóstico.
- Condições Neurológicas:
- Traumatismo Cranioencefálico.
- Acidente Vascular Cerebral (especialmente do tronco encefálico, tálamo ou hemisférios bilaterais).
- Hemorragia Intracraniana (subdural, epidural, intraparenquimatosa).
- Tumores do SNC.
- Hidrocefalia.
- Estado de Mal Epiléptico (convulsivo ou não convulsivo).
- Encefalites e Meningites.
- Condições Sistêmicas:
- Infecções Sistêmicas (sepse).
- Disfunções Metabólicas: Hipoglicemia, cetoacidose diabética, coma hiperosmolar, distúrbios eletrolíticos, insuficiência hepática (encefalopatia), insuficiência renal (uremia), distúrbios tireoidianos (mixedema, tempestade tireotóxica).
- Hipóxia/Isquemia: Parada cardiorrespiratória, embolia pulmonar maciça, choque.
- Deficiências Nutricionais Graves: Deficiência de tiamina (Encefalopatia de Wernicke).
Implicações terapêuticas
O tratamento é primariamente etiológico. Identificar e tratar a causa de base (ex.: corrigir hipoglicemia, drenar um hematoma, tratar uma infecção, desintoxicar) é a intervenção mais crucial.
Abordagens Farmacológicas Sintomáticas (especialmente no Delirium):
- Antipsicóticos: São a base do tratamento sintomático da agitação e dos sintomas psicóticos no delirium. Preferem-se os atípicos de baixa potência com menor perfil anticolinérgico.
- Quetiapina: Dose baixa (12,5-50mg) devido à sua sedação. Útil para delirium hipoativo ou misto.
- Risperidona: Dose baixa (0,25-1mg/dia). Mais útil para hiperatividade.
- Haloperidol (clássico): Ainda muito utilizado em emergências e UTIs por via parenteral (IM/IV) devido ao rápido início e menor efeito hipotensor. Deve-se monitorar efeitos extrapiramidais e intervalo QT. Nunca usar na suspeita de delirium por abstinência alcoólica (baixa o limiar convulsivo).
- Agentes Colinérgicos: A rivastigmina e outros inibidores da colinesterase não são recomendados para tratamento de delirium estabelecido, com estudos mostrando falta de eficácia e possíveis piores desfechos. Seu papel é na prevenção em pacientes de alto risco.
- Sedativos: Devem ser evitados, pois podem piorar o rebaixamento e prolongar o delirium. Exceção: delirium por abstinência de álcool/sedativos, onde se usam benzodiazepínicos de ação longa (ex.: diazepam) em esquema de redução gradual.
Abordagens Não-Farmacológicas (Fundamentais):
São a primeira linha na prevenção e manejo do delirium, conforme protocolos do SUS e da ABP em contextos hospitalares.
- Orientação e Reorientação: Relógios, calendários visíveis, apresentação constante da equipe, conversa clara.
- Estimulação Cognitiva: Atividades simples, envolvimento em decisões.
- Otimização do Ciclo Sono-Vigília: Exposição à luz natural durante o dia, redução de ruídos e intervenções noturnas, horários regulares.
- Mobilização Precoce: Deambular assim que possível.
- Correção de Deficiências Sensoriais: Fornecer óculos e aparelho auditivo.
- Hidratação e Nutrição Adequadas.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
A presença de rebaixamento da consciência é um marcador de pior prognóstico na maioria das condições. No delirium, está associado a maior mortalidade intra-hospitalar e em longo prazo, maior tempo de internação, maior risco de institucionalização e aceleração do declínio cognitivo em pacientes com demência. A resposta ao tratamento da causa de base é frequentemente mais lenta e menos completa quando o nível de consciência está profundamente afetado. A recuperação pode ser gradual e, em alguns casos, sequelas cognitivas (especialmente de atenção e memória) podem persistir.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
A experiência é profundamente angustiante e frequentemente amnésica de forma fragmentada. Pacientes com obnubilação simples descrevem uma sensação de "cabeça pesada", "mente nebulosa", "dificuldade para pensar", como se estivessem "envolvidos por um algodão". A sonolência é avassaladora e involuntária. No delirium oniroide, a experiência é de terror, confusão e desrealização. As alucinações são vividas como reais e aterrorizantes. A desorientação gera medo e desconfiança. Memórias do episódio podem ser retidas como "pesadelos vívidos" ou flashbacks desconexos.
Comunicação Clínica com o Paciente:
- Falar de forma clara, calma e pausada. Usar frases curtas e diretas.
- Identificar-se sempre, mesmo que o paciente pareça não compreender.
- Explicar cada procedimento antes de fazê-lo, mesmo os simples como aferir a pressão.
- Não confrontar delírios ou alucinações. Validar o medo ("Sei que isso deve ser assustador") e reorientar para a realidade ("Eu sou o Dr. Luigi, seu médico, e você está seguro no hospital").
- Evitar sobrecarga sensorial. Manter o ambiente calmo, com iluminação adequada (não escura, não ofuscante).
Comunicação com a Família/Cuidadores:
- Educar sobre a condição: Explicar que o delirium/obnubilção é uma disfunção cerebral aguda, não um sinal de "loucura" ou piora irreversível da demência.
- Enfatizar a natureza flutuante (no delirium): que o paciente pode ter momentos de lucidez seguidos de piora, especialmente à noite.
- Envolvê-los no cuidado: Incentivar visitas curtas e frequentes para reorientação, trazer objetos familiares (fotos, cobertor), auxiliar na alimentação.
- Alertar sobre o potencial de agitação ou comportamento inadequado, assegurando que isso é parte do quadro e não intencional.
- Fornecer suporte emocional: A família vivencia grande estresse. Validar seus sentimentos e fornecer informações claras sobre o plano de cuidado.
Impacto Funcional:
O impacto é devastador em todas as esferas. A capacidade de trabalho é obviamente abolida durante o episódio. A recuperação pode exigir longa reabilitação. Relacionamentos são tensionados pela mudança de comportamento e pela carga sobre os cuidadores. A qualidade de vida fica severamente comprometida, com risco de perda de independência, institucionalização e desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático relacionado à experiência do delirium.
Perguntas frequentes
1. Qual a diferença entre sonolência normal e obnubilação?
A sonolência normal é fisiológica, ocorre em contextos apropriados (noite, após refeição), é reversível com estímulos leves (um barulho, uma conversa) e não cursa com desorientação ou grave prejuízo cognitivo. A obnubilação é sonolência patológica: excessiva, inadequada ao contexto, de difícil reversão e sempre acompanhada de outros sinais como confusão, desorientação e lentificação do pensamento.
2. Um paciente em coma pode ouvir o que falamos ao redor?
No coma verdadeiro (GCS ≤ 8), não há evidência de processamento consciente de estímulos, incluindo a audição. No entanto, como é difícil determinar com precisão absoluta o nível de consciência residual, recomenda-se a prática de falar com o paciente como se ele pudesse ouvir, explicando procedimentos e oferecendo palavras de conforto. Isso é importante para a humanização do cuidado e para os familiares.
3. Delirium e demência são a mesma coisa?
Não. São condições distintas, mas que podem coexistir. A demência é um declínio crônico e progressivo da memória e outras funções cognitivas, com o nível de consciência preservado até fases muito avançadas. O delirium é uma alteração aguda e flutuante da atenção e do nível de consciência, com duração de horas a dias, sempre devido a uma causa médica subjacente. Um paciente com demência tem alto risco de desenvolver delirium.
4. Por que idosos são mais vulneráveis a alterações da consciência, como o delirium?
O cérebro envelhecido tem menor "reserva cognitiva" e maior vulnerabilidade a insultos. Há redução da massa cerebral, da neurotransmissão colinérgica, maior permeabilidade da barreira hematoencefálica e maior prevalência de doenças crônicas e polifarmácia. Qualquer estressor (infecção, nova medicação, desidratação) pode desequilibrar esse sistema frágil, levando ao rebaixamento agudo da consciência.
5. A alteração da consciência causada por remédios é reversível?
Na grande maioria dos casos, sim. Após a suspensão do agente causal e sua completa eliminação do organismo, o nível de consciência deve se normalizar. O tempo de recuperação depende da meia-vida do fármaco, da dose, da idade e da função hepática/renal do paciente. Em idosos, a recuperação pode levar dias mesmo após a suspensão.
6. Como posso ajudar um familiar que está confuso e sonolento no hospital?
Sua presença é um dos melhores "remédios". Visite em horários calmos, fale de forma tranquila, reoriente-o ("Olá, mãe, sou eu, Maria. É terça-feira à tarde e estamos no hospital São Paulo"). Leve objetos familiares (óculos, aparelho auditivo, uma foto). Evite discussões ou tentativas de "racionalizar" a confusão. Informe à equipe sobre qualquer mudança brusca no comportamento.
7. O que é "sundowning"?
É a piora dos sintomas de confusão, agitação ou rebaixamento da consciência no final da tarde e à noite. É muito característico do delirium e de algumas demências. Está relacionado à desregulação do ciclo circadiano, à fadiga acumulada ao longo do dia e à redução de estímulos sensoriais e de orientação no período noturno.
8. Após um episódio de delirium, a pessoa volta ao normal?
Muitos pacientes, especialmente os mais jovens e sem demência prévia, têm uma recuperação completa. No entanto, um número significativo, particularmente idosos e aqueles com comprometimento cognitivo prévio, pode não retornar ao seu nível basal anterior. Podem persistir sequelas em funções como atenção, memória e velocidade de processamento. O episódio de delirium é agora reconhecido como um fator de risco para o desenvolvimento acelerado de demência.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. revisada. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Trzepacz, P.T., & Meagher, D.J. (2008). Delirium. In: The American Psychiatric Publishing Textbook of Psychosomatic Medicine. 2nd ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing.
- Inouye, S.K., et al. (2014). The CAM-ICU and ICDSC for the diagnosis of delirium: A systematic review and meta-analysis of diagnostic test accuracy. Critical Care Medicine, 42(3), 545-553.
- Conselho Federal de Medicina (CFM) & Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Projetos Diretrizes. Disponível em: https://www.projetodiretrizes.org.br/
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.