O que é?
Imagine que você tem um botão no seu cérebro que, quando apertado, libera uma sensação de alívio, prazer ou excitação tão intensa que faz tudo ao redor parecer menos importante. Agora, imagine que esse botão começa a ser apertado com tanta frequência que você perde o controle sobre quando e como usá-lo. É como se o botão tivesse um ímã que puxa sua mão toda vez que você passa perto dele, mesmo quando você prometeu a si mesmo que não iria apertá-lo de novo.
Os outros transtornos especificados devidos a comportamentos aditivos são exatamente isso: um padrão de comportamento repetitivo que foge do controle, mesmo quando traz consequências ruins para a vida da pessoa. A diferença entre um hábito comum e um transtorno aditivo é como a diferença entre tomar um café para acordar e tomar 10 xícaras por dia, mesmo sabendo que isso vai te deixar ansioso, com tremores e sem dormir. No primeiro caso, o café ajuda na rotina; no segundo, ele passa a controlar a rotina.
Aqui, não estamos falando de dependência de substâncias como álcool, cigarro ou drogas — essas têm categorias próprias na CID-11. Estamos falando de comportamentos que ativam os mesmos circuitos de recompensa do cérebro, como:
– Jogos de azar (mesmo que não sejam apostas em dinheiro, como jogos online ou cassinos virtuais);
– Uso excessivo de internet (redes sociais, pornografia, compras online, navegação sem propósito);
– Comportamentos sexuais compulsivos (como consumo excessivo de pornografia ou busca incessante por parceiros);
– Compras compulsivas (aquela sensação de “preciso comprar isso agora, mesmo que não precise”);
– Exercícios físicos em excesso (quando a pessoa treina mesmo machucada ou abdica de outras áreas da vida para malhar);
– Trabalho em excesso (quando a pessoa não consegue desligar, mesmo nos fins de semana ou férias).
Esses comportamentos são chamados de “vícios sem substância” porque, apesar de não envolverem uma droga física, eles ativam os mesmos mecanismos cerebrais da dependência química. Estudos mostram que, em casos graves, o cérebro de uma pessoa viciada em jogos online, por exemplo, apresenta alterações semelhantes às de alguém viciado em cocaína.
Como isso se diferencia de um hábito normal?
Todo mundo tem comportamentos que gosta de repetir: assistir séries, comer chocolate, jogar videogame. A diferença está em três pontos principais:
1. Perda de controle: Você planeja passar 1 hora no Instagram e, sem perceber, são 4 horas. Ou promete não comprar nada essa semana, mas acaba gastando R$ 500 em coisas que não precisa.
2. Consequências negativas: Mesmo sabendo que o comportamento está prejudicando sua vida (dívidas, brigas em casa, problemas no trabalho), você não consegue parar.
3. Sofrimento: Você se sente mal, culpado ou ansioso depois, mas mesmo assim repete o comportamento.
É como se o cérebro ficasse preso em um loop: “Faça isso → Sinta prazer/alívio → Arrependa-se → Prometa que não vai fazer de novo → Faça de novo”.
Quem é afetado?
Não há dados exatos sobre a prevalência desses transtornos no Brasil, mas estudos internacionais estimam que:
– Jogo patológico afeta cerca de 1% a 3% da população mundial, com maior incidência em homens (3:1 em relação às mulheres).
– Vício em internet pode atingir até 6% dos jovens, especialmente em países com alto acesso à tecnologia.
– Compras compulsivas são mais comuns em mulheres (90% dos casos), geralmente começando na adolescência ou início da vida adulta.
– Comportamentos sexuais compulsivos afetam cerca de 3% a 6% da população, com maior prevalência em homens.
No Brasil, a situação pode ser ainda mais preocupante por alguns motivos:
– Acesso fácil à tecnologia: O país tem mais de 240 milhões de celulares ativos (mais que a população), e o uso médio diário de internet é de 9 horas — um dos maiores do mundo.
– Falta de regulamentação: Jogos de azar online são proibidos no Brasil, mas sites estrangeiros são facilmente acessíveis, sem fiscalização.
– Desigualdade social: Pessoas em situação de vulnerabilidade podem usar esses comportamentos como fuga de problemas reais (desemprego, violência, falta de perspectiva).
Um pouco de história
A ideia de que comportamentos podem viciar tanto quanto drogas é relativamente nova na medicina. Até os anos 1980, o foco dos estudos sobre dependência era quase exclusivamente em substâncias químicas. Foi só a partir dos anos 1990, com o avanço das neurociências, que os pesquisadores começaram a perceber que o cérebro não faz distinção entre uma recompensa química (como a nicotina) e uma recompensa comportamental (como ganhar uma partida online).
Em 2013, o DSM-5 (manual diagnóstico americano) incluiu o transtorno do jogo como o primeiro vício comportamental reconhecido oficialmente. A CID-11, lançada em 2018, foi além e criou a categoria “Transtornos devidos a comportamentos aditivos”, onde entram não só o jogo, mas também outros comportamentos que ainda não têm critérios tão definidos — como os que estamos discutindo aqui.
No Brasil, o tema ainda é pouco discutido, mesmo entre profissionais de saúde. Muitas pessoas sofrem em silêncio, sem saber que seu comportamento tem nome, tratamento e esperança de melhora.
Quais são os sintomas?
Para entender se um comportamento se tornou um transtorno aditivo, os médicos usam critérios baseados no DSM-5 e na CID-11. Vamos traduzir cada um deles para o dia a dia, com exemplos práticos.
1. Perda de controle sobre o comportamento
O que é?
Você tenta diminuir ou parar, mas não consegue. É como tentar segurar a respiração: no começo, você aguenta, mas depois o corpo assume o controle e você precisa respirar, mesmo que não queira.
Exemplos:
– Jogos online: Você diz “só mais uma partida” e, quando vê, já são 3 da manhã. Ou promete não jogar durante a semana, mas na quarta-feira já está de volta.
– Redes sociais: Você abre o TikTok para ver um vídeo rápido e, sem perceber, já passou 2 horas rolando o feed. Mesmo sabendo que precisa trabalhar ou estudar, não consegue fechar o aplicativo.
– Compras: Você entra em um site “só para olhar” e acaba comprando coisas que não precisa, mesmo estando endividado. Depois, se arrepende, mas na próxima semana faz a mesma coisa.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Você passa mais tempo no celular em um dia estressante, mas no dia seguinte volta ao normal.
– Sintomático: Você passa horas no celular todos os dias, mesmo sabendo que isso está prejudicando seu sono, trabalho ou relacionamentos.
2. Prioridade do comportamento sobre outras áreas da vida
O que é?
O comportamento se torna o centro da sua vida. É como se você tivesse um chefe exigente dentro da sua cabeça, que só quer saber daquilo e ignora todo o resto.
Exemplos:
– Trabalho em excesso: Você cancela encontros com amigos, deixa de almoçar com a família e até adia consultas médicas porque “precisa trabalhar”. Mesmo quando não há urgência, você se sente ansioso se não estiver trabalhando.
– Exercícios físicos: Você treina mesmo machucado, falta a festas de aniversário dos filhos porque coincide com o horário da academia e se sente culpado se não malhar.
– Pornografia: Você passa horas consumindo conteúdo, mesmo sabendo que isso está afetando sua vida sexual com o parceiro ou sua produtividade no trabalho.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Você gosta de malhar e faz isso 3 vezes por semana, mas não deixa de sair com os amigos por causa disso.
– Sintomático: Você prefere malhar a qualquer outra coisa, mesmo quando está doente ou tem compromissos importantes.
3. Continuação do comportamento apesar das consequências negativas
O que é?
Você sabe que aquilo está te fazendo mal, mas continua fazendo mesmo assim. É como fumar mesmo sabendo que causa câncer: a parte racional do cérebro sabe do perigo, mas a parte emocional não consegue parar.
Exemplos:
– Jogos de azar: Você já perdeu dinheiro, brigou com a família e até pediu empréstimos para jogar, mas continua apostando porque “da próxima vez vai dar certo”.
– Compras compulsivas: Você já está com o nome sujo, mas não consegue resistir a uma promoção. Depois, se arrepende e esconde as compras do parceiro.
– Redes sociais: Você sabe que o Instagram te deixa ansioso e inseguro, mas continua acessando várias vezes ao dia, como se fosse um reflexo.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Você gasta um pouco mais do que deveria em um mês, mas no mês seguinte se controla.
– Sintomático: Você sabe que está se endividando, mas não consegue parar de comprar, mesmo quando as contas começam a acumular.
4. Tolerância: necessidade de aumentar a “dose” para ter o mesmo efeito
O que é?
Com o tempo, o mesmo comportamento já não dá a mesma sensação de prazer ou alívio. É como tomar café: no começo, uma xícara te deixa acordado; depois de um tempo, você precisa de três para ter o mesmo efeito.
Exemplos:
– Jogos online: No começo, você ficava feliz com uma vitória. Agora, precisa jogar por horas para sentir a mesma emoção.
– Pornografia: Você começou assistindo vídeos curtos, mas agora precisa de conteúdo cada vez mais extremo para se satisfazer.
– Compras: Antes, comprar uma roupa nova te deixava feliz por semanas. Agora, você precisa comprar várias peças para ter a mesma sensação.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Você gosta de jogar videogame, mas não sente necessidade de aumentar o tempo de jogo.
– Sintomático: Você precisa jogar cada vez mais para sentir a mesma emoção, mesmo que isso signifique perder noites de sono.
5. Abstinência: sintomas físicos ou emocionais quando tenta parar
O que é?
Quando você tenta diminuir ou parar, sente um desconforto intenso, como ansiedade, irritação ou até sintomas físicos. É como quando você está com fome e não consegue pensar em outra coisa — só que, nesse caso, a “fome” é pelo comportamento.
Exemplos:
– Redes sociais: Você tenta ficar um dia sem acessar o Instagram e se sente ansioso, como se estivesse perdendo algo importante. Checa o celular a cada 5 minutos, mesmo sem notificações.
– Jogos online: Você decide não jogar por uma semana e se sente irritado, com dificuldade para se concentrar em outras coisas.
– Compras: Você tenta não comprar nada por um mês e se sente inquieto, como se estivesse perdendo uma oportunidade.
Sintomas comuns de abstinência:
– Ansiedade ou agitação;
– Irritabilidade;
– Dificuldade para se concentrar;
– Insônia;
– Tristeza ou sensação de vazio.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Você fica um pouco entediado quando não acessa as redes sociais por um dia, mas logo encontra outra coisa para fazer.
– Sintomático: Você não consegue funcionar sem o comportamento. Tenta parar, mas se sente tão mal que volta a fazer, mesmo sabendo que não deveria.
6. Engano ou mentiras para esconder o comportamento
O que é?
Você esconde ou minimiza o quanto faz aquilo, porque sabe que as pessoas ao seu redor não aprovariam. É como quando você come um doce escondido e diz que não comeu — só que, nesse caso, o “doce” é o comportamento aditivo.
Exemplos:
– Jogos de azar: Você diz para a família que está “só olhando” um site de apostas, mas na verdade já gastou R$ 500.
– Compras: Você esconde as sacolas de compras no carro ou diz que as roupas são “de segunda mão” para não levantar suspeitas.
– Pornografia: Você usa o celular no banheiro ou apaga o histórico de navegação para que ninguém descubra.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Você não conta para todo mundo que gosta de jogar videogame, mas não esconde se perguntarem.
– Sintomático: Você mente ativamente sobre o comportamento, porque sabe que, se as pessoas descobrirem, vão ficar preocupadas ou bravas.
7. Uso do comportamento para aliviar emoções negativas
O que é?
Você usa o comportamento como uma forma de escapar de sentimentos ruins, como estresse, tristeza ou tédio. É como tomar um remédio para dor de cabeça: o comportamento alivia temporariamente, mas não resolve o problema de verdade.
Exemplos:
– Redes sociais: Você está triste ou ansioso e, em vez de lidar com o sentimento, abre o TikTok para se distrair. Por alguns minutos, esquece do problema, mas depois se sente pior.
– Compras: Você teve um dia ruim no trabalho e, para se sentir melhor, compra algo que não precisa. No momento, se sente aliviado, mas depois vem a culpa e a dívida.
– Jogos online: Você está estressado e joga por horas para “desligar”. No dia seguinte, o estresse volta, e você se sente ainda mais cansado.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Você assiste a um episódio de série para relaxar depois de um dia difícil, mas no dia seguinte consegue lidar com os problemas.
– Sintomático: Você depende do comportamento para lidar com as emoções. Se não fizer aquilo, se sente incapaz de enfrentar o dia.
Um aviso importante
Ter um ou dois desses sintomas não significa que você tenha um transtorno aditivo. O que define o diagnóstico é:
– A intensidade: O comportamento está prejudicando sua vida de forma significativa?
– A duração: Isso acontece há meses ou anos?
– O sofrimento: Você se sente mal por causa disso?
– A perda de controle: Você já tentou parar várias vezes e não conseguiu?
Se você se identificou com vários desses sintomas, é importante buscar ajuda. Um profissional de saúde mental pode avaliar se esse comportamento já se tornou um transtorno e, se for o caso, ajudar você a retomar o controle.
Como se manifesta no dia a dia?
Os transtornos aditivos não afetam só a pessoa que os vivencia — eles reverberam em todas as áreas da vida, como uma pedra jogada em um lago, criando ondas que atingem família, trabalho, saúde e relacionamentos. Vamos ver como isso acontece na prática.
No trabalho ou na escola
1. Queda no desempenho
- Exemplo 1 (trabalho): João é analista de marketing e costumava ser elogiado pela criatividade. Nos últimos meses, porém, ele passa horas navegando em sites de apostas durante o expediente. Quando o chefe pede um relatório, ele entrega com atraso e cheio de erros. No começo, atribuía isso ao “estresse”, mas agora está com medo de ser demitido.
- Exemplo 2 (escola): Maria, de 16 anos, sempre foi uma aluna dedicada. Desde que começou a jogar um jogo online de estratégia, porém, suas notas caíram. Ela fica acordada até tarde jogando e, na escola, cochila nas aulas. Quando os professores chamam sua atenção, ela promete melhorar, mas não consegue se controlar.
O que acontece por trás disso?
O cérebro fica tão focado na recompensa do comportamento aditivo que outras atividades — como trabalhar ou estudar — perdem a importância. É como se o cérebro tivesse um botão de prioridade: tudo o que não for o comportamento aditivo fica em segundo plano.
2. Presenteísmo: estar fisicamente, mas não mentalmente
- Exemplo: Carla é advogada e nunca falta ao trabalho, mas nos últimos meses tem sido difícil se concentrar. Durante as reuniões, ela fica checando o celular, esperando notificações de um grupo de apostas online. Seus colegas notam que ela parece “desligada”, mas ela não consegue explicar o porquê.
O que é o presenteísmo?
É quando a pessoa está no trabalho ou na escola, mas sua mente está em outro lugar. No caso dos transtornos aditivos, o cérebro fica ansioso pela próxima “dose” do comportamento, como um fumante que não consegue se concentrar porque está pensando no próximo cigarro.
3. Conflitos com colegas ou superiores
- Exemplo: Pedro é gerente de uma loja e costumava ser pontual. Ultimamente, porém, tem chegado atrasado porque passa horas jogando pôquer online antes de dormir. Quando o dono da loja chama sua atenção, ele fica na defensiva e diz que “todo mundo tem seus problemas”. Os colegas começam a evitá-lo porque percebem que ele está sempre irritado.
Por que isso acontece?
O comportamento aditivo gera culpa e vergonha, e a pessoa pode se tornar defensiva quando questionada. Além disso, a abstinência (quando não consegue realizar o comportamento) pode deixá-la irritada ou ansiosa, o que afeta os relacionamentos no trabalho.
Nos relacionamentos
1. Isolamento social
- Exemplo 1: Ana e Lucas eram um casal que adorava sair com amigos. Desde que Lucas começou a passar horas em um jogo de RPG online, porém, ele cancela planos e evita sair de casa. Ana tenta conversar, mas ele diz que “prefere ficar em casa”. Com o tempo, ela se sente sozinha e começa a questionar o relacionamento.
- Exemplo 2: Rafael, de 20 anos, costumava jogar futebol com os amigos todo fim de semana. Nos últimos meses, porém, ele prefere ficar em casa assistindo a lives de jogos online. Quando os amigos o chamam, ele inventa desculpas. Eles param de convidá-lo, e Rafael se sente excluído, mas não consegue parar de assistir às lives.
O que acontece?
O comportamento aditivo substitui outras fontes de prazer, como amigos e família. É como se o cérebro dissesse: “Por que sair com os amigos se posso ficar aqui, onde tenho controle e recompensa imediata?”.
2. Brigas e desconfiança
- Exemplo: Mariana e Tiago são casados há 5 anos. Nos últimos meses, Tiago tem chegado tarde em casa e dado desculpas esfarrapadas. Mariana descobre que ele está gastando dinheiro em apostas online e se sente traída. Quando ela confronta Tiago, ele nega e diz que “é só um hobby”. As brigas se tornam frequentes, e Mariana começa a duvidar de tudo o que ele diz.
Por que isso acontece?
A pessoa com o transtorno aditivo pode mentir ou omitir o comportamento para evitar conflitos, o que gera desconfiança. Além disso, o parceiro pode se sentir rejeitado, como se não fosse mais importante.
3. Negligência com a família
- Exemplo: Carlos é pai de dois filhos pequenos. Antes, ele adorava brincar com eles à noite. Agora, porém, passa horas no celular, assistindo a vídeos de apostas esportivas. Os filhos tentam chamar sua atenção, mas ele diz “só um minutinho” e acaba ignorando-os. A esposa de Carlos se sente sobrecarregada e começa a questionar se ele ainda se importa com a família.
O que acontece?
O comportamento aditivo rouba tempo e atenção que antes eram dedicados à família. É como se a pessoa estivesse fisicamente presente, mas emocionalmente ausente.
Na rotina
1. Sono desregulado
- Exemplo 1: Júlia costumava dormir 8 horas por noite. Desde que começou a jogar um jogo de celular viciante, porém, ela fica acordada até tarde, mesmo sabendo que precisa acordar cedo no dia seguinte. No trabalho, ela está sempre cansada e toma café em excesso para se manter acordada.
- Exemplo 2: Marcos tem insônia há anos. Ele descobriu que assistir a vídeos de compras online o ajuda a “desligar” à noite. O problema é que, depois de assistir, ele fica ansioso e acaba comprando coisas que não precisa. No dia seguinte, se arrepende, mas à noite repete o ciclo.
Por que isso acontece?
O comportamento aditivo ativa o sistema de recompensa do cérebro, o que pode deixar a pessoa em estado de alerta. Além disso, a abstinência (quando não consegue realizar o comportamento) pode causar ansiedade e insônia.
2. Alimentação desregrada
- Exemplo: Paula sempre foi cuidadosa com a alimentação, mas desde que começou a passar horas nas redes sociais, ela tem comido mais besteiras. Ela pede delivery enquanto rola o feed e, muitas vezes, nem percebe o que está comendo. Nos últimos meses, ganhou peso e se sente culpada.
Por que isso acontece?
O comportamento aditivo distrai a pessoa de sinais internos, como fome e saciedade. Além disso, a dopamina liberada pelo comportamento pode aumentar a vontade por alimentos calóricos.
3. Abandono do autocuidado
- Exemplo: Rodrigo sempre foi vaidoso e gostava de malhar. Desde que começou a trabalhar em excesso, porém, ele parou de se exercitar, deixou de ir ao dentista e até esquece de tomar banho alguns dias. Quando os amigos comentam, ele diz que “não tem tempo”, mas na verdade passa horas no trabalho mesmo quando não há urgência.
O que acontece?
O comportamento aditivo consome energia mental, deixando pouco espaço para outras atividades. É como se a pessoa estivesse sempre correndo atrás de algo e não conseguisse parar para cuidar de si mesma.
Na saúde física
Os transtornos aditivos não afetam só a mente — eles também têm consequências no corpo. Alguns exemplos:
1. Problemas musculoesqueléticos
- Exemplo: Fernanda passa horas jogando no celular, com o pescoço curvado e os ombros tensos. Nos últimos meses, desenvolveu dores crônicas no pescoço e nas costas. O médico disse que é por causa da postura, mas ela não consegue parar de jogar.
2. Fadiga crônica
- Exemplo: Gustavo dorme apenas 4 horas por noite porque fica até tarde assistindo a lives de jogos online. Durante o dia, ele se sente exausto, mas não consegue dormir mais cedo porque fica ansioso pensando no que está perdendo.
3. Problemas digestivos
- Exemplo: Clara tem crises de gastrite sempre que tenta diminuir as compras online. Ela percebe que, quando está ansiosa por não poder comprar, sente dores no estômago e até náuseas.
4. Alterações no sistema nervoso
- Exemplo: Depois de meses jogando compulsivamente, Pedro começou a ter tremores nas mãos e dificuldade para se concentrar. O neurologista disse que é por causa do estresse e da privação de sono.
Por que isso acontece?
O corpo e a mente estão conectados. Quando a mente está sobrecarregada pelo comportamento aditivo, o corpo responde com sintomas físicos, como dores, fadiga e problemas digestivos.
O que causa essa condição?
Se você ou alguém que você ama está passando por isso, é natural se perguntar: “Por que isso aconteceu comigo?”. A resposta não é simples, porque os transtornos aditivos são causados por uma combinação de fatores — genéticos, biológicos, psicológicos e sociais. Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos: “Será que herdei isso?”
Imagine que o cérebro é como um carro. Algumas pessoas nascem com um motor mais potente (maior capacidade de sentir prazer), enquanto outras têm um freio mais fraco (dificuldade para controlar impulsos). Isso não significa que você está condenado a ter um transtorno aditivo, mas que pode ter uma predisposição maior.
O que a ciência diz?
– Estudos com gêmeos mostram que 40% a 60% do risco de desenvolver um transtorno aditivo é hereditário.
– Se você tem um parente de primeiro grau (pai, mãe, irmão) com dependência química ou comportamental, seu risco é 2 a 4 vezes maior.
– Não existe um “gene do vício”, mas sim uma combinação de genes que afetam:
– Como seu cérebro responde à dopamina (o “hormônio do prazer”);
– Sua capacidade de controlar impulsos;
– Sua sensibilidade ao estresse.
Exemplo prático:
João e Pedro são irmãos. João consegue jogar videogame por algumas horas e depois parar. Pedro, porém, joga até perder a noção do tempo e se sente ansioso quando não está jogando. Os dois tiveram a mesma criação, mas Pedro pode ter uma predisposição genética que o torna mais vulnerável ao vício.
2. Fatores neurobiológicos: “O que acontece no meu cérebro?”
Para entender como os comportamentos aditivos funcionam, precisamos falar sobre dopamina, um neurotransmissor que atua como um mensageiro do prazer no cérebro.
O circuito de recompensa
Imagine que seu cérebro tem um sistema de recompensas, como um videogame que te dá moedas toda vez que você completa uma missão. Quando você faz algo prazeroso — como comer um chocolate, receber um elogio ou ganhar uma partida online —, seu cérebro libera dopamina, que te faz sentir bem.
Nos transtornos aditivos, esse sistema fica desregulado:
1. Primeira fase (lua de mel): O comportamento libera muita dopamina, e você se sente eufórico. É como se o cérebro dissesse: “Isso é incrível! Quero mais!”.
2. Segunda fase (tolerância): Com o tempo, o cérebro se acostuma e precisa de mais dopamina para sentir o mesmo prazer. É como se o videogame começasse a exigir mais moedas para a mesma recompensa.
3. Terceira fase (dependência): O comportamento já não dá tanto prazer, mas você não consegue parar porque o cérebro está condicionado a buscar aquela sensação. É como se o videogame tivesse um bug: você continua jogando, mesmo sem ganhar moedas.
Exemplo prático:
Quando Maria começou a jogar pôquer online, ganhar uma partida a deixava muito feliz. Com o tempo, porém, ela precisava ganhar cada vez mais para sentir a mesma emoção. Agora, ela joga mesmo quando está perdendo, porque seu cérebro precisa daquela descarga de dopamina, mesmo que não seja mais prazerosa.
O papel do córtex pré-frontal
O córtex pré-frontal é a parte do cérebro responsável pelo controle de impulsos, tomada de decisões e planejamento. Nos transtornos aditivos, essa área fica enfraquecida, como um músculo que não é exercitado.
Exemplo prático:
Lucas sabe que gastar dinheiro em apostas é ruim para suas finanças, mas não consegue parar. É como se seu córtex pré-frontal (a parte racional) estivesse gritando: “Pare!”, enquanto o sistema de recompensa (a parte emocional) estivesse dizendo: “Mas é tão bom!”.
3. Fatores psicológicos: “Por que eu não consigo parar?”
Traumas e experiências de vida
Eventos traumáticos — como abuso, negligência, bullying ou perdas — podem deixar feridas emocionais que a pessoa tenta “anestesiar” com comportamentos aditivos.
Exemplo prático:
Ana foi abusada na infância e, na vida adulta, desenvolveu um vício em compras online. Ela percebeu que, quando estava comprando, não pensava no passado. Era como se as compras fossem um remédio temporário para a dor.
Transtornos mentais associados
Os transtornos aditivos raramente vêm sozinhos. Eles costumam andar de mãos dadas com outros problemas, como:
– Depressão: A pessoa usa o comportamento para “fugir” da tristeza.
– Ansiedade: O comportamento alivia a ansiedade temporariamente, mas depois a piora.
– TDAH: A impulsividade do TDAH pode tornar a pessoa mais vulnerável a vícios.
– Transtorno bipolar: Durante as fases de euforia, a pessoa pode se envolver em comportamentos de risco.
Exemplo prático:
Carlos tem depressão e descobriu que jogar videogame o ajuda a “desligar” dos pensamentos negativos. O problema é que, quando para de jogar, a depressão volta ainda mais forte, criando um ciclo vicioso.
Baixa autoestima e perfeccionismo
Pessoas com baixa autoestima podem usar comportamentos aditivos para se sentirem valorizadas (por exemplo, comprando coisas para impressionar os outros). Já os perfeccionistas podem usar o comportamento como uma forma de controlar a ansiedade.
Exemplo prático:
Beatriz é muito exigente consigo mesma e se sente um fracasso quando não atinge suas metas. Para aliviar a ansiedade, ela começa a comprar roupas caras. No começo, se sente poderosa, mas depois vem a culpa e a dívida.
4. Fatores ambientais: “O mundo ao meu redor me empurra para isso?”
Disponibilidade e acesso
Quanto mais fácil for realizar o comportamento, maior o risco de desenvolver um transtorno aditivo. Alguns exemplos:
– Jogos online: Hoje, é possível jogar 24 horas por dia, de graça, no celular.
– Redes sociais: Os algoritmos são feitos para prender sua atenção, mostrando conteúdo cada vez mais viciante.
– Compras online: Com um clique, você pode comprar qualquer coisa, a qualquer hora, sem sair de casa.
Exemplo prático:
Antigamente, para jogar pôquer, você precisava ir a um cassino. Hoje, você pode apostar dinheiro do seu sofá, às 3 da manhã, com apenas alguns toques na tela.
Pressão social e cultura
Vivemos em uma sociedade que glorifica o excesso:
– “Trabalhe até morrer” (cultura do trabalho em excesso);
– “Compre agora, pague depois” (facilitação do consumo);
– “Se não está nas redes, não aconteceu” (pressão por likes e validação).
Exemplo prático:
João se sente pressionado a postar fotos “perfeitas” no Instagram. Para manter a imagem, ele começa a gastar dinheiro em viagens e roupas que não pode pagar, entrando em um ciclo de dívidas e ansiedade.
Falta de alternativas saudáveis
Quando uma pessoa não tem outras fontes de prazer ou alívio — como hobbies, amigos ou atividades físicas —, ela pode recorrer a comportamentos aditivos para preencher o vazio.
Exemplo prático:
Maria mora em uma cidade pequena, sem muitas opções de lazer. Ela passa horas nas redes sociais porque não tem outra coisa para fazer. Com o tempo, desenvolve um vício em likes e validação virtual.
5. Modelo biopsicossocial: “É tudo junto e misturado?”
Na prática, nenhum fator age sozinho. Os transtornos aditivos são como uma receita de bolo:
– Genética: Os ingredientes (farinha, açúcar, ovos);
– Neurobiologia: O forno (que transforma os ingredientes em bolo);
– Psicologia: O chef (que decide como misturar os ingredientes);
– Ambiente: A cozinha (onde tudo acontece).
Exemplo prático:
Pedro tem uma predisposição genética para impulsividade (ingredientes), cresceu em uma família que não lidava bem com emoções (chef), teve acesso fácil a jogos online (cozinha) e, durante a pandemia, ficou isolado e ansioso (forno). Todos esses fatores juntos levaram ao desenvolvimento do vício.
Mitos e verdades sobre as causas
❌ Mito 1: “Isso é falta de força de vontade.”
✅ Verdade: Os transtornos aditivos são doenças do cérebro, não falhas de caráter. Assim como uma pessoa com diabetes não consegue controlar o açúcar no sangue só com força de vontade, alguém com um vício comportamental não consegue parar só com “autocontrole”.
❌ Mito 2: “Só acontece com pessoas fracas ou sem educação.”
✅ Verdade: Pessoas de todas as classes sociais, níveis de educação e idades podem desenvolver transtornos aditivos. O que muda é o tipo de comportamento: enquanto uma pessoa de baixa renda pode desenvolver vício em jogos de azar, uma pessoa de alta renda pode desenvolver vício em compras de luxo.
❌ Mito 3: “Se a pessoa quisesse mesmo, parava.”
✅ Verdade: A pessoa quer parar, mas não consegue. É como tentar parar de respirar: no começo, você aguenta, mas depois o corpo assume o controle. Nos transtornos aditivos, o cérebro fica tão condicionado que parar causa sofrimento físico e emocional.
❌ Mito 4: “Isso é coisa de jovem.”
✅ Verdade: Embora os jovens sejam mais vulneráveis por causa da imaturidade do córtex pré-frontal, pessoas de todas as idades podem desenvolver transtornos aditivos. Por exemplo:
– Idosos: Podem desenvolver vício em jogos de azar ou compras online como forma de lidar com a solidão.
– Adultos: Podem desenvolver vício em trabalho como forma de evitar problemas familiares.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico pode ser um alívio: “Finalmente tenho um nome para o que estou sentindo!”. Mas também pode gerar dúvidas: “Como o médico chegou a essa conclusão?”, “Será que estou exagerando?”, “E se for outra coisa?”. Vamos entender como funciona o processo de diagnóstico, passo a passo.
1. O primeiro passo: reconhecer que algo não vai bem
Muitas pessoas demoram anos para buscar ajuda porque:
– Não sabem que o comportamento pode ser um transtorno: Acham que é “só um hábito ruim” ou “falta de força de vontade”.
– Sentem vergonha: Têm medo de serem julgadas ou de que as pessoas achem que são “fracas”.
– Não percebem o impacto na vida: Normalizam o comportamento (“Todo mundo faz isso”) e só percebem o problema quando as consequências são graves (dívidas, separação, demissão).
Sinais de que é hora de buscar ajuda:
– Você já tentou parar várias vezes e não conseguiu;
– O comportamento está prejudicando sua saúde, relacionamentos ou trabalho;
– Você se sente mal, culpado ou ansioso depois de realizar o comportamento;
– Pessoas próximas já expressaram preocupação.
2. Quem pode diagnosticar?
No Brasil, os profissionais capacitados para diagnosticar transtornos mentais são:
– Psiquiatras: Médicos especializados em saúde mental. Eles podem diagnosticar, receitar medicamentos e encaminhar para outros tratamentos.
– Psicólogos: Profissionais que fazem avaliação psicológica e psicoterapia. Eles não podem receitar remédios, mas podem diagnosticar e tratar com terapia.
– Neurologistas: Em alguns casos, quando há suspeita de alterações neurológicas.
Onde buscar ajuda?
– SUS (Sistema Único de Saúde):
– UBS (Unidade Básica de Saúde): O primeiro passo é agendar uma consulta com um clínico geral ou médico de família. Ele pode encaminhar para um psiquiatra ou psicólogo na rede pública.
– CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Para casos mais graves, o CAPS oferece atendimento multidisciplinar (psiquiatra, psicólogo, assistente social).
– Hospitais universitários: Alguns oferecem atendimento gratuito ou de baixo custo.
– Particular:
– Clínicas de psicologia ou psiquiatria;
– Planos de saúde (verifique a cobertura);
– Consultórios particulares.
Dica importante:
Se você não se sentir à vontade com o primeiro profissional, procure outro. A relação de confiança é fundamental para o tratamento.
3. O que esperar da primeira consulta?
A primeira consulta costuma durar 40 a 60 minutos e é uma conversa para entender:
– Seus sintomas: O que você está sentindo, há quanto tempo e com que intensidade;
– Seu histórico: Doenças prévias, histórico familiar, experiências de vida;
– Seu dia a dia: Como o comportamento afeta sua rotina, trabalho, relacionamentos;
– Outros problemas: Se há sinais de depressão, ansiedade, TDAH, etc.
Perguntas que o profissional pode fazer:
– “Há quanto tempo você percebe esse comportamento?”
– “Você já tentou parar? Como foi?”
– “Esse comportamento está afetando sua vida de alguma forma?”
– “Você sente que perde o controle quando está realizando esse comportamento?”
– “Você esconde ou mente sobre isso para as pessoas próximas?”
– “Você usa esse comportamento para aliviar estresse, tristeza ou ansiedade?”
– “Você sente sintomas físicos ou emocionais quando tenta parar?”
O que você pode perguntar:
– “O que você acha que está acontecendo comigo?”
– “Esse comportamento pode ser um transtorno aditivo?”
– “Quais são as opções de tratamento?”
– “Quanto tempo costuma durar o tratamento?”
– “Preciso tomar remédios?”
Dica:
Leve um diário com anotações sobre:
– Quando o comportamento acontece (horário, situação);
– Como você se sente antes e depois;
– Se houve algo que desencadeou (estresse, tédio, solidão);
– Se tentou parar e como foi.
Isso ajuda o profissional a entender melhor o seu caso.
4. Como o diagnóstico é feito?
Não existe um exame de sangue ou de imagem que diagnostique transtornos aditivos. O diagnóstico é feito com base em:
1. Entrevista clínica: Conversa detalhada com o profissional;
2. Critérios diagnósticos: O profissional compara seus sintomas com os critérios do DSM-5 ou CID-11;
3. Exclusão de outras condições: O profissional verifica se os sintomas não são causados por outra doença (por exemplo, um tumor cerebral ou um transtorno de humor).
Critérios diagnósticos (DSM-5 e CID-11)
Para ser diagnosticado com um transtorno aditivo comportamental, você precisa apresentar pelo menos 4 dos seguintes sintomas por um período de 12 meses:
1. Perda de controle: Tentou diminuir ou parar, mas não conseguiu;
2. Prioridade: O comportamento se tornou mais importante que outras atividades;
3. Consequências negativas: Continua mesmo sabendo que está prejudicando sua vida;
4. Tolerância: Precisa aumentar a “dose” para ter o mesmo efeito;
5. Abstinência: Sente sintomas físicos ou emocionais quando tenta parar;
6. Engano: Mente ou esconde o comportamento;
7. Alívio emocional: Usa o comportamento para fugir de sentimentos ruins.
Exemplo prático:
Maria joga jogos online há 2 anos. Ela:
– Já tentou parar várias vezes, mas não conseguiu (perda de controle);
– Deixou de sair com amigos para jogar (prioridade);
– Já perdeu dinheiro e brigou com a família por causa do jogo (consequências negativas);
– Precisa jogar cada vez mais para sentir a mesma emoção (tolerância);
– Fica irritada quando não joga (abstinência);
– Esconde do namorado quanto tempo passa jogando (engano);
– Joga para aliviar a ansiedade (alívio emocional).
Com base nesses sintomas, o profissional pode diagnosticar um transtorno de jogo (se for específico para jogos) ou um outro transtorno especificado devido a comportamentos aditivos (CID-11: 6C5Y).
5. Diagnóstico diferencial: “Será que é outra coisa?”
Alguns transtornos podem ter sintomas parecidos com os dos transtornos aditivos. O profissional precisa descartar essas possibilidades antes de fechar o diagnóstico.
1. Transtorno de humor (depressão, bipolaridade)
- Semelhança: A pessoa pode usar o comportamento para aliviar tristeza ou ansiedade.
- Diferença: Nos transtornos de humor, o comportamento é um sintoma, não a causa principal. Por exemplo, uma pessoa com depressão pode jogar videogame em excesso, mas o problema central é a depressão, não o jogo.
2. Transtorno de ansiedade
- Semelhança: A pessoa pode usar o comportamento para “desligar” da ansiedade.
- Diferença: Nos transtornos de ansiedade, o comportamento é uma forma de evitar o medo, não um vício em si.
3. TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade)
- Semelhança: Pessoas com TDAH podem ter dificuldade para controlar impulsos, o que pode levar a comportamentos aditivos.
- Diferença: No TDAH, o problema é a falta de atenção e hiperatividade, não necessariamente o vício. Por exemplo, uma pessoa com TDAH pode gastar muito tempo em redes sociais porque tem dificuldade para se concentrar em outras coisas, mas não sente abstinência quando para.
4. Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)
- Semelhança: A pessoa sente uma urgência de realizar o comportamento.
- Diferença: No TOC, o comportamento é realizado para aliviar uma obsessão (por exemplo, lavar as mãos para evitar contaminação). Nos transtornos aditivos, o comportamento é realizado pelo prazer ou alívio imediato.
5. Esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos
- Semelhança: A pessoa pode ter comportamentos estranhos ou compulsivos.
- Diferença: Nos transtornos psicóticos, há delírios ou alucinações, que não estão presentes nos transtornos aditivos.
6. Doenças neurológicas
- Semelhança: Algumas doenças neurológicas (como Parkinson ou tumores cerebrais) podem causar comportamentos impulsivos.
- Diferença: Nesses casos, há outros sintomas neurológicos (tremores, dificuldade para falar, etc.).
6. Quanto tempo leva para receber o diagnóstico?
O tempo varia de acordo com:
– A complexidade do caso: Se há outros transtornos associados (como depressão ou ansiedade), o diagnóstico pode levar mais tempo;
– O profissional: Alguns psiquiatras fazem o diagnóstico na primeira consulta, outros preferem acompanhar por algumas semanas;
– A disponibilidade de exames: Em alguns casos, o profissional pode pedir exames (como ressonância magnética) para descartar outras condições.
Em média, o diagnóstico leva de 1 a 3 consultas.
7. E se eu não concordar com o diagnóstico?
É normal ter dúvidas ou não concordar com o diagnóstico. Algumas coisas que você pode fazer:
– Pergunte ao profissional: Peça para ele explicar melhor como chegou àquela conclusão;
– Busque uma segunda opinião: Outro profissional pode ter uma visão diferente;
– Pesquise: Leia sobre o assunto (mas cuidado com fontes não confiáveis);
– Dê tempo ao tempo: Às vezes, é preciso conviver com o diagnóstico por um tempo para entender se ele faz sentido para você.
Lembre-se: O diagnóstico não é uma sentença, mas uma ferramenta para entender o que está acontecendo e buscar ajuda.
Tratamento
Receber o diagnóstico pode ser um alívio: “Finalmente sei o que tenho!”. Mas também pode gerar dúvidas: “E agora? Como vou melhorar?”. A boa notícia é que os transtornos aditivos têm tratamento, e quanto antes você começar, melhores são as chances de recuperação.
O tratamento é multidisciplinar, ou seja, envolve várias abordagens trabalhando juntas. Vamos entender cada uma delas.
1. Medicamentos: “Vou precisar tomar remédio para o resto da vida?”
Os medicamentos não são a primeira linha de tratamento para transtornos aditivos comportamentais, mas podem ser úteis em alguns casos, especialmente quando há outros transtornos associados (como depressão, ansiedade ou TDAH).
Classes de medicamentos usadas
1. Antidepressivos (ISRS e IRSN)
- Para que servem: Tratam depressão e ansiedade, que muitas vezes acompanham os transtornos aditivos.
- Como funcionam: Aumentam a disponibilidade de serotonina e noradrenalina no cérebro, neurotransmissores relacionados ao humor e à sensação de bem-estar.
- Exemplos: Fluoxetina, Sertralina, Venlafaxina.
- Tempo para fazer efeito: 2 a 6 semanas.
- Efeitos colaterais comuns: Náusea, dor de cabeça, sonolência ou insônia, diminuição do desejo sexual.
- Mito vs. Verdade:
- ❌ Mito: “Antidepressivos viciam.”
- ✅ Verdade: Os antidepressivos não causam dependência, mas devem ser retirados gradualmente, sob supervisão médica.
2. Estabilizadores de humor
- Para que servem: Usados quando há oscilações de humor (como no transtorno bipolar), que podem piorar os comportamentos aditivos.
- Exemplo: Lítio, Ácido Valproico.
- Tempo para fazer efeito: 1 a 2 semanas.
- Efeitos colaterais comuns: Ganho de peso, tremores, sede excessiva.
3. Antipsicóticos atípicos
- Para que servem: Podem ser usados em casos graves, quando há impulsividade extrema ou sintomas psicóticos.
- Exemplo: Quetiapina, Aripiprazol.
- Efeitos colaterais comuns: Sonolência, ganho de peso, aumento do apetite.
4. Naltrexona
- Para que serve: Originalmente usado para dependência de álcool e opioides, esse medicamento também pode ajudar em vícios comportamentais, como jogo patológico.
- Como funciona: Bloqueia os receptores de opioides no cérebro, reduzindo a sensação de prazer associada ao comportamento aditivo.
- Efeitos colaterais comuns: Náusea, dor de cabeça, fadiga.
5. Topiramato
- Para que serve: Usado para impulsividade e compulsões, especialmente em casos de jogo patológico.
- Efeitos colaterais comuns: Sonolência, dificuldade de concentração, formigamento nas mãos.
Perguntas frequentes sobre medicamentos
1. “Vou precisar tomar remédio para o resto da vida?”
Não necessariamente. Em alguns casos, o medicamento é usado por um período (6 meses a 2 anos) para estabilizar os sintomas, enquanto a pessoa trabalha outras áreas da vida (como terapia e mudanças de hábito). Depois, o médico pode reduzir a dose gradualmente.
2. “Os remédios vão mudar minha personalidade?”
Não. Os medicamentos não mudam quem você é, mas podem ajudar a controlar os sintomas que estão atrapalhando sua vida. Por exemplo, se você é uma pessoa ansiosa, o remédio pode ajudar a diminuir a ansiedade, mas não vai transformar você em outra pessoa.
3. “Posso parar o remédio quando me sentir melhor?”
Nunca pare um medicamento sem orientação médica. Alguns remédios precisam ser retirados gradualmente para evitar síndrome de abstinência (como náusea, tontura, ansiedade). Além disso, parar de repente pode fazer os sintomas voltarem com mais força.
4. “Os remédios têm efeitos colaterais graves?”
Todo medicamento pode ter efeitos colaterais, mas a maioria é leve e temporária. O médico vai avaliar se os benefícios superam os riscos. Se um remédio não estiver funcionando ou estiver causando efeitos muito incômodos, ele pode ser trocado.
5. “Posso tomar remédio e fazer terapia ao mesmo tempo?”
Sim! Na verdade, a combinação de medicamento e terapia costuma ser mais eficaz do que qualquer um dos dois sozinhos.
2. Psicoterapia: “Como a terapia pode me ajudar?”
A psicoterapia é fundamental no tratamento dos transtornos aditivos. Enquanto os medicamentos ajudam a controlar os sintomas, a terapia trabalha as causas emocionais e ensina ferramentas práticas para lidar com o comportamento.
Abordagens com mais evidência científica
1. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
- O que é: A TCC é uma abordagem prática e focada no presente, que ajuda a identificar e mudar pensamentos e comportamentos disfuncionais.
- Como funciona:
- Identificação de gatilhos: O que leva você a realizar o comportamento? Estresse? Tédio? Solidão?
- Técnicas de enfrentamento: Como lidar com a vontade de realizar o comportamento? Por exemplo, se você joga videogame para aliviar a ansiedade, a terapia pode ensinar técnicas de respiração ou meditação.
- Prevenção de recaídas: Como evitar voltar ao comportamento antigo?
- Exemplo prático:
- Gatilho: João sente ansiedade quando está sozinho em casa.
- Comportamento: Ele abre o jogo online para se distrair.
- Alternativa: A terapia ensina João a reconhecer a ansiedade e usar técnicas de relaxamento ou ligar para um amigo.
Para quem é indicada?
– Pessoas que querem resultados rápidos (a TCC costuma durar de 12 a 20 sessões);
– Pessoas que têm pensamentos negativos recorrentes (como “Eu não consigo parar”, “Sou um fracasso”);
– Pessoas que querem ferramentas práticas para lidar com o dia a dia.
2. Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
- O que é: A ACT é uma abordagem que ensina a aceitar os pensamentos e emoções difíceis, em vez de lutar contra eles, e a agir de acordo com seus valores.
- Como funciona:
- Desfusão cognitiva: Aprender a observar os pensamentos sem se identificar com eles. Por exemplo, em vez de pensar “Eu preciso jogar agora”, você aprende a pensar “Estou tendo o pensamento de que preciso jogar agora”.
- Aceitação: Em vez de lutar contra a vontade de realizar o comportamento, você aprende a aceitá-la sem agir.
- Valores: Identificar o que é realmente importante para você (família, saúde, trabalho) e agir de acordo com isso.
- Exemplo prático:
- Situação: Maria sente vontade de comprar algo que não precisa.
- Pensamento: “Eu mereço isso, vou me sentir melhor.”
- ACT: Maria reconhece o pensamento, mas em vez de comprar, lembra que seu valor é “cuidar das finanças” e escolhe não gastar.
Para quem é indicada?
– Pessoas que lutam contra seus pensamentos e emoções (por exemplo, se sentem culpadas por ter vontade de realizar o comportamento);
– Pessoas que querem viver de acordo com seus valores, mesmo quando é difícil;
– Pessoas que têm dificuldade para lidar com a abstinência.
3. Terapia Dialética Comportamental (TDB)
- O que é: A TDB foi desenvolvida para tratar o transtorno de personalidade borderline, mas também é eficaz para impulsividade e dificuldade de regulação emocional.
- Como funciona:
- Mindfulness: Aprender a viver o momento presente, sem julgamentos.
- Tolerância ao mal-estar: Técnicas para lidar com emoções intensas sem recorrer ao comportamento aditivo.
- Regulação emocional: Identificar e mudar padrões emocionais disfuncionais.
- Efetividade interpessoal: Melhorar relacionamentos e comunicação.
- Exemplo prático:
- Situação: Pedro está irritado porque perdeu uma partida online.
- Comportamento antigo: Ele xinga o jogo e joga mais para “recuperar o dinheiro”.
- TDB: Pedro usa técnicas de tolerância ao mal-estar (como respiração profunda) e regulação emocional (identifica que está irritado e escolhe não jogar mais).
Para quem é indicada?
– Pessoas com dificuldade para controlar impulsos;
– Pessoas que têm oscilações emocionais intensas;
– Pessoas que se machucam emocionalmente com frequência.
4. Terapia de Grupo
- O que é: Um grupo de pessoas com o mesmo transtorno se reúne para compartilhar experiências e aprender juntas, com a orientação de um terapeuta.
- Como funciona:
- Compartilhamento: Cada pessoa fala sobre suas dificuldades e conquistas.
- Apoio mútuo: O grupo oferece suporte emocional e responsabilização.
- Aprendizado: Os participantes aprendem com as experiências uns dos outros.
- Exemplo prático:
- Situação: Ana está com vergonha de contar para a família que tem um vício em compras.
- Terapia de grupo: No grupo, ela descobre que outras pessoas também escondem o comportamento e se sente menos sozinha.
Para quem é indicada?
– Pessoas que se sentem isoladas por causa do transtorno;
– Pessoas que querem aprender com as experiências dos outros;
– Pessoas que precisam de apoio social.
5. Terapia Familiar
- O que é: A família participa do tratamento para entender o transtorno e aprender a ajudar.
- Como funciona:
- Psicoeducação: A família aprende sobre o transtorno e como ele afeta a pessoa.
- Comunicação: Técnicas para melhorar o diálogo e evitar conflitos.
- Limites: Como estabelecer limites saudáveis sem prejudicar o tratamento.
- Exemplo prático:
- Situação: O filho de João tem vício em jogos online e mente sobre o tempo que passa jogando.
- Terapia familiar: João e a esposa aprendem a conversar com o filho sem julgamentos e a estabelecer regras claras (como horários para jogar).
Para quem é indicada?
– Famílias que não entendem o transtorno e acabam piorando a situação;
– Famílias que querem ajudar, mas não sabem como;
– Casos em que o comportamento aditivo está prejudicando a dinâmica familiar.
Como escolher a terapia certa?
Não existe uma terapia “melhor” — o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Alguns fatores a considerar:
– Seu objetivo: Você quer ferramentas práticas (TCC) ou trabalhar questões emocionais profundas (psicanálise)?
– Sua disponibilidade: Algumas terapias são mais longas (psicanálise), outras são mais curtas (TCC).
– Seu estilo: Você prefere conversar (terapia verbal) ou fazer atividades (terapias expressivas)?
– Recomendação do profissional: O psiquiatra ou psicólogo pode sugerir a abordagem mais adequada para o seu caso.
Dica importante:
Se a primeira terapia não funcionar, não desista. Às vezes, é preciso experimentar algumas abordagens até encontrar a que melhor se adapta a você.
3. Mudanças no dia a dia: “O que posso fazer por mim mesmo?”
O tratamento não se resume a medicamentos e terapia — pequenas mudanças no dia a dia podem fazer uma grande diferença. Vamos ver algumas estratégias práticas.
1. Exercício físico: “Como o movimento pode me ajudar?”
O exercício físico é um aliado poderoso no tratamento dos transtornos aditivos, porque:
– Libera endorfina: Um neurotransmissor que causa sensação de bem-estar, semelhante à dopamina, mas de forma saudável;
– Reduz o estresse e a ansiedade: Ajuda a lidar com os gatilhos que levam ao comportamento aditivo;
– Melhora o sono: Muitas pessoas com transtornos aditivos têm insônia;
– Aumenta a autoestima: A sensação de “conquista” ao se exercitar pode substituir a sensação de prazer do comportamento aditivo.
Tipos de exercício mais recomendados:
– Caminhada ou corrida: Liberam endorfina e são fáceis de incorporar à rotina;
– Yoga: Combina movimento com mindfulness, ajudando a lidar com a ansiedade;
– Musculação: Melhora a autoestima e a disciplina;
– Dança: É divertida e ajuda a expressar emoções.
Como começar?
– Comece devagar: 10 minutos por dia já fazem diferença;
– Escolha algo que você goste: Se não gostar de academia, experimente natação, ciclismo ou artes marciais;
– Faça com um amigo: O compromisso social aumenta a motivação;
– Defina metas realistas: Em vez de “vou malhar todos os dias”, comece com “vou caminhar 3 vezes por semana”.
2. Sono: “Por que dormir bem é tão importante?”
A privação de sono piora os sintomas dos transtornos aditivos, porque:
– Aumenta a impulsividade: Quando estamos cansados, é mais difícil controlar os impulsos;
– Piora o humor: A falta de sono aumenta a irritabilidade e a ansiedade;
– Diminui a capacidade de tomar decisões: O cérebro cansado tem mais dificuldade para avaliar consequências.
Dicas para melhorar o sono:
– Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana;
– Ambiente: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco;
– Desconecte: Evite telas (celular, TV, computador) 1 hora antes de dormir;
– Relaxe: Experimente técnicas de respiração ou meditação antes de dormir;
– Evite cafeína e álcool: Eles podem atrapalhar o sono.
3. Alimentação: “O que comer para ajudar o cérebro?”
Uma alimentação equilibrada ajuda a regular o humor e reduzir a ansiedade, o que pode diminuir a vontade de realizar o comportamento aditivo.
Alimentos que ajudam:
– Ômega-3: Peixes (salmão, sardinha), nozes, linhaça. Ajuda na saúde do cérebro;
– Triptofano: Banana, ovos, queijo. É um precursor da serotonina (neurotransmissor do bem-estar);
– Magnésio: Espinafre, amêndoas, abacate. Ajuda a reduzir a ansiedade;
– Probióticos: Iogurte, kefir, chucrute. Melhoram a saúde intestinal, que está ligada ao humor.
Alimentos que devem ser evitados:
– Açúcar refinado: Pode causar picos de energia seguidos de queda, aumentando a ansiedade;
– Cafeína em excesso: Pode piorar a ansiedade e a insônia;
– Alimentos ultraprocessados: Podem afetar negativamente o humor.
Dica prática:
– Faça refeições regulares: Pular refeições pode aumentar a ansiedade e a vontade de realizar o comportamento aditivo;
– Beba água: A desidratação pode causar fadiga e irritabilidade.
4. Rotina: “Como estruturar o dia para evitar recaídas?”
Uma rotina estruturada ajuda a reduzir o tédio e a ansiedade, que são gatilhos comuns para os comportamentos aditivos.
Dicas para criar uma rotina saudável:
– Defina horários fixos: Para acordar, comer, trabalhar, se exercitar e dormir;
– Inclua atividades prazerosas: Ler, cozinhar, ouvir música — qualquer coisa que te dê prazer sem ser o comportamento aditivo;
– Estabeleça metas pequenas: Em vez de “vou parar de jogar”, comece com “hoje não vou jogar antes do almoço”;
– Use lembretes: Coloque alarmes no celular para pausas, refeições e momentos de relaxamento.
Exemplo de rotina:
| Horário | Atividade |
|—————|————————————|
| 7:00 | Acordar e tomar café da manhã |
| 8:00 – 12:00 | Trabalhar |
| 12:00 – 13:00 | Almoçar e dar uma caminhada |
| 13:00 – 18:00 | Trabalhar |
| 18:00 – 19:00 | Exercício físico |
| 19:00 – 20:00 | Jantar e assistir a um episódio de série |
| 20:00 – 21:00 | Ler um livro |
| 21:00 – 22:00 | Preparar-se para dormir |
| 22:00 | Dormir |
5. Técnicas de manejo para os sintomas
1. Mindfulness e meditação
- O que é: Técnicas para viver o momento presente, sem julgamentos.
- Como ajuda: Reduz a ansiedade e aumenta a capacidade de lidar com a vontade de realizar o comportamento aditivo.
- Como praticar:
- Respiração consciente: Foque na sua respiração por 1 minuto, observando o ar entrando e saindo;
- Body scan: Feche os olhos e observe cada parte do seu corpo, da cabeça aos pés, sem julgamentos;
- Apps: Headspace, Calm, Insight Timer.
2. Técnica do “5 minutos”
- O que é: Quando sentir vontade de realizar o comportamento aditivo, espere 5 minutos antes de agir.
- Como ajuda: Muitas vezes, a vontade passa depois de alguns minutos.
- Como praticar:
- Quando sentir vontade, diga a si mesmo: “Vou esperar 5 minutos”;
- Nesse tempo, faça algo para se distrair (beber água, ligar para um amigo, respirar fundo);
- Se a vontade passar, ótimo! Se não passar, espere mais 5 minutos.
3. Substituição de comportamento
- O que é: Trocar o comportamento aditivo por outro que dê prazer ou alívio, mas de forma saudável.
- Exemplos:
- Se você joga videogame para aliviar o estresse, experimente desenhar ou pintar;
- Se você compra compulsivamente, experimente organizar seu guarda-roupa;
- Se você usa redes sociais para fugir da solidão, experimente ligar para um amigo.
4. Diário emocional
- O que é: Anotar seus pensamentos, emoções e comportamentos ao longo do dia.
- Como ajuda: Ajuda a identificar gatilhos e padrões de comportamento.
- Como praticar:
- Anote:
- O que aconteceu antes de sentir vontade de realizar o comportamento;
- Como você se sentiu;
- O que você fez;
- Como se sentiu depois.
Exemplo de diário:
| Data | Situação | Emoção | Comportamento | Resultado |
|————|———————————–|————–|—————|—————–|
| 10/10/2023 | Briguei com meu chefe no trabalho | Ansiedade | Joguei pôquer online | Me senti culpado depois |
| 11/10/2023 | Fiquei entediado em casa | Tédio | Fui caminhar | Me senti melhor |
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de transtorno aditivo pode ser um divisor de águas. De um lado, há o alívio de finalmente entender o que está acontecendo; de outro, há o desafio de aprender a conviver com essa nova realidade. Vamos falar sobre como lidar com isso, tanto para a pessoa com o diagnóstico quanto para seus familiares e amigos.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceitação: “Como lidar com o diagnóstico?”
O primeiro passo é aceitar o diagnóstico, o que nem sempre é fácil. Algumas pessoas passam por fases semelhantes ao luto:
– Negação: “Isso não é um problema, eu consigo parar quando quiser”;
– Raiva: “Por que isso aconteceu comigo?”;
– Barganha: “Se eu parar por um mês, vou poder voltar depois”;
– Tristeza: “Nunca vou me livrar disso”;
– Aceitação: “Isso faz parte da minha vida agora, mas posso aprender a lidar com isso”.
Dicas para aceitar o diagnóstico:
– Não se julgue: Você não é “fraco” ou “sem força de vontade”. Os transtornos aditivos são doenças do cérebro, não falhas de caráter;
– Busque informações: Quanto mais você entender sobre o transtorno, menos assustador ele será;
– Fale sobre isso: Compartilhar seus sentimentos com um terapeuta, amigo ou grupo de apoio pode aliviar o peso;
– Celebre pequenas vitórias: Cada dia sem realizar o comportamento aditivo é uma conquista.
2. Autocompaixão: “Como parar de me culpar?”
A culpa é uma emoção comum entre pessoas com transtornos aditivos. Você pode se sentir culpado por:
– Ter desenvolvido o transtorno;
– Ter mentido ou escondido o comportamento;
– Ter prejudicado pessoas que ama.
Mas a culpa não ajuda — ela paralisa. O que ajuda é a autocompaixão, que é tratar a si mesmo com a mesma gentileza que trataria um amigo querido.
Exercício de autocompaixão:
1. Reconheça o sofrimento: “Estou sofrendo porque tenho esse transtorno”;
2. Lembre-se de que você não está sozinho: “Muitas pessoas passam por isso”;
3. Seja gentil consigo mesmo: “Estou fazendo o meu melhor, e isso é suficiente”.
Frases para praticar:
– “Eu mereço ajuda e tratamento”;
– “Estou aprendendo a lidar com isso, e está tudo bem cometer erros”;
– “Eu não sou meu transtorno. Eu sou muito mais do que isso”.
3. Prevenção de recaídas: “Como evitar voltar ao comportamento antigo?”
As recaídas fazem parte do processo de recuperação, mas é possível reduzir as chances de que elas aconteçam.
Estratégias para prevenir recaídas:
– Identifique seus gatilhos: O que te leva a realizar o comportamento? Estresse? Tédio? Solidão? Anote em um diário;
– Planeje alternativas: Se o gatilho é o tédio, planeje atividades para fazer quando ele aparecer (ler, cozinhar, ligar para um amigo);
– Evite situações de risco: Se você sabe que passar na frente de uma loja de apostas vai te tentar, escolha outro caminho;
– Peça ajuda: Avise pessoas de confiança quando estiver se sentindo vulnerável;
– Lembre-se do “porquê”: Por que você quer parar? Anote seus motivos e leia quando sentir vontade de recair.
O que fazer se recair?
– Não se culpe: A recaída não é um fracasso, mas uma oportunidade de aprender;
– Analise o que aconteceu: O que desencadeou a recaída? Como você pode evitar isso no futuro?;
– Volte ao tratamento: Converse com seu terapeuta ou médico sobre o que aconteceu;
– Recomece: Cada dia é uma nova chance.
4. Reconstruindo a autoestima
Os transtornos aditivos podem destruir a autoestima, fazendo você se sentir:
– Fraco (“Não consigo controlar isso”);
– Culpado (“Estou prejudicando as pessoas que amo”);
– Sem valor (“Ninguém vai me amar assim”).
Mas a autoestima pode ser reconstruída. Aqui estão algumas estratégias:
1. Liste suas qualidades
– Anote 10 coisas que você gosta em si mesmo (pode ser qualquer coisa: “sou bom em cozinhar”, “sou um amigo leal”, “tenho senso de humor”);
– Leia a lista todos os dias.
2. Defina metas pequenas e alcançáveis
– Em vez de “vou parar de jogar para sempre”, comece com “hoje não vou jogar antes do almoço”;
– Cada meta alcançada é uma prova de que você é capaz.
3. Cuide do seu corpo
– Tome banho, vista roupas que te deixem confortável, faça exercícios;
– Quando cuidamos do corpo, a mente também se sente melhor.
4. Ajude os outros
– Fazer algo bom por alguém (mesmo que seja um elogio ou um gesto pequeno) pode aumentar a sensação de valor.
5. Perdoe-se
– Você não é perfeito, e está tudo bem. Errar faz parte de ser humano.
Para familiares e amigos
1. Como ajudar sem sufocar?
Quando alguém que amamos está passando por um transtorno aditivo, é natural querer ajudar. Mas às vezes, o que fazemos com boa intenção pode piorar a situação. Vamos ver o que funciona e o que não funciona.
✅ O que fazer:
– Informe-se: Leia sobre o transtorno para entender o que a pessoa está passando;
– Ofereça apoio emocional: Diga coisas como “Estou aqui para você” ou “Você não está sozinho”;
– Incentive o tratamento: Ofereça-se para acompanhar a pessoa às consultas, se ela quiser;
– Estabeleça limites saudáveis: É importante ajudar, mas não a ponto de negligenciar sua própria vida;
– Celebre as pequenas vitórias: Cada dia sem recaída é uma conquista.
❌ O que não fazer:
– Julgar ou criticar: Frases como “Isso é falta de força de vontade” ou “Você é egoísta” só aumentam a culpa e a vergonha;
– Controlar ou vigiar: Proibir a pessoa de fazer algo ou ficar checando seu celular só aumenta a desconfiança;
– Cobrar perfeição: A recuperação é um processo, e recaídas podem acontecer. Não trate a pessoa como um fracasso por causa disso;
– Minimizar o problema: Frases como “Isso não é tão grave” ou “Todo mundo faz isso” invalidam o sofrimento da pessoa.
2. Como lidar com a raiva e a frustração?
É normal sentir raiva, frustração ou até ressentimento quando alguém que amamos está passando por um transtorno aditivo. Afinal, você também está sofrendo.
Dicas para lidar com essas emoções:
– Reconheça seus sentimentos: Não tente ignorar a raiva ou a frustração. Elas são normais;
– Converse com alguém: Um amigo, terapeuta ou grupo de apoio pode ajudar a colocar as coisas em perspectiva;
– Cuide de si mesmo: Não deixe que a vida da pessoa com o transtorno tome conta da sua vida. Reserve um tempo para suas próprias necessidades;
– Pratique o perdão: A pessoa com o transtorno não está fazendo isso para te magoar. Ela está doente e precisa de ajuda.
3. Como explicar para outras pessoas?
Falar sobre o transtorno aditivo com outras pessoas pode ser difícil, especialmente por causa do estigma que ainda existe. Mas explicar pode ajudar a reduzir o preconceito e trazer apoio.
Dicas para conversar:
– Escolha o momento certo: Não converse quando estiver com raiva ou frustrado;
– Seja honesto, mas não dê detalhes desnecessários: Você não precisa contar tudo, mas pode dizer algo como “Fulano está passando por um momento difícil e precisa de apoio”;
– Explique que é uma doença: Diga que o transtorno aditivo é uma doença do cérebro, não uma escolha;
– Peça apoio: Se precisar de ajuda (como alguém para cuidar dos filhos enquanto você acompanha a pessoa às consultas), peça.
Exemplo de como explicar:
“O João está com um transtorno chamado vício em jogos online. É como uma doença, sabe? Ele não consegue controlar sozinho, por isso está fazendo tratamento. A gente está aprendendo a lidar com isso juntos, e seria legal se vocês pudessem apoiar também.”
4. Grupos de apoio para familiares
Você não precisa passar por isso sozinho. Existem grupos de apoio para familiares de pessoas com transtornos aditivos, onde você pode:
– Compartilhar suas experiências;
– Aprender com as histórias de outras pessoas;
– Receber apoio emocional.
Alguns grupos no Brasil:
– Nar-Anon: Para familiares de pessoas com dependência química ou comportamental (baseado nos 12 passos);
– Amor-Exigente: Grupo de apoio para familiares de pessoas com dependência;
– Grupos locais: Muitos CAPS e clínicas oferecem grupos de apoio para familiares.
Quando os sintomas podem piorar?
Os transtornos aditivos não são lineares — há altos e baixos ao longo do tratamento. Alguns momentos em que os sintomas podem piorar:
1. Estresse
- Exemplo: Perda de emprego, término de relacionamento, problemas financeiros;
- Por que piora: O estresse aumenta a ansiedade e a impulsividade, que são gatilhos para o comportamento aditivo.
2. Tédio ou solidão
- Exemplo: Fins de semana sem planos, férias, isolamento social;
- Por que piora: Quando não temos nada para fazer, o cérebro busca recompensas imediatas, como o comportamento aditivo.
3. Exposição a gatilhos
- Exemplo: Passar na frente de uma loja de apostas, ver um anúncio de jogos online, receber uma notificação de rede social;
- Por que piora: O cérebro associa esses estímulos ao prazer ou alívio, aumentando a vontade de realizar o comportamento.
4. Recaídas
- Exemplo: Depois de um período sem realizar o comportamento, a pessoa recai e se sente culpada;
- Por que piora: A culpa pode levar a um ciclo de recaídas, onde a pessoa pensa “Já que recaí, tanto faz” e volta ao comportamento antigo.
5. Mudanças na rotina
- Exemplo: Mudança de cidade, nascimento de um filho, aposentadoria;
- Por que piora: Mudanças podem causar ansiedade e incerteza, que são gatilhos para o comportamento aditivo.
O que fazer nesses momentos?
– Reconheça os sinais de alerta: Se você perceber que está mais ansioso, irritado ou com vontade de realizar o comportamento, busque ajuda imediatamente;
– Use as técnicas que aprendeu: Mindfulness, substituição de comportamento, diário emocional;
– Converse com seu terapeuta ou médico: Eles podem ajustar o tratamento se necessário;
– Peça apoio: Avise pessoas de confiança que você está passando por um momento difícil.
Perguntas frequentes
1. “Tenho vergonha de contar para as pessoas. O que faço?”
É normal sentir vergonha, afinal, os transtornos aditivos ainda são estigmatizados. Mas guardar segredo só aumenta o sofrimento. Algumas dicas:
Comece com quem você confia
– Escolha uma pessoa em quem você confia (um amigo próximo, um familiar, um terapeuta) e conte para ela;
– Peça que ela não julgue e não conte para outras pessoas sem sua permissão.
Escolha o momento certo
– Não converse quando estiver emocionalmente abalado;
– Escolha um momento tranquilo, sem pressa.
Explique que é uma doença
– Diga algo como: “Isso não é falta de força de vontade. É uma doença, e estou buscando tratamento”;
– Se a pessoa não entender, não force. Algumas pessoas precisam de tempo para assimilar.
Lembre-se: você não está sozinho
– Milhões de pessoas no mundo passam por isso. Não é culpa sua, e você merece ajuda.
2. “Posso me curar completamente?”
Os transtornos aditivos são doenças crônicas, o que significa que não têm uma “cura” definitiva, como uma infecção que passa com antibiótico. Mas isso não significa que você não possa ter uma vida plena e feliz.
O que significa “recuperação”?
– Controle dos sintomas: Você aprende a lidar com a vontade de realizar o comportamento aditivo;
– Melhora na qualidade de vida: Você retoma o controle da sua vida, dos seus relacionamentos e do seu trabalho;
– Prevenção de recaídas: Você aprende a identificar gatilhos e evitar recaídas.
Exemplo prático:
João tinha vício em jogos de azar. Depois de 2 anos de tratamento, ele ainda sente vontade de jogar às vezes, mas consegue controlar o impulso. Ele voltou a trabalhar, reconstruiu o relacionamento com a família e até conseguiu guardar dinheiro. Para ele, isso é recuperação.
Dica importante:
Não se compare com outras pessoas. Cada um tem seu próprio ritmo de recuperação.
3. “Como lidar com a vontade de realizar o comportamento?”
A vontade de realizar o comportamento aditivo é como uma onda do mar: ela vem com força, mas passa se você não lutar contra ela. Algumas estratégias:
1. Espere passar
– A vontade costuma durar 10 a 15 minutos. Se você conseguir esperar, ela passa;
– Durante esse tempo, faça algo para se distrair (beber água, ligar para um amigo, respirar fundo).
2. Use a técnica do “5 minutos”
– Quando sentir vontade, diga a si mesmo: “Vou esperar 5 minutos”;
– Nesse tempo, faça algo para se distrair;
– Se a vontade passar, ótimo! Se não passar, espere mais 5 minutos.
3. Substitua o comportamento
– Troque o comportamento aditivo por outro que dê prazer ou alívio, mas de forma saudável;
– Exemplos:
– Se você joga videogame para aliviar o estresse, experimente desenhar ou pintar;
– Se você compra compulsivamente, experimente organizar seu guarda-roupa;
– Se você usa redes sociais para fugir da solidão, experimente ligar para um amigo.
4. Lembre-se do “porquê”
– Por que você quer parar? Anote seus motivos e leia quando sentir vontade de recair.
5. Peça ajuda
– Avise alguém de confiança que você está com vontade;
– Às vezes, só de falar em voz alta, a vontade diminui.
4. “Como reconstruir a confiança das pessoas que magoei?”
Os transtornos aditivos podem prejudicar relacionamentos, especialmente quando há mentiras, dívidas ou comportamentos impulsivos. Reconstruir a confiança leva tempo, mas é possível.
Passo a passo para reconstruir a confiança:
1. Peça desculpas sinceramente
– Reconheça o que fez de errado, sem justificativas;
– Exemplo: “Eu menti para você sobre o dinheiro que gastei. Sei que isso te magoou, e sinto muito”.
- Mostre com ações, não só com palavras
- A confiança se reconstrói com ações consistentes;
-
Exemplo: Se você mentiu sobre o tempo que passa jogando, comece a ser transparente sobre isso.
-
Seja paciente
- A pessoa pode demorar para confiar em você de novo, e está tudo bem;
-
Não force a barra. Dê tempo ao tempo.
-
Cumpra suas promessas
- Se você prometer que não vai mais mentir, cumpra;
-
Se não conseguir cumprir, reconheça o erro e peça desculpas.
-
Mostre que você está mudando
- Vá às consultas, siga o tratamento, faça mudanças na rotina;
- As pessoas percebem quando realmente estamos tentando.
Exemplo prático:
Maria mentiu para o marido sobre dívidas de compras compulsivas. Para reconstruir a confiança, ela:
– Pediu desculpas e reconheceu o erro;
– Mostrou os extratos bancários para o marido, sem esconder nada;
– Começou a anotar todos os gastos em um caderno;
– Foi às consultas com o psiquiatra e a terapeuta;
– Depois de alguns meses, o marido começou a confiar nela de novo.
5. “Posso ter uma vida normal?”
Sim! Muitas pessoas com transtornos aditivos recuperam o controle da vida e vivem de forma plena e feliz. A chave é:
– Buscar tratamento: Terapia, medicamentos (se necessário), mudanças no estilo de vida;
– Ser paciente: A recuperação é um processo, não um evento;
– Não desistir: Mesmo que haja recaídas, cada dia é uma nova chance.
Exemplos de pessoas que reconstruíram suas vidas:
– Pedro: Tinha vício em jogos online e perdeu o emprego. Depois de 1 ano de tratamento, voltou a trabalhar, casou e hoje é pai de uma menina;
– Ana: Tinha compras compulsivas e estava endividada. Hoje, tem controle sobre suas finanças e até ajuda outras pessoas com o mesmo problema;
– Carlos: Tinha vício em trabalho e quase perdeu a família. Hoje, equilibra trabalho e vida pessoal e é mais presente para os filhos.
Lembre-se:
Você não é definido pelo seu transtorno. Você é muito mais do que isso.
6. “Como explicar para meu filho que tenho esse transtorno?”
Se você tem filhos, pode ser difícil explicar o que está acontecendo, especialmente se eles são pequenos. O importante é ser honesto, mas adaptar a linguagem para a idade deles.
Para crianças pequenas (3 a 7 anos):
– Use metáforas simples: “Papai/mamãe está doente, mas está tomando remédio e fazendo tratamento para melhorar”;
– Diga que não é culpa deles: “Isso não tem nada a ver com você. Você é muito amado”;
– Explique que você está buscando ajuda: “Estou indo ao médico para ficar melhor”.
Para crianças maiores (8 a 12 anos):
– Seja mais direto: “Eu tenho uma doença chamada transtorno aditivo. Isso faz com que eu tenha dificuldade para controlar alguns comportamentos, como [exemplo]. Mas estou fazendo tratamento para melhorar”;
– Explique que não é falta de amor por eles: “Às vezes, essa doença me deixa irritado ou distante, mas isso não significa que eu não te amo”;
– Incentive perguntas: “Se você tiver dúvidas, pode me perguntar a qualquer momento”.
Para adolescentes (13 anos ou mais):
– Seja honesto e detalhado: “Eu tenho um transtorno chamado [nome do transtorno]. Isso significa que meu cérebro tem dificuldade para controlar [comportamento]. Estou fazendo tratamento para aprender a lidar com isso”;
– Explique que não é culpa deles: “Isso não tem nada a ver com você. Você não fez nada de errado”;
– Fale sobre como eles podem ajudar: “Se você quiser, pode me lembrar de ir às consultas” ou “Se eu estiver irritado, você pode me dizer com carinho”.
Dicas gerais:
– Não esconda a verdade, mas também não sobrecarregue a criança com detalhes;
– Mostre que você está no controle: “Estou fazendo tratamento e tenho ajuda de profissionais”;
– Dê segurança: “Mesmo que às vezes eu esteja distante, você é muito importante para mim”.
7. “Como lidar com o estigma?”
Infelizmente, os transtornos aditivos ainda são mal compreendidos pela sociedade. Muitas pessoas acreditam que são falta de força de vontade ou fraqueza moral, o que não é verdade. Algumas estratégias para lidar com o estigma:
1. Eduque as pessoas
– Quando alguém fizer um comentário preconceituoso, explique com calma que os transtornos aditivos são doenças;
– Exemplo: “Na verdade, os transtornos aditivos são doenças do cérebro, assim como a depressão ou a diabetes. Não é falta de força de vontade”.
2. Escolha com quem falar
– Nem todo mundo merece saber sobre seu diagnóstico. Escolha pessoas de confiança para compartilhar;
– Se alguém não entender, não force. Algumas pessoas precisam de tempo.
3. Busque apoio
– Grupos de apoio, terapia e amigos compreensivos podem ajudar a lidar com o estigma;
– Lembre-se: você não está sozinho.
4. Não internalize o preconceito
– O estigma pode fazer você se sentir envergonhado ou menos valioso, mas isso não é verdade;
– Você é muito mais do que seu transtorno.
5. Seja um exemplo
– Ao falar abertamente sobre seu transtorno, você ajuda a quebrar o estigma;
– Muitas pessoas se sentem encorajadas a buscar ajuda quando veem outras falando sobre o assunto.
8. “Como saber se estou melhorando?”
A recuperação não é linear — há altos e baixos. Mas alguns sinais de que você está melhorando:
1. Você consegue controlar os impulsos
– Antes: Você sentia uma urgência de realizar o comportamento e não conseguia resistir;
– Agora: Você sente a vontade, mas consegue esperar passar ou substituir por outra atividade.
2. Você não esconde mais o comportamento
– Antes: Você mentia ou omitia o comportamento para as pessoas próximas;
– Agora: Você fala abertamente sobre suas dificuldades e conquistas.
3. Você retoma o controle da sua vida
– Antes: O comportamento aditivo controlava sua rotina (você deixava de trabalhar, estudar ou sair com amigos por causa dele);
– Agora: Você consegue equilibrar o comportamento com outras áreas da vida.
4. Você se sente mais leve
– Antes: Você se sentia culpado, ansioso ou deprimido depois de realizar o comportamento;
– Agora: Você se sente mais em paz consigo mesmo.
5. As pessoas ao seu redor percebem a mudança
– Antes: Seus familiares e amigos expressavam preocupação com seu comportamento;
– Agora: Eles notam que você está melhor e te apoiam.
Lembre-se:
A recuperação é um processo, não um destino. Celebre cada pequena vitória, mesmo que pareça insignificante.
Quando procurar ajuda urgente
Os transtornos aditivos geralmente não são emergências médicas, mas em alguns casos, a situação pode se tornar grave e exigir ajuda imediata. Fique atento aos seguintes sinais de alerta:
1. Risco de suicídio
Se você ou alguém que você conhece:
– Fala em morte ou suicídio (“Não aguento mais”, “Seria melhor se eu não existisse”);
– Faz planos de suicídio (pesquisa métodos, escreve uma carta de despedida);
– Demonstra desesperança extrema (“Nada vai melhorar”);
– Isola-se completamente;
O que fazer?
– Ligue para o CVV (188): O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional 24 horas por dia;
– Procure um pronto-socorro: Se a pessoa estiver em risco imediato, leve-a a um hospital;
– Não deixe a pessoa sozinha: Fique com ela até que a ajuda chegue.
2. Sintomas psicóticos
Se você ou alguém que você conhece:
– Ouve vozes que não existem;
– Tem delírios (acredita em coisas que não são reais, como “estão me espionando”);
– Age de forma estranha ou desorganizada (fala coisas sem sentido, não consegue se comunicar);
O que fazer?
– Procure um pronto-socorro psiquiátrico: Esses sintomas podem indicar um surto psicótico, que precisa de tratamento imediato;
– Não tente “convencer” a pessoa de que ela está errada: Isso pode aumentar a ansiedade.
3. Overdose ou intoxicação grave
Se o transtorno aditivo envolver substâncias (como álcool ou drogas), fique atento a:
– Perda de consciência;
– Respiração lenta ou irregular;
– Convulsões;
– Pele fria e pálida;
O que fazer?
– Ligue para o SAMU (192) ou leve a pessoa a um pronto-socorro imediatamente;
– Não deixe a pessoa sozinha até que a ajuda chegue.
4. Comportamentos de risco extremo
Se você ou alguém que você conhece:
– Dirige sob efeito de substâncias;
– Envolve-se em brigas ou situações violentas;
– Faz apostas com dinheiro que não tem (como vender a casa ou pedir empréstimos impagáveis);
– Tem comportamentos sexuais de risco (sem proteção, com desconhecidos);
O que fazer?
– Intervenha imediatamente: Se possível, remova a pessoa da situação de risco;
– Busque ajuda profissional: Um psiquiatra ou psicólogo pode ajudar a controlar os impulsos.
5. Sintomas físicos graves
Se você ou alguém que você conhece:
– Tem dores no peito ou falta de ar;
– Apresenta tremores, sudorese ou taquicardia (sintomas de abstinência grave);
– Não consegue comer ou dormir por dias;
O que fazer?
– Procure um pronto-socorro: Esses sintomas podem indicar problemas cardíacos ou abstinência grave, que precisam de tratamento médico.
6. Recaída com risco de vida
Se você ou alguém que você conhece:
– Recaiu após um longo período de abstinência e está em risco imediato (por exemplo, apostando todo o dinheiro da família);
– Ameaça se machucar ou machucar outras pessoas;
O que fazer?
– Busque ajuda profissional imediatamente: Um psiquiatra ou serviço de emergência psiquiátrica pode ajudar;
– Não minimize a situação: Mesmo que a pessoa diga “estou bem”, se houver risco, procure ajuda.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022. Disponível em: https://icd.who.int/
- American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/
- Grant, J. E., Potenza, M. N., Weinstein, A., & Gorelick, D. A. Introduction to Behavioral Addictions. American Journal of Drug and Alcohol Abuse, 2010.
- Volkow, N. D., & Morales, M. The Brain on Drugs: From Reward to Addiction. Cell, 2015.
- Marlatt, G. A., & Donovan, D. M. Relapse Prevention: Maintenance Strategies in the Treatment of Addictive Behaviors. 2ª ed. Guilford Press, 2005.
- Centro de Valorização da Vida (CVV). Disponível em: https://www.cvv.org.br/
- Nar-Anon Brasil. Disponível em: https://www.naranon.org.br/
- Amor-Exigente. Disponível em: https://www.amorexigente.org.br/
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.