Definição e conceito
A afasia na Síndrome de MELAS (Mitochondrial Encephalopathy, Lactic Acidosis, and Stroke-like episodes) refere-se a um distúrbio adquirido e flutuante da linguagem, caracterizado por alterações na compreensão e/ou expressão verbal, secundário a episódios de encefalopatia metabólica aguda e lesões cerebrais focais do tipo "stroke-like". Na semiologia psiquiátrica e neurológica, este fenômeno situa-se na interface entre os transtornos da linguagem (afasias) e os transtornos neurocognitivos agudos (delirium), sendo um marcador clínico central da fisiopatologia mitocondrial cerebral.
A afasia é definida, conforme Cheniaux, como um distúrbio adquirido da capacidade linguística – na compreensão ou na expressão –, que ocorre na ausência de déficit auditivo ou de incapacidade motora do órgão fonador. No contexto da MELAS, a afasia não é estática, como nas lesões vasculares isquêmicas típicas, mas sim dinâmica e flutuante, acompanhando a evolução dos episódios de crise metabólica e das lesões corticais agudas. A terminologia técnica inclui os subtipos de afasia (motora/Broca, sensorial/Wernicke, global, transcortical, anômica) e sintomas associados como disartria, mutismo, parafasias (literal/semântica), perseveração verbal, palilalia e agrafia.
A MELAS é uma doença mitocondrial rara, com prevalência estimada entre 1:4000 a 1:17000. A mutação m.3243A>G no gene MT-TL1 é a mais comum, responsável por cerca de 80% dos casos. Os episódios de afasia aguda são uma manifestação quase universal ao longo da evolução da doença, tipicamente iniciando na infância ou idade adulta jovem, embora o diagnóstico possa ser tardio. A afasia flutuante é um dos critérios diagnósticos clínicos sugestivos da síndrome.
Apresentação clínica
A apresentação clínica da afasia na MELAS é distinta pela sua natureza episódica, flutuante e frequentemente migratória, refletindo a topografia dinâmica das lesões corticais. A avaliação clínica deve considerar múltiplos domínios:
Domínio Cognitivo/Linguístico:
- Flutuação e Início Agudo/Subagudo: O déficit de linguagem surge em horas ou dias, frequentemente como parte de um estado confusional mais amplo (encefalopatia). Pode regredir parcial ou completamente entre os episódios, especialmente nas fases iniciais da doença. Em fases avançadas, pode deixar déficits residuais cumulativos.
- Tipologia Variável: O tipo de afasia depende da localização cortical do "stroke-like" episode (SLE). Lesões na região fronto-insular esquerda podem causar uma afasia motora (de Broca): fala não fluente, telegráfica, com agramatismo, anartria ou disartria grave, mas com relativa preservação da compreensão. Lesões nas regiões temporoparietais esquerdas levam a uma afasia sensorial (de Wernicke): fala fluente mas com conteúdo vazio, parafasias semânticas e literais, neologismos e grave prejuízo na compreensão, podendo ser confundida com um quadro confusional agudo. Lesões extensas podem resultar em afasia global.
- Sintomas Associados de Linguagem: São comuns, conforme descrito por Dalgalarrondo:
- Mutismo: Pode ser o estágio inicial de uma afasia motora ou transcortical motora, evoluindo posteriormente para uma fala hipofônica e lenta.
- Perseveração Verbal: Repetição automática e estereotipada de palavras ou frases, indicando envolvimento de circuitos pré-frontais e déficit no controle inibitório.
- Palilalia: Repetição automática da última palavra pronunciada pelo próprio paciente.
- Agrafia e Alexia: Comprometimento da escrita e da leitura, respectivamente, frequentemente acompanhando a afasia.
- Encefalopatia Associada: A afasia raramente ocorre isoladamente. É comum a presença de outros sinais de disfunção cerebral global: desorientação temporo-espacial, flutuação do nível de consciência (do letargia à agitação), déficits de memória de trabalho e atenção.
Domínio Afetivo e Comportamental:
- Ansiedade e Frustração: A súbita incapacidade de comunicar-se ou compreender o ambiente gera intensa angústia, agitação ou retraimento. A ansiedade pode exacerbar os déficits linguísticos durante a tentativa de comunicação.
- Labilidade Emocional: Pode ocorrer em decorrência da lesão cerebral ou como reação à situação.
- Apatia ou Agitação: Como parte do quadro encefálico agudo.
Domínio Somático/Neurológico:
- Sintomas Prodrômicos: Cefaleia intensa, muitas vezes migranosa, náuseas e vômitos frequentemente precedem o episódio afásico.
- Sintomas Concomitantes: Crises epilépticas (focais ou generalizadas), hemianopsia, hemiparesia transitória, ataxia e mioclonias são comuns durante os SLEs.
- Sinais Sistêmicos da Doença Mitocondrial: Baixa estatura, perda auditiva neurossensorial, diabetes mellitus, cardiomiopatia, oftalmoplegia.
Exemplo Clínico Conciso:
- Caso 1 (Afasia Motora): Paciente de 22 anos com diagnóstico de MELAS, em acompanhamento por endocrinologia por diabetes. Admitido no PS com cefaleia intensa e vômitos há 12 horas. Na avaliação, apresenta paresia facial direita discreta e, ao ser questionado, emite apenas sons guturais ("hum… hum…"). Tenta nomear um lápis, aponta para ele, faz gestos, mas não consegue articular a palavra. Escreve com a mão esquerda "LAP" de forma truncada. Compreende ordens simples. EEG mostra atividade lentificada e descargas epileptiformes na região frontal esquerda.
- Caso 2 (Afasia Sensorial/Encefalopatia): Paciente de 35 anos conhecido com perda auditiva e miopatia mitocondrial. Familiares relatam que há dois dias está "confuso e falando coisas sem sentido". Ao exame, está desorientado no tempo. Fala fluentemente: "Preciso do… do apara-lho para o telamento do cimento, sabe? Para a festa do cimento no sábado." (parafasias semânticas e neologismo). Não compreende a ordem "feche os olhos". Apresenta uma gravação no braço direito. Ressonância de crânio com sequência DWI mostra hiperintensidade cortical no lobo temporal esquerdo sem restrição correspondente no ADC (padrão "stroke-like").
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia da afasia na MELAS é diretamente ligada à disfunção energética neuronal decorrente da deficiência na cadeia respiratória mitocondrial.
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Insuficiência Energética e Excitotoxicidade: A mutação no DNA mitocondrial leva à produção deficiente de ATP. Neurônios, células com alta demanda energética, tornam-se vulneráveis. Durante períodos de estresse metabólico (infecções, jejum), a produção de ATP cai criticamente. Isso compromete a bomba de sódio-potássio (Na+/K+ ATPase), levando a despolarização neuronal, liberação excessiva de glutamato e entrada de cálcio, culminando em excitotoxicidade e morte celular. Este é o substrato para a lesão cortical aguda.
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Angiopatia Mitocondrial: Há evidências de que as células endoteliais dos vasos sanguíneos cerebrais também acumulam mitocôndrias mutantes. Isso leva a uma disfunção vascular, com alteração na autorregulação cerebral e possível extravasamento de metabólitos, contribuindo para o edema citotóxico e vasogênico nas áreas afetadas, sem constituir um infarto tromboembólico típico.
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Neuroanatomia das Lesões ("Stroke-like" Episodes): As lesões são tipicamente corticais, podendo afetar qualquer região, mas com predileção pelos lobos occipital, parietal e temporal. A topografia da lesão determina o tipo de afasia. A dinâmica das lesões – que podem migrar, expandir ou regredir em imagens seriadas – explica a flutuação dos sintomas. Lesões na área de Broca (giro frontal inferior esquerdo) causam afasia motora. Lesões na área de Wernicke (giro temporal superior posterior esquerdo) causam afasia sensorial. Lesões subcorticais em tálamo ou núcleos da base podem causar afasias subcorticais ou transcorticais, com preservação da repetição.
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Epilepsia e Depressão Alastrante Cortical: A atividade epileptiforme, frequentemente não convulsiva (crises focais com sintomatologia cognitiva), é comum durante os SLEs. Acredita-se que a depressão alastrante cortical (um fenômeno de onda de despolarização neuronal) possa ser um mecanismo propagador da lesão, explicando a migração dos déficits neurológicos.
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Evidências de Neuroimagem:
- Ressonância Magnética (RM): Padrão-ouro. Durante um SLE agudo, mostra hiperintensidade cortical em T2/FLAIR e DWI (difusão restrita inicial, mas muitas vezes com ADC pseudonormalizado ou elevado, diferindo do AVC isquêmico agudo). O realce pelo contraste de gadolínio é comum. As lesões não respeitam territórios vasculares arteriais.
- PET/SPECT: Podem mostrar hipermetabolismo/hiperperfusão na fase aguda (refletindo a crise energética e excitotoxicidade), seguido por hipometabolismo/hiperfusão na fase crônica.
- EEG: Quase sempre anormal durante os episódios, mostrando lentificação focal ou difusa e frequentemente atividade epileptiforme.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental (com base na semiotécnica de Dalgalarrondo):
- Fala Espontânea: "A fala é fluente ou reduzida?" Avaliar se há logorreia (afasia de Wernicke) ou oligolalia/telegrafismo (afasia de Broca). Observar a presença de parafasias, neologismos, jargonofasia.
- Compreensão: Testar com comandos simples ("feche os olhos") e complexos ("pegue o papel com a mão esquerda, dobre-o ao meio e coloque-o sobre a mesa"). Prejuízo sugere componente sensorial.
- Repetição: Capacidade de repetir frases. Preservada na afasia transcortical; comprometida na afasia de Broca, Wernicke e de condução.
- Nomeação: Confrontar o paciente com objetos comuns (relógio, caneta, parte do relógio – pulseira). Dificuldade é comum em quase todos os tipos de afasia (anomia).
- Leitura e Escrita (Avaliar Alexia e Agrafia): Solicitar que leia uma frase em voz alta e a compreenda; que escreva uma frase espontaneamente e sob ditado.
- Nível de Consciência e Atenção: Fundamental para diferenciar afasia pura de delirium. Na afasia isolada, o nível de consciência está preservado. Na MELAS, frequentemente há um componente encefalopático sobreposto.
Instrumentos e Escalas:
- Rastreio: Teste do Relógio, Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) – lembrando que estes são insensíveis para afasias focais.
- Avaliação Específica de Linguagem: Teste de Nomeação de Boston, Teste de Token, Protocolo Montreal-Toulouse de Avaliação da Afasia (adaptado para o português).
- Avaliação do Delirium: Confusion Assessment Method (CAM).
- Escalas de Atividade de Doença: Escala de Gravidade da MELAS (MELAS Severity Score).
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Mecanismo | Características da Afasia/Distúrbio de Linguagem | Diferenciais Chave |
|---|---|---|---|
| AVC Isquêmico (Típico) | Oclusão vascular arterial. | Afasia súbita, não flutuante, em território vascular definido (ex.: artéria cerebral média). Déficit estabiliza ou melhora gradualmente. | Lesão em território vascular na RM; história de fatores de risco; ausência de sinais sistêmicos de mitocondriopatia. |
| Encefalite Autoimune/Viral | Inflamação cortical límbica/neocortical. | Afasia pode ocorrer, mas geralmente com outros sintomas proeminentes (crises, alteração de comportamento, psicose). | RM com alterações inflamatórias (hiperintensidade em T2/FLAIR); LCR com pleocitose; anticorpos neurais. |
| Delirium (de qualquer causa) | Disfunção cerebral global difusa. | Desorganização da linguagem, mas não uma afasia focal clássica. Fala pode ser incoerente, desviada do tema, com latência aumentada. | Nível de consciência flutuante e prejuízo atencional são centrais. EEG com lentificação difusa. |
| Doença de Alzheimer (DA) | Neurodegeneração. | Afasia progressiva, do tipo anômica ou transcortical sensorial. Dificuldade de nomeação é proeminente e progressiva. | Início insidioso e progressivo; RM com atrofia hipocampal e parietal; ausência de episódios agudos flutuantes. |
| Afasia Epiléptica (Síndrome de Landau-Kleffner) | Atividade epileptiforme contínua no sono. | Perda adquirida da compreensão (agnosia verbal) e expressão da linguagem em criança. | EEG diagnóstico (pontas-ondas contínuas no sono); ocorre em crianças. |
| Transtorno Conversivo/ Dissociativo | Fator psicológico. | Mutismo ou afonia são as apresentações mais comuns. Ausência de déficit de compreensão ou de anomia. | Exame neurológico normal; história de estressor; la belle indifférence (nem sempre presente); EEG normal durante o episódio. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Confundir Afasia de Wernicke com Delirium ou Psicose: A fala fluente mas incoerente, com parafasias, pode ser interpretada como pensamento desorganizado de um quadro psicótico ou confusão mental. A chave é o exame neurológico focal (campo visual, por exemplo) e a investigação do nível de consciência.
- Atribuir o Episódio a um AVC Comum: A natureza flutuante, a ocorrência em pessoa jovem, a presença de sintomas prodrômicos (cefaleia) e a não aderência a um território vascular na RM devem levantar a suspeita.
- Ignorar a Epilepsia Não-Convulsiva: O estado de mal epiléptico não-convulsivo focal pode se manifestar apenas como afasia pura. Um EEG de urgência é mandatório na avaliação inicial.
- Superestimar uma Causa Psiquiátrica: Especialmente na primeira apresentação de um adolescente ou adulto jovem com mutismo ou fala desorganizada aguda, é crucial descartar uma etiologia orgânica antes de considerar diagnósticos primários psiquiátricos.
Condições associadas
A afasia flutuante é um sintoma cardinal da Síndrome de MELAS, sendo sua ocorrência um forte indicador dessa condição específica. No entanto, distúrbios de linguagem agudos ou flutuantes podem aparecer em outros contextos:
- Outras Mitocondriopatias: Síndrome de Leigh, MERRF (Epilepsia Mioclônica com Fibras Vermelhas Rasgadas) – embora a afasia típica de MELAS seja menos comum.
- Encefalopatias Metabólicas Agudas: Insuficiência hepática, distúrbios eletrolíticos graves, porfiria aguda intermitente. A linguagem está desorganizada no contexto de um delirium.
- Esquizofrenia (Fase Ativa): Pode apresentar alogia (empobrecimento do pensamento e da fala), descarrilhamento, neologismos e perseveração, que podem mimetizar uma afasia. A história de início, a evolução e a presença de outros sintomas psicóticos ajudam na diferenciação.
- Demências: Na Doença de Alzheimer, a afasia anômica é progressiva. Na Demência Vascular, pode haver episódios de piora escalonada. Na Demência por Corpos de Lewy, os sintomas flutuam, mas os distúrbios de linguagem não são o destaque principal (são mais proeminentes os visuoespaciais e atencionais).
- Estado de Mal Epiléptico Não-Convulsivo Focal: Pode se manifestar como afasia isolada e flutuante.
Correlações nos Manuais Diagnósticos:
- CID-11: A MELAS é classificada em 8A44.1 Doenças mitocondriais. A afasia seria codificada como um sintoma adicional. Em contexto agudo, um Delirium (6D70) devido à encefalopatia metabólica pode ser o diagnóstico principal que engloba a afasia.
- DSM-5-TR: Não há um código específico para MELAS. A apresentação clínica aguda pode se enquadrar em Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido a Outra Condição Médica, especificando-se os domínios afetados (linguagem). O Delirium devido a outra condição médica (mitocondriopatia) é frequentemente o diagnóstico psiquiátrico mais apropriado durante os episódios agudos.
Implicações terapêuticas
O tratamento da afasia na MELAS é, antes de tudo, o tratamento da crise metabólica cerebral subjacente e da doença de base.
Abordagens Farmacológicas:
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Tratamento do Episódio Agudo ("Stroke-like" Episode):
- Suporte Metabólico e Energético: É a base do tratamento. Inclui repouso, hidratação, correção de distúrbios metabólicos (acidose láctica, hiperglicemia) e evitar fatores desencadeantes (jejum, infecções).
- Coquetel Energético: Uso de L-arginina (precursor do óxido nítrico, para melhorar a perfusão vascular) tanto na fase aguda (via intravenosa) quanto como profilaxia (via oral). L-citrulina é uma alternativa.
- Antiepilépticos: Controle agressivo das crises epilépticas, que são parte da fisiopatologia. Levetiracetam, lacosamida e benzodiazepínicos são comumente usados. Deve-se evitar valproato de sódio devido ao risco de piorar a função mitocondrial.
- Corticosteroides: Usados empiricamente em alguns centros durante os episódios agudos graves, com base na hipótese de um componente inflamatório/vasogênico, mas sem evidência robusta.
- Antioxidantes: Coenzima Q10, idebenona, vitamina C, vitamina E são usados como terapia adjuvante de base para melhorar a função da cadeia respiratória.
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Tratamento da Afasia em Si:
- Não há fármacos aprovados especificamente para afasia. Em alguns casos de afasia não fluente pós-AVC, há estudos com agentes que aumentam a noradrenalina (como a droxidopa) ou dopamina, mas sua aplicação na MELAS é desconhecida.
- O tratamento da ansiedade associada é crucial. Ansiolíticos como benzodiazepínicos de curta duração podem ser usados com cautela, observando o risco de depressão respiratória e piora do delirium. ISRSs (como sertralina) podem ser úteis para ansiedade e depressão de base.
Abordagens Não-Farmacológicas:
- Terapia da Fala (Fonoaudiologia): É fundamental. Deve ser iniciada precocemente, mesmo durante a fase aguda hospitalar, e continuada de forma intensiva e prolongada. Foca em estratégias de comunicação alternativa (gestos, pranchas, aplicativos), treino de nomeação, compreensão e articulação. A natureza flutuante da doença exige adaptabilidade constante do terapeuta.
- Neuroreabilitação Interdisciplinar: Inclui terapia ocupacional (para adaptações nas atividades de vida diária) e psicologia (para suporte emocional e manejo da frustração).
- Acomodações Ambientais e Comunicação: Criar um ambiente calmo, com poucos estímulos, usar frases curtas e simples, confirmar a compreensão, dar tempo para a resposta, utilizar suportes visuais.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
- Prognóstico da Afasia: Nas primeiras crises, a recuperação da linguagem pode ser quase completa com o tratamento agudo adequado. Com crises recorrentes, ocorre acúmulo de dano neuronal, levando a déficits linguísticos persistentes e progressivos, evoluindo para uma demência.
- Resposta ao Tratamento: A resposta ao coquetel energético (L-arginina) é variável. Alguns pacientes têm melhora dramática dos sintomas agudos em horas/dias; outros têm resposta parcial. A eficácia da reabilitação fonoaudiológica é modulada pela gravidade do dano cortical e pela frequência das recorrências.
- Fatores de Mau Prognóstico: Início precoce da doença, alta frequência de SLEs, elevados níveis de lactato, lesões corticais extensas e multilobares.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivenciando o Fenômeno:
Pacientes descrevem a experiência como aterrorizante e frustrante. Na afasia motora, a sensação é de ter "a palavra na ponta da língua" de forma constante e global. Sabem o que querem dizer, veem o objeto, mas não conseguem fazer a conexão com o som da palavra ou com os movimentos articulatórios. Na afasia sensorial, o mundo sonoro torna-se incompreensível; as vozes soam como um ruído sem significado, e suas próprias palavras saem sem que percebam o erro. A consciência do déficit (presente na afasia de Broca, muitas vezes ausente na inicial de Wernicke) gera intensa ansiedade e isolamento.
Orientações para Comunicação:
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Para a Equipe de Saúde/Família:
- Paciente com Afasia Motora (não fluente): Faça perguntas que possam ser respondidas com "sim" ou "não" ou com gestos. Não finja que entendeu se não entendeu. Diga: "Vou tentar adivinhar, você aponta quando eu chegar perto." Ofereça uma prancha de comunicação com imagens/ palavras básicas. Dê tempo. Não complete as frases do paciente precipitadamente.
- Paciente com Afasia Sensorial (fluente): Fale pausadamente, usando frases curtas e palavras-chave. Utilize suportes visuais (gestos, desenhos, objetos reais). Verifique a compreensão pedindo para ele apontar ou executar ações simples. Reduza o ruído ambiental.
- Em Ambos os Casos: Mantenha contato visual, fique no campo visual do paciente, use uma expressão facial calma e acolhedora. Fale diretamente com o paciente, não como se ele não estivesse presente.
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Para o Paciente (quando possível): Encoraje o uso de qualquer modalidade de comunicação (gestos, escrita, desenhos, aplicativos de tablet). Valide seu esforço: "Vejo que é muito difícil, estou aqui para tentar entender." Explique o que está acontecendo de forma simples: "Isso se chama afasia, é porque seu cérebro está passando por uma crise temporária. Vamos trabalhar juntos para você se comunicar."
Impacto Funcional:
- Trabalho/Estudos: Geralmente incapacitante durante as crises e, com a progressão, de forma permanente. Pacientes perdem empregos e precisam abandonar os estudos.
- Relacionamentos: A dificuldade de comunicação isola o paciente de familiares e amigos, gerando conflitos e sentimentos de inutilidade. A dinâmica familiar torna-se centrada nos cuidados.
- Qualidade de Vida: Muito comprometida. A perda da autonomia, a dependência para comunicação básica e o medo da próxima crise levam a altas taxas de depressão e ansiedade. O suporte psicológico para o paciente e para a família é um pilar do cuidado.
Perguntas frequentes
1. A afasia na MELAS é igual a um derrame (AVC)?
Não exatamente. Embora os sintomas sejam semelhantes (perda súbita da fala), o mecanismo é diferente. No AVC comum, há obstrução de um vaso sanguíneo. Na MELAS, há uma crise de energia nas células cerebrais, com envolvimento vascular secundário. Por isso, as lesões na ressonância não seguem os territórios das artérias e os sintomas podem flutuar muito mais.
2. Meu familiar entrou em mutismo total. Ele vai voltar a falar?
O mutismo na MELAS é frequentemente a fase inicial de uma afasia motora. Com o tratamento adequado da crise metabólica, há uma boa chance de a fala retornar, ainda que inicialmente de forma lenta e dificultosa. A recuperação é variável e depende da extensão da lesão. A terapia fonoaudiológica é essencial para maximizar essa recuperação.
3. Como diferenciar se é uma crise de MELAS ou uma crise de ansiedade/ pânico?
É uma dúvida crucial. Na crise de pânico, pode haver sensação de "não conseguir falar" por hiperventilação ou medo extremo, mas não há verdadeira anomia (dificuldade para encontrar palavras) ou parafasias. O exame neurológico é normal. Na MELAS, além dos distúrbios específicos da linguagem, é comum haver outros sinais neurológicos (cefaleia intensa, visão turva, fraqueza em um lado do corpo) e alterações no exame de estado mental (desorientação). Na dúvida, sempre busque avaliação médica de urgência.
4. Existe remédio para melhorar a afasia?
Não existe um remédio específico para "curar" a afasia. O tratamento foca em: 1) Parar a crise cerebral com L-arginina e controle de crises; 2) Oferecer suporte energético de base (coquetel de vitaminas); 3) Reabilitar a função da linguagem com terapia da fala intensiva. Alguns medicamentos para ansiedade podem ajudar indiretamente, melhorando a comunicação.
5. A terapia de fala funciona se os episódios são flutuantes?
Sim, e é fundamental. O fonoaudiólogo atua em duas frentes: na fase aguda, ajudando a estabelecer canais alternativos de comunicação; e nas fases estáveis, trabalhando para recuperar funções perdidas e fortalecer redes neuronais alternativas. Mesmo com flutuações, a reabilitação constante ajuda a criar reserva cognitiva e a maximizar a função entre as crises.
6. A afasia na MELAS evolui para demência?
Infelizmente, sim, na maioria dos casos. Cada episódio de "stroke-like" pode deixar algum dano neuronal residual. Com a recorrência das crises, há um acúmulo de lesões em várias áreas do cérebro, levando a um declínio cognitivo global e progressivo, caracterizando uma demência. O controle agressivo das crises e a profilaxia com L-arginina visam retardar ao máximo essa progressão.
7. O paciente com afasia de Wernicke (que fala "engarrafado") está confuso ou psicótico?
Pode parecer, mas o mecanismo é orgânico-neurológico. Ele não está necessariamente confuso no sentido de ter o nível de consciência alterado (embora possa ter), mas sim com o "centro de tradução" das palavras lesionado. Ele produz frases gramaticais que não fazem sentido (jargonofasia) e não compreende o que é dito. É um erro grave atribuir isso a uma psicose sem antes excluir uma causa orgânica com exames adequados (EEG, RM).
8. Como a família pode se preparar para uma nova crise de afasia?
Ter um plano de ação: saber qual hospital procurar (de preferência com neurologista conhecedor de mitocondriopatias), ter um relatório médico resumido sempre à mão, ter estoque de medicamentos de crise (como L-arginina IV, se prescrita). Ter ferramentas de comunicação alternativa prontas (prancha com figuras, aplicativo no tablet). E, psicologicamente, entender que é parte da doença, sem culpar o paciente pela dificuldade de comunicação.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- El-Hattab, A. W., Adesina, A. M., Jones, J., & Scaglia, F. (2015). MELAS syndrome: Clinical manifestations, pathogenesis, and treatment options. Molecular Genetics and Metabolism, 116(1-2), 4–12.
- Yatsuga, S., Povalko, N., Nishioka, J., Katayama, K., Kakimoto, N., Matsuishi, T., … & Koga, Y. (2012). MELAS: a nationwide prospective cohort study in Japan. Biochimica et Biophysica Acta (BBA) – General Subjects, 1820(5), 619–624.
- Hirano, M., & Pavlakis, S. G. (1994). Mitochondrial myopathy, encephalopathy, lactic acidosis, and strokelike episodes (MELAS): current concepts. Journal of Child Neurology, 9(1), 4–13.
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Diretrizes Brasileiras para o Manejo de Doenças Raras. Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o Tratamento do Delirium.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.