Um guia completo para entender, reconhecer e lidar com o uso problemático de substâncias que não causam dependência física
O que é?
Imagine que você tem um amigo que adora tomar um energético antes de trabalhar. No começo, era só um de vez em quando, mas agora ele toma três ou quatro latas por dia. Ele diz que “precisa” para aguentar o tranco, mas já chegou atrasado várias vezes porque passou mal depois de beber demais. No fim do mês, o salário some com as compras na farmácia, e a namorada dele ameaçou terminar porque ele vive irritado e não consegue mais sair sem levar uma garrafinha na mochila. Ele não sente tremores nem suor frio se ficar sem o energético, mas a vida dele está virando um caos por causa disso.
Esse é um exemplo clássico do que a psiquiatria chama de abuso de substâncias que não produzem dependência (CID-10: F55). Aqui, a palavra-chave é abuso — não dependência. Isso significa que a pessoa usa uma substância de forma exagerada, prejudicando sua vida, mas não desenvolve sintomas físicos de abstinência (como tremores, náuseas ou ansiedade intensa quando para de usar) nem uma compulsão incontrolável pelo consumo.
Como isso é diferente de outras condições?
Muitas pessoas confundem abuso com dependência, mas são coisas distintas:
- Dependência (ex.: álcool, cocaína, nicotina):
- A pessoa sente necessidade física da substância (abstinência).
- Desenvolve tolerância (precisa de doses cada vez maiores para o mesmo efeito).
- Perde o controle sobre o uso (tenta parar e não consegue).
-
Exemplo: Um fumante que acorda de madrugada para fumar porque o corpo “pede” nicotina.
-
Abuso (F55):
- A pessoa não tem sintomas físicos de abstinência.
- Não desenvolve tolerância (não precisa aumentar a dose).
- Mas o uso causa problemas sérios na vida: no trabalho, nos relacionamentos, na saúde.
- Exemplo: Alguém que toma laxantes todos os dias para emagrecer, mesmo sabendo que está prejudicando o intestino, mas não consegue parar por medo de engordar.
Outra confusão comum é achar que qualquer uso de substância é abuso. Não é bem assim. Por exemplo:
– Tomar um remédio para dor de cabeça quando necessário não é abuso.
– Usar um ansiolítico por alguns dias durante uma crise de ansiedade, com orientação médica, não é abuso.
– Mas tomar esse mesmo ansiolítico todos os dias por meses, mesmo sem receita, e começar a faltar no trabalho por causa dos efeitos colaterais pode ser abuso.
Quais substâncias entram nessa categoria?
O CID-10 lista algumas substâncias que não causam dependência física, mas que podem ser usadas de forma abusiva:
– Laxantes (para emagrecer ou “limpar” o corpo).
– Analgésicos comuns (como paracetamol ou dipirona, usados em excesso).
– Antiácidos (para aliviar queimação, mas usados sem necessidade).
– Vitaminas e suplementos (tomados em doses muito altas, acreditando que “fazem bem”).
– Hormônios (como tireoide, usados sem indicação médica para emagrecer).
– Diuréticos (para perder peso rápido).
– Xaropes para tosse (que contêm substâncias como codeína, mas em doses baixas).
– Colírios (usados em excesso para “clarear” os olhos).
– Energéticos e cafeína (em doses muito altas, causando ansiedade e insônia).
Importante: O abuso de nicotina e cafeína não entra nessa categoria (F55), porque elas causam dependência física. Já substâncias como álcool, maconha, cocaína e remédios controlados (como benzodiazepínicos) têm diagnósticos separados (F10-F19).
Quem é afetado? Dados e estatísticas
Não há muitos estudos específicos sobre o abuso de substâncias não dependentes no Brasil, mas alguns dados ajudam a entender o cenário:
- Faixa etária mais comum: Adolescentes e adultos jovens (15-35 anos), especialmente mulheres que abusam de laxantes e diuréticos para emagrecer.
- Gênero: Mulheres são mais afetadas pelo abuso de laxantes, diuréticos e hormônios (por pressão estética), enquanto homens abusam mais de analgésicos e energéticos (por questões de desempenho no trabalho ou esportes).
- Prevalência: Estima-se que 5-10% da população já tenha abusado de alguma substância não dependente em algum momento da vida, mas apenas uma pequena parte desenvolve problemas graves.
- Contexto brasileiro:
- O uso indiscriminado de analgésicos é um problema sério no Brasil. Segundo a Anvisa, o país é um dos maiores consumidores de dipirona do mundo, muitas vezes sem prescrição médica.
- O abuso de laxantes e diuréticos é comum entre pessoas com transtornos alimentares, como anorexia e bulimia.
- O consumo excessivo de energéticos (como Red Bull) aumentou 300% nos últimos 10 anos, especialmente entre jovens.
Um pouco de história
O conceito de abuso de substâncias não dependentes surgiu porque os médicos perceberam que algumas pessoas desenvolviam problemas sérios com substâncias que, tecnicamente, não causavam dependência física. Por exemplo:
– Nos anos 1980, começaram a aparecer casos de pessoas que tomavam laxantes em excesso para emagrecer, mesmo sabendo que isso prejudicava o intestino.
– Nos anos 1990, o uso indiscriminado de analgésicos (como o paracetamol) levou a casos de insuficiência hepática (falência do fígado) por overdose.
– Nos anos 2000, com o boom dos energéticos, começaram a surgir relatos de arritmias cardíacas e ansiedade grave em jovens que consumiam várias latas por dia.
Antes, esses casos eram tratados como “manias” ou “vícios leves”, mas a psiquiatria reconheceu que o abuso dessas substâncias pode ser tão prejudicial quanto o de drogas ilícitas, mesmo sem causar dependência física.
Quais são os sintomas?
Para receber o diagnóstico de abuso de substâncias que não produzem dependência (F55), a pessoa precisa apresentar pelo menos um dos quatro critérios abaixo, de forma recorrente (várias vezes) durante 12 meses. Vamos explicar cada um deles em detalhes, com exemplos do dia a dia.
Critério 1: Fracasso em cumprir obrigações importantes
O que significa?
A pessoa começa a deixar de fazer coisas importantes (trabalho, estudo, cuidados com a família) por causa do uso da substância.
Como isso aparece no dia a dia?
– No trabalho:
– Chega atrasado várias vezes porque passou mal depois de tomar muitos energéticos.
– Tem desempenho ruim porque está sempre cansado (por usar diuréticos à noite e não dormir direito).
– Falta a reuniões importantes porque está com dor de cabeça por excesso de analgésicos.
– Na escola:
– Um estudante que toma laxantes para emagrecer vive indo ao banheiro durante as aulas e acaba reprovando por falta.
– Uma universitária que usa hormônios da tireoide sem receita médica tem dificuldade de concentração e tira notas baixas.
– Em casa:
– Uma mãe que toma muitos antiácidos deixa de cuidar dos filhos porque está sempre com dor de estômago.
– Um pai que usa analgésicos em excesso não consegue ajudar nas tarefas domésticas porque está sempre “dopado”.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Tomar um remédio para dor de cabeça e faltar uma vez no trabalho porque está mal.
– Sintoma: Tomar analgésicos todos os dias, mesmo sem dor, e faltar várias vezes no mês por causa dos efeitos colaterais.
Critério 2: Uso em situações de perigo físico
O que significa?
A pessoa usa a substância em momentos em que isso pode colocar ela ou outras pessoas em risco.
Como isso aparece no dia a dia?
– Dirigindo:
– Alguém que toma muitos energéticos (com alta dose de cafeína) dirige com as mãos tremendo e quase causa um acidente.
– Uma pessoa que usa laxantes para emagrecer dirige com dor abdominal forte e perde a concentração.
– Operando máquinas:
– Um operário de fábrica que toma analgésicos fortes para dor nas costas trabalha com uma serra elétrica e quase se machuca porque está sonolento.
– Praticando esportes:
– Um atleta que usa diuréticos para perder peso rápido desmaia durante um treino por desidratação.
– Um nadador que toma xarope para tosse (com codeína) antes de uma competição tem tontura e quase se afoga.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Tomar um remédio para enjoo antes de uma viagem de carro.
– Sintoma: Tomar vários comprimidos de um remédio para emagrecer antes de dirigir, mesmo sabendo que pode causar tontura.
Critério 3: Problemas legais recorrentes
O que significa?
A pessoa se envolve em problemas com a lei por causa do uso da substância.
Como isso aparece no dia a dia?
– Brigas e agressões:
– Alguém que toma muitos energéticos fica tão agitado que briga em um bar e é preso por agressão.
– Uma pessoa que usa hormônios da tireoide sem receita fica irritada e agride um vizinho.
– Dirigir sob efeito:
– Um motorista que tomou vários analgésicos fortes é parado em uma blitz e pego dirigindo sob efeito de medicamento (o que é crime no Brasil).
– Posse ilegal de substâncias:
– Alguém que compra laxantes em grande quantidade (sem receita) é parado pela polícia e acusado de tráfico (porque a substância estava em embalagens não originais).
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Ser multado por excesso de velocidade sem relação com o uso de substâncias.
– Sintoma: Ser preso várias vezes por brigas depois de tomar energéticos.
Critério 4: Problemas sociais ou interpessoais persistentes
O que significa?
O uso da substância estraga relacionamentos com família, amigos ou parceiros.
Como isso aparece no dia a dia?
– Conflitos familiares:
– Uma mãe que toma laxantes para emagrecer vive discutindo com o marido porque gasta todo o dinheiro do mês na farmácia.
– Um pai que usa analgésicos em excesso deixa de participar de eventos familiares porque está sempre “indisposto”.
– Amizades prejudicadas:
– Um jovem que toma energéticos o dia todo cancela planos com amigos porque está sempre nervoso e irritado.
– Uma pessoa que usa hormônios da tireoide sem receita se isola porque está sempre cansada e sem paciência.
– Relacionamentos amorosos:
– Uma mulher que toma diuréticos para emagrecer vive brigando com o namorado porque passa mal durante encontros românticos.
– Um homem que usa antiácidos em excesso deixa de ter relações sexuais porque está sempre com dor de estômago.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Ter uma briga com o parceiro por outros motivos (dinheiro, ciúmes).
– Sintoma: Várias brigas porque a pessoa não consegue parar de tomar a substância, mesmo sabendo que isso prejudica o relacionamento.
Um detalhe importante: Não é só “ter um sintoma”
Muitas pessoas podem se identificar com um ou dois desses critérios em algum momento da vida. Por exemplo:
– Todo mundo já chegou atrasado no trabalho por algum motivo.
– Quase todo mundo já brigou com alguém por estresse.
Mas no abuso de substâncias (F55), o que importa é:
✅ Recorrência: Os problemas acontecem várias vezes (não só uma ou duas).
✅ Duração: Os sintomas persistem por pelo menos 12 meses.
✅ Impacto na vida: O uso da substância prejudica áreas importantes (trabalho, relacionamentos, saúde).
✅ Sem dependência física: A pessoa não sente abstinência (tremores, suor, ansiedade) quando para de usar.
Se você ou alguém que você conhece se identifica com vários desses pontos, pode ser hora de procurar ajuda.
Como se manifesta no dia a dia?
O abuso de substâncias não dependentes não é só um “hábito ruim” — ele muda a rotina, os relacionamentos e até a saúde física da pessoa. Vamos ver como isso acontece em diferentes áreas da vida.
No trabalho ou na escola
- Faltas e atrasos:
- Uma pessoa que toma laxantes para emagrecer vive faltando ao trabalho porque passa mal no banheiro.
- Um estudante que usa energéticos em excesso dorme na aula porque teve insônia na noite anterior.
- Queda no desempenho:
- Um funcionário que toma analgésicos fortes tem dificuldade de concentração e comete erros no serviço.
- Uma universitária que usa hormônios da tireoide sem receita não consegue estudar porque está sempre cansada.
- Problemas com colegas:
- Um chefe que toma muitos energéticos vive gritando com a equipe porque está irritado.
- Uma colega de trabalho que usa diuréticos some no meio do expediente porque está sempre no banheiro.
Nos relacionamentos
- Brigas constantes:
- Um casal vive discutindo porque a mulher gasta todo o dinheiro em laxantes e o marido não aguenta mais.
- Uma mãe que toma antiácidos em excesso vive irritada com os filhos porque está sempre com dor de estômago.
- Isolamento social:
- Um jovem que toma energéticos o dia todo para de sair com os amigos porque está sempre nervoso.
- Uma pessoa que usa vitaminas em excesso evita encontros porque tem medo de passar mal na frente dos outros.
- Desconfiança:
- O parceiro de alguém que usa hormônios sem receita começa a desconfiar que a pessoa está doente (por causa das mudanças de humor).
- Os pais de um adolescente que toma xarope para tosse acham que ele está usando drogas ilícitas.
Na rotina diária
- Sono bagunçado:
- Quem toma muitos energéticos tem insônia e passa a noite rolando na cama.
- Quem usa diuréticos à noite acorda várias vezes para ir ao banheiro.
- Alimentação desregulada:
- Uma pessoa que toma laxantes para emagrecer não consegue comer direito porque vive com dor de barriga.
- Quem usa antiácidos em excesso perde o apetite porque o estômago está sempre cheio de remédio.
- Autocuidado prejudicado:
- Alguém que toma analgésicos fortes deixa de escovar os dentes porque está sempre sonolento.
- Uma pessoa que usa hormônios da tireoide sem receita para de se exercitar porque está sempre cansada.
Na saúde física
O abuso de substâncias não dependentes não causa dependência física, mas pode prejudicar o corpo de outras formas:
– Laxantes em excesso:
– Causam desidratação, desequilíbrio de eletrólitos (potássio, sódio) e danos ao intestino (como síndrome do intestino irritável).
– Analgésicos em excesso (paracetamol, dipirona):
– Podem levar a insuficiência hepática (falência do fígado) e problemas renais.
– Diuréticos em excesso:
– Causam desidratação, pressão baixa e problemas cardíacos.
– Energéticos em excesso:
– Podem causar arritmias cardíacas, ansiedade grave e insônia crônica.
– Hormônios da tireoide sem receita:
– Levam a hipertireoidismo (coração acelerado, tremores, perda de peso excessiva).
O que causa essa condição?
Não existe uma única causa para o abuso de substâncias não dependentes. Na verdade, é uma combinação de fatores que tornam uma pessoa mais vulnerável. Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos: “Será que isso vem de família?”
Algumas pessoas têm uma predisposição genética para desenvolver comportamentos compulsivos, incluindo o abuso de substâncias. Isso não significa que “se seu pai abusava de laxantes, você também vai”, mas sim que algumas pessoas têm mais dificuldade de controlar impulsos por questões biológicas.
Analogia:
Imagine que o cérebro é como um carro. Algumas pessoas nascem com um freio mais fraco — ou seja, têm mais dificuldade de parar um comportamento, mesmo quando sabem que é prejudicial. Outras têm um freio mais forte e conseguem parar mais facilmente.
Exemplo:
– Se uma pessoa tem histórico familiar de transtornos alimentares (como anorexia ou bulimia), ela pode ter mais tendência a abusar de laxantes ou diuréticos.
– Se alguém tem pais ou irmãos com dependência química, pode ter mais dificuldade de controlar o uso de analgésicos ou energéticos.
2. Fatores neurobiológicos: O que acontece no cérebro?
O cérebro tem um sistema de recompensa, que é ativado quando fazemos algo prazeroso (como comer, fazer sexo ou receber um elogio). Algumas substâncias ativam esse sistema de forma exagerada, fazendo a pessoa sentir uma necessidade psicológica de continuar usando, mesmo sem dependência física.
Como isso funciona?
– Quando uma pessoa toma um energético, a cafeína estimula a liberação de dopamina (o “hormônio do prazer”).
– Se ela repete isso várias vezes, o cérebro se acostuma e passa a exigir essa sensação para se sentir “normal”.
– Mesmo sem abstinência física, a pessoa sente uma vontade forte de continuar usando.
Analogia:
É como comer chocolate. Você não é viciado em chocolate (não sente tremores se não comer), mas se acostuma a comer todo dia, passa a sentir falta quando não come. O abuso de substâncias não dependentes funciona de forma parecida.
3. Fatores ambientais: O que acontece ao redor da pessoa?
O ambiente em que vivemos influencia muito nossos comportamentos. Alguns fatores que aumentam o risco de abuso de substâncias não dependentes:
- Pressão social:
- Uma mulher que sofre pressão para ser magra pode começar a usar laxantes ou diuréticos para emagrecer rápido.
- Um jovem que vê influenciadores tomando energéticos o dia todo pode achar que isso é normal e começar a fazer o mesmo.
- Estresse e ansiedade:
- Uma pessoa que passa por divórcio ou desemprego pode começar a tomar analgésicos em excesso para aliviar a dor emocional.
- Um estudante com ansiedade antes de provas pode abusar de energéticos para “aguentar” a noite de estudos.
- Acesso fácil às substâncias:
- No Brasil, analgésicos, laxantes e antiácidos são vendidos sem receita, o que facilita o abuso.
- Energéticos são encontrados em qualquer padaria ou supermercado, sem restrições.
4. Fatores psicológicos: O que a pessoa sente por dentro?
Algumas características psicológicas aumentam o risco de abuso de substâncias:
- Perfeccionismo:
- Pessoas que exigem muito de si mesmas podem abusar de hormônios da tireoide para emagrecer mais rápido ou de energéticos para render mais no trabalho.
- Baixa autoestima:
- Quem não se sente bem consigo mesmo pode usar laxantes ou diuréticos para se sentir mais magro e aceito.
- Impulsividade:
- Pessoas impulsivas têm mais dificuldade de controlar o uso de substâncias, mesmo sabendo que fazem mal.
- Transtornos mentais associados:
- Depressão: A pessoa pode tomar analgésicos em excesso para “aliviar” a tristeza.
- Ansiedade: Pode abusar de energéticos para se sentir mais alerta.
- Transtornos alimentares: Pode usar laxantes ou diuréticos para controlar o peso.
Modelo biopsicossocial: A combinação de tudo
O abuso de substâncias não dependentes não tem uma causa única — é sempre uma mistura de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Por exemplo:
| Fator | Exemplo |
|---|---|
| Biológico | A pessoa tem predisposição genética para comportamentos compulsivos. |
| Psicológico | Ela é perfeccionista e quer emagrecer rápido. |
| Social | Vive em uma cultura que valoriza corpos magros. |
| Resultado | Começa a abusar de laxantes para perder peso, mesmo sabendo que faz mal. |
Mitos e verdades sobre as causas
❌ Mito 1: “Só pessoas fracas abusam de substâncias.”
✅ Verdade: O abuso de substâncias não tem a ver com força de vontade. É uma condição médica, assim como diabetes ou hipertensão. Ninguém escolhe ter dificuldade de controlar um comportamento.
❌ Mito 2: “Se não causa dependência física, não é grave.”
✅ Verdade: Mesmo sem abstinência, o abuso pode destruir a vida da pessoa: causar problemas no trabalho, nos relacionamentos e até doenças físicas graves (como falência do fígado por excesso de paracetamol).
❌ Mito 3: “Só quem usa drogas ilícitas tem problemas com substâncias.”
✅ Verdade: Remédios comuns, energéticos e até vitaminas podem ser abusados e causar danos sérios. O problema não é a substância em si, mas como ela é usada.
❌ Mito 4: “Se a pessoa quiser, ela para sozinha.”
✅ Verdade: Muitas pessoas tentam parar e não conseguem, mesmo sabendo que faz mal. Isso acontece porque o cérebro se acostuma com o padrão de uso, e parar exige ajuda profissional.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de abuso de substâncias não dependentes (F55) não é como fazer um exame de sangue e pronto. É um processo cuidadoso, que envolve conversas, avaliações e, às vezes, exames. Vamos entender como funciona.
1. O primeiro passo: Reconhecer que algo está errado
Muitas pessoas demoram anos para perceber que têm um problema. Isso acontece porque:
– O abuso de substâncias não dependentes não causa sintomas físicos óbvios (como tremores ou suor frio).
– A pessoa justifica o uso (“É só um remédio”, “Todo mundo toma”, “Não faz mal”).
– Os problemas aparecem devagar (um atraso no trabalho aqui, uma briga com o parceiro ali).
Sinais de que pode ser hora de procurar ajuda:
✔ Você sente que precisa da substância para funcionar no dia a dia.
✔ Já tentou parar e não conseguiu.
✔ As pessoas ao seu redor reclamam do seu uso.
✔ Você esconde o quanto usa da família ou amigos.
✔ O uso está prejudicando sua vida (trabalho, relacionamentos, saúde).
2. Quem pode diagnosticar?
No Brasil, os profissionais que podem fazer esse diagnóstico são:
– Psiquiatras (médicos especializados em saúde mental).
– Psicólogos clínicos (podem identificar o problema e encaminhar para um psiquiatra, se necessário).
– Médicos de família ou clínicos gerais (em unidades básicas de saúde, podem fazer uma avaliação inicial).
Onde procurar ajuda?
– SUS (Sistema Único de Saúde):
– UBS (Unidade Básica de Saúde): O médico de família pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um psiquiatra.
– CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Especializado em saúde mental, oferece atendimento gratuito.
– Hospitais universitários: Alguns têm ambulatórios de psiquiatria com atendimento gratuito.
– Particular:
– Consultórios de psiquiatras e psicólogos.
– Clínicas especializadas em dependência química (algumas tratam também abuso de substâncias não dependentes).
3. O que acontece na primeira consulta?
A primeira consulta costuma durar 40 a 60 minutos e é uma conversa detalhada sobre:
– Histórico de uso da substância:
– O que você usa? (laxantes, analgésicos, energéticos, etc.)
– Com que frequência? (todos os dias? só em situações de estresse?)
– Há quanto tempo?
– Já tentou parar? Como foi?
– Impacto na vida:
– Como o uso está afetando seu trabalho, relacionamentos e saúde?
– Já teve problemas legais ou acidentes por causa disso?
– Histórico médico e psicológico:
– Tem outras doenças? (depressão, ansiedade, transtornos alimentares?)
– Toma outros remédios?
– Tem histórico familiar de dependência ou transtornos mentais?
– Exame físico (se necessário):
– O médico pode pedir exames de sangue ou urina para verificar se a substância está causando danos ao corpo (ex.: fígado, rins).
Dica: Não tenha vergonha de falar a verdade. O médico não está ali para julgar, mas para ajudar. Se você esconder informações, o diagnóstico pode ficar incompleto.
4. Quanto tempo leva para ser diagnosticado?
Depende de cada caso:
– Casos simples: Se a pessoa já reconhece o problema e os sintomas são claros, o diagnóstico pode ser feito em 1 ou 2 consultas.
– Casos complexos: Se há outros transtornos mentais associados (como depressão ou ansiedade), pode levar algumas semanas para uma avaliação completa.
5. Diagnóstico diferencial: O que pode ser confundido com F55?
Às vezes, os sintomas do abuso de substâncias não dependentes se parecem com outras condições. O médico precisa descartar:
| Condição | Como se diferencia do F55? |
|---|---|
| Dependência de substâncias (F10-F19) | Na dependência, há sintomas físicos de abstinência (tremores, suor, ansiedade). No F55, não. |
| Transtorno de ansiedade | A ansiedade pode levar ao uso de substâncias, mas não é causada por elas. No F55, o uso é o problema central. |
| Depressão | A depressão pode fazer a pessoa usar substâncias para “aliviar” a tristeza, mas não é o uso que causa os sintomas. |
| Transtornos alimentares | O abuso de laxantes/diuréticos pode ser parte de um transtorno alimentar (como bulimia), mas nem sempre. |
| Transtorno de controle de impulsos | Algumas pessoas têm dificuldade de controlar impulsos (como comprar compulsivamente), mas não necessariamente abusam de substâncias. |
Tratamento
O tratamento do abuso de substâncias não dependentes (F55) é multidisciplinar, ou seja, envolve médicos, psicólogos e mudanças no estilo de vida. Não existe uma “pílula mágica” que resolva tudo, mas com ajuda profissional, é possível retomar o controle.
1. Medicamentos: Quando são necessários?
Nem todo mundo precisa de remédios, mas em alguns casos, eles ajudam a:
– Controlar sintomas de ansiedade ou depressão (que podem estar por trás do abuso).
– Tratar problemas físicos causados pelo uso excessivo (ex.: remédios para proteger o fígado em casos de abuso de paracetamol).
Classes de medicamentos que podem ser usadas:
| Medicamento | Para que serve? | Como funciona? | Efeitos colaterais comuns |
|———————–|————————————————————————————|————————————————————————————|—————————————————|
| Antidepressivos (ISRS) | Tratar depressão ou ansiedade associadas ao abuso. | Aumentam a serotonina no cérebro, melhorando o humor e reduzindo a compulsão. | Náusea, sonolência, diminuição da libido. |
| Estabilizadores de humor | Controlar impulsos e oscilações de humor. | Regulam a atividade elétrica do cérebro. | Ganho de peso, tremores, sonolência. |
| Protetores hepáticos | Proteger o fígado em casos de abuso de analgésicos (como paracetamol). | Auxiliam na recuperação das células do fígado. | Poucos efeitos colaterais. |
| Suplementos | Repor nutrientes perdidos (ex.: potássio em casos de abuso de diuréticos). | Repõem vitaminas e minerais essenciais. | Geralmente bem tolerados. |
Importante:
– Os remédios não “curam” o abuso, mas ajudam a controlar sintomas que podem estar piorando o problema.
– Nunca pare ou mude a dose de um remédio sem orientação médica. Alguns medicamentos (como antidepressivos) precisam ser retirados devagar para evitar efeitos colaterais.
2. Psicoterapia: A base do tratamento
A terapia é fundamental para entender por que a pessoa começou a abusar da substância e como mudar esse padrão. As abordagens mais usadas são:
A. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
O que é? Uma terapia prática e focada no presente, que ajuda a identificar pensamentos e comportamentos que levam ao abuso.
Como funciona?
– Identificação de gatilhos: O que faz a pessoa usar a substância? (estresse, ansiedade, tédio?)
– Técnicas de enfrentamento: Como lidar com esses gatilhos sem recorrer à substância? (ex.: respirar fundo, sair para caminhar, ligar para um amigo).
– Prevenção de recaídas: Como evitar voltar ao padrão de uso depois de parar?
Exemplo prático:
– Gatilho: Uma pessoa toma energéticos sempre que está cansada no trabalho.
– Alternativa: Em vez de tomar o energético, ela aprende a fazer pausas curtas durante o dia e beber água para se manter alerta.
Duração: Geralmente 12 a 24 sessões, mas pode variar.
B. Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
O que é? Uma terapia que ensina a aceitar pensamentos e emoções difíceis sem precisar “fugir” deles com substâncias.
Como funciona?
– Mindfulness: Aprender a observar os pensamentos sem se deixar levar por eles.
– Valores pessoais: Identificar o que realmente importa na vida (família, carreira, saúde) e usar isso como motivação para mudar.
– Ação comprometida: Agir de acordo com esses valores, mesmo quando é difícil.
Exemplo prático:
– Pensamento: “Preciso tomar laxantes para emagrecer, senão ninguém vai me amar.”
– Aceitação: “Esse pensamento está aqui, mas não preciso obedecê-lo. Posso escolher me cuidar de outras formas.”
– Ação: Em vez de tomar laxantes, a pessoa come alimentos saudáveis e faz exercícios que gosta.
Duração: Pode ser usada a longo prazo, especialmente para quem tem dificuldade de lidar com emoções.
C. Terapia Familiar
O que é? Uma terapia que envolve a família no tratamento, porque o abuso de substâncias afeta (e é afetado) pelas relações familiares.
Como funciona?
– Comunicação: Ensinar a família a falar sobre o problema sem julgamentos.
– Limites: Estabelecer regras saudáveis (ex.: não comprar a substância para a pessoa).
– Apoio: Mostrar como a família pode ajudar sem reforçar o comportamento.
Exemplo prático:
– Problema: A mãe de uma jovem que abusa de laxantes compra os remédios para ela, achando que está ajudando.
– Solução: A família aprende a não facilitar o acesso à substância e a oferecer apoio emocional em vez de remédios.
Duração: Geralmente 10 a 20 sessões, dependendo da dinâmica familiar.
3. Mudanças no dia a dia: O que você pode fazer agora
Além da terapia e dos remédios, pequenas mudanças na rotina fazem uma grande diferença na recuperação.
A. Sono: A base de tudo
O abuso de substâncias (especialmente energéticos e analgésicos) bagunça o sono, e um sono ruim piora o abuso. Algumas dicas:
– Horário regular: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana.
– Ambiente escuro e silencioso: Use cortinas blackout e, se necessário, tampões de ouvido.
– Evite telas antes de dormir: A luz azul do celular atrapalha a produção de melatonina (hormônio do sono).
– Rotina relaxante: Tome um chá (camomila, erva-doce), leia um livro ou ouça uma música calma antes de dormir.
Dica: Se você toma energéticos, tente reduzir a dose aos poucos e substituir por chás naturais (como chá verde, que tem cafeína, mas em menor quantidade).
B. Alimentação: O que comer (e o que evitar)
Algumas substâncias prejudicam a absorção de nutrientes ou desregulam o apetite. O que fazer:
– Abuso de laxantes/diuréticos:
– Aumente o consumo de fibras (frutas, verduras, aveia) para regular o intestino sem remédios.
– Beba bastante água para evitar desidratação.
– Evite alimentos industrializados (eles pioram a prisão de ventre).
– Abuso de analgésicos:
– Proteja o fígado com alimentos como brócolis, couve e cenoura.
– Evite álcool (ele sobrecarrega o fígado).
– Abuso de energéticos:
– Reduza o açúcar (muitos energéticos têm doses altíssimas).
– Coma alimentos ricos em magnésio (banana, espinafre, amêndoas) para reduzir a ansiedade.
Dica: Um nutricionista pode ajudar a montar um plano alimentar personalizado.
C. Exercício físico: O remédio natural
O exercício libera endorfina (o “hormônio da felicidade”), que ajuda a reduzir a vontade de usar substâncias. Além disso:
– Melhora o sono.
– Diminui a ansiedade.
– Aumenta a autoestima.
Que tipo de exercício ajuda?
– Caminhada: 30 minutos por dia já fazem diferença.
– Yoga: Ajuda a controlar a ansiedade e os impulsos.
– Musculação: Melhora a autoimagem (importante para quem abusa de laxantes/diuréticos).
– Dança ou esportes em grupo: São divertidos e ajudam a socializar.
Dica: Comece devagar. Se você não está acostumado, 10 minutos por dia já é um bom começo.
D. Técnicas de manejo de estresse
Muitas pessoas abusam de substâncias para lidar com o estresse. Algumas alternativas:
– Respiração 4-7-8:
– Inspire pelo nariz por 4 segundos.
– Prenda a respiração por 7 segundos.
– Expire pela boca por 8 segundos.
– Repita 3 vezes.
– Meditação guiada: Apps como Headspace ou Lojong têm meditações gratuitas.
– Escrita terapêutica: Escrever sobre o que está sentindo ajuda a organizar os pensamentos.
– Técnica do “5-4-3-2-1”: Quando estiver ansioso, nomeie:
– 5 coisas que você vê.
– 4 coisas que você toca.
– 3 coisas que você ouve.
– 2 coisas que você cheira.
– 1 coisa que você saboreia.
E. Tecnologia assistiva
Alguns apps podem ajudar a controlar o uso de substâncias:
– Para abuso de analgésicos:
– Medisafe: Lembra quando é hora de tomar remédios e evita overdoses.
– Para abuso de energéticos/cafeína:
– Coffee Control: Monitora o consumo de cafeína e avisa quando você está exagerando.
– Para controle de impulsos:
– I Am Sober: Ajuda a acompanhar o progresso e oferece motivação diária.
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de abuso de substâncias não dependentes (F55) pode ser assustador no começo, mas com o tempo, muitas pessoas aprendem a viver bem com essa condição. Vamos ver como lidar com isso, tanto para a pessoa diagnosticada quanto para familiares e amigos.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceitação: O primeiro passo
No começo, é comum sentir:
– Vergonha (“Como deixei isso acontecer?”).
– Raiva (“Por que eu?”).
– Negação (“Não é tão grave assim”).
Mas lembre-se:
– O abuso de substâncias não é uma falha de caráter. É uma condição médica, como diabetes ou hipertensão.
– Você não está sozinho. Milhares de pessoas passam pela mesma coisa e conseguem se recuperar.
– Pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza.
Dica: Escreva em um papel:
– “Eu mereço me sentir bem.”
– “Eu posso mudar.”
– “Cada dia sem abusar da substância é uma vitória.”
E cole na geladeira ou no espelho do banheiro.
2. Lidando com as recaídas
Recaída não é fracasso. É parte do processo. Muitas pessoas recaem algumas vezes antes de conseguir controlar o uso.
O que fazer se recair?
✅ Não se culpe. A culpa só piora a situação.
✅ Analise o que aconteceu. O que desencadeou a recaída? (estresse? ansiedade? uma festa?)
✅ Volte ao tratamento. Converse com seu terapeuta ou médico.
✅ Aprenda com a experiência. O que você pode fazer diferente da próxima vez?
Exemplo:
– Situação: Você recaiu e tomou vários energéticos depois de uma briga com o chefe.
– Análise: O gatilho foi o estresse no trabalho.
– Plano: Da próxima vez, em vez de tomar energéticos, você vai respirar fundo e dar uma caminhada.
3. Reconstruindo a autoestima
O abuso de substâncias mexe muito com a autoimagem. Você pode se sentir:
– Fraco (“Não consigo controlar isso”).
– Culpado (“Estou prejudicando minha família”).
– Sem esperança (“Nunca vou melhorar”).
Como reconstruir a autoestima?
– Celebre pequenas vitórias. Conseguiu passar um dia sem usar a substância? Parabéns! Isso é um grande passo.
– Faça uma lista de suas qualidades. Escreva 10 coisas que você gosta em si mesmo (ex.: “Sou bom em ouvir os amigos”, “Tenho senso de humor”).
– Ajude outras pessoas. Fazer algo bom pelos outros aumenta a autoestima. Pode ser um elogio, um favor ou até um trabalho voluntário.
– Cuide do seu corpo. Tome um banho relaxante, faça uma caminhada, coma algo saudável. Você merece se sentir bem.
4. Encontrando novos propósitos
Muitas pessoas abusam de substâncias porque não encontram sentido em outras coisas. Quando param, sentem um vazio. Por isso, é importante descobrir novos interesses.
Algumas ideias:
– Aprender algo novo: Um curso de culinária, pintura, música.
– Praticar um esporte: Futebol, natação, dança.
– Fazer trabalho voluntário: Ajudar em um abrigo de animais, um asilo, uma ONG.
– Escrever um diário: Registrar seus pensamentos e progressos.
Dica: Pergunte a si mesmo:
– “O que eu gostava de fazer quando era criança?”
– “Se eu tivesse todo o tempo do mundo, o que faria?”
Para familiares e amigos
1. Como ajudar (sem sufocar)
Ajudar alguém com abuso de substâncias não é fácil, mas algumas atitudes fazem toda a diferença:
✅ Ouça sem julgar. Em vez de dizer “Você está se matando!”, diga “Estou aqui para te ouvir. Como você está se sentindo?”
✅ Ofereça apoio prático. “Posso te acompanhar na consulta?”, “Quer que eu te ajude a organizar sua rotina?”
✅ Incentive o tratamento. “Você já pensou em conversar com um psicólogo?”
✅ Celebre os progressos. “Fico feliz que você tenha conseguido passar o dia sem usar. Isso é incrível!”
❌ O que NÃO fazer:
– Não minimize o problema. “Ah, é só um remédio, não é droga!” (Isso pode fazer a pessoa se sentir incompreendida.)
– Não dê sermões. “Você não vê que está se destruindo?” (Isso só aumenta a culpa e a resistência.)
– Não facilite o acesso à substância. Se a pessoa abusa de laxantes, não compre para ela.
– Não espere mudanças da noite para o dia. A recuperação é um processo lento.
2. Como cuidar de si mesmo
Ajudar alguém com abuso de substâncias pode ser exaustivo. É comum sentir:
– Culpa (“Será que eu poderia ter feito mais?”).
– Raiva (“Por que ela não para?”).
– Desespero (“Isso nunca vai melhorar”).
Como não se esgotar?
– Estabeleça limites. Você não é responsável pela recuperação da pessoa. Ela precisa querer mudar.
– Busque apoio. Converse com amigos, participe de grupos de apoio (como Nar-Anon, para familiares de dependentes).
– Cuide da sua saúde. Durma bem, alimente-se direito, faça exercícios.
– Reserve um tempo para você. Faça algo que goste: ler, ver um filme, sair com amigos.
Lembre-se: Você não pode controlar o comportamento da outra pessoa, mas pode controlar como reage.
3. Como explicar para outras pessoas
Muitas famílias escondem o problema por vergonha, mas isso só aumenta o estigma. Se você decidir falar sobre o assunto, algumas dicas:
- Seja honesto, mas breve. “Meu filho está passando por um momento difícil com remédios, mas está buscando ajuda.”
- Evite detalhes desnecessários. Não precisa contar como a pessoa usa a substância.
- Enfatize que é uma condição médica. “É como uma doença, não uma escolha.”
- Peça apoio. “Se você souber de algum recurso, me avise.”
Exemplo de como conversar com uma criança:
“O papai está doente, mas está tomando remédio e fazendo terapia para melhorar. Às vezes ele fica cansado, mas logo vai ficar bem.”
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações aumentam o risco de recaída ou piora dos sintomas:
⚠ Estresse intenso: Problemas no trabalho, fim de relacionamento, perda de um ente querido.
⚠ Festas e eventos sociais: Onde há pressão para “aproveitar” (ex.: tomar energéticos para ficar acordado).
⚠ Férias e tempo livre: Quando a rotina some e a pessoa fica sem estrutura.
⚠ Doenças físicas: Uma gripe forte pode levar a pessoa a tomar mais analgésicos.
⚠ Mudanças bruscas: Mudança de cidade, novo emprego, nascimento de um filho.
O que fazer nesses momentos?
– Aumente o autocuidado. Durma mais, alimente-se bem, faça exercícios.
– Evite gatilhos. Se energéticos são um problema, não compre antes de uma festa.
– Peça ajuda. Converse com seu terapeuta ou médico.
– Tenha um plano B. Se sentir vontade de usar a substância, ligue para um amigo ou faça uma atividade que distraia.
Perguntas frequentes
1. “Se não causa dependência física, por que é tão difícil parar?”
Porque o cérebro se acostuma com o padrão de uso, mesmo sem abstinência. É como roer unhas:
– Você não sente dor física se parar, mas sente uma vontade forte de continuar.
– O cérebro associa a substância a um alívio rápido (de estresse, ansiedade, cansaço), e é difícil abrir mão disso.
Exemplo:
Uma pessoa que toma energéticos todos os dias pode não sentir tremores se parar, mas vai se sentir cansada e irritada nos primeiros dias. Isso acontece porque o corpo se acostumou a funcionar com a cafeína.
2. “Posso tratar sozinho, sem médico ou terapia?”
Algumas pessoas conseguem reduzir o uso sozinhas, mas a maioria precisa de ajuda. Por quê?
– O cérebro resiste à mudança. Mesmo sabendo que faz mal, é difícil parar.
– Os gatilhos continuam lá. Se você usava a substância para lidar com estresse, precisa aprender novas formas de lidar com ele.
– Risco de substituir um vício por outro. Algumas pessoas param de abusar de laxantes, mas começam a abusar de analgésicos.
Quando tentar sozinho?
– Se o uso ainda não prejudicou sua vida (trabalho, relacionamentos, saúde).
– Se você consegue reduzir aos poucos sem sofrer muito.
– Se não tem outros transtornos mentais (como depressão ou ansiedade).
Quando procurar ajuda?
– Se já tentou parar várias vezes e não conseguiu.
– Se o uso está prejudicando sua vida.
– Se você sente que não tem controle sobre o uso.
3. “Quanto tempo leva para melhorar?”
Não existe um prazo exato, porque cada pessoa é diferente. Mas em geral:
– Primeiras semanas: Os sintomas de irritabilidade, cansaço ou ansiedade (se houver) melhoram.
– 3 a 6 meses: A pessoa começa a sentir mais controle sobre o uso.
– 1 ano ou mais: O padrão de uso se normaliza, e a pessoa consegue viver sem depender da substância.
Fatores que influenciam a recuperação:
✅ Adesão ao tratamento (fazer terapia, tomar remédios se necessário).
✅ Apoio familiar e social.
✅ Mudanças no estilo de vida (sono, alimentação, exercícios).
❌ Recaídas frequentes.
❌ Outros transtornos mentais não tratados (depressão, ansiedade).
4. “Meu filho adolescente está abusando de energéticos. O que fazer?”
O abuso de energéticos é comum entre adolescentes, especialmente por:
– Pressão para ter bom desempenho (escola, esportes).
– Influência de amigos ou influenciadores.
– Falta de sono (por ficar até tarde no celular).
Como ajudar?
– Converse sem julgar. Em vez de “Você está se matando!”, diga “Percebi que você anda tomando muitos energéticos. Como está se sentindo?”
– Explique os riscos. Mostre artigos ou vídeos sobre arritmias cardíacas e ansiedade causadas por energéticos.
– Ofereça alternativas. “Que tal um suco natural em vez do energético?”
– Estabeleça limites. “Não vou comprar energéticos para você, mas posso te ajudar a encontrar outras formas de ter energia.”
– Procure ajuda profissional. Um psicólogo especializado em adolescentes pode ajudar.
Sinais de alerta:
– Mudança de comportamento (irritabilidade, isolamento).
– Queda no desempenho escolar.
– Problemas de sono (insônia ou sono excessivo).
– Gastos excessivos com energéticos.
5. “Abuso de laxantes pode causar danos permanentes?”
Sim. O uso crônico de laxantes pode causar danos graves e irreversíveis ao intestino, como:
– Síndrome do intestino irritável: Dor abdominal, diarreia ou prisão de ventre crônicas.
– Desequilíbrio eletrolítico: Falta de potássio, sódio ou magnésio, que pode levar a arritmias cardíacas e até morte súbita.
– Dependência do intestino: O intestino para de funcionar sozinho e a pessoa só consegue evacuar com laxantes.
– Danificação dos nervos do intestino: Pode causar incontinência fecal (perda involuntária de fezes).
O que fazer?
– Pare de usar laxantes imediatamente (com orientação médica).
– Aumente a ingestão de fibras (frutas, verduras, aveia).
– Beba bastante água.
– Faça exercícios físicos (caminhada ajuda o intestino a funcionar).
– Procure um gastroenterologista para avaliar possíveis danos.
6. “Posso tomar analgésicos comuns sem receita?”
No Brasil, paracetamol e dipirona são vendidos sem receita, mas isso não significa que sejam inofensivos. O problema não é tomar uma vez ou outra, mas usar em excesso.
Riscos do uso excessivo:
– Paracetamol: Doses acima de 4g por dia (8 comprimidos de 500mg) podem causar falência do fígado.
– Dipirona: Pode causar agranulocitose (queda nas células de defesa do sangue), embora seja raro.
Quando procurar um médico?
– Se você toma mais de 2 comprimidos por dia, por mais de uma semana.
– Se sente dor constante que não melhora com analgésicos comuns.
– Se tem problemas no fígado ou rins.
Alternativas para dor leve:
– Compressa quente ou fria (dependendo do tipo de dor).
– Massagem.
– Alongamentos.
– Chás (camomila para dor de cabeça, gengibre para inflamações).
7. “O SUS trata abuso de substâncias não dependentes?”
Sim! O SUS oferece tratamento gratuito para abuso de substâncias, incluindo as não dependentes. Os principais serviços são:
| Serviço | O que oferece? | Como acessar? |
|---|---|---|
| UBS (Unidade Básica de Saúde) | Avaliação inicial, encaminhamento para psiquiatra ou psicólogo. | Procure a UBS mais próxima com seu cartão do SUS. |
| CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) | Atendimento com psiquiatras, psicólogos e grupos terapêuticos. | O encaminhamento pode ser feito pela UBS ou diretamente no CAPS. |
| CAPS AD (Álcool e Drogas) | Especializado em dependência química, mas também atende abuso de substâncias. | Mesmo processo do CAPS. |
| Hospitais universitários | Atendimento com psiquiatras e residentes em saúde mental. | Alguns hospitais oferecem ambulatórios gratuitos (ex.: USP, Unifesp). |
| CVV (Centro de Valorização da Vida) | Apoio emocional por telefone, chat ou e-mail. | Ligue 188 (gratuito) ou acesse www.cvv.org.br. |
Dica: Se você não sabe por onde começar, vá à UBS mais próxima. O médico de família pode te orientar.
8. “Abuso de substâncias não dependentes pode virar dependência?”
Não necessariamente. Algumas substâncias não causam dependência física, mas outras podem levar a ela se usadas de forma abusiva por muito tempo.
Exemplos:
– Laxantes e diuréticos: Não causam dependência física, mas o uso crônico pode danificar o intestino e os rins.
– Analgésicos comuns (paracetamol, dipirona): Não causam dependência, mas o uso excessivo pode danificar o fígado.
– Xaropes para tosse (com codeína): Podem causar dependência se usados em excesso.
– Energéticos (com cafeína): Podem causar dependência leve (a pessoa sente que “precisa” para funcionar).
O que aumenta o risco de dependência?
– Uso diário por longos períodos.
– Histórico familiar de dependência química.
– Outros transtornos mentais (depressão, ansiedade).
Como evitar?
– Não use a substância como “muleta” para lidar com emoções.
– Siga as orientações médicas (não aumente a dose por conta própria).
– Procure ajuda se sentir que está perdendo o controle.
Quando procurar ajuda urgente
Na maioria dos casos, o abuso de substâncias não dependentes não é uma emergência médica, mas algumas situações exigem atendimento imediato:
🚨 Sinais de alerta vermelho (procure um hospital ou SAMU 192)
- Overdose de analgésicos (paracetamol, dipirona):
- Dor abdominal intensa.
- Vômitos persistentes.
- Pele e olhos amarelados (sinal de falência do fígado).
- Confusão mental ou sonolência excessiva.
- Abuso de diuréticos/laxantes:
- Desmaio ou tontura forte.
- Batimentos cardíacos irregulares (arritmia).
- Fraqueza muscular extrema.
- Não urinar por mais de 12 horas.
- Abuso de energéticos:
- Dor no peito.
- Batimentos cardíacos acelerados (mais de 120 bpm em repouso).
- Convulsões.
- Alucinações ou paranoia.
🟡 Sinais de alerta amarelo (procure um médico ou CAPS nas próximas 24h)
- Pensamentos suicidas (“Não aguento mais viver assim”).
- Sintomas de depressão grave (tristeza profunda, falta de vontade de viver).
- Sintomas de ansiedade grave (ataques de pânico, medo constante).
- Problemas físicos persistentes (dor de cabeça, dor abdominal, insônia).
🟢 Sinais de alerta verde (procure ajuda ambulatorial)
- Vontade frequente de usar a substância.
- Dificuldade de controlar o uso.
- Problemas no trabalho ou nos relacionamentos.
- Sentimento de culpa ou vergonha.
Lembre-se: Não espere chegar ao ponto de uma emergência. Se você ou alguém que você conhece está sofrendo, procure ajuda o quanto antes.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-10). 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- National Institute on Drug Abuse (NIDA). Principles of Drug Addiction Treatment: A Research-Based Guide. 3ª ed. 2018.
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Uso de energéticos por adolescentes: riscos e orientações. 2019.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Relatório de consumo de medicamentos no Brasil. 2020.
- Kaplan & Sadock. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.