Disfunção sexual, não causada por transtorno ou doença orgânica (CID-10: F52)

Um guia completo para entender, reconhecer e lidar com as dificuldades sexuais que não têm causa física


O que é?

Imagine que o desejo sexual, a excitação e o prazer são como um rádio. Em algumas pessoas, o aparelho funciona perfeitamente: basta ligar, sintonizar a estação certa e a música toca. Em outras, o rádio parece desregulado — às vezes não liga, outras vezes o som sai distorcido, ou a estação some no meio da música. A disfunção sexual não causada por doença orgânica é como esse rádio com defeito, mas sem um problema no próprio aparelho. Não é uma questão de fiação queimada (como um problema hormonal ou neurológico), nem de falta de energia (como uma doença física). É como se o “software” que controla o desejo, a excitação e o prazer estivesse com algum bug, mesmo que o “hardware” (o corpo) esteja intacto.

Essa condição inclui uma série de dificuldades que afetam a vida sexual de uma pessoa, como:
Falta de desejo (não sentir vontade de ter relações ou fantasias sexuais);
Dificuldade de excitação (não conseguir ficar lubrificada, no caso das mulheres, ou ter ereção, no caso dos homens);
Problemas para chegar ao orgasmo (mesmo com estímulo adequado);
Dor durante o sexo (sem uma causa física identificável);
Aversão ao sexo (sentir nojo, medo ou ansiedade só de pensar em atividade sexual).

A diferença entre uma dificuldade passageira e uma disfunção sexual está em três coisas:
1. Persistência: Não é algo que acontece uma vez ou outra, mas sim de forma recorrente (por pelo menos 6 meses, em geral).
2. Sofrimento: Causa angústia, frustração ou problemas nos relacionamentos.
3. Sem causa física: Exames médicos não encontram doenças, desequilíbrios hormonais, efeitos de remédios ou lesões que expliquem o problema.

Como isso se diferencia de outras condições?

Muitas pessoas confundem disfunção sexual com:
Problemas físicos (como diabetes, pressão alta ou efeitos colaterais de remédios): Nesses casos, o médico encontra uma causa orgânica clara (ex.: baixa testosterona, lesão na medula espinhal). Aqui, não.
Fases normais da vida (como estresse no trabalho ou cansaço): Todo mundo passa por períodos de menos desejo, mas na disfunção sexual, o problema é constante e atrapalha a qualidade de vida.
Falta de atração pelo parceiro: A disfunção acontece independentemente da pessoa com quem se está (ou até mesmo sozinho, como na masturbação).
Transtornos mentais (como depressão ou ansiedade): Embora esses transtornos possam causar disfunção sexual, aqui o foco é na dificuldade sexual em si, mesmo que a pessoa não tenha outro diagnóstico psiquiátrico.

Quem é afetado? Dados e realidade brasileira

Não há muitos estudos brasileiros específicos sobre disfunção sexual não orgânica, mas dados internacionais e pesquisas locais dão uma ideia do cenário:

  • Prevalência: Cerca de 30 a 45% das mulheres e 20 a 30% dos homens relatam algum tipo de disfunção sexual ao longo da vida. No Brasil, um estudo da Universidade de São Paulo (USP) com 1.219 mulheres encontrou que 49% delas tinham algum grau de disfunção sexual, sendo a falta de desejo o problema mais comum (34,6%).
  • Idade: O problema pode aparecer em qualquer fase da vida, mas é mais comum a partir dos 30-40 anos, quando fatores como estresse, rotina e desgaste nos relacionamentos começam a pesar.
  • Gênero:
  • Mulheres tendem a relatar mais falta de desejo e dificuldade de excitação/lubrificação.
  • Homens procuram mais ajuda para disfunção erétil e ejaculação precoce.
  • Pessoas LGBTQIA+ enfrentam desafios adicionais, como falta de informação sobre suas especificidades e preconceito na hora de buscar tratamento.
  • Impacto social: No Brasil, apenas 10% das pessoas com disfunção sexual procuram ajuda profissional, segundo a Sociedade Brasileira de Urologia. Muitas sofrem em silêncio por vergonha, medo de serem julgadas ou por achar que “é coisa da cabeça”.

Um pouco de história: como a sociedade enxergou (e ainda enxerga) a disfunção sexual

Durante séculos, problemas sexuais eram vistos como:
“Frescura” (especialmente para mulheres, que eram ensinadas que “sexo era obrigação”);
Pecado (ligado a religiões que associavam prazer a culpa);
Fraqueza moral (homens com disfunção erétil eram chamados de “impotentes”, como se fosse falta de caráter).

Foi só no século XX que a medicina começou a estudar a sexualidade de forma científica. Em 1966, os pesquisadores Masters & Johnson revolucionaram o campo ao mostrar que a resposta sexual humana seguia um ciclo (desejo → excitação → platô → orgasmo → resolução) e que problemas nesse ciclo podiam ter causas psicológicas. No Brasil, a discussão ganhou força nos anos 1980, com a abertura política e o movimento feminista questionando tabus sobre o prazer feminino.

Hoje, ainda há muito estigma. Frases como “Isso é coisa da sua cabeça” ou “Você só precisa relaxar” são comuns, mas minimizam o sofrimento real de quem vive com disfunção sexual. A verdade é que a mente e o corpo estão conectados: mesmo que não haja uma doença física, o cérebro é o órgão sexual mais importante — e quando ele “trava”, o corpo responde.


Quais são os sintomas?

A disfunção sexual não orgânica pode se manifestar de várias formas. Vamos detalhar cada uma delas, com exemplos práticos para você identificar se o que está sentindo vai além do “normal”.

1. Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo (F52.0 / 302.71)

O que é?
É a falta persistente ou recorrente de fantasias sexuais e desejo de ter atividade sexual, causando sofrimento ou problemas no relacionamento. Não é só “estar sem vontade hoje” — é como se o botão do desejo estivesse quebrado, mesmo quando tudo ao redor parece favorável.

Critérios diagnósticos traduzidos para linguagem simples:
Falta de desejo (Critério A):
– Você não sente vontade de transar, nem mesmo quando vê cenas sensuais em filmes ou quando seu parceiro(a) se insinua.
Fantasias sexuais são raras ou inexistentes — você não pensa em sexo espontaneamente, nem quando está sozinho(a).
Exemplo 1: Sua parceira(o) se arruma toda para uma noite romântica, mas você olha para ela(e) e pensa: “Tá bonita(o), mas não estou com vontade. Será que tem algo errado comigo?”.
Exemplo 2: Você está solteiro(a) e vê alguém atraente na rua, mas não sente nenhum interesse em flertar ou imaginar algo a mais.
Exemplo 3: Você até transa por obrigação ou para agradar o outro, mas não sente prazer e fica aliviado(a) quando acaba.

Causa sofrimento ou problemas no relacionamento (Critério B):
– Você se sente frustrado(a), culpado(a) ou menosprezado(a) por não ter desejo.
– Seu parceiro(a) reclama, fica magoado(a) ou acha que não é mais atraente para você.
Exemplo: Seu namorado diz: “A gente transa uma vez por mês, você não me deseja mais?”, e você não sabe o que responder porque, de fato, não sente vontade — mas gostaria de sentir.
Exemplo 2: Você evita situações íntimas (como dormir na mesma cama) para não ter que lidar com a cobrança.

Não é causado por outra coisa (Critério C):
Não é por remédio (ex.: antidepressivos podem diminuir o desejo, mas nesse caso o diagnóstico seria outro).
Não é por doença física (ex.: hipotireoidismo, diabetes, baixa testosterona).
Não é por outro transtorno mental (ex.: depressão grave pode tirar o desejo, mas aqui o foco é na falta de desejo, mesmo que a pessoa não esteja deprimida).

O que é NORMAL vs. o que é sintoma?
Normal: Ter menos desejo em fases de estresse (ex.: final de ano no trabalho, luto, doença na família).
Sintoma: Nunca sentir vontade, mesmo em momentos tranquilos, ou sentir que o desejo desapareceu de vez sem motivo aparente.


2. Transtorno da Excitação Sexual Feminina (F52.2 / 302.72)

O que é?
É a dificuldade persistente de uma mulher ficar excitada durante a atividade sexual, mesmo com estímulo adequado. Não é “falta de lubrificação por um dia” — é como se o corpo não respondesse aos estímulos, como um carro que não liga mesmo com a chave na ignição.

Critérios diagnósticos traduzidos:
Dificuldade de excitação (Critério A):
Não há lubrificação vaginal (a vagina fica seca, mesmo com preliminares).
Não há inchaço dos lábios vaginais ou clitóris (sinais físicos de excitação).
Exemplo 1: Você e seu parceiro(a) estão se beijando e se tocando há 20 minutos, mas sua vagina não fica molhada, como se o corpo estivesse “desligado”.
Exemplo 2: Você tenta se masturbar, mas mesmo com estímulo direto no clitóris, não sente prazer e a região não responde.
Exemplo 3: Durante a penetração, você sente dor ou desconforto porque a vagina não está lubrificada, mesmo que você queira transar.

Causa sofrimento ou problemas no relacionamento (Critério B):
– Você evita sexo porque sabe que vai ser desconfortável ou frustrante.
– Seu parceiro(a) não entende e acha que você não está atraída por ele(a).
Exemplo: Você inventa desculpas (“estou cansada”, “estou com dor de cabeça”) para não transar, porque sabe que não vai conseguir ficar excitada.

Não é causado por outra coisa (Critério C):
Não é falta de estímulo (ex.: preliminares rápidas demais).
Não é por remédio (ex.: pílula anticoncepcional pode diminuir a lubrificação, mas aqui o problema é mais profundo).
Não é por doença física (ex.: vaginite, menopausa — nesses casos, o diagnóstico seria outro).

O que é NORMAL vs. o que é sintoma?
Normal: Ter menos lubrificação em alguns dias (ex.: antes da menstruação, com estresse).
Sintoma: Nunca ficar lubrificada, mesmo com estímulo prolongado e em situações relaxadas.


3. Transtorno Erétil Masculino (F52.2 / 302.72)

O que é?
É a incapacidade persistente de ter ou manter uma ereção suficiente para uma relação sexual satisfatória. Não é “falhar uma vez” — é como se o pênis não respondesse quando deveria, como um elevador que não sobe mesmo apertando o botão.

Critérios diagnósticos traduzidos:
Dificuldade de ereção (Critério A):
Não consegue ter ereção mesmo com estímulo sexual (visual, tátil, fantasias).
Perde a ereção durante o sexo (antes ou durante a penetração).
Exemplo 1: Você está se masturbando ou com sua parceira(o), mas o pênis não fica duro, como se estivesse “mole”.
Exemplo 2: Você consegue ereção, mas perde no meio da transa, mesmo com estímulo contínuo.
Exemplo 3: Você acorda com ereção matinal (sinal de que o corpo funciona), mas não consegue ter ereção durante o sexo.

Causa sofrimento ou problemas no relacionamento (Critério B):
– Você evita situações íntimas por medo de falhar.
– Sua parceira(o) fica insegura e acha que você não a(o) deseja mais.
Exemplo: Você cancela encontros românticos ou inventa desculpas para não transar, porque sabe que pode “dar errado”.

Não é causado por outra coisa (Critério C):
Não é por idade (homens mais velhos podem ter ereções menos firmes, mas não é regra).
Não é por remédio (ex.: alguns antidepressivos causam disfunção erétil, mas nesse caso o diagnóstico seria outro).
Não é por doença física (ex.: diabetes, problemas cardíacos — nesses casos, o diagnóstico seria Disfunção Sexual Devido a Condição Médica Geral).

O que é NORMAL vs. o que é sintoma?
Normal: Ter uma “falha” ocasional (ex.: depois de beber, com muito estresse).
Sintoma: Falhar na maioria das vezes, mesmo em situações relaxadas e com estímulo adequado.


4. Transtorno Orgásmico (F52.3 / 302.73 e F52.31 / 302.74)

O que é?
É a dificuldade persistente de chegar ao orgasmo, mesmo com estímulo adequado e desejo presente. Pode acontecer em mulheres (anorgasmia) ou homens (ejaculação retardada).

Transtorno Orgásmico Feminino (Anorgasmia)

Dificuldade de orgasmo (Critério A):
Nunca teve orgasmo (nem sozinha, nem com parceiro).
Leva muito tempo para chegar ao orgasmo (ex.: mais de 30-40 minutos de estímulo contínuo).
Só consegue orgasmo em situações específicas (ex.: só com vibrador, só sozinha).
Exemplo 1: Você se masturba há anos, mas nunca conseguiu chegar ao orgasmo, mesmo com estímulo prolongado.
Exemplo 2: Durante o sexo, você sente prazer, mas nunca atinge o clímax, mesmo com estímulo no clitóris.
Exemplo 3: Você só consegue orgasmo sozinha, mas nunca com um parceiro(a).

Causa sofrimento (Critério B):
– Você se sente frustrada por não conseguir gozar.
– Seu parceiro(a) não entende e acha que é culpa dele(a).
Exemplo: Você finge orgasmo para “terminar logo” e evitar constrangimento.

Transtorno Orgásmico Masculino (Ejaculação Retardada)

Dificuldade de ejacular (Critério A):
Leva muito tempo para ejacular (ex.: mais de 30-40 minutos de penetração).
Só consegue ejacular em situações específicas (ex.: só com masturbação, só com fantasias específicas).
Não consegue ejacular durante o sexo, mesmo com estímulo prolongado.
Exemplo 1: Você transa por horas, mas não consegue gozar, mesmo com estímulo intenso.
Exemplo 2: Você só consegue ejacular sozinho, mas nunca com sua parceira(o).

Causa sofrimento (Critério B):
– Você se sente exausto depois de transar por tanto tempo.
– Sua parceira(o) fica dolorida ou frustrada por não conseguir te levar ao orgasmo.
Exemplo: Você evita sexo porque sabe que vai ser uma “maratona” sem resultado.

O que é NORMAL vs. o que é sintoma?
Normal: Ter orgasmos mais rápidos ou lentos dependendo do dia.
Sintoma: Nunca conseguir orgasmo, mesmo com estímulo adequado e desejo presente.


5. Ejaculação Precoce (F52.4 / 302.75)

O que é?
É a ejaculação persistente com estímulo sexual mínimo, antes do desejado, causando sofrimento. Não é “gozar rápido uma vez” — é como se o corpo não tivesse controle, como um interruptor que liga sozinho.

Critérios diagnósticos traduzidos:
Ejaculação rápida (Critério A):
Ejacula em menos de 1 minuto após a penetração (ou antes dela).
Não consegue controlar o momento da ejaculação.
Exemplo 1: Você mal coloca o pênis na vagina e já goza, sem conseguir segurar.
Exemplo 2: Você ejacula antes mesmo de penetrar, só com o toque ou a excitação inicial.
Exemplo 3: Você consegue segurar um pouco, mas sempre goza antes do que gostaria (ex.: em 2-3 minutos).

Causa sofrimento ou problemas no relacionamento (Critério B):
– Você evita sexo por vergonha de ejacular rápido.
– Sua parceira(o) fica frustrada porque não consegue ter prazer.
Exemplo: Você inventa desculpas para não transar porque sabe que vai “falhar”.

Não é causado por outra coisa (Critério C):
Não é por falta de experiência (homens jovens podem ter menos controle, mas aqui o problema é persistente).
Não é por abstinência prolongada (ex.: ejacular rápido depois de semanas sem sexo é normal).
Não é por remédio ou doença (ex.: prostatite pode causar ejaculação precoce, mas nesse caso o diagnóstico seria outro).

O que é NORMAL vs. o que é sintoma?
Normal: Goza rápido em algumas situações (ex.: primeira vez com um novo parceiro, depois de muito tempo sem sexo).
Sintoma: Sempre ejacular em menos de 1 minuto, mesmo com experiência e estímulo controlado.


6. Dispareunia (F52.6 / 302.76) e Vaginismo (F52.5 / 306.51)

Dispareunia (Dor durante o sexo)

O que é?
É a dor genital persistente ou recorrente durante a relação sexual, sem causa física identificável. Não é “dor por falta de lubrificação” — é como se o corpo rejeitasse a penetração, mesmo quando a pessoa quer transar.

Critérios diagnósticos traduzidos:
Dor durante o sexo (Critério A):
Dor na entrada da vagina (como se estivesse sendo “cortada”).
Dor profunda (como se algo estivesse sendo “empurrado” contra um órgão).
Exemplo 1: Você sente uma ardência forte toda vez que tenta penetração, mesmo com lubrificante.
Exemplo 2: Depois do sexo, você fica com dor por horas ou dias, como se tivesse levado uma pancada.
Exemplo 3: Você evita exames ginecológicos porque o simples toque já dói.

Causa sofrimento ou evitação do sexo (Critério B):
– Você desiste de transar por medo da dor.
– Seu parceiro(a) não entende e acha que você está exagerando.
Exemplo: Você finge que está tudo bem, mas por dentro está tensa e com medo da próxima vez.

Não é causado por outra coisa (Critério C):
Não é por falta de lubrificação (mesmo com lubrificante, a dor persiste).
Não é por infecção ou doença (ex.: candidíase, endometriose — nesses casos, o diagnóstico seria outro).
Não é por vaginismo (no vaginismo, a dor vem de uma contração involuntária dos músculos; na dispareunia, a dor é física, mesmo sem contração).

Vaginismo

O que é?
É a contração involuntária dos músculos da vagina, impedindo a penetração. Não é “medo de sexo” — é como se o corpo travasse sozinho, como uma porta que não abre mesmo com a chave.

Critérios diagnósticos traduzidos:
Contração involuntária (Critério A):
Os músculos da vagina se fecham quando algo tenta entrar (dedo, absorvente, pênis).
Exemplo 1: Você tenta colocar um absorvente interno, mas sente uma barreira e não consegue.
Exemplo 2: Durante o sexo, seu parceiro(a) não consegue penetrar, mesmo com lubrificação.
Exemplo 3: Você não consegue fazer exame ginecológico porque o espéculo não entra.

Causa sofrimento ou evitação do sexo (Critério B):
– Você nunca conseguiu transar com penetração.
– Seu parceiro(a) fica frustrado e acha que você não confia nele(a).
Exemplo: Você evita relacionamentos sérios por medo de ter que explicar o problema.

Não é causado por outra coisa (Critério C):
Não é por falta de excitação (mesmo com desejo, a contração acontece).
Não é por doença física (ex.: hímen imperfurado — nesse caso, o diagnóstico seria outro).


7. Transtorno de Aversão Sexual (F52.10 / 302.79)

O que é?
É o medo intenso, nojo ou ansiedade só de pensar em atividade sexual. Não é “não estar a fim hoje” — é como se o sexo fosse uma ameaça, como ver uma barata e sentir pânico.

Critérios diagnósticos traduzidos:
Aversão ao sexo (Critério A):
Sente nojo, medo ou ansiedade só de pensar em sexo.
Evita qualquer contato íntimo (beijos, carícias, sexo oral).
Exemplo 1: Você congela quando seu parceiro(a) tenta te tocar, como se estivesse em perigo.
Exemplo 2: Você sente náuseas só de ver cenas de sexo na TV.
Exemplo 3: Você termina relacionamentos quando eles ficam sérios demais, por medo de ter que transar.

Causa sofrimento ou problemas no relacionamento (Critério B):
– Você se sente culpada por não conseguir corresponder ao desejo do outro.
– Seu parceiro(a) se sente rejeitado e acha que você não o(a) ama.
Exemplo: Você inventa desculpas para não dormir na mesma cama, porque sabe que pode rolar sexo.

Não é causado por outra coisa (Critério C):
Não é por trauma recente (ex.: abuso sexual — nesse caso, o diagnóstico seria TEPT).
Não é por transtorno de ansiedade generalizada (a aversão é específica para sexo).
Não é por falta de atração pelo parceiro (acontece mesmo com pessoas que você ama).


Um aviso importante: ter um sintoma não significa ter o diagnóstico

Muitas pessoas se identificam com um ou dois desses sintomas, mas isso não significa que tenham uma disfunção sexual. Para o diagnóstico, é preciso:
1. Persistência: O problema acontece na maioria das vezes por pelo menos 6 meses.
2. Sofrimento: Causa angústia, frustração ou problemas nos relacionamentos.
3. Sem outra explicação: Não é causado por remédios, doenças físicas ou outros transtornos mentais.

Exemplo: Uma mulher que às vezes tem dificuldade de lubrificação por estresse não tem Transtorno da Excitação Sexual. Um homem que uma vez ejaculou rápido por nervosismo não tem Ejaculação Precoce.

Se você se identificou com vários desses sintomas e eles atrapalham sua vida, pode ser hora de buscar ajuda profissional.


Como se manifesta no dia a dia?

A disfunção sexual não orgânica afeta muito mais do que a cama. Ela pode invadir o trabalho, os relacionamentos, a autoestima e até a saúde física. Vamos ver como isso acontece na prática.

No trabalho e na escola

  • Falta de foco: Você fica distraído(a) pensando no problema sexual, como se fosse uma música chata que não sai da cabeça.
  • Exemplo: Você está em uma reunião importante, mas sua mente volta para a última vez que tentou transar e “falhou”. Você perde o fio da conversa e precisa pedir para repetirem.
  • Cansaço excessivo: A ansiedade por não conseguir performar na cama te deixa exausto(a), como se tivesse corrido uma maratona.
  • Exemplo: Você dorme 8 horas, mas acorda mais cansado(a) do que quando deitou, porque passou a noite remoendo o problema.
  • Evitação de situações sociais: Você deixa de ir a eventos por medo de encontrar alguém com quem possa rolar algo íntimo.
  • Exemplo: Você cancela um happy hour com colegas porque sabe que pode rolar paquera e não quer ter que lidar com a possibilidade de sexo.

Nos relacionamentos

  • Brigas constantes: O problema sexual vira o elefante na sala que ninguém menciona, mas que está sempre presente.
  • Exemplo: Seu parceiro(a) faz uma piada sobre “falta de ação” na cama, e você explode de raiva, mesmo sabendo que ele(a) não teve intenção de magoar.
  • Distanciamento emocional: Vocês param de se tocar, de se beijar, de dormir abraçados, porque qualquer contato pode levar a sexo — e sexo leva a frustração.
  • Exemplo: Você evita até mesmo segurar a mão do seu parceiro(a) em público, porque tem medo de que ele(a) interprete como um sinal de que você está a fim.
  • Culpa e vergonha: Você se sente quebrado(a), como se tivesse um defeito que ninguém mais tem.
  • Exemplo: Você chora no banho depois de mais uma noite sem conseguir transar, pensando: “Por que eu não consigo ser normal?”.
  • Traição ou relacionamentos paralelos: Alguns parceiros buscam sexo fora porque não conseguem lidar com a frustração.
  • Exemplo: Seu namorado diz: “Eu te amo, mas preciso de sexo. Não aguento mais essa situação”, e você se sente traída(o) e impotente.

Na rotina e no autocuidado

  • Sono prejudicado: A ansiedade antes de dormir (por medo de ter que transar) ou a frustração depois de mais uma tentativa fracassada te deixam insone.
  • Exemplo: Você deita na cama e fica horas rolando de um lado para o outro, pensando em como vai lidar com a situação se seu parceiro(a) se aproximar.
  • Alimentação desregulada: Algumas pessoas comem demais para compensar a frustração; outras perdem o apetite por estresse.
  • Exemplo: Depois de mais uma noite sem conseguir transar, você devora um pote inteiro de sorvete em 10 minutos.
  • Falta de higiene pessoal: Você para de se cuidar porque não vê sentido em se arrumar para alguém que não te deseja (ou que você não consegue desejar).
  • Exemplo: Você deixa de depilar as pernas, de usar perfume, de se vestir bem, porque pensa: “Para que, se não vai rolar nada?”.
  • Isolamento social: Você evita sair de casa por medo de encontrar conhecidos e ter que explicar por que está solteiro(a) ou por que o relacionamento não vai bem.
  • Exemplo: Você inventa desculpas para não ir ao aniversário de um amigo, porque sabe que vão perguntar: “E aí, arrumou alguém?”.

Na saúde física

  • Dores musculares: A tensão constante por ansiedade pode causar dores no pescoço, nas costas e na mandíbula (por ranger os dentes).
  • Exemplo: Você acorda com dor de cabeça todos os dias, como se tivesse levado uma pancada, por causa do estresse.
  • Problemas digestivos: O intestino irritável e a azia são comuns em pessoas com disfunção sexual, porque o estresse afeta o sistema digestivo.
  • Exemplo: Você passa a semana com diarreia ou prisão de ventre, sem motivo aparente, porque seu corpo está em alerta constante.
  • Queda de imunidade: O estresse crônico enfraquece as defesas do corpo, deixando você mais propenso(a) a gripes e infecções.
  • Exemplo: Você pega resfriado todo mês, mesmo tomando vitaminas, porque seu corpo está exausto de lutar contra a ansiedade.
  • Pressão alta e problemas cardíacos: A ansiedade prolongada pode levar a hipertensão e outros problemas cardiovasculares.
  • Exemplo: Você vai ao médico para um check-up e descobre que sua pressão está alta, mesmo sendo jovem e sem histórico familiar.

O que causa essa condição?

A disfunção sexual não orgânica é como um quebra-cabeça: não há uma única peça responsável, mas sim uma combinação de fatores que, juntos, desregulam o desejo, a excitação e o prazer. Vamos entender cada uma dessas peças.

1. Fatores psicológicos: a mente como protagonista

O cérebro é o órgão sexual mais importante do corpo. Se ele não estiver “no clima”, o corpo não responde — mesmo que tudo esteja funcionando perfeitamente.

Ansiedade e medo de falhar

Imagine que você está aprendendo a dirigir. No começo, você trava toda vez que o instrutor pede para trocar de marcha. Com o tempo, você relaxa e dirige naturalmente. Na disfunção sexual, é como se você nunca conseguisse relaxar — a ansiedade toma conta e bloqueia a resposta do corpo.

  • Exemplo: Um homem com disfunção erétil pensa: “E se eu não conseguir de novo?”, e esse pensamento ativa o sistema nervoso simpático (responsável pelo “fight or flight”), que inibe a ereção.
  • Exemplo 2: Uma mulher com vaginismo antecipa a dor e contraí os músculos antes mesmo de qualquer toque, como um reflexo de proteção.

Crenças negativas sobre sexo

Muitas pessoas crescem ouvindo que:
“Sexo é sujo”;
“Mulheres não devem gostar de sexo”;
“Homens sempre têm que estar prontos”;
“Se você não gozar, não ama seu parceiro(a)”.

Essas crenças distorcidas criam uma pressão interna que atrapalha o prazer.

  • Exemplo: Uma mulher que cresceu ouvindo que “sexo é obrigação” pode desligar durante a relação, como um mecanismo de defesa.
  • Exemplo 2: Um homem que acredita que “homem de verdade não falha” pode evitar sexo por medo de não corresponder à expectativa.

Traumas e experiências passadas

Abuso sexual, primeiras experiências ruins, humilhações ou até mesmo comentários maldosos sobre o corpo ou desempenho podem deixar marcas profundas.

  • Exemplo: Uma mulher que foi estuprada pode desenvolver aversão sexual, mesmo anos depois.
  • Exemplo 2: Um homem que ejaculou rápido na primeira vez e foi ridicularizado pode desenvolver ansiedade de desempenho que persiste por anos.

Depressão e estresse crônico

A depressão rouba a energia vital, incluindo o desejo sexual. O estresse crônico sobrecarrega o cérebro, deixando-o incapaz de focar no prazer.

  • Exemplo: Uma pessoa deprimida pode não sentir vontade de nada, nem de sexo, nem de comer, nem de sair de casa.
  • Exemplo 2: Um executivo estressado não consegue desligar do trabalho, mesmo na cama, e o sexo vira mais uma obrigação do que um prazer.

2. Fatores relacionais: quando o problema está no “nós”

Às vezes, a disfunção sexual não é um problema individual, mas sim do relacionamento.

Falta de comunicação

Muitos casais não conversam sobre sexo — seja por vergonha, medo de magoar o outro ou por achar que “é assim mesmo”.

  • Exemplo: Uma mulher não diz ao parceiro que prefere estímulo no clitóris, e ele insiste na penetração, deixando-a frustrada.
  • Exemplo 2: Um homem não admite que está com ejaculação precoce, e a parceira acha que ele não a deseja.

Conflitos não resolvidos

Brigas, ressentimentos e falta de intimidade emocional podem matar o desejo.

  • Exemplo: Um casal que não se fala há semanas por causa de uma briga pode não sentir vontade de transar, mesmo que se amem.
  • Exemplo 2: Uma mulher que se sente negligenciada pelo marido pode perder o desejo como forma de “puní-lo”.

Rotina e monotonia

O cérebro gosta de novidade. Quando o sexo vira rotina (sempre na mesma posição, no mesmo horário, da mesma forma), o desejo diminui.

  • Exemplo: Um casal que só transa aos sábados à noite, sempre da mesma forma, pode perder a excitação com o tempo.
  • Exemplo 2: Uma pessoa que só faz sexo com o parceiro(a) há 10 anos pode sentir que falta “emoção”.

3. Fatores biológicos: o corpo também influencia

Mesmo que a disfunção não seja causada por uma doença física, o corpo ainda tem seu papel.

Desequilíbrios químicos no cérebro

Neurotransmissores como dopamina (prazer), serotonina (bem-estar) e noradrenalina (excitação) precisam estar em equilíbrio para uma vida sexual saudável.

  • Exemplo: Pessoas com depressão têm baixos níveis de serotonina e dopamina, o que pode diminuir o desejo.
  • Exemplo 2: O estresse crônico aumenta o cortisol, que inibe a testosterona (hormônio do desejo).

Hormônios

Embora a disfunção sexual não orgânica não seja causada por desequilíbrios hormonais, eles podem piorar o quadro.

  • Testosterona: Baixos níveis podem diminuir o desejo em homens e mulheres.
  • Prolactina: Altos níveis (causados por estresse ou remédios) podem inibir a excitação.
  • Estrogênio: Baixos níveis (na menopausa ou pós-parto) podem diminuir a lubrificação.

Efeitos colaterais de remédios

Alguns medicamentos interferem na função sexual, mesmo que não sejam a causa principal do problema.

Remédio Efeito colateral
Antidepressivos Diminuição do desejo, dificuldade de orgasmo
Antipsicóticos Disfunção erétil, diminuição da libido
Anti-hipertensivos Disfunção erétil
Anticoncepcionais Diminuição da lubrificação, dor

4. Fatores sociais e culturais: o peso do mundo lá fora

A sociedade impõe padrões que podem atrapalhar a vida sexual.

Pressão por performance

  • Homens: “Tem que durar horas”, “Tem que ter ereção sempre”.
  • Mulheres: “Tem que gozar na penetração”, “Tem que ser sempre sensual”.
  • Resultado: Ansiedade de desempenho que bloqueia o prazer.

Estigma e vergonha

  • Mulheres: “Mulher não deve gostar de sexo”.
  • Homens: “Homem que não consegue é fraco”.
  • Pessoas LGBTQIA+: “Sexo gay é pecado”, “Travesti não pode sentir prazer”.
  • Resultado: Culpa e vergonha que afastam as pessoas do prazer.

Falta de educação sexual

Muitas pessoas não sabem como funciona o próprio corpo ou o do parceiro(a).

  • Exemplo: Uma mulher que não sabe onde fica o clitóris pode achar que tem um problema porque não goza na penetração.
  • Exemplo 2: Um homem que não sabe que a ejaculação precoce é comum no começo pode desenvolver ansiedade crônica.

Mitos e verdades sobre as causas

Mito 1: “Disfunção sexual é falta de amor pelo parceiro(a).”
Verdade: O desejo sexual não tem a ver com amor. Você pode amar alguém e não sentir vontade de transar, ou sentir desejo por alguém que não ama.

Mito 2: “Isso só acontece com pessoas mais velhas.”
Verdade: A disfunção sexual pode aparecer em qualquer idade, inclusive em adolescentes e jovens adultos.

Mito 3: “É só questão de relaxar.”
Verdade: Se fosse só relaxar, ninguém teria disfunção sexual. O problema é mais complexo e envolve cérebro, emoções e corpo.

Mito 4: “Homens sempre querem sexo, se não querem, é porque têm algum problema.”
Verdade: Homens também podem ter falta de desejo, e isso não é sinal de fraqueza.

Mito 5: “Mulheres não gostam de sexo, é normal não sentir vontade.”
Verdade: Mulheres também sentem desejo, e a falta dele não é normal — pode ser um sinal de disfunção.


Como é feito o diagnóstico?

Receber um diagnóstico de disfunção sexual não orgânica não é como fazer um exame de sangue e pronto. É um processo cuidadoso, que envolve conversas, exames e, às vezes, um pouco de paciência. Vamos entender como funciona.

1. O primeiro passo: reconhecer que algo não está certo

Muitas pessoas demoram anos para buscar ajuda porque:
Têm vergonha de falar sobre sexo;
Acham que é “coisa da cabeça” e que vai passar;
Não sabem que existe tratamento.

Sinais de que você deve procurar ajuda:
✔ Você evita sexo por medo de falhar ou de sentir dor.
✔ Você se sente frustrado(a), triste ou ansioso(a) depois de tentar transar.
✔ Seu parceiro(a) reclama ou fica magoado(a) com a falta de sexo.
✔ Você finge orgasmo ou inventa desculpas para não transar.
✔ Você pesquisa obsessivamente sobre o assunto na internet.

2. Quem pode diagnosticar?

Não é qualquer profissional que pode dar esse diagnóstico. Os mais indicados são:
Psiquiatra: Especialista em transtornos mentais e disfunções sexuais.
Psicólogo(a) com formação em sexualidade: Pode fazer a avaliação psicológica e indicar terapia.
Ginecologista/Urologista: Para descartar causas físicas antes de confirmar o diagnóstico psicológico.
Sexólogo(a): Profissional especializado em sexualidade humana.

No SUS (Sistema Único de Saúde):
– Você pode começar na UBS (Unidade Básica de Saúde). O médico de família pode encaminhar para um ginecologista, urologista ou psiquiatra.
– Em alguns municípios, há CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) com psicólogos que atendem questões de sexualidade.
Dica: Se o profissional minimizar seu problema (“Isso é frescura”, “É só relaxar”), procure outro. Você merece ser ouvido(a) com respeito.

Na rede particular:
Psiquiatras e psicólogos costumam ter agenda mais rápida, mas o custo pode ser alto (R$ 200-R$ 500 por consulta).
Planos de saúde: Alguns cobrem consultas com psiquiatra e psicólogo, mas é bom verificar a cobertura antes.

3. O que esperar da primeira consulta?

A primeira consulta não é um interrogatório, mas sim uma conversa franca para entender o que está acontecendo. O profissional pode perguntar:

Sobre sua história sexual

  • “Quando você percebeu que algo estava diferente?”
  • “Como é sua vida sexual hoje? Com que frequência vocês transam?”
  • “Você sente desejo? Fantasias? Excitamento?”
  • “Você já teve experiências sexuais traumáticas?”

Sobre sua saúde física

  • “Você tem alguma doença crônica (diabetes, pressão alta, depressão)?”
  • “Toma algum remédio? Qual?”
  • “Já fez exames de sangue (testosterona, tireoide, etc.)?”
  • “Tem dores durante o sexo?”

Sobre sua saúde mental

  • “Como está seu humor? Você se sente triste ou ansioso(a) com frequência?”
  • “Como está seu sono? E seu apetite?”
  • “Você já teve pensamentos de se machucar ou de que não vale a pena viver?” (Importante para descartar depressão.)

Sobre seu relacionamento

  • “Como é sua relação com seu(sua) parceiro(a)?”
  • “Vocês conversam sobre sexo? Como é essa conversa?”
  • “Já houve traição, brigas ou ressentimentos?”

Exame físico (quando necessário)

  • Mulheres: O ginecologista pode fazer um exame pélvico para verificar se há alguma causa física (como infecções ou endometriose).
  • Homens: O urologista pode examinar o pênis e os testículos para descartar problemas como fimose, doença de Peyronie ou infecções.

Exames laboratoriais (para descartar causas orgânicas)

Se o profissional suspeitar de uma causa física, pode pedir:
Exames de sangue: Testosterona, prolactina, glicose, colesterol, tireoide.
Exames de urina: Para descartar infecções.
Ultrassom: Em casos de dor, para verificar se há cistos ou inflamações.

4. Quanto tempo leva para ter um diagnóstico?

Não existe um prazo exato, mas em geral:
1-2 consultas: Para descartar causas físicas (exames de sangue, avaliação ginecológica/urológica).
3-5 consultas: Para avaliação psicológica (se o profissional for psiquiatra ou psicólogo).
Total: 1 a 3 meses, dependendo da complexidade do caso.

Dica: Não tenha pressa. Um bom profissional não vai te diagnosticar na primeira consulta. Ele vai ouvir, investigar e descartar outras possibilidades antes de chegar a uma conclusão.

5. Diagnóstico diferencial: o que pode ser confundido com disfunção sexual?

Antes de confirmar que o problema é psicológico, o profissional precisa descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes.

Condição Como se diferencia?
Depressão Além da falta de desejo, há tristeza profunda, cansaço, perda de interesse em tudo.
Ansiedade generalizada A pessoa fica ansiosa o tempo todo, não só na hora do sexo.
Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) Há um trauma claro (ex.: abuso sexual) que desencadeia os sintomas.
Desequilíbrios hormonais (baixa testosterona, hipotireoidismo) Exames de sangue confirmam o problema.
Efeitos colaterais de remédios (antidepressivos, anti-hipertensivos) Os sintomas começam depois de iniciar o remédio.
Doenças físicas (diabetes, esclerose múltipla, lesões na medula) Exames mostram alterações no corpo.
Menopausa ou andropausa Os sintomas começam em uma faixa etária específica (mulheres: 45-55 anos; homens: 50+).

Exemplo prático:
Uma mulher de 30 anos não sente desejo sexual há 1 ano. Ela faz exames e descobre que tem hipotireoidismo (tireoide lenta). O médico ajusta o hormônio, e o desejo volta. Nesse caso, o diagnóstico não é disfunção sexual não orgânica, mas sim Disfunção Sexual Devido a Condição Médica Geral.


Tratamento: como recuperar o prazer e a confiança

A boa notícia é que disfunção sexual não orgânica tem tratamento, e a maioria das pessoas melhora significativamente com a abordagem certa. O tratamento costuma ser multidisciplinar, ou seja, envolve medicamentos, terapia e mudanças no estilo de vida.

Vamos entender cada parte.


1. Medicamentos: quando a química pode ajudar

Os remédios não são a solução mágica, mas podem ajudar a quebrar o ciclo de ansiedade e frustração, dando um “empurrãozinho” para que o corpo volte a responder.

Para homens com disfunção erétil

Remédio Como funciona? Efeitos colaterais comuns Tempo para fazer efeito
Sildenafila (Viagra) Aumenta o fluxo sanguíneo para o pênis, facilitando a ereção. Dor de cabeça, rubor facial, indigestão. 30-60 minutos.
Tadalafila (Cialis) Mesma ação da sildenafila, mas dura até 36 horas. Dor nas costas, congestão nasal. 30-60 minutos.
Vardenafila (Levitra) Similar ao Viagra, mas com menos efeitos colaterais para alguns homens. Tontura, visão turva. 25-60 minutos.

Importante:
– Esses remédios não causam ereção espontânea — você ainda precisa de estímulo sexual.
Não são afrodisíacos (não aumentam o desejo).
Não devem ser usados sem prescrição médica, especialmente se você tem problemas cardíacos.

Para mulheres com falta de desejo ou excitação

Remédio Como funciona? Efeitos colaterais comuns
Flibanserina (Addyi) Aumenta a dopamina e noradrenalina (neurotransmissores do desejo). Tontura, náusea, sonolência.
Bremelanotida (Vyleesi) Ativa receptores de melanocortina, que estimulam o desejo. Náusea, dor de cabeça, vermelhidão.

Importante:
– Esses remédios não são “Viagra feminino” — eles aumentam o desejo, mas não garantem excitação ou orgasmo.
Demoram semanas para fazer efeito (não é algo que você toma e já sente vontade na hora).
Não são vendidos no Brasil (a Flibanserina foi aprovada pela Anvisa, mas ainda não está disponível nas farmácias).

Para ejaculação precoce

Remédio Como funciona? Efeitos colaterais comuns
Dapoxetina (Priligy) Aumenta a serotonina, retardando a ejaculação. Náusea, tontura, dor de cabeça.
Antidepressivos (ISRS) Alguns antidepressivos (como paroxetina) têm como efeito colateral retardar a ejaculação. Diminuição do desejo, boca seca.

Importante:
– A dapoxetina deve ser tomada 1-3 horas antes do sexo (não é de uso contínuo).
– Os antidepressivos demoram semanas para fazer efeito.

Para dor durante o sexo (dispareunia)

Tratamento Como funciona?
Lubrificantes à base de água Reduzem o atrito e a dor.
Anestésicos locais (lidocaína) Diminuem a sensibilidade, aliviando a dor.
Fisioterapia pélvica Exercícios para relaxar os músculos da vagina (no caso de vaginismo).

2. Psicoterapia: trabalhando a mente para libertar o corpo

A terapia é fundamental no tratamento da disfunção sexual não orgânica, porque o cérebro é o órgão sexual mais importante. Vamos entender as abordagens mais usadas.

Terapia cognitivo-comportamental (TCC)

O que é?
A TCC é uma terapia prática e focada no presente, que ajuda a identificar e mudar pensamentos e comportamentos que atrapalham a vida sexual.

Como funciona?
Identificação de crenças distorcidas: “Se eu não gozar, meu parceiro vai me deixar”Desafiar esse pensamento: “Meu parceiro me ama pelo que sou, não só pelo sexo.”
Exposição gradual: Se você tem aversão sexual, o terapeuta pode sugerir exercícios de toque progressivo (começando com beijos, depois carícias, etc.).
Técnicas de relaxamento: Respiração diafragmática, mindfulness e meditação para reduzir a ansiedade.

Exemplo prático:
Um homem com dificuldade de ereção faz TCC e descobre que seu medo de falhar vem de uma crença de que “homem de verdade não falha”. O terapeuta o ajuda a substituir esse pensamento por “O importante é o prazer, não a performance”.

Duração: 12 a 24 sessões (1x por semana).

Terapia sexual

O que é?
É uma terapia especializada em sexualidade, feita por psicólogos ou sexólogos.

Como funciona?
Educação sexual: Muitas pessoas não sabem como funciona o próprio corpo. A terapia sexual ensina anatomia, resposta sexual e técnicas de prazer.
Exercícios práticos: Como o foco sensorial (técnica de Masters & Johnson), em que o casal se toca sem pressão por resultados, apenas para redescobrir o prazer.
Trabalho com o casal: Se o problema envolve conflitos relacionais, o terapeuta ajuda o casal a melhorar a comunicação e a intimidade.

Exemplo prático:
Uma mulher com anorgasmia aprende que o clitóris é a chave do prazer e faz exercícios de autoconhecimento (como usar um espelho para explorar seu corpo).

Duração: 6 a 12 meses (depende do caso).

Terapia de casal

O que é?
Quando a disfunção sexual afeta o relacionamento, a terapia de casal pode ajudar.

Como funciona?
Melhorar a comunicação: Muitos casais não conversam sobre sexo por vergonha. A terapia cria um espaço seguro para falar sobre desejos e frustrações.
Trabalhar a intimidade emocional: Às vezes, o problema não é o sexo em si, mas a falta de conexão emocional.
Resolver conflitos: Brigas não resolvidas podem matar o desejo. A terapia ajuda a superar ressentimentos.

Exemplo prático:
Um casal que não transa há 1 ano porque a mulher desenvolveu vaginismo após uma traição trabalha na terapia para reconstruir a confiança e reaprender a ter prazer juntos.

Duração: 3 a 12 meses.

EMDR (para traumas sexuais)

O que é?
É uma terapia especializada em traumas, que ajuda o cérebro a processar memórias dolorosas (como abuso sexual).

Como funciona?
– O terapeuta guia movimentos oculares (ou outros estímulos bilaterais) enquanto você relembra o trauma.
– Isso ajuda o cérebro a reprocessar a memória, tirando o “peso emocional” dela.

Exemplo prático:
Uma mulher que desenvolveu aversão sexual após um estupro faz EMDR e deixa de sentir nojo ao pensar em sexo.

Duração: 6 a 12 sessões.


3. Mudanças no dia a dia: o que você pode fazer agora

Além de remédios e terapia, pequenas mudanças no estilo de vida podem fazer uma grande diferença.

Exercícios físicos

  • Yoga e pilates: Ajudam a reduzir o estresse e melhorar a conexão mente-corpo.
  • Exercícios aeróbicos (caminhada, corrida, natação): Aumentam a circulação sanguínea, melhorando a excitação.
  • Exercícios de Kegel: Fortalecem os músculos do assoalho pélvico, melhorando o controle da ejaculação (nos homens) e a lubrificação (nas mulheres).

Dica: 30 minutos de exercício moderado, 3x por semana, já fazem diferença.

Alimentação

Alguns alimentos podem melhorar a libido e a função sexual:

Alimento Benefício
Ostras Ricas em zinco, que aumenta a testosterona.
Chocolate amargo Aumenta a serotonina e dopamina (neurotransmissores do prazer).
Abacate Rico em vitamina E, que melhora a circulação.
Nozes e amêndoas Ricas em arginina, que ajuda na ereção e lubrificação.
Pimenta Aumenta a circulação sanguínea e a sensibilidade.

Alimentos a evitar:
Álcool em excesso: Pode diminuir o desejo e causar disfunção erétil.
Açúcar refinado: Causa picos de insulina, que podem diminuir a testosterona.
Alimentos ultraprocessados: Podem aumentar a inflamação, prejudicando a circulação.

Sono

  • Dormir mal = menos desejo sexual. A falta de sono diminui a testosterona e aumenta o cortisol (hormônio do estresse).
  • Dica: Tente dormir 7-9 horas por noite e evite telas 1 hora antes de deitar.

Redução do estresse

  • Meditação e mindfulness: Ajudam a reduzir a ansiedade e aumentar o foco no presente (o que melhora a excitação).
  • Terapia de relaxamento: Técnicas como respiração diafragmática podem ajudar a controlar a ansiedade na hora do sexo.
  • Hobbies: Coisas que te dão prazer (pintura, música, jardinagem) ajudam a reduzir o estresse.

Técnicas específicas para cada disfunção

Disfunção Técnica
Disfunção erétil Técnica do “stop-start”: Durante a masturbação, pare quando estiver perto de gozar, espere a excitação diminuir e recomece. Isso ajuda a ganhar controle.
Ejaculação precoce Técnica da compressão: Quando sentir que vai ejacular, aperte a glande do pênis por alguns segundos para diminuir a excitação.
Anorgasmia feminina Exercícios de Kegel: Contrair e relaxar os músculos da vagina aumenta a sensibilidade.
Vaginismo Dilatadores vaginais: Dispositivos de tamanhos progressivos para treinar o relaxamento dos músculos.
Falta de desejo Fantasiar e ler erotismo: Ajuda a reativar o desejo aos poucos.

Convivendo com o diagnóstico

Receber um diagnóstico de disfunção sexual pode ser assustador, mas também pode ser o primeiro passo para uma vida sexual mais plena. Vamos falar sobre como lidar com o dia a dia, tanto para a pessoa com o diagnóstico quanto para seus familiares e parceiros.


Para a pessoa com o diagnóstico

1. Seja gentil consigo mesmo(a)

  • Não se culpe. Disfunção sexual não é falta de vontade, nem fraqueza.
  • Lembre-se: Você não está sozinho(a). Milhões de pessoas passam pelo mesmo.
  • Dica: Escreva em um papel: “Eu mereço prazer, e estou no caminho para recuperá-lo.”

2. Comunique-se com seu(sua) parceiro(a)

  • Fale sobre o que está sentindo. Use frases como:
  • “Eu te amo, e quero que a gente encontre uma forma de ter prazer juntos.”
  • “Não é sobre você, é sobre algo que está acontecendo comigo.”
  • “Podemos tentar coisas novas, sem pressão?”
  • Evite:
  • “Você não me excita mais.” (Isso magoa e não resolve.)
  • “É tudo culpa sua.” (A disfunção é multifatorial, não é culpa de ninguém.)

3. Explore outras formas de prazer

  • Sexo não é só penetração. Beijos, carícias, sexo oral, massagens eróticas e brinquedos sexuais podem trazer prazer sem pressão.
  • Dica: Façam uma lista de coisas que vocês gostam (ex.: “Gosto quando você me beija o pescoço”) e experimentem uma por semana.

4. Não desista do tratamento

  • Os resultados podem demorar, mas a maioria das pessoas melhora.
  • Se um tratamento não funcionar, tente outro. Não existe uma solução única.
  • Dica: Anote seus progressos (ex.: “Hoje consegui ficar excitada por 10 minutos”, “Consegui ejacular mais devagar”).

5. Cuide da sua saúde mental

  • Ansiedade e depressão podem piorar a disfunção sexual. Se você estiver se sentindo muito triste ou ansioso(a), procure ajuda de um psiquiatra ou psicólogo.
  • Técnicas de relaxamento (meditação, respiração) podem ajudar a reduzir a ansiedade na hora do sexo.

Para familiares e amigos

1. Não minimize o problema

  • Evite frases como:
  • “Isso é frescura.”
  • “É só relaxar.”
  • “Todo mundo passa por isso.”
  • Em vez disso, diga:
  • “Eu te apoio, e estou aqui para o que você precisar.”
  • “Você já procurou ajuda profissional?”
  • “Como posso te ajudar?”

2. Não pressione

  • Não faça piadas sobre o assunto.
  • Não pergunte: “E aí, melhorou?” (Isso aumenta a pressão.)
  • Não force situações íntimas. Deixe a pessoa avançar no ritmo dela.

3. Incentive o tratamento

  • Ofereça-se para acompanhar nas consultas, se a pessoa quiser.
  • Ajude a pesquisar profissionais (psiquiatras, psicólogos, sexólogos).
  • Lembre-a de que ela não está sozinha.

4. Cuide de você também

  • Apoiar alguém com disfunção sexual pode ser desgastante. Não deixe de cuidar da sua saúde mental.
  • Procure grupos de apoio para familiares (ex.: grupos no Facebook, fóruns online).
  • Se o relacionamento estiver muito afetado, considere terapia de casal.

Para parceiros(as)

1. Não leve para o lado pessoal

  • A disfunção sexual não é sobre você. Não é que seu(sua) parceiro(a) não te deseje — é que o corpo dele(a) não está respondendo.
  • Evite:
  • “Você não me ama mais.”
  • “Tem outra pessoa?”
  • “Você não me acha atraente?”
  • Em vez disso, diga:
  • “Eu te amo, e vamos encontrar uma solução juntos.”
  • “Como posso te ajudar a se sentir mais confortável?”

2. Seja paciente

  • O tratamento pode demorar. Não espere resultados imediatos.
  • Celebre as pequenas vitórias (ex.: “Fico feliz que hoje você conseguiu ficar excitada por mais tempo”).

3. Explore outras formas de intimidade

  • Sexo não é só penetração. Beijos, carícias, massagens e conversas podem manter a conexão.
  • Dica: Façam uma lista de coisas que vocês gostam (ex.: “Gosto quando você me abraça por trás”, “Adoro quando você me faz cafuné”) e experimentem uma por semana.

4. Não tenha medo de buscar ajuda

  • A disfunção sexual afeta o casal, não só a pessoa com o diagnóstico.
  • Terapia de casal pode ajudar a melhorar a comunicação e a intimidade.
  • Grupos de apoio para parceiros(as) podem ser úteis (ex.: grupos no Facebook, fóruns online).

Quando os sintomas podem piorar?

Algumas situações podem agravar a disfunção sexual. Fique atento(a) a:

Situação Por que piora? O que fazer?
Estresse intenso Aumenta o cortisol, que inibe o desejo e a excitação. Praticar relaxamento (meditação, respiração).
Brigas no relacionamento O ressentimento mata o desejo. Procurar terapia de casal.
Depressão ou ansiedade Diminui a dopamina e serotonina (neurotransmissores do prazer). Procurar psiquiatra ou psicólogo.
Uso de álcool ou drogas O álcool diminui a excitação; a maconha pode diminuir o desejo. Reduzir ou evitar o uso.
Falta de sono Diminui a testosterona e aumenta o cortisol. Priorizar 7-9 horas de sono.
Mudanças hormonais (menopausa, andropausa) Diminuem o desejo e a lubrificação/ereção. Procurar ginecologista ou urologista.
Traumas recentes Podem reativar memórias dolorosas. Procurar terapia (EMDR, TCC).

Perguntas frequentes

Aqui estão as dúvidas mais comuns de quem vive com disfunção sexual ou convive com alguém que tem.

1. “Disfunção sexual tem cura?”

Resposta: Depende do caso. Algumas pessoas se recuperam completamente, outras aprendem a conviver com o problema de forma satisfatória. O importante é não desistir do tratamento.

  • Exemplo 1: Um homem com ejaculação precoce faz terapia e aprende técnicas de controle, voltando a ter uma vida sexual normal.
  • Exemplo 2: Uma mulher com vaginismo faz fisioterapia pélvica e consegue transar sem dor.
  • Exemplo 3: Um casal com falta de desejo faz terapia sexual e redescobre o prazer juntos.

O que influencia a “cura”?
Causa do problema: Se for psicológica, as chances de melhora são altas. Se for mista (psicológica + física), pode ser mais complexo.
Adesão ao tratamento: Quem segue as orientações (toma remédios, faz terapia, muda hábitos) tem mais chances de melhorar.
Apoio do parceiro(a): Relacionamentos saudáveis e pacientes facilitam a recuperação.


2. “Posso tomar Viagra (ou outro remédio) por conta própria?”

Resposta: Não. Remédios como Viagra, Cialis e Priligy devem ser prescritos por um médico, porque:
Podem interagir com outros remédios (ex.: nitratos para o coração → risco de pressão baixa perigosa).
Não são indicados para todo mundo (ex.: homens com problemas cardíacos graves não devem tomar).
Podem mascarar outros problemas (ex.: disfunção erétil por diabetes não tratada).

O que fazer?
Consulte um urologista ou psiquiatra antes de tomar qualquer remédio.
Nunca compre remédios pela internet (muitos são falsificados e podem ser perigosos).


3. “Meu parceiro(a) não quer fazer terapia. E agora?”

Resposta: Não force, mas não desista. Algumas estratégias:
1. Mostre que não é sobre culpa: “Não é que você tenha um problema, é que a gente pode aprender a ter mais prazer juntos.”
2. Comece sozinho(a): Às vezes, quando a pessoa vê os resultados, se anima a participar.
3. Grave um vídeo ou mostre um artigo: “Olha, isso aqui fala exatamente o que a gente está passando.”
4. Sugira uma consulta só para “conhecer”: “Vamos só conversar com o profissional, sem compromisso.”
5. Dê tempo: Se ele(a) não estiver pronto(a), respeite. Mas não deixe de buscar ajuda para você.


4. “Fingir orgasmo ajuda ou piora o problema?”

Resposta: Piora. Fingir orgasmo:
Mantém o problema escondido, impedindo que você busque ajuda.
Cria expectativas irreais no parceiro(a), que pode achar que está tudo bem.
Aumenta a frustração, porque você não está sendo honesta(o) consigo mesma(o).

O que fazer?
Seja honesta(o): “Eu te amo, mas hoje não estou conseguindo gozar. Podemos tentar outra coisa?”
Explore outras formas de prazer: “Hoje eu quero só te tocar e sentir seu prazer.”
Trabalhe na terapia: Um sexólogo ou terapeuta sexual pode ajudar a quebrar esse ciclo.


5. “Disfunção sexual pode levar à separação?”

Resposta: Pode, mas não precisa. Tudo depende de:
Como o casal lida com o problema: Se conversam, buscam ajuda e se apoiam, o relacionamento pode ficar ainda mais forte.
Se há outros problemas no relacionamento: Se já havia falta de comunicação, traição ou ressentimentos, a disfunção sexual pode ser a gota d’água.
Se o parceiro(a) é compreensivo: Parceiros pacientes e amorosos tendem a superar a crise juntos.

Dicas para evitar a separação:
Não deixe o sexo virar um tabu. Conversem sobre o assunto sem vergonha.
Procurem ajuda profissional (terapia de casal, sexólogo).
Explorem outras formas de intimidade (beijos, carícias, conversas).
Lembrem-se do que os uniu: O sexo é importante, mas não é tudo em um relacionamento.


6. “Posso ter uma vida sexual satisfatória mesmo com disfunção sexual?”

Resposta: Sim! Muitas pessoas com disfunção sexual aprendem a ter prazer de outras formas. Alguns exemplos:
Foco no toque e na conexão: Beijos, carícias, massagens eróticas.
Uso de brinquedos sexuais: Vibradores, anéis penianos, lubrificantes.
Sexo oral e outras práticas: Nem tudo precisa envolver penetração.
Fantasia e erotismo: Filmes, livros e conversas picantes podem aumentar a excitação.
Terapia sexual: Ajuda a redescobrir o prazer de forma gradual.

Exemplo real:
Um casal em que o homem tinha dificuldade de ereção aprendeu a:
– Usar anéis penianos para manter a ereção.
– Fazer sexo oral e carícias sem pressão por penetração.
Conversar sobre fantasias para aumentar a excitação.
Hoje, eles dizem que o sexo é melhor do que antes, porque aprenderam a se comunicar e explorar novas formas de prazer.


7. “Como explicar para meu(sua) parceiro(a) que tenho disfunção sexual?”

Resposta: Seja honesta(o), mas delicada(o). Algumas sugestões:
1. Escolha um momento tranquilo: Não fale na hora do sexo ou depois de uma briga.
2. Use “eu” em vez de “você”:
– ❌ “Você não me excita mais.”
– ✅ “Eu tenho passado por uma fase difícil com o desejo, e queria conversar com você sobre isso.”
3. Explique que não é culpa dele(a):
“Não é sobre você, é algo que está acontecendo comigo.”
4. Fale sobre o que você está fazendo para melhorar:
“Estou procurando um médico/terapeuta para entender melhor.”
5. Peça apoio:
“Você pode me ajudar a passar por isso?”

Exemplo de conversa:
“Amor, eu preciso te contar uma coisa que tem me incomodado. Ultimamente, tenho tido dificuldade de sentir desejo, e isso tem me deixado frustrada(o). Não é sobre você, é algo que está acontecendo comigo. Estou procurando ajuda para entender melhor, e queria muito que a gente pudesse conversar sobre como lidar com isso juntos. Você topa?”


8. “Disfunção sexual pode voltar depois de tratada?”

Resposta: Sim, em alguns casos. A disfunção sexual pode reaparecer em situações de:
Estresse intenso (ex.: perda de emprego, luto).
Mudanças hormonais (ex.: menopausa, andropausa).
Problemas no relacionamento (ex.: traição, brigas).
Doenças físicas ou mentais (ex.: depressão, diabetes).

O que fazer?
Não se culpe. É normal ter recaídas.
Volte ao tratamento. Se funcionou uma vez, pode funcionar de novo.
Mantenha hábitos saudáveis (sono, alimentação, exercícios).


9. “Existe cirurgia para disfunção sexual?”

Resposta: Sim, mas só em casos específicos e como último recurso.
Para homens com disfunção erétil:
Prótese peniana: Um dispositivo é implantado no pênis para permitir ereções.
Cirurgia de revascularização: Em casos de problemas de circulação.
Para mulheres com vaginismo:
Cirurgia para remover o hímen (em casos de hímen imperfurado).
Cirurgia para corrigir cicatrizes (após parto ou trauma).

Importante:
A cirurgia não é a primeira opção. Primeiro, tentam-se remédios, terapia e mudanças de hábitos.
Nem todo mundo é candidato. O médico avalia riscos e benefícios.
Não resolve problemas psicológicos. Se a disfunção for psicológica, a cirurgia não vai resolver.


10. “Como lidar com a vergonha de ter disfunção sexual?”

Resposta: A vergonha é normal, mas não precisa te paralisar. Algumas estratégias:
1. Lembre-se: você não está sozinho(a). Milhões de pessoas passam pelo mesmo.
2. Fale com alguém de confiança (amigo, familiar, terapeuta).
3. Pesquise sobre o assunto. Quanto mais você entende, menos vergonha sente.
4. Comece devagar. Se não consegue falar com seu(sua) parceiro(a), escreva uma carta.
5. Procure grupos de apoio. Ver outras pessoas falando abertamente ajuda a normalizar.

Exemplo:
Uma mulher com anorgasmia se sentiu envergonhada por anos, até encontrar um grupo no Facebook de mulheres com o mesmo problema. Lá, ela viu que não era a única e ganhou coragem para buscar terapia.


Quando procurar ajuda urgente

A maioria dos casos de disfunção sexual não é uma emergência, mas alguns sinais indicam que você deve procurar ajuda imediatamente:

Sinais de alerta vermelho (procure um médico HOJE)

  • Dor intensa durante o sexo (pode indicar infecção, endometriose ou lesão).
  • Sangramento após o sexo (pode ser sinal de câncer de colo de útero, pólipos ou infecção).
  • Ereção dolorosa e prolongada (priapismo) (pode danificar o pênis se não tratada).
  • Pensamentos suicidas por causa da disfunção sexual.

Sinais de alerta amarelo (procure um médico em até 1 semana)

  • Disfunção sexual após começar um novo remédio (pode ser efeito colateral).
  • Mudança repentina no desejo sexual (pode indicar depressão, ansiedade ou problema hormonal).
  • Dor persistente após o sexo (pode ser vaginismo, infecção ou lesão).
  • Ejaculação com sangue (pode indicar prostatite ou câncer de próstata).

Onde procurar ajuda?

  • SUS: UBS (Unidade Básica de Saúde) → encaminhamento para ginecologista, urologista ou psiquiatra.
  • Particular: Psiquiatra, psicólogo, sexólogo.
  • Emergência: UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ou hospital em casos de dor intensa ou sangramento.
  • CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue 188 se estiver com pensamentos suicidas.

Referências

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10). 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
  2. American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  3. Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
  4. Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
  5. Masters, W. H., & Johnson, V. E. Human Sexual Response. Boston: Little, Brown and Company, 1966.
  6. Kaplan, H. S. The New Sex Therapy: Active Treatment of Sexual Dysfunctions. New York: Brunner/Mazel, 1974.
  7. Basson, R. Female Sexual Response: The Role of Drugs in the Management of Sexual Dysfunction. Obstetrics & Gynecology, 2001.
  8. Laumann, E. O., Paik, A., & Rosen, R. C. Sexual Dysfunction in the United States: Prevalence and Predictors. JAMA, 1999.
  9. Abdo, C. H. N. Estudo da vida sexual do brasileiro. São Paulo: Summus, 2004.
  10. Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Disfunção Erétil: Orientações para Pacientes. 2020.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.

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