Um guia completo para entender, reconhecer e lidar com essa condição
O que é?
Imagine que sua mente é como um computador com vários programas rodando ao mesmo tempo. Em situações normais, esses programas funcionam em harmonia, permitindo que você pense, sinta, lembre e aja de forma integrada. Agora, imagine que, de repente, alguns desses programas começam a “travar” ou a funcionar de forma independente, como se não estivessem mais conectados entre si. É mais ou menos isso que acontece nos transtornos dissociativos.
Essa condição faz parte de um grupo de problemas de saúde mental em que ocorre uma ruptura na integração normal da consciência, memória, identidade, emoções, percepção do corpo ou do ambiente. Ou seja: a pessoa pode, por exemplo, esquecer partes importantes da própria vida, sentir que seu corpo não lhe pertence, ter movimentos ou sensações que não consegue controlar, ou até mesmo agir como se fosse outra pessoa em determinados momentos.
Como isso se diferencia de reações normais?
Todo mundo já passou por momentos de “desligamento”, como quando dirigimos por um caminho conhecido e, de repente, percebemos que não lembramos dos últimos quilômetros. Ou quando estamos tão absorvidos em um filme que esquecemos do mundo ao redor. Essas são experiências dissociativas leves e passageiras, comuns no dia a dia.
A diferença nos transtornos dissociativos está na intensidade, frequência e impacto desses sintomas. Eles não são breves nem voluntários, e costumam surgir como uma forma de proteção da mente diante de situações extremamente estressantes, traumáticas ou insuportáveis. É como se o cérebro “desligasse” ou “separasse” certas funções para evitar um sofrimento ainda maior.
Quem é afetado?
Os transtornos dissociativos são mais comuns do que se imagina. Estudos internacionais estimam que cerca de 10% da população geral pode apresentar algum sintoma dissociativo em algum momento da vida, mas apenas uma pequena parte desenvolve o transtorno completo. No Brasil, não há dados precisos, mas sabe-se que:
– Mulheres são mais afetadas do que homens (cerca de 3 vezes mais), possivelmente por fatores culturais, como maior exposição a violências e menor acesso a tratamentos.
– A faixa etária mais comum é entre 15 e 40 anos, mas os sintomas podem começar na infância, especialmente em casos de abuso ou negligência.
– Pessoas que sofreram traumas (abuso físico, sexual, violência doméstica, acidentes graves, guerras) têm maior risco de desenvolver esses transtornos.
Um pouco de história
No passado, esses transtornos eram chamados de “histeria de conversão”, um termo que vem da Grécia Antiga (a palavra hystera significa “útero”, pois acreditava-se que a condição afetava apenas mulheres). Freud, no século XIX, estudou esses casos e propôs que os sintomas físicos (como paralisias sem causa orgânica) eram uma forma de a mente expressar conflitos psicológicos reprimidos.
Hoje, sabemos que não se trata de “frescura” ou “imaginação”, mas sim de uma resposta real e complexa do cérebro a situações extremas. A ciência ainda está descobrindo muito sobre esses transtornos, mas já se sabe que eles têm bases biológicas, psicológicas e sociais.
Quais são os sintomas?
Os transtornos dissociativos podem se manifestar de várias formas, mas todos envolvem algum tipo de desconexão entre partes da mente que normalmente trabalham juntas. Vamos entender cada um dos principais sintomas, com exemplos do dia a dia.
1. Amnésia dissociativa (F44.0)
O que é?
É a incapacidade de lembrar informações pessoais importantes, geralmente relacionadas a eventos traumáticos ou estressantes. Não é um esquecimento comum (como não lembrar onde deixou as chaves), mas sim lacunas grandes na memória, como se trechos inteiros da vida tivessem sido apagados.
Como aparece no dia a dia?
– Exemplo 1: Uma mulher que sofreu abuso na infância pode não se lembrar de absolutamente nada do período entre os 5 e 8 anos de idade, mesmo que outras pessoas contem histórias desse tempo.
– Exemplo 2: Um homem que passou por um assalto violento pode não se lembrar de detalhes do ocorrido, como o rosto do assaltante ou o que fez logo depois do trauma.
– Exemplo 3: Uma pessoa pode acordar em uma cidade diferente sem saber como chegou lá, sem documentos e sem memória dos últimos dias.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Esquecer onde estacionou o carro ou o nome de alguém que acabou de conhecer.
– Sintoma: Não lembrar de um evento traumático inteiro, como um acidente de carro em que você estava presente, ou esquecer períodos longos da vida (meses ou anos).
2. Fuga dissociativa (F44.1)
O que é?
É um tipo mais extremo de amnésia, em que a pessoa viaja ou se desloca de forma inesperada, sem conseguir lembrar de sua identidade ou passado. Às vezes, ela até assume uma nova identidade temporariamente.
Como aparece no dia a dia?
– Exemplo 1: Um homem some de casa após uma briga com a esposa. Dias depois, é encontrado em outra cidade, trabalhando em um emprego que não lembra ter procurado, e não reconhece a própria família.
– Exemplo 2: Uma mulher que sofreu um assalto sai de casa e só “acorda” três dias depois em um hotel, sem saber como chegou lá ou o que fez nesse período.
– Exemplo 3: Um adolescente que passou por bullying intenso some da escola e é encontrado em outra cidade, usando um nome diferente e sem lembrar de sua vida anterior.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Viajar e esquecer alguns detalhes do caminho por estar distraído.
– Sintoma: Viajar sem planejamento, esquecer completamente quem você é e assumir uma nova identidade por dias ou semanas.
3. Estupor dissociativo (F44.2)
O que é?
É um estado de imobilidade ou redução extrema da resposta ao ambiente, como se a pessoa estivesse “desligada”. Ela pode ficar parada por horas, sem falar, comer ou reagir a estímulos externos.
Como aparece no dia a dia?
– Exemplo 1: Uma pessoa que sofreu um trauma recente fica sentada no chão, olhando para a parede, sem responder quando chamada, como se estivesse em transe.
– Exemplo 2: Após uma notícia muito ruim (como a morte de um ente querido), alguém fica paralisado, sem conseguir se mover ou falar, mesmo que esteja consciente.
– Exemplo 3: Durante uma crise, a pessoa pode ficar deitada na cama por dias, sem comer ou beber, como se estivesse “desconectada” do mundo.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Ficar em silêncio por alguns minutos após uma notícia chocante.
– Sintoma: Ficar imóvel e sem reagir por horas ou dias, sem conseguir se alimentar ou se comunicar.
4. Transtornos de transe e possessão (F44.3)
O que é?
São episódios em que a pessoa perde o controle sobre seus movimentos, fala ou identidade, como se estivesse sendo controlada por outra força. Em algumas culturas, isso é interpretado como possessão espiritual, mas na psiquiatria é entendido como um fenômeno dissociativo.
Como aparece no dia a dia?
– Exemplo 1: Durante um ritual religioso, uma pessoa começa a falar em uma voz diferente, como se outra entidade estivesse usando seu corpo, e depois não se lembra do ocorrido.
– Exemplo 2: Uma mulher, após um estresse intenso, começa a ter movimentos involuntários e fala coisas que não reconhece como suas, como se outra personalidade tivesse tomado conta.
– Exemplo 3: Um adolescente, em um momento de muita ansiedade, começa a agir como se fosse outra pessoa, com gestos e tom de voz diferentes, e depois não se lembra do episódio.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Brincar de “fingir ser outra pessoa” em uma peça de teatro ou jogo.
– Sintoma: Perder o controle sobre o próprio corpo e agir como se outra personalidade estivesse no comando, sem lembrança posterior.
5. Transtorno de despersonalização/desrealização (F44.81)
O que é?
A pessoa sente que ela mesma ou o mundo ao redor não são reais, como se estivesse vivendo um sonho ou assistindo à própria vida de fora do corpo.
Como aparece no dia a dia?
– Despersonalização (sentir-se irreal):
– Exemplo 1: Uma pessoa olha para as próprias mãos e sente que elas não são suas, como se estivesse observando o corpo de outra pessoa.
– Exemplo 2: Durante um ataque de pânico, alguém sente que está “flutuando” acima do próprio corpo, como se não estivesse realmente ali.
– Exemplo 3: Uma mulher, após um trauma, passa a se sentir como um “robô”, sem emoções, como se estivesse assistindo à própria vida de longe.
- Desrealização (o mundo parece irreal):
- Exemplo 1: Uma pessoa acorda e sente que tudo ao redor está “embaçado” ou “artificial”, como se estivesse em um filme.
- Exemplo 2: Durante uma crise de ansiedade, alguém olha para a rua e sente que as pessoas e os prédios parecem distantes ou falsos.
- Exemplo 3: Um homem, após um acidente, passa a ver o mundo como se estivesse “atrás de um vidro”, sem conseguir se conectar com a realidade.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Sentir-se “fora do corpo” por alguns segundos após um susto.
– Sintoma: Ter essa sensação por horas ou dias, de forma recorrente, a ponto de atrapalhar a vida.
6. Transtorno dissociativo de identidade (F44.81 – antigo “personalidade múltipla”)
O que é?
É a forma mais grave e conhecida dos transtornos dissociativos. A pessoa desenvolve duas ou mais identidades distintas, que podem assumir o controle do comportamento em momentos diferentes. Cada identidade pode ter memórias, gostos, idades e até características físicas (como postura ou tom de voz) diferentes.
Como aparece no dia a dia?
– Exemplo 1: Uma mulher pode ter uma identidade chamada “Ana”, que é tímida e estudiosa, e outra chamada “Lúcia”, que é extrovertida e impulsiva. Em alguns momentos, ela age como Ana; em outros, como Lúcia, sem se lembrar do que fez na outra identidade.
– Exemplo 2: Um homem pode ter uma identidade que fala inglês fluentemente (mesmo que ele não tenha aprendido) e outra que só fala português, com memórias e habilidades diferentes.
– Exemplo 3: Uma criança que sofreu abuso pode desenvolver uma identidade “protetora” que assume o controle em situações de perigo, enquanto a identidade principal não se lembra do ocorrido.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Ter diferentes “versões” de si mesmo em contextos diferentes (ex.: ser sério no trabalho e brincalhão com os amigos).
– Sintoma: Ter identidades completamente distintas, com memórias, comportamentos e até características físicas diferentes, que assumem o controle sem que a pessoa consiga lembrar depois.
7. Transtorno conversivo (F44.4-F44.7)
O que é?
É quando a pessoa apresenta sintomas físicos sem causa orgânica, como paralisias, cegueira, surdez ou convulsões, que surgem após um estresse emocional intenso. O cérebro “converte” o sofrimento psicológico em sintomas físicos.
Como aparece no dia a dia?
– Exemplo 1: Uma mulher que sofreu abuso sexual pode, de repente, perder a sensibilidade nas pernas, sem que nenhum exame médico encontre uma causa física.
– Exemplo 2: Um adolescente, após uma briga com os pais, pode ter uma convulsão que parece epiléptica, mas os exames neurológicos não mostram alterações.
– Exemplo 3: Uma pessoa que presenciou um acidente pode, de repente, ficar cega por alguns dias, mesmo sem nenhum problema nos olhos.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Sentir o corpo “pesado” ou “dor de cabeça” após um dia estressante.
– Sintoma: Perder funções corporais (como andar ou enxergar) sem causa médica, após um trauma emocional.
Um alerta importante
Ter um ou dois desses sintomas isoladamente não significa que você tenha um transtorno dissociativo. O que define o diagnóstico é:
1. A intensidade (os sintomas são tão fortes que atrapalham a vida?).
2. A duração (eles duram semanas ou meses, não apenas alguns minutos?).
3. O contexto (eles surgiram após um trauma ou estresse extremo?).
4. O impacto (eles causam sofrimento ou prejuízo no trabalho, nos relacionamentos ou na saúde?).
Se você ou alguém próximo estiver passando por algo parecido, procure um profissional de saúde mental. Muitas vezes, esses sintomas são uma forma de a mente lidar com algo que não consegue processar de outra maneira, e o tratamento pode ajudar a recuperar o controle.
Como se manifesta no dia a dia?
Os transtornos dissociativos não afetam apenas a mente — eles têm um impacto profundo em todas as áreas da vida. Vamos ver como isso acontece na prática.
No trabalho ou na escola
- Dificuldade de concentração: A pessoa pode ter “brancos” frequentes, esquecer tarefas importantes ou não conseguir acompanhar reuniões ou aulas.
- Exemplo: Um estudante que sempre foi bom em matemática, de repente, não consegue resolver problemas simples porque sua mente “desliga” durante as provas.
- Faltas frequentes: Em casos de fuga dissociativa ou amnésia, a pessoa pode faltar ao trabalho ou à escola sem explicação, deixando colegas e chefes/professores confusos.
- Exemplo: Uma funcionária some por dois dias após uma discussão com o chefe e, quando volta, não se lembra de ter faltado.
- Mudanças bruscas de comportamento: No transtorno dissociativo de identidade, a pessoa pode agir de formas muito diferentes em curtos períodos, confundindo colegas.
- Exemplo: Um profissional que é calmo e organizado em um dia pode, no outro, ser agressivo e desorganizado, sem entender por quê.
Nos relacionamentos
- Dificuldade de confiar: Pessoas com transtornos dissociativos, especialmente após traumas, podem ter medo de se aproximar dos outros ou de serem abandonadas.
- Exemplo: Uma mulher que sofreu abuso na infância pode evitar relacionamentos íntimos por medo de ser machucada novamente.
- Esquecimentos frequentes: A amnésia dissociativa pode fazer com que a pessoa esqueça compromissos, conversas importantes ou até aniversários, o que pode ser interpretado como desinteresse.
- Exemplo: Um marido esquece completamente o aniversário de casamento, mesmo tendo planejado algo especial, porque sua mente “apagou” essa informação.
- Mudanças de humor repentinas: No transtorno dissociativo de identidade, a pessoa pode alternar entre estados emocionais muito diferentes, deixando parceiros e familiares confusos.
- Exemplo: Uma mãe que é carinhosa com os filhos em um momento pode, no outro, agir de forma fria e distante, como se fosse outra pessoa.
Na rotina diária
- Problemas com autocuidado: Em casos graves, a pessoa pode esquecer de comer, tomar banho ou tomar remédios, porque sua mente está “desconectada”.
- Exemplo: Uma pessoa com estupor dissociativo pode ficar dias sem se alimentar porque não sente fome ou não consegue se mover.
- Dificuldade de tomar decisões: A despersonalização pode fazer com que a pessoa sinta que suas escolhas não são reais, levando à procrastinação ou indecisão.
- Exemplo: Alguém pode passar horas olhando para o guarda-roupa sem conseguir escolher uma roupa, porque sente que nada é “real”.
- Isolamento social: Por vergonha ou medo de perder o controle, a pessoa pode evitar sair de casa ou interagir com outras pessoas.
- Exemplo: Uma mulher com transtorno conversivo (como paralisia nas pernas) pode parar de sair de casa por medo de ser julgada.
Na saúde física
- Sintomas sem causa médica: No transtorno conversivo, a pessoa pode ter dores, paralisias ou convulsões que não são explicadas por exames.
- Exemplo: Uma pessoa pode acordar sem conseguir mexer os braços, mesmo que todos os exames mostrem que não há nada de errado com seus nervos.
- Dores crônicas: O estresse emocional pode se manifestar como dores de cabeça, dores musculares ou problemas digestivos.
- Exemplo: Uma mulher com amnésia dissociativa pode ter enxaquecas frequentes, especialmente quando tenta lembrar de eventos traumáticos.
- Problemas de sono: Insônia, pesadelos ou sono excessivo são comuns, especialmente após episódios dissociativos.
- Exemplo: Uma pessoa pode ter pesadelos recorrentes sobre um trauma e acordar em pânico, sem conseguir voltar a dormir.
O que causa essa condição?
Os transtornos dissociativos não têm uma causa única — eles surgem de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos
Não existe um “gene da dissociação”, mas estudos mostram que pessoas com histórico familiar de transtornos mentais (como depressão, ansiedade ou esquizofrenia) têm maior chance de desenvolver transtornos dissociativos.
- Analogia: Imagine que o cérebro é como um computador. Algumas pessoas nascem com um “sistema operacional” mais sensível a bugs (problemas) quando expostas a estresse extremo. Não é que o bug seja inevitável, mas o computador tem mais dificuldade de lidar com ele.
2. Fatores neurobiológicos (o que acontece no cérebro?)
O cérebro de pessoas com transtornos dissociativos funciona de forma diferente em algumas áreas:
– Amígdala: É a parte do cérebro responsável pelo medo. Em pessoas com traumas, ela pode ficar hiperativa, fazendo com que a mente “desligue” para se proteger.
– Hipocampo: É responsável pela memória. Em casos de estresse extremo, ele pode “encolher” temporariamente, dificultando a formação de memórias.
– Córtex pré-frontal: É a área que controla a tomada de decisões e a percepção da realidade. Em momentos de dissociação, ela pode ficar menos ativa, fazendo com que a pessoa sinta que está “fora do corpo”.
- Analogia: Pense no cérebro como uma orquestra. Em situações normais, todos os instrumentos tocam em harmonia. Mas, após um trauma, alguns instrumentos (como a amígdala) começam a tocar alto demais, enquanto outros (como o córtex pré-frontal) “desafinam”, causando a dissociação.
3. Fatores ambientais (experiências de vida)
A principal causa dos transtornos dissociativos são traumas e estresses extremos, especialmente na infância. Alguns exemplos:
– Abuso físico, sexual ou emocional (especialmente quando cometido por pessoas próximas, como pais ou cuidadores).
– Negligência (crianças que crescem sem afeto, segurança ou cuidados básicos).
– Violência doméstica ou comunitária (testemunhar brigas constantes, guerras ou assassinatos).
– Acidentes graves ou desastres naturais (como incêndios, enchentes ou sequestros).
– Perda repentina de um ente querido (especialmente se a pessoa não teve apoio para lidar com o luto).
- Analogia: Imagine que a mente é como uma casa. Um trauma é como um terremoto — se a casa não foi construída para resistir a tremores (ou seja, se a pessoa não teve apoio emocional), as paredes podem rachar, e alguns cômodos podem ficar inacessíveis (como as memórias dissociadas).
4. Fatores culturais
Em algumas culturas, estados dissociativos são normais e até valorizados, como em rituais religiosos ou xamanismo. Nesses casos, a dissociação não é considerada um transtorno, a menos que cause sofrimento.
- Exemplo: Em algumas tribos indígenas, é comum que pessoas entrem em transe durante cerimônias espirituais. Isso não é visto como doença, mas como uma conexão com o divino.
- No Brasil: Em religiões como o candomblé e a umbanda, estados de possessão são parte da prática religiosa. Mas se uma pessoa começa a ter episódios dissociativos fora do contexto religioso e isso a atrapalha, pode ser um sinal de transtorno.
Mitos e verdades sobre as causas
❌ Mito: “Transtornos dissociativos são frescura ou fingimento.”
✅ Verdade: São respostas reais do cérebro a situações extremas. Ninguém escolhe ter esses sintomas.
❌ Mito: “Só pessoas fracas desenvolvem transtornos dissociativos.”
✅ Verdade: Qualquer pessoa pode desenvolver, especialmente após traumas. A força não tem nada a ver com isso.
❌ Mito: “Se a pessoa não se lembra do trauma, é porque não aconteceu.”
✅ Verdade: A amnésia dissociativa é uma forma de proteção da mente. Não lembrar não significa que o trauma não existiu.
❌ Mito: “Transtorno dissociativo de identidade é a mesma coisa que esquizofrenia.”
✅ Verdade: São condições diferentes. Na esquizofrenia, a pessoa tem alucinações e delírios; no transtorno dissociativo de identidade, há uma fragmentação da identidade, mas a pessoa não perde o contato com a realidade.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de transtorno dissociativo pode ser um alívio (por finalmente entender o que está acontecendo) ou assustador (por ser algo desconhecido). Vamos entender como funciona esse processo.
1. O primeiro passo: reconhecer que algo não está certo
Muitas pessoas com transtornos dissociativos não percebem que seus sintomas são um problema — elas acham que são “esquecidas”, “desligadas” ou “estranhas”. Quem costuma notar primeiro são os familiares, amigos ou colegas.
- Sinais de que é hora de procurar ajuda:
- Você ou alguém próximo tem lacunas grandes na memória (esquece eventos importantes, como um casamento ou um acidente).
- Sente que não é dono do próprio corpo (como se estivesse assistindo à própria vida de fora).
- Tem sintomas físicos sem causa médica (paralisias, convulsões, cegueira).
- Age de formas muito diferentes em curtos períodos, sem lembrar depois.
- Os sintomas atrapalham sua vida (trabalho, relacionamentos, saúde).
2. Onde procurar ajuda?
No Brasil, você pode buscar atendimento em:
– SUS (Sistema Único de Saúde):
– UBS (Unidade Básica de Saúde): O médico de família pode encaminhar para um psiquiatra ou psicólogo.
– CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Especializado em saúde mental, oferece atendimento gratuito.
– Hospitais universitários: Alguns têm ambulatórios de psiquiatria com atendimento gratuito ou de baixo custo.
– Particular:
– Psiquiatras e psicólogos: Você pode marcar uma consulta diretamente. O valor varia, mas alguns profissionais atendem por convênio ou têm preços sociais.
– Clínicas-escola: Universidades com cursos de psicologia oferecem atendimento supervisionado por preços baixos.
3. O que esperar na primeira consulta?
A primeira consulta costuma ser uma conversa longa e detalhada, em que o profissional vai fazer perguntas como:
– “Como você está se sentindo?” (para entender os sintomas).
– “Há quanto tempo isso acontece?” (para avaliar a duração).
– “Você passou por algum trauma ou estresse recente?” (para identificar causas).
– “Alguém na sua família tem problemas de saúde mental?” (para verificar histórico genético).
– “Como isso está afetando sua vida?” (para avaliar o impacto).
O profissional também pode pedir exames físicos (como ressonância magnética ou exames de sangue) para descartar outras condições, como epilepsia, tumores cerebrais ou doenças neurológicas.
4. Quanto tempo leva para ter um diagnóstico?
Não existe um prazo exato, mas o processo costuma levar algumas semanas ou meses, porque:
– Os sintomas dissociativos podem ser confundidos com outras condições (como depressão, ansiedade ou esquizofrenia).
– É preciso descartar causas físicas (como doenças neurológicas).
– Em alguns casos, o profissional pode pedir mais de uma consulta para observar a evolução dos sintomas.
5. Diagnóstico diferencial: o que pode ser confundido?
Muitos sintomas dos transtornos dissociativos são parecidos com os de outras condições. Por isso, o profissional vai avaliar se não se trata de:
– Epilepsia: Algumas crises epilépticas podem causar amnésia ou movimentos involuntários, mas os exames neurológicos mostram alterações.
– Esquizofrenia: A pessoa pode ter alucinações ou delírios, mas não há fragmentação da identidade.
– Transtorno bipolar: As mudanças de humor são mais lentas e não envolvem perda de memória ou identidade.
– Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT): A pessoa pode ter flashbacks e evitação, mas não perde a noção de quem é.
– Transtornos de personalidade (como borderline): A pessoa pode ter impulsividade e instabilidade emocional, mas não há amnésia ou identidades distintas.
6. E se o diagnóstico for confirmado?
Receber o diagnóstico pode ser um momento de alívio (por finalmente ter uma explicação) ou de medo (por não saber o que fazer). O importante é lembrar que:
– Você não está sozinho: Milhares de pessoas no Brasil têm transtornos dissociativos e levam vidas plenas com tratamento.
– Não é culpa sua: Esses transtornos são respostas a situações que você não escolheu passar.
– Existe tratamento: Com terapia e, em alguns casos, medicação, é possível recuperar o controle e melhorar a qualidade de vida.
Tratamento
Os transtornos dissociativos têm tratamento, e quanto antes ele começar, melhores são os resultados. O objetivo não é “curar” a dissociação (porque, em muitos casos, ela é uma forma de proteção), mas sim aprender a lidar com os sintomas e reduzir seu impacto na vida.
O tratamento costuma envolver uma combinação de medicação, psicoterapia e mudanças no estilo de vida. Vamos entender cada parte.
1. Medicamentos
Não existe um remédio específico para “curar” a dissociação, mas alguns medicamentos podem ajudar a controlar sintomas associados, como ansiedade, depressão ou insônia.
Classes de medicamentos mais usadas
| Classe | Para que serve? | Exemplos | Como funciona? | Efeitos colaterais comuns |
|---|---|---|---|---|
| Antidepressivos | Reduzem ansiedade, depressão e ajudam a estabilizar o humor. | Fluoxetina, Sertralina, Venlafaxina | Aumentam a disponibilidade de serotonina e noradrenalina no cérebro. | Náusea, sonolência, ganho de peso, diminuição da libido. |
| Ansiolíticos | Controlam crises de ansiedade e pânico. | Clonazepam, Diazepam | Potencializam o efeito do GABA, um neurotransmissor que “acalma” o cérebro. | Sonolência, dependência (se usado por muito tempo), tontura. |
| Estabilizadores de humor | Ajudam a controlar oscilações emocionais intensas. | Carbamazepina, Ácido Valpróico | Regulam a atividade elétrica do cérebro. | Tontura, ganho de peso, tremores. |
| Antipsicóticos | Usados em casos graves, como no transtorno dissociativo de identidade com sintomas psicóticos. | Quetiapina, Risperidona | Bloqueiam receptores de dopamina, reduzindo alucinações e delírios. | Sonolência, rigidez muscular, ganho de peso. |
Perguntas comuns sobre medicação
❓ “Os remédios vão me deixar ‘dopado’ ou mudar minha personalidade?”
✅ Não. Os medicamentos são ajustados para aliviar os sintomas sem tirar sua essência. Você continuará sendo você, só que com menos sofrimento.
❓ “Vou precisar tomar remédio para sempre?”
✅ Depende. Alguns casos precisam de medicação por longos períodos, enquanto outros conseguem reduzir ou parar depois de um tempo, com acompanhamento médico.
❓ “Os remédios vicia?”
✅ A maioria não. Os antidepressivos e estabilizadores de humor não causam dependência. Os ansiolíticos (como o clonazepam) podem viciar se usados por muito tempo sem orientação.
❓ “Quanto tempo demora para fazer efeito?”
✅ Antidepressivos: 2 a 6 semanas para começar a fazer efeito.
✅ Ansiolíticos: Alguns minutos (em casos de crise) ou dias (para efeito contínuo).
✅ Estabilizadores de humor: 1 a 2 semanas.
❓ “Posso parar de tomar quando me sentir melhor?”
✅ Não. Parar o remédio de repente pode causar efeitos de abstinência (como tontura, náusea ou piora dos sintomas). Sempre converse com seu médico antes de fazer qualquer mudança.
2. Psicoterapia
A terapia é a parte mais importante do tratamento, porque ajuda a pessoa a entender os sintomas, processar traumas e recuperar o controle da própria mente. Existem várias abordagens, mas as mais usadas para transtornos dissociativos são:
A. Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
O que é? Uma terapia focada em identificar e mudar padrões de pensamento e comportamento que causam sofrimento.
Como ajuda nos transtornos dissociativos?
– Ensina técnicas para lidar com a ansiedade e o estresse (como respiração e relaxamento).
– Ajuda a reestruturar memórias traumáticas, reduzindo seu impacto emocional.
– Trabalha habilidades sociais, para melhorar relacionamentos.
Exemplo de sessão:
– O terapeuta pode pedir para a pessoa descrever um episódio dissociativo e, juntos, identificar o que desencadeou.
– Depois, eles criam estratégias para lidar com esses gatilhos (ex.: se a dissociação acontece quando a pessoa está sozinha, ela pode aprender a ligar para um amigo nesses momentos).
B. Terapia de processamento e dessensibilização por movimentos oculares (EMDR)
O que é? Uma terapia específica para processar traumas, usando movimentos oculares ou estímulos bilaterais (como toques ou sons alternados).
Como ajuda?
– Ajuda o cérebro a reprocessar memórias traumáticas, reduzindo sua carga emocional.
– É especialmente útil para amnésia dissociativa e TEPT.
Exemplo de sessão:
– A pessoa é convidada a lembrar de um evento traumático enquanto acompanha os movimentos dos dedos do terapeuta com os olhos.
– Isso ajuda o cérebro a integrar a memória, fazendo com que ela deixe de causar tanto sofrimento.
C. Terapia de integração (para transtorno dissociativo de identidade)
O que é? Uma abordagem específica para ajudar as diferentes identidades a se comunicarem e trabalharem juntas.
Como ajuda?
– Mapeia as identidades, entendendo o papel de cada uma (ex.: uma identidade pode ser “protetora”, outra pode guardar memórias traumáticas).
– Promove a comunicação entre elas, para que a pessoa não perca tempo ou memórias.
– Trabalha a integração, se for o objetivo da pessoa (nem todo mundo quer fundir as identidades; algumas preferem aprender a conviver com elas).
Exemplo de sessão:
– O terapeuta pode pedir para a pessoa desenhar ou escrever sobre cada identidade, entendendo suas características e funções.
– Depois, eles criam estratégias para que as identidades “se revezem” de forma mais organizada (ex.: uma identidade cuida do trabalho, outra cuida dos filhos).
D. Terapia familiar ou de casal
O que é? Uma terapia que envolve familiares ou parceiros, para melhorar a comunicação e o apoio.
Como ajuda?
– Ajuda a família a entender o transtorno e a não interpretar os sintomas como “frescura” ou “manipulação”.
– Ensina estratégias para lidar com crises (ex.: como ajudar uma pessoa em fuga dissociativa).
– Melhora o suporte emocional, reduzindo o isolamento.
Exemplo de sessão:
– O terapeuta pode simular uma situação em que a pessoa tem um episódio dissociativo e ensinar a família como reagir (ex.: não gritar, não sacudir, oferecer água e um ambiente calmo).
3. Mudanças no dia a dia
Além de medicação e terapia, algumas mudanças na rotina podem ajudar a reduzir os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
A. Exercício físico
Por que ajuda?
– Libera endorfinas, que melhoram o humor e reduzem a ansiedade.
– Ajuda a regular o sono e a reduzir a tensão muscular (comum em casos de transtorno conversivo).
– Melhora a conexão mente-corpo, reduzindo a despersonalização.
Quais exercícios são melhores?
– Yoga e tai chi: Combinam movimento, respiração e meditação, ajudando a “ancorar” a pessoa no presente.
– Caminhada ou corrida: Liberam endorfinas e ajudam a clarear a mente.
– Dança: Ajuda a reconectar com o corpo de forma prazerosa.
Dica: Comece com 10 a 15 minutos por dia e aumente gradualmente. O importante é não forçar — se a pessoa estiver em um episódio dissociativo, atividades leves (como alongamento) são melhores.
B. Sono
Por que é importante?
– A falta de sono piora a dissociação, aumentando a sensação de irrealidade.
– Pessoas com transtornos dissociativos costumam ter insônia ou pesadelos.
Dicas para melhorar o sono:
– Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias.
– Ambiente: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco.
– Evite telas: Desligue celular, TV e computador 1 hora antes de dormir.
– Relaxamento: Pratique respiração profunda ou meditação antes de deitar.
– Evite cafeína e álcool: Eles podem piorar a ansiedade e os pesadelos.
C. Alimentação
Por que é importante?
– Alguns nutrientes ajudam a regular o humor e a função cerebral.
– A desnutrição pode piorar a fadiga e a confusão mental.
O que comer?
– Ômega-3 (peixes, nozes, linhaça): Ajuda na saúde cerebral.
– Magnésio (banana, espinafre, chocolate amargo): Reduz a ansiedade.
– Vitamina B12 (ovos, carne, leite): Importante para a memória.
– Probióticos (iogurte, kefir): Melhoram a saúde intestinal, que está ligada ao humor.
O que evitar?
– Açúcar refinado: Pode causar picos de energia seguidos de queda, piorando a ansiedade.
– Alimentos ultraprocessados: Podem aumentar a inflamação no corpo, piorando o estresse.
– Excesso de cafeína: Pode desencadear crises de ansiedade.
D. Rotina
Por que é importante?
– Uma rotina estruturada reduz a sensação de caos e ajuda a pessoa a se sentir mais no controle.
– Exemplo de rotina:
– Manhã: Acordar, tomar café da manhã, fazer uma caminhada.
– Tarde: Trabalho/escola, almoço, terapia ou atividade relaxante.
– Noite: Jantar, tempo livre, rotina de sono.
Dicas:
– Use agendas ou aplicativos para lembrar de compromissos.
– Divida tarefas grandes em etapas menores (ex.: em vez de “limpar a casa”, faça “arrumar a cama”, “lavar a louça”).
– Inclua momentos de lazer (ler, ouvir música, ver um filme).
E. Técnicas de manejo para crises
Algumas estratégias podem ajudar a reduzir a intensidade dos episódios dissociativos quando eles acontecem.
| Técnica | Como fazer? | Para que serve? |
|---|---|---|
| Grounding (ancoragem) | Nomeie 5 coisas que você vê, 4 que toca, 3 que ouve, 2 que cheira, 1 que sente. | Ajuda a “voltar” para o presente quando está se sentindo desconectado. |
| Respiração 4-7-8 | Inspire por 4 segundos, segure por 7, expire por 8. Repita 4 vezes. | Reduz a ansiedade e a sensação de irrealidade. |
| Água fria | Lave o rosto com água fria ou segure um cubo de gelo na mão. | O choque térmico ajuda a “resetar” o sistema nervoso. |
| Objeto de transição | Carregue um objeto pequeno (como uma pedra ou um chaveiro) e toque nele. | Serve como uma “âncora” para lembrar que você está no presente. |
| Música | Ouça uma música que você goste e cante junto. | A música ativa áreas do cérebro ligadas à emoção e à memória. |
Convivendo com o diagnóstico
Receber um diagnóstico de transtorno dissociativo pode ser um momento de virada — tanto para a pessoa quanto para seus familiares. Vamos falar sobre como lidar com essa nova realidade.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceitação não é rendição
No começo, é comum sentir raiva, negação ou vergonha. Você pode pensar:
– “Isso não pode estar acontecendo comigo.”
– “Sou fraco por não conseguir controlar.”
– “As pessoas vão me achar louco.”
Mas aceitar o diagnóstico não significa desistir — pelo contrário, é o primeiro passo para recuperar o controle. Pense nisso como um mapa: agora que você sabe onde está, pode traçar o melhor caminho para seguir em frente.
2. Você não é seus sintomas
Os transtornos dissociativos podem fazer você se sentir fragmentado, irreal ou fora de controle. Mas lembre-se:
– Você não é sua amnésia. Você é a pessoa que está lutando para se lembrar.
– Você não é suas identidades. No transtorno dissociativo de identidade, cada “parte” faz parte de um todo — e esse todo é você.
– Você não é seu trauma. O que aconteceu com você não define quem você é.
3. Pequenas vitórias importam
A recuperação não é linear. Alguns dias serão mais difíceis, e tudo bem. Celebre as pequenas conquistas:
– Conseguir sair de casa.
– Lembrar de algo que antes era um “branco”.
– Dizer “não” quando algo te incomoda.
– Pedir ajuda quando precisar.
4. Crie uma “caixa de ferramentas” para crises
Tenha sempre à mão estratégias que funcionam para você em momentos de crise. Pode ser:
– Um caderno com técnicas de grounding.
– Uma playlist de músicas que te acalmam.
– O número de um amigo ou familiar que sabe como te ajudar.
– Um objeto de transição (como uma pedra ou um chaveiro).
5. Não tenha vergonha de pedir ajuda
- Para o terapeuta: Se algo não está funcionando, fale. A terapia é um espaço seguro para ajustar o tratamento.
- Para amigos e familiares: Diga o que você precisa. Às vezes, só um abraço ou um silêncio companheiro já ajuda.
- Para grupos de apoio: Conhecer outras pessoas que passam pelo mesmo pode ser muito reconfortante. No Brasil, existem grupos presenciais e online (como o Grupo Viva Voz ou o ABRATA).
Para familiares e amigos
1. Eduque-se sobre o transtorno
O primeiro passo é entender o que a pessoa está passando. Leia sobre o assunto, assista a vídeos, converse com profissionais. Quanto mais você souber, menos medo e mais empatia terá.
2. Não minimize os sintomas
Frases como “Isso é coisa da sua cabeça” ou “Você está exagerando” não ajudam. Os sintomas são reais e causam sofrimento. Em vez disso, tente:
– “Eu não entendo completamente o que você está sentindo, mas estou aqui para te ouvir.”
– “Como posso te ajudar nesse momento?”
3. Aprenda a reconhecer os gatilhos
Algumas situações podem desencadear episódios dissociativos, como:
– Estresse intenso (brigas, prazos no trabalho, problemas financeiros).
– Lembranças de traumas (aniversários de eventos ruins, lugares que remetem ao passado).
– Mudanças bruscas (viagens, novos relacionamentos, perda de emprego).
Se você souber quais são os gatilhos da pessoa, pode ajudar a evitá-los ou prepará-la para lidar com eles.
4. Saiba o que fazer em uma crise
Cada pessoa reage de um jeito, mas algumas dicas gerais são:
– Mantenha a calma. Falar alto ou sacudir a pessoa pode piorar a crise.
– Use técnicas de grounding. Pergunte: “O que você está vendo agora?” ou “Conte até 5 coisas ao seu redor.”
– Ofereça água ou um objeto familiar. Às vezes, segurar algo conhecido (como um cobertor ou um brinquedo) ajuda a “ancorar” a pessoa.
– Não force a pessoa a falar. Se ela estiver em estupor ou fuga, espere até que se sinta segura.
– Ligue para o profissional de saúde se a crise durar muito tempo ou se a pessoa estiver em perigo.
5. Cuide de si mesmo
Acompanhar alguém com transtorno dissociativo pode ser exaustivo emocionalmente. Lembre-se:
– Você não é responsável pela recuperação da pessoa. Seu papel é apoiar, não “consertar”.
– Peça ajuda se precisar. Terapia familiar ou grupos de apoio para cuidadores podem ser muito úteis.
– Reserve um tempo para você. Não abandone seus hobbies, amigos ou autocuidado.
6. Como explicar para outras pessoas?
Muitas pessoas não entendem os transtornos dissociativos e podem fazer perguntas invasivas ou julgamentos. Algumas formas de explicar:
– Para crianças: “Às vezes, a mente da [nome] fica confusa, como se ela estivesse em um sonho. Nós ajudamos ela a voltar para o presente.”
– Para adultos: “É um transtorno em que a pessoa tem dificuldade de se lembrar de coisas ou se sentir conectada com a realidade. Não é frescura, é uma resposta do cérebro a situações muito difíceis.”
– Para quem não entende: “É como se a mente dela tivesse um ‘curto-circuito’ em momentos de estresse. Com tratamento, ela consegue lidar melhor com isso.”
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações podem aumentar a frequência ou a intensidade dos episódios dissociativos. Fique atento a:
– Estresse prolongado (problemas no trabalho, relacionamentos conturbados, luto).
– Mudanças de rotina (viagens, mudança de casa, novo emprego).
– Falta de sono ou má alimentação (o corpo fica mais vulnerável).
– Uso de álcool ou drogas (podem piorar a dissociação e a ansiedade).
– Isolamento social (a falta de apoio pode aumentar a sensação de irrealidade).
– Aniversários de traumas (datas que lembram eventos ruins podem desencadear crises).
O que fazer nesses momentos?
– Aumente o autocuidado: Durma bem, alimente-se direito, faça exercícios leves.
– Evite gatilhos conhecidos: Se certos lugares ou pessoas desencadeiam crises, tente evitá-los temporariamente.
– Peça ajuda: Converse com seu terapeuta ou médico sobre ajustar o tratamento.
– Use suas técnicas de manejo: Grounding, respiração, música — o que funcionar para você.
Perguntas frequentes
1. “Transtorno dissociativo tem cura?”
Não existe uma “cura” no sentido de eliminar completamente os sintomas, mas a maioria das pessoas consegue levar uma vida plena com tratamento. O objetivo é:
– Reduzir a frequência e a intensidade dos episódios.
– Aprender a lidar com os sintomas quando eles acontecem.
– Processar traumas para que eles não controlem mais sua vida.
Algumas pessoas deixam de ter sintomas após anos de tratamento, enquanto outras aprendem a conviver com eles de forma menos dolorosa. O importante é não desistir.
2. “Posso ter uma vida normal com esse diagnóstico?”
Sim! Muitas pessoas com transtornos dissociativos:
– Trabalham em empregos estáveis.
– Têm relacionamentos saudáveis.
– Criam filhos.
– Viajam, estudam e se divertem.
O segredo é ter um bom tratamento, uma rede de apoio e estratégias para lidar com as crises. Não é fácil, mas é possível.
3. “Meu filho tem sintomas dissociativos. O que faço?”
Crianças e adolescentes também podem desenvolver transtornos dissociativos, especialmente após traumas. Alguns sinais de alerta:
– Esquecimentos frequentes (não lembrar de eventos importantes, como um aniversário).
– Mudanças bruscas de comportamento (agir como se fosse outra pessoa).
– Sintomas físicos sem causa médica (paralisias, convulsões).
– Dificuldade de concentração na escola.
– Pesadelos ou medo excessivo de situações específicas.
O que fazer?
– Procure um psiquiatra infantil ou psicólogo. Quanto antes o tratamento começar, melhor.
– Crie um ambiente seguro. Evite brigas, gritos ou situações que possam assustar a criança.
– Converse com a escola. Professores e coordenadores podem ajudar a identificar gatilhos e oferecer apoio.
– Não force a criança a falar sobre o trauma. Deixe que ela fale no tempo dela, com a ajuda de um profissional.
4. “Como diferenciar um episódio dissociativo de um surto psicótico?”
Essa é uma dúvida comum, porque alguns sintomas podem parecer semelhantes. A diferença principal é:
| Transtorno Dissociativo | Surto Psicótico (Esquizofrenia, por exemplo) |
|—————————–|————————————————-|
| A pessoa não perde o contato com a realidade. Ela sabe que está tendo um episódio. | A pessoa perde o contato com a realidade (acredita em coisas que não são verdadeiras). |
| Os sintomas são respostas a traumas ou estresse. | Os sintomas podem surgir sem um gatilho claro. |
| A pessoa não tem alucinações (como ouvir vozes que não existem). | A pessoa pode ter alucinações ou delírios. |
| A recuperação costuma ser mais rápida com tratamento. | A recuperação pode ser mais lenta e complexa. |
Se você não tiver certeza, procure um profissional. Ele fará uma avaliação detalhada para diferenciar as condições.
5. “Posso dirigir ou operar máquinas se tenho transtorno dissociativo?”
Depende da gravidade dos sintomas. Em casos leves, a pessoa pode dirigir normalmente. Em casos graves (como fuga dissociativa ou estupor), não é seguro.
Recomendações:
– Converse com seu médico. Ele pode avaliar se seus sintomas permitem atividades de risco.
– Evite dirigir em momentos de estresse. Se estiver ansioso ou com sintomas de despersonalização, peça para alguém dirigir por você.
– Use transporte público ou caronas se não se sentir seguro.
– Informe seu empregador se seu trabalho envolve operar máquinas. Ele pode adaptar suas funções temporariamente.
6. “O transtorno dissociativo pode levar ao suicídio?”
Infelizmente, sim. Pessoas com transtornos dissociativos têm maior risco de pensamentos suicidas, especialmente se:
– Os sintomas são muito intensos e frequentes.
– A pessoa não tem apoio de familiares ou amigos.
– Há outros transtornos associados, como depressão ou TEPT.
Sinais de alerta:
– Falar sobre querer morrer ou desaparecer.
– Dizer frases como “Ninguém sentiria minha falta” ou “Eu sou um peso para os outros”.
– Isolamento extremo (parar de falar com amigos, faltar ao trabalho).
– Comportamentos de risco (dirigir em alta velocidade, usar drogas, se machucar).
– Despedidas (dar objetos pessoais, escrever cartas de adeus).
O que fazer?
– Não deixe a pessoa sozinha. Fique com ela ou peça para alguém ficar.
– Ligue para o CVV (188). O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito 24 horas.
– Procure ajuda médica urgente. Leve a pessoa a um pronto-socorro ou CAPS.
– Tire objetos perigosos do alcance. Remova facas, remédios, cordas ou armas.
7. “Como explicar meu diagnóstico no trabalho?”
Essa é uma decisão pessoal. Algumas pessoas preferem não contar, por medo de preconceito. Outras contam para ter mais apoio. Se decidir compartilhar, algumas dicas:
– Escolha a pessoa certa. Converse primeiro com alguém de confiança, como um chefe ou colega próximo.
– Seja claro e objetivo. “Tenho um transtorno dissociativo, que às vezes me faz esquecer coisas ou me sentir desconectado. Não é frescura, é uma condição médica.”
– Explique como pode afetar seu trabalho. “Às vezes, posso precisar de um lembrete ou de um tempo para me recuperar.”
– Peça o que você precisa. “Se eu parecer distraído, pode me chamar pelo nome para me trazer de volta?”
– Não se sinta obrigado a dar detalhes. Você não precisa contar sobre traumas ou sintomas específicos.
Se o ambiente de trabalho for hostil ou preconceituoso, considere não contar ou procurar um local mais acolhedor.
8. “Existe algum aplicativo ou tecnologia que possa ajudar?”
Sim! Alguns aplicativos podem auxiliar no manejo dos sintomas:
| Aplicativo | Para que serve? | Disponível para |
|---|---|---|
| Daylio | Registra humor e atividades diárias, ajudando a identificar gatilhos. | Android e iOS |
| Finch | Um “pet virtual” que incentiva autocuidado e rotina. | Android e iOS |
| Rootd | Ajuda a lidar com crises de ansiedade e ataques de pânico. | Android e iOS |
| PTSD Coach | Desenvolvido para veteranos de guerra, mas útil para qualquer pessoa com TEPT. | Android e iOS |
| Headspace | Meditações guiadas para reduzir ansiedade e melhorar o sono. | Android e iOS |
| eMoods | Acompanha sintomas de transtornos de humor e dissociativos. | Android e iOS |
Dica: Experimente alguns e veja qual funciona melhor para você. Não substituem tratamento profissional, mas podem ser um complemento útil.
Quando procurar ajuda urgente
Nem todo episódio dissociativo é uma emergência, mas alguns sinais indicam que é hora de buscar ajuda imediata. Fique atento a:
🚨 Sinais de alerta vermelho (procure um pronto-socorro ou CAPS imediatamente)
- Tentativa de suicídio ou automutilação grave.
- Fuga dissociativa prolongada (a pessoa some por dias sem contato).
- Estupor dissociativo que dura mais de 24 horas (a pessoa não come, não bebe, não reage).
- Sintomas físicos graves sem causa médica (paralisia total, convulsões frequentes, cegueira ou surdez súbita).
- Comportamentos de risco (dirigir em alta velocidade, usar drogas em excesso, se expor a situações perigosas).
⚠️ Sinais de alerta amarelo (marque uma consulta com seu médico ou terapeuta o mais rápido possível)
- Episódios dissociativos frequentes (várias vezes por semana).
- Piora dos sintomas (os episódios estão durando mais ou ficando mais intensos).
- Dificuldade de funcionar no dia a dia (não conseguir trabalhar, estudar ou cuidar de si mesmo).
- Isolamento social (parar de falar com amigos e familiares).
- Pensamentos suicidas recorrentes (mesmo que não haja plano ou intenção imediata).
🟢 Sinais de alerta verde (você está no caminho certo, mas pode ajustar o tratamento)
- Episódios dissociativos ocasionais (uma vez por mês ou menos).
- Sintomas leves de despersonalização ou desrealização (que não atrapalham sua rotina).
- Melhora gradual com o tratamento (menos crises, mais controle).
Lembre-se: Não espere os sintomas piorarem para buscar ajuda. Quanto antes você agir, mais fácil será recuperar o controle.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-10). 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- Steinberg, M.; Schnall, M. The Stranger in the Mirror: Dissociation – The Hidden Epidemic. HarperCollins, 2001.
- Putnam, F. W. Diagnosis and Treatment of Multiple Personality Disorder. Guilford Press, 1989.
- International Society for the Study of Trauma and Dissociation (ISSTD). Guidelines for Treating Dissociative Identity Disorder in Adults. 2011.
- Ross, C. A. Dissociative Identity Disorder: Diagnosis, Clinical Features, and Treatment of Multiple Personality. Wiley, 1997.
- Kluft, R. P. Current Issues in the Treatment of Multiple Personality Disorder. American Psychiatric Press, 1993.
- CVV – Centro de Valorização da Vida. Prevenção do Suicídio. Disponível em: www.cvv.org.br.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.