O que é?
Imagine que você está em uma festa e alguém oferece um comprimido dizendo: “Isso aqui é só para relaxar, mistura de várias coisas, mas é fraco”. Ou então, um amigo passa um baseado e, junto, uma garrafinha com um líquido que ele chama de “combustível para a noite”. Você não sabe exatamente o que está consumindo, mas decide experimentar porque todo mundo parece estar se divertindo. No dia seguinte, acorda com uma ressaca estranha, uma ansiedade que não passa e uma sensação de que algo no seu corpo e na sua mente não está certo.
Para algumas pessoas, esse tipo de situação não é um episódio isolado. Elas usam várias substâncias ao mesmo tempo — álcool, maconha, cocaína, remédios controlados, ecstasy, solventes, entre outras — sem saber exatamente o que estão consumindo ou em que quantidade. E, com o tempo, esse uso começa a bagunçar a vida: relacionamentos, trabalho, saúde física e mental. Quando isso acontece de forma persistente e causa sofrimento ou prejuízos, pode ser um transtorno mental e comportamental devido ao uso de múltiplas drogas (CID-10 F19).
O que diferencia esse diagnóstico de um “uso recreativo”?
Todo mundo já bebeu um pouco a mais em uma festa ou experimentou alguma substância em algum momento da vida. Mas no transtorno por uso de múltiplas drogas, o consumo não é mais uma escolha livre — ele se torna uma necessidade, algo que a pessoa faz mesmo sabendo que está prejudicando sua vida. É como se o cérebro e o corpo tivessem sido “sequestrados” pela substância, e a pessoa perdesse o controle sobre quando, quanto e como usar.
Além disso, nesse diagnóstico, não dá para saber qual droga está causando mais problemas, porque a pessoa usa várias ao mesmo tempo. Às vezes, nem ela mesma sabe o que está consumindo. Isso é comum em festas, em grupos onde as drogas são compartilhadas, ou quando alguém compra substâncias de procedência duvidosa (como comprimidos falsificados ou pó branco que pode ser cocaína, crack ou até mesmo misturas perigosas).
Quem é mais afetado?
Esse tipo de transtorno é mais comum em:
– Jovens adultos (18 a 35 anos), especialmente homens, mas as mulheres também são afetadas, muitas vezes com consequências mais graves para a saúde.
– Pessoas em situação de rua ou vulnerabilidade social, que podem usar múltiplas substâncias como forma de lidar com a fome, o frio ou a violência.
– Pessoas com outros transtornos mentais, como depressão, ansiedade, esquizofrenia ou transtorno de personalidade borderline, que podem usar drogas para aliviar os sintomas.
– Profissionais que trabalham em ambientes de alta pressão, como médicos, advogados ou executivos, que às vezes recorrem a estimulantes (como cocaína ou anfetaminas) para aguentar longas jornadas e depois a calmantes (como álcool ou benzodiazepínicos) para dormir.
No Brasil, dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD) mostram que:
– Cerca de 3,2% da população brasileira já usou cocaína pelo menos uma vez na vida.
– O uso de múltiplas drogas é mais comum entre pessoas que já têm dependência de uma substância principal (como álcool ou crack).
– O poliuso de substâncias (usar mais de uma droga ao mesmo tempo) aumenta muito o risco de overdose, acidentes e problemas psiquiátricos graves.
Um pouco de história
O uso de múltiplas drogas não é algo novo. Na Grécia Antiga, por exemplo, já se misturava vinho com ervas para potencializar os efeitos. Na década de 1960, o movimento hippie popularizou o uso combinado de maconha, LSD e álcool. Mas foi a partir dos anos 1980 e 1990, com o surgimento de drogas sintéticas (como o ecstasy) e o aumento do tráfico internacional, que o poliuso se tornou um problema de saúde pública.
Hoje, com a internet e as redes sociais, as drogas circulam mais facilmente, e as pessoas têm acesso a informações (e desinformações) sobre como misturá-las. Isso aumenta os riscos, porque muitas vezes não se sabe a procedência ou a composição do que está sendo consumido.
Quais são os sintomas?
Quando alguém desenvolve um transtorno por uso de múltiplas drogas, o corpo e a mente começam a dar sinais de que algo está errado. Esses sinais podem ser físicos, emocionais, comportamentais ou cognitivos (relacionados ao pensamento). Vamos entender cada um deles com exemplos do dia a dia.
1. Perda de controle sobre o uso
O que é?
A pessoa não consegue parar de usar as substâncias, mesmo quando quer. Ela pode prometer a si mesma ou aos outros que vai diminuir ou parar, mas acaba voltando a usar, muitas vezes em quantidades maiores do que pretendia.
Exemplos:
– “Eu só ia tomar duas cervejas, mas acabei bebendo a noite toda e ainda cheirei cocaína.”
– “Falei pro meu namorado que ia parar com os remédios para dormir, mas ontem tomei três de uma vez porque não conseguia dormir de jeito nenhum.”
– “Eu sabia que tinha que acordar cedo hoje, mas quando vi, já tinha fumado dois baseados e tomado uns goles de pinga.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Beber um pouco a mais em uma festa e se arrepender no dia seguinte.
– Sintomático: Repetir esse comportamento várias vezes por semana, mesmo sabendo que está prejudicando a saúde, o trabalho ou os relacionamentos.
2. Tolerância (o corpo “pede” mais)
O que é?
Com o tempo, a pessoa precisa de quantidades cada vez maiores da substância para sentir o mesmo efeito. É como se o corpo se acostumasse e exigisse mais para “funcionar”.
Exemplos:
– “Antes, um baseado me deixava relaxado. Agora, preciso fumar três para sentir algo.”
– “No começo, um comprimido de calmante me fazia dormir. Hoje, tomo quatro e ainda fico acordado.”
– “Eu bebia duas cervejas e já ficava alegre. Agora, preciso de uma garrafa inteira para me sentir do mesmo jeito.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Sentir que o café da manhã não está tão forte quanto antes e aumentar um pouco a quantidade.
– Sintomático: Precisar de doses cada vez maiores de uma droga para sentir o mesmo efeito, mesmo sabendo que isso pode causar uma overdose.
3. Síndrome de abstinência (o corpo “reclama” quando para)
O que é?
Quando a pessoa para de usar a substância (ou diminui muito), o corpo reage com sintomas físicos e emocionais desagradáveis. É como se o organismo entrasse em pânico por não receber o que estava acostumado.
Exemplos:
– Álcool: Tremores, suor frio, ansiedade, náuseas, até convulsões em casos graves.
– Cocaína/Crack: Irritabilidade extrema, cansaço, depressão, vontade incontrolável de usar de novo.
– Benzodiazepínicos (calmantes): Insônia, agitação, ataques de pânico, até alucinações.
– Maconha: Ansiedade, insônia, perda de apetite, irritabilidade.
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Sentir um pouco de dor de cabeça depois de passar um dia sem café.
– Sintomático: Ter tremores, vômitos e pensamentos suicidas porque parou de beber álcool de uma vez.
4. Uso apesar das consequências negativas
O que é?
A pessoa sabe que o uso está prejudicando sua vida, mas continua mesmo assim. Ela pode perder emprego, brigar com a família, ter problemas de saúde, mas não consegue parar.
Exemplos:
– “Fui demitido duas vezes por faltar no trabalho depois de noites de bebedeira, mas continuo bebendo.”
– “Minha esposa ameaçou me deixar se eu não parasse com a cocaína, mas eu não consigo.”
– “Já tive uma overdose e quase morri, mas assim que saí do hospital, voltei a usar.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Cometer um erro no trabalho depois de uma noite mal dormida e se arrepender.
– Sintomático: Perder empregos, relacionamentos e saúde por causa do uso, mas continuar usando mesmo assim.
5. Muito tempo gasto em busca da substância
O que é?
A pessoa passa horas do dia pensando em como conseguir a droga, usando-a ou se recuperando dos efeitos. Isso toma o lugar de outras atividades importantes, como trabalho, lazer e convívio social.
Exemplos:
– “Passei a manhã inteira ligando para traficantes para conseguir cocaína, e quando consegui, usei até de madrugada.”
– “Antes eu gostava de jogar futebol, mas agora só penso em como vou beber depois do trabalho.”
– “Minha rotina é: acordar, tomar um calmante para aguentar o dia, trabalhar, beber à noite e dormir com outro remédio.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Ficar animado para uma festa e passar o dia pensando nela.
– Sintomático: Deixar de lado amigos, família e hobbies para passar horas buscando e usando drogas.
6. Desejo intenso (fissura)
O que é?
Uma vontade incontrolável de usar a substância, como se fosse uma necessidade física. É como sentir uma fome avassaladora, mas por uma droga.
Exemplos:
– “Eu estava no trabalho e de repente senti uma vontade tão forte de fumar crack que não consegui pensar em mais nada.”
– “Passei na frente de um bar e tive que entrar para beber, mesmo sabendo que não devia.”
– “Fiquei três dias sem cocaína e a fissura era tão forte que eu tremia e suava.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Sentir vontade de comer um doce depois do almoço.
– Sintomático: Ter uma crise de ansiedade porque não consegue usar a droga naquele momento.
7. Problemas sociais e legais
O que é?
O uso de múltiplas drogas começa a prejudicar relacionamentos, trabalho e até a liberdade da pessoa.
Exemplos:
– “Meu marido me deixou porque eu mentia sobre o dinheiro que gastava com drogas.”
– “Fui preso por dirigir bêbado e agora estou respondendo processo.”
– “Meus amigos pararam de me convidar para sair porque eu sempre acabo fazendo besteira quando uso.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Brigar com o namorado depois de uma discussão por ciúmes.
– Sintomático: Perder amigos, família e emprego por causa do uso de drogas.
8. Sintomas psiquiátricos induzidos pelo uso
O que é?
Algumas drogas podem causar ou piorar problemas mentais, como depressão, ansiedade, psicose (perda de contato com a realidade) ou paranoia.
Exemplos:
– Psicose (por cocaína, crack, maconha ou LSD): “Comecei a ver coisas que não existiam e achar que as pessoas estavam me perseguindo.”
– Depressão (por álcool, cocaína ou calmantes): “Depois de usar, eu me sentia tão vazio que só queria dormir o dia todo.”
– Ansiedade (por maconha, ecstasy ou anfetaminas): “Fiquei tão nervoso que achei que ia ter um ataque cardíaco.”
Normal vs. Sintomático:
– Normal: Ficar um pouco ansioso depois de tomar muito café.
– Sintomático: Ter alucinações ou pensamentos suicidas depois de usar drogas.
Um alerta importante
Ter um ou dois desses sintomas não significa que a pessoa tenha um transtorno por uso de múltiplas drogas. O que define o diagnóstico é:
✅ A combinação de vários sintomas (não só um).
✅ A duração (eles acontecem por semanas ou meses, não só uma vez).
✅ O impacto na vida (prejudica trabalho, relacionamentos, saúde).
Se você ou alguém que você conhece se identificou com vários desses sinais, não é “falta de força de vontade” — é uma condição médica que precisa de tratamento.
Como se manifesta no dia a dia?
O transtorno por uso de múltiplas drogas não afeta só a pessoa que usa — ele bagunça toda a rotina, os relacionamentos e até a saúde física. Vamos ver como isso aparece na prática.
No trabalho ou na escola
- Faltas e atrasos: A pessoa pode faltar ao trabalho ou à escola porque está dormindo depois de uma noite de uso, ou porque está passando mal por abstinência.
- “Eu já perdi três empregos porque não conseguia acordar na segunda-feira depois de beber e usar cocaína no fim de semana.”
- Queda no desempenho: Dificuldade de concentração, erros frequentes, esquecimentos.
- “Antes eu era bom em matemática, mas depois que comecei a usar ecstasy e maconha, não consigo mais resolver nem uma conta simples.”
- Problemas com colegas: Brigas, isolamento, mentiras para justificar o comportamento.
- “Meus colegas de trabalho pararam de confiar em mim porque eu sempre inventava desculpas para faltar.”
Nos relacionamentos
- Conflitos familiares: Brigas constantes, mentiras, desconfiança.
- “Minha mãe já não acredita em nada do que eu digo porque eu sempre invento histórias para esconder que estou usando.”
- Isolamento: A pessoa pode se afastar de amigos e familiares que não usam drogas.
- “Antes eu saía com meus amigos para jogar bola, mas agora só fico com o pessoal que usa comigo.”
- Relacionamentos abusivos: Parceiros que incentivam o uso ou se aproveitam da vulnerabilidade da pessoa.
- “Meu namorado me dava cocaína para eu ficar acordada e fazer programas com ele.”
Na rotina (sono, alimentação, autocuidado)
- Sono desregulado: Dormir de dia e ficar acordado à noite, ou ter insônia por abstinência.
- “Eu tomo remédio para dormir, mas acordo no meio da noite e não consigo voltar a dormir sem fumar um baseado.”
- Alimentação ruim: Perda de apetite (por cocaína, crack) ou compulsão alimentar (por maconha, álcool).
- “Eu não como direito há semanas porque a cocaína tira minha fome.”
- Falta de higiene: Deixar de tomar banho, escovar os dentes, trocar de roupa.
- “Eu fiquei três dias sem tomar banho porque estava usando crack e não conseguia parar.”
Na saúde física
- Problemas no coração: Pressão alta, arritmias, infartos (especialmente com cocaína e crack).
- “Eu tive uma crise de pressão depois de cheirar cocaína e quase morri.”
- Doenças infecciosas: HIV, hepatite B e C (por compartilhar agulhas ou ter relações sexuais sem proteção sob efeito de drogas).
- “Descobri que tenho HIV depois de compartilhar uma seringa com um amigo.”
- Problemas no fígado e rins: Por excesso de álcool ou uso de medicamentos sem orientação.
- “Meu fígado está tão ruim que o médico disse que se eu não parar de beber, vou precisar de um transplante.”
- Overdose: Misturar drogas pode levar a uma parada respiratória ou cardíaca.
- “Eu misturei álcool com calmantes e acordei no hospital com um tubo na garganta.”
O que causa essa condição?
Não existe uma única causa para o transtorno por uso de múltiplas drogas. É como se fosse uma tempestade perfeita, onde vários fatores se juntam e aumentam o risco. Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos (a herança familiar)
Imagine que o cérebro é como um sistema elétrico. Em algumas pessoas, os “fios” que controlam o prazer, a recompensa e o autocontrole são mais frágeis. Isso pode ser hereditário — se alguém na família teve problemas com álcool ou drogas, o risco aumenta.
Exemplo:
– “Meu pai era alcoólatra e meu irmão usa crack. Eu sempre achei que nunca ia acontecer comigo, mas agora estou no mesmo caminho.”
❌ Mito: “Dependência é falta de caráter.”
✅ Verdade: A genética influencia, mas não determina. Ter predisposição não significa que a pessoa vai desenvolver o transtorno — só que precisa ter mais cuidado.
2. Fatores neurobiológicos (o que acontece no cérebro?)
Quando uma pessoa usa drogas, o cérebro libera dopamina, um neurotransmissor que dá sensação de prazer. Com o tempo, o cérebro se acostuma e passa a exigir a droga para funcionar normalmente. É como se o cérebro virasse um viciado em dopamina e parasse de produzir prazer com coisas simples, como comer ou conversar com amigos.
Analogia:
Imagine que o cérebro é um jardim. As drogas são como adubo químico — no começo, fazem as flores crescerem rápido (prazer intenso). Mas com o tempo, o solo fica esgotado e as plantas naturais (prazeres do dia a dia) morrem. Aí, só o adubo químico faz o jardim “sobreviver”.
3. Fatores ambientais (o que acontece ao redor da pessoa?)
- Traumas: Abuso na infância, violência, bullying.
- “Eu comecei a usar drogas para esquecer o que meu padrasto fazia comigo quando eu era criança.”
- Pressão social: Amigos que usam, festas onde o consumo é normalizado.
- “Todo mundo no meu trabalho bebe depois do expediente. Se eu não beber, sou o chato.”
- Falta de oportunidades: Desemprego, pobreza, falta de acesso a educação e lazer.
- “Eu não tenho nada pra fazer o dia todo, então uso drogas para passar o tempo.”
- Facilidade de acesso: Drogas baratas, tráfico próximo de casa, internet para comprar medicamentos controlados.
- “Na minha rua, tem um ponto de crack a cada duas quadras.”
4. Fatores psicológicos (como a pessoa lida com as emoções?)
Algumas pessoas usam drogas para aliviar sofrimento:
– Ansiedade: “Eu só consigo dormir se tomar um calmante.”
– Depressão: “Quando eu bebo, esqueço que a vida não tem graça.”
– Estresse: “Depois de um dia ruim no trabalho, eu cheiro cocaína para aguentar mais um turno.”
– Transtornos mentais não tratados: Esquizofrenia, bipolaridade, TDAH.
– “Eu tenho TDAH e a maconha me ajuda a me concentrar (mas depois piora tudo).”
5. Modelo biopsicossocial (a combinação de tudo)
O transtorno por uso de múltiplas drogas não é culpa da pessoa, nem só genética, nem só ambiente. É uma mistura de fatores:
– Biológicos (cérebro, genética).
– Psicológicos (emoções, traumas).
– Sociais (família, amigos, cultura).
Exemplo:
“João cresceu em uma família onde o pai bebia muito (genética + ambiente). Quando adolescente, sofreu bullying (trauma psicológico) e encontrou na maconha e no álcool uma forma de se sentir aceito (fator social). Com o tempo, começou a misturar cocaína para aguentar as noites de bebedeira (neurobiologia). Hoje, ele não consegue parar, mesmo sabendo que está perdendo tudo.”
Mitos e verdades sobre as causas
❌ Mito: “Dependência é falta de Deus.”
✅ Verdade: A espiritualidade pode ajudar no tratamento, mas a dependência é uma doença do cérebro, não uma questão moral.
❌ Mito: “Só pessoas fracas se viciam.”
✅ Verdade: Pessoas fortes também desenvolvem dependência. O que importa é a combinação de fatores de risco.
❌ Mito: “Se a pessoa quiser, ela para.”
✅ Verdade: A vontade é importante, mas o cérebro viciado sabota a capacidade de escolha. É como pedir para alguém com pneumonia “querer” respirar melhor — o corpo não responde só à força de vontade.
❌ Mito: “Drogas leves não viciam.”
✅ Verdade: Qualquer substância que altere o cérebro pode levar à dependência, especialmente quando usada em grandes quantidades ou misturada com outras drogas.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de transtorno por uso de múltiplas drogas pode ser assustador, mas é o primeiro passo para o tratamento. Vamos entender como isso acontece na prática.
1. O processo de avaliação
Não existe um exame de sangue ou de imagem que diga: “Você tem F19”. O diagnóstico é feito com base em conversas, questionários e observação clínica. Geralmente, segue estes passos:
Primeira consulta (anamnese)
O médico ou psicólogo vai fazer perguntas detalhadas sobre:
– Padrão de uso: “O que você usa? Com que frequência? Em que quantidade?”
– Histórico: “Quando começou? Já tentou parar? Como foi?”
– Impacto na vida: “Você já perdeu emprego, relacionamentos ou saúde por causa do uso?”
– Sintomas de abstinência: “O que acontece quando você para de usar?”
– Histórico familiar: “Alguém na sua família tem problemas com álcool ou drogas?”
– Outros transtornos mentais: “Você já teve depressão, ansiedade ou psicose?”
Exemplo de pergunta:
“Você já usou mais do que pretendia? Por exemplo, falou que ia tomar só uma cerveja e acabou bebendo a noite toda?”
Exames complementares
Embora não diagnostiquem o transtorno, alguns exames ajudam a avaliar os danos físicos e descartar outras condições:
– Exames de sangue: Para verificar fígado, rins, infecções (HIV, hepatite).
– Teste de urina: Para detectar drogas recentes (mas um resultado negativo não descarta o diagnóstico).
– Avaliação psiquiátrica: Para identificar depressão, ansiedade ou psicose induzida por substâncias.
Critérios diagnósticos (CID-10 e DSM-5)
O profissional vai comparar o que a pessoa relata com os critérios oficiais. No CID-10 (F19), o diagnóstico é feito quando:
– A pessoa usa duas ou mais substâncias ao mesmo tempo.
– Não dá para saber qual droga está causando mais problemas.
– O uso está prejudicando a vida da pessoa (saúde, trabalho, relacionamentos).
No DSM-5, o diagnóstico de transtorno por uso de substância (que inclui múltiplas drogas) é feito quando a pessoa apresenta pelo menos 2 dos 11 sintomas que vimos na seção anterior, por 12 meses ou mais.
2. Quanto tempo leva para ser diagnosticado?
Depende. Algumas pessoas demoram anos para procurar ajuda, porque:
– Negam o problema: “Eu não sou viciado, só gosto de curtir.”
– Têm vergonha: “Se eu contar pro médico, ele vai me julgar.”
– Não percebem o impacto: “Eu só uso no fim de semana, não faz mal.”
Outras recebem o diagnóstico rapidamente, especialmente se:
– Tiverem uma overdose ou um problema grave de saúde.
– Forem internadas por intoxicação ou abstinência.
– Procurarem ajuda por pressão da família ou do trabalho.
Dica: Se você desconfia que tem um problema, não espere chegar ao fundo do poço. Quanto antes procurar ajuda, mais fácil é o tratamento.
3. Quem pode diagnosticar?
- Psiquiatra: Médico especializado em saúde mental (pode receitar remédios).
- Psicólogo: Faz avaliação psicológica, mas não pode receitar medicamentos.
- Clínico geral: Pode suspeitar do diagnóstico e encaminhar para um especialista.
- Equipes de CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) e UBS (Unidade Básica de Saúde): No SUS, esses profissionais estão preparados para avaliar e tratar.
No SUS vs. Particular:
| SUS | Particular |
|———|————–|
| Gratuito, mas pode ter fila de espera. | Mais rápido, mas caro (a menos que tenha plano de saúde). |
| Atendimento em CAPS, UBS, hospitais públicos. | Clínicas particulares, consultórios. |
| Equipes multiprofissionais (médico, psicólogo, assistente social). | Depende do profissional contratado. |
4. Diagnóstico diferencial (o que pode ser confundido?)
Às vezes, os sintomas do uso de múltiplas drogas podem ser confundidos com outras condições. O médico precisa descartar:
– Transtorno bipolar: Oscilações de humor podem ser confundidas com efeitos de drogas.
– Esquizofrenia: Alucinações e delírios podem ser causados por drogas (como cocaína ou LSD) ou por um transtorno psicótico.
– Depressão ou ansiedade: A pessoa pode usar drogas para aliviar os sintomas, mas o transtorno de humor pode ser a causa ou a consequência do uso.
– TDAH: Algumas pessoas usam cocaína ou anfetaminas para se concentrar, mas o TDAH não tratado pode levar ao uso de substâncias.
Exemplo:
“João usava cocaína para se sentir mais confiante no trabalho. O médico precisou avaliar se ele tinha TDAH ou se a cocaína estava causando ansiedade.”
5. O que esperar da primeira consulta?
Muitas pessoas ficam nervosas antes da primeira consulta, com medo de serem julgadas. Mas o profissional de saúde mental está lá para ajudar, não para condenar. Veja o que geralmente acontece:
- Conversa inicial: O médico ou psicólogo vai perguntar sobre sua vida, seus hábitos e suas dificuldades.
- Explicação do diagnóstico: Se for identificado um transtorno, o profissional vai explicar o que isso significa e quais são as opções de tratamento.
- Plano de tratamento: Juntos, vocês vão definir os próximos passos (terapia, medicamentos, internação se necessário).
- Dúvidas: Você pode (e deve!) fazer perguntas. Não tenha vergonha.
Dica: Leve um familiar ou amigo de confiança para te apoiar.
Tratamento
O tratamento do transtorno por uso de múltiplas drogas é multidisciplinar — ou seja, envolve medicamentos, terapia, mudanças no estilo de vida e, muitas vezes, apoio da família. Não existe uma fórmula mágica, mas com o tratamento certo, é possível recuperar o controle da vida.
Vamos entender cada parte do tratamento.
1. Medicamentos
Os remédios não “curam” a dependência, mas ajudam a:
– Controlar a fissura (vontade intensa de usar).
– Tratar sintomas de abstinência (ansiedade, insônia, depressão).
– Estabilizar o humor (se a pessoa tiver depressão ou ansiedade).
– Reduzir os danos (como medicamentos para hepatite ou HIV).
Principais classes de medicamentos
| Medicamento | Para que serve? | Como funciona? | Efeitos colaterais comuns |
|---|---|---|---|
| Naltrexona | Reduz a vontade de beber álcool ou usar opióides. | Bloqueia os receptores de prazer no cérebro. | Náusea, dor de cabeça, cansaço. |
| Metadona | Tratamento da dependência de opióides (heroína, morfina). | Substitui a droga por uma versão mais segura, sem o “barato”. | Prisão de ventre, sonolência, sudorese. |
| Buprenorfina | Alternativa à metadona para opióides. | Alivia a abstinência sem causar euforia. | Dor de cabeça, insônia, náusea. |
| Diazepam (ou outros benzodiazepínicos) | Alivia a ansiedade e os tremores na abstinência de álcool. | Acalma o sistema nervoso. | Sonolência, risco de dependência. |
| Antidepressivos (como fluoxetina) | Tratam depressão ou ansiedade associadas. | Aumentam a serotonina no cérebro. | Boca seca, ganho de peso, diminuição da libido. |
| Antipsicóticos (como risperidona) | Tratam psicose induzida por drogas. | Reduzem alucinações e delírios. | Ganho de peso, tremores, sonolência. |
Perguntas comuns sobre medicamentos
❓ “Os remédios vão me deixar ‘dopado’?”
✅ Resposta: Não. Os medicamentos são ajustados para não causar euforia, apenas estabilizar o cérebro.
❓ “Vou ficar dependente dos remédios?”
✅ Resposta: Alguns medicamentos (como benzodiazepínicos) têm risco de dependência, mas o médico controla a dose e o tempo de uso. Outros (como naltrexona) não viciam.
❓ “Quanto tempo vou precisar tomar?”
✅ Resposta: Depende. Alguns remédios são usados por alguns meses, outros por anos. O importante é seguir a orientação médica.
❓ “Posso parar de tomar quando me sentir melhor?”
✅ Resposta: Nunca pare sem orientação médica! Alguns remédios, se interrompidos de repente, podem causar abstinência grave ou recaída.
2. Psicoterapia
A terapia é fundamental no tratamento, porque ajuda a pessoa a:
– Entender por que usa drogas.
– Desenvolver estratégias para lidar com a fissura.
– Melhorar autoestima e habilidades sociais.
– Prevenir recaídas.
Abordagens com mais evidência científica
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
O que é? Uma terapia prática e focada no presente, que ajuda a identificar pensamentos e comportamentos que levam ao uso de drogas.
Como funciona?
– O terapeuta ajuda a pessoa a reconhecer gatilhos (situações, emoções ou pessoas que despertam a vontade de usar).
– Ensina técnicas para lidar com a fissura (como respiração, distração ou mudança de ambiente).
– Trabalha crenças distorcidas (ex.: “Eu só consigo me divertir se usar drogas”).
Exemplo:
“João sempre usava cocaína quando brigava com a namorada. Na terapia, ele aprendeu a reconhecer que a raiva era o gatilho e treinou formas de se acalmar sem usar drogas.”
Entrevista Motivacional
O que é? Uma abordagem que não julga e ajuda a pessoa a encontrar motivação interna para mudar.
Como funciona?
– O terapeuta faz perguntas como: “O que você gosta na sua vida hoje? O que gostaria de mudar?”
– Ajuda a pessoa a pesar prós e contras do uso de drogas.
– Fortalece a autoconfiança para a mudança.
Exemplo:
“Maria dizia que não conseguia parar de beber porque ‘todo mundo bebe’. Na entrevista motivacional, ela percebeu que, na verdade, queria parar para recuperar a guarda do filho.”
Prevenção de Recaída
O que é? Um conjunto de estratégias para evitar voltar ao uso depois de um período de abstinência.
Como funciona?
– Identifica situações de risco (ex.: passar na frente de um bar, encontrar amigos que usam).
– Ensina habilidades de enfrentamento (ex.: dizer “não”, sair de situações perigosas).
– Trabalha a autoeficácia (a crença de que a pessoa é capaz de se manter sóbria).
Exemplo:
“Pedro aprendeu que, quando sentia vontade de usar crack, podia ligar para um amigo de confiança ou ir à academia para se distrair.”
Terapia Familiar
O que é? Envolve a família no tratamento, porque o apoio (ou a falta dele) influencia muito na recuperação.
Como funciona?
– Ajuda a família a entender a dependência (não é falta de caráter, é uma doença).
– Ensina formas de ajudar sem prejudicar (ex.: não dar dinheiro, não cobrir mentiras).
– Trabalha conflitos familiares que podem estar alimentando o uso.
Exemplo:
“A mãe de Lucas sempre dava dinheiro para ele ‘se virar’, sem saber que ele usava para comprar drogas. Na terapia familiar, ela aprendeu a oferecer apoio de outras formas.”
Terapia individual vs. grupo vs. familiar
| Tipo | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|
| Individual | Foco total na pessoa, sigilo. | Pode ser mais caro, menos troca de experiências. |
| Grupo | Troca de experiências, senso de pertencimento. | Menos privacidade, pode não ser adequado para todos. |
| Familiar | Melhora a dinâmica familiar, aumenta o apoio. | Pode ser difícil reunir todos os membros. |
3. Mudanças no dia a dia
O tratamento não se resume a remédios e terapia. Mudar hábitos é essencial para a recuperação.
Exercício físico
Por que ajuda?
– Libera endorfinas (substâncias naturais do cérebro que dão prazer).
– Reduz ansiedade e depressão.
– Melhora sono e disposição.
Quais exercícios são melhores?
– Caminhada, corrida, natação: Liberam endorfina e são fáceis de fazer.
– Yoga e meditação: Ajudam a controlar a ansiedade.
– Musculação: Melhora a autoestima e a disciplina.
Exemplo:
“Depois que comecei a correr, percebi que a vontade de usar cocaína diminuiu. Meu corpo começou a pedir movimento, não droga.”
Sono
Por que é importante?
– A falta de sono aumenta a fissura por drogas.
– Muitas substâncias bagunçam o sono (ex.: cocaína causa insônia, álcool causa sono fragmentado).
Dicas para dormir melhor:
– Horário regular: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias.
– Ambiente escuro e silencioso: Evite telas (celular, TV) antes de dormir.
– Evite cafeína e nicotina à noite.
– Técnicas de relaxamento: Respiração profunda, meditação.
Exemplo:
“Eu só conseguia dormir depois de beber. Quando parei, tive insônia por semanas. Aprendi a meditar antes de dormir e hoje durmo melhor.”
Alimentação
Por que é importante?
– Muitas drogas tiram o apetite ou causam compulsão alimentar.
– O corpo precisa de nutrientes para se recuperar.
Dicas:
– Coma regularmente: Não pule refeições.
– Evite açúcar e junk food: Podem aumentar a ansiedade.
– Beba água: A desidratação piora a abstinência.
– Inclua alimentos ricos em triptofano (banana, aveia, chocolate amargo) — ajudam na produção de serotonina (hormônio do bem-estar).
Exemplo:
“Quando parei de usar crack, comecei a comer compulsivamente. Aprendi a fazer refeições equilibradas e hoje me sinto mais disposto.”
Rotina
Por que é importante?
– Uma rotina estruturada reduz a ociosidade, que pode levar ao uso de drogas.
– Ajuda a reconstruir a vida depois da dependência.
Como estruturar o dia?
– Manhã: Acordar cedo, tomar café da manhã, fazer exercício.
– Tarde: Trabalho, estudo ou atividades produtivas.
– Noite: Tempo para lazer, terapia, convívio social.
– Evite tempo ocioso: “Se eu ficar sem fazer nada, a vontade de usar volta.”
Exemplo:
“Antes, minha vida era uma bagunça: dormia de dia, usava à noite. Hoje, tenho horário para tudo e isso me ajuda a ficar sóbrio.”
Técnicas de manejo da fissura
A fissura (vontade intensa de usar) é normal na recuperação. O importante é saber lidar com ela. Algumas técnicas:
– Distração: Fazer algo que ocupe a mente (ler, assistir a um filme, ligar para um amigo).
– Respiração: Inspire profundamente pelo nariz (4 segundos), segure (4 segundos), expire pela boca (6 segundos).
– Mudança de ambiente: Se estiver em um lugar que lembra drogas, saia.
– Lembrar das consequências: “Da última vez que usei, perdi meu emprego.”
– Falar com alguém: Ligue para um amigo, familiar ou grupo de apoio.
Exemplo:
“Quando sinto vontade de beber, vou para a cozinha e lavo a louça. Isso me distrai até a fissura passar.”
Convivendo com o diagnóstico
Receber o diagnóstico de transtorno por uso de múltiplas drogas pode ser um choque. Muitas pessoas se sentem envergonhadas, culpadas ou sem esperança. Mas é importante lembrar:
✅ Você não está sozinho — milhões de pessoas passam por isso.
✅ É uma doença, não uma falha moral — ninguém escolhe ser dependente.
✅ A recuperação é possível — com tratamento, muitas pessoas retomam o controle da vida.
Vamos ver como lidar com o diagnóstico, tanto para a pessoa quanto para os familiares.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceitação (o primeiro passo)
Aceitar o diagnóstico não significa desistir, mas reconhecer que precisa de ajuda. É como descobrir que tem diabetes: você não escolheu ter, mas pode aprender a controlar.
Dicas para aceitar:
– Não se culpe: A dependência não é culpa sua.
– Fale sobre isso: Compartilhe com pessoas de confiança.
– Busque informações: Entender a doença ajuda a lidar com ela.
2. Construindo uma nova identidade
Muitas pessoas se definem pelo uso de drogas (“Eu sou o cara das festas”, “Eu sou o rebelde”). Na recuperação, é preciso redescobrir quem você é sem as drogas.
Como fazer isso?
– Explore novos hobbies: Pintura, música, esportes, voluntariado.
– Reconecte-se com velhos interesses: “Antes de usar drogas, eu gostava de ler. Vou tentar de novo.”
– Defina metas: “Quero voltar a estudar”, “Quero viajar”.
3. Lidando com a vergonha e o estigma
Infelizmente, a sociedade julga quem tem problemas com drogas. Mas lembre-se:
– Você não é sua doença.
– Muitas pessoas famosas e bem-sucedidas já passaram por isso (ex.: Robert Downey Jr., Drew Barrymore).
– O que importa é o que você faz hoje, não o que fez no passado.
Dicas para lidar com o estigma:
– Não se isole: Converse com pessoas que te apoiam.
– Não se compare: Cada pessoa tem seu tempo de recuperação.
– Fale sobre sua recuperação: Isso pode inspirar outras pessoas.
4. Prevenindo recaídas
A recaída não é um fracasso, mas um sinal de que algo precisa ser ajustado no tratamento. Algumas dicas:
– Evite gatilhos: Lugares, pessoas ou situações que te fazem querer usar.
– Tenha um plano B: “Se sentir vontade de usar, vou ligar para meu padrinho do AA.”
– Celebre as pequenas vitórias: “Fiquei uma semana sem beber!”
– Se recair, não desista: Volte ao tratamento e tente entender o que aconteceu.
Para familiares e amigos
1. Como ajudar (sem prejudicar)
Apoiar alguém com dependência química é desafiador, mas algumas atitudes fazem toda a diferença:
✅ O que fazer:
– Informe-se sobre a doença: Entenda que não é falta de força de vontade.
– Ofereça apoio emocional: “Estou aqui para te ouvir, não para julgar.”
– Incentive o tratamento: “Vamos juntos procurar um médico?”
– Estabeleça limites: “Eu te amo, mas não vou te dar dinheiro para drogas.”
– Cuide de si mesmo: Você não pode ajudar se estiver esgotado.
❌ O que NÃO fazer:
– Cobrir as consequências: “Se você for preso, eu pago a fiança.” (Isso tira a responsabilidade da pessoa.)
– Fazer ameaças vazias: “Se você não parar, eu vou embora!” (E não cumprir.)
– Usar culpa: “Você está matando sua mãe de preocupação!” (Isso só aumenta a vergonha.)
– Ignorar o problema: Fingir que não está acontecendo não ajuda.
2. Como lidar com a raiva e a frustração
É normal sentir raiva, tristeza e impotência quando alguém que amamos está em sofrimento. Algumas dicas:
– Não leve para o pessoal: A dependência não é contra você.
– Expresse seus sentimentos de forma saudável: “Eu fico muito triste quando você mente para mim.”
– Busque apoio: Grupos como Nar-Anon (para familiares de dependentes químicos) podem ajudar.
3. Como explicar para outras pessoas
Muitas famílias escondem o problema por vergonha, mas isso só aumenta o isolamento. Algumas formas de falar sobre o assunto:
– Com crianças: “O papai está doente e precisa de tratamento, como quando a gente tem gripe.”
– Com amigos: “Meu irmão está lutando contra a dependência química. Se você quiser ajudar, pode me perguntar como.”
– No trabalho: Se for necessário, fale com o RH ou um superior de confiança: “Preciso de uma licença porque estou ajudando um familiar em tratamento.”
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações podem aumentar o risco de recaída ou piorar os sintomas. Fique atento a:
– Estresse intenso: Perda de emprego, término de relacionamento, morte na família.
– Festas e ambientes de uso: Bares, baladas, casas de amigos que usam.
– Solidão: Isolamento social pode levar ao uso.
– Problemas de saúde mental não tratados: Depressão, ansiedade, psicose.
– Falta de estrutura: Não ter uma rotina ou objetivos.
Dica: Se você perceber que está em uma dessas situações, busque apoio imediatamente. Ligue para um amigo, vá a uma reunião de grupo (como AA ou NA) ou converse com seu terapeuta.
Perguntas frequentes
1. “Eu uso várias drogas, mas só aos fins de semana. Isso é dependência?”
Depende. Se o uso não está prejudicando sua vida (trabalho, saúde, relacionamentos), pode ser um uso recreativo. Mas se você:
– Não consegue se divertir sem drogas,
– Gasta mais do que pode com substâncias,
– Tem sintomas de abstinência durante a semana,
– Mente sobre o uso,
então pode ser um transtorno por uso de múltiplas drogas.
O que fazer? Faça uma autoavaliação honesta ou procure um profissional para conversar.
2. “Posso tratar só com terapia, sem remédios?”
Sim, dependendo do caso. Se a dependência for leve e a pessoa não tiver outros transtornos mentais (como depressão ou ansiedade), a terapia pode ser suficiente. Mas se:
– A abstinência for muito intensa (tremores, convulsões, psicose),
– A pessoa tiver depressão ou ansiedade graves,
– A fissura for incontrolável,
os medicamentos podem ser necessários.
Importante: Só um médico psiquiatra pode avaliar se os remédios são indicados.
3. “Quanto tempo dura o tratamento?”
Não existe um prazo fixo. Algumas pessoas melhoram em alguns meses, outras precisam de anos de acompanhamento. O importante é:
– Não desistir no primeiro obstáculo.
– Seguir as orientações do profissional.
– Entender que recaídas fazem parte do processo (mas não são o fim).
Exemplo:
“João fez tratamento por 6 meses, teve uma recaída, voltou para a terapia e hoje está há 2 anos sóbrio.”
4. “Meu filho usa drogas. Devo interná-lo à força?”
A internação involuntária (contra a vontade da pessoa) só deve ser usada em casos extremos, como:
– Risco de suicídio ou overdose.
– Psicose grave (a pessoa não tem noção da realidade).
– Recusa total de tratamento e risco de morte.
O que fazer antes?
– Converse com um profissional (psiquiatra, CAPS, UBS).
– Tente convencer a pessoa a buscar ajuda voluntariamente.
– Busque apoio jurídico (a internação involuntária só pode ser feita com autorização médica e judicial).
Importante: A Lei 10.216 (Lei da Reforma Psiquiátrica) protege os direitos das pessoas com transtornos mentais. A internação deve ser a última opção.
5. “Posso beber socialmente se só tenho problema com cocaína?”
Não é recomendado. Se você tem um transtorno por uso de múltiplas drogas, seu cérebro já está vulnerável a qualquer substância que altere o humor. Além disso:
– O álcool diminui o autocontrole, aumentando o risco de usar outras drogas.
– Muitas recaídas começam com “só um gole”.
Alternativa: Se quiser socializar, procure ambientes sem álcool ou beba refrigerante, suco ou água com gás.
6. “Como saber se estou tendo uma overdose?”
A overdose é uma emergência médica e pode ser fatal. Os sinais variam de acordo com a droga, mas os mais comuns são:
– Respiração lenta ou parada (principal causa de morte).
– Pele pálida, azulada ou fria.
– Pupilas muito pequenas ou muito grandes.
– Perda de consciência (não acorda nem com estímulos).
– Convulsões.
– Dor no peito ou batimentos cardíacos irregulares.
O que fazer?
– Ligue para o SAMU (192) ou leve a pessoa para o hospital imediatamente.
– Não deixe a pessoa dormir (ela pode parar de respirar).
– Se a pessoa estiver consciente, tente mantê-la acordada e sentada.
– Não dê comida, água ou café (pode piorar).
Prevenção:
– Não use sozinho.
– Não misture drogas.
– Comece com doses baixas (se for usar).
7. “O que é redução de danos?”
A redução de danos é uma abordagem realista que reconhece que algumas pessoas não vão parar de usar drogas, mas podem diminuir os riscos. Exemplos:
– Trocar a seringa para evitar HIV e hepatite.
– Usar em locais seguros (como salas de consumo supervisionado).
– Testar a droga para evitar substâncias perigosas (como fentanil misturado à cocaína).
– Beber água para evitar desidratação.
– Não dirigir sob efeito.
Importante: A redução de danos não incentiva o uso, mas salva vidas enquanto a pessoa não está pronta para parar.
8. “Posso me recuperar sem ajuda profissional?”
Algumas pessoas conseguem parar sozinhas, mas é muito mais difícil e arriscado. Sem tratamento:
– O risco de recaída é maior.
– Os sintomas de abstinência podem ser perigosos (ex.: convulsões por abstinência de álcool).
– Problemas de saúde mental (como depressão) podem piorar.
Dica: Mesmo que você queira tentar parar sozinho, busque apoio (grupos como AA, NA ou terapia).
9. “Como lidar com a fissura?”
A fissura é normal na recuperação, mas passa. Algumas estratégias:
– Distração: Faça algo que ocupe sua mente (assistir a um filme, ligar para um amigo).
– Respiração: Inspire profundamente pelo nariz (4 segundos), segure (4 segundos), expire pela boca (6 segundos).
– Mudança de ambiente: Saia do lugar que te lembra drogas.
– Lembre-se das consequências: “Da última vez que usei, perdi meu emprego.”
– Fale com alguém: Ligue para um amigo, familiar ou grupo de apoio.
Exemplo:
“Quando sinto vontade de usar crack, vou para a cozinha e lavo a louça. Isso me distrai até a fissura passar.”
10. “O que fazer se eu recair?”
A recaída não é um fracasso, mas um sinal de que algo precisa ser ajustado no tratamento. O que fazer:
1. Não se culpe: A dependência é uma doença crônica, como diabetes. Recaídas acontecem.
2. Analise o que aconteceu: “O que me levou a usar? Estresse? Solidão? Pressão social?”
3. Volte ao tratamento: Converse com seu terapeuta ou médico.
4. Ajuste o plano: Talvez precise de mais terapia, medicamentos ou apoio familiar.
5. Não desista: Muitas pessoas recaem várias vezes antes de conseguir a sobriedade duradoura.
Exemplo:
“Depois de 3 meses sóbrio, eu recaí em uma festa. Em vez de desistir, voltei para a terapia e hoje estou há 1 ano sem usar.”
Quando procurar ajuda urgente
Alguns sinais indicam que a situação é grave e precisa de atendimento imediato. Procure ajuda se você ou alguém próximo apresentar:
Sinais de overdose (risco de morte)
- Respiração lenta ou parada.
- Pele pálida, azulada ou fria.
- Perda de consciência (não acorda nem com estímulos).
- Convulsões.
- Dor no peito ou batimentos cardíacos irregulares.
O que fazer?
✅ Ligue para o SAMU (192) ou leve para o hospital imediatamente.
✅ Não deixe a pessoa dormir.
✅ Se estiver consciente, mantenha-a acordada e sentada.
Sintomas graves de abstinência
- Convulsões (especialmente na abstinência de álcool ou benzodiazepínicos).
- Alucinações ou delírios (ver ou ouvir coisas que não existem).
- Febre alta e sudorese intensa.
- Batimentos cardíacos acelerados ou pressão alta.
O que fazer?
✅ Procure um pronto-socorro ou CAPS.
✅ Não tente “segurar” a abstinência em casa (pode ser perigoso).
Risco de suicídio
- Falar em morte ou suicídio: “Não aguento mais viver assim.”
- Dar objetos de valor: “Pode ficar com meu violão.”
- Isolamento extremo.
- Mudanças bruscas de humor (de muito triste para muito calmo).
O que fazer?
✅ Ligue para o CVV (188) ou leve para um pronto-socorro.
✅ Não deixe a pessoa sozinha.
✅ Tire objetos perigosos do alcance (remédios, armas, facas).
Psicose induzida por drogas
- Alucinações: Ver, ouvir ou sentir coisas que não existem.
- Delírios: Acreditar em coisas sem lógica (ex.: “Estão me perseguindo”).
- Agitação extrema ou agressividade.
- Confusão mental.
O que fazer?
✅ Leve para um pronto-socorro ou CAPS.
✅ Não discuta com a pessoa (ela não está no controle).
✅ Mantenha o ambiente calmo e seguro.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-10). 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
- American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- LENAD (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas). Dados sobre uso de substâncias no Brasil. 2012.
- NIDA (National Institute on Drug Abuse). Princípios de Tratamento da Dependência Química. 2020.
- UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime). Relatório Mundial sobre Drogas. 2023.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.
Lembre-se: Você não está sozinho. A recuperação é possível, e cada passo conta. 💙