Transtornos de personalidade e do comportamento devidos a doença, a lesão e a disfunção cerebral (CID-10: F07)

O que é?

Imagine que o cérebro é como o painel de controle de um avião. Ele coordena tudo: como você pensa, sente, age, toma decisões e se relaciona com as pessoas. Agora, pense que algo danifica esse painel — um acidente, uma doença, um tumor ou até mesmo uma infecção. De repente, alguns botões param de funcionar direito, outros ficam “travados” em posições estranhas, e o piloto (você) passa a ter dificuldade para controlar a aeronave. É mais ou menos isso que acontece nos transtornos de personalidade e comportamento devidos a lesões ou doenças cerebrais (F07).

Diferente dos transtornos de personalidade “comuns” (como o borderline ou o antissocial), que geralmente aparecem na adolescência e têm causas mais complexas (genética, ambiente, traumas), os transtornos do F07 são diretamente causados por um problema físico no cérebro. Pode ser um AVC (derrame), um traumatismo craniano, um tumor, epilepsia, doenças autoimunes (como lúpus), infecções (como HIV) ou até mesmo alterações hormonais (como problemas na tireoide). Ou seja: não é “frescura”, não é “falta de força de vontade” e não é algo que a pessoa “escolheu” ter. É como se o cérebro estivesse “quebrado” em algum ponto, e isso muda a forma como a pessoa age, sente e se relaciona.

Como isso é diferente de outras condições?

Muitas pessoas confundem esses transtornos com:
Transtornos de personalidade “clássicos” (F60): Nesses casos, a personalidade se desenvolve de forma desadaptativa desde a infância ou adolescência, sem uma causa física clara. Já no F07, a mudança acontece depois de um dano cerebral.
Depressão ou ansiedade: Às vezes, os sintomas podem se parecer (apatia, irritabilidade), mas no F07 eles são causados por uma lesão ou doença cerebral, não por estresse ou desequilíbrios químicos “naturais”.
Demência: Na demência, há perda progressiva de memória e funções cognitivas. No F07, a memória pode estar intacta, mas a personalidade e o comportamento mudam drasticamente.
Reações normais a situações difíceis: Todo mundo fica irritado ou triste às vezes, mas no F07 as mudanças são persistentes, intensas e desproporcionais à situação.

Quem é afetado?

Não há dados exatos sobre quantas pessoas no Brasil têm esse diagnóstico, mas estudos internacionais sugerem que:
Traumatismos cranianos (como acidentes de carro ou quedas) são uma das principais causas, afetando cerca de 69 milhões de pessoas por ano no mundo (dados da OMS).
AVCs (derrames) acontecem com 1 a cada 4 pessoas ao longo da vida, e cerca de 30% dos sobreviventes desenvolvem alguma alteração de personalidade ou comportamento.
Epilepsia afeta 50 milhões de pessoas no mundo, e algumas formas (como a epilepsia do lobo temporal) podem causar mudanças de personalidade.
Doenças autoimunes (como lúpus) e infecções (como HIV) também estão associadas a esses transtornos.

Faixa etária mais comum:
Adultos jovens (20-40 anos): Por causa de acidentes (trânsito, trabalho, esportes).
Idosos (60+ anos): Por AVCs, tumores ou doenças neurodegenerativas.

Diferenças entre homens e mulheres:
Homens têm mais chances de sofrer traumatismos cranianos (por acidentes de moto, brigas, esportes de risco).
Mulheres são mais afetadas por doenças autoimunes (como lúpus) e AVCs em idades mais avançadas.

Um pouco de história

Antes do século XX, as pessoas não entendiam que lesões cerebrais podiam mudar a personalidade. Quem tinha comportamentos estranhos era chamado de “louco”, “possuído” ou “fraco de caráter”. Um caso famoso foi o de Phineas Gage, um operário americano que, em 1848, teve uma barra de ferro atravessada no crânio em um acidente. Ele sobreviveu, mas sua personalidade mudou completamente: antes era responsável e calmo, depois ficou impulsivo, grosseiro e incapaz de planejar o futuro. Esse caso ajudou os cientistas a entenderem que diferentes partes do cérebro controlam diferentes aspectos do comportamento.

Hoje, com exames como ressonância magnética e tomografia, conseguimos ver exatamente onde o cérebro foi danificado e como isso afeta a pessoa. Mas ainda há muito preconceito: muitas famílias não entendem que a mudança de comportamento não é “falta de educação”, mas sim uma consequência física de uma lesão ou doença.


Quais são os sintomas?

Os sintomas do F07 variam muito, porque dependem de onde e como o cérebro foi afetado. Por exemplo:
– Uma lesão no lobo frontal (a parte da testa) pode deixar a pessoa impulsiva, desinibida ou incapaz de planejar.
– Um AVC no hemisfério direito pode causar negligência (a pessoa ignora um lado do corpo) e mudanças emocionais.
– Uma infecção como HIV no cérebro pode deixar a pessoa apática, desconfiada ou com dificuldade de concentração.

Mas, em geral, os sintomas mais comuns são:

1. Mudanças emocionais intensas e desproporcionais

O que é?
A pessoa passa a ter reações emocionais exageradas ou inadequadas para a situação. É como se o “termostato emocional” estivesse quebrado: ou a pessoa não sente nada (apatia) ou explode por motivos bobos.

Exemplos do dia a dia:
Raiva explosiva: Uma discussão boba no trânsito faz a pessoa gritar, xingar e até agredir fisicamente alguém, como se fosse uma briga de vida ou morte. Depois, ela pode nem lembrar direito do que aconteceu.
Choro ou riso sem motivo: A pessoa começa a rir histericamente durante um velório ou chora ao ver um comercial de TV, sem conseguir se controlar.
Frieza emocional: Alguém que antes era carinhoso com os filhos passa a tratá-los com indiferença, como se não sentisse mais afeto.

Normal vs. Sintomático:
Normal: Ficar irritado quando alguém corta sua fila no banco.
Sintomático: Socar a parede porque o café estava frio.


2. Falta de controle dos impulsos

O que é?
A pessoa age sem pensar nas consequências, como se o “freio” do cérebro estivesse quebrado. Isso pode levar a comportamentos perigosos, gastos excessivos, vícios ou até crimes.

Exemplos do dia a dia:
Compras compulsivas: A pessoa gasta todo o salário em um dia, compra coisas que não precisa e depois não lembra direito por que fez isso.
Sexo sem proteção: Alguém que sempre foi cuidadoso passa a ter relações sem preservativo, mesmo sabendo dos riscos.
Agressividade física: Uma discussão simples com o parceiro termina em socos ou objetos quebrados.

Normal vs. Sintomático:
Normal: Comer um pedaço de bolo a mais mesmo estando de dieta.
Sintomático: Roubar comida do prato de um desconhecido no restaurante porque “deu vontade”.


3. Apatia e falta de iniciativa

O que é?
A pessoa perde o interesse por coisas que antes gostava e parece “desligada” da vida. É como se o “motor” que a fazia levantar da cama, trabalhar e se relacionar tivesse sido desligado.

Exemplos do dia a dia:
Deixar de trabalhar: Alguém que sempre foi dedicado ao emprego passa a faltar, chega atrasado e não consegue mais cumprir tarefas simples.
Abandonar hobbies: Uma pessoa que amava tocar violão ou jogar futebol para de praticar, mesmo tendo tempo livre.
Não cuidar da higiene: A pessoa para de tomar banho, escovar os dentes ou trocar de roupa, mesmo quando a família insiste.

Normal vs. Sintomático:
Normal: Ficar um dia de pijama assistindo série porque está cansado.
Sintomático: Passar semanas sem sair do quarto, mesmo sem estar doente.


4. Desconfiança excessiva (paranoia)

O que é?
A pessoa passa a acreditar que os outros estão contra ela, mesmo sem provas. É como se o cérebro estivesse “vendo perigo em tudo”.

Exemplos do dia a dia:
Ciúme patológico: O parceiro acusa a pessoa de traição sem motivo, revistando o celular e seguindo-a pela rua.
Perseguição imaginária: A pessoa acha que os vizinhos estão espionando-a ou que o governo está monitorando suas ligações.
Interpretação errada de situações: Um colega de trabalho faz um comentário neutro, e a pessoa acha que é uma crítica pessoal ou uma ameaça.

Normal vs. Sintomático:
Normal: Ficar desconfiado depois de ser traído uma vez.
Sintomático: Acusar o cônjuge de traição todos os dias, mesmo sem provas, e ameaçar se separar.


5. Dificuldade de planejamento e organização

O que é?
A pessoa perde a capacidade de pensar no futuro, seguir etapas ou tomar decisões simples. É como se o “GPS cerebral” estivesse quebrado: ela sabe o que quer, mas não consegue traçar o caminho.

Exemplos do dia a dia:
Não conseguir cozinhar: A pessoa começa a fazer um bolo, esquece de colocar açúcar, queima a massa e não entende por que não deu certo.
Perder empregos: Mesmo sendo competente, a pessoa não consegue seguir regras básicas, como chegar no horário ou entregar relatórios.
Dificuldade com dinheiro: Gasta tudo em coisas inúteis e depois não tem como pagar as contas, mesmo tendo salário.

Normal vs. Sintomático:
Normal: Esquecer de pagar uma conta uma vez.
Sintomático: Não conseguir administrar o próprio dinheiro, mesmo com ajuda.


6. Negligência de um lado do corpo (anosognosia)

O que é?
Isso acontece quando o cérebro ignora um lado do corpo, como se ele não existisse. É comum em pessoas que tiveram AVC no hemisfério direito.

Exemplos do dia a dia:
Não se vestir direito: A pessoa coloca a camisa só em um braço e sai de casa assim.
Não comer metade do prato: Ela come só o que está do lado direito do prato e não entende por que ainda está com fome.
Bater em objetos: Esbarra em portas ou móveis do lado esquerdo porque não “vê” esse lado.


7. Comportamentos sociais inadequados

O que é?
A pessoa perde o “filtro social” e age de forma grosseira, infantil ou inapropriada, sem perceber.

Exemplos do dia a dia:
Fazer piadas ofensivas: Conta uma piada racista ou machista em um jantar com amigos, sem entender por que todos ficaram chocados.
Tocar pessoas sem permissão: Abraça desconhecidos na rua ou toca partes íntimas de alguém sem perceber que é inadequado.
Falar coisas íntimas em público: Conta detalhes da vida sexual para o chefe ou para estranhos.

Normal vs. Sintomático:
Normal: Soltar um palavrão sem querer em um momento de raiva.
Sintomático: Fazer comentários sexuais explícitos para crianças ou idosos.


Importante: Ter um sintoma não significa ter o diagnóstico!

Muitas pessoas têm um ou dois desses comportamentos às vezes, e isso não quer dizer que tenham um transtorno. O que define o F07 é:
Vários sintomas juntos (não só um).
Mudança clara em relação ao comportamento anterior (a pessoa “não é mais ela mesma”).
Duração prolongada (não é algo passageiro).
Impacto na vida (prejudica trabalho, relacionamentos, saúde).
Causa física comprovada (lesão, doença ou disfunção cerebral).

Se você ou alguém que você conhece está passando por isso, não é “falta de caráter” ou “má vontade”. É uma condição médica real, que precisa de tratamento.


Como se manifesta no dia a dia?

As mudanças causadas pelo F07 afetam todas as áreas da vida. Vamos ver como isso aparece na prática:

No trabalho ou na escola

  • Dificuldade de seguir regras: A pessoa pode chegar atrasada todos os dias, mesmo sabendo que vai ser demitida, ou ignorar prazos importantes.
  • Conflitos com colegas: Explode com o chefe por uma crítica construtiva ou faz comentários inapropriados em reuniões.
  • Falta de iniciativa: Antes era proativa, agora precisa que alguém a lembre de fazer até tarefas simples.
  • Erros frequentes: Mesmo em atividades que dominava, começa a cometer erros bobos (como esquecer de salvar um arquivo ou enviar um e-mail errado).

Exemplo real:

João, 35 anos, era um engenheiro competente. Depois de um acidente de moto que lesionou seu lobo frontal, passou a ter dificuldade para planejar projetos. Em uma obra, esqueceu de calcular o material necessário e a empresa teve um prejuízo de R$ 50 mil. Ele não entendia por que errou e ficou irritado quando o chefe chamou sua atenção.


Nos relacionamentos

  • Família: A pessoa pode se tornar fria, distante ou agressiva com os filhos e o cônjuge. Ou, ao contrário, grudenta e dependente, como se tivesse regredido à infância.
  • Amigos: Deixa de responder mensagens, cancela planos de última hora ou faz comentários que magoam os outros sem perceber.
  • Parceiros amorosos: Pode se tornar ciumento demais, desconfiado ou indiferente ao afeto.

Exemplo real:

Maria, 42 anos, sempre foi uma mãe carinhosa. Depois de um AVC, passou a ignorar o filho de 8 anos, como se não o reconhecesse. Quando o menino chorava, ela ria ou ficava irritada. O marido não entendia o que estava acontecendo e pensava que ela estava “fingindo”.


Na rotina (sono, alimentação, autocuidado)

  • Sono: Pode dormir demais ou de menos, sem padrão. Às vezes, fica acordado a noite toda e dorme o dia inteiro.
  • Alimentação: Come compulsivamente (mesmo sem fome) ou perde o apetite. Pode até esquecer de comer.
  • Higiene: Para de tomar banho, escovar os dentes ou trocar de roupa. A família precisa lembrar constantemente.
  • Lazer: Abandona hobbies que amava e passa horas em atividades sem sentido (como ficar olhando para a parede).

Exemplo real:

Carlos, 50 anos, era um homem vaidoso que malhava todos os dias. Depois de um tumor cerebral, parou de se exercitar, engordou 20 kg e passou a usar a mesma roupa por semanas. Quando a esposa insistia para que tomasse banho, ele dizia: “Pra quê? Ninguém vai me ver mesmo”.


Na saúde física

  • Dores crônicas: Algumas lesões cerebrais causam dores de cabeça constantes ou dores no corpo sem causa aparente.
  • Problemas de coordenação: A pessoa pode tropeçar muito, derrubar coisas ou ter dificuldade para escrever.
  • Sensibilidade a luz/som: Fica incomodada com barulhos ou luzes que antes não a afetavam.
  • Problemas sexuais: Pode ter aumento ou diminuição do desejo sexual, ou comportamentos sexuais inapropriados.

Exemplo real:

Ana, 28 anos, sofreu um traumatismo craniano em um acidente de carro. Depois disso, passou a ter dores de cabeça tão fortes que vomitava. Também desenvolveu uma sensibilidade extrema a barulhos: o som de uma colher caindo no chão a fazia gritar de dor.


O que causa essa condição?

Os transtornos do F07 sempre têm uma causa física no cérebro. Não é algo que a pessoa “aprendeu” ou “escolheu”. Vamos entender as principais causas:

1. Lesões cerebrais (traumas)

O que é?
Qualquer pancada forte na cabeça pode danificar o cérebro. Isso inclui:
Acidentes de trânsito (carro, moto, atropelamento).
Quedas (escorregar no banheiro, cair de uma escada).
Agressões físicas (socos, pauladas, armas de fogo).
Esportes de risco (boxe, futebol americano, skate).

Como isso afeta o cérebro?
Imagine o cérebro como um pudim dentro de uma caixa craniana. Quando você bate a cabeça com força, o pudim se choca contra as paredes da caixa, podendo se machucar. Dependendo da força e do local do impacto, diferentes áreas são afetadas:
Lobo frontal: Mudanças de personalidade, impulsividade, dificuldade de planejamento.
Lobo temporal: Problemas de memória, agressividade, alucinações.
Lobo parietal: Dificuldade de reconhecer objetos ou partes do corpo.

Exemplo:

Pedro, 25 anos, sofreu um acidente de moto e bateu a cabeça. Antes, era um rapaz tranquilo e estudioso. Depois, passou a ter explosões de raiva, gastar dinheiro sem controle e não conseguir mais se concentrar nos estudos.


2. Doenças cerebrovasculares (AVCs)

O que é?
O AVC (derrame) acontece quando o sangue para de circular em uma parte do cérebro, matando células nervosas. Pode ser:
Isquêmico: Um coágulo entope uma artéria.
Hemorrágico: Um vaso sanguíneo se rompe e vaza sangue no cérebro.

Como isso afeta o cérebro?
É como se uma parte do cérebro ficasse sem oxigênio e morresse. Dependendo da área afetada, os sintomas mudam:
AVC no hemisfério direito: Negligência do lado esquerdo do corpo, mudanças emocionais, dificuldade de reconhecer rostos.
AVC no lobo frontal: Apatia, impulsividade, dificuldade de falar.

Exemplo:

Dona Joana, 68 anos, teve um AVC e ficou com o lado esquerdo do corpo paralisado. Além disso, passou a ignorar completamente esse lado: não penteava o cabelo do lado esquerdo, não comia o que estava no lado esquerdo do prato e até batia o braço esquerdo nas portas sem perceber.


3. Tumores cerebrais

O que é?
Um tumor é um crescimento anormal de células no cérebro. Pode ser:
Benigno: Cresce devagar e não se espalha.
Maligno (câncer): Cresce rápido e pode se espalhar.

Como isso afeta o cérebro?
O tumor empurra ou destrói partes do cérebro, como uma erva daninha que sufoca uma planta. Os sintomas dependem do local:
Tumor no lobo frontal: Mudanças de personalidade, falta de empatia, dificuldade de tomar decisões.
Tumor no lobo temporal: Alucinações, agressividade, problemas de memória.

Exemplo:

Seu Antônio, 55 anos, começou a ter dores de cabeça fortes e a esquecer coisas simples. Depois de alguns meses, passou a ter comportamentos estranhos: ria em momentos sérios, fazia comentários sexuais para as netas e não conseguia mais administrar o próprio negócio. Um exame mostrou um tumor no lobo frontal.


4. Doenças neurodegenerativas

O que é?
São doenças que destroem os neurônios aos poucos, como:
Doença de Huntington: Causa movimentos involuntários e mudanças de personalidade.
Doença de Parkinson: Além dos tremores, pode causar apatia e depressão.
Demência frontotemporal: Afeta principalmente o lobo frontal e temporal, mudando o comportamento.

Como isso afeta o cérebro?
É como se o cérebro enferrujasse com o tempo. As células morrem, e a pessoa vai perdendo funções.

Exemplo:

Dona Clara, 60 anos, sempre foi uma mulher doce e paciente. Nos últimos anos, passou a ter explosões de raiva, dizer palavrões na frente dos netos e esquecer compromissos. A família achava que era “coisa da idade”, até que um médico diagnosticou demência frontotemporal.


5. Infecções que afetam o cérebro

O que é?
Algumas infecções atacam o cérebro, como:
HIV/AIDS: O vírus pode causar inflamação no cérebro (encefalopatia pelo HIV).
Sífilis: Se não tratada, pode chegar ao cérebro (neurossífilis).
Meningite: Infecção das membranas que protegem o cérebro.
COVID-19: Em alguns casos, pode causar inflamação cerebral.

Como isso afeta o cérebro?
É como se o cérebro ficasse inchado ou inflamado, prejudicando seu funcionamento.

Exemplo:

João, 30 anos, descobriu que tinha HIV há 5 anos, mas não fazia tratamento. Nos últimos meses, passou a ter dificuldade de concentração, esquecer coisas importantes e ter surtos de agressividade. Um exame mostrou que o vírus estava afetando seu cérebro.


6. Doenças autoimunes

O que é?
O sistema imunológico ataca o próprio corpo, incluindo o cérebro. Exemplos:
Lúpus eritematoso sistêmico: Pode causar inflamação no cérebro.
Esclerose múltipla: Destrói a bainha de mielina (proteção dos neurônios).

Como isso afeta o cérebro?
É como se o corpo confundisse o cérebro com um inimigo e o atacasse.

Exemplo:

Maria, 28 anos, foi diagnosticada com lúpus. Além das dores nas articulações, passou a ter alucinações, acreditar que as pessoas estavam contra ela e ter dificuldade para se concentrar no trabalho.


7. Alterações hormonais

O que é?
Alguns hormônios afetam diretamente o cérebro, como:
Tireoide: Hipotireoidismo (pouco hormônio) pode causar apatia e depressão. Hipertireoidismo (muito hormônio) pode causar ansiedade e irritabilidade.
Glândulas adrenais: Excesso de cortisol (hormônio do estresse) pode causar mudanças de humor.

Como isso afeta o cérebro?
É como se o cérebro ficasse “desregulado”, como um carro com o motor acelerado ou muito lento.

Exemplo:

Paulo, 40 anos, começou a se sentir cansado o tempo todo, perder o interesse pelo trabalho e ter explosões de raiva. Um exame mostrou que sua tireoide estava funcionando muito devagar (hipotireoidismo).


Mitos e verdades sobre as causas

Mito: “Isso é falta de força de vontade.”
Verdade: É uma condição médica, causada por danos físicos no cérebro. Não é escolha da pessoa.

Mito: “Só acontece em idosos.”
Verdade: Pode acontecer em qualquer idade, especialmente após acidentes ou doenças.

Mito: “É só estresse ou depressão.”
Verdade: Embora os sintomas possam se parecer, no F07 há uma causa física comprovada (lesão, tumor, AVC, etc.).

Mito: “Não tem tratamento.”
Verdade: Tem tratamento! Medicamentos, terapia e mudanças no estilo de vida podem melhorar muito a qualidade de vida.


Como é feito o diagnóstico?

Receber o diagnóstico de F07 pode ser um alívio (“finalmente sei o que tenho!”) ou um susto (“meu cérebro está danificado?”). O processo costuma ser assim:

1. Primeiros sinais: quando a família percebe que algo está errado

Geralmente, não é a pessoa que percebe a mudança, mas sim os familiares, amigos ou colegas de trabalho. Alguns sinais de alerta:
– A pessoa não é mais ela mesma: age de forma estranha, impulsiva ou agressiva.
Mudanças repentinas: antes era calma, agora explode por qualquer coisa.
Dificuldade no trabalho: erros frequentes, conflitos com colegas, demissões.
Problemas nos relacionamentos: brigas constantes, ciúme excessivo, indiferença.

Exemplo:

A esposa de Ricardo, 45 anos, notou que ele estava diferente: parou de se interessar pelo trabalho, passou a gastar dinheiro em coisas inúteis e tinha explosões de raiva por motivos bobos. Ela pensou que ele estava deprimido, mas um neurologista descobriu que ele tinha um tumor no lobo frontal.


2. O caminho até o diagnóstico

Não existe um exame único que diagnostique o F07. O médico (geralmente um neurologista ou psiquiatra) vai fazer uma investigação completa, que pode incluir:

A. Entrevista clínica (anamnese)

O médico vai perguntar:
Quando os sintomas começaram? (Depois de um acidente? De uma doença?)
Como era a pessoa antes? (Era calma? Impulsiva? Organizada?)
Quais são os sintomas? (Agressividade? Apatia? Desconfiança?)
Histórico médico: Já teve AVC, tumor, epilepsia, HIV, lúpus?
Histórico familiar: Alguém na família teve doenças neurológicas?

Dica para familiares:
Anote exemplos concretos dos comportamentos estranhos (data, situação, reação da pessoa). Isso ajuda muito o médico.

B. Exames neurológicos

Para ver se há danos físicos no cérebro, o médico pode pedir:
Ressonância magnética ou tomografia: Mostra se há tumores, AVCs, lesões.
Eletroencefalograma (EEG): Mede a atividade elétrica do cérebro (útil para epilepsia).
Exames de sangue: Para verificar hormônios, infecções, doenças autoimunes.

C. Avaliação psiquiátrica

Um psiquiatra vai avaliar:
Se os sintomas são causados por outra condição (depressão, ansiedade, transtorno bipolar).
Se há necessidade de medicação para controlar os sintomas.

D. Testes neuropsicológicos

São testes que avaliam funções cerebrais, como:
Memória: Lembrar uma lista de palavras.
Atenção: Repetir números de trás para frente.
Planejamento: Resolver problemas simples (como organizar uma festa).
Controle de impulsos: Resistir a um estímulo imediato (como não comer um doce agora para ganhar dois depois).

Exemplo de teste:

O médico pede para a pessoa desenhar um relógio. Se ela desenha todos os números do lado direito (ignorando o esquerdo), pode ser sinal de negligência por um AVC no hemisfério direito.


3. Quanto tempo leva para ser diagnosticado?

Depende da causa:
Lesões agudas (AVC, traumatismo craniano): O diagnóstico pode ser rápido (dias ou semanas).
Doenças progressivas (tumores, demência): Pode levar meses, porque os sintomas aparecem aos poucos.

Dica:
Se a família notar mudanças repentinas e intensas no comportamento, procure um médico urgentemente. Quanto antes o diagnóstico, melhor o tratamento.


4. Quem pode diagnosticar?

  • Neurologista: Especialista em doenças do cérebro e sistema nervoso.
  • Psiquiatra: Especialista em transtornos mentais (ajuda a diferenciar de depressão, ansiedade, etc.).
  • Neuropsicólogo: Faz os testes de funções cerebrais.

No SUS:
UBS (Unidade Básica de Saúde): O clínico geral pode encaminhar para um neurologista ou psiquiatra.
CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Para acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
Hospitais universitários: Têm equipes especializadas em neurologia e psiquiatria.

No particular:
– Clínicas de neurologia e psiquiatria.
– Hospitais com serviço de neuropsicologia.


5. Diagnóstico diferencial: o que pode ser confundido com F07?

Algumas condições têm sintomas parecidos, mas causas diferentes. O médico precisa descartar:

Condição Como se diferencia do F07?
Depressão Não há lesão cerebral. Os sintomas melhoram com antidepressivos.
Transtorno bipolar As mudanças de humor são cíclicas (alternam entre euforia e depressão), não causadas por lesão.
Esquizofrenia Há alucinações e delírios, mas não necessariamente uma lesão cerebral.
Transtorno de personalidade borderline Os sintomas começam na adolescência, não após uma lesão.
Demência Há perda progressiva de memória e funções cognitivas, não só mudanças de personalidade.
Intoxicação por drogas Os sintomas melhoram quando a substância sai do corpo.

Exemplo:

Marcos, 30 anos, começou a ter explosões de raiva e gastar dinheiro compulsivamente. A família achava que era F07, mas o médico descobriu que ele estava usando cocaína. Quando parou, os sintomas melhoraram.


6. O que esperar da primeira consulta?

  • Duração: Cerca de 1 hora.
  • O que levar:
  • Exames anteriores (ressonância, tomografia, exames de sangue).
  • Lista de medicamentos que a pessoa toma.
  • Anotações sobre os sintomas (quando começaram, como se manifestam).
  • Perguntas que o médico pode fazer:
  • “Como era a pessoa antes dos sintomas?”
  • “Já sofreu algum acidente ou teve alguma doença neurológica?”
  • “Toma algum remédio ou usa drogas?”
  • “Tem histórico de doenças mentais na família?”

Dica para familiares:
Se a pessoa não reconhece que está doente (anosognosia), o médico pode precisar conversar com a família separadamente.


Tratamento

O tratamento do F07 depende da causa e dos sintomas. Não existe uma “cura” para danos cerebrais, mas é possível melhorar muito a qualidade de vida com uma combinação de:
Medicamentos (para controlar sintomas).
Terapia (para aprender a lidar com as mudanças).
Mudanças no estilo de vida (exercício, sono, alimentação).
Apoio da família.

Vamos ver cada um em detalhes:


1. Medicamentos

Os remédios não “consertam” o cérebro, mas ajudam a controlar os sintomas e melhorar o funcionamento do dia a dia.

A. Para controle de impulsos e agressividade

  • Antipsicóticos atípicos (ex.: Risperidona, Quetiapina, Olanzapina):
  • Como funcionam? Acalmam a parte do cérebro que controla os impulsos.
  • Efeitos colaterais: Sonolência, ganho de peso, tremores.
  • Tempo para fazer efeito: 2 a 4 semanas.

  • Estabilizadores de humor (ex.: Ácido valproico, Carbamazepina):

  • Como funcionam? Equilibram a atividade elétrica do cérebro.
  • Efeitos colaterais: Tontura, náusea, ganho de peso.
  • Tempo para fazer efeito: 1 a 2 semanas.

Exemplo:

João, que tinha explosões de raiva após um traumatismo craniano, começou a tomar Risperidona. No começo, sentia muito sono, mas depois de um mês, as crises de raiva diminuíram.


B. Para apatia e falta de iniciativa

  • Antidepressivos (ex.: Fluoxetina, Sertralina, Bupropiona):
  • Como funcionam? Aumentam a motivação e o interesse pela vida.
  • Efeitos colaterais: Náusea, dor de cabeça, insônia.
  • Tempo para fazer efeito: 4 a 6 semanas.

Exemplo:

Maria, que parou de se interessar pelo trabalho e pelos filhos após um AVC, começou a tomar Bupropiona. Depois de um mês, voltou a sair de casa e a conversar com as pessoas.


C. Para desconfiança e paranoia

  • Antipsicóticos (ex.: Haloperidol, Aripiprazol):
  • Como funcionam? Reduzem pensamentos paranoicos.
  • Efeitos colaterais: Rigidez muscular, tremores.
  • Tempo para fazer efeito: 1 a 2 semanas.

Exemplo:

Carlos, que acreditava que os vizinhos estavam espionando-o após um tumor cerebral, começou a tomar Aripiprazol. Depois de algumas semanas, parou de revistar a casa em busca de câmeras escondidas.


D. Para problemas de memória e atenção

  • Inibidores da colinesterase (ex.: Donepezila, Rivastigmina):
  • Como funcionam? Aumentam a acetilcolina (substância importante para memória).
  • Efeitos colaterais: Náusea, diarreia, insônia.
  • Tempo para fazer efeito: 4 a 6 semanas.

Exemplo:

Seu Antônio, que esquecia compromissos após um AVC, começou a tomar Donepezila. Depois de dois meses, conseguia lembrar dos horários das consultas médicas.


E. Para epilepsia (se for a causa)

  • Antiepilépticos (ex.: Fenitoína, Carbamazepina, Lamotrigina):
  • Como funcionam? Controlam as descargas elétricas anormais no cérebro.
  • Efeitos colaterais: Sonolência, tontura, erupções na pele.
  • Tempo para fazer efeito: Varia (alguns precisam de ajuste de dose).

2. Psicoterapia

A terapia ajuda a pessoa a lidar com as mudanças e a reaprender habilidades perdidas. As abordagens mais usadas são:

A. Terapia cognitivo-comportamental (TCC)

  • O que é? Ajuda a identificar pensamentos e comportamentos disfuncionais e substituí-los por outros mais saudáveis.
  • Como funciona?
  • Técnicas de controle de impulsos: Aprender a “parar e pensar” antes de agir.
  • Treinamento de habilidades sociais: Como se comportar em situações sociais.
  • Manejo da raiva: Técnicas para controlar explosões.
  • Duração: 12 a 24 sessões (1 vez por semana).

Exemplo:

Ricardo, que gastava todo o salário em compras impulsivas, aprendeu na TCC a esperar 24 horas antes de comprar algo. Isso reduziu muito seus gastos.


B. Reabilitação neuropsicológica

  • O que é? Treinamento para recuperar funções cerebrais perdidas (memória, atenção, planejamento).
  • Como funciona?
  • Exercícios de memória: Lembrar listas de palavras, histórias.
  • Treinamento de atenção: Jogos que exigem foco.
  • Planejamento: Organizar tarefas do dia a dia.
  • Duração: Varia (pode ser por meses ou anos).

Exemplo:

Ana, que tinha dificuldade para cozinhar após um AVC, fez reabilitação neuropsicológica. Aprendeu a seguir receitas passo a passo e voltou a preparar suas refeições.


C. Terapia familiar

  • O que é? Ajuda a família a entender a condição e a lidar com os desafios.
  • Como funciona?
  • Psicoeducação: Explicar o que é o F07 e como ajudar.
  • Comunicação não violenta: Como conversar sem gerar conflitos.
  • Divisão de tarefas: Como a família pode ajudar no dia a dia.
  • Duração: 6 a 12 sessões.

Exemplo:

A família de Pedro, que tinha explosões de raiva, aprendeu na terapia familiar a não revidar durante as crises e a distraí-lo com atividades calmas.


3. Mudanças no dia a dia

Pequenas mudanças no estilo de vida podem melhorar muito os sintomas:

A. Exercício físico

  • Por que ajuda? Melhora o fluxo sanguíneo no cérebro, reduz estresse e aumenta a produção de neurotransmissores (como serotonina e dopamina).
  • Melhores tipos:
  • Caminhada: 30 minutos por dia.
  • Natação: Bom para quem tem problemas de coordenação.
  • Yoga: Ajuda no controle da raiva e da ansiedade.
  • Dica: Comece devagar e aumente aos poucos.

Exemplo:

João, que estava apático após um traumatismo craniano, começou a caminhar 15 minutos por dia. Depois de um mês, já se sentia mais disposto.


B. Sono

  • Por que é importante? O cérebro se recupera durante o sono. Dormir mal piora impulsividade, memória e humor.
  • Dicas para dormir melhor:
  • Rotina: Deitar e levantar no mesmo horário todos os dias.
  • Ambiente: Quarto escuro, silencioso e fresco.
  • Evitar: Café, álcool e telas (celular, TV) antes de dormir.
  • Se tiver insônia: Procurar um médico (pode ser necessário remédio temporariamente).

Exemplo:

Maria, que tinha insônia após um AVC, começou a tomar chá de camomila antes de dormir e a evitar o celular à noite. Em duas semanas, seu sono melhorou.


C. Alimentação

  • O que ajuda o cérebro?
  • Ômega-3 (peixes, nozes, linhaça): Melhora a memória.
  • Antioxidantes (frutas, verduras): Protegem os neurônios.
  • Proteínas (ovos, carne, feijão): Ajudam na produção de neurotransmissores.
  • O que evitar?
  • Açúcar refinado: Pode piorar a impulsividade.
  • Gorduras trans: Danificam os vasos sanguíneos do cérebro.
  • Álcool: Pode interagir com os remédios e piorar os sintomas.

Exemplo:

Carlos, que tinha dificuldade de concentração após um tumor cerebral, começou a comer mais peixes e nozes. Depois de um mês, percebeu que conseguia se concentrar melhor no trabalho.


D. Rotina estruturada

  • Por que ajuda? O cérebro danificado funciona melhor com previsibilidade.
  • Como fazer?
  • Agenda visual: Usar um quadro com as tarefas do dia.
  • Alarmes: Para lembrar de tomar remédios, comer, dormir.
  • Pequenos objetivos: Dividir tarefas grandes em etapas menores.

Exemplo:

Ana, que esquecia compromissos após um AVC, começou a usar um quadro branco na cozinha com sua rotina diária. Isso a ajudou a se organizar melhor.


E. Técnicas de manejo de sintomas

  • Para impulsividade:
  • Regra dos 10 segundos: Antes de agir, contar até 10 e respirar fundo.
  • Distração: Se sentir vontade de gastar dinheiro, sair para caminhar.
  • Para raiva:
  • Técnica do semáforo: Vermelho (parar), amarelo (respirar), verde (agir com calma).
  • Exercício físico: Correr, socar um travesseiro.
  • Para apatia:
  • Lista de atividades prazerosas: Assistir a um filme, ouvir música, cozinhar.
  • Pequenos passos: Começar com tarefas simples (tomar banho, arrumar a cama).

Exemplo:

Ricardo, que tinha explosões de raiva, aprendeu a socar um travesseiro quando sentia que ia perder o controle. Isso o ajudou a evitar brigas.


Convivendo com o diagnóstico

Receber o diagnóstico de F07 pode ser um choque para a pessoa e para a família. É normal sentir:
Medo: “Vou ficar assim para sempre?”
Raiva: “Por que isso aconteceu comigo?”
Culpa: “Será que eu poderia ter evitado?”
Frustração: “Por que os remédios não resolvem tudo?”

Mas é possível ter uma vida plena, mesmo com as limitações. Vamos ver como:


Para a pessoa com o diagnóstico

1. Aceite que as coisas mudaram (mas não acabaram)

  • Não é culpa sua: Você não escolheu ter uma lesão cerebral. Não se culpe.
  • Você não é seus sintomas: Ter impulsividade ou apatia não define quem você é.
  • Pequenos progressos são vitórias: Se hoje você conseguiu tomar banho sozinho, isso já é um avanço.

Exemplo:

João, que teve um traumatismo craniano, passou meses se culpando por não conseguir mais trabalhar. Um dia, seu terapeuta disse: “Você não é preguiçoso. Seu cérebro está se recuperando. Cada passo conta.” Isso o ajudou a se aceitar.


2. Aprenda a pedir ajuda

  • Não tenha vergonha: Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, é sinal de coragem.
  • Use recursos disponíveis:
  • SUS: CAPS, UBS, hospitais universitários.
  • Associações: APAE, Associação Brasileira de Alzheimer (se for demência).
  • Grupos de apoio: Converse com outras pessoas que passam pelo mesmo.

Exemplo:

Maria, que se sentia sozinha após um AVC, entrou em um grupo de apoio para sobreviventes de AVC. Lá, conheceu outras pessoas com sintomas parecidos e se sentiu compreendida.


3. Estabeleça uma rotina

  • O cérebro danificado funciona melhor com previsibilidade.
  • Dicas:
  • Mesmo horário para dormir, comer e tomar remédios.
  • Atividades físicas diárias (mesmo que seja uma caminhada curta).
  • Tempo para lazer (ler, ouvir música, ver um filme).

Exemplo:

Carlos, que tinha dificuldade de concentração, criou uma rotina rígida: acordava às 7h, tomava café, caminhava 20 minutos, lia um livro por 30 minutos e assim por diante. Isso o ajudou a se sentir mais no controle.


4. Evite gatilhos

Algumas situações podem piorar os sintomas. Identifique as suas e tente evitá-las:
Estresse: Pode aumentar a impulsividade e a raiva.
Álcool e drogas: Podem interagir com os remédios e piorar os sintomas.
Privação de sono: Dormir mal deixa o cérebro mais vulnerável.
Ambientes barulhentos: Podem causar irritabilidade.

Exemplo:

Ana, que tinha explosões de raiva, percebeu que lugares com muita gente a deixavam ansiosa. Passou a evitar shoppings e festas lotadas.


5. Celebre as pequenas vitórias

  • Anotar progressos: “Hoje consegui tomar banho sem ajuda.”
  • Recompensar-se: “Se eu seguir minha rotina a semana toda, vou assistir a um filme que gosto.”
  • Compartilhar com a família: “Mãe, hoje eu consegui cozinhar sozinho!”

Exemplo:

Ricardo, que estava apático, começou a anotar em um caderno tudo o que conseguia fazer no dia. Ver a lista crescendo o motivou a continuar tentando.


Para familiares e amigos

1. Entenda que não é “frescura”

  • A pessoa não está “fazendo drama”: O cérebro dela está danificado, e ela não tem controle total sobre seus atos.
  • Não leve para o pessoal: Se ela gritar com você, não é porque não gosta de você, é porque perdeu o controle.
  • Tenha paciência: A recuperação é lenta e cheia de altos e baixos.

Exemplo:

A esposa de João, que tinha explosões de raiva, aprendeu a não revidar durante as crises. Em vez disso, dizia: “Eu sei que você está com raiva, mas vamos respirar juntos.” Isso ajudava a acalmá-lo.


2. Como ajudar no dia a dia

  • Ajude sem infantilizar:
  • Faça junto: “Vamos arrumar a casa juntos?”
  • Faça por ela: “Deixa que eu arrumo, você não consegue.”
  • Dê opções limitadas:
  • ✅ “Você quer tomar banho agora ou daqui a 10 minutos?”
  • ❌ “Você precisa tomar banho!” (pode gerar resistência).
  • Use lembretes visuais:
  • Quadros, alarmes, post-its.
  • Elogie os esforços:
  • “Fico feliz que você tenha conseguido tomar banho sozinho hoje!”

Exemplo:

O filho de Maria, que tinha apatia, começou a fazer atividades com ela: cozinhar, assistir a um filme, caminhar. Isso a motivou a sair do quarto.


3. O que NÃO fazer

  • ❌ Não discuta durante uma crise: A pessoa não está raciocinando direito.
  • ❌ Não minimize os sintomas: “Isso é coisa da sua cabeça” não ajuda.
  • ❌ Não faça tudo pela pessoa: Isso pode aumentar a dependência.
  • ❌ Não se isole: Cuidar de alguém com F07 é desgastante. Peça ajuda.

Exemplo:

A família de Carlos, que tinha impulsividade, parou de discutir quando ele gastava dinheiro. Em vez disso, começaram a controlar o cartão de crédito e a dar mesada semanal.


4. Como explicar para outras pessoas

Muitas pessoas não entendem o que é F07 e podem julgar. Algumas frases que ajudam:
“É como se o cérebro dele tivesse sofrido um curto-circuito. Não é falta de educação.”
“Ele não escolheu ter isso. É uma condição médica, como diabetes.”
“Às vezes ele age de forma estranha, mas não é por mal.”

Exemplo:

A irmã de Ana, que tinha negligência após um AVC, explicava para os vizinhos: “Ela não está ignorando vocês de propósito. É como se o cérebro dela não registrasse o lado esquerdo do corpo.”


5. Cuide de si mesmo

  • Você não pode ajudar se estiver esgotado.
  • Dicas:
  • Tire um tempo para si: Mesmo que seja 30 minutos por dia.
  • Peça ajuda: Divida as tarefas com outros familiares.
  • Procure apoio psicológico: Terapia pode ajudar a lidar com o estresse.
  • Participe de grupos de apoio: Converse com outras famílias na mesma situação.

Exemplo:

A esposa de Pedro, que cuidava dele 24 horas por dia, começou a ir à terapia e a sair com amigas uma vez por semana. Isso a ajudou a não se sentir sobrecarregada.


Quando os sintomas podem piorar?

Algumas situações podem desencadear ou piorar os sintomas:
Estresse: Problemas financeiros, brigas familiares, pressão no trabalho.
Privação de sono: Dormir mal deixa o cérebro mais vulnerável.
Mudanças na rotina: Viagens, mudanças de casa, novos empregos.
Doenças físicas: Gripe, infecções, dor crônica.
Interrupção do tratamento: Parar os remédios ou a terapia sem orientação médica.

O que fazer?
Identifique os gatilhos e tente evitá-los.
Mantenha a rotina o máximo possível.
Comunique ao médico se os sintomas piorarem.

Exemplo:

João, que tinha impulsividade, percebeu que ficava mais irritado quando estava com fome. Passou a carregar um lanche na bolsa para evitar crises.


Perguntas frequentes

1. “Meu familiar teve um AVC e agora age como uma criança. Isso é normal?”

Sim, é comum. O lobo frontal (responsável pelo controle de impulsos e maturidade emocional) é frequentemente afetado em AVCs. A pessoa pode regressar a comportamentos infantis, como:
– Fazer birra.
– Chorar ou rir sem motivo.
– Ter dificuldade de seguir regras.

O que fazer?
Não trate a pessoa como criança, mas simplifique as instruções.
Seja paciente: Ela não está fazendo de propósito.
Procure reabilitação neuropsicológica: Ajuda a recuperar funções perdidas.


2. “Os remédios vão mudar a personalidade da pessoa?”

Não. Os remédios não mudam quem a pessoa é, apenas controlam os sintomas que estão atrapalhando a vida. Por exemplo:
– Se a pessoa é agressiva, o remédio vai reduzir as explosões, não transformá-la em outra pessoa.
– Se ela está apática, o remédio vai aumentar a motivação, não criar uma nova personalidade.

Efeitos colaterais:
Alguns remédios podem causar sonolência ou ganho de peso, mas isso não é uma mudança de personalidade. Converse com o médico para ajustar a dose.


3. “Meu marido teve um traumatismo craniano e agora não sente mais amor por mim. Isso é definitivo?”

Não necessariamente. Lesões no lobo frontal podem afetar a capacidade de sentir e expressar emoções. Isso não significa que ele não sinta mais amor, mas sim que não consegue demonstrar como antes.

O que fazer?
Não leve para o pessoal: Não é rejeição, é uma limitação física.
Mostre afeto de outras formas: Toque, palavras gentis, pequenos gestos.
Dê tempo: O cérebro pode se recuperar parcialmente.

Exemplo:

A esposa de Carlos, que ficou “frio” após um acidente, começou a segurar a mão dele enquanto assistiam TV. Com o tempo, ele voltou a retribuir o carinho.


4. “Minha mãe teve um tumor cerebral e agora faz comentários ofensivos. Como lidar?”

É comum que lesões cerebrais tirem o “filtro social”. A pessoa pode falar coisas inapropriadas sem perceber.

O que fazer?
Não revide: Ela não está fazendo de propósito.
Corrija com calma: “Mãe, isso que você falou magoou fulano.”
Redirecione a conversa: Mude de assunto para algo neutro.
Proteja a pessoa de situações constrangedoras: Evite levá-la a eventos sociais até que os sintomas melhorem.

Exemplo:

A filha de Dona Maria, que fazia comentários racistas sem perceber, começou a distraí-la quando ela falava algo inadequado: “Mãe, vamos tomar um café?”


5. “Meu filho teve um acidente e agora é agressivo. Ele vai melhorar?”

Depende da gravidade da lesão e do tratamento. Algumas pessoas melhoram muito com remédios e terapia, outras têm melhoras parciais.

Fatores que influenciam a recuperação:
Idade: Pessoas mais jovens tendem a se recuperar melhor.
Local da lesão: Lesões no lobo frontal são mais difíceis de tratar.
Acesso a tratamento: Quanto antes começar a reabilitação, melhor.
Apoio familiar: Famílias unidas ajudam na recuperação.

O que fazer?
Não desista: Mesmo que a melhora seja lenta, cada pequeno progresso conta.
Celebre as vitórias: “Hoje ele não teve nenhuma crise de raiva!”
Procure grupos de apoio: Converse com outras famílias na mesma situação.


6. “Posso beber socialmente se tenho F07?”

Não é recomendado. O álcool pode:
Interagir com os remédios (diminuir ou aumentar o efeito).
Piorar os sintomas (aumentar impulsividade, agressividade, apatia).
Aumentar o risco de quedas (se a pessoa já tem problemas de coordenação).

Alternativas:
Bebidas sem álcool: Cerveja 0%, drinks sem álcool.
Outras formas de socializar: Jogos, conversas, atividades ao ar livre.

Exemplo:

João, que tinha impulsividade, parou de beber e percebeu que suas crises de raiva diminuíram.


7. “Como explicar para as crianças que o pai/mãe está diferente?”

Crianças percebem quando algo está errado, mas não entendem o que é. Use uma linguagem simples:
“O cérebro do papai sofreu um machucado, como quando você cai e rala o joelho. Por isso, às vezes ele age de forma estranha.”
“Não é culpa sua. Ele te ama, mas agora tem dificuldade de mostrar.”
“Vamos ajudá-lo juntos?” (Dê pequenas tarefas, como lembrá-lo de tomar remédios.)

Exemplo:

A filha de 8 anos de Ricardo, que tinha apatia, começou a desenhar cartões para ele. Isso o motivou a interagir mais com ela.


8. “Quanto tempo dura o tratamento?”

Depende da causa e da gravidade:
Lesões agudas (AVC, traumatismo): O tratamento pode durar meses ou anos, mas muitos sintomas melhoram com o tempo.
Doenças progressivas (tumores, demência): O tratamento é contínuo, pois a doença pode piorar.
Infecções (HIV, sífilis): Se tratadas, os sintomas podem melhorar ou desaparecer.

Importante:
Não pare o tratamento sem orientação médica, mesmo que a pessoa pareça melhor.
Ajustes podem ser necessários: O médico pode mudar a dose ou o remédio ao longo do tempo.


9. “Existe cura para o F07?”

Não existe uma cura definitiva, mas muitas pessoas melhoram significativamente com tratamento. Alguns danos cerebrais são permanentes, mas o cérebro tem uma capacidade incrível de se adaptar (neuroplasticidade).

O que ajuda na recuperação?
Tratamento precoce: Quanto antes começar, melhor.
Reabilitação neuropsicológica: Ajuda o cérebro a “reaprender” funções.
Estilo de vida saudável: Exercício, sono, alimentação.
Apoio familiar: Ambientes calmos e acolhedores ajudam na recuperação.

Exemplo:

Ana, que tinha negligência após um AVC, fez reabilitação por 2 anos. Hoje, ainda tem algumas dificuldades, mas consegue viver de forma independente.


10. “Onde posso encontrar ajuda no Brasil?”

  • SUS:
  • UBS (Unidade Básica de Saúde): Para encaminhamento a neurologistas e psiquiatras.
  • CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Para acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
  • Hospitais universitários: Têm equipes especializadas em neurologia e neuropsicologia.
  • Particular:
  • Clínicas de neurologia e psiquiatria.
  • Neuropsicólogos (para reabilitação).
  • Associações:
  • APAE: Para pessoas com deficiência intelectual (alguns casos de F07).
  • Associação Brasileira de Alzheimer: Para casos de demência.
  • Rede Brasil AVC: Para sobreviventes de AVC.
  • Grupos de apoio:
  • Facebook: Grupos como “Famílias de Sobreviventes de AVC”.
  • CVV (Centro de Valorização da Vida): Para apoio emocional (telefone 188).

Quando procurar ajuda urgente

Alguns sintomas indicam que a situação é grave e precisa de atendimento imediato. Procure um pronto-socorro se a pessoa apresentar:

Sinais de alerta vermelho (EMERGÊNCIA)

  • Perda de consciência (desmaio, coma).
  • Convulsões (corpo tremendo, salivação, perda de controle da bexiga).
  • Fraqueza ou paralisia súbita (em um lado do corpo, como em um AVC).
  • Fala arrastada ou dificuldade para falar.
  • Visão dupla ou perda de visão.
  • Dor de cabeça intensa e súbita (como “a pior dor da vida”).
  • Comportamento violento incontrolável (agredir pessoas ou objetos sem parar).

Sinais de alerta amarelo (procure um médico em até 24h)

  • Piora repentina dos sintomas (mais agressividade, apatia ou desconfiança).
  • Alucinações ou delírios (ver coisas que não existem, acreditar em coisas impossíveis).
  • Tentativa de suicídio ou automutilação.
  • Recusa total em comer ou beber.
  • Queda frequente ou dificuldade para andar.

Onde ir?

  • SUS: Pronto-socorro de hospitais públicos (ex.: Hospital das Clínicas, Hospital do Servidor Público).
  • Particular: Pronto-socorro de hospitais particulares (ex.: Albert Einstein, Sírio-Libanês).

Dica:
Se a pessoa não reconhece que está doente (anosognosia) e se recusa a ir ao médico, chame uma ambulância (SAMU 192) e explique a situação.


Referências

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-10). 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 1997.
  • American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
  • Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
  • Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (SBNp). Reabilitação Neuropsicológica: Princípios e Práticas. 2020.
  • World Health Organization (WHO). Neurological Disorders: Public Health Challenges. 2006.
  • National Institute of Neurological Disorders and Stroke (NINDS). Traumatic Brain Injury: Hope Through Research. 2022.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.

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