Definição e epidemiologia
Vertigem e tontura são sintomas sensoperceptivos caracterizados por uma perturbação na orientação espacial e no equilíbrio. A vertigem refere-se especificamente à ilusão de movimento, geralmente rotatório, do indivíduo em relação ao ambiente ou vice-versa. A tontura é um termo mais amplo e inespecífico, que pode englobar sensações de desequilíbrio, instabilidade, cabeça leve, flutuação ou pré-síncope. No contexto psiquiátrico, o foco recai sobre quadros em que essas sensações são primariamente expressões somáticas de transtornos mentais, sem uma etiologia otoneurológica, cardiovascular ou metabólica subjacente que as explique totalmente.
Nos sistemas classificatórios, a vertigem/tontura psicogênica não constitui um diagnóstico isolado. No DSM-5-TR, ela se enquadra predominantemente como um sintoma somático associado a outros transtornos. Os diagnósticos mais relevantes são: Transtorno de Sintomas Somáticos (quando há sofrimento ou prejuízo excessivo associado aos sintomas), Transtorno de Ansiedade Generalizada (como uma manifestação somática da ansiedade), Transtorno de Pânico (podendo ocorrer durante as crises), Transtorno Conversivo (Funcional Neurológico) e Transtorno Depressivo Maior (com características somáticas). A CID-11 segue lógica similar, categorizando esses sintomas sob os transtornos de ansiedade e depressivos, ou sob a categoria "Sintomas somáticos ou transtornos relacionados".
A queixa é extremamente prevalente na população idosa. Conforme o Compêndio de Kaplan & Sadock, a sensação de vertigem ou tontura é uma "queixa comum de idosos". Estima-se que até 30% dos indivíduos com mais de 65 anos experimentem episódios significativos de tontura, sendo uma das principais causas de procura por serviços de saúde nessa faixa etária. A distribuição por sexo varia conforme a etiologia subjacente, mas nos quadros psicogênicos há uma tendência a maior prevalência em mulheres. Dados epidemiológicos brasileiros específicos são escassos, mas a alta prevalência de transtornos de ansiedade e depressão entre idosos no país sugere que a apresentação somática com tontura é frequente.
Os principais fatores de risco incluem: presença de transtorno de ansiedade ou depressivo prévio ou atual, história de transtornos somatoformes, múltiplas comorbidades clínicas (que servem como modelo para a preocupação somática), polifarmácia (especialmente com psicotrópicos), eventos estressores recentes (como perdas, luto, mudança de domicílio) e ganho secundário inadvertido (como aumento de atenção familiar). O curso clínico é frequentemente crônico e flutuante, com exacerbações ligadas a períodos de maior estresse ou ansiedade. Sem tratamento adequado do transtorno psiquiátrico de base, os sintomas tendem a persistir, levando a um círculo vicioso de medo de cair, redução da atividade física, isolamento social e piora da condição geral.
Etiopatogenia e neurobiologia
A gênese da vertigem/tontura psicogênica no idoso é multifatorial, envolvendo uma complexa interação entre vulnerabilidade neurobiológica, fatores psicológicos e alterações fisiológicas do envelhecimento.
Do ponto de vista neurobiológico, os sistemas de neurotransmissão envolvidos na regulação do equilíbrio, da ansiedade e do processamento sensorial estão intimamente conectados. O sistema vestibular periférico e central integra-se com estruturas límbicas (amígdala, hipocampo, giro cingulado) e corticais (córtex insular, córtex pré-frontal). A serotonina e a noradrenalina, centrais na fisiopatologia da ansiedade e depressão, também modulam a atividade vestibular. Disfunções nesses sistemas podem levar a uma hipervigilância a sinais corporais normais ou discretamente alterados, interpretando-os erroneamente como ameaça de queda ou desmaio. O sistema gabaérgico, frequentemente afetado pelo uso crônico de benzodiazepínicos, também está implicado, já que a sedação e a ataxia são efeitos adversos conhecidos dessas medicações.
Modelos psicológicos destacam a hipersensibilidade à ansiedade e a catastrofização de sensações corporais. O idoso, muitas vezes confrontado com o declínio físico natural, pode tornar-se hipervigilante a qualquer sinal de instabilidade. Uma leve tontura fisiológica (p. ex., ao levantar-se) pode ser interpretada como o início de uma queda grave, um AVC ou um ataque cardíaco, desencadeando uma resposta de ansiedade aguda que, por sua vez, intensifica a sensação de tontura através de hiperventilação, aumento da tensão muscular e taquicardia. O aprendizado condicionado também é relevante: após uma experiência real de tontura (de qualquer causa), o indivíduo pode associar certos contextos ou movimentos àquela sensação ameaçadora, desenvolvendo um comportamento de evitação fóbica.
O envelhecimento traz alterações fisiológicas que formam o substrato para essas queixas: a presbiastasia (piora do equilíbrio relacionada à idade), diminuição da acuidade visual e proprioceptiva, e maior sensibilidade a hipotensão ortostática. Essas alterações, somadas à alta prevalência de comorbidades clínicas, criam um cenário de "fragilidade sensorial" que pode ser mal interpretado pelo sistema cognitivo-emocional do paciente, especialmente se houver um transtorno psiquiátrico de base.
Achados de neuroimagem em transtornos de ansiedade e somatoformes apontam para alterações no volume e na conectividade das regiões mencionadas (amígdala, ínsula, córtex cingulado anterior), que são justamente as áreas envolvidas no processamento interoceptivo (percepção dos estados internos do corpo) e na regulação emocional. Não há, contudo, um marcador de neuroimagem específico para a tontura psicogênica.
Quadro clínico
A apresentação clínica da vertigem/tontura psicogênica no idoso é heterogênea e frequentemente sobreposta a sintomas de outras condições. A descrição do sintoma é tipicamente vaga e não estereotipada. Diferentemente da vertigem periférica clássica (p. ex., da Doença de Ménière), que é paroxística, rotatória intensa e associada a sintomas neurovegetativos marcantes (náusea, vômito, sudorese), a vertigem psicogênica costuma ser descrita como uma sensação contínua ou flutuante de "instabilidade", "cabeça oca", "flutuação", "embriaguez" ou "como se fosse desmaiar". A duração é prolongada (horas, dias ou mesmo constante), e os episódios agudos são menos claramente delineados.
Os sintomas são organizados por domínios:
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Sintomas Somáticos e Sensoperceptivos:
- Tontura não-vertiginosa crônica (a mais comum).
- Sensação de desequilíbrio ou "caminhar sobre algodão", muitas vezes pior na posição ortostática ou durante a marcha, mas que melhora com apoio.
- Queixas de "zonzeira", cabeça leve ou pressão na cabeça.
- Sintomas frequentemente exacerbados em ambientes complexos visualmente (supermercados, shoppings) ou em situações sociais estressantes.
- Raramente há nistagmo espontâneo verdadeiro.
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Sintomas Afetivos e de Ansiedade:
- Ansiedade antecipatória e medo de cair, levando à evitação de atividades.
- Hipervigilância corporal, com monitoramento constante do equilíbrio.
- Sintomas de transtorno de pânico podem estar presentes (taquicardia, dispneia, formigamentos) durante os picos de tontura.
- Humor depressivo, anedonia e irritabilidade são comorbidades frequentes.
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Sintomas Cognitivos:
- Dificuldade de concentração, sensação de "cabeça confusa" ou "nevoeiro mental".
- Preocupações ruminativas com a saúde, catastrofização ("isso é um AVC", "vou cair e quebrar o fêmur").
- Em idosos com comprometimento cognitivo leve, a ansiedade pode se manifestar de forma mais desorganizada, com agitação e queixas somáticas repetitivas.
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Comportamento:
- Comportamento de evitação: redução drástica da mobilidade, deixando de sair de casa, caminhar ou realizar tarefas domésticas por medo.
- Comportamento de busca de segurança: segurar em móveis, paredes ou acompanhantes ao andar, mesmo quando desnecessário.
- Comportamento de doença: visitas frequentes a diferentes especialistas (otorrino, neurologista, cardiologista) em busca de um diagnóstico orgânico, muitas vezes com uma pilha de exames normais.
- Ganho secundário: mesmo que inconsciente, a condição pode trazer benefícios como atenção familiar redobrada, isenção de tarefas desagradáveis ou justificativa para uma dependência preexistente.
Especificadores diagnósticos relevantes do DSM-5-TR incluem a especificação "com predomínio de sintomas somáticos" para o Transtorno Depressivo Maior, e a especificação de gravidade para o Transtorno de Sintomas Somáticos.
Avaliação e diagnóstico
A avaliação do idoso com queixa de tontura é um exercício de diagnóstico diferencial minucioso, exigindo uma abordagem integrada que exclua causas clínicas tratáveis antes de firmar a hipótese psicogênica.
Entrevista Clínica (Anamnese):
- Caracterização do Sintoma: "Descreva com suas palavras a tontura". Investigar qualidade (rotatória vs. não-rotatória), duração, fatores desencadeantes e atenuantes, sintomas associados (zumbido, perda auditiva, palpitações, sudorese).
- História Psiquiátrica Pessoal e Familiar: Pesquisar transtornos de ansiedade, depressão, pânico ou somatoformes prévios.
- História Médica: É fundamental, conforme destacado no Compêndio: "Os pacientes idosos têm problemas clínicos mais concomitantes, crônicos e múltiplos e tomam mais medicações do que os adultos jovens". Listar todas as comorbidades, com atenção para doenças cardiovasculares, diabetes, doenças otológicas e neurológicas.
- Medicações: Revisão completa da farmacoterapia, incluindo medicamentos de venda livre e fitoterápicos. O uso excessivo de ansiolíticos, especialmente benzodiazepínicos, é uma causa iatrogênica comum de tontura e sonolência diurna.
- Contexto Psicossocial: Identificar eventos estressores recentes (luto, perda de autonomia, conflitos familiares), rede de apoio, grau de isolamento social e possíveis ganhos secundários.
Exame do Estado Mental:
Avaliar humor (deprimido, ansioso), afeto (lábil, restrito), presença de preocupações hipocondríacas ou catastrofizantes. Observar sinais de ansiedade psicomotora. O exame cognitivo rastreio é mandatório para descartar delirium ou demência como causa de desorganização e queixas inespecíficas.
Exames Complementares:
Não existem exames para confirmar a etiologia psicogênica. O seu papel é excluir causas orgânicas.
- Laboratoriais: Hemograma (anemia), glicemia, eletrólitos, função tireoidiana, vitamina B12.
- Avaliação Cardiovascular: Medição da pressão arterial em decúbito e ortostase, ECG. Holter e ecocardiograma se indicado.
- Avaliação Otoneurológica: Avaliação otorrinolaringológica básica, manobras posicionais (Dix-Hallpike para vertigem posicional paroxística benigna). Audiometria se houver queixa auditiva associada.
- Neuroimagem: Ressonância magnética de encéfalo é indicada na presença de sinais neurológicos focais, cefaleia atípica ou vertigem verdadeira de origem central indeterminada. "Uma punção lombar pode ser apropriada se existir suspeita de uma causa inflamatória ou infecciosa" (Kaplan & Sadock).
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Categoria | Condições Específicas | Pontos de Diferenciação da Tontura Psicogênica |
|---|---|---|
| Cardiovascular | Hipotensão ortostática, arritmias, insuficiência da artéria basilar, síncope. | Relação clara com mudança postural, ECG alterado, episódios de perda de consciência verdadeira. |
| Otoneurológica | Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB), Doença de Ménière, neurinoma do acústico, labirintite. | Vertigem rotatória intensa e paroxística, nistagmo característico, sintomas cocleares (zumbido, perda auditiva). |
| Neurológica | Acidente Vascular Cerebral (AVC) vertebrobasilar, doença de Parkinson, tremor essencial. | Sinais neurológicos focais (diplopia, disartria, ataxia), tremor de repouso, rigidez. "Tremores… podem indicar doença de Parkinson, tremor essencial" (Kaplan & Sadock). |
| Metabólica/Tóxica | Anemia, hipoglicemia, distúrbios eletrolíticos, efeitos adversos de medicamentos. | Correlação com exames laboratoriais alterados, relação temporal com início de nova medicação (incluindo psicotrópicos). |
| Psiquiátrica | Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno de Pânico, Transtorno Depressivo Maior, Transtorno de Sintomas Somáticos. | Sintoma crônico e vago, exacerbado por estresse, presença de outros sintomas psiquiátricos, extensa investigação orgânica negativa. |
Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades:
- Diagnóstico por Exclusão Precipitado: Atribuir a tontura à ansiedade sem uma investigação clínica adequada. Muitas condições, como arritmias ou hipotensão ortostática, podem coexistir com um transtorno de ansiedade.
- Superposição de Causas: É frequente o idoso ter uma causa orgânica leve (p. ex., VPPB tratada) e uma amplificação psicogênica dos sintomas residuais.
- Transtornos do Neurodesenvolvimento de Início Tardio: Tremor essencial é uma comorbidade comum e, como aponta o Compêndio, "às vezes procuram tratamento psiquiátrico por acreditarem que essa condição se deva a alguma ansiedade".
- Demência Inicial: Queixas somáticas vagas, incluindo tontura, podem ser a primeira manifestação de um processo neurodegenerativo, como destacado: "Queixas de alteração na personalidade de um indivíduo com idade superior a 40 anos sugerem levar em consideração…" processos demenciais.
Tratamento farmacológico
O tratamento farmacológico deve ser direcionado ao transtorno psiquiátrico de base (ansiedade, depressão), e não à tontura como sintoma isolado. O princípio no idoso é "start low, go slow" (iniciar com dose baixa, aumentar lentamente).
Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:
- 1ª Linha para Transtornos de Ansiedade/Depressão com Sintomas Somáticos: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) ou Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN). São preferidos por seu perfil de segurança e eficácia em sintomas somáticos.
- 2ª Linha: Outros ISRS/IRSN, ou Bupropiona (especialmente se houver apatia e fadiga proeminentes). Mirtazapina em baixas doses (7.5-15 mg) pode ser útil para idosos com insônia e inapetência, mas o cuidado com sedação e ganho de peso é maior.
- 3ª Linha/Alternativas: Vortioxetina (pode ter benefício cognitivo), ou antigos antidepressivos tricíclicos (p. ex., nortriptilina) com extrema cautela devido aos efeitos anticolinérgicos, ortostáticos e cardíacos.
Classes Farmacológicas:
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ISRS (Sertralina, Escitalopram, Paroxetina):
- Mecanismo: Bloqueio da recaptação de serotonina.
- Dose no Idoso: Iniciar com metade da dose mínima adulta (p. ex., sertralina 25 mg/dia, escitalopram 5 mg/dia). Titular a cada 2-4 semanas.
- Monitoramento: Efeitos adversos iniciais (náusea, cefaleia, agitação), síndrome serotoninérgica (rara), hiponatremia (especialmente nos primeiros meses), interações medicamentosas. Paroxetina tem maior efeito anticolinérgico.
- Contexto Brasileiro: Todos disponíveis no RENAME e no SUS, com amplo acesso.
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IRSN (Venlafaxina, Duloxetina):
- Mecanismo: Bloqueio da recaptação de serotonina e noradrenalina.
- Dose no Idoso: Venlafaxina XR 37.5 mg/dia; Duloxetina 30 mg/dia.
- Monitoramento: Efeitos adrenérgicos (hipertensão, taquicardia) com venlafaxina em doses >150 mg/dia. Duloxetina pode causar náuseas e tem efeito analgésico, útil em comorbidades dolorosas.
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Outros Agentes:
- Bupropiona: Iniciar com 75 mg/dia. Monitorar insônia, agitação, risco de hipertensão. Contraindicado em pacientes com história de convulsões.
- Benzodiazepínicos (Alprazolam, Clonazepam): NÃO são recomendados para uso crônico. Seu uso excessivo "pode causar tontura e sonolência durante o dia" (Kaplan & Sadock), piorando o quadro. Uso restrito a crises de pânico agudas e por curto período.
- Meclizina: Embora mencionada no Compêndio ("O tratamento com meclizina, 25 a 100 mg por dia, tem tido sucesso com muitos pacientes com vertigem"), seu uso é controverso em vertigem psicogênica. Pode ter efeito placebo e sedativo, mas não trata a causa psiquiátrica. Seu uso contínuo pode mascarar o problema e causar efeitos anticolinérgicos.
Situações Especiais: Em idosos frágeis, com múltiplas comorbidades e polifarmácia, a escolha deve priorizar o menor potencial de interações e efeitos adversos. A monitorização da função renal e hepática é essencial para ajuste de dose.
Tratamento não farmacológico
É componente fundamental e, em muitos casos, a intervenção de primeira linha, especialmente em quadros leves a moderados ou quando há contraindicações medicamentosas.
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Psicoterapias:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): A mais estudada e eficaz. Foca na identificação e reestruturação dos pensamentos catastróficos sobre a tontura e o medo de cair, na interrupção dos comportamentos de segurança/evitação (exposição gradual) e no manejo da hiperventilação e da ansiedade.
- Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): Ajuda o paciente a aceitar a sensação de tontura como uma experiência desconfortável, mas não perigosa, reduzindo a luta contra o sintoma e focando na retomada de atividades valorizadas.
- Psicoterapias Dinâmicas Breves: Úteis quando a tontura está vinculada a conflitos inconscientes, perdas não elaboradas ou dificuldades de adaptação ao envelhecimento.
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Intervenções Psicossociais e Reabilitação:
- Fisioterapia Vestibular e de Equilíbrio: Mesmo na vertigem psicogênica, a reabilitação é benéfica. Aumenta a confiança na marcha, melhora a propriocepção e quebra o ciclo medo-imobilidade. Programas de exercícios domiciliares são essenciais.
- Grupos de Apoio e Psicoeducação: Oferecidos em CAPS III ou unidades geriátricas, ajudam a normalizar a experiência, reduzir o estigma e promover trocas de estratégias de enfrentamento.
- Intervenção Familiar: Orientar a família a não reforçar o comportamento de doença (superproteção), mas a encorajar de forma gentil e firme a autonomia e a atividade.
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Procedimentos:
- Eletroconvulsoterapia (ECT): Indicada apenas se a tontura for um sintoma grave de um Transtorno Depressivo Maior com características psicóticas ou catatônicas, resistente a farmacoterapia.
- Estimulação Magnética Transcraniana (EMT): Pode ser considerada para depressão resistente associada, mas não há evidências específicas para o sintoma tontura.
Manejo clínico prático
A abordagem deve ser colaborativa e transparente. Após excluir causas clínicas urgentes, é crucial validar o sofrimento do paciente ("Sei que sua tontura é muito real e incômoda") enquanto se introduz a hipótese psicofisiológica ("Muitas vezes, o sistema de equilíbrio pode ficar desregulado pelo estresse e pela ansiedade, como um alarme de fumaça muito sensível que dispara sem haver fogo").
- Quando Iniciar Tratamento Psiquiátrico: Quando a investigação clínica é negativa ou mostra alterações mínimas que não justificam a intensidade do sofrimento, e há evidências claras de transtorno de ansiedade/depressão ou comportamentos disfuncionais (evitação).
- Monitoramento: A resposta ao tratamento é lenta. Espera-se uma redução gradual na frequência e intensidade das crises de tontura e, principalmente, uma melhora no funcionamento (retomada de atividades) em 4-8 semanas. A Escala de Vertigem (Dizziness Handicap Inventory – DHI) adaptada pode ser usada.
- Manejo da Resistência: Se não houver resposta após 8-12 semanas com dose adequada, revisitar o diagnóstico (comorbidade orgânica negligenciada?), aderência, interações medicamentosas. Considerar troca de classe ou associação com psicoterapia especializada.
- Contexto Brasileiro: O psiquiatra do SUS ou da rede privada deve atuar em rede. Encaminhar para CAPS para acompanhamento psicossocial, para fisioterapia vestibular (quando disponível na atenção básica ou especializada) e manter comunicação com o clínico/geriatra que acompanha as comorbidades. A prescrição deve priorizar os medicamentos disponíveis no RENAME.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Para o idoso, a tontura é uma experiência aterrorizante. Ela ameaça diretamente sua independência, simbolizando a queda, a fratura, a hospitalização e a dependência. O paciente sente-se frequentemente incompreendido, rotulado como "frescante" ou "louco" após uma bateria de exames normais. A frustração e a raiva são comuns.
Psicoeducação Eficaz:
- Explicar o Modelo Psicofisiológico: Usar diagramas simples para mostrar a conexão cérebro-ouvido-equilíbrio-emoção. Enfatizar que a ansiedade não "cria" a tontura do nada, mas pode "amplificar" sinais corporais normais ou residuais de um problema já resolvido.
- Normalizar a Resposta de Medo: "É natural ter medo de cair. Seu cérebro está tentando protegê-lo, mas de uma forma exagerada."
- Enfatizar a Tratabilidade: Deixar claro que, embora não haja um "remédio para tontura", o tratamento do "sistema de alarme" (ansiedade) é muito eficaz.
- Incluir a Família: Orientar que incentivem a atividade, mas sem pressionar. Evitar frases como "isso é coisa da sua cabeça", substituindo por "vamos caminhar juntos até a esquina, eu seguro em você se precisar".
Impacto Funcional: A qualidade de vida é severamente prejudicada. O idoso deixa de participar de atividades sociais, religiosas e de lazer, acelerando o declínio físico e cognitivo. O risco de depressão secundária é alto.
Adesão ao Tratamento: Barreiras incluem o estigma contra medicamentos psiquiátricos ("não sou louco"), medo de efeitos colaterais, e a crença de que o médico "desistiu" de procurar a causa real. Estratégias: explicar os antidepressivos como "moduladores do sistema de alerta", iniciar com doses mínimas, e agendar retornos frequentes no início para ajustes e suporte.
Perguntas frequentes
1. Doutor, mas a tontura é tão real! Como pode ser "psicológica"?
A tontura é absolutamente real. O que acontece é que o cérebro processa tanto as informações do equilíbrio quanto as emoções. Quando estamos muito ansiosos ou estressados, essa área de processamento pode ficar hiperativa, interpretando sinais normais ou mínimos como uma grande ameaça de desequilíbrio. Não é "invenção"; é um desarranjo na interpretação das sensações corporais.
2. Já fiz todos os exames e está tudo normal. Por que continuo sentindo isso?
Exames normais são uma ótima notícia, pois descartam doenças graves. Eles nos direcionam para a causa mais comum nesses casos: a desregulação do sistema de equilíbrio pelo estresse crônico. É como se o "alarme de incêndio" do seu equilíbrio estivesse com a sensibilidade muito alta, disparando sem haver fogo.
3. Tomar remédio para nervoso vai curar minha tontura?
O objetivo do medicamento (geralmente um antidepressivo em dose baixa) não é tratar "nervosismo", mas regular os neurotransmissores que estão envolvidos tanto na ansiedade quanto no processamento da sensação de equilíbrio. Ao regular esse sistema, a tendência é que as crises de tontura diminuam muito em frequência e intensidade, permitindo que você retome suas atividades.
4. Me disseram que é labirintite. É a mesma coisa?
"Labirintite" é um termo genérico e muitas vezes incorreto. Pode ser uma causa orgânica aguda. No seu caso, após investigação detalhada, não encontramos sinais de inflamação ou lesão no labirinto. O que temos é uma disfunção na forma como o cérebro gerencia as informações do labirinto, frequentemente ligada ao estresse. O tratamento, portanto, é diferente.
5. Tenho medo de cair se fizer exercícios ou fisioterapia. É seguro?
Completamente seguro se feito com supervisão adequada. A fisioterapia vestibular é justamente para treinar seu equilíbrio em condições controladas e seguras, aumentando sua confiança. O pior inimigo é o imobilismo, que enfraquece os músculos e piora o equilíbrio. Iniciaremos com exercícios muito simples, ao lado de uma cadeira firme para apoio.
6. Isso tem cura? Ou vou ficar assim para sempre?
O prognóstico é muito bom com o tratamento adequado. A maioria das pessoas apresenta melhora significativa, conseguindo retomar uma vida ativa e independente. "Cura" pode significar a ausência total de sintomas, mas para muitos, o objetivo é o controle: que a tontura deixe de ser um fator limitante na sua vida, mesmo que ocasionalmente surja uma sensação passageira em momentos de grande estresse.
7. Por que isso começou agora na minha idade?
O envelhecimento torna nosso sistema de equilíbrio naturalmente mais sensível. Somado a isso, eventos comuns nessa fase, como aposentadoria, perda de entes queridos, preocupação com a saúde ou medo de dependência, podem gerar um nível de estresse que "desregula" esse sistema. É uma vulnerabilidade física somada a um gatilho emocional.
8. Meu parente idoso só fala dessa tontura e não quer sair de casa. Como ajudar?
Primeiro, leve-o a um clínico/geriatra para uma avaliação médica completa. Se os exames forem tranquilizadores, ajude-o a buscar uma avaliação psiquiátrica geriátrica. Em casa, evite superprotegê-lo. Em vez de dizer "fica quieto que você cai", incentive com paciência: "Vamos dar uma voltinha até o portão, eu vou com você". Acompanhá-lo em atividades curtas e seguras é o melhor apoio.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Fonte principal dos trechos utilizados, páginas 302, 430, 432, 728, 1361, 1364, 1365).
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. Texto Revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes e Protocolos Clínicos para diversos transtornos. Disponível em: [https://www.abp.org.br/].
- Ministério da Saúde do Brasil. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, 2022.
- Staab, J. P. et al. Diagnostic criteria for persistent postural-perceptual dizziness (PPPD): Consensus document of the committee for the Classification of Vestibular Disorders of the Bárány Society. Journal of Vestibular Research, 2017.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.