Definição e epidemiologia
O Transtorno Depressivo Maior (TDM) é uma condição psiquiátrica caracterizada por um episódio depressivo de intensidade significativa, com duração mínima de duas semanas, que causa prejuízo marcante no funcionamento social, acadêmico e familiar do indivíduo. Nos critérios do DSM-5-TR, a definição para crianças e adolescentes é essencialmente a mesma utilizada para adultos, com uma exceção crucial: o humor irritável pode substituir o humor deprimido como um dos sintomas cardinais. Para satisfazer os critérios diagnósticos, o indivíduo deve apresentar pelo menos cinco dos seguintes sintomas, sendo um obrigatoriamente humor deprimido (ou irritável, em jovens) ou perda de interesse/ prazer (anedonia): humor deprimido/irritável, anedonia, alterações significativas de peso ou apetite (incluindo incapacidade de ganhar o peso esperado em crianças), insônia ou hipersonia, agitação ou retardo psicomotor, fadiga ou perda de energia, sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva, capacidade reduzida de pensar ou concentrar-se, e pensamentos recorrentes de morte ou ideação suicida. A CID-11 classifica o TDM dentro dos "Transtornos Depressivos", exigindo a presença de vários sintomas depressivos durante um período significativo, causando impacto funcional.
A prevalência de transtornos depressivos aumenta com a idade. Estimativas indicam que entre crianças pré-escolares (comunidade) a taxa é de aproximadamente 0.3%, enquanto em ambientes clínicos pode chegar a 0.9%. A incidência cresce substancialmente na adolescência, aproximando-se das taxas observadas em adultos. Estudos epidemiológicos brasileiros, como o realizado pelo Instituto de Psiquiatria da USP, apontam prevalência de transtornos depressivos na adolescência entre 4% e 8%, com variações regionais. A distribuição por sexo mostra um equilíbrio na infância, mas na adolescência há uma predominância feminina, padrão que se estabelece definitivamente na vida adulta.
Os fatores de risco incluem uma forte componente genética-familiar. Crianças com pais que apresentaram depressão de início prematuro têm risco mais elevado. Estudos de gêmeos demonstram uma herdabilidade moderada (40-50%), destacando que estressores ambientais e eventos adversos são contribuintes importantes para o surgimento na juventude. A interação entre vulnerabilidade genética e exposição a eventos adversos (traumas, perdas, bullying, conflitos familiares) é um modelo etiológico central. O curso clínico esperado é variável. Um primeiro episódio pode ser agudo ou insidioso. Frequentemente, o transtorno surge em uma criança que já apresentava dificuldades anteriores, como hiperatividade, transtorno de ansiedade de separação ou sintomas depressivos intermitentes. O prognóstico depende da gravidade, rapidez das intervenções e resposta ao tratamento. Em geral, 90% dos jovens se recuperam de um primeiro episódio, mas as "cicatrizes" psicossociais (prejuízos em relacionamentos, desempenho acadêmico, autoestima) aumentam a vulnerabilidade para episódios subsequentes e podem persistir por longo tempo após a recuperação clínica.
Etiopatogenia e neurobiologia
A etiopatogenia do TDM na infância e adolescência é multifatorial, integrando modelos genéticos, neurobiológicos, psicológicos e sociais.
Fatores Genéticos: A depressão maior ocorre em famílias. O risco é mais elevado em crianças cujos pais sofreram de depressão de início prematuro. A herdabilidade, estimada entre 40% e 50% por estudos de gêmeos, indica uma contribuição significativa, mas não exclusiva, dos fatores genéticos. Polimorfismos em genes relacionados aos sistemas de neurotransmissão (serotonina, dopamina), ao estresse (sistema HPA) e à neuroplasticidade são investigados como possíveis fatores de vulnerabilidade.
Neurobiologia: Os sistemas de neurotransmissão serotoninérgico, noradrenérgico e dopaminérgico estão implicados na regulação do humor, motivação e resposta ao estresse, e sua disfunção é associada à depressão. Recentemente, o sistema glutamatérgico e a neuroinflamação também ganharam relevância nos modelos neurobiológicos. Achados de neuroimagem em jovens com TDM frequentemente apontam para alterações em regiões envolvidas no processamento emocional e cognitivo, como o córtex pré-frontal (particularmente áreas ventrolateral e dorsolateral), a amígdala, o hipocampo e o estriado. Reduções volumétricas no hipocampo e alterações na conectividade funcional entre essas regiões são comuns. A exposição ao estresse crônico durante períodos críticos do desenvolvimento pode impactar negativamente a maturação dessas estruturas.
Modelos Psicológicos e Sociais: Modelos cognitivos, como o de Beck, enfatizam a presença de esquemas depressivos (visões negativas de si mesmo, do mundo e do futuro) que se consolidam na infância e adolescência. Modelos comportamentais destacam a redução de reforçadores positivos e o aumento de experiências aversivas. A teoria do apego relaciona a qualidade dos vínculos primários com a capacidade de regular emoções. Estressores ambientais são componentes essenciais: eventos adversos (morte de parentes, separação familiar, abuso, negligência), dificuldades acadêmicas, problemas de relacionamento interpessoal e bullying são fortemente associados ao surgimento e à persistência do transtorno. A relação entre eventos adversos e depressão é maior em crianças e adolescentes com suscetibilidade genética conhecida.
Quadro clínico
A apresentação clínica do TDM em crianças e adolescentes é fortemente influenciada pelo nível de desenvolvimento, resultando em manifestações distintas das observadas em adultos.
Domínio do Humor: O sintoma cardinal pode ser o humor irritável em vez do humor deprimido clássico. A criança ou adolescente pode apresentar-se constantemente irritada, com "pavio curto", reagendo com raiva a pequenas frustações. Acessos de raiva explosivos e frequentes são comuns. A tristeza profunda e apatia também estão presentes, mas podem ser menos verbalizadas, especialmente por crianças menores.
Domínio Cognitivo: Capacidade reduzida de pensar ou concentrar-se é um sintoma frequente, muitas vezes confundido com desatenção do TDAH. Sentimentos de inutilidade ("nada que eu faço é bom"), culpa excessiva ("eu sou o problema da família") e visões pessimistas do futuro são comuns. Em adolescentes, pode haver ruminação intensa.
Domínio Comportamental: A perda de interesse ou prazer (anedonia) se manifesta como abandono de atividades anteriormente gratificantes (esportes, hobbies, socialização). A agitação psicomotora é mais comum que o retardo em crianças pré-púberes, traduzida como incapacidade de ficar sentado, inquietação constante e irritabilidade. Alterações no apetite (aumento ou redução) e no padrão de sono (insônia ou hipersonia) são evidentes. Em crianças pequenas, a incapacidade de ganhar o peso esperado pode ser um marcador somático.
Sintomas Somáticos: Reclamações somáticas, como dor de cabeça, dor abdominal, náuseas e outros sintomas vagos, são uma via frequente de expressão do desconforto emocional, especialmente em crianças que não articulam bem seus sentimentos.
Manifestações Específicas por Faixa Etária:
- Pré-escolares (2-5 anos): Frequentemente são vistas como tristes ou apáticas, mas podem não articular verbalmente. Podem apresentar regressão em habilidades (linguagem, controle de esfíncteres), perda de interesse em brincar e apego excessivo/retraimento. Não são raras alucinações auditivas congruentes com o humor (ex.: vozes dizendo que são "ruins" ou que devem morrer).
- Escolares (6-12 anos): A irritabilidade e os acessos de raiva tornam-se mais proeminentes. O desempenho acadêmico declina. Isolamento social e conflitos com colegas e familiares aumentam. Ideação suicida pode começar a aparecer, ainda que de forma rudimentar.
- Adolescentes (13-18 anos): A apresentação se aproxima mais do adulto, com humor deprimido claro, anedonia, isolamento, autocrítica severa e ideação suicida mais estruturada. Comportamentos de risco (uso de substâncias, sexualidade impulsiva) podem ocorrer como tentativas de regulação emocional.
Especificadores Diagnósticos (DSM-5-TR): São aplicáveis e importantes para orientar o tratamento: Com características ansiosas, Com características melancólicas, Com características atípicas (mais comum em adolescentes, com hipersonia e hiperfagia), Com características psicóticas (alucinações ou delírios congruentes com o humor), Com início no parto (peripartal), e Com padrão sazonal.
Avaliação e diagnóstico
Entrevista Clínica e Anamnese: A avaliação deve ser multissource, incluindo entrevistas com o paciente, pais/cuidadores e, quando possível, professores. Pontos-chave:
- Cronologia dos Sintomas: Determinar se comportamentos como baixa concentração, rebeldia ou acessos de raiva estavam presentes antes do episódio depressivo ou se surgiram concomitantemente. Sintomas que ocorrem pela primeira vez e têm relação temporal com o episódio depressivo sugerem que são parte do quadro.
- História Developmental: Dificuldades anteriores (TDAH, ansiedade de separação, sintomas depressivos intermitentes).
- História Familiar: Depressão ou outros transtornos mentais em pais e familiares próximos.
- História de Eventos Adversos: Traumas, perdas, mudanças, conflitos familiares, bullying.
- Funcionamento: Impacto nos domínios acadêmico, social e familiar.
Exame do Estado Mental: Observar o humor (deprimido, irritável), a interação (retraída, hostil), a atividade psicomotora (agitada, retardada). Avaliar o conteúdo do pensamento (presença de ideias de inferioridade, culpa, morte). Em crianças pequenas, observar o comportamento durante a entrevista e em situações de brincadeira.
Escalas e Instrumentos Validados no Brasil: Auxiliam na quantificação e monitoramento:
- Inventário de Depressão Infantil (CDI): Auto-relato para crianças de 7 a 17 anos.
- Escala de Depressão para Adolescentes de Beck (BDA): Auto-relato para adolescentes.
- Questionário de Capacidades e Dificuldades (SDQ): Screening amplo que inclui domínio emocional.
- K-SADS-PL (Schedule for Affective Disorders and Schizophrenia for School-Age Children): Entrevista semiestruturada conduzida por clínico, padrão-ouro para diagnóstico.
Exames Complementares: Não há exames laboratoriais ou de neuroimagem para diagnóstico de TDM. A investigação pode incluir exames de sangue (para excluir causas médicas como anemia, deficiências nutricionais, tireoidopatias) e, em casos complexos, neuroimagem (para excluir anomalias estruturais). A avaliação do funcionamento cognitivo (neuropsicológica) pode ser útil para diferenciar déficits de atenção da depressão.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Pontos de Diferença do TDM |
|---|---|
| Transtorno de Conduta / Transtorno de Personalidade Antissocial | Comportamentos antissociais (agressão, vandalismo, violação de regras) são primários e persistentes, não apenas no contexto de humor deprimido/irritável. A cronologia é crucial: se os problemas de conduta precedem e são independentes do episódio depressivo. |
| Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) | A desatenção e hiperatividade/impulsividade são constantes e presentes em múltiplos contextos desde a infância. Na depressão, a desatenção é secundária ao humor deprimido/irritável e à anedonia, e a agitação é mais ligada à irritabilidade. |
| Transtorno de Ansiedade (Generalizada, Separação) | A ansiedade e o medo são os sintomas primários. A sobreposição é grande, e comorbidade é frequente. A avaliação deve focar no sintoma predominante e na cronologia. |
| Transtorno de Adaptação com Humor Deprimido | Os sintomas depressivos ocorrem em resposta a um estressor identificável dentro de 3 meses, não atingem a gravidade completa do TDM e tendem a resolver com o ajuste à situação. |
| Transtorno Depressivo Persistente (Distimia) | Sintomas depressivos são menos graves mas persistentes (duração mínima de 1 ano em crianças/adolescentes). O TDM é episódico e mais grave. "Depressão dupla" ocorre quando um episódio de TDM surge sobre um Transtorno Depressivo Persistente pré-existente. |
| Transtorno Bipolar (Episódio Depressivo) | História anterior de episódios de mania ou hipomania é o diferencial crítico. Em crianças, a mania pode se apresentar como irritabilidade explosiva e persistente, mas com características distintas (euforia, grandiosidade, diminuição do sono sem cansar-se). |
| Condições Médicas (Tireoidopatias, Doenças Crônicas) | Sintomas depressivos são secundários à condição médica. Investigação clínica e laboratorial é necessária. |
Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades Frequentes:
- Armadilha: Confundir a irritabilidade e agitação do TDM com hiperatividade do TDAH ou com problemas de conduta. A avaliação da cronologia e do contexto emocional é fundamental.
- Armadilha: Desconsiderar alucinações congruentes com humor em crianças pequenas como parte do quadro depressivo, atribuindo-as erroneamente a um transtorno psicótico primário.
- Comorbidades Frequentes: Transtornos de Ansiedade (particularmente Ansiedade Generalizada e Social), TDAH, Transtorno de Conduta (que pode ser comórbido ou secundário), Transtorno de Uso de Substâncias (em adolescentes).
Tratamento farmacológico
O tratamento farmacológico do TDM em crianças e adolescentes deve ser sempre parte de um plano terapêutico multimodal, integrado com intervenções psicoterápicas e psicossociais. A decisão de iniciar medicação baseia-se na gravidade do episódio, no risco de suicídio, na presença de comorbidades e na resposta inicial às intervenções não farmacológicas.
Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:
- 1ª Linha: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRSs) são considerados primeira linha devido ao perfil de tolerabilidade. Fluoxetina e Escitalopram têm as evidências mais robustas para essa faixa etária.
- 2ª Linha: Outros ISRSs (Sertralina) ou Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSNSs) como Venlafaxina ou Duloxetina, se há resposta inadequada ou intolerância aos ISRSs de primeira linha.
- 3ª Linha: Considerar Agentes com Mecanismos Diversos (Bupropiona, Mirtazapina) ou, em casos de depressão grave com características melancólicas ou psicóticas, a adição de um Antidepressivo Tricíclico (ATC) ou a introdução de um Antipsicótico de segunda geração em baixa dose para características psicóticas. A Terapia Eletroconvulsiva (TEC) é reservada para casos extremamente graves, refratários e com risco vital iminente.
Classes Farmacológicas:
ISRSs (ex.: Fluoxetina, Escitalopram):
- Mecanismo: Bloqueio da recaptação de serotonina, aumentando sua disponibilidade sináptica.
- Doses em jovens: Início com doses baixas (Fluoxetina 10 mg/dia; Escitalopram 5 mg/dia). Titulação gradual baseada na resposta e tolerabilidade. Doses eficazes podem ser similares às adultas, mas o início deve ser cauteloso.
- Monitoramento: Avaliar resposta após 4-6 semanas. Monitorar ativamente o surgimento ou aumento de ideação suicida, especialmente nas primeiras semanas (efeito paradoxal inicial). Efeitos adversos comuns: náuseas, cefaleia, insônia inicial, alterações gastrointestinais.
- Efeito adverso relevante: Desinibição comportamental/Ativação: Alguns jovens podem apresentar aumento de irritabilidade, impulsividade ou agitação. Requer monitoração cuidadosa.
IRSNSs (ex.: Venlafaxina):
- Mecanismo: Bloqueio da recaptação de serotonina e noradrenalina.
- Doses: Início com dose baixa (Venlafaxina 37.5 mg/dia). Titulação cuidadosa.
- Monitoramento: Similar aos ISRSs. Efeitos adversos adicionais: aumento da pressão arterial em doses mais altas (monitorar), sudorese.
Bupropiona:
- Mecanismo: Inibidor da recaptação de noradrenalina e dopamina; não age na serotonina.
- Indicação: Particularmente útil quando há comorbidade com TDAH ou quando a anedonia e a falta de energia são sintomas dominantes.
- Cuidado: Contraindicação absoluta em pacientes com transtorno alimentar ou risco de convulsões devido ao aumento do risco de epilepsia.
Situações Especiais: Em gestação e lactação, a decisão deve ser individualizada, ponderando risco/benefício. Sertralina tem dados de segurança relativamente melhores. Em comorbidades clínicas, considerar interações medicamentosas e efeitos adversos sobre a condição (ex.: ISRSs e risco de sangramento).
Protocolos Brasileiros: A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) endossam o uso de antidepressivos em crianças e adolescentes baseado em evidências, sempre com acompanhamento especializado. O RENAME lista Fluoxetina e Sertralina para uso nesta população. O tratamento no SUS deve seguir os protocolos estabelecidos, com acesso via CAPS Infantojuvenil (CAPSi), onde a avaliação multiprofissional é fundamental para a decisão terapêutica.
Tratamento não farmacológico
Psicoterapias com Evidência:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): É a psicoterapia com maior evidência de eficácia para TDM em jovens. Foca na identificação e modificação de pensamentos e esquemas depressivos, no aumento de atividades gratificantes (ativação comportamental) e no desenvolvimento de habilidades de regulação emocional e solução de problemas. Formato geralmente individual, com duração de 12-20 sessões.
- Terapia Interpessoal (TIP): Eficaz, especialmente para adolescentes. Concentra-se na melhora das relações interpessoais e na resolução de problemas em áreas específicas (luto, conflitos, transições).
- Terapia Familiar: Fundamental quando os conflitos familiares são estressores significativos ou quando a dinâmica familiar contribui para a manutenção do transtorno. Ajuda a melhorar a comunicação, a estabelecer limites e a criar um ambiente de apoio.
Intervenções Psicossociais e Suporte Familiar:
- Parent-Child Interaction Therapy Emotion Development (PCIT-ED): Intervenção desenvolvida especificamente para populações pré-escolares, focando na regulação emocional através da melhora da interação entre pais e criança.
- Intervenções no Ambiente Escolar: Colaboração com a escola para adaptações pedagógicas, manejo de bullying e inclusão em atividades sociais.
- Psicoeducação Familiar: Educar a família sobre o transtorno, seus sintomas (especialmente a irritabilidade como manifestação de depressão), o curso esperado e o papel do apoio familiar no tratamento.
Procedimentos:
- Terapia Eletroconvulsiva (TEC): Indicada apenas em casos extremamente graves, refratários a múltiplas intervenções farmacológicas e psicoterápicas, e com risco iminente de suicídio ou deterioração física. Em jovens, é utilizada com ainda mais cautela e após extensa avaliação multidisciplinar.
- Estimulação Magnética Transcraniana (TMS): Evidências em jovens são ainda limitadas, podendo ser considerada em casos refratários em centros especializados.
Manejo clínico prático
Tomada de Decisão Clínica: O início de tratamento farmacológico é recomendado para episódios moderados a graves, ou quando intervenções psicoterápicas não produzem resposta adequada após 6-8 semanas. A combinação de TCC + ISRS demonstra maior eficácia que cada modalidade isolada para depressão moderada-grave.
Monitoramento da Resposta: A resposta deve ser avaliada sistematicamente a cada 2-4 semanas, usando escalas clínicas (CDI, BDA) e avaliação clínica dos sintomas cardinais e do funcionamento. A meta é a remissão (ausência de sintomas significativos e retorno ao funcionamento pré-mórbido), não apenas resposta parcial.
Manejo de Resistência Terapêutica: Se após 6-8 semanas de dose adequada de um ISRS de primeira linha não há resposta, considerar:
- Reavaliação diagnóstica (comorbidades não identificadas?).
- Ajuste de dose (se tolerável).
- Troca para outro ISRS ou IRSNS (2ª linha).
- Adição de estratégia de potencialização (ex.: adição de Bupropiona em caso de anedonia residual).
- Considerar avaliação para TEC em casos graves e refratários.
Contexto Brasileiro: O acesso ao tratamento ocorre principalmente via SUS nos CAPS Infantojuvenil (CAPSi), que oferecem atendimento multiprofissional (psiquiatra, psicólogo, terapeuta ocupacional, assistente social). O RENAME garante o acesso a Fluoxetina e Sertralina. Limitações incluem a disponibilidade de psicoterapias especializadas e a cobertura de alguns medicamentos de segunda linha. A articulação com a rede escolar e de proteção social (CREAS) é crucial para um manejo integral.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Como o Paciente Vivencia o Quadro: A criança ou adolescente com TDM frequentemente não identifica seu estado como "depressão". Ela experiencia uma perda inexplicável de energia e interesse, uma irritabilidade constante que parece fora de controle, uma sensação de incompetência e, muitas vezes, dores ou mal-estares físicos. A anedonia faz o mundo parecer "sem color". Em adolescentes, a ideação suicida pode surgir como uma ideia de "escapar" de uma dor emocional insustentável ou de um futuro percebido como inexoravelmente sombrio.
Psicoeducação: É vital explicar ao paciente e à família que:
- A irritabilidade e os acessos de raiva são sintomas da depressão, não apenas "mau comportamento". Isso reduz a culpa e a conflituosidade.
- O transtorno é uma condição médica real, com bases neurobiológicas, não uma "falta de força de vontade" ou "frescura".
- O tratamento é multimodal (medicação + terapia + apoio) e leva tempo (semanas para início de resposta).
- Os efeitos adversos das medicações são comuns inicialmente, mas muitas vezes transitórios.
- O risco de suicídio é real e deve ser um tema aberto para discussão, com um plano de segurança claro.
Impacto Funcional: O prejuízo é multidimensional: acadêmico (queda no rendimento, dificuldade de concentração), social (isolamento, conflitos), familiar (aumento de tensões) e no desenvolvimento pessoal (autoestima comprometida). Essas "cicatrizes" podem persistir após a remissão dos sintomas, necessitando de intervenções de reabilitação.
Adesão ao Tratamento: Barreiras incluem: estigma, efeitos adversos iniciales, desesperança ("nada vai ajudar"), e conflito familiar sobre o uso de medicação. Estratégias: envolvimento do paciente nas decisões (dentro de limites apropriados), explicação clara dos benefícios e riscos, uso de calendários/ alarmes para medicação, e engajamento da família como aliada no processo.
Perguntas frequentes
1. A irritabilidade e agressividade do meu adolescente são depressão ou apenas "aborrecência" da idade?
A irritabilidade pode ser um sintoma cardinal da depressão na adolescência, substituindo a tristeza clássica. O diferencial está na intensidade, persistência e associação com outros sintomas depressivos (anedonia, alterações de sono/apetite, sentimentos de inutilidade). Se esses comportamentos são novos, intensos e causam prejuízo, devem ser avaliados por um profissional.
2. Depressão em criança pequena existe? Como se manifesta?
Existe. Em pré-escolares, manifesta-se mais por alterações comportamentais: apatia, perda de interesse em brincar, irritabilidade, regressão no desenvolvimento, choro fácil e, não raro, alucinações auditivas (ouvir vozes dizendo coisas negativas). Reclamações somáticas (dor) são frequentes.
3. Medicar uma criança ou adolescente com antidepressivo é seguro?
Sim, quando indicado por um especialista após avaliação cuidadosa. ISRSs como Fluoxetina e Escitalopram têm estudos demonstrando eficácia e segurança. O monitoramento é crucial, especialmente nas primeiras semanas, para observar resposta e qualquer efeito adverso, incluindo possível aumento inicial de ideação suicida.
4. O tratamento com remédios é suficiente?
Não. O tratamento mais eficaz combina medicação e psicoterapia (principalmente TCC). A medicação ajuda a regular a biologia do humor, enquanto a psicoterapia ajuda a desenvolver habilidades para lidar com pensamentos, comportamentos e relações. Apoio familiar e escolar também são componentes essenciais.
5. Depressão na adolescência aumenta o risco de suicídio?
Sim. O risco de suicídio é significativo entre adolescentes com transtornos depressivos. Qualquer expressão de ideação suicida, mesmo que pareça "branda", deve ser levada com máxima seriedade e avaliada imediatamente. A família e os profissionais devem manter um diálogo aberto e criar um plano de segurança.
6. Depressão em jovens é para sempre?
Não. A maioria (90%) se recupera de um primeiro episódio. Contudo, o transtorno tem um alto risco de recorrência. Além disso, as "cicatrizes" psicossociais (dificuldades sociais, acadêmicas) podem persistir, necessitando de intervenção continuada. O diagnóstico e tratamento precoce melhoram muito o prognóstico de longo prazo.
7. Problemas de conduta e depressão podem estar juntos? Como diferenciar?
Podem estar juntos como comorbidade (transtornos independentes) ou os problemas de conduta podem ocorrer no contexto do episódio depressivo e se resolver com sua remissão. A cronologia é a chave: comportamentos antissociais que surgiram ou intensificaram-se concomitantemente com outros sintomas depressivos sugerem que são parte da depressão. Comportamentos persistentes desde antes, independentes do humor, sugerem um transtorno de conduta comórbido.
8. O que fazer se a escola relata que meu criança está desatenta e agitada?
A desatenção e agitação podem ser sintomas de TDAH, mas também de TDM (e de outras condições). É necessária uma avaliação especializada para distinguir. O clínico investigará se esses sintomas são novos, se estão associados a humor irritável/deprimido e perda de interesse, e se ocorrem em todos os contextos ou apenas em situações específicas.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. DSM-5-TR. Washington: APA, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento de transtornos depressivos na infância e adolescência.
- American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (AACAP). Practice Parameters for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Depressive Disorders.
- Ministério da Saúde (BR). RENAME – Relação Nacional de Medicamentos Essenciais. 2022.
- Kaplan & Sadock’s Synopsis of Psychiatry. 12th Edition. Wolters Kluwer, 2022.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.