Definição e epidemiologia
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é uma condição psiquiátrica que pode se desenvolver após a exposição a um ou mais eventos traumáticos envolvendo morte real ou ameaçada, lesão grave ou violência sexual. Nos sobreviventes de queimaduras, o evento traumático é a própria lesão térmica, frequentemente associada a um contexto de acidente, violência ou desastre, seguido pela experiência aversiva e prolongada de hospitalização, procedimentos dolorosos (como curativos e desbridamentos) e risco de morte. Nos critérios do DSM-5-TR, o diagnóstico requer a presença de sintomas intrusivos (memórias, pesadelos, flashbacks), evitação persistente de estímulos associados ao trauma, alterações negativas na cognição e no humor, e alterações marcantes na excitação e reatividade associadas ao evento. A CID-11, por sua vez, define o TEPT com base em três núcleos sintomáticos: revivência do trauma, evitação e senso de ameaça atual persistente.
A epidemiologia do TEPT pós-queimadura é marcada por uma alta prevalência, especialmente em populações pediátricas. Conforme dados do Compêndio de Kaplan & Sadock, cerca de 80% das crianças pequenas que sofrem queimaduras apresentam sintomas de TEPT um ou dois anos após o dano inicial. Em contraste, apenas 30% dos adultos que sofrem esse tipo de dano têm sintomas de TEPT após um ano. Essa disparidade evidencia a influência crítica do desenvolvimento e da capacidade de enfrentamento. Em adultos, a prevalência ao longo da vida após queimaduras graves varia entre 15% e 45%, dependendo da gravidade da lesão, da presença de dor crônica, do tempo de internação e de fatores psicossociais prévios. Dados brasileiros específicos são escassos, mas estudos em centros de referência sugerem taxas alinhadas com a literatura internacional, com agravantes como o acesso limitado a cuidados especializados em saúde mental no pós-alta.
O curso clínico do TEPT em queimados segue o padrão geral descrito por Kaplan & Sadock: o transtorno geralmente se desenvolve algum tempo após o trauma, com um período de latência que pode variar de uma semana a 30 dias. Os sintomas podem flutuar ao longo do tempo e ser mais intensos durante períodos de estresse, como novas cirurgias ou marcos temporais relacionados ao acidente. Sem tratamento, o prognóstico é variável: cerca de 30% dos pacientes se recuperam completamente, 40% mantêm sintomas leves, 20% sintomas moderados e 10% permanecem inalterados ou pioram. Após um ano, aproximadamente 50% se recuperam. Fatores de risco para desenvolvimento e cronicidade incluem gravidade da queimadura (especialmente em áreas visíveis como face e mãos), dor aguda e crônica mal controlada, internação prolongada em UTI, história prévia de transtornos psiquiátricos (especialmente depressão e ansiedade), baixo suporte social e mecanismos de enfrentamento inadequados. O início rápido dos sintomas, sua curta duração (menos de 6 meses), o bom funcionamento pré-mórbido, forte suporte social e a ausência de outras comorbidades configuram um bom prognóstico.
Etiopatogenia e neurobiologia
A etiopatogenia do TEPT é multifatorial, resultando da interação complexa entre o estressor traumático, vulnerabilidades individuais e fatores ambientais. Por definição, o estressor (a queimadura e seu contexto) é o fator causativo principal, mas não é suficiente para causar o transtorno. A resposta subjetiva ao evento precisa envolver medo intenso, horror ou desamparo. No contexto das queimaduras, múltiplos estressores se acumulam: o momento do acidente, a dor excruciante, a perda de controle corporal, a exposição em procedimentos, e a confrontação com a possibilidade de morte ou desfiguração permanente.
Modelos neurobiológicos atuais destacam disfunções em circuitos cerebrais relacionados ao medo, à memória e à regulação emocional. O modelo de "circuito do medo" envolve a amígdala (hiperreativa, mediando respostas de medo condicionado), o córtex pré-frontal medial (hipoativo, levando a prejuízos na extinção do medo e no controle cognitivo sobre as emoções) e o hipocampo (frequentemente com volume reduzido, prejudicando a contextualização das memórias traumáticas). A experiência traumática parece consolidar memórias emocionais de forma intensa e fragmentada, dificultando sua integração na narrativa autobiográfica normal.
Em termos de neurotransmissão, sistemas noradrenérgico, serotoninérgico, dopaminérgico e glutamatérgico estão implicados. A hiperatividade noradrenérgica no locus coeruleus está associada aos sintomas de hipervigilância, startle aumentado e insônia. Disfunções serotoninérgicas podem contribuir para desregulação do humor, impulsividade e sintomas intrusivos. Alterações no eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) são paradoxais: ao contrário da depressão, muitos pacientes com TEPT apresentam níveis mais baixos de cortisol basal, mas com uma feedback negativo mais sensível, o que pode prejudicar o processo de habituação ao estresse.
Fatores genéticos e epigenéticos conferem vulnerabilidade. Histórico familiar de transtornos de ansiedade ou de humor aumenta o risco. Eventos adversos na infância (maus-tratos, negligência) podem levar a alterações epigenéticas que "preparam" uma resposta de estresse exagerada a traumas futuros. Achados de neuroimagem em sobreviventes de queimaduras são limitados, mas é plausível que o estresse inflamatório sistêmico e a dor crônica, comuns nessa população, possam exacerbar as alterações neurobiológicas típicas do TEPT.
Quadro clínico
O quadro clínico do TEPT em sobreviventes de queimaduras manifesta-se nos quatro domínios do DSM-5-TR, com características específicas relacionadas ao contexto médico:
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Sintomas de Revivência (Intrusão): São involuntários e angustiantes. Incluem memórias recorrentes e intrusivas do acidente (cheiro de fumaça, sensação de fogo) ou dos procedimentos hospitalares (dor durante curativos, sons da UTI). Pesadelos são frequentes, podendo recriar o evento ou conter temas de aprisionamento e ameaça. Reações dissociativas (flashbacks) podem ocorrer durante procedimentos médicos subsequentes ou ao se deparar com estímulos sensoriais associados (cheiro de antisséptico, barulho de equipamentos). A re-experiência em crianças costuma ser observada em meio a brincadeiras repetitivas que tematizam o trauma (como "brincar de hospital" de forma rígida) ou pesadelos recorrentes cujo conteúdo pode não ser claramente relacionado ao evento.
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Esquiva Persistente: O paciente evita ativamente pensamentos, sentimentos, conversas ou atividades que lembrem o trauma. Isso pode se traduzir em recusa a retornar ao hospital para acompanhamento, evitação de cozinhas (se a queimadura foi por fogo), evitar filmes ou notícias sobre incêndios, ou relutância em olhar para as próprias cicatrizes. Pode haver um embotamento afetivo geral, com dificuldade de sentir emoções positivas.
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Alterações Cognitivas e de Humor Negativas: São comuns crenças negativas persistentes e exageradas sobre si mesmo, os outros ou o mundo ("sou culpado", "o mundo é completamente perigoso", "ninguém pode entender"). Memória prejudicada para aspectos importantes do trauma é frequente. Estados emocionais negativos persistentes (medo, horror, raiva, culpa, vergonha) dominam o humor. A culpa do sobrevivente é particularmente relevante: o paciente pode se culpar pelo acidente ("eu deveria ter sido mais cuidadoso") ou por ter sobrevivido quando outros não sobreviveram. Interesse por atividades significativas é reduzido, e o sentimento de distanciamento ou estranhamento em relação aos outros é comum.
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Alterações na Excitação e Reatividade: Manifestam-se como comportamento irritável ou explosões de raiva (comumente dirigidas à equipe ou familiares), comportamento imprudente ou autodestrutivo (como abuso de analgésicos), hipervigilância (estado constante de "alerta"), resposta de susto exagerada (ao toque inesperado, por exemplo), problemas de concentração e perturbação do sono (dificuldade em iniciar ou manter o sono, pesadelos). A dor crônica da queimadura e a prurido (coceira) cicatricial podem ser exacerbadas e perpetuar esse estado de hiperexcitação.
Especificadores Diagnósticos (DSM-5-TR):
- Com sintomas dissociativos: Presença de sintomas de despersonalização (sentir-se fora do próprio corpo) ou desrealização (sensação de que o ambiente é irreal) durante as revivências.
- Com expressão tardia: Se o critério completo é preenchido apenas após 6 meses do evento (comum quando a fase aguda médica demanda toda a energia psíquica).
Avaliação e diagnóstico
Entrevista Clínica: A anamnese deve abordar detalhadamente o evento da queimadura (circunstâncias, percepções sensoriais), o curso da hospitalização (procedimentos mais estressantes, experiências na UTI), e a evolução psicológica desde então. É crucial investigar os quatro clusters de sintomas de forma direta, mas empática. Deve-se perguntar sobre pensamentos intrusivos, pesadelas, comportamentos de evitação (ex.: esconder cicatrizes, evitar lugares), mudanças no humor e nas crenças, e sintomas de hiperexcitação. A avaliação da rede de apoio social, do funcionamento pré-mórbido e da presença de outros transtornos psiquiátricos é essencial para o prognóstico.
Exame do Estado Mental: Pode revelar afeto ansioso, labilidade emocional ou embotamento. O discurso pode ser interrompido quando se aborda o trauma. A cognição pode mostrar prejuízos na atenção e concentração. O paciente pode apresentar startle aumentado durante a consulta. É fundamental avaliar o risco suicida e a presença de ideação homicida, especialmente em contextos de culpa extrema ou raiva.
Escalas e Instrumentos Validados no Brasil:
- PCL-5 (Checklist for PTSD, versão para DSM-5): Auto-aplicável, de 20 itens, amplamente utilizado para rastreio e monitoramento.
- CAPS-5 (Clinician-Administered PTSD Scale for DSM-5): Entrevista semiestruturada padrão-ouro para diagnóstico.
- IES-R (Impact of Event Scale – Revised): Mede sintomas intrusivos, de evitação e de hiperexcitação.
- HADS (Hospital Anxiety and Depression Scale): Útil para rastrear comorbidades de ansiedade e depressão no ambiente hospitalar.
Exames Complementares: Não há exames laboratoriais ou de neuroimagem diagnósticos para TEPT. No entanto, podem ser indicados para descartar condições clínicas que mimetizem ou agravem os sintomas (ex.: distúrbios tireoidianos, deficiências vitamínicas) ou para avaliar comorbidades. A polissonografia pode ser útil na investigação de distúrbios do sono refratários.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Pontos de Diferenciação do TEPT |
|---|---|
| Transtorno Depressivo Maior | O humor deprimido e a anedonia são proeminentes, sem a necessidade de um evento traumático específico e os sintomas de revivência/evitação focados no trauma. |
| Transtorno de Ansiedade Generalizada | A preocupação é excessiva sobre múltiplos eventos da vida, não estando ligada à revivência de um trauma específico. |
| Transtorno de Estresse Agudo | Os sintomas são idênticos, mas a duração é entre 3 dias e 1 mês após o trauma. |
| Transtornos de Personalidade | Padrões persistentes de comportamento disfuncional desde o início da vida adulta, não desencadeados por um evento traumático específico. |
| Transtornos Psicóticos | Presença de sintomas positivos (delírios, alucinações) não relacionados ao conteúdo do trauma. |
| Lesão ou Doença Cerebral | Sintomas explicados por uma condição neurológica identificável (ex.: TCE durante o acidente). |
Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades: A alta taxa de comorbidade é a regra. Cerca de dois terços dos pacientes com TEPT têm pelo menos dois outros transtornos. Condições comuns incluem transtornos depressivos maiores, transtornos relacionados ao uso de substâncias (especialmente álcool e sedativos para "esquecer" ou dormir), outros transtornos de ansiedade (como pânico) e transtorno bipolar. A dor crônica e a insônia são comorbidades quase universais nessa população e devem ser tratadas de forma integrada. A armadilha é atribuir todos os sintomas à "reações normais" ao trauma físico, retardando o diagnóstico e o tratamento específico do TEPT.
Tratamento farmacológico
O tratamento farmacológico do TEPT visa reduzir os núcleos sintomáticos centrais (intrusão, hiperexcitação, evitação/embotamento), tratar comorbidades e melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida. É sempre coadjuvante à psicoterapia baseada em evidências.
Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:
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1ª Linha: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) e Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN).
- Sertralina e Paroxetina são os únicos ISRS com indicação formal para TEPT pela FDA e possuem forte evidência de eficácia. Venlafaxina (IRSN) também é considerada de primeira linha.
- Mecanismo: Aumentam a disponibilidade sináptica de serotonina (e noradrenalina, no caso dos IRSN), modulando circuitos de medo, humor e ansiedade.
- Dose e Titulação: Iniciar com dose baixa (ex.: sertralina 25 mg/dia, paroxetina 10 mg/dia) para minimizar agitação inicial. Titular semanalmente até a dose terapêutica (sertralina 50-200 mg/dia, paroxetina 20-50 mg/dia). A resposta plena pode levar 8-12 semanas.
- Monitoramento: Avaliar ativação/agitação inicial, náuseas, disfunção sexual, ganho de peso (paroxetina). Em idosos, monitorar síndrome da secreção inadequada de ADH (SIADH).
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2ª Linha: Outros Antidepressivos e Agentes Noradrenérgicos.
- Mirtazapina: Antagonista alfa-2, útil para pacientes com insônia e anorexia proeminentes. Efeito sedativo em baixas doses (7,5-15 mg).
- Bupropiona: Inibidor da recaptação de noradrenalina-dopamina. Não piora sintomas de TEPT, mas tem eficácia limitada para os sintomas nucleares. Pode ser útil para depressão comórbida com fadiga e anedonia.
- Trazodona: Usado principalmente em doses baixas (25-100 mg) como hipnótico para insônia refratária.
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3ª Linha e Adjuvantes:
- Antipsicóticos Atípicos de Baixa Dose: Risperidona (0,5-2 mg/dia) ou Quetiapina (25-150 mg/dia) podem ser adjuvantes para sintomas graves de hiperexcitação, irritabilidade, agressividade ou dissociação. O risco metabólico (ganho de peso, dislipidemia, diabetes) requer monitoramento.
- Prazosina: Antagonista alfa-1 adrenérgico central. É o agente com melhor evidência para redução de pesadelos e distúrbios do sono no TEPT. Dose inicial: 1 mg ao deitar, podendo titular até 10-15 mg.
- Benzodiazepínicos: NÃO são recomendados para tratamento de primeira linha do TEPT. Podem piorar sintomas depressivos, causar desinibição, tolerância e dependência, e prejudicar a extinção do medo na psicoterapia. Uso restrito a situações pontuais de extrema agitação.
Situações Especiais:
- Gestação/Lactação: A psicoterapia é o tratamento de escolha. Se farmacoterapia for imprescindível, sertralina é geralmente considerado o ISRS de menor risco. Decisão compartilhada obrigatória.
- Idosos: Iniciar com metade da dose, titulação mais lenta. Preferir sertralina (menor interação medicamentosa). Monitorar quedas, SIADH e interações.
- Comorbidade com Dor: IRSN (duloxetina, venlafaxina) e alguns anticonvulsivantes (gabapentina, pregabalina) podem ter ação dupla sobre dor neuropática e ansiedade.
- Contexto Brasileiro: A RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) do SUS inclui sertralina e fluoxetina (esta com evidência mais modesta para TEPT) para transtornos de ansiedade. O acesso a psicoterapias especializadas (TCC focada no trauma) via CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) é limitado e desigual. O psiquiatra de ligação no hospital geral é fundamental para iniciar o tratamento precoce e articular a continuidade do cuidado na rede.
Tratamento não farmacológico
As intervenções não farmacológicas são a base do tratamento do TEPT, com eficácia superior e mais duradoura que a farmacoterapia isolada.
Psicoterapias com Evidência:
- Terapia Cognitivo-Comportamental Focada no Trauma (TCC-T): É o padrão-ouro. Conforme detalhado no Compêndio, envolve componentes como psicoeducação, regulação emocional, exposição gradual (in vivo e na imaginação) a estímulos temidos (ex.: voltar ao local do acidente, olhar-se no espelho) e reestruturação cognitiva de crenças disfuncionais (ex.: culpa, desesperança). O modelo PRACTICE, citado para crianças, tem análogos para adultos. A exposição, elemento crítico, permite que o paciente elabore o evento traumático em um estado de segurança, promovendo a habituação e a extinção do medo.
- Terapia de Processamento Cognitivo (TPC): Derivada da TCC, foca especificamente na reestruturação de "pontos de estranhamento" (stuck points) – crenças sobre o trauma relacionadas a segurança, confiança, poder, estima e intimidade.
- Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares (EMDR): Envolve a evocação da memória traumática enquanto o paciente realiza movimentos oculares bilaterais guiados. A crença é que os sintomas são aliviados à medida que os pacientes elaboram o evento em um estado de relaxamento profundo. Tem evidência de eficácia comparável à TCC-T.
Terapia de Grupo e Familiar:
- Terapia de Grupo: É particularmente eficaz para sobreviventes de traumas compartilhados. As vantagens incluem o compartilhamento das experiências, a redução do estigma e da culpa ("não sou o único"), e o apoio mútuo. Foi bem-sucedida com sobreviventes de desastres catastróficos e pode ser adaptada para grupos de queimados.
- Terapia Familiar/Familiarização: A queimadura afeta toda a família. A psicoeducação familiar sobre o TEPT, suas manifestações e o tratamento é crucial. A terapia familiar pode ajudar a lidar com mudanças nos papéis, comunicação disfuncional e estresse do cuidador.
Intervenções Precoces no Contexto Hospitalar (Psiquiatria de Ligação):
A abordagem inicial, ainda na fase aguda da internação, deve seguir um modelo de intervenção em crise: apoio, encorajamento para discutir o evento (sem forçar) e educação sobre reações normais ao trauma. A técnica de Debriefing Psicológico Crítico Individual pode ser considerada: várias sessões imediatamente após o evento onde o paciente é encorajado a descrevê-lo em um ambiente de apoio, com psicoeducação sobre reações emocionais. Relatos empíricos sugerem utilidade, mas evidências controladas são limitadas. O foco deve ser na estabilização, no desenvolvimento de mecanismos de enfrentamento (relaxamento, grounding) e na prevenção do isolamento.
Procedimentos:
- Eletroconvulsoterapia (ECT): Não é tratamento de primeira linha para TEPT. Pode ser considerada em casos graves e refratários com depressão melancólica ou psicótica comórbida e alto risco.
- Estimulação Magnética Transcraniana (EMT): Protocolos de EMT repetitiva aplicada no córtex pré-frontal dorsolateral têm mostrado benefícios promissores para sintomas de TEPT, especialmente depressão e intrusões, mas ainda são considerados experimentais no Brasil para essa indicação.
Manejo clínico prático
Tomada de Decisão: A abordagem é multimodal desde o início. Em um paciente com sintomas clinicamente significativos de TEPT, deve-se iniciar psicoterapia especializada (TCC-T ou EMDR) e considerar farmacoterapia concomitante se os sintomas forem graves (ex.: insônia incapacitante, agitação marcante, depressão comórbida) ou se houver barreiras ao acesso imediato à psicoterapia. A escolha do fármaco deve considerar o perfil sintomático dominante (ISRS/IRSN para sintomas nucleares; prazosina para pesadelos; antipsicótico atípico adjuvante para irritabilidade extrema).
Monitoramento: Acompanhar a resposta a cada 2-4 semanas inicialmente, usando escalas como o PCL-5. Na farmacoterapia, espera-se melhora inicial da hiperexcitação e do sono nas primeiras semanas, com melhora das intrusões e da evitação após 2-3 meses. A psicoterapia pode inicialmente aumentar a ansiedade, o que deve ser explicado e normalizado.
Critérios de Remissão/Resposta: Redução ≥30% no escore do PCL-5 é considerada resposta clinicamente significativa. Remissão implica em ausência de critérios diagnósticos e retorno ao funcionamento pré-mórbido.
Manejo da Resistência Terapêutica: Após 12 semanas de tratamento adequado (dose terapêutica de ISRS + psicoterapia especializada) sem resposta, revisitar diagnóstico e adesão. Estratégias incluem: 1) Troca para outro ISRS/IRSN; 2) Adição de um adjuvante (prazosina para pesadelos, antipsicótico atípico para sintomas residuais); 3) Encaminhamento para serviço de referência em trauma.
Contexto Brasileiro (SUS):
- Hospital Geral: O psiquiatra de ligação deve identificar precocemente, iniciar psicoeducação e farmacoterapia se indicado, e articular alta com referência.
- CAPS: É a porta de entrada ambulatorial. Nem todos os CAPS têm grupos ou terapeutas especializados em trauma. O papel do psiquiatra no CAPS é manejar a farmacoterapia e, na falta de psicoterapia especializada, fornecer intervenções de suporte e psicoeducação estruturada.
- Acesso a Medicamentos: Sertralina e fluoxetina estão disponíveis na farmácia básica. Outros medicamentos (venlafaxina, mirtazapina, prazosina, antipsicóticos atípicos) podem exigir solicitação via processos de dispensação excepcional, variando por município.
- ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria): Publica diretrizes e promove educação continuada, sendo um recurso para atualização dos profissionais.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente: O paciente sente-se aprisionado pelo trauma. Sua mente é invadida por imagens e sensações aterrorizantes. O mundo passa a ser percebido como perigoso de forma constante. A evitação, inicialmente aliviadora, torna-se uma prisão que limita a vida. A culpa e a vergonha são cargas pesadas. A dor física e as cicatrizes são lembretes corporais permanentes do evento. A principal queixa pode ser a insônia ou a irritabilidade, nem sempre conectando-a ao trauma.
Psicoeducação: É a primeira e mais poderosa intervenção. Explicar ao paciente e à família que:
- "O que você está sentindo é uma reação normal a um evento anormal. São sintomas de TEPT, não é ‘fraqueza’ ou ‘loucura’."
- Descrever os quatro clusters de sintomas, normalizando cada um.
- Esclarecer que o tratamento é eficaz e que a recuperação é possível.
- Enfatizar a importância de não se isolar e de aderir ao tratamento.
Impacto Funcional: O TEPT prejudica todas as esferas: retorno ao trabalho (evitação, dificuldade de concentração), relacionamentos (irritabilidade, embotamento), autocuidado (negligência com fisioterapia, uso de roupas compressivas) e lazer. A qualidade de vida é profundamente afetada.
Adesão ao Tratamento:
- Barreiras: Estigma, medo de reviver o trauma na terapia, efeitos colaterais dos medicamentos, desesperança ("nada vai mudar"), dificuldades logísticas (transporte, custo).
- Estratégias: Aliança terapêutica sólida e empática. Explicar realisticamente os benefícios e os efeitos colaterais. Envolver a família no suporte. No SUS, buscar agendamentos em horários acessíveis e articular com assistência social quando necessário.
Perguntas frequentes
1. É normal eu ainda me sentir assim meses depois da queimadura?
É comum ter reações emocionais fortes após um trauma grave. No entanto, quando sintomas como pesadelos, evitação constante, estado de alerta permanente e mudanças negativas no humor persistem por mais de um mês e causam sofrimento significativo, isso configura o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), uma condição de saúde que merece tratamento especializado. Não é uma "fraqueza", mas uma reação do cérebro e do corpo a um evento extremo.
2. Falar sobre o acidente não vai piorar tudo?
Pode ser muito difícil no início. No entanto, em um ambiente terapêutico seguro e controlado, falar sobre e processar a memória do trauma é a base da cura. Técnicas como a Terapia Cognitivo-Comportamental Focada no Trauma ajudam você a enfrentar essas memórias de forma gradual, para que elas percam o poder de causar tanto sofrimento. O terapeuta nunca forçará você a reviver algo para o qual não está preparado.
3. Remédios para TEPT viciam? Vou ter que tomar para sempre?
Os medicamentos de primeira linha para TEPT, como a sertralina e a paroxetina, não causam dependência ou vício. Eles são antidepressivos que ajudam a regular a química cerebral. A duração do tratamento varia. Muitas pessoas usam a medicação por 6 a 12 meses após a melhora dos sintomas, e depois a redução é feita lentamente sob supervisão médica. O objetivo é que a psicoterapia forneça ferramentas duradouras, permitindo a descontinuação da medicação no futuro.
4. Meu filho queimado tem pesadelos e está muito agitado. Isso pode ser TEPT em criança?
Sim. Crianças são ainda mais vulneráveis ao TEPT após queimaduras. Os sintomas podem se manifestar de forma diferente: através de brincadeiras repetitivas sobre o tema (hospital, fogo), regressão (voltar a fazer xixi na cama), medos irracionais não diretamente ligados ao evento, queixas físicas (dor de barriga) e pesadelos. A taxa de TEPT em crianças queimadas é muito alta (cerca de 80%), portanto, avaliação por um psiquiatra da infância e adolescência é crucial.
5. O tratamento pelo SUS é eficaz?
O SUS oferece tratamento para TEPT. A medicação essencial (sertralina) está disponível. O maior desafio é o acesso regular e qualificado à psicoterapia especializada (TCC focada no trauma), que é a base do tratamento. Os CAPS são a porta de entrada, e a persistência na busca por atendimento e a articulação entre a equipe do hospital e a rede ambulatorial são fundamentais para um cuidado contínuo.
6. Além de terapia e remédio, o que mais pode ajudar?
Estratégias de autocuidado são coadjuvantes importantes: técnicas de respiração e grounding para momentos de ansiedade; retomar atividades prazerosas de forma gradual, mesmo que sem vontade inicial; atividade física adaptada, que ajuda a regular o humor e a ansiedade; e conectar-se com outros sobreviventes (grupos de apoio), pois reduz o sentimento de solidão e estigma.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Fonte principal dos trechos citados: pp. 453, 454, 460, 461, 462, 1239, 1241).
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Cohen, J.A.; Mannarino, A.P.; Deblinger, E. Treating Trauma and Traumatic Grief in Children and Adolescents. 2nd ed. New York: Guilford Press, 2017.
- Sociedade Brasileira de Queimaduras. Diretrizes para o Tratamento de Queimaduras. São Paulo: SBQ, [ano da última atualização]. (Para contexto específico do manejo multidisciplinar).
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Diretrizes para o Diagnóstico e Tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático. São Paulo: ABP, [ano da publicação mais recente].
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.