O que é e para que serve?
A vigabatrina é um anticonvulsivante — ou seja, um remédio usado para controlar crises epilépticas. Ela não é um antidepressivo nem um calmante: sua função específica é ajudar o cérebro a não “disparar” de forma descontrolada, que é o que acontece durante uma convulsão.
No Brasil, ela é comercializada principalmente com o nome Sabril®, em comprimidos de 500 mg e também em sachês de pó para dissolver em água (muito usados em bebês e crianças pequenas).
Ela tem dois usos principais: o primeiro é como tratamento complementar (junto com outros remédios) para adultos e crianças acima de 2 anos que têm crises epilépticas parciais complexas — um tipo de crise que não respondeu bem a outros tratamentos. O segundo uso é como tratamento único para bebês entre 1 mês e 2 anos que têm uma condição chamada espasmos infantis (também conhecida como síndrome de West), especialmente quando associada a uma doença chamada esclerose tuberosa. Nesses bebês, a vigabatrina costuma ser a primeira escolha.
Como ele age no seu cérebro?
Pense no seu cérebro como uma cidade cheia de carros (os sinais elétricos dos neurônios). Para que o trânsito funcione bem, existem semáforos que controlam o fluxo — acelerando quando precisa e freando quando está ficando caótico demais. Na epilepsia, esses semáforos de “frear” não funcionam direito, e o trânsito vira um caos: é aí que acontece a crise convulsiva.
O principal “semáforo de frear” do cérebro é uma substância chamada GABA (ácido gama-aminobutírico). Quando o GABA está em quantidade suficiente, ele acalma os neurônios e evita que eles disparem todos ao mesmo tempo de forma descontrolada.
O problema é que o próprio cérebro vai destruindo o GABA naturalmente, usando uma enzima (uma espécie de “tesoura química”) chamada GABA-transaminase. A vigabatrina age exatamente aqui: ela bloqueia essa tesoura de forma permanente, impedindo que o GABA seja destruído. Com isso, o GABA se acumula no cérebro, os semáforos de “frear” ficam mais fortes, e as crises ficam mais difíceis de acontecer.
Um detalhe importante: como esse bloqueio é permanente, o efeito do remédio não depende só de quanto dele está circulando no sangue agora — depende de quanto tempo o cérebro leva para fabricar novas “tesouras”. Por isso, o efeito dura mais do que o tempo que o remédio fica no organismo.
Quando começa a fazer efeito?
A vigabatrina não é um remédio de efeito imediato como um analgésico. O controle das crises tende a melhorar de forma gradual, ao longo de semanas de uso regular.
Pense assim: é como fortalecer uma barragem. Você não constrói uma barragem resistente em um dia — cada dose é como adicionar mais um bloco. Com o tempo, a estrutura fica sólida o suficiente para segurar a pressão.
Nas primeiras semanas, é possível que você (ou seu filho) ainda tenha crises. Isso não significa que o remédio não está funcionando — significa que a barragem ainda está sendo construída. O médico vai acompanhar a resposta e, se necessário, ajustar a dose. O importante é não interromper o uso por conta própria achando que não está adiantando.
Como tomar corretamente
Forma de tomar: Os comprimidos podem ser tomados com ou sem comida. Se você tomar junto com uma refeição, o remédio pode demorar um pouco mais para ser absorvido, mas a quantidade total que chega ao organismo é a mesma — então não há problema. O sachê de pó deve ser dissolvido em água fria ou em temperatura ambiente antes de dar para o bebê.
Horário: Geralmente é tomado duas vezes ao dia, de manhã e à noite, para manter um nível estável no organismo. Siga exatamente o horário que seu médico indicou.
Doses habituais:
– Em adultos, as doses costumam variar entre 1 g e 3 g por dia, divididas em duas tomadas.
– Em crianças e bebês, a dose é calculada pelo peso, e o médico faz esse cálculo individualmente.
Esqueceu uma dose? Tome assim que lembrar — mas se já estiver perto do horário da próxima dose, pule a esquecida e continue normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.
Não pare por conta própria. Interromper a vigabatrina de repente pode provocar um aumento nas crises. Se precisar parar, o médico vai orientar uma redução gradual e segura.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Sonolência e cansaço: A vigabatrina aumenta o GABA no cérebro, que é justamente a substância que “freia” a atividade cerebral. Esse freio não age só nas crises — ele também deixa o cérebro um pouco mais “desacelerado” de forma geral, causando sono e fadiga. Costuma melhorar com o tempo. Evite dirigir ou operar máquinas pesadas até saber como o remédio te afeta.
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Tontura e dor de cabeça: Também relacionadas ao efeito geral de “desaceleração” do sistema nervoso. Geralmente são leves e passam nas primeiras semanas.
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Visão embaçada e tremores: Efeitos que aparecem especialmente em doses mais altas. Se a visão embaçada for intensa ou persistente, avise o médico.
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Ganho de peso: Pode acontecer, especialmente em crianças. O mecanismo exato não é completamente claro, mas parece estar relacionado a alterações no metabolismo causadas pelo aumento do GABA. Vale ficar de olho na alimentação e manter atividade física quando possível.
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Náusea e diarreia: Efeitos no sistema digestivo que costumam aparecer no início do tratamento e melhoram com o tempo. Tomar com um pouco de comida pode ajudar.
Menos comuns
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Depressão e alterações de humor: O GABA em excesso pode, em algumas pessoas, afetar o humor de forma negativa. Se você notar tristeza persistente, falta de interesse nas coisas ou mudanças de comportamento, fale com seu médico.
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Formigamento ou dormência nas mãos e pés (neuropatia periférica): Acontece porque o remédio pode afetar os nervos que ficam fora do cérebro e da medula. Se sentir isso, avise o médico — pode ser necessário reavaliar o tratamento.
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Anemia: A vigabatrina pode reduzir levemente a quantidade de glóbulos vermelhos no sangue. Por isso, exames de sangue periódicos fazem parte do acompanhamento.
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Inchaço (edema): Alguns pacientes notam inchaço nas pernas ou nos pés. Se aparecer de forma intensa, avise o médico.
Raros mas importantes — vá ao médico imediatamente
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⚠️ Perda de campo visual (visão em túnel): Este é o efeito colateral mais sério da vigabatrina e merece atenção especial. Com o uso prolongado, o remédio pode danificar a retina (a “tela” do olho que capta as imagens) de forma permanente e irreversível, reduzindo a visão periférica — aquela visão das laterais. Em casos graves, a pessoa passa a enxergar como se estivesse olhando por dentro de um cano (visão em túnel). Isso pode acontecer em 30% ou mais dos pacientes adultos que usam o remédio por muito tempo. Por isso, exames de campo visual regulares são obrigatórios durante o tratamento — geralmente a cada 3 meses. Se notar qualquer mudança na visão, avise o médico imediatamente. Não espere a próxima consulta.
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Pensamentos de se machucar ou suicídio: Anticonvulsivantes em geral podem, raramente, aumentar pensamentos desse tipo. Se isso acontecer, procure atendimento imediatamente ou ligue para o CVV (188).
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Alterações em exames de imagem do cérebro (em bebês): Em bebês tratados para espasmos infantis, podem aparecer alterações em ressonâncias magnéticas do cérebro. Por isso, o acompanhamento com imagem é parte do protocolo de tratamento nessa faixa etária.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
Sonolência, tontura e náusea leves no começo do tratamento são esperadas e costumam melhorar sozinhas. Você não precisa parar o remédio por causa delas — mas avise o médico na próxima consulta para que ele saiba.
Ligue para o seu médico se:
– A sonolência for tão intensa que atrapalhe sua vida diária
– Você notar qualquer mudança na visão — mesmo que pareça pequena
– Aparecer formigamento, dormência ou fraqueza nos braços ou pernas
– O humor mudar muito (tristeza, irritabilidade, ansiedade intensa)
– Você tiver mais crises do que antes de começar o remédio
Vá a uma UPA ou emergência se:
– Tiver uma crise convulsiva prolongada (mais de 5 minutos) ou várias crises seguidas
– Tiver pensamentos de se machucar
– Apresentar confusão mental intensa, dificuldade para respirar ou desmaio
O que NÃO fazer: Não pare o remédio de repente por conta própria, mesmo que esteja se sentindo mal. A interrupção abrupta pode piorar as crises. Se precisar parar, o médico vai orientar como fazer isso com segurança, reduzindo a dose aos poucos.
Cuidados importantes
Visão — o cuidado mais importante: Como explicado acima, a vigabatrina pode causar perda permanente do campo visual. Por isso, antes de começar o tratamento e a cada 3 meses, você precisa fazer um exame chamado campimetria (ou perimetria), que avalia se a visão periférica está sendo afetada. Não pule esses exames — eles existem para proteger você.
Rins: A vigabatrina é eliminada quase toda pelos rins (cerca de 95% sai pela urina). Se você tiver algum problema renal, o médico pode precisar ajustar a dose, porque o remédio pode se acumular no organismo.
Idosos: Com o envelhecimento, os rins funcionam mais devagar, então o remédio fica mais tempo no corpo. O médico costuma usar doses menores e fazer um acompanhamento mais próximo.
Gravidez: A vigabatrina pode causar malformações em animais. Em humanos, os dados ainda são limitados, mas o risco existe. Se você está grávida ou planejando engravidar, converse com seu médico antes de qualquer decisão — nunca pare o remédio por conta própria, pois crises durante a gravidez também são perigosas.
Amamentação: A vigabatrina passa para o leite materno, provavelmente em pequenas quantidades. Converse com seu médico sobre os riscos e benefícios no seu caso específico.
Interações com outros remédios:
– A vigabatrina pode reduzir o nível de fenitoína (outro anticonvulsivante) no sangue — o médico pode precisar ajustar a dose da fenitoína.
– Pode aumentar levemente o efeito do clonazepam, potencializando seus efeitos colaterais.
– Com outros anticonvulsivantes comuns (fenobarbital, valproato, carbamazepina), não há interações significativas.
Exames de sangue: A vigabatrina interfere em exames de fígado (ALT e AST) — ela pode fazer esses valores aparecerem falsamente baixos ou até zerados. Avise qualquer médico ou laboratório que você usa vigabatrina antes de fazer exames de sangue, para que os resultados sejam interpretados corretamente.
Álcool: Evite o consumo de álcool durante o tratamento. O álcool também deprime o sistema nervoso central, e combinado com a vigabatrina pode aumentar muito a sonolência e o risco de quedas e acidentes.
Perguntas frequentes
Vou ficar dependente da vigabatrina?
Não, a vigabatrina não causa dependência química nem vício. Mas isso não significa que você pode parar quando quiser — o remédio precisa ser retirado gradualmente para não provocar um aumento nas crises. A diferença é que a parada gradual é por segurança neurológica, não porque o corpo ficou “viciado”.
Posso beber álcool enquanto tomo esse remédio?
Não é recomendado. O álcool e a vigabatrina têm efeitos parecidos no sistema nervoso — os dois “freiam” o cérebro. Juntos, podem causar sonolência excessiva, tontura intensa e aumentar o risco de quedas e acidentes. Se for a uma ocasião especial, converse com seu médico antes.
Por que preciso fazer exame de vista com tanta frequência?
Porque a vigabatrina pode danificar a retina de forma silenciosa — ou seja, você pode estar perdendo visão periférica sem perceber no dia a dia. O exame de campimetria detecta essa perda antes que ela se torne grave. É uma proteção para você, não uma burocracia.
Posso parar de tomar quando as crises pararem?
Não por conta própria. A ausência de crises é sinal de que o remédio está funcionando — não de que você não precisa mais dele. A decisão de reduzir ou parar o tratamento é do médico, baseada em vários fatores, e sempre feita de forma gradual.
O remédio vai afetar minha memória ou minha inteligência?
A sonolência e a dificuldade de concentração podem aparecer, especialmente no início. Mas não há evidências de que a vigabatrina cause dano permanente à memória ou à inteligência em adultos. Se você notar que está com muita dificuldade para se concentrar no trabalho ou nos estudos, avise o médico — pode ser necessário ajustar a dose.
Referências
- Bula do Sabril® (vigabatrina) — ANVISA/Sanofi Brasil. Disponível em: bulario.anvisa.gov.br
- FDA Label — VIGADRONE (vigabatrin). U.S. Food and Drug Administration, 2023.
- Stahl SM. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
- Clínica Psiquiátrica USP, 2ª ed., Volume 3. Barueri: Manole, 2021.
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.