Selegilina

O que é e para que serve?

A selegilina é um medicamento que pertence a uma classe chamada inibidores da MAO (você vai entender o que isso significa na próxima seção). Dependendo da dose e da forma como é usada, ela pode funcionar como antidepressivo ou como medicamento para a doença de Parkinson.

No Brasil, ela é encontrada principalmente nas formas de cápsulas ou comprimidos orais, com os nomes comerciais Jumex® e Niar®, além de versões genéricas. Nos Estados Unidos existe também um adesivo de pele (patch transdérmico) chamado EMSAM®, mas essa apresentação não é comercializada no Brasil.

As situações em que ela costuma ser prescrita incluem: depressão (especialmente quando outros antidepressivos não funcionaram bem), doença de Parkinson (geralmente junto com outros medicamentos como a levodopa) e, em alguns casos, doença de Alzheimer em estágio leve a moderado. Se você recebeu essa prescrição, provavelmente se encaixa em uma dessas situações — e seu médico escolheu a selegilina por uma razão específica para o seu caso.


Como ele age no seu cérebro?

Imagine que os neurônios do seu cérebro são vizinhos que se comunicam jogando bilhetinhos pela janela. Esses bilhetinhos são substâncias chamadas neurotransmissores — como a dopamina, a serotonina e a noradrenalina. Eles são responsáveis pelo seu humor, pela sua energia e pelo controle dos movimentos.

Agora imagine que existe um zelador muito ansioso no corredor, chamado MAO (monoaminoxidase), cuja única função é recolher e destruir esses bilhetinhos antes que eles cheguem ao destino. Em algumas pessoas, esse zelador trabalha rápido demais — e os bilhetinhos somem antes de cumprir o papel deles. É aí que entram os problemas: humor baixo, falta de energia, dificuldade de movimento.

A selegilina age bloqueando esse zelador, especialmente um tipo chamado MAO-B. Com o zelador fora de ação, os bilhetinhos — principalmente a dopamina — ficam circulando por mais tempo e conseguem fazer seu trabalho direito. No Parkinson, isso ajuda a melhorar o controle dos movimentos. Em doses mais altas, a selegilina também bloqueia outro tipo de zelador (o MAO-A), o que amplia o efeito e ajuda no tratamento da depressão.


Quando começa a fazer efeito?

Depende do motivo pelo qual você está tomando.

Para a doença de Parkinson, alguns pacientes percebem uma melhora nos movimentos em alguns dias a poucas semanas. Mas o efeito completo pode levar mais tempo para se consolidar.

Para a depressão, o processo é mais parecido com plantar uma semente: você rega todos os dias, mas a planta não aparece da noite para o dia. O cérebro precisa de tempo para se adaptar ao novo equilíbrio de neurotransmissores. Em geral, os primeiros sinais de melhora aparecem entre 2 a 4 semanas, mas o efeito pleno pode levar até 6 a 8 semanas.

Nas primeiras semanas, é normal não sentir muita diferença — ou até sentir alguns efeitos colaterais antes de sentir o benefício. Isso não significa que o remédio não está funcionando. Significa que o processo está em andamento. Avise seu médico sobre qualquer coisa que te incomode nesse período, mas não abandone o tratamento por conta própria.


Como tomar corretamente

Horário: A selegilina oral é geralmente tomada de manhã e ao meio-dia (com o café da manhã e o almoço). Evita-se tomar à tarde ou à noite porque ela pode causar insônia em algumas pessoas — o cérebro fica mais “ligado” do que o necessário para dormir.

Com ou sem comida: Os comprimidos e cápsulas comuns devem ser tomados junto com as refeições. Isso ajuda a absorção e reduz o desconforto no estômago.

Se esquecer uma dose: Tome assim que lembrar, desde que ainda seja cedo no dia. Se já for tarde da tarde ou noite, pule essa dose e retome normalmente no dia seguinte. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.

Doses habituais: Para o Parkinson, a dose costuma ser de 5 a 10 mg por dia, dividida em duas tomadas. Para depressão, as doses podem ser diferentes — siga exatamente o que seu médico indicou.

Não pare por conta própria. Interromper a selegilina de repente pode fazer os sintomas voltarem. Se quiser parar ou mudar o tratamento, converse com seu médico antes.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Náusea e desconforto no estômago: A selegilina pode irritar um pouco o trato digestivo, especialmente no início. Tomar com comida costuma resolver. Tende a melhorar nas primeiras semanas.

  • Insônia ou dificuldade para dormir: Como o remédio aumenta a dopamina e outros neurotransmissores que deixam o cérebro mais ativo, ele pode “agitar” o sono. Por isso a recomendação de tomar só de manhã e ao meio-dia — nunca à noite.

  • Dor de cabeça: Acontece em alguns pacientes no início do tratamento, enquanto o cérebro se ajusta. Geralmente passa sozinha em alguns dias.

  • Tontura: Pode ocorrer, especialmente ao levantar rápido da cadeira ou da cama (isso se chama hipotensão postural — a pressão cai um pouco quando você muda de posição). Levante devagar e segure em algo se precisar.

  • Boca seca: Menos comum com a selegilina do que com outros antidepressivos, mas pode acontecer. Beber água com frequência e mascar chiclete sem açúcar ajuda.

Menos comuns

  • Agitação ou ansiedade: Algumas pessoas ficam um pouco mais “aceleradas” no início. Isso acontece porque o aumento de dopamina e noradrenalina pode deixar o sistema nervoso mais estimulado do que o esperado. Avise seu médico se isso for intenso.

  • Movimentos involuntários (no Parkinson): Quando a selegilina é usada junto com levodopa, a combinação pode ser forte demais e causar movimentos involuntários (chamados de discinesias — tipo um tremor ou agitação que você não controla). Isso pode indicar que a dose da levodopa precisa ser ajustada.

  • Queda de pressão ao ficar em pé: Mais comum em idosos. Pode causar tontura ou sensação de desmaio ao levantar. Hidratação e cuidado ao mudar de posição ajudam.

  • Alterações no humor: Em casos raros, pode ocorrer uma ativação de sintomas de euforia ou comportamento impulsivo — especialmente em pessoas que têm tendência ao transtorno bipolar sem saber. Se você notar que está se sentindo “eufórico demais”, dormindo pouco mas com muita energia, ou tomando decisões impulsivas, avise seu médico.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Crise hipertensiva (pressão muito alta de repente): Esse é o efeito mais sério associado à selegilina. Acontece principalmente quando o remédio é combinado com certos alimentos ricos em tiramina (queijos envelhecidos, embutidos, vinho tinto, entre outros) ou com medicamentos proibidos. Os sinais são: dor de cabeça forte e repentina na nuca, pressão muito alta, batimento cardíaco acelerado, suor excessivo, visão turva. Se isso acontecer, vá a uma emergência imediatamente.

  • Síndrome serotoninérgica: Se a selegilina for combinada com certos antidepressivos (como fluoxetina, sertralina ou outros da mesma família), pode ocorrer um excesso perigoso de serotonina no cérebro. Os sinais incluem: agitação extrema, confusão mental, tremores, febre, rigidez muscular. É uma emergência médica.

  • Pensamentos de se machucar: Como qualquer antidepressivo, a selegilina pode, raramente, aumentar pensamentos de autolesão nas primeiras semanas de tratamento — especialmente em jovens. Se isso acontecer, procure ajuda imediatamente.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

Para efeitos leves (náusea, dor de cabeça, insônia leve): espere alguns dias — muitos somem sozinhos enquanto o corpo se adapta. Tomar com comida e ajustar o horário da dose costuma ajudar bastante.

Ligue para o seu médico se: os efeitos colaterais estiverem atrapalhando muito sua rotina, se você estiver se sentindo muito agitado ou ansioso, se notar movimentos involuntários, ou se tiver qualquer dúvida sobre o que está sentindo.

Vá a uma UPA ou emergência se: sentir dor de cabeça muito forte e repentina, pressão alta, febre com rigidez muscular, confusão mental intensa, ou qualquer sintoma que pareça grave e fora do comum.

O que NÃO fazer: não pare o remédio de repente sem falar com seu médico. Não aumente a dose por conta própria achando que vai melhorar mais rápido — doses altas de selegilina têm riscos sérios. E não combine com outros medicamentos sem avisar seu médico que você está tomando selegilina.


Cuidados importantes

🧀 Alimentos com tiramina — atenção especial:
A tiramina é uma substância presente em alguns alimentos que normalmente é destruída pela MAO no intestino. Como a selegilina bloqueia essa enzima, a tiramina pode se acumular e causar uma subida perigosa na pressão arterial. Nas doses baixas usadas para o Parkinson (até 10 mg/dia), o risco é menor, mas existe. Em doses mais altas (usadas para depressão), o cuidado deve ser maior.

Alimentos a evitar ou consumir com moderação:
– Queijos envelhecidos (parmesão, gorgonzola, brie, camembert)
– Embutidos e carnes curadas (salame, presunto cru, linguiça defumada)
– Vinho tinto, cerveja escura, bebidas fermentadas
– Molho de soja, extrato de levedura (Marmite)
– Fígado de galinha ou boi
– Peixe defumado ou em conserva

🍺 Álcool: Evite. O álcool pode interagir com a selegilina, piorar efeitos colaterais e aumentar o risco de tontura e quedas de pressão.

💊 Medicamentos que NÃO podem ser combinados com selegilina:
– Antidepressivos da família dos ISRSs (fluoxetina, sertralina, paroxetina, escitalopram) — risco de síndrome serotoninérgica grave
– Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina, imipramina)
– Tramadol e meperidina (analgésicos opioides) — combinação perigosa e contraindicada
– Outros inibidores da MAO
– Descongestionantes nasais com efedrina ou pseudoefedrina (presentes em alguns remédios para gripe)
– Anfetaminas e estimulantes

Sempre avise qualquer médico, dentista ou farmacêutico que você está tomando selegilina antes de receber qualquer outro medicamento.

🤰 Gravidez e amamentação: A selegilina não é recomendada durante a gravidez nem durante a amamentação. Se você está grávida, planeja engravidar ou está amamentando, converse com seu médico para avaliar as opções mais seguras para o seu caso.

👴 Idosos: Podem ser mais sensíveis aos efeitos da selegilina, especialmente à tontura e às quedas de pressão ao levantar. Cuidado redobrado ao mudar de posição.

🫀 Fígado: Em doses altas e uso prolongado, a selegilina pode alterar enzimas do fígado. Seu médico pode pedir exames de sangue periodicamente para monitorar isso.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente da selegilina?
Não no sentido de vício ou compulsão. Mas como qualquer medicamento que age no cérebro, o organismo se adapta à presença dele — por isso não se deve parar de repente. A retirada deve ser feita gradualmente, com orientação médica.

Posso beber álcool enquanto tomo selegilina?
Não é recomendado. O álcool pode potencializar a tontura, aumentar o risco de quedas de pressão e interferir no efeito do medicamento. Se for a uma ocasião especial, converse antes com seu médico.

Posso comer queijo e tomar vinho normalmente?
Com cuidado. Nas doses baixas usadas para o Parkinson, o risco é menor, mas ainda existe. Nas doses mais altas usadas para depressão, a restrição é mais séria. Seu médico vai te orientar sobre o nível de restrição necessário para a sua dose específica.

Posso parar de tomar quando me sentir melhor?
Não por conta própria. Sentir-se melhor é sinal de que o remédio está funcionando — não de que você não precisa mais dele. Parar cedo demais pode fazer os sintomas voltarem. A decisão de quando e como parar deve ser tomada junto com seu médico.

A selegilina vai me deixar “zumbi” ou mudar minha personalidade?
Não. A selegilina não embota emoções nem muda quem você é. O objetivo dela é justamente o contrário: restaurar um equilíbrio químico para que você consiga ser você mesmo com mais qualidade de vida. Algumas pessoas relatam até mais energia e disposição com o tempo.


Referências

  • Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª edição. Artmed, 2014.
  • Bula do medicamento Jumex® (selegilina) — registrada na ANVISA. Disponível em: bulario.anvisa.gov.br
  • National Library of Medicine — PubChem: Selegiline. Disponível em: pubchem.ncbi.nlm.nih.gov

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

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